Open-access Educação sexual sob a perspectiva de adolescentes e responsáveis

Sexual education from the perspective of adolescents and guardians

La educación sexual desde la perspectiva de adolescentes y tutores

Resumo

Resumo  Objetiva analisar a educação sexual sob a perspectiva do discurso de adolescentes e seus responsáveis. Participaram das entrevistas 15 adolescentes acompanhados pela Equipe Multiprofissional em Saúde do Adolescente e 11 responsáveis. Na interpretação dos resultados utilizou-se a análise do discurso segundo referencial de Michel Foucault. Formou-se 2 categorias: O discurso dos adolescentes sobre sexualidade e O discurso dos responsáveis sobre sexualidade. Evidencia-se que a temática não é debatida nos espaços investigados. Os adolescentes sinalizam a dificuldade em compartilhar suas experiências e dúvidas. As narrativas dos responsáveis revelam preocupação com a gravidez precoce e ISTs, negligenciando as questões de gênero e subjetividade dos filhos. Estratégias de educação sexual e afetiva são emergentes nas escolas e unidades de saúde em conjunto com os responsáveis.

Palavras-chave:
adolescente; sexualidade; identidade de gênero; comportamento sexual; educação sexual


Abstract

Abstract  It aims to analyze sex education from the perspective of the discourse of adolescents and their guardians. The participants were 15 adolescents monitored by the multidisciplinary team in adolescent health and 11 guardians. In interpreting the results, discourse analysis was used according to Michel Foucault's framework. Two categories were formed: The discourse of adolescents about sexuality and The discourse of those responsible for sexuality. It is evident that the theme is not discussed in the spaces investigated. Adolescents indicate the difficulty in sharing their experiences and doubts. The narratives of those responsible reveal concern about early pregnancy and STIs, neglecting issues of gender and subjectivity of the children. Sexual and affective education strategies are emerging in schools and health units in conjunction with those responsible.

Keywords:
adolescent; sexuality; gender identity; sexual behavior; sex education


Resumen

Resumen  El estudio tiene como objetivo analizar la educación sexual desde la perspectiva del discurso de los adolescentes y sus tutores. Los participantes fueron 15 adolescentes acompañados por el equipo multidisciplinario en salud del adolescente y 11 tutores. En la interpretación de los resultados, se utilizó el análisis del discurso según el marco de Michel Foucault. Se conformaron dos categorías: El discurso de los adolescentes sobre la sexualidad y El discurso de los responsables sobre la sexualidad. Es evidente que el tema no es discutido en los espacios investigados. Los adolescentes señalan la dificultad para compartir sus experiencias y dudas. Los relatos de los responsables revelan preocupación por el embarazo precoz y las ITS, dejando de lado cuestiones de género y subjetividad de los niños. Las estrategias de educación sexual y afectiva están surgiendo en las escuelas y unidades de salud en conjunto con los responsables.

Palabras clave:
adolescente; sexualidad; identidad de género; conducta sexual; educación sexual


Introdução

A adolescência transcorre entre 10 aos 19 anos segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). É um período marcado por mudanças anatômicas, hormonais, sociais e psicológicas. A construção da identidade faz parte desse processo e encontra-se associada a intensas contradições e transgressões que resultam em uma fase de maior vulnerabilidade e propensão a comportamentos de risco (Sales et al. 2020).

A partir do desenvolvimento puberal e alterações hormonais muitos adolescentes experienciam nuances da sexualidade e do relacionamento interpessoal. Estas vivências são influenciadas pela época, local, sociedade e cultura. Atualmente, percebe-se que houve redução da idade do início da atividade sexual, multiplicidade de parceiros e de casos de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) (UNESCO 2019).

Muitos adolescentes se aproximam da vida adulta trazendo ideias controversas, divergentes e obscuras sobre a sexualidade associada a uma educação sexual fragilizada (Peres 2020). Observa-se que a sexualidade na adolescência é amplamente discutida na academia, entretanto falar sobre sexo no século XXI ainda causa desconforto e o assunto é normalmente abordado como um tabu, com retrocesso seja pela mídia, família, escola (Barbosa et al. 2019).

Acredita-se que a sexualidade na adolescência é permeada por marcadores sociais como cor, gênero, classe social, orientação sexual e condição de cidadania. As desigualdades sociais entre os adolescentes, constituem eixos de subordinação que se manifestam de forma interseccional. Frequentemente adolescentes negras, pobres e com disforia de gênero, apresentam dificuldades de acesso aos serviços de saúde e têm seus direitos sexuais e reprodutivos negligenciados (Bourguignon 2024).

