Open-access Como Enfrentar o Grande Embaralhamento Simbólico de Trump para Promover Reconhecimento

Resumo

Esta conferência examina o “Grande Embaralhamento Simbólico” em curso nos Estados Unidos e em outros contextos nacionais, tomando como eixo analítico os processos de reconhecimento e estigmatização. A partir de uma abordagem comparativa e multiescalar, o texto analisa como fronteiras simbólicas e sociais são produzidas, contestadas e transformadas por lideranças políticas, instituições, produtores culturais, movimentos sociais e grupos marginalizados. O argumento central é que a desigualdade não se reproduz apenas por meio da exploração econômica ou da dominação simbólica, mas também por processos culturais que definem quem merece dignidade, pertencimento e valorização social. Com base em pesquisas anteriores e em trabalhos em andamento, a conferência discute as narrativas inclusivas produzidas por agentes culturais, as estratégias de reconhecimento mobilizadas por jovens trabalhadores nos Estados Unidos e as tensões entre trabalho, território e responsabilidade ambiental entre povos indígenas no Canadá. Ao final, sustenta-se que o reconhecimento não deve ser entendido como um jogo de soma zero, mas como dimensão fundamental para construção de sociedades mais inclusivas.

Palavras-chave
reconhecimento; estigmatização; desigualdade; fronteiras simbólicas; processos culturais

Abstract

This lecture examines the “Great Symbolic Scrambling” currently unfolding in the United States and beyond, using recognition and stigmatization as its main analytical lenses. Drawing on a comparative and multiscalar approach, the text analyzes how symbolic and social boundaries are produced, contested, and transformed by political leaders, institutions, cultural producers, social movements, and marginalized groups. Its central argument is that inequality is reproduced not only through economic exploitation or symbolic domination, but also through cultural processes that define who is granted dignity, belonging, and social worth. Based on previous research and ongoing work, the lecture discusses inclusive narratives created by cultural change agents, recognition strategies among young workers in the United States, and the tensions between work, territory, and environmental responsibility among Indigenous peoples in Canada. It concludes by arguing that recognition should not be understood as a zero-sum game, but as a crucial dimension in the construction of more inclusive societies.

Keywords
recognition; stigmatization; inequality; symbolic boundaries; cultural processes

1. Introdução1

Agradeço a você, Romain Huret, por esta gentil apresentação e pelo convite, assim como a Thierry Baudet por ter concordado em ceder este ilustre salão para o nosso evento. Sinto-me muito honrada por estar aqui hoje, para participar da venerável tradição das conferências Marc Bloch e me dirigir a um público de colegas franceses, pelos quais tenho a mais alta consideração. Obrigada a todas e todos por terem vindo e agradeço também às funcionárias e aos funcionários que contribuíram para a organização deste evento.

Realizei minha pós-graduação em Paris no final dos anos 1970. A École des Hautes Études en Sciences Sociales foi, para mim, um lugar mítico: a casa de tantos acadêmicos criativos que me inspiraram profundamente e influenciam a minha trajetória intelectual até hoje. Por isso, é um prazer estar aqui, sobretudo porque a obra de Marc Bloch é seminal para a tradição comparativa da análise das mentalidades, à qual minha própria pesquisa se vincula.

Meu tema hoje é o “Grande Embaralhamento Simbólico” que está ocorrendo nos Estados Unidos e além. Baseio-me nas pesquisas que realizei sobre a transformação de fronteiras simbólicas e sociais, especialmente o que as torna porosas e transponíveis e o que pode ser feito para nos mover em direção a um futuro mais inclusivo.

Na primeira parte, discutirei processos culturais e, mais especificamente, reconhecimento e estigmatização. Ilustro meu argumento com o caso do “Grande Embaralhamento Simbólico”, com o qual Donald Trump está vinculado ao atacar produtores culturais em diversos campos, bem como grupos que passaram por um processo de desestigmatização nos últimos anos.

Na segunda parte, com base em meu livro Seeing Others (Lamont, 2023), dedico-me ao modo como produtores culturais na esquerda elaboraram narrativas e estratégias para expandir reconhecimento e suprimir estigmatização.

Na terceira parte, discutirei Recognition Globally, um livro em construção no qual busco aprofundar como diferentes grupos reivindicam reconhecimento, incluindo trabalhadores na cidade de Manchester, em New Hampshire (EUA), e membros das Primeiras Nações em meu lugar de origem, Québec (Canadá).

A “Grande Reestruturação Simbólica” e a Produção da Desigualdade

O “grande embaralhamento simbólico” refere-se às múltiplas performances pelas quais Donald Trump busca impulsionar grupos que ele acredita terem sido deixados para trás pela sociedade estadunidense e rebaixar impiedosamente outros grupos que teriam sido alavancados no lugar dos primeiros, a fim de restabelecer o que ele entende como a ordem social legítima. Desde o início de seu segundo mandato presidencial, Trump tem como foco remodelar os contornos do pertencimento cultural, definindo quem é central e quem é periférico na comunidade política estadunidense. Ele utiliza incessantemente sua plataforma de rede social Truth Social e a atenção inabalável que a mídia lhe dedica para expressar desprezo ou afeto e sinalizar quem está dentro ou fora da hierarquia social do país: indivíduos anti-woke, sim; imigrantes e seus descendentes, não. Ele também ataca ou penaliza de forma implacável grupos marginalizados que abrangem imigrantes de grupos étnicos, raciais e religiosos a pessoas de baixa renda e grupos LGBTQ+, sem mencionar metade da população mundial – as mulheres –, a quem ele frequentemente trata como “idiotas”. Os únicos imigrantes meritórios são os africâneres brancos, que, na lógica de Trump, seriam vítimas de racismo em seu país de origem. Ele ameaça, assume o controle ou abre processos judiciais de milhões de dólares contra organizações culturais progressistas e liberais que oferecem uma imagem mais inclusiva da sociedade estadunidense, sejam universidades de excelência ou jornais, produtores de Hollywood ou museus.

Seus ataques a instituições culturais ocorreram como um disparo em massa desde o início de seu segundo mandato, tendo transformado o National Endowment for the Humanities, o Kennedy Centre for the Arts, os Museus Smithsonian, o National Park Service e apresentadores influentes de late-night talk show na TV em alvos. Ele, por exemplo, transformou memoriais (navios e bases militares) em alvo, informando que pretende substituir os nomes de heróis negros e gays pelos de líderes militares confederados, pró-escravidão. Ele submeteu oito museus do Smithsonian a uma ampla revisão de seu conteúdo, porque considera que enfatizam raça e escravidão (Kingsberry, 2025) em demasia. Seus esforços para policiar a linguagem na educação incluíram várias ordens executivas contra “ideologia de gênero” e as iniciativas de diversidade, equidade e inclusão (DEI), que são consideradas por ele como uma “ideologia discriminatória de equidade”. Na sequência disso, o Escritório de DEI da Harvard University foi renomeado como Escritório de Comunidade e Pertencimento (Office of Community and Belonging).

