Open-access Análise da relação entre violência doméstica contra a mulher e tabagismo no Brasil

Analysis of the relationship between domestic violence against women and smoking in Brazil

Resumo:

Este trabalho tem como objetivo analisar a relação entre a vitimização por violência doméstica sofrida pelas mulheres e a probabilidade de que elas fumem produtos do tabaco. Para tal, a partir dos dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) relativa ao ano de 2019, foram estimados modelos Probit. Os resultados indicaram que mulheres que relataram ter sido vítimas de violência doméstica têm probabilidade mais elevada de fumarem cigarros, charutos, cachimbos ou outros produtos do tabaco.

Palavras-chave:
Violência doméstica contra a mulher; Tabagismo; Probit; Brasil

Abstract:

This study aims to analyze the relationship between victimization by domestic violence suffered by women and the likelihood that they smoke tobacco products. Probit models were estimated using data from the National Health Survey (PNS) for 2019. The results indicated that women who reported having been victims of domestic violence were more likely to smoke cigarettes, cigars, pipes or other tobacco products.

Keywords:
Domestic violence against women; Smoking; Probit; Brazil

Introdução

A violência doméstica contra as mulheres é um problema patológico nas sociedades e objeto de estudo de diversas ciências. Por definição, a violência doméstica é um padrão de comportamento abusivo, que pode incluir agressões físicas, psicológicas, sexuais, emocionais e econômicas, com o objetivo de exercer controle, poder e dominação sobre a vítima e que, de acordo com Oliveira e D’Oliveira (2008), são perpetradas, em sua maioria, por parceiros íntimos. Geralmente, ela ocorre de forma repetida e sistemática, criando um ambiente de medo e insegurança para as vítimas (WHO, 2021a).

Esse ciclo de violência contra as mulheres está relacionado aos conceitos de gênero e patriarcado. Como destacado por Saffioti (2015), enquanto o conceito de gênero não implica necessariamente desigualdades entre homens e mulheres, o patriarcado é considerado uma hierarquia persistente ao longo da história. A autora destaca a evolução do patriarcado ao longo do tempo, como na Roma antiga, onde os patriarcas tinham poder de vida e morte sobre suas esposas, sendo que na atualidade os casos de violência contra mulheres ainda persistem.

Nesse sentido, de acordo com o Relatório Violence against women prevalence estimates, 2018 (WHO, 2021b), uma em cada três mulheres enfrenta violência doméstica globalmente. Esse estudo revela que as taxas mais elevadas de violência física e/ou sexual por parte dos parceiros íntimos ocorrem em países menos desenvolvidos, particularmente na Ásia Meridional e na África Subsaariana.

Alguns fatores socioeconômicos, tais como baixo nível de escolaridade, cor/raça, o fato de as pessoas de referências nos domicílios estarem desempregadas e os cônjuges serem jovens, contribuem para as chances de vitimização (Garcia et al., 2013). Ademais, os efeitos nocivos da violência doméstica sobre as condições de saúde mental das mulheres que sofrem abusos, evidenciados por diagnósticos mais comuns de ansiedade, depressão, distimia e estresse pós-traumático podem elevar o consumo de álcool e de outras drogas (Roberts et al., 2008).

Os referidos distúrbios em termos de saúde mental podem aumentar a probabilidade de tabagismo, já que o consumo de cigarro pode ser considerado uma das formas de lidar com o estresse e a ansiedade, gerados pela baixa autoestima e pelo sentimento de desamparo mediante o ambiente abusivo (Hien; Ruglass, 2009). Nesse sentido, a nicotina pode ser percebida como um alívio para os distúrbios emocionais e psicológicos (Coker et al., 2002; Weaver; Etzel, 2003). Smith et al. (2016) apontam o que o hábito de fumar pode proporcionar uma sensação temporária de alívio e controle sobre suas emoções em meio à angústia.