Embora tenha havido avanços nas últimas décadas que possibilitaram a elaboração de políticas públicas voltadas para a garantia dos direitos sexuais e reprodutivos, faz- se necessário assegurar as ações do Sistema Único de Saúde (SUS) como política universal em que há possibilidade de criar espaços de encontro, partilha e diálogo com os adolescentes e seus significantes no serviço. Por meio da autonomia, da criatividade, do respeito da diversidade e de metodologias ativas é possível que a educação sexual seja integral, efetiva e capaz de envolver um número cada vez maior de indivíduos (Peres 2020).

Tendo em vista essa problemática e considerando a dificuldade de promover educação em saúde sexual nas escolas, acrescido ao discurso unidirecional e soberano que tanto incomoda, enraizado nas instituições de ensino, as quais deveriam educar e promover um ambiente seguro e acolhedor para os adolescentes, este presente estudo teve como objetivo analisar a educação sexual sob a perspectiva do discurso dos adolescentes e seus responsáveis.

O texto está estruturado em cinco partes. Inicialmente introduz o desenvolvimento da sexualidade na adolescência e suas nuances e problematiza a educação sexual no contexto da escola pública. Em seguida é descrito as etapas do método de pesquisa adotado, na abordagem da análise do discurso. Os resultados são agrupados em duas grandes categorias. Na sequência é apresentado uma reflexão sobre a educação sexual na perspectiva dos adolescentes e seus responsáveis e os interdiscursos. Na quinta parte são descritas as considerações finais.

Metodologia

Trata-se de uma pesquisa qualitativa, do tipo interpretativa, cujo método utilizado foi a Análise do Discurso, segundo a perspectiva de Foucault (1996), uma vez que a questão fundamental consiste em analisar o discurso vigente na relação entre adolescentes e seus pais ou responsáveis sobre o comportamento sexual e reprodutivo na adolescência.

Nessa abordagem, compreende-se que o discurso presente nas entrevistas é socialmente constitutivo. A linguagem é posicionada na prática social como o discursivo e o não discursivo. Foucault revela a ligação entre o discurso, o desejo e o poder. Ele aponta que nessa imbricada relação nem tudo pode ser dito, depende das circunstâncias e de quem diz, há aqueles que podem e aqueles que não podem falar (Lima et al. 2024).

Esta inquietude discursiva revela como o não dito opera para perpetuar as vulnerabilidades e inequidades e amplia a possibilidade de compreender simultaneamente dois processos de aprendizagem social e de subjetivação aqui representado pelos atores adolescentes e seus responsáveis.

Foram convidados para participar do estudo os adolescentes maiores de 13 anos que pertenciam à área de abrangência do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde do Adolescente (REMSA) e estavam em acompanhamento na atenção primária pela equipe. Os residentes utilizam o Projeto terapêutico singular e a gestão da clínica como ferramenta de trabalho, atendendo o adolescente e sua família considerando todas as suas especificidades. A Equipe está alocada em uma ESF de um município do centro–oeste mineiro. Para participar do estudo foram definidos os seguintes critérios de inclusão: não apresentar déficit cognitivo ou deficiência que impeça o entendimento das questões, ou comprometa a decisão sobre a escolha em participar do estudo e não ter vivenciado violência sexual.

Na pesquisa qualitativa não há a preocupação com o número de participantes e sim com sua representatividade, a qual responda os objetivos do estudo, e se alcance a saturação dos dados, quando novos elementos não são mais encontrados na análise dos resultados (Fontanella et al. 2008).

A coleta de dados iniciou-se após a aprovação do projeto (CAAE n°56870622000005545) e ocorreu de agosto a dezembro de 2022. A pesquisa se deu por meio de entrevistas individuais, em local privativo, para as quais foram utilizados dois roteiros semiestruturados, sendo um para os responsáveis e outro para os adolescentes.

O registro das respostas foi realizado por meio do gravador de áudio presente no aparelho celular da pesquisadora, em seguida seu conteúdo foi armazenado em pen drive e excluído da nuvem. As narrativas foram transcritas na íntegra para análise e interpretação dos discursos.

A análise de discurso compreendeu um movimento de três etapas: 1ª) Organização, transcrição e disposição dos discursos na íntegra; 2ª) Leitura vertical, que compreende a leitura exaustiva de cada discurso individual para apreensão das ideias centrais; 3ª) Leituras horizontais, para determinar as ideias ou significados que se assemelham ou não com a organização dos dados convergentes em temas comuns, determinando as categorias (Ribeiro e Coelho 2020).

