Resumo:
Este relato tem como objetivo sistematizar a experiência da disciplina “Tópicos especiais em Serviço Social: territórios e fronteiras”, do Programa de Pós-Graduação em Política Social (PPGPS) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), ministrada no semestre letivo 2024/2. Para tal, buscamos analisar as dinâmicas de expropriação, fronteiras, território, mobilidade, políticas públicas e poder, considerando a formação histórica brasileira e a particularidade de Mato Grosso.
Palavras-chave:
Territórios; Fronteiras; Pós-graduação
Abstract:
This report aims to systematize the experience of the course “Special topics in Social Work: territories and borders” of the Postgraduate Program in Social Politc (PPGPS) at the Federal University of Mato Grosso (UFMT), taught in the academic semester 2024/2. To this end, we seek to analyze the dynamics of expropriation, borders, territory, mobility, public policies, and power, considering Brazil’s historical formation and the particularity of Mato Grosso.
Keywords:
Territories; Borders; Postgraduate
Introdução
O presente relato tem como objetivo apresentar experiências decorrentes da disciplina “Tópicos especiais em Serviço Social: territórios e fronteiras”, ministrada no semestre letivo 2024/2, no Programa de Pós-Graduação em Política Social (PPGPS), da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Trata-se, ainda, de um exercício de sistematização do trabalho docente que, por vezes, não assume centralidade, especialmente considerando as demandas cotidianas. Essa síntese parte de um movimento dialógico entre professoras e discentes, que visa possibilitar reflexões e conhecimentos que subsidiem suas pesquisas e também as suas práticas profissionais.
O PPGPS, vinculado ao Departamento de Serviço Social, foi aprovado pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Consepe) da UFMT e pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) em 2008, tendo suas atividades iniciadas em março de 2009. Esse Programa emerge de demanda para profissionais, especialmente das regiões Norte e Centro-Oeste, que buscam formação de pós-graduação em nível stricto sensu na área da Política Social. Além de qualificar Recursos Humanos, o Programa pretende “[...] contribuir para a formação de pesquisadoras/es e o aperfeiçoamento da Docência, assim como a qualificação do exercício profissional no âmbito das instituições responsáveis pela implementação das políticas públicas e sociais necessárias”.1
No ano de 2023, foi aprovado o doutorado em Política Social, tendo a primeira turma iniciado em 2024. Atualmente, o PPGPS conta com 23 docentes credenciados(as) (das áreas de Sociologia, Economia, Saúde Coletiva, Psicologia e Serviço Social) e possui duas linhas de pesquisa: (1) Política Social e Direitos Sociais; e (2) Trabalho, Questão Social e Serviço Social. Ainda, possui três grupos de pesquisa: (1) Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre as Relações de Gênero (Nuepom); (2) Política Social, Direitos Sociais e Serviço Social; e (3) Trabalho e Sociabilidade. Desde a sua criação, o Programa tem diversas pesquisas publicadas em eventos acadêmicos e congressos nacionais e internacionais, o que evidencia sua relevância não apenas na região Centro-Oeste, mas também em todo o território nacional.
A ampliação da formação de discentes em nível de doutorado e o retorno de docentes com teses aprovadas sobre temáticas relacionadas à Questão Agrária e Migração contribuíram para a criação da disciplina “Tópicos especiais em Serviço Social: territórios e fronteiras”, que teve como ementa: “Expropriação, fronteiras, território, mobilidades e poder, particularidade de Mato Grosso e da sua formação. Povos e comunidades tradicionais. Geopolítica e a questão da migração. Políticas públicas e territorialidades”.2 A discussão proposta e a experiência decorrente dessa disciplina assumem relevância, considerando, especialmente, o contexto do Centro-Oeste brasileiro e, em particular, a realidade de Mato Grosso. Esse estado é marcado por expropriação, concentração de terras, divisão territorial com Mato Grosso do Sul, agronegócio, monocultivo, mineração, extrativismo e desmatamento em larga escala. Essas e outras características carregam os traços da formação sócio-histórica brasileira, que se apresenta pelos seus vieses coronelistas, patriarcais e racistas, que asseveram as condições dos(as) trabalhadores(as) que aqui estão. Apesar desse cenário, não se podem desconsiderar a resistência e os saberes dos(as) camponeses(as), dos povos originários e das comunidades tradicionais, que buscam manter “em pé” a Amazônia, o Cerrado e o Pantanal; como ainda as experiências agroecológicas, de trabalho associado, a organização de trabalhadores(as) e os movimentos sociais presentes também nesse território.