Além disso, essa relação envolve interações complexas com fatores socioeconômicos, sendo a violência doméstica frequentemente associada a situações socioeconômicas desfavoráveis, vide níveis elevados de pobreza e desemprego. Essas condições podem aumentar o estresse e limitar o acesso a recursos, tornando o tabagismo uma saída aparentemente acessível para lidar com as adversidades (Hemsing et al., 2012).

No que tange ao estado da arte relacionado ao tema, alguns estudos realizados em diferentes países, incluindo Peru, Índia, Estados Unidos, Japão e Portugal, revelam associação direta entre prevalência de violência doméstica e consumo de tabaco (Hernandez, 2021; Ackerson et al., 2007; Bailey; Daugherty, 2007; Dichter; Cerulli; Bossarte, 2011; Yoshihama; Horrocks; Bybee, 2010; Clemente-Teixeira et al., 2022).

No contexto brasileiro, a literatura que permeia essa relação é limitada, já que foram encontrados poucos trabalhos. A pesquisa conduzida por Veloso e Monteiro (2019) sugere que mulheres submetidas a situações de violência doméstica têm maior predisposição ao consumo de álcool e tabaco. Em contraste, a pesquisa de Audi et al. (2008) não encontrou associação estatisticamente significativa entre vitimização e tabagismo entre gestantes.

Levando em conta a escassa literatura nacional relativa ao tema, o presente estudo tem como objetivo analisar a relação entre a incidência de violência doméstica sofrida pelas mulheres e a probabilidade de que elas fumem produtos do tabaco. Dessa forma, o estudo avança no que concerne à literatura nacional ao utilizar dados mais recentes, provenientes da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, além de considerar adicionalmente como ocorre de modo específico essa relação no caso das mulheres pretas, pardas e indígenas que relataram ter sido vítimas. Ademais, o trabalho é relevante em função das complicações em termos de condições de saúde resultantes do tabagismo, tais como aumento do risco de acometimento por doenças respiratórias e cardiovasculares, além de alguns cânceres (Goulart et al., 2010).

Além desta seção introdutória, o estudo está dividido em mais quatro seções. A próxima descreve as evidências empíricas relacionadas ao tema, seguida da seção metodológica, dos resultados e das considerações finais.

1. Evidências empíricas

Estudos realizados em diferentes países têm levado em consideração que o tabagismo se relaciona diretamente com o adoecimento das mulheres, consequência da vitimização por violência doméstica. Como exemplo, Roberts et al. (2008) concluíram que mulheres submetidas a abusos por seus parceiros com frequência são acometidas por transtorno depressivo, ansiedade e fobias, além de terem significativamente mais chances de relatarem angústia emocional e tentativas de suicídio.

Ademais, Crane, Hawes e Weinberger (2013), por meio de revisão meta-analítica de 31 estudos, também verificaram essa associação. Especificamente, os autores utilizaram como ferramenta o “d de Cohen”, que é calculado como a diferença entre as médias de dois grupos dividida pelo desvio-padrão dos grupos combinados. O resultado indicou que as vítimas de violência por parte dos parceiros têm maior probabilidade de serem tabagistas em relação às que não relataram vitimização.

Adicionalmente, para Portugal, Clemente-Teixeira et al. (2022) concluíram que mulheres vítimas de violência doméstica eram muito mais propensas a consumir tabaco, álcool e outras drogas, levando em conta 14 centros de atenção primária e um hospital do país. Similarmente, em um estudo realizado nos Estados Unidos, Breiding, Black e Ryan (2008) atestaram que 33,8% das mulheres que sofreram algum tipo de violência doméstica fumavam. Em contraposição, dentre as que não foram vitimizadas, 14,9% eram tabagistas (Centers for Disease Control and Prevention, 2008).

