Resumo:
O objetivo deste texto é compreender a percepção das pessoas com deficiência física sobre as barreiras atitudinais enfrentadas no seu dia a dia e a influência na vivência da corporeidade. A pesquisa é aplicada, observacional descritiva, com análise e discussão qualitativa. Foram entrevistadas 12 pessoas com deficiência física. Os resultados indicaram que as atitudes capacitistas da sociedade implicam uma visão preconceituosa e errônea sobre as pessoas com deficiência como incapazes e dignas de pena.
Palavras-chave:
Corporeidade; Pessoas com deficiência física; Deficiência física; Barreiras atitudinais; Capacitismo
Abstract:
The objective is to understand the perception of people with physical disabilities about the attitudinal barriers they face in their daily lives and their influence on the experience of corporeality. The research is applied, observational and descriptive, with qualitative analysis and discussion. Twelve people with physical disabilities were interviewed. The results indicated that ableist attitudes in society imply a prejudiced and erroneous view of people with disabilities as incapable and worthy of pity.
Keywords:
Corporeity; People with physical disabilities; Physical disability; Attitudinal barriers; Ableism
Introdução
O corpo é produto de uma construção social e cultural. Assim, qualquer indagação sobre o corpo exige, antes de tudo, a definição de seu objeto e a clarificação dos pressupostos que o fundamentam. Esse corpo é emissor e receptor de significados e, sendo um produtor contínuo de sentidos, coloca o homem de forma atuante no interior de determinado espaço social e cultural (Le Breton, 2007). Em se tratando de corpo, Merleau-Ponty (1999, p. 122) afirma que este “é o veículo do ser no mundo, e ter um corpo é, para um ser vivo, juntar-se a um meio definido”. A existência do homem no mundo é corporal; logo, é através da corporeidade que o homem vivencia o seu corpo, se expressa, movimenta-se, troca experiências com o outro, interage em sociedade e se comunica com o mundo. A corporeidade está relacionada à experiência do corpo no mundo, dessa forma está vinculada ao tipo de corpo que cada indivíduo possui, como estrutura, limitações e deficiência.
Em termos de contextualização desta pesquisa, é importante mencionar que segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010, 13.265.599 pessoas declararam ter algum grau de deficiência motora/física (IBGE, 2010a). Já nos dados referentes ao estado do Rio Grande do Sul, 818.451 pessoas declararam ter algum grau de deficiência motora/física (IBGE, 2010b). Quando se trata de deficiência física, o corpo é o principal marcador da diferença, todavia, destaca-se que a concepção de um corpo perfeito e completo é ilusão, uma vez que a sociedade estabelece cada vez mais padrões restritos e inventados (Meurer; Gesser, 2008).
Dessa forma, a manifestação da deficiência perturba o ideário eugênico de corporeidade grega de beleza harmônica enraizado profundamente na sociedade, provocando aversão nas pessoas com corpos ditos “normais”, afetando de modo direto a relação com o outro (Mello, 2016; Mello; Nuernberg, 2012). A importância atribuída ao corpo perfeito na sociedade evidencia a diferença da pessoa com deficiência em relação às outras pessoas. Porém, o corpo com deficiência “somente se delineia quando contrastado com uma representação de o que seria o corpo sem deficiência” (Diniz, 2007, p. 14).
Cabe ressaltar que a compreensão da deficiência como uma variação do normal da espécie humana teve origem no século XVIII, quando o discurso era que ser “deficiente” significava experimentar um corpo fora da norma (Diniz, 2007). Isso se deve ao fato de que, historicamente, a categorização era praticada de acordo com as alterações físicas ou mentais das pessoas. Eram descritas como surdas, cegas, aleijadas e loucas. Com o passar das décadas, houve uma evolução na terminologia empregada às pessoas com deficiência.