Nesse sentido, organizamos este relato em dois momentos, sendo o primeiro de apresentação da disciplina, elencando os principais objetivos, metodologia e uma breve exposição do estado de Mato Grosso como lócus articulador dos debates promovidos. Entendemos que apresentar, inicialmente, o chão onde pisamos nos possibilita indicar os caminhos para a realização dessa disciplina. No segundo momento, elencamos discussões sobre as principais categorias abordadas, tais como expropriação, poder, espaço, território e mobilidade, pautados nas referências teóricas escolhidas para o diálogo em sala de aula. Por fim, apresentamos as considerações finais.
1. “Sou mato rasteiro e trago notícias de cá”:3 sobre o chão em que pisamos
A discussão inicial da propositura da disciplina analisada ocorreu no âmbito do planejamento docente do Programa de Pós-Graduação em Política Social (PPGPS), realizado no primeiro semestre de 2024. Naquele momento, com vista a integrar os aportes teóricos e empíricos decorrentes das investigações desenvolvidas pelas professoras, deliberou-se pela oferta da disciplina “Tópicos especiais em Serviço Social: territórios e fronteiras”, no semestre letivo 2024/2, sob a responsabilidade das docentes que assinam o presente relato.
A ementa construída para a disciplina contemplou os seguintes eixos temáticos: expropriação, fronteiras, território, mobilidades e poder, com ênfase nas especificidades históricas e socioespaciais do estado de Mato Grosso; povos e comunidades tradicionais; geopolítica e dinâmicas migratórias; políticas públicas e territorialidades.
Importa situar esse debate considerando a região Centro-Oeste, marcada por sua vasta extensão territorial - a terceira maior do país -, que aglutina o Distrito Federal e os estados de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul; pela produção nos ramos da agricultura e da pecuária; pelos biomas: Amazônia, Cerrado e Pantanal; por áreas que compõem a Amazônia Legal; e, ainda, pela fronteira com outros dois países da América Latina.
Particularmente sobre o estado de Mato Grosso, lócus em que se situa o Programa de Pós-Graduação, faz-se necessário apresentar alguns dados, por exemplo: sua extensão territorial é de 903.208,362 km² e população estimada de 3.836.399 pessoas;4 possui 142 municípios, sendo a cidade de Vila Bela da Santíssima Trindade a mais antiga, fundada em 1752,5 e Boa Esperança do Norte, a mais nova, oficializada no ano de 2023.
A presença de camponeses(as), povos e comunidades tradicionais, que constituem outras formas de ser e (con)viver nos territórios, é substancial desde antes do seu surgimento como estado. Segundo Sato et al. (2013), observam-se em Mato Grosso 47 etnias indígenas, distribuídas em 78 terras; mais de 60 comunidades quilombolas reconhecidas; além de povos ciganos, pantaneiros, morroquianos, ribeirinhos, fronteiriços e beiradeiros; seringueiros; retireiros do Araguaia, pescadores, dentre outros. Tais presenças evidenciam, ainda, processos de disputas, lutas e resistências, especialmente no acesso a terras nesse estado.
