De 14 de março de 2018, quando o crime contra a vereadora Marielle Franco foi praticado, até a conclusão do livro, como também até o fechamento dessa resenha, ainda não temos todas as respostas que expliquem o crime que evidenciou relações de poder e de violência no Rio de Janeiro. Dito isso, o livro “Marielle & Monica: uma história de amor e luta” pode ser compreendido, ao mesmo tempo, como um livro de memória e de homenagem a Marielle Franco. Contudo, a obra consiste, também, em um relato sobre a relação afetiva entre duas mulheres periféricas entre as décadas de 2000-2018, com contribuições para os estudos de gênero e da sexualidade. Nesse sentido, a abordagem dessa resenha será socioantropológica, o que significa que trajetórias individuais, como a de Marielle e Monica, podem ter muito a dizer sobre o contexto social, cultural e político no qual estamos inseridas.
O livro está organizado em duas partes e 27 capítulos. A obra apresenta também imagens de bilhetes e cartas trocadas entre as duas, fotos de adolescência, cartões. Cartas e bilhetes foram parte da linguagem do afeto entre Mônica e Marielle desde o início da relação das duas. O prefácio é de Zelia Duncan e na obra há relatos de Talíria Petrone (deputada federal pelo PSOL, o mesmo partido de Marielle) e de Juliana Farias (antropóloga e professora da UERJ), ambas amigas do casal.
A primeira parte do livro, intitulada “Marielle, com 2 L’S”, corresponde ao período de fevereiro de 2004 até as festas de fim de ano de 2017. Em 2004, Monica tinha 18 anos recém completados e estava ansiosa para fazer sua primeira viagem sem a família. O passeio foi uma iniciativa de amigas que faziam parte da Igreja Nossa Senhora dos Navegantes, na Maré, onde ambas viviam. Ainda antes de entrarem no ônibus, Monica conhece Marielle e Luyara, sua filha, então com 5 anos. Durante a viagem, elas dividem o mesmo quarto, fazem os mesmos passeios, tornam-se íntimas. A partida antecipada de Marielle provoca intensa saudade e, mesmo a poucos dias do retorno, elas se falam por ligação telefônica diariamente. Nessa época, aos 24 anos, Marielle já era coordenadora do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM).
Os anos que se seguiram à viagem, relatados nos capítulos 1 ao 16, referem-se a um período de intenso afeto entre as duas, que nomeavam a relação como uma forte amizade. O cenário do primeiro encontro, a Igreja, não é um cenário fortuito. Marielle participava da vida comunitária católica, em alguns períodos de forma mais intensa do que em outros. Seus pais eram pessoas de referência na Igreja local. Por estar inserida em redes de pessoas católicas praticantes, Monica foi estimulada a realizar a Crisma - sacramento que, segundo o catolicismo, confirma o batismo - e teve Marielle como sua madrinha. Mais tarde, o vínculo estabelecido pela Crisma seria utilizado por algumas amigas da igreja como argumento para não apoiarem o relacionamento das duas mulheres.
A relação de intimidade que Monica e Marielle estabeleceram sem que fosse possível nomear o que sentiam uma pela outra durara quase um ano. Mesmo que dormissem na mesma cama, se incomodassem com a presença de parcerias afetivo-sexuais eventuais e compartilhassem as responsabilidades do cuidado com Luyara, não era visível, para ambas, que havia também desejo na relação de amor e intimidade. Eve Sedgwick (2007), poeta e crítica literária da Universidade de Nova Iorque, em sua obra “A epistemologia do armário”, afirma que o armário é um dispositivo de regulação da vida de gays e lésbicas. O “armário”, ainda segundo essa autora, mantém certos privilégios nas mãos de grupos sociais que historicamente detém o poder e o prestígio. Na trajetória de Monica e Marielle, a autoaceitação foi um processo complexo e que se estendeu ao longo de muitos anos. Por meio disso, podemos visualizar que a autoaceitação tem como variável importante a aceitação externa. Sem que estejam disponíveis na sociedade abrangente modelos positivos da sexualidade vivenciada, os caminhos para a autoaceitação tornam-se mais tortuosos e vulneráveis.
Antes mesmo que Monica e Marielle pudessem compreender o que sentiam uma pela outra e o que desejavam em termos de relação, elas perceberam a hostilidade de familiares e pessoas amigas. O “armário” tornava-se estratégia de proteção: “Passamos a controlar nosso comportamento em público para que nosso amor não fosse punido, nem nós. Não eram apenas nossos medos e receios internos, agora temíamos por nossos corpos, por nossas relações sociais, pelo trabalho, pela família, por nossa vida” (2024: 48). A violência contra pessoas LGBTQIA+, ainda hoje, é pouco materializada em dados oficiais e em políticas públicas. A pesquisa LesboCenso Nacional: mapeamento de vivências lésbicas no Brasil, realizada com 22 mil mulheres lésbicas de todo o Brasil e coordenada pela Liga Brasileira de Lésbicas e pela Associação de Lésbicas Feministas de Brasília-Coturno de Vênus, apresenta que 78,61% das entrevistadas já sofreram algum tipo de lesbofobia. Entre os atos considerados como tais, destacam-se o assédio moral (31,36%), assédio sexual (20,84%) e violência psicológica (18,39%) (Tagliamento; Brunetto; Almeida, 2022).
A inserção em outros contextos sociais não exatamente protegeu Monica e Marielle de experiências de violência e discriminação, mas possibilitou que elas pudessem ampliar suas redes e referências de pessoas LGBTQIA+. No contexto da favela “Ser lésbica (...) era motivo de vergonha, razão para ataques com xingamentos e até violência. (...) Um relacionamento lésbico, naquele momento, naquele local, não era qualquer coisa. Dava medo, determinava limites à própria vida e regras a serem seguidas” (2024: 49). Assim, o acesso ao meio universitário - Marielle cursava Ciências Sociais na PUC-Rio e Monica, posteriormente, ingressaria no curso de Psicologia e, então, de Arquitetura e Urbanismo - permitiu que elas vivessem uma relação aceitável diante daquele grupo de pessoas. Nas palavras da autora, uma relação que parecia mais “normal” (2024: 53).
A relação de Monica e Marielle foi diversas vezes interrompida e não parece exagerado afirmar que a dificuldade de aceitação externa foi um componente importante das rupturas. Cada passo dado na relação resultava em um conjunto de reações negativas das pessoas próximas, sobretudo de familiares. No caso de Marielle, vivendo na casa dos pais com uma filha ainda pequena, assumir a relação com uma mulher era ainda mais complicado. Após uma separação mais longa, Monica e Marielle se aproximam novamente já no contexto da campanha da qual Marielle sairia eleita com expressivos 46.502 votos, sendo a quinta mais votada nas eleições cariocas de 2016. Em um evento de campanha, Marielle se referia à Monica como “minha companheira” e elas fizeram planos de viver juntas, o que ocorreu. A experiência acumulada não só com a campanha, mas com anos de militância de base a partir da favela da Maré, na coordenação da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, a independência financeira então alcançada, o crescimento da filha etc, são todos esses fatores que ajudam a compreender quantos elementos são necessários para que uma mulher mãe, negra e periférica possa sentir-se mais segura em assumir um relacionamento com outra mulher.
Os capítulos 17 ao 27, que compõem a segunda parte do livro, intitulada “Em paralelo, duas vidas”, descrevem momentos da vida de Monica a partir do dia 14 de março de 2018. O assassinato instaurou a ausência brutal, sobretudo pela insuficiência de explicações sobre o crime. O luto, segundo teorias psicanalíticas, é um processo experimentado frente a perdas significativas (Rodrigues, 2021). Em teoria, temporalmente delimitado, o processo do luto consiste em uma espécie de adaptação à perda, em que o sujeito enlutado esgarça os laços da vinculação com a pessoa que não está mais presente. O assassinato de Marielle e a sua significação como uma causa pública permitiu a vivência de um luto coletivo, fornecendo senso de comunidade política que visibilizou a interdependência entre pessoas, causas e responsabilidades éticas (Butler, 2019).
O reconhecimento da figura de Monica Benício como viúva de Marielle foi parte dos efeitos da politização dessa morte e, de maneira marcante, do ativismo lésbico. Como Zélia Duncan escreve no prefácio, mesmo tendo sido eleitora de Marielle, ela não tinha a informação de que a vereadora era casada com uma mulher. A invisibilização da relação conjugal do casal foi uma camada a mais nas violências lesbofóbicas que perduraram, se misturando, também, com a violência das fake news sobre Marielle. O casamento sonhado por ambas ocorreria apenas após a morte de Marielle, na forma de uma assinatura de união estável post mortem.
A criação de um laço social a partir do assassinato de Marielle contribuiu na transformação do luto em luta por justiça. Falar de Marielle era, ao mesmo tempo, uma homenagem, uma forma de manter laços afetivos, mas também, de não falar de si. Foi, aos poucos, que Monica Benício, viúva, tornou-se Monica Benício, em luta (2024:182). Após os 27 capítulos do livro, há uma carta a mais (“a última carta que irei escrever”), escrita pela autora em dezembro de 2023, data de fechamento do livro. A carta tem vários fins, separados por elementos gráficos, e surpreende e sensibiliza por seguir após vários deles. Em algumas passagens do livro, a autora informa que a escrita do livro foi alongada pela própria dificuldade em escrever a história de amor, de dor, de luto e de luta que ela viveu com Marielle. Mas o processo de escrita foi, também, uma forma de se fazer mais perto do “amor da sua vida”, cobrar por justiça e contribuir para a visibilidade lésbica. Embora, para a autora, encerrar o livro tenha tido o peso de encerrar uma história, a publicação do livro permite visibilizar o componente político e social em trajetórias afetivas da relação entre mulheres. A partir de um relato (auto)biográfico, a obra acrescenta elementos capazes de dimensionar o tamanho da importância de Marielle Franco para o campo dos direitos humanos e das sexualidades.
Referências
- BUTLER, Judith. 2019. Vida precária: os poderes do luto e da violência São Paulo: Autêntica. 192p.
- RODRIGUES, Carla. 2021. O luto entre clínica e política: Judith Butler para além do gênero. Belo Horizonte: Autêntica. 221p.
- SEDGWICK, Eve. 2007. A epistemologia do armário. Cadernos Pagu. Vol. 28, p. 19-54.
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TAGLIAMENTO, Grazielle; BRUNETTO, Dayana; ALMEIDA, Raquel. 2022. I Lesbocenso Nacional: mapeamento de vivências lésbicas no Brasil. Relatório descritivo 1ª etapa (2021-2022). Liga Brasileira de Lésbicas (LBL) e Associação Lésbica Feminista de Brasília - Coturno de Vênus. 212p. Disponível via https://assets-dossies-ipg-v2.nyc3.digitaloceanspaces.com/sites/3/2022/09/Relatorio_lesbocenso-2022.pdf Acesso em 18 jul 2024.
» https://assets-dossies-ipg-v2.nyc3.digitaloceanspaces.com/sites/3/2022/09/Relatorio_lesbocenso-2022.pdf