Além disso, Yoshihama, Horrocks e Bybee (2010) constataram que as mulheres japonesas vitimizadas por seus parceiros possuíam mais chances de fumarem. Ademais, aquelas que presenciaram violência contra suas mães eram duas vezes mais propensas a começar a fumar. Indo ao encontro desse resultado, Hernandez (2021) atestou que o risco de feminicídio está associado ao agravamento dos sintomas de depressão e incidência do tabagismo e alcoolismo no Peru.

Como já ressaltado, muitas mulheres recorrem ao cigarro como uma forma de lidar com as experiências traumáticas vivenciadas, o que exacerba outros problemas de saúde oriundos do tabagismo. Nesse sentido, o tabagismo é frequentemente utilizado como uma estratégia de enfrentamento de elevados níveis de estresse causados pela experiências traumáticas, já que muitas fumantes relatam que o cigarro ajuda a aliviar a ansiedade e o estresse, proporcionando uma sensação de relaxamento e bem-estar temporário. Parrott (1999) aponta que a nicotina pode alterar os níveis de neurotransmissores no cérebro, como a dopamina, que está associada à sensação de prazer e recompensa. Esse efeito neuroquímico pode explicar por que alguns indivíduos sob estresse elevado recorrem ao tabagismo como forma de automedicação.

No entanto, essa relação é bidirecional, pois o tabagismo pode exacerbar sintomas depressivos devido aos efeitos neurobiológicos da nicotina e a outros componentes do tabaco. A depressão também pode dificultar os esforços para que os indivíduos parem de fumar, criando um círculo vicioso de dependência e problemas de saúde mental (Breslau, 1993).

Como exemplo, para a Índia, Ackerson et al. (2007) identificaram maior propensão ao consumo de tabaco entre mulheres que relataram ter sido vítimas de violência doméstica. Segundo os autores, essa associação pode ser explicada pelos efeitos farmacológicos da nicotina e pela possibilidade de o tabagismo reduzir o nível de estresse. À vista disso, Dichter, Cerulli e Bossarte (2011) identificaram que a exposição à violência por parceiro íntimo está associada a sintomas de depressão, tabagismo e consumo excessivo de álcool de mulheres norte-americanas.

Alguns estudos, por sua vez, analisaram essa associação entre eventos estressantes, como a vitimização por violência doméstica e tabagismo no período de gestação das mulheres. Assim, em uma pesquisa realizada com 104 mulheres de áreas rurais dos Apalaches, Bailey e Daugherty (2007) observaram que 81% delas relataram ter sofrido violência por parte de um parceiro íntimo durante a gravidez. Outrossim, a violência física durante a gravidez foi associada a um aumento significativo no consumo de tabaco, álcool, maconha e outras drogas ilícitas.

No contexto brasileiro, como já discutido, a literatura referente ao tema é relativamente escassa. Nesse sentido, Veloso e Monteiro (2019) consideraram em sua pesquisa 369 mulheres na faixa etária de 20 a 59 anos, atendidas em Unidades Básicas de Saúde de cinco municípios do estado do Piauí e estimaram um modelo de regressão logística. Os resultados apontaram que mulheres submetidas a situações de violência doméstica apresentaram maior predisposição ao consumo de álcool e tabaco.

Entretanto, em outro estudo realizado no país, não foi encontrada associação estatisticamente significativa entre qualquer tipo de violência e tabagismo entre gestantes. Audi et al. (2008) utilizaram dados provenientes da primeira e da segunda entrevista de uma pesquisa com dados em coorte conduzida entre março de 2004 e julho de 2006. As entrevistas foram conduzidas com gestantes que recebiam atendimento pré-natal pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em unidades básicas de saúde localizadas no município de Campinas, São Paulo.

2. Metodologia

2.1 Dados

Neste trabalho, foram utilizados dados da versão mais atual da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), de 2019. A PNS é um inquérito de saúde de base domiciliar, realizada em âmbito nacional pelo Ministério da Saúde em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A pesquisa disponibiliza uma ampla gama de informações relacionadas às condições de saúde, incluindo dados demográficos, características socioeconômicas, acesso aos serviços de saúde, entre outras.