Em termos de economia, Mato Grosso possui concentração das atividades laborais no setor de serviços; rendimento médio de R$ 2.276, sendo o sexto melhor salário quando comparado com outros estados do país.6 É ainda internacionalmente conhecido pela sua produção de commodities, especialmente soja, milho e algodão, bem como pela pecuária bovina, que contabiliza 31.529.250 cabeças, de acordo com o relatório elaborado em 2024 pelo Instituto de Defesa Agropecuária de Mato Grosso (Indea/MT) (cf. Cury, 2024). Entre os cem municípios mais ricos do agronegócio brasileiro, 36 estão situados em Mato Grosso (Frutuoso, 2023).
Retomando brevemente a história de ocupação e formação territorial de Mato Grosso, Higa (2005, p. 21) aponta duas fases:
[...] a primeira, de características pré-capitalistas, foi centrada no extrativismo mineral e posteriormente vegetal, com o desenvolvimento paralelo da agricultura de subsistência e da pecuária, o que perdurou, aproximadamente, até a metade do século XX. A segunda e atual refere-se à inserção de Mato Grosso na economia de mercado, caracterizada pela disseminação dos projetos de colonização e modernização agropecuária.
A autora pontua que os traços característicos desses dois momentos são os fluxos migratórios, que dinamizaram a ocupação do estado (Higa, 2005). Ao tratar sobre o processo histórico de acesso a essas terras, Moreno (1999, p. 68) destaca que, desde 1892, os diversos governos de Mato Grosso estimularam e favoreceram “[...] o acesso a grandes porções do território, seja por latifundiários, capitalistas individuais ou por grupos econômicos e empresas agropecuárias e de colonização”, e que, para isso, foi montado um aparato jurídico e político “[...] para mediar e legitimar os diferentes interesses das classes sociais envolvidas no processo de acesso à terra e dar sustentação à política fundiária de regularização e venda de terras públicas/devolutas no Estado [...]”.
Ao apresentar aspectos dessa trajetória, Moreno (1999) destaca: o beneficiamento para grandes proprietários, as irregularidades nos registros de terras, como ainda as tentativas - sem sucesso - de combate à corrupção e que, apesar da abundância de terras devolutas, não houve a democratização do seu acesso. Em outro momento, a autora evidencia a política de povoamento do território nacional, incentivada pelo governo federal, e, particularmente, a política de colonização (oficial e privada), que na prática “[...] serviu muito mais para controlar a entrada de imigrantes no Estado e cercear a expansão da pequena propriedade” (Moreno, 1999, p. 74).
Por meio da “Marcha para o Oeste”, conforme evidencia Moreno (1999), buscava-se conquistar o interior do país para sua integração à economia nacional, havendo uma série de ações por parte da gestão federal e do estado para sua realização. As leis liberais, criadas no primeiro governo constitucional de Mato Grosso, contribuíram para a aceleração do processo de privatização das terras, especialmente mediante a colonização particular. Assim:
A territorialização dos projetos particulares, por sua vez, obedeceu à lógica da especulação fundiária. Pela grande quantidade de terras devolutas existentes no norte do Estado e, sobretudo, pela facilidade de aquisição e regularização dessas terras, os grandes grupos econômicos fizeram da colonização um negócio altamente rentável, considerando que muitas dessas terras foram adquiridas de “terceiros”, sabidamente com vícios na titulação, que deram origem ao domínio particular. Esse era o esquema da grilagem legalizada, que esteve também na base da aquisição de terras para os projetos agropecuários, agroindustriais e minerais. Da mesma forma que estes, vários projetos de colonização foram implantados em terras indígenas, com pleno conhecimento dos órgãos oficiais (Moreno, 1999, p. 82, grifos nossos).
É, pois, nesse contexto, marcado por processos de expropriação, exploração e violência, que muitos pequenos agricultores e agricultoras, advindos(as) de outras regiões do país, deslocaram-se para o Mato Grosso, conforme expressa Martins (1991). Heinst (2003) refere que muitos fazendeiros de outras regiões fizeram acordos com seus funcionários que, por sua vez, acabaram indo comprar terras mais baratas em lugares mais longínquos. Nos relatos de um de seus entrevistados, fica evidente que o valor de um alqueire vendido em São Paulo equivalia a cem de Mato Grosso.