Entre inúmeros termos equivocados na definição, já foram utilizados os seguintes: “monstro” (Courtine, 2009; Foucault, 2010), “anormal” (Courtine, 2009; Foucault, 2010), “aleijado” e “defeituoso”. Após as duas Guerras Mundiais, eram comuns as expressões “incapacitado”, “inválido” e “excepcional”. No Brasil, a partir da Ementa Constitucional n. 12, de 1978 (Brasil, 1978), o termo utilizado passou a ser “deficiente”. Após a Constituição Brasileira de 1988 (Brasil, 1988), modificou-se o termo para “pessoa portadora de deficiência”. A expressão “pessoas com necessidades especiais”1 também passou a ser utilizada em 1994 após a Declaração de Salamanca. Somente em 2009 é que o termo “pessoa com deficiência” (Brasil, 2009) foi adotado no Brasil, na Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (CDPD). Durante o progresso do termo, as pessoas com deficiência eram definidas apenas pela “característica”. Também foram definidas apenas como se fossem “portadoras” de algo. No entanto, a pessoa não é “portadora” de uma deficiência que lhe é intrínseca, e torna-se importante ressaltar que a “pessoa” vem antes da “deficiência”, sendo o termo correto a ser utilizado “pessoa com deficiência”.
Analisando a história das pessoas com deficiência, percebem-se duas maneiras de entender a deficiência. A transição da visão individual e médica para uma visão estrutural e social foi descrita como a mudança de um “modelo médico” para um “modelo social” da deficiência. O modelo médico sustenta que a deficiência é “uma desvantagem natural, devendo os esforços se concentrarem em reparar os impedimentos corporais, a fim de garantir a todas as pessoas um padrão de funcionamento típico à espécie” (Diniz; Barbosa; Santos, 2009, p. 67).
Já no modelo social, a deficiência deixa de ser uma característica exclusivamente individual para se tornar uma questão social, na qual a deficiência vai muito além do corpo, para uma interação desse corpo com deficiência com o mundo. Diniz, Barbosa e Santos (2009) trazem o modelo social como uma manifestação da diversidade humana e como uma resistência à deficiência apenas como impedimentos, oferecendo novas ferramentas para a garantia de direitos e para a transformação social. Portanto, a cultura da normalidade é quem discrimina, oprime e descreve alguns corpos como indesejáveis, e não a natureza. Dessa forma, a sociedade é chamada a ver que ela cria problemas para as pessoas com deficiência, causando-lhes incapacidade (ou desvantagem) no desempenho de papéis sociais. Logo, a deficiência é o resultado negativo da inserção de um corpo com impedimentos em ambientes sociais pouco sensíveis à diversidade corporal das pessoas (Diniz; Barbosa; Santos, 2009).
A CDPD define a deficiência como um conceito em evolução, reconhecendo a diversidade das pessoas com deficiência, sendo esta resultante da interação entre pessoas com deficiência e as barreiras devidas às atitudes e ao ambiente, que impedem a plena e efetiva participação desses indivíduos na sociedade em igualdade de oportunidades com os demais (Brasil, 2009). No que tange às atitudes da sociedade, essas são resultantes de valores, normas, costumes, práticas, ideologias, crenças (Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde, 2020). Em relação às barreiras atitudinais, referem-se a estereótipos, discriminações e estigmas diante da diversidade humana (Ferro; Renner, 2022), e consistem em atitudes ou comportamentos que impedem ou prejudicam a participação social da pessoa com deficiência em igualdade de condições e oportunidades com as demais pessoas (Brasil, 2015).
Diante das barreiras atitudinais enfrentadas por pessoas com deficiência, o capacitismo se destaca como uma das mais marcantes no que diz respeito à vivência da corporeidade. O capacitismo se refere a uma atitude ou discurso que desvaloriza a deficiência, em comparação com a avaliação positiva de uma ideia de integridade corporal, que é equiparada a uma suposta condição básica da normalidade humana. Assim, parte-se do preconceito de que, como grupo social, as pessoas com deficiência são inferiores àquelas sem deficiência (Toboso; Ferreira, 2021).
Observa-se que este artigo é um recorte da tese de doutorado intitulada Os facilitadores e as barreiras da corporeidade: a vivência das pessoas com deficiência física, de autoria de Bruna Henkel Ferro, e tem por objetivo compreender a percepção das pessoas com deficiência física sobre as barreiras atitudinais enfrentadas no seu dia a dia, bem como a influência destas na vivência da corporeidade.