Para garantia de anonimato, os participantes foram identificados de forma alfanumérica, letra A para os adolescentes e R para os responsáveis, sendo todos seguidos do número conforme a ordem das entrevistas. Na última etapa da análise fez-se a interpretação dos resultados, estabelecendo a discussão com a literatura existente e a experiência e o conhecimento das pesquisadoras.

Resultados

Características dos participantes

Participaram do estudo 15 adolescentes cisgêneros, sendo que 9 se identificam como gênero feminino e 6 do gênero masculino. A idade variou entre 14 e 18 anos. Todos são estudantes da rede pública estadual, 14 cursam o Ensino Médio e 1 está no 9° ano fundamental. Os resultados evidenciaram que 6 são católicos, 6 não possuem religião, 2 são evangélicos e um é espírita. Todos os participantes residem em bairros periféricos do município, a maioria dos adolescentes se autodeclararam pardos.

No quesito sexarca1, 6 adolescentes apresentaram resposta positiva, apenas 2 utilizaram preservativo nesta experiência. Dentre os métodos contraceptivos disponíveis todos os participantes conheciam o preservativo e o anticoncepcional oral, já o DIU foi citado por 5 adolescentes.

Com relação aos responsáveis 11 participantes cisgêneros, 9 eram mulheres e 2 homens. A idade variou entre 32 e 42 anos. No que diz respeito ao estado civil, 6 eram casados, 2 separados e 3 solteiros. A idade média da sexarca permeou os 17 anos, e atualmente 6 participantes não utilizam nenhum método contraceptivo, 4 estão em uso de anticoncepcional oral, e apenas 1 relatou uso de preservativo.

Diferente dos adolescentes, 2 responsáveis não possuem religião, daqueles que afirmaram ter uma crença, 7 são católicos e 2 são evangélicos. Com relação à escolaridade 2 possuem ensino superior, 5 possuem ensino médio completo, 1 ensino médio incompleto e 1 ensino fundamental completo. Todos também residiam em bairros periféricos e a maioria se autodeclarou parda.

Considerando a análise das características individuais e do conteúdo do discurso presente nas entrevistas, os resultados foram organizados em duas categorias que se referem à perspectiva dos adolescentes e dos seus responsáveis sobre sexualidade.

Categoria 1: o discurso dos adolescentes sobre sexualidade

O discurso sobre sexualidade na perspectiva do adolescente é restrito, frágil, preconceituoso e demonstra a inexistência de um vínculo afetivo entre os adolescentes e seus responsáveis, o que leva o adolescente a buscar informação com outras pessoas próximas sobre a temática.

Não tem muito, na verdade nenhum, eu não me importo tanto assim, para mim é de boa (A1). Sinceramente nós não falamos nada disso, não toca no assunto (A8). A gente não conversa muito sobre isso. Ela só impede mesmo (A10).

Com minha mãe não tem. Mas com minha irmã adolescente tem. Ela e minha mãe sabem que eu sou bissexual, mas minha mãe é homofóbica (A3).

Muito pouco, eu tenho vergonha de conversar sobre isso, eu sinto que não tenho tanta intimidade com minha mãe para conversar sobre isso. Ela também não fala sobre esse assunto. Eu costumo conversar sobre isso com minha avó (A4).

Eu converso mais com minha madrasta, ela fala e explica tudo sobre isso. Meu pai já é muito bravo e fechado, não tenho liberdade com ele (A6).

Observa-se nas narrativas que quando os pais falam sobre sexualidade enfatizam o uso de preservativos e a prevenção das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e de uma gravidez não planejada.

Nós não falamos muito sobre isso, mas também não é um tabu. Quando tem que falar por exemplo sobre doenças ... meus pais já explicaram algumas coisas (A5).

Falaram para usar camisinha, sobre anticoncepcional e não ensinaram como colocar. Só resolveram falar no final. Quando eu já tinha feito (A9).

A minha tia fala para eu me prevenir, fala que eu sou muito nova. Tipo na época que eu namorava ela não deixava eu ficar sozinha com meu namorado no meu quarto, só ele que podia ir lá para casa (A10).

Entremeio ao discurso de proteção existe um medo de repetir a história de vida materna e de outras adolescentes que tiveram uma gravidez precoce.

Fala todo dia a mesma coisa, que não quer saber de neto tão cedo (A12).