Os ataques de Trump às iniciativas DEI foram enquadrados como o restabelecimento de uma meritocracia que favorece pessoas que teriam sido privadas de sua posição legítima em benefício de mulheres e de pessoas não brancas2 – ou seja, muitas vezes, de maneira explícita, favorece homens brancos nascidos nos Estados Unidos. Ele também se apresenta como um defensor da classe trabalhadora, ainda que suas políticas invariavelmente se oponham aos interesses dela (McNicholas et al., 2025). Isso está alinhado com os 73 discursos eleitorais que Trump proferiu em sua primeira campanha presidencial, em 2016, nos quais celebrou os trabalhadores como a espinha dorsal da sociedade estadunidense e os defendeu contra a globalização e os imigrantes, particularmente os imigrantes mexicanos, que ele descreveu como “estupradores” e “parasitas”, desafiando, assim, as representações dominantes de imigrantes como os construtores da grandeza dos Estados Unidos (Lamont et al., 2017).

Em seu segundo mandato, o embaralhamento simbólico transborda muito além do setor cultural, na medida em que ele acopla a política simbólica ao uso da força sancionado pelo Estado. Ele enquadrou falsamente cidades democratas de maioria não branca, como Washington D.C., Los Angeles e Chicago, como perigosas e assoladas pelo crime, reforçando, assim, uma imagem apocalíptica desses civis, difundida por republicanos do MAGA [movimento Make America Great Again] (Lamothe, 2025). Ele mobilizou tropas militares nessas cidades, ao mesmo tempo que alimentava medo e ansiedade e apelava politicamente à sua base branca, conservadora e nacionalista. Ele também está mobilizando o ICE [sigla em inglês para Serviço de Imigração e Controle de Aduanas], para intervir violentamente em cidades multirraciais, semeando pânico e medo entre populações imigrantes, ao mesmo tempo em que reafirma a tradicional hierarquia étnico-racial estadunidense (Asbury-Kimmel, 2025).

Cenários semelhantes, em alguns aspectos, podem ser encontrados onde o etnonacionalismo de extrema direita triunfa, seja na Hungria de Orban, na Rússia de Putin ou na Argentina de Milei. Em todos esses casos, tais líderes estão determinados a desmontar o apoio ideológico de seus adversários, ao mesmo tempo em que redefinem quais são os grupos que importam (Müller, 2014). Sob Orban, por exemplo, como mostra o trabalho de Virág Molnár (2023), a Hungria assistiu à proliferação de eventos culturais que propagam valores de um nacionalismo mítico, como, por exemplo, turismo organizado pelo Estado que exalta a suposta herança étnica homogênea do país e sua grandeza histórica.

Enquanto jornalistas e economistas forneceram ao público quadros analíticos para compreender as políticas econômicas MAGA, como a “Big Beautiful Bill” [lei de políticas fiscais e gastos] e a sucessão interminável de novas tarifas, alguns cientistas sociais ajudaram a explicar no que consiste o “Grande Embaralhamento Simbólico”, para além de denunciar “wokeness”. É precisamente isso que farei, mobilizando as noções de reconhecimento e estigmatização. O reconhecimento tem sido, na maior parte das vezes, abordado por lentes filosóficas, e não a partir de material empírico (Lamont et al., 2014; Lamont, 2018, 2019; Lamont e Pierson, 2019). Ainda assim, tomo emprestada a definição de (Honneth, 2012) de reconhecimento como “um ato social pelo qual o valor social positivo de indivíduos e grupos é afirmado e reconhecido por outros”. É o fato de ser reconhecido e receber validação, legitimidade, valor, mérito, dignidade e pleno pertencimento cultural.

Conceitualizo o reconhecimento como um processo cultural contínuo, por meio do qual se produzem, em nossas interações cotidianas, a centralidade e a perifericidade de grupos em nossa comunidade política. Esse reconhecimento deriva dos repertórios culturais a nosso dispor, da segregação espacial e social de nossas redes e do trabalho das instituições e do direito, bem como da distribuição ou troca de diversos tipos de recursos e de capital entre aqueles que interagem. Essa perspectiva empírica é desenvolvida em diversos artigos que fornecem o pano de fundo teórico para esta fala e contrastam com as características hegelianas ou habermasianas de perspectivas mais filosóficas, deslocando a ênfase, em vez disso, para a produção e a disseminação culturais.

O contraponto ao reconhecimento é a estigmatização, definida pelo sociólogo Erving Goffman (1963) como um “processo que consiste em qualificar negativamente identidades e diferenças”. A estigmatização pode se manifestar como desvalorização, invisibilidade, insulto explícito ou o tratamento de um grupo como invisível. Assim como o reconhecimento, ela também envolve autoidentificação e categorização de grupos, frequentemente por meio de atos de linguagem. Essas definições podem difundir-se, institucionalizar-se e, assim, produzir entendimentos compartilhados sobre quem tem direito a apoio social (Jenkins, 2004).


Figura 1

Eu me dedico a estudar esses processos no contexto de um modelo multicausal mais amplo, que envolve trajetórias complementares que alimentam a produção da desigualdade. O modelo inclui diferentes fases do desenvolvimento e teorias da desigualdade, tal qual a análise clássica de Steven Lukes (1974) sobre as três faces do poder. Cada fase traz à luz um conjunto relevante de processos sociais, permitindo uma compreensão progressivamente mais refinada de como a desigualdade na sociedade é produzida e reproduzida.


Figura 2

Entre os modelos para compreender as causas da desigualdade adotados por cientistas sociais, as abordagens mais clássicas se enquadram no que chamei de “Processos de Tipo 1”, que se concentram em exploração e dominação, temas centrais nos escritos de Max Weber e Karl Marx. Também se voltam para o fechamento social (social closure) e a reserva de oportunidades (novamente, Max Weber)3. O controle de recursos materiais é central para os Processos do Tipo 1, que dizem respeito a relações nas quais uma parte dominante cria deliberadamente uma situação que opera em detrimento da parte dominada, sobretudo ao privá-la de recursos.

“Processos de Tipo 2” referem-se a dinâmicas que estiveram no centro de numerosos estudos desde os anos 1970, associados a Pierre Bourdieu (1984) e seus colaboradores, a Randall Collins e a um número crescente de pesquisadores. Tais estudos enfocam os capitais cultural, simbólico e social, bem como o status e a dominação simbólica, com o objetivo de evidenciar o papel de dinâmicas culturais de soma zero na produção e reprodução da desigualdade. A desigualdade é entendida principalmente como resultado tanto de ações intencionais quanto de ações guiadas pelo habitus, exercidas por uma parte dominante sobre um grupo dominado. Nesse registro, a desigualdade social implica dominação simbólica e é determinada pelo acesso a recursos não materiais, como capital cultural e capital social. Os processos considerados incluem distinção, violência simbólica e exclusão simbólica, que podem levar à autorrelegação. Eles operam como um jogo de soma zero, presumido como universalmente presente, como na teoria de campo de Bourdieu (1984). A agência humana é animada por essas condições e, assim, fica fortemente circunscrita.