1. Procedimentos metodológicos
Do ponto de vista de sua natureza, este estudo caracteriza-se como uma pesquisa aplicada. Quanto aos seus objetivos, é uma pesquisa observacional descritiva. A abordagem do problema deu-se sob o paradigma qualitativo. Esse método se aplica ao estudo de percepções, opiniões, relações, representações, crenças e histórias, que são objetos do entendimento que as pessoas pensam ou sentem a respeito da forma em que vivem, criam seus objetos e a si mesmas (Minayo, 2014).
A seleção dos participantes deu-se de forma não probabilística, por conveniência. Para tanto, foram utilizadas as premissas da técnica em bola de neve, que consiste em um processo de permanente coleta de informações, com o intuito de tirar proveito das redes de relacionamento dos entrevistados para fornecer ao pesquisador cada vez mais contatos com o perfil necessário para a pesquisa; dessa forma, o quadro de amostragem vai crescendo a cada entrevista (Vinuto, 2014). Assim, o contato inicial com os participantes foi possibilitado devido à familiaridade das pesquisadoras junto a esse público, pois vêm realizando há 12 anos estudos com os usuários de cadeira de rodas da Associação de Lesados Medulares do Rio Grande do Sul (Leme).
Participaram do estudo 12 pessoas com deficiência física que residem no estado do Rio Grande do Sul, Brasil. Os critérios de inclusão dos participantes foram: pessoas com deficiência física, que residam em zona urbana, no estado do Rio Grande do Sul, Brasil; ser maior de 18 anos, de ambos os sexos. Os critérios de exclusão foram: pessoas que não tinham condições de se expressar verbalmente.
O principal instrumento de pesquisa foi uma entrevista semiestruturada. A entrevista como fonte de informação fornece diversos dados, entre os quais aqueles que se referem diretamente ao indivíduo entrevistado. São informações subjetivas que tratam da reflexão do próprio sujeito sobre a realidade que vivencia e que só podem ser conseguidos com a contribuição da pessoa (Minayo, 2014).
As entrevistas foram realizadas durante os meses de outubro e novembro de 2021 e ocorreram por videochamada. Dessa forma, foram seguidas as normas de distanciamento social devido ao período de pandemia por covid-19. Em contato inicial com os entrevistados, foram explicados os objetivos da pesquisa e os procedimentos de coleta de dados. Após a confirmação da participação na pesquisa, as entrevistas foram agendadas conforme a disponibilidade de cada participante. Foi encaminhado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) via aplicativo de conversa para que os participantes tivessem ciência da sua contribuição no estudo, bem como para a permissão de uso das informações coletadas. Os participantes retornaram o TCLE assinado de forma digital. Foi solicitada ainda a permissão para gravação do áudio das entrevistas, que posteriormente foram transcritas. Observa-se que este estudo foi aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Feevale (CAAE: 17566519.4.00005348, Parecer: 3.581.182).
A análise de dados das entrevistas ocorreu pelo método de análise de conteúdo e triangulação de dados. A análise de conteúdo é uma técnica muito utilizada em dados qualitativos e, segundo Bardin (2004, p.15), é um conjunto de instrumentos metodológicos sutis que se aplicam a discursos profundamente diversificados. “O fator comum dessas técnicas múltiplas e multiplicadas [...] é uma hermenêutica controlada, baseada na dedução: a inferência”. No que tange à etapa de triangulação, Minayo (2014, p. 361-362) complementa ser uma “dinâmica de investigação que integra a análise das estruturas, dos processos e dos resultados”, sendo os colaboradores contatados em campo incluídos “não apenas como objetos de análise, mas, principalmente, como sujeitos de autoavaliação, uma vez que são introduzidos na construção do objeto de estudo”.
2. Resultados e discussão
Os resultados deste estudo oportunizaram identificar o capacitismo como uma das barreiras atitudinais que interferem negativamente na vivência da corporeidade de pessoas com deficiência física. Apresentam-se no Quadro 1 características da deficiência e de perfil dos participantes. Para preservar o sigilo de suas identidades, os participantes foram identificados por números, de acordo com a ordem de realização das entrevistas.
