DOCUMENTOS CIENTÍFICOS
Matéria1
Matter
Michael Faraday
§1 Como filósofo natural e limitando propositadamente meu objeto de investigação aos fenômenos apresentados pela criação material, eu, em comum com todos que têm esse mesmo objetivo, senti-me compelido a formar uma idéia de matéria. Visando ordenar meus pensamentos naquela seqüência ou condição que se mostre ser a menos inconsistente com os fenômenos, parece-me muito importante assumir o mínimo possível,2 já que qualquer coisa que se assume pode estar errada.
§2 Deus3 deleitou-se em trabalhar em sua criação material por meio de leis, e tais leis se fazem evidentes a nós tanto pela constância das características da matéria como pela constância dos efeitos que produz. A matéria, tanto quanto possamos observá-la, é invariável em si mesma;4 age por forças impressas as quais, tanto quanto possamos julgar, são também invariáveis, não tendo sofrido nenhuma mudança desde que o homem tem estado na Terra e, como temos razão para crer, nenhuma, desde o primeiro momento de sua criação até agora. Sua integridade e a integridade das leis que governam o universo material estão ligadas entre si.
§3 Assim, no que concerne à natureza da matéria tome-se um pedaço de madeira, ou ferro, ou pedra, que eu acredito, como qualquer outra pessoa o faria, ser matéria, e que eu creio se manifeste aos sentidos como uma espécie particular de matéria através de suas propriedades; pois não há outra forma de se conhecer a matéria, quer de maneira geral quer específica, a não ser pelas propriedades que ela exibe. Mas tais propriedades pertencem a ela em virtude das forças que lhe pertencem e de nenhuma outra maneira;5 pois, com o consentimento de todos os filósofos naturais, a palavra "força", ou "forças", é usada para expressar aquilo que lhes confere suas propriedades e poderes.6 Assim, por exemplo, o peso ou a gravitação de um corpo depende da força a que chamamos atração; e essa força não é alguma coisa à parte ou separada da matéria, nem a matéria é separada da força; a força é uma propriedade ou parte essencial da matéria e, falando de modo um tanto absurdo, a matéria sem força não seria matéria. Ou, se reconhecemos a matéria por sua dureza, o que faríamos senão reconhecer através de nossas sensações uma força exercida por ela? Pressiono meu dedo contra um vidro e porque meu dedo sofre sua resistência é que digo que ele é duro; mas como surge essa dureza ou resistência? Por uma força de repulsão que, existindo nas partículas do vidro e nas partículas de meu dedo, impede que se aproximem mutuamente mais do que uma certa distância, fixada pelas circunstâncias, mas variando quando as circunstâncias variam. Eu reafirmo que o vidro é duro, porque suas partículas resistem ao deslocamento; não que elas sejam tocadas por alguma superfície sólida7 imaginária, pois podemos facilmente colocar as partículas mais perto ou mais longe, umas das outras, por meio da pressão, do calor etc., mas sim porque são as forças das partículas que as mantêm, sob tais circunstâncias, a uma dada distância e em uma dada posição.
§4 Passemos, então, imediatamente à noção comum de partículas ou átomos de matéria, e vejamos a que isso nos leva. A noção comum é a de que existe algo a ser chamado de matéria, que possui certas forças (as forças da matéria) impressas nela; além de que ela existe independentemente das forças, ainda que deva suas propriedades a elas, e que a matéria e as forças possam ser concebidas separadamente uma da outra. Seja então a.a.a. a representação de três átomos de prata, por exemplo, em um pedaço de prata sólida. Em primeiro lugar, eles gravitam, em virtude de uma força existente neles, que se estende a distâncias tais como aquelas que existem entre nós e o Sol e as estrelas. Em segundo lugar, eles são mantidos invariavelmente separados uns dos outros, por forças que chamamos de atração e repulsão, e não se tocam (exceto através de suas forças), pois eles nunca estão tão próximos que não se possa fazer com que se aproximem com um pouco mais de frio8 ou um pouco mais de pressão. Em terceiro lugar, eles refletem a luz, mas, como Brewster9 mostrou, a reflexão da luz por um corpo começa antes que o raio de luz tenha efetivamente alcançado e tocado o corpo,10 o que é também facilmente mostrado no caso de qualquer refletor comum polido pelos meios usuais. Finalmente, suas propriedades químicas se manifestam muito antes que as supostas partículas reais toquem-se mutuamente, tanto na eletrólise como na ação química dos gases sendo que nesta, de fato, as supostas partículas reais de matéria são consideradas como estando muito afastadas entre si.