Eles não querem que aconteça de repetir a história deles. Sabe, minha mãe foi mãe com 15 anos (A11).

Tinha que falar né? Tem uma menina do 1° ano que apareceu grávida. Aí foram querer falar de gravidez (A12).

Na perspectiva dos adolescentes entrevistados as escolas não promovem educação sexual.

Minha escola não ajuda muito, porque não tem nenhum tipo de ensino que fala isso, falou só um pouco no sétimo ano (A1). As professoras não falam sobre isso não, deveria falar muito mais (A2, A9). Não deveria ser um tabu falar sobre isso nas escolas. Na minha não aborda sobre (A4, A5, A6, A7). Sinceramente aqui na minha escola nunca teve esse momento (A8) A gente não trabalha muito sobre isso (A10, A11, A12, A13) isso não é coisa de escola não (A15).

Na época da pandemia eles falaram um pouco. É uma coisa que tem muito tabu. Na minha sala qualquer coisa eles fazem piadinha sobre isso e não tem maturidade para entender. Eu mal faço ideia de como funciona esse negócio porque realmente eu não aprendi (A10).

Embora não tenham vivenciado a educação sexual na escola, os adolescentes reconhecem a importância de incluir esta abordagem na sala de aula.

A escola poderia ajudar nisso, porque a maioria das famílias não explicam. É uma coisa que devia estar no componente curricular, ter aula semanalmente sobre isso (A3).

Podia conversar com os alunos sobre isso. Para eles terem uma noção. Sinto falta (A6).

Devia falar mais sobre, como usa os métodos contraceptivos, as doenças, gravidez, qual a idade certa que o seu corpo está preparado (A7).

Para além da escola, os adolescentes mencionam as unidades de saúde como espaço para a educação sexual, embora as ações pontuadas pelos participantes fiquem limitadas às estratégias isoladas como palestras e distribuição de preservativos.

Me auxiliar a tomar mais cuidado, falar sobre sexo e doenças (A1). Ajudar e informar (A2).

Lá pode tirar dúvidas, fazer exames para ver se tem alguma doença (A4).

Senão me engano ela já faz. É dar informação mesmo, distribuir camisinha de graça (A8).

Explicar, dar palestra, dar anticoncepcional, essas coisas de saúde (A11).

Da palestra. Falar de doença. Eu venho aqui buscar camisinha. Antes eu comprava. Achava que a daqui não prestava. Mas é boa do mesmo jeito (A10).

Nas narrativas os adolescentes falam da importância de um trabalho conjunto entre as escolas e os serviços de saúde:

Eu acho que a Unidade de saúde devia se juntar com a Escola, tipo levar uns agentes para dar aula lá (A3).

Acho que deveria abordar mais, igual precisa ir na escola. Porque no meu grupinho de colegas sempre tem o assunto (A5).

A necessidade de orientação sobre a temática fica evidente quando os adolescentes falam sobre sexo, sexualidade e gênero, nas narrativas a compreensão dos adolescentes e as ideias se misturam, apresentam uma dificuldade em definir estes conceitos.

Sexo é um ato de amor entre um casal, sexualidade eu não sei, gênero é uma escolha da pessoa, pode ser o que quiser (A2).

Sexo é ligado a reprodução e prazer. Gênero é o que a pessoa nasceu, sexualidade é aquilo que ela se sente, como ela se identifica (A5).

Sexo é uma relação entre o corpo de homem e de uma mulher, não sei explicar. Sexualidade é se a pessoa é bi, hétero, lésbica e gay. Gênero é feminino e masculino (A6).

Pode-se observar que a ausência de educação sexual na escola reproduz a narrativa binária do adolescente ao potencializar papéis de gênero estereotipados e desconsiderar a diversidade de identidades e orientações sexuais. Sem informações abrangentes e inclusivas, os adolescentes ficam restritos a uma visão limitada e normativa da sexualidade, no que se refere a “masculino” e “feminino”.

Para mim sinceramente só existe gênero masculino e feminino, esse negócio de LGBT não tenho nada contra, mas não apoio. Se a pessoa está feliz, está normal então. Não curto muito essas coisas. Sexualidade é só masculino e feminino (A8).

Sexo é reprodução, penetração, alguns fazem por prazer. Gênero é como a pessoa se vê. Sexualidade é como ela se relaciona. Na minha escola tem de tudo (A11).

Sexo e sexualidade é a mesma coisa. Gênero é se gosta de mulher ou de homem (A15).

Ao discursar sobre as primeiras experiências sexuais vivenciadas na adolescência, os participantes demonstram dificuldades em dividir com os responsáveis ou amigos os sentimentos que acompanham essas relações afetivas e procuram caracterizar por meio de analogias o vivido.

Já que não sou assumido, mas sou bissexual eu não converso com ninguém sobre isso, então nada acontece. Na escola tem muita gente homofóbica, isso é meio ruim (R2).

Eu não tenho muita experiência. Dei meu primeiro beijo aos 15 anos, eu nunca namorei, foi um beijo normal (A5).

Eu fiquei com um menino e o beijo dele era lento, foi bom, E outra vez eu fiquei com um que parecia um liquidificador, muito ruim (A4).

Já passei por homofobia, mesmo as pessoas não sabendo sobre minha sexualidade. Tipo, sapatão, lésbica. Ameaçaram contar para minha família (A10).

Teve uma vez um menino da minha sala foi ficar comigo depois da aula. Aí ele mordeu minha língua. Até saiu sangue (A11).

Na falta de uma aproximação efetiva com os pais ou responsáveis, e sem espaço para dividir as primeiras experiências sexuais, os adolescentes dizem buscar informações na internet se servindo até mesmo do aplicativo TikTok.

Igual minha menstruação vem há um mês e faltam cinco, aí eu preciso procurar uma ginecologista, mas acabo esquecendo e minha mãe também. Então eu assisto vídeo no

Youtube, pergunto para uma médica conhecida (A3).

Eu procuro na internet, vídeos de médicos, no TikTok e alguns livros da escola (A7).

Eu pergunto à minha madrasta, ou quem sabe. Minhas amigas falam muito disso. As vezes olho na internet também (A6).

Na internet tem quase tudo! (A9, A12, A13).

As narrativas dos adolescentes que participaram desta pesquisa apontam a necessidade de uma educação sexual em diferentes espaços como a escola, a família e a unidade de saúde. Este movimento estimula a reflexão e elaboração de sentimentos, atitudes e conhecimentos, existe uma necessidade emergente de compartilhar suas vivências da sexualidade, considerando suas angústias e inseguranças relacionadas à temática.

Categoria 2: o discurso sobre sexualidade na perspectiva dos responsáveis

O discurso dos responsáveis sobre a sexualidade traz componentes diferentes dos adolescentes demonstrando uma preocupação com a temática e mesmo um zelo que não é enfatizado nas narrativas dos adolescentes. Mas ainda sinaliza uma preocupação direcionada para a prevenção de uma gravidez não planejada e das ISTs.

Então falo e protejo de todos os lados possíveis, já comprei preservativo e coloquei na mochila da adolescente. Ela precisa saber como acontece, os riscos que ela tem! (R1).

Conversar, orientar, ela precisa entender como é, os riscos. É responsabilidade nossa saber. Quero que ela aproveite a vida antes de ter filhos. Deus sabe a hora certa. Adolescente tem que se preocupar com estudar (R7).

Eu procuro muito orientar ela, inclusive está precisando passar no ginecologista (R2).

Conversar com as crianças e adolescentes, tudo, mostrar os meios de evitar gravidez. Conversar sobre as doenças também! Educar, orientar, evitar (R3, R4 e R5).

O receio de uma gravidez precoce e o fantasma da repetição da história materna também é iminente no discurso dos pais ou responsáveis.

Tive uma gravidez indesejada, namorei muito cedo, o que acarretou muita coisa na minha vida. Me tirou a liberdade de ter uma vida de adolescente. Parti logo para responsabilidade de um adulto (R6).

Minha gestação não foi planejada, não quero que ela passe pelas dificuldades que vivi. Engravidei do meu primeiro namorado. Foi muito difícil. Me expulsaram de casa. (R8)

Sempre falo com meu filho para estudar e trabalhar primeiro. Depois pensa em namorar. Já expliquei tudo. Como é, o que fazer, como prevenir (R9).

Diferente do discurso dos adolescentes que reconhecem o papel central da escola na educação sexual, alguns pais acreditam que a responsabilidade maior por falar desta temática é da família.

A escola deve só orientar, educação no meu ponto de vista e dever dos pais (R5).

Eu acho que não é responsabilidade nem do estado, nem do município ensinar nossos filhos sobre isso. É dos pais mesmo. O estado, no caso a escola tem o dever de complementar com a matéria básica (R6).

A escola deve orientar. Educar já é papel dos pais. Não concordo com a bagunça que está hoje. Os valores se perderam (R7).

Orientar, dar palestras, mas educação é responsabilidade dos pais (R9).

Mas ao mesmo tempo que delegam a educação sexual para os pais não exime a escola do seu papel de orientar, sobre principalmente os riscos de uma gravidez indesejada e das infecções sexualmente transmissíveis, não percebem a escola como um espaço de convivência e de troca de experiências.

As escolas deveriam ter mais palestras, mais informações para os adolescentes. Tem alunos que não vão para estudar, vão para paquerar e namorar. Os jovens de hoje não estão preparados. Trazer os pais mais juntos ao adolescente e a escola vir junto (R1).

A escola deve orientar. Os adolescentes possuem muitas dúvidas, é muita informação que chega para eles de uma forma não correta. A escola que a minha filha estuda por exemplo não fazem nada sobre sexo (R2).

A escola deve orientar, dar palestra, falar sobre as doenças (R3 e R4, R11).

Ajudar os pais, explicar para os alunos. Hoje ainda tem muita gravidez na adolescência (R10).

Quando interrogados sobre a participação das unidades de saúde na educação sexual dos adolescentes através dos discursos dos responsáveis pode-se apreender que a escola prioriza uma educação transmissiva e estratégias de medicalização e distribuição de preservativos.

Fazer palestras, orientar, tirar dúvida, dar anticoncepcional, camisinha. Ajudar a prevenir doenças (R4).

Orientar, ajudar, igual vocês estão fazendo. Prevenir doenças, tratar, evitar gravidez R5).

Fazer palestras, dar remédio, explicar. Cuidar mesmo (R7).

Dar palestra, atender, dar remédio. Acho que é o principal (R9).

Não é sempre que tem ginecologista. Acaba que adolescente não procura também. Mas o posto orienta, faz exame, da palestra e remédio (R10).

O discurso dos pais ou responsáveis não menciona o trabalho interdisciplinar entre a escola e as unidades de saúde. Os pais percebem a necessidade de se criar um espaço para o diálogo e a troca de experiências sobre o tema.

Para falar a verdade é até pouco, somos próximas, mas de sexo ela tem vergonha. Tento criar um espaço para ela tirar as dúvidas, falar sobre os sentimentos. Só prefere tirar dúvidas com amigos mesmo. Sempre digo que não se deve acreditar em tudo que as pessoas falam. É perigoso (R7).

Igual, eu sou até um pouco tímida para falar com ela, mas ela tem mais liberdade do que eu. Fala umas coisas que eu fico impressionada (R11).

Na tentativa de buscar estratégias de aproximação e compreender este universo da sexualidade os pais recorrem ao ciberespaço ou aos profissionais de saúde.

Hoje o celular também tem muita coisa. A vida vem me ensinando, busco na internet (R1, R2, R3 e R4, R6, R7, R8 e R11) eu não tenho ninguém para conversar sobre isso (R8).

Converso com algum profissional para me ajudar (R1). Sou muito curiosa e com minha ginecologista (R6). Sei que a parte mais importante é do enfermeiro e do médico (R2).

Ao falar das suas experiências os pais ou responsáveis sinalizam que a educação sexual perpassa gerações e apresenta-se como um modelo que pode ser percebido na maioria das relações estabelecidas durante a vida:

Meu pai era muito rígido, mais de antigamente, nunca gostou de falar sobre sexo e não deixava minha mãe também falar. Eu sempre ia em posto de saúde, então eu sempre me informava (R1).

Minha mãe é bem fechada nesse assunto até hoje, quando eu fui ter minhas primeiras experiências não foi legal. Ela nunca conversou sobre esse assunto, jamais (R2).

Tive educação sexual na escola. Mas não era tão informado igual é hoje. Na minha casa não teve (R11).

Os discursos dos responsáveis sinalizam um paradigma higienista de prevenção da gravidez e das IST’ s, visto que busca melhorar as condições de vida dos adolescentes por meio do controle do comportamento. Diante disso, configura como um retrocesso em termos de educação e promoção da saúde afetiva e sexual. A atuação deles na perspectiva dos dois grupos participantes tem sido restrita, eles buscam estratégias de aproximação, acreditam que a escola e a unidade de saúde podem ajudar, mas que a responsabilidade pela educação sexual é essencialmente da família.

O ambiente escolar é o território em que o adolescente desenvolve habilidades cognitivas, formativas e sociais. Há aproximação dos pares e busca por aceitação no grupo. Como estratégia para desenvolver ações intersetoriais entre educação e saúde foi instituído o Programa Saúde na Escola (PSE) em 2017. O espaço escolar possui potencial para ampliar e colaborar, mediante ações de prevenção e promoção de saúde integral, entretanto de acordo com o discurso dos adolescentes limita-se frequentemente à educação tradicional voltada para desenvolver competências técnicas.

Discussão

Uma análise preliminar dos resultados deste estudo possibilita considerar que a adolescência é um período de grandes mudanças e que se faz necessário discutir aspectos importantes como a vivência da sexualidade (Boroto e Senatore 2019). Pode-se verificar que os pais e responsáveis têm dificuldade de abordar aspectos que envolvem a vida sexual e afetiva dos filhos adolescentes.

A escola que deveria ser um espaço de convivência e de partilha se configura na perspectiva dos participantes desta pesquisa, como um lugar de censura, proibição embora tenha estratégias pontuais de educação sexual como palestras e aulas. As estratégias de educação ainda são verticalizadas sem considerar o que os adolescentes conhecem sobre a temática, seus desejos, orientação sexual e perspectivas de gênero, para após uma forma contínua instigar e contribuir para uma formação integral e emancipatória (Monteiro e Momesso 2021).

No tocante a formação emancipatória é válido salientar a necessidade de trabalhar conceitos polissêmicos como sexo, sexualidade, gênero e suas diversidades, de forma particular em cada momento político. Assumir e valorizar as diferenças implica em repudiar as desigualdades e a perspectiva binária entre o discurso de si, moralmente correto, normal, do bem em contraposição ao discurso do outro, como anormal, estranho, inferior e promíscuo. Está dicotomia discursiva perpetua palavras de ódio, de depreciação e insulto a grupos minoritários (Welter e Grossi 2018).

Acredita-se que este impasse em aproximar os adolescentes da temática sexualidade não está presente apenas na família e na escola. Evidencia-se que o receio de julgamentos e a falta de confiança e sigilo das informações por parte dos profissionais de saúde, bem como pouca habilidade destes em atender os interesses dos adolescentes resulta no distanciamento deste grupo dos centros de saúde (Maia et al. 2021; Horta 2019).

Neste sentido, se faz necessária a promoção de capacitações e educação continuada das equipes de Atenção Primária em Saúde, a fim de que a Saúde do Adolescente seja uma prioridade e atenda os princípios da universalidade, equidade e integralidade (Barros et al. 2021).

Deve-se considerar que a educação sexual ainda é um tema muito publicado nos discursos midiáticos e normalmente gera atritos e controvérsias, encontrando pontos de vista imbuídos de preconceitos que nem sempre discorrem sobre a amplitude do tema, com sua complexidade e relevância. Promover a educação sexual representa uma ferramenta de proteção e cuidado de crianças e adolescentes inclusive contra a violência (Campos et al. 2018).

Há contradições que perpassam o livre exercício da sexualidade na adolescência. Os direitos sexuais e reprodutivos tiveram avanços na legislação internacional e nacional. Entretanto, se faz necessário desconstruir preconceitos sobre o estigma entre a infância e a vida adulta, ao mesmo tempo esclarecer os mitos sobre a sexualidade, considerar o protagonismo dos adolescentes e ampliar o acesso à informação de qualidade A escola na forma como está constituída promove a internalização do heterossexismo (Figueiredo 2020), como relata um participante “Na escola tem muita gente homofóbica, isso é meio ruim”, acrescido a reprodução da misógina e a aversão de adolescentes com identidades e desejos sexuais não hegemônicos.

Observa-se que há benefícios e dificuldades de se implantar projetos de educação sexual nas escolas. Manifestações conservadoras de lideranças e governantes, sobre a educação sexual e outras questões relacionadas ao comportamento, representou um retrocesso no processo de educação. Falta a estes líderes entendimento sobre o papel da escola, do professor, dos pais e da família neste contexto. Sabe-se que a educação sexual é transgeracional e os pais contribuem muito neste processo e no plano de sexualidade e vida dos adolescentes. Mas, como ocorre em outras áreas, também nesta a atuação exclusiva dos pais está longe de ser suficiente (Marini 2019).

Ao contextualizar o discurso dos adolescentes que se descobrem homoafetivos pode-se verificar que estes ainda se percebem numa espécie de cilada, tem receio de se assumirem, evidenciando que existem sistemas mais sutis de controle nas instituições e na sociedade que podem ser utilizados para manipular com maior precisão a sexualidade do adolescente. Sendo assim, a sexualidade e as expressões de gênero dos adolescentes ainda são hegemonicamente abordadas numa perspectiva de risco e não de direito (Leite 2019).

Para Foucault a sexualidade é usada como meio de repressão e poder, em que as relações de força são difusas e desiguais. Ela é permeada por valores imbricados historicamente na sociedade e no ser político (Voks 2021). Mesmo com a conquista dos direitos sexuais a partir do Estatuto da Criança e do Adolescente de 1990 e dos avanços preconizados nas Orientações Técnicas Internacionais de Educação em Sexualidade (Brasil 1990; UNESCO 2019), esta temática ainda é abordada através da ótica entre o dito e não dito como percebemos nos discursos dos participantes desta pesquisa. Os entrevistados ao narrarem suas experiências utilizaram de figuras de linguagem para representar o que é moralmente velado, optam por silenciar ou camuflar os seus desejos.

Ao analisar o discurso dos dois grupos entrevistados, é notório que os adolescentes demonstram maior sensibilidade, naturalidade e liberdade para abordar questões relativas à diversidade sexual e de gênero comparados com as narrativas dos responsáveis participantes.

Pode-se inferir que silêncio por parte dos pais ou responsáveis desnuda o preconceito velado e representa uma emergência a ser socialmente ressignificada. Esta redefinição parte da produção de sentidos sobre relações de gênero apontados pelos adolescentes e compreende a desconstrução de performances de gênero como possibilidade de respeito à subjetividade (Uchoa et al. 2019). Não falar sobre sexualidade ou não promover educação em saúde, vai além dos mecanismos de poder e hierarquia presentes em instituições, nos remete a análise que a antropóloga Veena Das faz sobre o silêncio e a violência, para a autora o silêncio é uma resposta diante de experiências que a linguagem formal não consegue expressar (Machado 2024).

A dificuldade dos adolescentes em definir conceitos como sexo, sexualidade e gênero também ratifica o fato de que está temática não é abordada de maneira eficaz na família, na escola e nem mesmo nas unidades de saúde. Essa compreensão faz parte da construção das relações de poder entre os sexos, é uma forma de representação pela qual homens e mulheres se posicionam entre si, além de desenharem a sua subjetividade (Carvalho e Melo 2019).

Tem-se assim a perspectiva de que estes adolescentes e seus responsáveis construíram uma visão superficial destes temas, correlacionando-os apenas ao desejo e atração sexual, evidenciando a concepção de uma sociedade sustentada na heteronormatividade e superficialidade das relações.

Considerações finais

Entende-se que o discurso da sexualidade não é abordado na sua complexidade e liberdade em nenhum dos cenários investigados neste trabalho. Para os adolescentes as escolas não promovem educação sexual e consideram importante a inclusão desta abordagem no contexto da sala de aula. Diante disso, verifica-se que os adolescentes apresentam dificuldades em compartilhar suas experiências, suas dúvidas e seus desejos tanto com os pais, como na escola e com seus pares.

Já nos discursos dos pais, observa-se uma abordagem higienista com maior ênfase no uso de preservativos e na prevenção das infecções sexualmente transmissíveis (IST 's) e da gravidez precoce. Evidencia-se um receio de que a trajetória das mães se repita e acredita-se que a responsabilidade da educação sexual é da família.

Diante do exposto, este estudo contribui para a compreensão da educação sexual, ao analisar os mecanismos de construção de silêncios e tabus sexuais, revelando como estes elementos operam por meio das ausências discursivas, do controle social e da regulação do comportamento sexual dos adolescentes.

Embora este estudo tenha como limitação ser restrito a um grupo de adolescentes e pais ou responsáveis, os resultados e reflexões desta pesquisa podem subsidiar a compreensão do processo de educação sexual de adolescentes de forma mais humanizada, equitativa e emancipatória.

Considera-se que questões principalmente sobre educação de gênero, sexualidade e afetividade precisam ser mais exploradas entre pais, adolescentes e nas escolas, visto que o desenvolvimento sexual na adolescência é atravessado por fatores interseccionais, refletindo escolhas e vulnerabilidades sociais. Há uma rede de interações sociais, psicoemocionais e físicas que expõe os adolescentes a riscos como a gravidez não planejada.

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    Trata-se de um termo que designa a primeira relação sexual de um indivíduo (Arruda et al. 2020).
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Editado por

  • Editor-chefe:
    Sérgio Carrara
  • Editor Associado:
    Rhuann Fernandes

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    09 Jan 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    12 Set 2023
  • Aceito
    22 Out 2025
Creative Common - by 4.0
Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/), que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.
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