Observa-se na Figura 1 em destaque as duas regiões nas quais os participantes do estudo residem. Destes, dez residem no Vale do Rio dos Sinos e dois no Vale do Paranhana Encosta da Serra, no estado do Rio Grande do Sul, Brasil. O Vale do Rio dos Sinos possui aproximadamente 1,4 milhão de habitantes, sendo uma das regiões mais populosas do estado, já o Vale do Paranhana Encosta da Serra, aproximadamente, 230 mil habitantes.
Dos 12 participantes, sete são do sexo masculino e cinco do sexo feminino, com idades variando entre 24 e 47 anos. Em relação à escolaridade, constata-se que dois participantes concluíram o Ensino Fundamental, dois concluíram o Ensino Médio, um apresenta o Ensino Superior em andamento, dois apresentam o Ensino Superior completo, um apresenta o Ensino Superior incompleto e quatro concluíram a Pós-Graduação.
O período em que os participantes convivem com a deficiência física varia de cinco a 33 anos, sendo que somente a Participante 1 apresenta a limitação motora desde o seu nascimento, em razão do desenvolvimento de atrofia muscular espinhal. Os demais participantes adquiriram a deficiência em fases distintas da vida, tendo sido o acidente de trânsito a causa mais frequente. Cinco participantes sofreram amputação de um dos membros inferiores, e um participante sofreu amputação dos dois membros inferiores, quatro sofreram uma lesão medular, sendo dois participantes com paraplegia e dois com tetraplegia, e uma participante sofreu uma paraparesia espástica tropical.
No que se refere ao perfil de mobilidade, o Quadro 2 apresenta a descrição das Tecnologias Assistivas utilizadas pelos participantes.
Ao mesmo tempo que as cadeiras de rodas e as próteses visam compensar ou neutralizar as limitações funcionais do corpo dos participantes, muitas vezes estão associadas ao preconceito e evidenciam a deficiência. A pessoa com deficiência que necessita de um meio para a sua mobilidade é permeada pelo preconceito do ser incapaz, digno de pena e limitado (Ferro; Renner, 2022). Diante das barreiras atitudinais vivenciadas pelas pessoas com deficiência, uma das mais evidentes é o capacitismo. Isso foi evidenciado de forma recorrente nas narrativas dos entrevistados. O capacitismo é profundamente relacionado com a prática da classificação do modelo médico, que considera as pessoas com deficiência, pessoas “deficientes”. Ignorando completamente a acomodação experiencial desses indivíduos na diversidade de suas próprias formas de vida, o capacitismo leva diretamente ao objetivo de reabilitá-los e, até mesmo, de impedir o seu nascimento (Toboso; Ferreira, 2021).
O discurso do capacitismo evoluiu a partir dos movimentos pelos direitos civis de pessoas com deficiência nos Estados Unidos e no Reino Unido, durante as décadas de 1960 e 1970 (Wolbring; Guzmán, 2010). Embora seja uma categoria insuficiente na língua portuguesa, é justamente a capacidade de ser e fazer que é insistentemente negada às pessoas com deficiência em diversos âmbitos da vida social. O capacitismo é o modo em que as pessoas com deficiência são tratadas como incapazes, aproximando as questões dos movimentos das pessoas com deficiência a outras discriminações sociais, como o racismo, a homofobia e o sexismo.
É com base no capacitismo que ocorre a discriminação, e são com as atitudes preconceituosas que acontece a hierarquização das pessoas em virtude da adequação de seus corpos a um ideal de beleza e capacidade funcional, no qual o julgamento moral é relacionado à funcionalidade do corpo e à corpo-normatividade (Mello, 2016). Nesse sentido, quando questionadas se percebem algum tipo de preconceito dos outros em relação às suas deficiências, as participantes 1 e 2, ambas usuárias de cadeira de rodas, responderam:
Eu percebo, mas não é daquela forma tão negativa, como, por exemplo, uma pessoa negra, de uma forma bem negativa. E a pessoa com deficiência não é dessa forma. Ela é um preconceito mais velado. Por exemplo, as perguntas meio invasivas, eu penso que é uma forma de preconceito... (P1).