Entre os objetivos da pesquisa, destaca-se analisar as condições de saúde e a vigilância de doenças e agravos de saúde e fatores de risco associados. Especificamente, no presente estudo, foram consideradas 18.384 observações. Ademais, os pesos amostrais foram incluídos na estimação econométrica, com o intuito de compensar desigualdades na probabilidade de seleção e para ajustar as estimativas para garantir representatividade da população.

2.2 Estratégia econométrica

Para a análise econométrica, foi utilizado o modelo Probit, que é uma técnica de modelagem estatística frequentemente utilizada para análise de regressão em que a variável dependente é binária, ou seja, assume apenas dois valores possíveis, 1 ou 0. Esse modelo é particularmente adequado quando a variável de interesse é dicotômica e o pesquisador está interessado em estimar a probabilidade de ocorrência de um determinado evento.

O objetivo central do estudo corresponde à análise da relação entre a exposição à violência doméstica e a probabilidade de que as mulheres consumam produtos do tabaco. Assim, o modelo Probit estima a probabilidade de que elas sejam fumantes regulares a partir de suas características socioeconômicas, que incluem a vitimização.

No que diz respeito à principal variável explicativa, VDCM (Violência Doméstica contra as Mulheres), atribui-se valor igual a 1 se as mulheres relataram ter sido vítimas de violência física, psicológica e sexual por seus parceiros ou parceiros, e 0 caso contrário. Como já ressaltado, além dessa variável, outras características socioeconômicas, tais como idade; cor ou raça; nível de escolaridade; área de residência (urbana ou rural); região de residência; status civil; e salário, relacionam-se com a probabilidade de consumo de produtos do tabaco e foram também consideradas, conforme a equação (1).

T a b a g i s m o i = β 1 V D C M i + β 2 U r b a n o i + β 3 I d a d e i + β 4 I d a d e 2 i + β 5 C o r i + β 6 N o r d e s t e i + β 7 N o r t e i + β 8 S u d e s t e i + β 9 C e n t r o O e s t e i + β 10 E s c o l a r i d a d e i + β 11 V i u v a i + β 12 C a s a d a i + β 13 D i v o r c i a d a i + β 14 S a l a r i o i + µ i (1)

Na equação, i representa a unidade de observação do estudo, no caso, as mulheres. Cada variável associada à i refere-se ao valor correspondente àquela unidade de observação específica e µi representa o termo de erro ou termo residual. Além dessa equação, estima-se um modelo adicional, que considera a interação entre VDCM e cor/raça, ou seja, identifica mulheres vitimizadas pretas, pardas ou indígenas. Nesse sentido, conforme Garcia et al. (2013), a prevalência do tabagismo tende a ser mais elevada entre mulheres negras. A equação que incluiu esse termo interativo é apresentada a seguir:

T a b a g i s m o i = β 1 V D C M x C o r i + β 2 U r b a n o i + β 3 I d a d e i + β 4 I d a d e 2 i + β 5 C o r i + β 6 N o r d e s t e i + β 7 N o r t e i + β 8 S u d e s t e i + β 9 C e n t r o O e s t e i + β 10 E s c o l a r i d a d e i + β 11 V i u v a i + β 12 C a s a d a i + β 13 D i v o r c i a d a i + β 14 S a l a r i o i + µ i (2)

Importante salientar que as variáveis explicativas foram incluídas a partir da literatura relativa ao tema. Ademais, para melhor compreensão delas, o Quadro 1 apresenta suas descrições, assim como os sinais esperados conforme a literatura.

Quadro 1.
Descrição das variáveis inseridas na estimação dos modelos econométricos

Para que seja possível interpretar estatisticamente os resultados, os efeitos marginais são estimados. Eles representam a mudança na probabilidade de que as mulheres fumem produtos do tabaco diariamente ou menos que diariamente para uma pequena mudança em uma variável contínua (como idade ou salário) ou mudança de 0 para 1 em uma variável binária (como VDCM, cor ou área de residência), mantendo todas as outras variáveis constantes.

3. Resultados

3.1 Análise descritiva

Conforme a Tabela 1, das 18.384 mulheres consideradas na amostra, 9,53% (1.752) afirmaram fumar produtos derivados do tabaco, tais como charuto, cigarrilha, cachimbo, cigarros de cravo, narguilé ou os que não fazem fumaça, como fumo para mascar ou rapé. Além disso, cerca de 7,59% (1.394) delas relataram ter experienciado algum tipo de violência doméstica (violência psicológica, física ou sexual). A maioria das participantes, ou seja, 87,6%, reside em áreas urbanas, apresentando uma média de idade de aproximadamente 42 anos. Ademais, 38,09% se autodeclararam brancas ou amarelas.

Tabela 1.
Estatísticas descritivas

No que tange à distribuição geográfica, 31,22% residem na região Nordeste, 17,95% na região Norte, 24,46% no Sudeste, 12,79% no Centro-Oeste e 13,58% no Sul. Quanto ao nível educacional, 26,10% possuem ensino superior completo. No aspecto marital, aproximadamente 5% são viúvas, 35% estão casadas, 12,5% são divorciadas e 47,5% são solteiras. Finalmente, o salário médio da amostra foi de R$ 1.817.

A seguir, por meio da Tabela 2, são apresentadas as médias da variável dependente condicionadas pelas dummies que apontam se a mulher relata ter sido vítima de violência doméstica (VDCM) e se ela foi vitimizada e é mulher preta, parda ou indígena (VDCM x cor). É possível observar que entre as mulheres que não relataram ter sido vítimas de violência doméstica, a média de tabagistas foi de 0,13, enquanto a média daquelas que foram vitimizadas foi de 0,17. Por outro lado, especificamente entre as mulheres pretas, pardas ou indígenas que atestaram ter sido vítimas de violência doméstica, a média de tabagistas foi de 0,18 e, em contrapartida, para quem não foi vítima e é preta, parda ou indígena, a média foi de 0,13.

Tabela 2.
Médias condicionais de tabagistas por categoria de situação de violência doméstica contra a mulher e grupo racial

Esses resultados sugerem uma possível associação direta entre vitimização por violência doméstica e probabilidade mais elevada de que as mulheres fumem produtos do tabaco, sendo tal relação especialmente importante para aquelas que são pretas, pardas ou indígenas. No entanto, são apenas indícios em termos de possível associação a ser constatada por meio da análise econométrica, em que são considerados outros controles, apresentada na próxima subseção.

3.2 Resultados econométricos

Na Tabela 3, são apresentados os resultados econométricos. Foram estimadas três especificações distintas para atestar a robustez dos resultados. Essas especificações envolvem a inclusão progressiva dos controles (step-wise). No primeiro modelo estimado, foi incluída apenas a variável relativa à vitimização por violência doméstica (VDCM). No segundo modelo, inseriram-se outros controles e, no terceiro, todas as variáveis explicativas. Foi possível comprovar que os resultados são robustos, dado que o coeficiente estimado relativo à variável VDCM nas três especificações foi positivo, estatisticamente significativo e variou muito pouco.

Para que os resultados fossem interpretados, estimaram-se os efeitos marginais da especificação 3, que corresponde ao modelo completo em que são considerados todos os controles. O resultado mais importante é relativo ao efeito marginal da variável explicativa VDCM, cujo aumento eleva em aproximadamente 3 pontos percentuais (p.p.) a probabilidade de consumo de produtos do tabaco. Esse achado está em consonância com a literatura previamente discutida, que sugere maior probabilidade de tabagismo entre as mulheres que sofreram algum tipo de violência doméstica, como destacado nos trabalhos internacionais de Hernandez (2021), Ackerson et al. (2007), Bailey e Daugherty (2007), Dichter, Cerulli e Bossarte (2011), Yoshihama, Horrocks e Bybee (2010), Clemente-Teixeira et al. (2022), Crane, Hawes e Weinberger (2013), assim como no estudo nacional de Veloso e Monteiro (2019).

Tabela 3.
Resultados econométricos

A literatura destaca alguns mecanismos pelos quais a violência doméstica contra mulheres se relaciona ao tabagismo. Em primeiro lugar, a vitimização por violência doméstica está intensamente associada ao aumento do estresse, da ansiedade e da depressão, o que pode fazer com que as vítimas consumam produtos do tabaco como forma de enfrentamento a esses transtornos vivenciados. Nesse sentido, o hábito de fumar pode fornecer um alívio temporário dos sintomas de estresse e ansiedade, criando uma dependência psicológica e física da nicotina.

A nicotina tem efeitos farmacológicos que podem ajudar a modular o humor e reduzir a ansiedade, fazendo com que as vítimas recorram ao tabagismo como uma forma de automedicação para lidar com a angústia emocional causada pela violência (Ackerson et al., 2007; Souza; Vizzotto; Gomes, 2018). Além disso, a vitimização por violência doméstica pode levar a um ciclo de comportamento de risco e baixa autoestima, o que aumenta a probabilidade de que as mulheres incorram em hábitos prejudiciais às condições de saúde, como é o caso do tabagismo (Crane; Hawes; Weinberger, 2013; Bailey; Daugherty, 2007).

No que concerne à especificação 4, o coeficiente do efeito marginal associado à variável VDCM x Cor é positivo e estatisticamente significativo. Isso indica que, considerando-se mulheres pretas, pardas ou indígenas, o aumento da vitimização por violência doméstica está relacionado com o acréscimo de aproximadamente 6 p.p. sobre a probabilidade de que elas fumem produtos do tabaco diariamente ou menos que diariamente em relação ao grupo geral.

À vista desse resultado, inicialmente, é importante ressaltar que essas mulheres, em geral, possuem maior nível de vulnerabilidade socioeconômica, tendo menor acesso à educação, ao emprego e aos serviços de saúde, que são fatores relacionados ao tabagismo. Assim, a escassez de recursos e oportunidades aumenta os níveis de estresse e ansiedade, que muitas vezes são gerenciados por meio do tabagismo, como já salientado. Ademais, a interseção de múltiplas formas de discriminação e marginalização, como racismo, sexismo e violência, que fazem parte da vida dessas mulheres, pode exacerbar os efeitos emocionais da vitimização, aumentando a probabilidade de que elas recorram ao tabagismo (Garcia et al., 2013).

Em relação às demais variáveis de controle, vide estimação da especificação 3 (modelo completo), os resultados indicam que a idade e a idade ao quadrado têm efeito significativo sobre a probabilidade de tabagismo. Especificamente, cada ano adicional de vida aumenta a probabilidade de tabagismo em cerca de 1 p.p. No entanto, o efeito da idade ao quadrado é negativo e significativo, sugerindo redução de aproximadamente 0,05 p.p. nas chances de que as mulheres fumem produtos do tabaco. Esse resultado pode estar relacionado ao fato de que, com o avanço da idade, os problemas de saúde relacionados ao tabagismo podem se tornar mais evidentes, o que tende a reduzir o consumo ou pode haver cessação completa (Monteiro et al., 2007).

Por sua vez, as dummies regionais também apresentam efeitos significativos sobre a variável dependente, sendo todos os coeficientes estimados negativos. Assim, observou-se que mulheres residentes nas regiões Nordeste, Norte, Sudeste e Centro-Oeste possuem aproximadamente 7 p.p., 6 p.p., 2 p.p. e 3 p.p., menores chances de consumirem produtos do tabaco em relação às que moram na região Sul. Esse resultado pode ser atribuído a fatores históricos e culturais da região sulista (Bazotti et al., 2016; Malta et al., 2021).

As variáveis indicativas do estado civil apresentam efeitos negativos significativos sobre a variável dependente. Em comparação com as solteiras, viúvas, casadas e divorciadas possuem menor probabilidade de fumarem produtos do tabaco em aproximadamente 3 p.p., 8 p.p. e 3 p.p., respectivamente. Nesse sentido, pessoas casadas e viúvas frequentemente têm redes sociais e suporte emocional mais robustos, o que pode reduzir comportamentos de risco, como é o caso do tabagismo (Ramsey et al., 2019).

Por sua vez, mulheres que possuíam ensino superior completo, variável Superior Completo, têm probabilidade reduzida em aproximadamente 5 p.p. de fumarem produtos do tabaco. Esse resultado é corroborado pela literatura, já que níveis mais elevados de educação estão frequentemente associados a mais conscientização e menor prevalência de tabagismo (Cutler; Lleras-Muney, 2010; Kenkel, 1991; Siahpush, 2004).

Com relação à variável que denota o nível salarial, um aumento de R$ 100 associa-se com uma redução de aproximadamente 0,06 p.p. na probabilidade de que as mulheres consumam produtos do tabaco. Essa relação pode ser explicada pelo fato de que o acesso a recursos financeiros adicionais pode representar adoção de estilos de vida mais saudáveis por parte das mulheres, o que está de acordo com o estudo de Barros et al. (2011). Por fim, importante salientar que as variáveis Cor e Urbano não foram estatisticamente significativas no modelo analisado (especificação 3).

Considerações finais

O presente estudo teve como objetivo analisar a relação entre vitimização das mulheres por violência doméstica e probabilidade de que elas fumem produtos do tabaco. Para tal, utilizaram-se dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019 e estimação de modelos Probit. O principal resultado indicou que mulheres vítimas de violência doméstica tendem a consumir produtos do tabaco, alinhando-se à maior parte da literatura existente referente ao tema.

Nesse sentido, a vitimização pode se associar ao tabagismo por meio de alguns mecanismos. Mulheres vítimas de violência doméstica tendem a apresentar sintomas de estresse, ansiedade e depressão, o que pode fazer com que consumam produtos do tabaco como forma de enfrentamento da adversidade vivida. A nicotina oferece alívio temporário dos sintomas emocionais, criando uma dependência psicológica e física.

Outrossim, a violência doméstica pode resultar em um ciclo de comportamento de risco e baixa autoestima, o que aumenta a probabilidade de adoção de comportamentos prejudiciais ao estado de saúde, como o tabagismo. A baixa autoestima e os sentimentos de desamparo podem diminuir a motivação para que as mulheres zelem por suas condições de saúde. Nesse contexto, o tabagismo seria uma forma de autossabotagem ou negligência pessoal.

Ademais, foi possível observar que esse efeito é mais pronunciado em mulheres pretas, pardas e indígenas. Esse grupo de mulheres, geralmente, enfrenta uma combinação de fatores de risco adicionais que aumentam a probabilidade de tabagismo, incluindo discriminação racial, maior exposição a condições socioeconômicas adversas e acesso limitado a recursos de saúde e apoio. Além disso, mulheres que não possuem ensino superior, residentes da região Sul, com menor nível salarial, mais velhas e solteiras têm maior probabilidade de consumirem produtos do tabaco.

Apesar da limitação em termos de subnotificação relativa à vitimização por violência doméstica em virtude do receio da denúncia, os resultados encontrados destacam a complexidade do tema, suscitando a necessidade de abordagens multidisciplinares para compreender e delinear estratégias em termos de políticas públicas.

Nesse sentido, intervenções públicas direcionadas para a redução da violência doméstica podem propiciar redução do tabagismo, particularmente para mulheres em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Especificamente, a implementação de programas integrados que ofereçam proteção e suporte psicológico para as vítimas, além de políticas educativas que objetivem a redução do tabagismo podem ser eficazes.

Referências

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    13 Out 2024
  • Aceito
    01 Dez 2024
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