Entre final de 2022 e meados de 2024, a Direção da revista Sociedade e Estado (S&E)2 participou da discussão e contribuiu com o debate acerca da ciência aberta (Open Science), provocado no Brasil sobretudo pela Scientific Electronic Library Online (SciELO Brasil)3. Como revista indexada desta plataforma, fomos obrigados a alterar nossas diretrizes e políticas editoriais para nos adequar às suas novas orientações. Conscientes de que a nossa revista tem significativa relevância no quadro de periódicos brasileiros, em especial das ciências humanas e sociais, não nos furtamos de tomar posição acerca dessas propostas, ainda que elas tenham se apresentado de maneira impositiva e, muitas vezes, desconexas com a realidade cotidiana da grande maioria das revistas brasileiras.
Tradicionalmente, a S&E sempre se alinhou a um dos princípios básicos do movimento ciência aberta, isto é, a gratuidade tanto para a publicação quanto para o acesso dos artigos. Isso nos manteve independentes das plataformas editoriais comerciais. No entanto, essa posição de princípio só tem sido possível por conta do enorme esforço realizado por diversos docentes e técnicos-administrativos da universidade em manter este periódico funcionando, ao longo dos últimos 40 anos, apesar das restrições de recursos financeiros.
Hoje, compreende-se como ciência aberta não apenas o livre acesso aos trabalhos acadêmicos, mas também um conjunto de políticas e ações que impactam as práticas de fazer e de difundir a ciência. Assim, por exemplo, também foram parte importante de nossos debates as questões relativas à produção e ao armazenamento dos dados, à agilidade para a avaliação e a publicação dos trabalhos submetidos e à equidade de gênero e raça/cor dos/as autores/as4. A ciência é constituída por uma complexa comunidade que se ramifica em diversas “cadeias de produção” a qual tem início na elaboração de um projeto, passa pelos financiamentos e apoios institucionais e tem como um de seus principais produtos a publicação e publicização de seus resultados. Todo esse processo pode contribuir para a produção de uma ciência e de uma universidade pública preocupadas com o seu compromisso social e com a reflexibilidade de seu saber. Porém esse processo não está livre de disputas políticas e desigualdades de oportunidades que acabam por favorecer certos grupos e segmentos da comunidade. Assim, cabe também aos periódicos constituir práticas que permitam avançar na democratização do conhecimento.
Sociedade e Estado é um periódico do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB). Fundado em 1986, reúne uma coleção de 39 volumes anuais, 86 números e 3 edições comemorativas (1993, 1995, 2016). Até dezembro de 2004, a sua periodicidade de publicação era semestral, tornando-se quadrimestral entre 2005 e 2023. Em 2013, alcançamos o Qualis A1 na área de Sociologia, melhorando a cada ano nosso fator de impacto e nossas posições nas avaliações de diversas plataformas e indexadores. Em 2012, S&E passou a ser totalmente on-line, aberto e gratuito e a sua versão impressa foi extinta em 2018.
Como ressaltaram Almeida e Rocha, ex-editor/a da revista, temos orgulho de ser, ao lado da Cadernos CRH, uma publicação que se destaca no que se refere ao protagonismo das mulheres, tanto em termos proporcionais quanto absolutos:
Em ambas as revistas, a proporção de artigos assinados por mulheres se mantém acima de 40% durante a maior parte do tempo e acima de 30% em praticamente todos os anos. No que diz respeito à Sociedade e Estado, em particular, de 2011 a 2021, a proporção de artigos publicados por mulheres foi, em média, de 41%. Desconsiderando-se um ou outro ano de variações extremas, Sociedade e Estado e Cadernos CRH mantiveram a proporção de publicações assinadas por mulheres oscilando entre 40% e 50% ao longo da última década. Isso contrasta com as outras revistas consideradas, para as quais esse patamar ficou no entorno dos 30% (Almeida e Rocha, 2023 p. 13).
Entre as principais decisões tomadas pela Direção de Sociedade e Estado, em vista de avançar na prática da ciência aberta, estão:
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alterações do Estatuto, criando-se cargos que possam contemplar uma perspectiva mais abrangente e diversa de gestão da revista, inserindo-se em sua direção um(a) Editor(a) Adjunto(a) externo ao quadro de professores do Departamento de Sociologia da UnB e Editores(as) Assistentes selecionados entre estudantes de pós-graduação ou pós-doutorado da universidade;
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adoção, a partir de 2023, da publicação em fluxo contínuo, optando-se por manter a existência de três números para cada volume. Assim, a S&E deixou de ser quadrimestral e passou a ter publicações contínuas;
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submissão de artigos anexados em plataformas de preprints e possibilidade de avaliações por pares em aberto, isto é, com o conhecimento de seus/suas autores/as e/ou avaliadores/as;
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alterações nas normas de publicação e inclusão de novos tipos de documentos, tais como Ensaio, Entrevista e Comentário Crítico;
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coleta de informações sociodemográficas dos/as autores/as para subsidiar nossa política de transparência, equidade e diversidade;
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necessidade de os artigos com mais de um/a autor/a trazerem especificadas as contribuições de cada um na pesquisa e na elaboração do texto final.
Essas alterações em nossa organização e política editorial implicaram significativas mudanças no fluxo de trabalho, no layout dos artigos publicados, na revisão e na diagramação e nas instruções de publicação aos/às autores/as. Isso criou enormes desafios para a equipe editorial, pois uma nova cultura de trabalho tem sido produzida. Por exemplo, se antes cada número da revista era revisado, diagramado e publicado em seu conjunto a cada quatro meses, agora todo esse processo ocorre de forma contínua por meio de blocos de até 5 ou 6 documentos aprovados durante um período.
Também vale ressaltar que hoje a maior dificuldade enfrentada pela S&E está em seu financiamento. O periódico é praticamente sustentado pelos recursos do Departamento de Sociologia da UnB. Além disso, enquanto a política de fluxo contínuo e as exigências de qualidade das agências avaliadores acabam por encarecer os custos de produção dos periódicos, temos uma diminuição de recursos provindos das agências de fomento às pesquisas, tais como CNPq, CAPES e FAPs. Isso nos exige realizar malabarismos de gestão para que possamos manter sobrevivendo os periódicos. Essa realidade parece não ser vista pelas instâncias de decisões e de gestão da SciELO, que impõe alterações verticais às revistas indexadas em suas plataformas, exigindo mudanças e prazos nem sempre plausíveis.
Apesar de nossa convicção e compromisso com uma política editorial pública, aberta, acessível, equitativa e diversa, entendemos que há importantes contradições no movimento global de ciência aberta. Por exemplo, a política de acesso aberto sem que haja contrapartida de financiamento público para sustentar as revistas acaba por ampliar a quantidade de revistas que cobram taxas de processamento de artigos (APC, sigla para o termo em inglês article processing charges), uma distorção dos princípios do movimento original.5
Também há pouca problematização sobre o quanto a revolução digital tem impactado e distorcido o movimento de ciência aberta. Se, por um lado, é este novo aparato técnico-científico que permite uma publicização global dos artigos, por outro, possibilita com que nossas produções sirvam de fonte para o extrativismo de dados, alimentando as plataformas de inteligência artificial, monetizando o conhecimento que deveria ser público e gratuito, sem que haja ao menos alguma referência das fontes.
Apesar de todas as dificuldades e contradições que enfrentamos e iremos enfrentar no próximo período, a Direção de Sociedade e Estado está convicta de que as alterações realizadas nestes últimos anos em seu fluxo de trabalho, nas orientações aos/às autores/as, nas normas de submissão, na adesão ao fluxo contínuo, ao preprint e à possibilidade de avaliação em aberto, entre tantas outras, colocam a revista no caminho de maior democratização, equidade, diversidade e boas práticas da ciência, reafirmando sempre o nosso compromisso com uma universidade pública comprometida socialmente.
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O Departamento de Sociologia e a equipe editorial da Sociedade e Estado manifestam publicamente o nosso agradecimento ao excelente trabalho de revisão, tradução e diagramação realizado por Franck Karl André Soudant nestes últimos 30 anos. Parte da qualidade deste periódico se deve aos esforços e dedicação de pessoas como Franck.
Referências
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ALMEIDA, T. M. C. de; ROCHA, E. F. O tema gênero e as autoras no campo editorial das Ciências Sociais no Brasil: um breve estudo sobre revistas A1 nos últimos 30 anos. Revista Brasileira de Pós-Graduação, [S. l.], v. 18, n. especial, p. 1-23, 2023. DOI: 10.21713/rbpg.v18iespecial.1913. Disponível em: https://rbpg.capes.gov.br/rbpg/article/view/1913 Acesso em: 22 dez. 2023
» https://doi.org/10.21713/rbpg.v18iespecial.1913» https://rbpg.capes.gov.br/rbpg/article/view/1913
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Participaram deste processo como editor/a responsável Tânia Mara Campos de Almeida (2020-2022) e Ricardo Festi (2022-2024); e como editores/as-adjuntos/as, Daniela Felix Kawabe, Eduardo Dimitrov, Sayonara de Amorim Leal. Contribuíram também Carlos Benedito Martins, Edson Silva de Farias, Fabrício Neves, Maria Francisca Pinheiro Coelho, Sergio Tavolaro, Stefan Klein.
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A plataforma exigia que até final de 2023 fossem realizadas as seguintes adaptações: “O procedimento de aplicação dos Critérios SciELO verificará quatro questões: o periódico expressa na sua política editorial o alinhamento com ciência aberta; informa que aceita avaliar manuscritos depositados em servidores de preprints conhecidos; requer a citação, referenciamento e declaração dos dados de pesquisas; e promove peer review informado” (SciELO, 2022, p. 9)
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Um dos critérios de avaliação das revistas indexadas na plataforma SciELO é a promoção da diversidade, equidade, inclusão e acessibilidade na avaliação e comunicação de pesquisas.
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5
Ver Manifesto sobre a ciência como um bem público global: acesso aberto não comercial, aprovado no Global Summit on Diamond Open Access, ocorrido em outubro de 2023, em Toluca, México. Disponível em: https://globaldiamantoa.org/manifiesto/.