A ofensa gratuita que nem a gente vê em outros tipos de preconceito, com as pessoas com deficiência não é tanto. Mas no momento que algo vai incomodar, que ela não vai conseguir uma vaga, que ela vai conseguir um espaço que ela queria utilizar, alguma coisa que está reservada para a pessoa com deficiência, aí ela despeja a raiva, o rancor e o ódio que ela tem no coração em cima da pessoa com deficiência. É diferente de preconceito com pessoas negras, com pessoas homossexuais, que o preconceito e a ofensa vêm gratuita. Só de a pessoa existir, eles já despejam, o que acontece, eles batem muito mais, eles matam, eles fazem horrores! A pessoa com deficiência normalmente é em função de algum direito que ela tem e as pessoas se incomodam (P2).
As narrativas fazem a relação do preconceito sofrido pelas pessoas com deficiência com o preconceito experimentado por pessoas negras e por pessoas homossexuais, sendo percebido pelas participantes de forma velada. Em complemento, Diniz e Santos (2009) afirmam que o direito de não ser discriminado pelo corpo em que se vive consta no marco constitucional, que proíbe a discriminação por sexo ou raça. Para caracterizar essas formas cruéis de opressão pelo corpo, estabelecem-se as categorias analíticas e discursivas: sexismo, para a discriminação por sexo; homofobia, para a discriminação pela orientação sexual; racismo, para a discriminação pela cor da pele ou etnia. Todavia, no caso da discriminação por deficiência, há uma ausência no vocabulário ativo da língua portuguesa, sendo essa insuficiência discursiva um indicador da invisibilidade social e política desse fenômeno.
O termo capacitismo é utilizado pela participante 8 (com amputação dos dois membros inferiores há 27 anos): “a gente enfrenta o capacitismo a todo o tempo na sociedade. E às vezes as pessoas dizem: ah, mas como tu é [nome da profissão]? E ficarem espantadas. Ou na rua me olhando com ar de pena”. Em complemento, o participante 4 (com lesão medular há 12 anos), relata: “muita gente diz: pobre coitado deficiente”. Nesse sentido, as pessoas com deficiência são vistas muitas vezes de maneira preconceituosa como incapazes e improdutivas pela sociedade (Ferro; Barth; Renner, 2021; Ferro; Renner, 2022), fato esse observado nos relatos dos participantes. Berri (2018, p. 84) também apontou em seu estudo que “há um incômodo comum quando são vistos como coitados, posto que se consideram pessoas normais e tão capazes quanto aquelas que não possuem deficiência”, sendo que o olhar de compaixão de um terceiro incomoda e constrange, uma vez que as pessoas com deficiência não se sentem dignas de pena.
O participante 3, com amputação de perna, reflete sobre as diferenças de tratamento do preconceito de “antigamente” em relação à atualidade:
Ah, o cara nota, hoje está menos... Não é tão forte como era antigamente, mas ainda existe bastante. [...] acho que as coisas começam a aparecer mais hoje, o deficiente aparece mais, antigamente as pessoas escondiam em casa. Hoje as pessoas estão mais autônomas também. O deficiente tá trabalhando, tá se virando, está saindo de casa. E antigamente as pessoas eram escondidas dentro de casa, em cadeira de rodas, ficavam na cama, não saíam mais, ficavam até morrer (P3).
Diniz, Barbosa e Santos (2009, p. 67) afirmam que essa “passagem simbólica da casa para a rua abalou vários pressupostos biomédicos sobre a deficiência”, tal qual o processo do modelo médico para o modelo social da deficiência. Esse relato do participante 3 vem ao encontro do processo de inclusão social das pessoas com deficiência, trazido por Sassaki (2006). O autor expõe que esse processo consiste em quatro etapas: exclusão social total, atendimento especializado segregado, integração social e inclusão social. A exclusão ocorria no seu sentido total, em que as pessoas com deficiência eram excluídas da sociedade para qualquer atividade, em razão de serem consideradas inválidas e incapazes de trabalhar e sem utilidade para a sociedade. Relaciona-se ao que Castel (2011) traz como uma das interpretações das formas de exclusão, na qual ele chama de “supressão completa da comunidade”, em que ocorre o banimento e a eliminação do sujeito ou categoria de determinada comunidade. É a maneira mais completa da exclusão, que garante o fim do confronto com a diferença e o desconforto que ela causa.