§5 Todas as propriedades, portanto, através das quais tomamos consciência da presença da matéria e a conhecemos, são dependentes de forças que agem a alguma distância do núcleo real e dele, como uma coisa em si,11 não podemos, de forma alguma, adquirir consciência. Assim, por tudo o que sabemos, os supostos núcleos materiais, em vez de serem tão grandes a ponto de quase se tocarem, podem ter somente metade daquele tamanho ou diâmetro, ou ainda menos, ou mesmo meros pontos; pois, quer esses núcleos sejam de um tamanho maior, ou de um tamanho imediatamente próximo, ou do terceiro tamanho, que é ainda menor, ou apenas pouco mais que um simples ponto, se eles tiverem uma quantidade de poder constante para todos os tamanhos, seus efeitos e propriedades serão os mesmos, isto é, eles gravitarão, permanecerão coesos, refletirão a luz e agirão quimicamente com exatamente a mesma quantidade em quaisquer dos casos: pois se supõe que as forças estão definidas e que as propriedades são determinadas por elas. Conseqüentemente, se assumirmos esses núcleos de matéria, é claro que não teremos nenhuma noção de seu tamanho relativamente ao espaço que ocupam em uma massa de matéria: sabemos que, de acordo com a suposição inicial e com os fatos, a soma de seus volumes deve ser menor do que o volume da matéria que eles formam como uma massa; mas, se se trata de nove décimos, ou metade, ou um quarto, ou um décimo, ou um centésimo, ou cem milésimos, não temos a menor condição de julgar.
§6 Pois bem como não podemos conhecer esse núcleo por nenhuma propriedade ou força que ele tenha e que seja independente daquelas que nos são mostradas pelos fenômenos da natureza como agindo a distância dele, que razão há para supor que ele afinal exista? Ou como podemos conceber sua existência independentemente dessas forças? Dois desses pretensos átomos nunca se tocam; tocam-se apenas através de suas forças; se supuséssemos, então, que essas forças são eliminadas, o que aconteceria? A prata não deveria desaparecer? Não haveria mais gravitação, nem reflexão da luz, nem ação química e, se fosse possível imaginar que as duas partículas são empurradas até que realmente se encontram e se pensássemos que elas iriam (por uma espécie de dureza impenetrável) resistir uma à outra, isso serviria apenas para renovar a idéia de um átomo com suas forças; pois não conhecemos nenhuma resistência desse tipo na natureza, exceto a de partículas que agem a distância; e distâncias as quais podemos tornar menores ou maiores por meio do calor, do frio e da influência química.
§7 Que razão real existe, portanto, para se supor que haja um tal núcleo em uma partícula de matéria? Eu acredito que um átomo de matéria seja uma quantidade imutável de poder, e tão indestrutível como qualquer um daqueles átomos que Newton ou outros possam ter imaginado como constituídos de núcleos; e creio que esse poder esteja agrupado ao redor e vinculado a um centro, tanto quanto outros supõem-no associado a um núcleo; mas para que precisamos do núcleo, ou como ele é reconhecido, ou o que ele é independentemente do poder ao seu redor e nas suas vizinhanças, não posso imaginar pois, abstraído de suas propriedades, não resta pensamento algum em minha mente, no qual eu possa encontrar a idéia de um núcleo. Não será a noção evanescente, que ainda permanece na mente de alguns, realmente um pensamento de que Deus não poderia tão facilmente, pela sua palavra, colocar o poder em existência ao redor de centros, assim como poderia, primeiramente, criar os núcleos e, então, revesti-los de poder? Será que existe alguma coisa mais compreensível às nossas mentes, na complicada noção de matéria sem poder e de poder sem matéria, e de matéria e poder amalgamados, do que há na visão simplificada do poder que emana a partir e ao redor de um centro? O que é, afinal, simplesmente parte da primeira noção (ou seja, poder sem matéria) e, conseqüentemente, dentre as incompreensíveis, a suposição em que se assume menos.12
§8 Eu poderia continuar até que me perdesse nessas considerações que, afinal de contas, devem ser tomadas apenas como suposições, qualquer que seja a visão que estejamos inclinados a adotar. Mas, retornando aos pontos afirmados inicialmente como a base da filosofia natural, a saber, que o Criador governa suas obras materiais por meio de leis definidas, que resultam das forças impressas sobre a matéria, e que a matéria é aquilo de que temos cognição através de nossos sentidos externos. Assim, não posso imaginar força física sem matéria ou matéria sem força. A matéria age e sofre a ação exclusivamente através de suas forças, e os átomos de matéria são, em minha imaginação, centros de força. [O que é força não sei; a natureza de nossa existência só nos torna possível reconhecê-la e estimá-la por seus efeitos.]
Royal Institution
19 de fevereiro de 1844
Michael Faraday
Notas
Traduzido do original em inglês por Sonia Maria Dion