Conforme dito anteriormente, Mato Grosso tem se destacado pelo lugar que ocupa no ranking do agronegócio, modelo esse que tem dominado não apenas a propriedade privada da terra, mas também “[...] os recursos hídricos, as florestas e os minérios, gerando fortes contradições entre os interesses capitalistas e os dos povos que vivem no campo”, como evidencia Barros (2018, p. 182).
Para Leite e Medeiros (2012), o agronegócio apresenta a tendência de controlar cada vez mais áreas extensas do país, uma vez que sua lógica de funcionamento está diretamente relacionada à disponibilidade de terras para a expansão contínua de suas atividades. Esse processo, marcado por intensas disputas, resistências e conflitos, resulta em diversas consequências associadas à concentração fundiária, entre as quais podem ser destacadas: a expulsão de homens e mulheres do meio rural; a artificialização dos ecossistemas; a mercantilização de bens naturais, como a água, a terra e os alimentos; a homogeneização das práticas produtivas sob a lógica capitalista, bem como a padronização dos produtos agrícolas, voltada à conformação das exigências mercadológicas, o que contribui para a perda da diversidade sociocultural e biológica (Oliveira et al., 2018).
Na atualidade, ainda são frequentes os conflitos por terra em Mato Grosso, envolvendo camponeses(as), povos e comunidades tradicionais. De acordo com Sato et al. (2013), esse estado vivencia uma série de conflitos socioambientais, que englobam terra, água, fogo e ar. Para as autoras, os conflitos por terra têm como causas propulsoras: disputas, desmatamento, extração ilegal de minérios e areia, invasão de áreas protegidas, compactação do solo; os conflitos por água envolvem: assoreamento dos rios e áreas degradadas; pesca e turismo predatório; poluição hídrica; instalações de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), hidrovias; dominação particular e invasão de áreas com acesso à agua. Os conflitos por fogo estão relacionados às queimadas; e os conflitos por ar envolvem o uso abusivo de agrotóxicos.
Segundo os dados do Caderno de Conflitos no Campo, da Comissão Pastoral da Terra (CPT, 2024), foram registrados 40 conflitos por terra em 2023 em Mato Grosso, envolvendo um total de 3.057 famílias. As categorias afetadas nesses conflitos foram: posseiros, indígenas, seringueiros, assentados, quilombolas e sem-terra. Foram registrados oito conflitos por água, envolvendo um total de 2.106 famílias, que dizem respeito a barragens e açudes (não cumprimento de procedimentos legais) ou, ainda, ao seu uso e preservação (não cumprimento de procedimentos legais e contaminação por agrotóxicos).
Apesar dos elementos aqui destacados, Mato Grosso se apresenta como um estado em potencial desenvolvimento, especialmente, por esse modelo agroexportador. Nesse sentido, sob o discurso de local de oportunidades, acaba atraindo trabalhadores(as) de outros territórios que, disponíveis, estão sujeitos mais facilmente ao aliciamento e à exploração. E, quando tratamos de migrantes racializados que vêm de outros países, esse quadro se acentua.
No caso específico de Mato Grosso, em especial, em Cuiabá, assim como em outros estados, observa-se que os(as) migrantes encontram, ao chegar, subempregos, locais insalubres, altas jornadas de trabalho, xenofobia e racismo. Magalhães (2017) e Baeninger et al. (2017) apresentam relatos de situações de trabalho de migrantes que sobrevivem com uma refeição, dormem no chão, encontram-se em atividades laborais insalubres, marcados por um cenário de racismo e xenofobia. Magalhães (2017) aponta, ainda, o uso frequente da associação de migrantes haitianos a “macacos”, solicitação de brasileiros pedindo a sua expulsão,7 sob a acusação de ocuparem vagas de trabalho de nacionais.
É nesse chão que pisamos, marcado por esses e outros elementos, que se deu a disciplina “Tópicos especiais em Serviço Social: territórios e fronteiras”, ocorrida entre agosto e novembro de 2024, tendo como objetivo geral: analisar as dinâmicas de expropriação, fronteiras, território, mobilidade, políticas públicas e poder, considerando a formação histórica brasileira e a particularidade de Mato Grosso. Seus objetivos específicos foram: refletir sobre os processos de expropriação e seus impactos nos territórios; discutir as particularidades da constituição do estado de Mato Grosso; dialogar sobre os povos e as comunidades tradicionais e suas relações com a terra e o território; avaliar a relação entre políticas públicas e territorialidades, e como estas influenciam a configuração social, econômica e política da região.
2. “Semente que brota no meio do pasto”:8 a experiência da disciplina “Tópicos especiais em Serviço Social: territórios e fronteiras”
Tendo como base a ementa e os objetivos anteriormente apresentados, a disciplina foi organizada a partir de conteúdo bibliográfico fundamentado em abordagem teórico-crítica, selecionando autores e autoras cujas contribuições são fundamentais para a compreensão das temáticas em pauta.
No que se refere aos aspectos metodológicos, a disciplina foi conduzida prioritariamente por meio de aulas expositivas e dialogadas, articulando a leitura e a discussão de textos com o uso de recursos audiovisuais, como vídeos e músicas, de modo a ampliar as formas de apreensão dos conteúdos. Considerando a proposta de refletir criticamente sobre os territórios e sobre o estado de Mato Grosso, foi realizada uma atividade de campo, com visita a um assentamento rural na região da baixada cuiabana,9 que proporcionou diálogos a respeito da expressão concreta dos processos de luta e resistência pela terra e, ainda, articulação com a graduação, por meio da disciplina “Serviço Social e a questão agrária em Mato Grosso”.
A partir de um fio condutor teórico-metodológico, o primeiro texto discutido na disciplina foi o capítulo 24 de O Capital (Marx, 2013): “A assim chamada acumulação primitiva”. Com a finalidade de introduzir o debate junto aos(às) discentes sob a perspectiva do materialismo histórico-dialético, buscou-se, nesse primeiro momento, analisar os contextos e os significados da expropriação da terra, sua conversão em mercadoria e os desdobramentos dessa lógica nos processos de exploração da força de trabalho. A partir dessa exposição, foi estabelecida uma articulação crítica com o contexto brasileiro, tomando como referência João Pedro Stédile (2011) e, a partir de José de Souza Martins (1991), debatemos o processo combinado entre expropriação e exploração, que repercute em contextos de concentração de terras, migrações internas, trabalho escravo e violências, praticadas, inclusive, pelo próprio Estado, na intenção de atender aos interesses da burguesia.
Considerando os estudos de Gislaene Moreno (1999) e Ariovaldo Umbelino Oliveira (2016), foi possível aprofundar a discussão sobre o contexto de formação de Mato Grosso; os processos de expropriação e expulsão de povos e comunidades tradicionais de diversos territórios; as políticas de incentivos fiscais; os projetos de colonização; a destruição da natureza; a grilagem; a corrupção, enfim, todos os elementos que impactam severamente as relações sociais no campo, com consequências também nas áreas urbanas desse estado.
A discussão sobre povos e comunidades tradicionais, a partir de Diegues et al. (2000) e Gallois (2004), foi enriquecida pelo romance Torto arado, de Itamar Vieira Junior (2019). Ao narrar a história das irmãs Bibiana e Belonísia, essa obra evidencia não apenas os processos de expropriação da terra e de exploração da força de trabalho, mas também aspectos fundamentais da vida desses povos, como a educação não formal, os saberes da experiência, a relação com o sagrado, com o território, as festividades, as lutas e as resistências que lhes são características.
O debate sobre territórios foi adensado com a categoria espaço, a partir das suas características e definições. Milton Santos (2002) sugere a leitura a partir da concepção dialética que compreende o espaço como uma totalidade constituída de objetos, paisagem, funções e formas, que se remodela com o tempo histórico. Essa perspectiva crítica possibilita a compreensão de que as construções de fábricas em lugares distintos, por exemplo, vistas apenas pela sua função de produção, retiram mediações importantes, como a circulação, a distribuição e o consumo. O autor acrescenta que o espaço não pode ser separado do sistema tempo. É a partir da perspectiva de tempo-espaço que ele destaca que vivenciamos desde 1980 um período de modernização da tecnologia, que atinge todos os aspectos da sociedade. Para o autor, quanto maior a tecnologia, maior o desenvolvimento dos países, o que ocasiona, em contrapartida, a construção de novas colônias periféricas, com ênfase para apropriação e exploração da força de trabalho mais barata.
Nessa direção, Milton Santos (2002) discorre que o território como lugar de interpretação - pois apresenta relações de disputas e poderes - deve ser, no contexto de dissipação tecnológica, compreendido a partir da globalização. Para ele, o modelo de globalização pelo capital se promove “sem fronteiras”, em um movimento de contradição entre a liberdade absoluta para o mercado capitalista e o impedimento de ir e vir das pessoas. Observa-se que o que tem se apresentado são fronteiras tecnológicas e de informação deslocadas para atender à transnacionalidade do capital, modificando a dinâmica socioespacial e geográfica, ao tempo que pessoas são barradas por muros de contenção e barreiras sociais.
O debate sobre geopolítica, inserido a partir das leituras de Harvey (2006), possibilitou pensar as fronteiras como margens políticas e espaços geográficos de interação e aspectos dinâmicos da organização social, política e econômica. O que tem ocorrido nos últimos tempos é que a lógica de fronteiras, como espaços geopoliticamente de segurança nacional, reduz a acepção na transição de pessoas, mercadorias, bens e serviços. A ideia de área de ameaças encontra força no discurso ameaçador, principalmente de migrantes.
O modelo de produção capitalista globalizado, debatido pelos autores citados neste texto, evidencia que o aprofundamento da desigualdade social no contexto globalizado tem intensificando o aumento das desigualdades sociais e provocado a mobilidade de milhares de pessoas como forma de enfrentamento à pobreza.
De acordo com Saskia Sassen (2016), as populações têm sido expulsas de seus lugares no fito de baratear a mão de obra para o mercado de trabalho. Assim, o capital pode recorrer à força de trabalho em qualquer lugar do globo, de acordo com seu interesse de qualificação e existências de bens naturais, podendo deslocar a produção de menor tecnologia e complexidades para regiões cuja força de trabalho, bem como recursos produtivos, tenha menor valor. Esse cenário demonstra a face perversa e desumana do capitalismo, que utiliza sua expansão e concentração de riquezas para derrubar fronteiras que impeçam o trânsito de mercadorias, ao tempo que impedem as pessoas de se deslocarem. Nesse sentido, a autora afirma:
Existem inúmeras pessoas deslocadas, armazenadas em campos formais e informais de refugiados, os grupos convertidos em minorias nos países ricos e que são amontoados em prisões, e os homens e mulheres em boas condições físicas que estão desempregados e armazenados em guetos e favelas (Sassen, 2016, p. 11).
Assim, a globalização tende a amalgamar as expropriações de camadas de trabalhadores(as) sob a forma de violência, empregos temporários, terceirizados e com desproteção social. Esse contexto se agrava quando os sujeitos chegam aos lugares sem documentos (Sassen, 2016).
No que concerne à mobilidade de pessoas para Mato Grosso, observamos que a ocupação mato-grossense, na última década, tem revelado uma entrada massiva de migrantes internacionais. Nos estudos levantados para a elaboração da disciplina e deste texto, identificamos que, até meados da década de 1980, os migrantes que chegavam a Cuiabá, atendidos pela Casa Pastoral do Migrante, eram majoritariamente de deslocamentos internos que passavam ou se fixavam na cidade em busca de trabalho (Pistório; Vitaliano 2019). A partir de 2011, houve na Casa uma mudança no perfil de atendimentos, tanto no aspecto quantitativo quanto na diversidade de nacionalidades, sobretudo da América Latina, com a entrada de migrantes internacionais no estado, dentre eles, haitianos, colombianos e, mais recentemente, venezuelanos.
A instituição (CPM) tem recebido de maneira sistemática, desde abril de 2018, venezuelanos encaminhados pelo governo federal do Brasil e pela ONU, por meio do Programa Nacional de Interiorização, sendo que em 2018 foram cinco grupos de interiorização recebidos, que somaram mais de 150 pessoas, sem contar a demanda que busca a instituição de forma espontânea (Pistório; Vitaliano, 2019, p. 57).
Segundo dados do OBMigra (2024), no ano de 2022 foram registrados 4.691 movimentos migratórios, enquanto em 2023 esse número subiu para 6.497. No primeiro semestre de 2024, os registros já indicavam 6.366 movimentações. As discussões abordadas em sala, conforme vivências nos espaços de trabalho e leituras, indicaram que parcela dessa população tem sido marcada por racismo, xenofobia, exploração do trabalho, que tem na sua expressão mais grave o trabalho escravo que, na contemporaneidade, reatualiza-se. Sobre esta última assertiva, o estado de Mato Grosso é considerado uma das regiões onde mais existem práticas desse tipo de trabalho, destacando-se por ter o maior número de denúncias.
Os dados demonstram que de 1995, momento em que o governo reconhece o trabalho escravo, a 2019, são mais de 53.000 escravizados no Brasil, destes, 6.180 pessoas foram encontradas em trabalho escravo contemporâneo em Mato Grosso (CPT, 2022). Cabe ainda relatar que esse estado foi o primeiro denunciado por esse tipo de exploração do trabalho em 1970. Nesse lugar, as principais atividades estão ligadas à agropecuária e às lavouras de algodão e soja, bem como mineração, revelando a ligação do trabalho escravo com a produção monocultora.
Diante dos diálogos estabelecidos a partir dos(as) autores(as) supracitados(as), encerramos a disciplina retomando os aspectos iniciais - agora ampliados com novos elementos - sobre a construção das territorialidades e das fronteiras do estado de Mato Grosso. Discutiu-se a gênese histórica do território, em especial a chegada e a fixação de migrantes atraídos pela colonização (pública e privada), pelo preço das terras, pela corrida do ouro, processos que definiram os contornos iniciais dos limites estaduais. Destacamos a importância de mediações com as categorias território, mobilidade e espaço para pensarmos a distribuição fundiária, as relações de poder e outros componentes que configuram a dinâmica sociopolítica de Mato Grosso.
“Cerrado que nasce mesmo incendiando”:10 considerações finais
Conforme indicado nas seções anteriores deste relato, as temáticas trabalhadas na disciplina, em alguma medida, contribuem para pensar e discutir os objetos de estudo dos(as) discentes do PPGPS que cursaram a disciplina, uma vez que estão articulados às linhas de pesquisa: Política Social e Direitos Sociais e Trabalho, Questão Social e Serviço Social.
No início da disciplina, foi possível identificar que parte dos(as) pós-graduandos(as) ainda não tinha tido contato prévio com diversas das referências que nela seriam trabalhadas, gerando certa apreensão. Contudo, à medida que fazíamos a exposição dialogada do conteúdo, articulando-o à conjuntura, a outras experiências trazidas por discentes, utilizando os recursos metodológicos, relacionando com a realidade brasileira e dos territórios onde estão situadas as pesquisas, foi possível contribuir no diálogo entre pesquisa e prática profissional. A incorporação de documentários, vídeos, literatura brasileira e a saída de campo, em parceria com uma disciplina da graduação em Serviço Social, resultaram em um ganho importante, especialmente reafirmando a perspectiva crítica que fundamenta o PPGPS.
Importa mencionar que a avaliação da disciplina se deu por meio da entrega de um artigo que exigia a utilização de, no mínimo, três referências bibliográficas trabalhadas. Observou-se ampla diversidade de temas escolhidos, por exemplo: migração e trabalho; territórios e crise ecológica; desigualdade de gênero e acesso à terra; produção de territórios de exclusão; imigração; mineração, dentre outros. Em alguns casos, foi verificada certa dificuldade em articular o objeto de pesquisa e o referencial teórico trabalhado. Contudo, de modo geral, reconhece-se que essa experiência foi enriquecedora para docentes e discentes, abrindo caminho, inclusive, para a possibilidade de publicação de coletânea sobre as temáticas exploradas na disciplina.
Ressaltamos a relevância da sistematização do trabalho docente, que por vezes fica secundarizada diante das inúmeras demandas que se apresentam no cotidiano. Refletir sobre essa experiência nos permite avaliar os acertos, como: a possibilidade de ministrar a disciplina conjuntamente, acrescentando os saberes e a expertise de cada docente; as aulas expositivas e dialogadas; os múltiplos recursos didático- -pedagógicos; as participações e o envolvimento de discentes; e a saída de campo. Nessa caminhada, também encontramos desafios, como aqueles sinalizados por Duarte (2018), que envolvem a intensificação do trabalho docente, que acumula atividades na graduação e na pós; sobrecarga especialmente em épocas de participação de eventos; finalização de semestres; ainda, as atividades de gestão assumidas e o cumprimento de atividades que conduzem aos processos avaliativos internos e externos à universidade.
Por fim, a experiência docente aqui sistematizada revelou-se um exercício crítico de interlocução entre saberes, tendo a sala de aula como espaço educativo e político, lugar de produção de conhecimento, com vista à transformação social.
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1
Conforme apresentação do Programa. Disponível em: https://ppgpsufmt.com.br/programa/. Acesso em: 5 maio 2025.
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2
A disciplina foi ofertada para alunos(as) de mestrado e doutorado do PPGPS, que são provenientes de várias áreas, como: Direito, Nutrição, Música, Ciências Contábeis e Serviço Social.
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3
Frase extraída da canção “Manifesto calorista”, da banda Calorosa (2021), destaque no cenário artístico e cultural mato-grossense.
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4
Dados sobre Mato Grosso do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Disponível em: https://www.ibge.gov.br/cidades-e-estados/mt.html. Acesso em: 12 maio 2025.
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5
Segundo informações da Câmara Municipal de Vila Bela da Santíssima Trindade. Disponível em: https://www.camaravilabela.mt.gov.br/Institucional/Historia-do-Municipio/. Acesso em: 12 maio 2025.
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6
Dados sobre Mato Grosso. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/cidades-e-estados/mt.html. Acesso em: 12 maio 2025.
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7
Em um texto extraído de um jornal de Mato Grosso, Magalhães (2017, p. 73) traz o recorte de como os haitianos são percebidos: “Os imbecis [...] agora ocupados em negriciar o Brasil, pensam que se justificam com o argumento de que também os ianques estão vindo para cá. Que maravilha! Então vamos ficar assim: de um lado, a elite cheirosa, rica, bacana, dourada e de olhos azuis; de outro, a negrada cecerenta e fodida do Haiti e alhures. [...]. Convenhamos: não dá!”.
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8
Frase extraída da canção “Manifesto calorista”, da banda Calorosa (2021).
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9
A baixada cuiabana abrange os seguintes municípios: Acorizal, Barão de Melgaço, Chapada dos Guimarães, Cuiabá, Jangada, Nossa Senhora do Livramento, Nova Brasilândia, Planalto da Serra, Poconé, Santo Antônio do Leverger e Várzea Grande.
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10
Frase extraída da canção “Manifesto calorista”, da banda Calorosa (2021).
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