O atendimento especializado segregado ocorria em instituições, com internações em instituições de caridade, onde as pessoas com deficiência ganhavam abrigo, medicamentos, alimentos e atividades para ocupar o seu tempo. Após determinado tempo, essas instituições se especializaram para atender as pessoas por tipo de deficiência (Sassaki, 2006). Faz-se aqui a relação com outro conjunto de práticas de exclusão apresentado por Castel (2011), que seria a construção de espaços fechados e isolados da comunidade (manicômios/asilos para os “loucos”, prisões para os criminosos), com o objetivo de afastar o diferente do convívio social.
No contexto da integração social se percebe um esforço para inserir as pessoas com deficiência na sociedade, mas desde que elas estejam capacitadas a superar as barreiras físicas e pragmáticas existentes. Essa integração nada ou pouco exige da sociedade em termos de modificação de atitudes, de espaços físicos e práticas sociais (Sassaki, 2006). Isso se aproxima de Castel (2011) quando apresenta que determinadas categorias da população se veem obrigadas a um “status especial” que lhes permita coexistir na comunidade, porém, sendo privadas de certos direitos e da participação em algumas atividades sociais.
Já a inclusão social é um processo bilateral, em que os dois lados se adaptam e são agentes da mudança, ou seja, enquanto a sociedade se adapta para poder incluir, as pessoas com deficiência preparam-se para assumir seus papéis na sociedade. Na prática, ambos os processos podem coexistir por mais algum tempo, até que a integração se enfraqueça e a inclusão predomine (Sassaki, 2006).
A história das pessoas com deficiência apresenta duas características comuns, qualquer que seja o período histórico considerado. A primeira se refere à visão da deficiência como uma condição que impõe à pessoa um valor menor em relação aos demais seres humanos, como se existisse uma categoria dos “quase-humanos”, à qual pertenceriam todos aqueles que não se enquadrassem no modelo de normalidade física e psíquica imposto por seu grupo social. A segunda, em grande medida decorrente da primeira, diz respeito à exclusão social da pessoa com deficiência, a total ausência de participação dos momentos decisórios das sociedades a que pertenceram, porquanto sempre estiveram em uma posição marginal. No entanto, o peso relativo dessas características variou durante toda a trajetória, principalmente a partir da segunda metade do século XX, quando as pessoas com deficiência começaram a reescrever sua história (Bonfim, 2009, p. 20).
O participante 7, tetraplégico há 19 anos, também menciona o termo “antigamente”; todavia, a relação feita por ele é uma crítica com a questão de superação:
As pessoas tendem a olhar a deficiência... antigamente se olhava só com o olhar, era um olhar meio de incapacidade ou de coitadismo. E hoje se criou um olhar de super-homem, então assim, se eu pegar minha cadeira e for até a frente da minha casa é uma superação. Cara, eu não sei se é uma superação. Ah, se eu for numa balada é uma superação, então a gente meio que banalizou, tudo é superação. [...] Esse pré-conceito preestabelecido sabe, de várias questões, de às vezes achar que a tua deficiência ela pode gerar uma incapacidade, ou que automaticamente porque tu consegue fazer uma coisa, então tu tem que ser um exemplo de superação em qualquer coisa (P7).
A narrativa traz um incômodo com a banalização do termo “superação”, como se tudo o que as pessoas com deficiência realizassem fosse digno de comemoração e aplausos. Nesse caso, a “superação” traz um conforto maior para a sociedade que não quer incluir, pois, afinal, as pessoas com deficiência são capazes de “superar” e ter resiliência para o descaso social. Essa narrativa vem ao encontro de relatos de participantes de estudo de Berri (2018), no qual o olhar de superação não se adéqua mais à realidade das pessoas com deficiência, uma vez que almejam que seus atos sejam vistos como uma realização comum. A visão de superação parte do pressuposto de incapacidade, relaciona-se de modo direto com o imaginário de que a pessoa com deficiência é uma coitada e vítima. Silveira (2012, p. 124) diz que “superar-se pode significar vencer ou exceder ao que se pode fazer”, ou seja, visto que socialmente não se pressupõe que pessoas com deficiência atinjam níveis de sucesso, as suas menores ações ultrapassam as expectativas, superando-as.