Meu próprio trabalho, assim como o de diversos sociólogos, diz respeito aos “Processos de Tipo 3”, que se referem a outros tipos de processos culturais descritos por meus coautores e por mim em um artigo de 2014 intitulado What is Missing? Cultural Processes and the Making of Inequality (Lamont et al., 2014). O artigo descreve as várias trajetórias por meio das quais a desigualdade é produzida. O objetivo é captar o caráter multiescalar da reprodução da desigualdade como resultante de uma ampla gama de processos, os quais podem ser estudados de modo complementar, mediante a mobilização de diferentes lentes, por cientistas sociais que dominam distintos tipos de ferramentas analíticas, que vão de microssociólogos a macroeconomistas.

Os processos de Tipo 3 operam não apenas no nível da cognição individual, mas também intersubjetivamente, por meio de roteiros compartilhados e estruturas culturais, tais como “enquadramentos”, “narrativas” e “repertórios culturais” (Lamont et al., 2010). Exemplos-chave incluem racionalização, estigmatização, racialização, comensuração, identificação, assimilação, padronização e avaliação (Brubaker e Cooper, 2000; Espeland e Stevens, 1998; Goffman, 1963; Lamont, 2012; Omi e Winant, 1994; Timmermans e Epstein, 2010; Weber, 1978).

Em grande medida, trata-se de uma realização coletiva, na medida em que são sistemas compartilhados de representação que envolvem grupos dominantes e dominados. O processo de triagem abre e fecha oportunidades, ao mesmo tempo que possibilita e constrange as trajetórias de curso de vida dos indivíduos. Os resultados de tais processos são abertos ou incertos, em vez de sempre culminarem em exploração e dominação (como no Tipo 1) ou em exclusão (como no Tipo 2).

Como indicado pela tabela, meus coautores e eu envidamos um esforço sistemático para analisar esses processos em paralelo, indo além de iniciativas anteriores que os tratavam isoladamente, sem examinar de modo sistemático as semelhanças e diferenças no papel que desempenham (ou não desempenham) na produção da desigualdade. Recorremos a pesquisas anteriores, que oferecem uma consideração teórica e empírica minuciosa de processos (em oposição a ‘estados’ ou ‘atributos’) que mobilizam categorias produzidas coletivamente.


Figura 3

Considerando que nos dirigimos aqui a um público heterogêneo, recorro ao meu livro de , Seeing Others, concebido como uma obra de divulgação com o objetivo de auxiliar o público a compreender o que é o reconhecimento e por que ele é relevante.

Ver os outros

Como sugere a própria capa, o livro Seeing Others examina como ampliar o reconhecimento ao maior número de pessoas, incorporando ao círculo da cidadania cultural grupos marginalizados de diferentes naturezas. Desde a Segunda Guerra Mundial, observa-se, em grande parte do mundo ocidental, um movimento gradual de integração de diversos grupos estigmatizados às comunidades políticas nacionais, com a ampliação de direitos a coletividades historicamente privadas deles. Esse processo se intensificou após a eleição de Barack Obama à presidência dos Estados Unidos, em 2007, e com movimentos sociais como o Black Lives Matter e o Me Too. Movimentos de reconhecimento também ganharam tração nas extremidades do espectro político, como indicam o sucesso eleitoral dos republicanos MAGA e de outros movimentos radicais de extrema direita na Europa, que frequentemente mobilizam segmentos da classe trabalhadora em torno do populismo e do nacionalismo, em resposta à nostalgia, ao ressentimento racial, à perda de status, ao medo e à insegurança.


Figura 4

Após décadas de crescimento da desigualdade e diante da policrise dos últimos anos, que tem alimentado desesperança, concentrei-me em narrativas formuladas como alternativas ao “sonho americano” e que têm apelo a jovens que vivenciam uma crise de saúde mental, em resposta à pandemia e às crescentes pressões neoliberais e produtivistas. Trata-se, certamente, de uma inquietação que não se restringe ao contexto estadunidense. Na França, por exemplo, também se registra um aumento dos casos de depressão e das hospitalizações por questões de saúde mental entre jovens de 18 a 24 anos.

Tais narrativas, em geral, dizem respeito à inclusão, à autenticidade, à cultura terapêutica e a outras alternativas em busca de uma vida dotada de sentido. Minha equipe e eu entrevistamos 185 agentes de mudança que produzem e difundem essas narrativas e que detêm amplo alcance e influência cultural, entre os quais 75 profissionais criativos de Hollywood e comediantes de stand-up, além de lideranças nas artes, políticas públicas, filantropia, movimentos sociais, na esfera pública digital e em outros campos organizacionais que desempenham papel central na conformação do ecossistema midiático. Também conversamos com “pessoas comuns”, aqui representadas por 80 estudantes universitários de 18 a 22 anos, integrantes da Geração Z (Gen Z), a fim de captar suas concepções sobre um futuro desejável. Por que esse recorte? Porque suas visões são relevantes para a definição do futuro.


Figura 5

Figura 6

O que encontramos? Aqui vocês veem dois indivíduos com camisetas que ilustram as preocupações recorrentes entre agentes de mudança profissionais e jovens. A camiseta branca é usada por Zackary Drucker, uma pessoa trans que, à época, era assessora da popular série Transparent, exibida pela Amazon Prime. A série narra a trajetória de Maura à medida que ela transiciona e precisa redefinir sua identidade e sua relação com a família como mulher trans. Quando perguntei o que pretendiam alcançar com a série, Joey Soloway, criadora, explicou:

Estou tentando tornar pessoas trans menos abomináveis, mais compreensíveis para aqueles que tiveram muito pouco contato com esse grupo. E humanizá-las, à medida que os espectadores testemunham essa mulher negociando sua relação com seus filhos, algo que a maioria dos seres humanos com filhos também precisa aprender a fazer.

Para Joey Soloway, a missão é criar vínculos e reduzir estigma. Essa formulação converge com o que foi expresso por muitos participantes do estudo, ainda que, com frequência, suas preocupações se estendam a outros grupos para além das pessoas trans.

Como se pode ler, a camiseta branca de Zachary Drucker traz a frase “I see you” ou “Eu te vejo”, em português. Trata-se de uma referência clássica ao reconhecimento e, ao mesmo tempo, um marcador significativo para a Geração Z. Ao entrevistá-los, constatamos que anseiam por autenticidade e aceitação, tanto para si quanto para os outros. Buscam relações igualitárias e a construção de um ambiente inclusivo. Esse é o mundo no qual esperavam viver.

A outra pessoa na figura veste uma camiseta preta cuja estampa se tornou um cartaz que ainda hoje pode ser visto diante de muitas casas e em muitos gramados por todo os EUA. A camiseta celebra a inclusão social, com slogans como “Love Is Love” (“Amor é amor”), utilizado na promoção da igualdade no casamento entre pessoas do mesmo sexo, “No human is illegal” (“Nenhum humano é ilegal”), em apoio a imigrantes sem documentação, e assim por diante. A proliferação dessas narrativas contribui para enfraquecer fronteiras simbólicas e sociais ao difundir uma linguagem moral de inclusão. Frequentemente isso implica desafiar os roteiros neoliberais dominantes e unidimensionais do “eu” que são oferecidos para nós, com foco exclusivamente em autossuficiência, competição e sucesso material.

Uma das entrevistadas foi Channing Dungey, então responsável pela programação global da Netflix. No âmbito de seu trabalho, ela divulgou o filme Pantera Negra para públicos em diferentes regiões do mundo, incluindo África e sul da Ásia. Em nossa entrevista, explicou essa decisão afirmando que, para ela, como mulher negra, era importante que crianças pretas e pardas nesses continentes tivessem acesso a uma narrativa positiva sobre pessoas não brancas: a história de Wakanda, uma utopia sobre uma civilização fictícia na qual pessoas negras são as heroínas.

Muitos dos 75 comediantes de stand-up e profissionais criativos de Hollywood que entrevistamos discutiram como o fomento à inclusão constitui uma das principais motivações de seu trabalho. Elaboramos uma tipologia para descrever como afirmam realizar esse objetivo. Uma dessas estratégias foi denominada “cavalo de Troia”: embora os comediantes definam sua missão como fazer o público rir, com frequência ridicularizam pessoas racistas e homofóbicas, o que leva a audiência a sentir que compartilha o mesmo desprezo por visões conservadoras retrógradas. Assim, durante o entretenimento, acreditam produzir um fluxo constante de narrativas de desestigmatização, o que os motiva e confere sentido ao seu trabalho criativo.


Figura 7

A Ford Foundation, uma das maiores organizações filantrópicas dos EUA, desempenhou um papel de liderança em ampliar a escala dessas narrativas inclusivas. Sua missão explícita, ao longo dos últimos dez anos, tem sido enfrentar a desigualdade, com ênfase em “mudar corações e mentes” por meio da produção de narrativas. Isso ocorreu, por exemplo, ao apoiar a realização do filme Roma, que narra a história de duas trabalhadoras domésticas indígenas a serviço de uma família de classe média que vive na Cidade do México. Embora empregadas domésticas costumem ocupar uma posição periférica nas narrativas, o filme as tornou visíveis e as humanizou ao acompanhar a trajetória de uma mulher que decide se fará ou não um aborto. Roma ganhou um Oscar e foi distribuído mundialmente pela Netflix. Em articulação com outras narrativas semelhantes, contribui para transformar a própria percepção das empregadas domésticas.

Isso exemplifica como narrativas e formas de representação são transformadas gradualmente e como contribuem para reduzir estigma e invisibilidade. Elas ajudam a nos afastar do roteiro neoliberal de merecimento e meritocracia, que ganhou popularidade nas sociedades industriais avançadas ao longo de muitas décadas, em parte graças à televisão de entretenimento, na qual as vidas de ricos e famosos são apresentadas como um espetáculo agradável aos olhos, ao passo que pessoas da classe trabalhadora são cada vez mais invisibilizadas ou ridicularizadas. Considere Homer Simpson, por exemplo.

Não surpreende que Trump esteja tão implacavelmente focado em enfraquecer, institucional e simbolicamente, o trabalho de reconhecimento realizado por produtores culturais e por filantropias como a Ford Foundation ou a Open Society Foundation, de George Soros. Ele testemunhou o êxito de produtores culturais progressistas ao longo da última década e está decidido a contrabalançá-lo com todas as suas forças. Como campeão do marketing, ele se mostra obcecado por alcance e influência culturais. Ele trata o ecossistema midiático como um universo que pode ser manipulado e conquistado, desde que se disponha de recursos suficientes. O que está em jogo aqui é nada menos do que a capacidade do governo Trump de reverter a inclusão social de grupos historicamente marginalizados. Como podemos responder?

Seeing Others detalha três processos por meio dos quais podemos tornar a cidadania cultural disponível para mais pessoas. Dedicarei alguns minutos a discuti-los. Em primeiro lugar, o livro mostra como agentes de mudança difundem narrativas que sustentam a passagem de uma definição neoliberal e unidimensional de valor para uma compreensão mais pluralista de quem é digno, deslocando-se da valorização de profissionais e gestores com formação universitária em direção ao reconhecimento de uma ampla gama de pessoas, incluindo trabalhadores do cuidado, mobilizadores de comunidades, pessoas comuns etc. Isso ilustra processos culturais do Tipo 3, pois envolve transformar um sistema de classificação para ampliar o reconhecimento e reduzir estigma. Aponta, assim, para dinâmicas mais agênticas e menos hierárquicas que no caso dos processos do Tipo 1 e do Tipo 2. Esses são precisamente os pontos cegos do sistema bourdieusiano, que analisei em meu primeiro livro, Money, Morals, and Manners: The Culture of the French and the American Upper-Middle Class (Lamont, 1994).

A linguagem utilizada por Joey Soloway é reiteradamente ecoada por outros entrevistados, que afirmam querer tornar visíveis grupos invisíveis, ir além de estereótipos e oferecer uma representação humanizada de grupos estigmatizados. Esses produtores culturais frequentemente atuam para diversificar critérios de valor para além de narrativas neoliberais. Visões mais multidimensionais de valor também são promovidas por empregadores que adotam medidas de apoio ao equilíbrio entre trabalho e vida, ou ao “trabalho de cuidado”. Tais medidas reduzem o absenteísmo porque reconhecem a multiplicidade de papéis desempenhados pelos indivíduos.

Em segundo lugar, o livro detalha como as fronteiras entre grupos podem se tornar mais permeáveis e como a estigmatização pode ser reduzida, ao analisar os processos culturais por meio dos quais pessoas com HIV/Aids passaram de profundamente estigmatizadas no início da década de 1980 a muito menos estigmatizadas hoje, em comparação com pessoas rotuladas como obesas, um grupo que permanece altamente estigmatizado por ser associado à preguiça e à baixa autoestima.


Figura 8

Essa imagem evidencia os caminhos que conduzem à redução do estigma contra pessoas com Aids, com base em estudos de caso detalhados que mostram que os atores-chave são, em geral, trabalhadores do conhecimento — especialistas jurídicos e médicos, cientistas sociais, jornalistas e ativistas de movimentos sociais —, que transformam o enquadramento dos problemas sociais, assim como o significado atribuído aos grupos (Epstein, 1996; Saguy, 2013). Por exemplo, especialistas médicos conseguiram estabelecer a ideia de que Aids é uma doença como qualquer outra e que pode afetar qualquer pessoa, em vez de uma enfermidade que supostamente atinge grupos imorais, como pessoas gays ou usuários de drogas. O mesmo não ocorreu em relação a pessoas com obesidade. A Associação Médica Americana (American Medical Association) se opõe sistematicamente a dissociar a obesidade da saúde. Essa situação mudou pouco, apesar do engajamento de marcas como Dove, que promoveu seu sabonete com modelos plus-size usando poucas roupas, e de artistas como Lizzo, que se apresentou no Grammy Awards de 2020 cercada por dançarinas plus-size, a fim de promover a positividade corporal.

Esse exemplo mostra que as fronteiras entre grupos podem se alterar e que o sistema de desigualdade é dinâmico, não estático. A atenção a processos do Tipo 3 abre caminho, portanto, para uma compreensão mais aberta, menos determinista e mais multidimensional das dinâmicas sociais nas quais as desigualdades estão inscritas.

Em terceiro lugar, Seeing Others discute a popularização do “universalismo ordinário”, isto é, de uma cultura mais inclusiva, entre nossos interlocutores da Geração Z. Procuramos compreender o que ressoa com eles, perguntando, por exemplo: “Em que tipo de sociedade você quer viver?” Aprendemos que muitos deles combinam diferentes tipos de repertórios culturais (Zilberstein et al., 2023). Eles valorizam ambição e trabalho duro, mas veem o sonho americano fora de alcance para sua geração e, por isso, organizam seus planos de vida menos em torno do consumo e da mobilidade social. Diferentemente da minha geração de Baby boomers, eles valorizam o equilíbrio entre trabalho e vida e falam muito sobre saúde mental. Eles querem privilegiar o universalismo cotidiano, que está no cerne de sua identidade política.


Figura 9

O universalismo ordinário também foi central nas entrevistas que conduzi no início dos anos 1990 com imigrantes norte-africanos de baixa qualificação na região de Paris, quando eu estava estudando o racismo francês para The Dignity of Working Men. Quando perguntei aos participantes do estudo “O que você tem em comum com os franceses?” e “O que torna vocês semelhantes e diferentes?”, muitos deles se referiram a esse universalismo ordinário, ancorado em experiências humanas compartilhadas. As respostas incluíram: “Todos precisamos nos levantar de manhã para comprar nosso pão”, “Todos temos dez dedos”, “Passamos nove meses no ventre de nossas mães!” e “Somos todos filhos de Deus.” Tais quadros “cotidianos” de referência focalizam o que nos une — e não ideais do Iluminismo, como liberdade, igualdade e progresso. Eles não falavam sobre direitos humanos, mas sobre decência humana básica e respeito, isto é, “tratar as pessoas como pessoas”. Alguns de nossos jovens da Geração Z fizeram afirmações semelhantes em resposta à “parentalidade helicóptero” de seus ansiosos pais de classe média alta. Desse modo, eles também contribuem para o enfraquecimento de roteiros neoliberais do eu e ajudam a criar condições para fronteiras de classe mais permeáveis. Esse foco faz sentido em um contexto no qual alguns passam a perceber o sucesso material futuro como uma promessa vazia, à medida que diplomas universitários perdem seu apelo e à medida que se tornam mais preocupados com o hiperconsumo diante do aquecimento global.

Para retomar o trabalho de difusão cultural documentado em **, os ataques de Trump aos produtores culturais indicam claramente a amplitude de seu êxito, a ponto de o valor da inclusão ter-se tornado senso comum para muitos estadunidenses. Ainda assim, persiste uma intensa luta cultural em resposta à visão de mundo promovida por Donald Trump, que se alinha estreitamente a processos do Tipo 1, nos quais dominação, exploração, poder e dinheiro (assim como clientelismo e vingança) definem a ordem do dia: recursos são transferidos para os ultrarricos, em consonância com uma rejeição fundamental da solidariedade, o que se situa no próprio cerne da ideologia nacionalista de extrema direita.

Mensagens semelhantes continuam a emanar rotineiramente de muitos quadrantes, mesmo nesta era de polarização política. Muitas pessoas permanecem comprometidas com uma visão mais diversa da sociedade estadunidense, promovendo-a de todas as maneiras possíveis, em iniciativas grandes e pequenas, não apenas nos Estados Unidos, mas também em muitos outros países, como indicam pesquisas recentes (Mau et al., 2026). A presença delas constitui, para mim, uma fonte efetiva de esperança no período mais sombrio de minha vida.

A questão que mais importa para mim, neste momento, é se o embaralhamento simbólico de Trump logrará impor-se, de modo duradouro, como hegemonia cultural. O futuro é incerto, mas ainda está em nossas mãos. Para ajudar a compreender o que está adiante, volto-me agora às vias pelas quais grupos estigmatizados buscam reconhecimento: enquanto alguns caminhos estão abertos, outros estão fechados.

Reconhecimento em escala global

Estou desenvolvendo o livro Recognition Globally, no qual estabeleço comparações entre grupos com sentidos mais fracos e mais fortes de identidade coletiva, a fim de compreender que tipo de estratégias de reconhecimento mobilizam e por quê.

Em nosso livro de 2016 Getting Respect: Responding to Stigma in the US, Brazil and Israel, colegas e eu comparamos como afro-americanos, afro-brasileiros e, em Israel, judeus etíopes e Mizrahim, bem como cidadãos palestinos, experimentaram estigmatização e discriminação de maneiras distintas e como responderam a isso, interna e externamente (Lamont et al., 2016). A partir de entrevistas realizadas em 2007 e 2008, constatamos que afro-americanos acreditam ser necessário confrontar a agressão racial, aconteça o que acontecer. Essa resposta é viabilizada pelo mito do sonho americano, que celebra a meritocracia e a mobilidade ascendente, e pela realidade da Lei dos Direitos Civis de 1964, que desencadeou uma tradição de legislação antidiscriminatória robusta.

Eles têm muito menos dúvidas de que ocorreu uma microagressão do que seus equivalentes afro-brasileiros, que podem se perguntar se um incidente decorre de serem percebidos como de baixa renda, em vez de pretos ou pardos. Isso ocorre no contexto do mito nacional brasileiro da democracia racial, que celebra a hibridização e se ancora na ideia amplamente difundida de que “todos temos uma avó negra em algum lugar”. Em Israel, embora estejam na base do mercado de trabalho, judeus Mizrahim minimizam a discriminação porque são judeus e reivindicam pleno pertencimento cultural; em contraste, cidadãos palestinos de Israel sentem-se tão excluídos que não se dão ao trabalho de reagir, ainda que sejam formalmente cidadãos.

Esse estudo, baseado em mais de 400 entrevistas, levou-nos a concluir que a forma como os grupos buscam reconhecimento está intimamente ligada às experiências de grupalidade (groupness), isto é, a como vivenciam um senso de destino interligado e de identidade compartilhada, bem como a como traçam fronteiras em relação a outros grupos, incluindo pessoas que estejam acima e abaixo. Essa conclusão orienta Recognition Globally, que se baseia em estudos de caso em andamento, concebidos para ilustrar diversos processos culturais.

Trabalhadores e Reconhecimento por meio da Política

O primeiro desses estudos de caso consiste em uma comparação de jovens da classe trabalhadora, sem educação universitária, que vivem em Manchester, New Hampshire duas horas ao norte de Boston; Manchester, Reino Unido; e Tampere, a Manchester da Finlândia — isto é, em duas sociedades neoliberais e uma sociedade em que uma rede de proteção ainda está em vigor para os trabalhadores. As três cidades se destacam como berços da Revolução Industrial e como locais de mobilizações históricas significativas da classe trabalhadora em seus respectivos países4.

Temos resultados preliminares sobre trabalhadores em New Hampshire, enquanto os outros locais ainda serão analisados. Os jovens com quem conversamos vêm se identificando cada vez mais como de direita — especialmente os homens jovens (Cox, 2023). O apoio a Trump em 2024 entre jovens de 18 a 29 anos oscilou 32 pontos em relação à eleição de 2020 (Vielkind e Zitner, 2024). Nós os entrevistamos durante a campanha presidencial de 2024 para compreender se vinculam sua atitude em relação à política a uma busca por reconhecimento. Também nos interessava seu senso de identidade coletiva de classe, se ele é reforçado por uma identidade urbana local, e em que medida essas identidades se organizam em torno do traçado de fronteiras em relação a outros grupos, sejam “pessoas acima” ou “pessoas abaixo” na pirâmide social.

Quando perguntamos caso eles se definem como classe trabalhadora, muitos se mostraram intrigados quanto ao significado disso. Quase todos os nossos 45 entrevistados não sabem o que os sindicatos fazem ou mesmo o que são; apenas um terço considera que os sindicatos são bons; e apenas um punhado traçou fronteiras fortes contra os ricos, conectando seus baixos salários e sua falta de reconhecimento a um sistema de classe mais amplo que beneficia os ricos e prejudica os pobres.

Entre os respondentes que não se autoidentificaram como classe trabalhadora, tanto trabalhadores de colarinho azul quanto de colarinho branco/rosa se viam como “classe média baixa”, “classe média” ou, ao menos, quase “classe média”, categoria à qual atribuíam um significado moral positivo, aparentemente equiparando pertencimento cultural ao pertencimento à classe média. Desse modo, alguns olhavam de forma otimista para um futuro em que alcançariam o status de “classe média alta” ou mesmo chegariam ao patamar superior da sociedade. Dizem admirar os ricos e os “bem-sucedidos”, bem como empreendedores como Donald Trump, ao mesmo tempo que expressam adesão ao sonho americano.

Isso pode indicar que Trump e seus aliados tenham logrado institucionalizar critérios de valor que desvalorizam a vida dos trabalhadores. Ainda assim, ele se conecta com esses trabalhadores por meio de sua franqueza e de seu senso de humor rude (exemplificado por sua menção amplamente divulgada de “grabbing women by the pussy”, algo como “agarrar mulheres pela vagina”). Em seu excelente livro Fox Populism, o autor Reece Peck argumenta que Trump é bem-sucedido ao engajar-se em um estilo conversacional performativo que cria um vínculo cultural entre ele e os trabalhadores, ao exibir um habitus compartilhado que liberais e progressistas teriam dificuldade de emular, dado que seu humor não é marcado pela correção política (Peck, 2019). Nesse sentido, liberais e progressistas ressoam mais com processos sociais do Tipo 2, baseados na exclusão simbólica, o que limita a capacidade deles de estabelecer conexões de pertencimento cultural com os trabalhadores.

Ao traçarem fronteiras simbólicas fortes com base na moralidade, os participantes de Manchester se assemelham aos trabalhadores nova-iorquinos e parisienses de colarinho branco e de colarinho azul de baixo status, que entrevistei no início dos anos 1990 para The Dignity of Working Men, na medida em que valorizam o trabalho árduo, a autossuficiência e desejam “manter o mundo em ordem moral”. Nesse livro, mostro que os trabalhadores estadunidenses tipicamente definiam seu valor próprio a partir de sua capacidade de sobreviver, bem como de seu senso de responsabilidade e de sua ética do trabalho (Lamont, 2002). Eles aplicavam esses critérios morais a grupos que percebiam como não estando à altura, especialmente “pessoas negras que vivem de benefício social”, com diferentes articulações entre fronteiras simbólicas morais, raciais e de classe em comparação com a França, onde os trabalhadores expressavam mais solidariedade em relação a pessoas de baixa renda e a negros, mas eram mais duros com imigrantes muçulmanos que se aproveitam do sistema.

Em comparação com essas entrevistas realizadas há mais de 30 anos, nossos trabalhadores em Manchester têm pouca exposição a instituições que difundem e simbolizam a cultura da classe trabalhadora e, frequentemente, são deixados por conta própria ao lidar com suas experiências de extrema precariedade (Edin et al., 2019). Podcasts vêm substituindo progressivamente os espaços tradicionais de socialização da classe trabalhadora, como sindicatos, clubes de lazer e igrejas (Peck, 2025), em um contexto no qual apenas 9,9% dos trabalhadores estadunidenses são sindicalizados (USAFacts, 2025). Como resultado, eles exibem um senso fraco de pertencimento ao seu grupo.

Eles não são nostálgicos de um passado glorioso em que os trabalhadores eram contribuintes respeitados da economia, porque essa idade de ouro lhes é demasiado abstrata e distante. Além disso, poucos conhecem a história de Manchester e seu lugar na luta por direitos da classe trabalhadora.

Para muitos de nossos respondentes, a busca por reconhecimento molda sua política. Eles expressam uma necessidade de reconhecimento e de manutenção da dignidade e do autorrespeito, mas o fazem por meio de quatro diferentes caminhos:


Figura 10

Muitos votaram em Trump em 2024 porque acreditavam que ele entende as pessoas comuns e as defende contra “sanguessugas”, como os imigrantes que se apropriam dos frutos de seu trabalho sem uma contribuição. Um pequeno número apoiou o Partido Democrata porque esse partido promove uma sociedade mais inclusiva e cuidadora, um projeto de reconhecimento com o qual esses trabalhadores se sentem comprometidos, em parte devido a sua identidade pessoal como membro de um grupo minoritário.

Muitos se mantêm afastados da política porque a veem como suja, corrupta e tóxica. Eles se enquadram como dotados de agência ao buscar preservar sua autonomia em relação ao pântano que é a política. Outros, por sua vez, colocam-se acima dos partidos como eleitores independentes, ao mesmo tempo que se recusam a ser classificados por um sistema que percebem como alienante. Nos dois últimos casos, alguns o fazem evocando, implícita ou explicitamente, a necessidade de se manter acima da contenda, dado seu padrão moral e o conceito que têm sobre si mesmos. Diversos podcasts, como o Breaking Points, alimentam o medo da corrupção política entre esses eleitores, e a noção de que eles só podem confiar em seu próprio julgamento quando se trata de política.

Extrapolando a análise a partir de Getting Respect, a comparação transnacional com trabalhadores no Reino Unido e na Finlândia pode revelar que, para trabalhadores dos EUA, a fraca identificação de classe, as frágeis fronteiras em relação à classe dominante, a forte segregação social e espacial, a identificação nacional fortalecida, os fortes repertórios universalistas (relativos à religião, à meritocracia e aos direitos humanos) e as fortes fronteiras em relação às pessoas que estão abaixo deles se traduzem em um senso de grupalidade e de identidade coletiva da classe trabalhadora bastante fraco, o que favorece estratégias individuais de caráter neoliberal para a obtenção de reconhecimento.

Povos indígenas e reconhecimento por meio do trabalho e da responsabilidade ambiental

A segunda comparação diz respeito aos Algonquin Anishinaabe, das chamadas Primeiras Nações, que vivem a poucas horas de onde eu cresci, em Québec, e aos Chamorros, um grupo indígena das ilhas micronésias de Saipan e Guam, a mais de dois mil quilômetros ao sul de Tóquio5. Devido a restrições de tempo, concentro-me apenas no primeiro caso.

O território dos Algonquinos está localizado ao longo do rio Kichi Zibi (o rio Ottawa), que passa em frente ao Parlamento canadense na capital Ottawa. Sua bacia hidrográfica é imensa. Buscamos entender se esses grupos indígenas estão tentando obter reconhecimento por meio do trabalho e da justiça ambiental, enquanto os territórios dos quais são guardiões se encontram ameaçados por indústrias extrativas. A proteção ambiental está no cerne de sua identidade indígena, ainda que essas mesmas ameaças também constituam fontes de emprego. Nessas circunstâncias, como eles interpretam os problemas que atingem suas terras ancestrais? Como vinculam essas questões a questões de reconhecimento?

Os franceses começaram a explorar o rio Ottawa em 1613, com a primeira grande viagem de Samuel de Champlain pela via fluvial. Esse rio está no centro do território histórico de várias Primeiras Nações Algonquin. Tive acesso a duas Primeiras Nações. A primeira, Pikwàkanagàn First Nation, está localizada a duas horas ao norte de Ottawa, enquanto a Kebaowek First Nation situa-se várias horas ao norte, na região de Abitibi-Temiskaming, que é separada de Ottawa por uma floresta infinita que se estende em todas as direções.


Figura 11

Kebaowek e Pikwàkanagàn adotaram posições opostas em torno de um projeto altamente divulgado na mídia de instalar um depósito de superfície (near-surface disposal facility) para armazenamento de resíduos nucleares, localizada na cidade de Chalk River, que fica ao lado do rio Ottawa, perto de L’oiseau rock, um penhasco que tem sido local sagrado para as Primeiras Nações há milhares de anos, como evidenciado por pictogramas e oferendas ali deixadas. Dada a proximidade com Ottawa, um acidente poderia afetar os milhões de residentes que vivem na região.

Pikwàkanagàn é a única Primeira Nação (de um total de dez) que apoiou o projeto de Chalk River, motivada em parte pelos empregos que poderia trazer para a região. Em contraste, a Kebaowek First Nation se opõe, invocando a responsabilidade ambiental que é central à sua identidade indígena, bem como as ameaças aos seus modos de vida que um eventual desastre ocasionaria.

Vinte dos 31 membros da Kebaowek First Nation e 15 dos 18 membros de Pikwàkanagàn apontaram em entrevista os desafios ambientais específicos, o que inclui preocupações com extração de madeira e mineração, declínio da população de animais selvagens (em particular, os alces) e o impacto ambiental do depósito de armazenamento de resíduos nucleares. Esses participantes indígenas usam com maior frequência termos como “colonialismo” e “genocídio”. Em Pikwàkanagàn, contudo, os entrevistados não veem contradição entre seu apoio à construção do local de armazenamento de resíduos nucleares para obter emprego e seu compromisso com a proteção ambiental.

A principal área de convergência entre os Algonquinos e os Chamorros é o lugar do trabalho como via de reivindicação de dignidade. Para a maioria dos participantes de ambos os grupos nacionais, o trabalho assume centralidade em um contexto no qual o desemprego e a obtenção de renda regular frequentemente constituem desafios, sobretudo em cenários marcados pela prevalência da pobreza. Em Pikwàkanagàn, os entrevistados não estabelecem oposição entre apoiar a construção do depósito de armazenamento de resíduos nucleares como meio de obter trabalho e atuar como guardiões do meio ambiente.

Uma comparação futura dos quatro grupos — Kebaowek e Pikwàkanagàn no leste do Canadá e Chamorros em Saipan e Guam — permitirá estabelecer o grau de grupalidade dessas populações, a fim de apreender como atribuem sentido à identidade coletiva e às fronteiras que traçam em direção ao grupo dominante, bem como de explorar mais detidamente se e de que modo vinculam sua dignidade à responsabilidade ambiental. Por ora, limito-me a observar que as duas nações algonquinas demonstram maior preocupação com o meio ambiente que os Chamorros: em Saipan, menos pessoas expressam tais inquietações, em um contexto no qual o governo dos EUA constrói uma base militar com consequências nocivas para a ecologia das ilhas, em troca de lhes conceder acesso ao consumo e ao sonho americano como cidadãos dos EUA.

Este estudo comparativo evidencia as tensões entre necessidades materiais e o desejo de reconhecimento entre esses povos indígenas, cuja identidade está profundamente vinculada à terra que sempre foi deles. Examinar a relação entre identidades coletivas e estratégias de obtenção de reconhecimento situará a análise de processos sociais do Tipo 3 em um contexto transnacional, com o objetivo de apreender, de modo articulado, os fatores culturais e socioestruturais que constrangem e ativam tais estratégias. Continua…

Conclusão

A análise de como a busca por reconhecimento anima diferentes grupos nos informa sobre dinâmicas contemporâneas que permanecem longe de ser plenamente compreendidas. É preciso ir além da condenação da wokeness para compreender processos culturais e enfrentar o declínio da solidariedade, aqui e em outros lugares. A lente analítica do reconhecimento torna visíveis padrões que, de outro modo, permaneceriam invisíveis. A análise comparativa e o estudo de processos culturais são, portanto, ferramentas essenciais para enfrentar este momento histórico. De modo mais geral, é necessário ir além do nacionalismo metodológico e descompartimentalizar nossos enquadramentos científicos de referência, a fim de que possamos trabalhar em conjunto para atribuir sentido às mudanças globais atuais, para além das fronteiras nacionais.

Uma consideração final é que devemos ir além de conceber o reconhecimento como um jogo de soma zero. Não é como um bolo, no qual o tamanho do pedaço que alguém recebe é diretamente proporcional ao que os outros deixam de receber. Além disso, o reconhecimento não se encontra em oferta limitada: diferentemente da aquisição de recursos materiais, todos podemos vivenciar dignidade simultaneamente. Ademais, embora os recursos importem como marcadores de posição social, eles não esgotam o que está em jogo. As pessoas obtêm reconhecimento por meios não materiais, incluindo a gratidão e a apreciação dos outros; além disso, nosso mundo não se organiza em torno da distribuição de uma única modalidade de bens. Diferentes tipos de recursos podem ser mobilizados conjuntamente, o que torna o reconhecimento possível para várias pessoas ao mesmo tempo. Isso contrasta com o jogo de soma zero que (Bourdieu, 1984) postula em sua teoria dos campos.

Segundo a psicologia positiva, que ganhou considerável popularidade nos últimos anos, construir uma sociedade mais inclusiva requer empatia. No entanto, isso vai muito além do voluntarismo ingênuo promovido por essa abordagem: uma conclusão desta palestra diz respeito à necessidade de enriquecer nossos ambientes com repertórios culturais que tornem possível integrar a inclusão aos critérios de avaliação nos domínios do emprego, da educação e do direito (entre outros), ao mesmo tempo em que se faz frente a uma visão neoliberal e ultracompetitiva do mundo.

Durante este segundo mandato da administração Trump, a resistência continua, hoje, cotidianamente, como na solidariedade expressa em relação a imigrantes indocumentados e pessoas de baixa renda que estão perdendo sua assistência alimentar. Prossegue por meio de doações privadas e de milhares de outras intervenções individuais que manifestam o engajamento de cidadãos para viver em uma sociedade mais humana e menos cruel. O trabalho de difusão cultural em favor da inclusão, realizado em décadas recentes, não pode desaparecer da noite para o dia, apesar da reação contrária atual. Mensagens voltadas à desestigmatização de diversos grupos, reiteradamente disseminadas, deixam marcas nos quadros culturais por meio dos quais definimos as sociedades em que desejamos viver. Nós, como trabalhadores do conhecimento, desempenhamos um papel crucial na disseminação de tais quadros culturais, como Trump compreende bem demais. Não é tudo, mas tampouco é nada.

Em um contexto no qual o Partido Democrata está em frangalhos e os partidos políticos em geral estão fracos, a produção de narrativas inclusivas continua: apresentadores de late-night talk shows na TV dizem a verdade ao poder mesmo quando seus empregos estão ameaçados, e universidades de elite e o setor filantrópico resistem a pressões para limitar a autonomia acadêmica e a liberdade de expressão. A reação está se intensificando em muitos cantos. Manter a fé é crucial para que possamos atravessar este momento desafiador.

Um caminho possível para cientistas sociais comprometidos com uma sociedade mais inclusiva é continuar a luta no plano cultural para ganhar terreno no ecossistema midiático a cada dia, centímetro por centímetro, ao mesmo tempo em que se eleva a consciência sobre o que está em jogo nesse cabo de guerra simbólico. Para produzir impacto, cientistas sociais precisam alcançar além de nossas câmaras de eco preferidas, o que é desafiador, dado que participamos de uma subcultura tão estreita, autorreferencial e autoimportante. Isso requer compreender a transformação do ecossistema midiático para além da mídia tradicional: por exemplo, saber como estabelecer contato por meio do YouTube, dada sua popularidade entre os jovens. Isso é algo que a maioria de nós, cientistas sociais, não sabe fazer. Ampliar nosso público exigirá sair de nossa zona de conforto e estar disposto a experimentar para além das fronteiras de nossa “tribo”, para além das páginas de opinião do The New York Times ou do Le Monde, a fim de repensar quem são as nossas plateias e qual é o nosso papel. Os riscos são altos, o desafio está posto e o tempo é curto.

Obrigada por sua atenção.

Referências

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  • 1
    Tradução: João Miguel Diógenes de Araújo Lima (ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4768-7589). Esta tradução foi realizada a partir do texto em inglês fornecido pela autora, intitulado “Facing Trump’s Great Symbolic Reshuffling to Foster Recognition”. A conferência foi proferida em língua francesa na 44ª Conferência Marc Bloch, realizada em 8 de dezembro de 2025 no Conseil économique, social et environnemental (CESE), em Paris, em parceria com a École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS). A gravação encontra-se disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=gSwiWjipWr8.
  • 2
    Nota de tradução: na palestra em inglês foi utilizado o termo “people of color”, de uso corrente nos Estados Unidos para se referir a pessoas não brancas. O uso do termo também tem sido mais frequente em outros países anglófonos, como Reino Unido e Canadá.
  • 3
    Entre os muitos trabalhos sobre desigualdades, esses mecanismos ocupam posição central em Durable Inequality, de Charles Tilly (1999), em O Capital no século XXI, de Thomas Piketty (2014), e em outras obras de referência para o estudo das desigualdades, como The Return of Inequality, de Mike Savage (2021).
  • 4
    Meus colaboradores nos três projetos de Manchester foram Andrew Miles e Hilary Pilkington (University of Manchester), Jarmo Kaluncki (University of Tampere), Jane Choi, Hannah Castner e Sydney Sauer (Harvard University). Jane e Hannah realizaram entrevistas em Manchester, New Hampshire; e Jane, Hannah e Sydney codificaram as entrevistas.
  • 5
    Chelsea King, Samantha Wyman e Sydney Black (Harvard University) são minhas colaboradoras nesta comparação. Chelsea King, Chamorro da Ilha de Saipan, conduziu as entrevistas do projeto. Chelsea, Samantha e Sydney codificaram as entrevistas.
  • Financiamento:
    Esta pesquisa recebeu apoio financeiro da Hewlett Foundation e da Freedom Together Foundation; do Asia Center, do Canada Program, do Dean's Competitive Fund for Promising Scholarship, do Salata Institute e do Weatherhead Center for International Affairs da Harvard University; e de bolsas do Netherland Institute for Advanced Studies, do Leverhulme Trust e do Institut d'études avancées de Paris.
  • Declaração de Disponibilidade de Dados
    Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do texto.
  • Editoria:
    Eduardo Dimitrov

Disponibilidade de dados

Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do texto.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    26 Maio 2026
  • Aceito
    28 Maio 2026
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