Nessa sequência, Oliveira (2020, p. 23) traz como um exemplo de capacitismo o fato de elogiar a pessoa com deficiência quando esta realiza qualquer atividade da vida cotidiana, como se levantar da cama e ir trabalhar, considerando-a um exemplo de superação. Casos como esse “mostram como a sociedade questiona a capacidade e autonomia das pessoas com deficiência em realizar atividades cotidianas, ou seja, trata-se de um preconceito velado, o qual precisa ser discutido e, assim, superado”. Os julgamentos de valor sobre as capacidades estão tão presentes na sociedade que seus efeitos excludentes são pouco percebidos ou questionados (Toboso, Ferreira, 2021). Dessa forma, as atitudes capacitistas contra as pessoas com deficiência refletem a falta de conscientização sobre a importância da sua inclusão social e da acessibilidade em todos os seus âmbitos (Mello, 2016).
Analisando as narrativas, infere-se que os participantes não querem se sentir dignos de pena e muito menos incapazes, e desejam ser tratados como qualquer outra pessoa, com a sua capacidade de ser e fazer, que é insistentemente negada às pessoas com deficiência. Ainda não foi identificada qualquer influência dos fatos geradores da deficiência nos relatos de capacitismo. As manifestações capacitistas ocorrem independentemente da causa da deficiência, indicando que a discriminação está associada à condição de deficiência em si, e não à sua origem específica.
Ressalta-se que a experiência corporal, as vivências sociais e os momentos de encontro e convívio com o outro são fundamentais para a vivência da corporeidade. Portanto, as atitudes capacitistas percebidas no cotidiano das pessoas com deficiência física, nas quais são vistas de forma preconceituosa como incapazes, independentemente de serem conscientes ou não, provenientes de um preconceito explícito ou não, criam barreiras atitudinais a esta vivência.
Considerações finais
Este estudo possibilitou compreender a percepção das pessoas com deficiência física sobre as barreiras atitudinais enfrentadas no seu dia a dia, bem como a influência destas na vivência da corporeidade. Ficou evidente que o capacitismo permeia as atitudes negativas e preconceituosas da sociedade em relação às pessoas com deficiência. É com base no capacitismo que ocorre a hierarquização das pessoas com deficiência em virtude da adequação de seus corpos a um ideal de beleza e capacidade funcional, sendo que os padrões de beleza inalcançáveis colaboram para a discriminação sofrida pelos participantes.
Os participantes contestam a pena e a incapacidade que lhes são atribuídas, desejando ser tratados com igualdade e reconhecimento de suas capacidades. A vivência da corporeidade é influenciada pelas interações sociais e pelas experiências corporais, mas é prejudicada por atitudes capacitistas que reforçam as barreiras atitudinais e limitam sua participação na sociedade.
Portanto, para superar a ignorância e o preconceito em torno da deficiência, a educação e a sensibilização são estratégias extremamente necessárias.
Constata-se que o período de pandemia da covid-19 não influenciou os resultados empíricos da pesquisa, todavia, tornou-se um fator limitador à aplicação de alguns instrumentos de pesquisa, como o diário de campo e observação participante. Para pesquisas futuras, sugere-se o aprofundamento das barreiras sociais e atitudinais que impactam a vivência da corporeidade em interação com diferentes tipos de deficiência física, como a amputação de membros superiores, bem como a investigação das experiências capacitistas vivenciadas por pessoas com outras deficiências.
Por fim, infere-se, a partir dos achados deste estudo, que ainda há um longo caminho na luta por condições igualitárias que contemplem a diversidade corporal, estimulem a participação social, a vivência da corporeidade e a política das pessoas com deficiência física, considerando suas capacidades e possibilidades como sujeitos de direito.
Referências
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Embora a Declaração (Declaração de Salamanca, 1994) se refira à expressão pessoas com necessidades educacionais especiais, adotou-se o termo pessoas com necessidades especiais para descrever as pessoas com deficiência na época.


Fonte: