Open-access O impacto do giro pragmático nas Ciências Sociais e na História

Resumo

O dossiê analisa os impactos do giro pragmático na Sociologia, na Antropologia e na História. A partir da centralidade da prática, da experiência e da agência, essa perspectiva questiona dicotomias clássicas, como indivíduo e sociedade, estrutura e ação. O conjunto de artigos discute tanto fundamentos teórico-metodológicos, em diálogo com autores como Dewey, Bourdieu, Latour, Tarde, Botanski, Thévenot, Kant, e muitos outros, quanto aplicações empíricas que demonstram como os atores constroem sentidos, negociam identidades e produzem ações situadas. O dossiê reafirma a relevância das abordagens pragmatistas para a compreensão das dinâmicas sociais e históricas.

Palavras-chave:
Giro pragmático; Prática social; Agência; Reflexividade; Ciência social

Abstract

This dossier analyzes the impacts of the pragmatic turn in Sociology, Anthropology, and History. Based on the centrality of practice, experience, and agency, this perspective challenges classical dichotomies such as individual and society, and structure and action. The set of articles discusses both theoretical-methodological foundations, engaging with authors such as Dewey, Bourdieu, Latour, Tarde, Botanski, Thévenot, Kant and others, and empirical applications that demonstrate how actors construct meanings, negotiate identities, and produce situated actions. The dossier highlights the relevance of pragmatist approaches to understanding social and historical dynamics.

Keywords:
Pragmatic turn; Social practice; Agency; Reflexivity; Social science.

A produção de conhecimento sobre o mundo humano e não humano, sobre os entes vivos e não vivos, não está alheia às mudanças de concepções provocadas pela passagem do tempo. O giro pragmático representa um desses momentos de renovação do pensamento, dos métodos e do modo de produção de conhecimento. A ideia do giro pragmático ecoa alguns pressupostos do giro linguístico, quando, na filosofia social, a linguagem passa a ser considerada um meio privilegiado de acesso à realidade. Na perspectiva pragmática, entretanto, a linguagem não é uma estrutura lógica encerrada na mente dos sujeitos, mas o meio pelo qual os atores interagem através dos seus contextos de uso e práticas sociais. A dimensão performativa da linguagem (enquanto constitutiva da realidade) é, portanto, crucial para a perspectiva pragmática.

A compreensão da linguagem como uma possibilidade de acesso direto aos sentidos que os atores atribuem aos seus atos em contexto de ação permitiu que a Sociologia, a Antropologia e a História renovassem seus métodos de compreensão da realidade. Correntes sociológicas como o interacionismo simbólico e a etnometodologia, influenciadas pelo giro linguístico-pragmático, passaram a dar centralidade à interação dos atores e aos métodos utilizados por eles em seus contextos de ação. O giro pragmático na Sociologia, na Antropologia Social e na História coloca entre parêntese os dualismos que marcaram a sociologia clássica, tais como a dicotomia entre micro e macro, estrutura e ação, indivíduo e sociedade, objetividade e subjetividade, ou corpo e mente. Ao fazê-lo, novas chaves interpretativas do mundo se abrem.

Este dossiê reúne trabalhos de pesquisadores/as renomados/as sobre a influência dessa nova perspectiva no olhar sobre o mundo social a partir do prisma das Ciências Sociais e da História, reunindo seis artigos que abordam o tema de maneiras distintas. Os três primeiros possuem características mais teóricas e os três últimos privilegiam a aplicação prática dos pressupostos dessa virada pragmatista em pesquisas mais empíricas.

O primeiro artigo, “O Giro Pragmático nas Ciências Sociais: explorações em torno das teorias da prática e da ética”, de Iara Maria de Almeida Souza, Paulo César Alves e Míriam Cristina Marcílio Rabelo ((2025)), dá ao público leitor uma perspectiva ampla desse movimento denominado giro pragmático, abordando sua dimensão histórica e efeitos na produção do conhecimento. O segundo artigo, “Hábito, Habitus e Reflexividade: um diálogo experimental entre praxiologia e pragmatismo”, de Gabriel Peters ((2025)), trabalha a relação entre o conceito de hábito de John Dewey e o conceito de habitus de Pierre Bourdieu, com ênfase na dimensão da reflexividade dos atores em ação. O terceiro artigo, de Phillip Villani ((2025)), intitulado “Sociological Metaphysics and Pragmatist Sociology: the pragmatic and metaphysical utility of statistics in Gabriel Tarde”, trata o viés pragmatista do pensamento de Tarde e as correlações entre o pensamento desse autor e o giro pragmático. Esses três artigos trazem reflexões sobre pressupostos teórico-metodológicos do giro pragmático que abriram novos caminhos de compreensão sobre o mundo social.

O quarto, quinto e sexto artigos possuem como traço comum a análise de contextos práticos em pesquisas empíricas a partir de abordagens pragmatistas. O artigo de Andrew Irving, “Time, Space and Death in Familiar Places: New York’s Lower East Side in a time of HIV/AIDS” ((2025)), consiste em uma experiência teórico-metodológica de caráter pragmatista que acontece a partir do caminhar de Irving em um bairro de Nova York onde viveram e morreram pessoas afetadas pelo HIV/AIDS. Ele caminha ao lado de conhecidos dessas pessoas reativando memórias através da presença no lugar e de fotografias. O quinto artigo, “Revestimentos de Si: os limites do conceito de identidade e sua interface com a sociologia e antropologia pragmática no universo quilombola contemporâneo”, de Fabio Reis Mota e Daniela Velásquez Peláez ((2025)), analisa processos de reconstrução, reconhecimento e negociação de identidades de comunidades remanescentes de quilombos a partir de pressupostos pragmatistas da corrente francesa de Luc Boltanski e Laurent Thévenot. O sexto artigo, “O giro pragmático na História: o que ele pode fazer ao estudo de uma experiência política”, de Mariana Garzón Rogé ((2025)), apresenta uma instigante releitura da experiência política do peronismo nos anos 50, na Argentina, com base em outro tipo de perguntas feitas às fontes históricas sob a perspectiva do giro pragmático. Esses três últimos artigos se interconectam na construção de um olhar analítico pragmatista em experiências empíricas concretas, mas também trazem reflexões sobre pressupostos e autores trazidos nos primeiros artigos do dossiê. A seguir detalhamos um pouco mais do conteúdo e algumas das interfaces entre os artigos.

O artigo de Souza, Alves e Rabelo situa os principais elementos do movimento intelectual denominado giro pragmático, que questiona as teorias pautadas na dicotomia entre sujeito e objeto, corpo e mente, indivíduo e sociedade, estrutura e ação, vigentes no campo das Ciências Sociais desde o pós-Segunda Guerra Mundial até a década de 1970. O giro pragmatista é composto, para elas e ele, por duas abordagens teóricas que, embora se aproximem pela centralidade atribuída à categoria de prática, diferem quanto à forma como compreendem o mundo social e enfrentam as dicotomias consolidadas até então no pensamento social. Uma delas é a praxiologia, abordada a partir da teoria de síntese de Pierre Bourdieu. A outra é o pragmatismo, representado pelas figuras de William James, John Dewey e por autores/as mais recentes, como Latour, Stengers, Moll e Thévenot. Para Souza, Alves e Rabelo, a teoria de síntese de Bourdieu não conseguiu escapar das dualidades entre micro e macro, ação e estrutura, indivíduo e sociedade. Ao manter um acento excessivo no habitus como disposições sociais internalizadas que embasam a ação do sujeito, Bourdieu teria preservado o dualismo entre reflexão e disposições habituais para a ação. É como se o habitus, enquanto sistema de ação e interação, continuasse a informar previamente o campo de atuação dos agentes. Outra crítica feita a Bourdieu é que ele pouco considerou a agência de não humanos, tratando a agência como um atributo exclusivamente humano e, com isso, traçando uma linha divisória entre seres com agência e seres sem agência.

Para Souza, Alves e Rabelo, o pragmatismo clássico não estava preocupado em fornecer uma síntese das dicotomias fundantes do pensamento moderno, mas em pensar a prática como instância fundamental na composição do mundo. Tanto William James quanto John Dewey pensaram os agentes em seus contextos de ação. Os agentes possuem motivações e reflexividade, mas essas características não são a priori à situação. A reflexividade, tanto quanto as motivações, emergem a partir da correlação entre ação e situação. Daí a categoria de experiência ser central no pensamento desses dois autores. É a partir da experiência, da ação em situação, que emerge a reflexividade. Por isso, para Dewey, os hábitos são disposições internalizadas, e essas disposições sempre se deparam com as resistências do mundo, o que leva o agente a um estado de abertura e criatividade.

O pragmatismo clássico frutificou em suas teorias e abordagens do mundo ao ser retomado por autores/as como Latour, Moll, Stengers e Thévenot. Na teoria do ator-rede (TAR) de Latour, que estendeu aos não humanos a agência, surge a pergunta acerca do que define uma determinada realidade – na ciência, medicina, corpo, ética – substituída por ele pela questão pragmatista de: “como isso se faz na prática?”. Para Moll, dizem Souza, Alves e Rabelo, o corpo é plural e se constitui na prática a partir da interrelação entre humanos e não humanos. Do pensamento de Thévenot e Stengers resgatam que não é possível pensar a ética fora do campo da prática, já que ela é, sobretudo, uma prática. A ética e a moralidade, portanto, são campos fecundos para pensar a dimensão prática da vida. De Thévenot retomam ainda a ideia de que a moralidade não diz respeito nem a motivações internas, nem a crenças coletivas, mas à capacidade dos agentes de tomarem posição nas situações práticas da vida. A ética, portanto, não diz respeito a normas internalizadas que antecedem o contexto prático da ação, mas à capacidade do agente de afetar e ser afetado, de avaliar, hesitar e responder ao engajamento prático que a situação lhe impõe, princípio presente de modo distinto no artigo de Fabio Reis Mota e Daniela Velásquez Peláez e no de Mariana Garzon Rogé.

Souza, Alves e Rabelo mobilizam a noção de prática do pragmatismo e a recupera enquanto processos de composição – de corpos, de bens e de mundos. Tais abordagens apontam para a pluralidade do mundo, “em que a agência deixa de ser propriedade exclusiva de humanos para circular entre múltiplas e enredadas entidades, onde sensibilidades, hábitos e reflexão deixam de delimitar campos em oposição para referir-se a dimensões inseparáveis de nosso engajamento prático com outros (humanos e não humanos) e com a situação”.

O segundo artigo, de Gabriel Peters, possui várias conexões com o primeiro. Peters apresenta uma reflexão sobre a relação entre o pragmatismo de John Dewey e a praxiologia de Pierre Bourdieu. Para ele, ambos questionam os dualismos que marcaram o pensamento do ocidente moderno e dicotomias entre corpo e mente, sujeito e mundo, ação e estrutura. Dewey através do seu conceito de hábitos e Bourdieu através do conceito de habitus. Mas se pergunta: Quais são as aproximações e distanciamentos que existem entre eles? Como o pragmatismo de Dewey pode contribuir com a praxiologia de Bourdieu e vice-versa?

Peters traça um paralelo entre o pensamento desses autores. Bourdieu desenvolveu uma teoria que dá ênfase à dimensão anti-intelectualista do conceito de habitus, replicando certo dualismo entre o conceito de habitus e reflexividade, como apontado por Souza, Alves e Rabelo. Peters afirma que, para Bourdieu, as deliberações reflexivas são mobilizadas apenas nos momentos de histereses, isto é, os de quebra radical da cumplicidade ontológica entre os sujeitos da ação com suas predisposições habituais e os contextos de ação. Na maior parte das vezes, entretanto, Bourdieu concebe a vida cotidiana como respondendo a essa cumplicidade ontológica entre contexto e ação, ainda que haja uma dimensão de improviso regrado e, portanto, de criatividade nas dimensões habituais da conduta humana. Dewey, por sua vez, a partir do conceito de hábitos como predisposições internalizadas do sujeito exposto ao ambiente e incorporando as energias objetivas do seu meio, dá maior margem às deliberações reflexivas no contexto situacional do cotidiano. Nesse sentido, o ator, para Peters, não é apenas instado a refletir sobre sua conduta através da imaginação de alternativas distintas no curso da ação ou da conversação interna sobre qual a melhor forma de agir em momentos radicais de crise da cumplicidade ontológica entre ação e estrutura, mas em situações rotineiramente vividas pelo ator na sua vida cotidiana.

Peters propõe o conceito de “micro-histereses”, diferente do de histereses, o qual supõe deliberações reflexivas apenas em contextos de crise radical entre ação e contexto de ação, estendendo à vida cotidiana a suscetibilidade do ator às deliberações reflexivas. Isso porque, ainda que o hábito, no sentido de Dewey, nos permita economizar energia e agir a partir de padrões de conduta informados por aprendizados já interiorizados, a vida cotidiana nos coloca desafios ou possibilidades de escolhas que nos demandam reflexividade. Para Peters, a perspectiva pragmática de Dewey pode contribuir com a teoria bourdieusiana do habitus na medida em que aponta para as situações em que os atores mobilizam a reflexividade nos contextos da vida cotidiana, e a praxiologia de Bourdieu também enriquece a perspectiva pragmatista de Dewey com o conceito de habitus. Peters afirma que a ideia de disposições internalizadas de Bourdieu está mais para o conceito de hábito de Dewey do que o próprio conceito habitus. Também afirma que o pensamento pragmatista de Dewey mantém certa dualidade entre o hábito e a criatividade, delegando a dimensão de criatividade às deliberações reflexivas. É como se o hábito, ele mesmo, não fosse um lócus de criatividade. Bourdieu, ao elucidar as improvisações regradas do senso prático, aponta para a dimensão criativa do habitus. Nesse sentido, a praxiologia de Bourdieu complementaria o pragmatismo ao instaurar no próprio conceito de habitus a dimensão da criatividade e, ao mesmo tempo, ao trazer a dimensão do habitus como um sistema de interrelação de hábitos vinculado a subjetividades socializadas.

Peters, como Souza, Alves e Rabelo, trabalha com as interfaces entre o pensamento de Bourdieu e Dewey. Mas, diferente delas/e, Peters vê a possibilidade de que não somente o pragmatismo clássico tem o potencial de fazer avançar o pensamento de Bourdieu, mas que também o pensamento bourdieusiano pode oferecer contribuições valiosas à perspectiva de Dewey. Em ambos os artigos, é central a reflexão sobre a não determinação do comportamento humano por estruturas que se cristalizam em hábitos e no habitus. Para Peters, a reflexividade, tornada habitual, como uma postura disposicional, nos dará a possibilidade de transformar os nossos modos de ação habituais e, muitas vezes, inconscientes, em modos de ser mais livres.

O terceiro artigo, de Phillip Villani, se distancia, em certa medida, dos anteriores. Menos preocupado em fazer uma retrospectiva histórica do giro pragmático, e sem trabalhar com autores clássicos da praxiologia e do pragmatismo, aborda através do pensamento de Gabriel Tarde questões centrais ao pragmatismo. Em um movimento intelectual criativo, Villani analisa de maneira lúcida as interfaces entre o pragmatismo e a sociologia de Tarde. Diferente de Durkheim que via o conhecimento sociológico como derivado das ciências exatas, Tarde afirmava que todo conhecimento científico deriva da sociologia. Isso porque todos os entes que compõem o cosmos têm uma tendência à agregação, à assimilação e, nesse sentido, à formação de sociedades, dando à sociologia um caráter metafísico. Villani extrai interessantes implicações do pensamento de Tarde, para quem todo ser, seja vivo ou não vivo, humano ou não humano, possui agência, porque as forças das crenças e do desejo são universais e compõem a constituição de todo ser enredado no cosmos. Tarde chega a falar de um psicomorfismo universal: a pedra, o grão de areia, a madeira, as moléculas, átomos, elétrons e quarks, todos possuem e são possuídos pelas forças da crença e do desejo. Todos, humanos e não humanos, somos formados pelas mesmas forças constitutivas.

A crença está para a conservação assim como o desejo está para a transformação. E o universo é movido por duas tendências: a da repetição-imitação e a da diferenciação-invenção, que não se anulam nem se neutralizam, mas coexistem. Embora a diferenciação tenha prioridade ontológica, ela depende da reprodução; surge como uma abertura da continuidade — é a partir da repetição que emerge a diferença. O processo de assimilação guarda relação com a reprodução: toda assimilação é um ato de posse, quando um ser se apossa de outro ser. Nesse sentido, todo ser contém em si vários seres. Um parasita contém em seu organismo outros parasitas — e estes, por sua vez, outros parasitas; um cérebro contém redes neuronais, e estas últimas contêm neurônios. Assim, tudo é uma questão de escalas. Para Tarde, não há uma definição fixa do que seja uma microssociologia ou uma macrossociologia. Mais do que pensar em termos de micro e macro, melhor seria, para ele, pensar em termos de escalas — com a consciência de que toda situação ou todo ente é sempre multiescalar.

Para Villani, a explicação em Tarde tende ao infinitesimal. Este opera como uma tendência explicativa ou indutor em direção a uma descrição progressivamente completa, mas nunca necessariamente finalizada, ou como uma tendência analítica que guia o movimento descritivo para atingir riqueza e precisão cada vez maiores de detalhes sociológicos. Embora o infinitesimal seja distinto do finito, não se elimina o finito, nem se pressupõe sua homogeneização. Há sempre entidades finitas se formando a partir do infinitesimal. Tais entidades, ao mesmo tempo, não são homogêneas, há sempre magnitudes finitas heterogêneas existindo por meio de relações entre si e costurando a finitude.

No espectro humano, Gabriel Tarde afirma que, como toda mônada, nós, humanos, somos constituídos pelas forças da crença e do desejo. Crença e desejo agenciarão tendências contrastantes em direção à estabilização e ao dinamismo que todas as entidades manifestam. Os conteúdos psicológicos da crença e do desejo se reproduzem ou repetem por meio da imitação ou da transmição por contágios imitativos. Em Tarde, isso gera uma dimensão tendencial que sustenta uma determinada linha de transmissão reprodutiva de conteúdos psicológicos. Tarde menciona o hábito das mônadas de se encontrarem e se agruparem em uma escala ou outra. Associar-se é imitar. Os grupos imitam novos hábitos que surgiram ou foram inventados de modo que a magnitude do grupo é coextensiva com a disseminação de um dado movimento reprodutivo. Como para Tarde a sociologia é definida como um grupo de seres que são aptos a imitar uns aos outros, o hábito, portanto, possui um papel central na formação de sociedades.

Nós, humanos, somos muito mais imitativos do que inventivos. Há uma tendência dos atores monadológicos de se agrupar e espelhar uns nos outros, isto é, de repetir ou conservar alguma forma de similaridade ao assumir formas habituais de comportamento. No espectro humano, essa tendência à repetição está ligada à nossa possibilidade de agência. Nenhuma ação pode existir sem a colaboração de pares. Assim, para que nossa ação seja efetiva é necessário que haja certa coordenação com as posturas intencionais, crenças e desejos, dos nossos pares. Imitar, portanto, significa aumentar as chances de eficácia da nossa agência.

Para Tarde, a estatística se apresenta como um tipo de percepção sociológica com a função de trazer para a consciência do sujeito social as tendências inconscientes de repetição da ação. Ele aponta para o potencial de substituição da “imitação mecânica e irrefletida” por uma “imitação racional e voluntária” que se daria com o auxílio da estatística, isto é, da percepção das nossas tendências inconscientes de ação. A sensibilidade estatística abriria caminho para uma conduta reflexiva. Ele argumenta ainda que o “processo civilizatório” torna a sujeição à imitação ao mesmo tempo mais pessoal e racional. Segundo Villani, esse representa o aspecto mais programático da proposta sociológica de Tarde.

O quarto artigo, de Andrew Irving, busca acessar memórias, experiências e subjetividades de familiares e amigos de pessoas que morreram de HIV/AIDS durante a década de 80, no bairro do Lower East Side de Nova York. Para mostrar isso, Irving lança mão de um experimento pragmático-performativo, numa metodologia co-criativa, que segue os seus dois interlocutores, Neil e Frank, flanando pelo bairro, visitando lugares onde vítimas de HIV/AIDS viveram, fotografando essa experiência, para, através desse experimento, produzir interpretações e significados sobre o tema. Os fundamentos do pragmatismo estão tanto no método desenvolvido por Irving quanto na interpretação do material empírico coletado.

Ao apresentar os pressupostos do seu experimento, Irving recorre ao livro de Immanuel Kant, “Antropologia: de um ponto de vista pragmático (1798)”, que compreende a natureza humana como uma atividade pragmática situada, emergente e ligada ao uso da linguagem e da prática, e ao mundo que nos envolve como constituído a cada momento por essa atividade prática. Foucault verá nessa obra de Kant uma inovadora e radical pesquisa que reatualizou em torno da questão: “o que é exatamente esse presente ao qual eu pertenço?”. Questão que atravessa todo o artigo de Irving. Ele também se inspira em outras referências como a do significado de pragmatismo em William James, associado às ideias de ação, prática e movimento e ao da ideia revolucionária, nesse autor, de que os seres humanos devem ser estudados (e “seguidos”, tal como proposto na Teoria Ator-Rede de Latour) como organismos físicos que procuram sobreviver em seu ambiente natural.

Um importante personagem no seu artigo é Jon Greenberg, pessoa que planejou seu próprio enterro, tornando seu funeral uma performance pública, em um ato que se transformou em uma grande manifestação contra o HIV/AIDS no início dos anos 80. Nesse famoso evento, amigos e o irmão carregaram o seu caixão pela First Avenue (Primeira Avenida) da cidade de Nova York. Jon Greenberg emerge no texto, não como passado, mas como memória que gera significados a partir da experiência do seu irmão (Neil) que caminha ao lado de Irving, acessando lugares e lembranças, no bairro onde Greenberg viveu. Aqui, claramente, há uma quebra de dicotomia entre mente e corpo, na medida em que o fluxo de pensamento vai emergindo a partir do movimento do corpo, do caminhar e falar sobre os (e nesses) lugares.

Neil e Frank, os principais interlocutores do experimento pragmático-performático de Irving, não se conheciam previamente, mas tinham experiências semelhantes. Ambos são soropositivos e sobreviventes de um período em que o vírus da AIDS era pouco conhecido e provocou a morte de muitas pessoas do círculo deles, algo que vai sendo descoberto por eles a posteriori, durante o experimento. Irving transitou nas ruas do Lower East Side de Nova York, com Frank fotografando e Neil se expressando sobre suas memórias, para captar como estas são mobilizadas nesses trânsitos por esses lugares, significativos para eles e outras pessoas com experiências similares.

A fotografia é um elemento primordial na sua pesquisa. As fotos de lugares registram parte dos trajetos feitos junto às narrativas das suas percepções e memórias, gerando novos significados, e revelando como experiências compartilhadas foram emergindo para eles por meio dessa interação. O conteúdo etnográfico do campo da pesquisa vai emergindo em tempo real, à medida que Neil se deslocava pela sua vizinhança, em resposta às questões enraizadas na experiência também de Frank, sobre o HIV.

Por sua vez, as fotografias de Frank foram trazendo uma história pessoal e coletiva também do lugar, o bairro Lower East Side, combinando traços do seu passado imigrante, artístico e de gueto com sua recente gentrificação. Como a memória do eu, a do lugar também é dinâmica. No epílogo do seu artigo, Irving fecha com uma emotiva foto do Neil, que é um famoso dançarino em Nova York, imitando a expressão de seu irmão poucos minutos antes de morrer, numa premiada peça de dança, intitulada Not about AIDS dance. Inspirando-se nas mortes do irmão e de tantos amigos perdidos para a doença, na produção de sua peça, Neil passou a ressignificar a morte de modo mais amplo, acreditando que sua peça foi premiada por ter transcendido o dilema da AIDS e ter logrado descrever o dilema de todos os humanos: o de viver sabendo de antemão da iminência da morte.

O quinto artigo, de Fabio Reis Mota e Daniela Velásquez Peláez, retoma resultados da pesquisa de mestrado de Mota e de outros estudos sobre mobilizações coletivas de comunidades quilombolas no Brasil, em diversas lutas pelo seu direito à terra e reconhecimento. Eles buscam mostrar a complexidade envolvida em processos de justificação e validação de autenticidade identitária e nos modos como novos “revestimentos identitários” são (re)construídos ou compostos, gerenciados e negociadas por atores dessas comunidades no engajamento deles em diferentes situações.

Para problematizar a compreensão de conceitos clássicos como os de “identidade”, “papel social” e “etnicidade”, Mota e Peláez se apoiam em duas ideias do pragmatismo moral de Boltanski e Thévenot. O primeiro, o de ordem de grandeza, aponta para o pluralismo radical com o qual as pessoas são confrontadas em sociedades atuais, apontando como isso interfere nas diferentes formas de atores investirem com competências críticas na composição e coordenação dos “seus revestimentos de si” (maneiras de expressar sua autenticidade e identidades). O segundo é o de investimentos de forma, noção que para os autores: “amplia a concepção econômica de um custo de investimento que deve sacrificar a liquidez em troca da espera de benefícios futuros”, mostrando como as suas eleições racionais e situadas, em cada conjuntura, apontam também para como esses processos ocorrem. Estender a teoria da justificação de Thévenot às teorias de identidade significa considerar a maneira pela qual os atores se investem de formas convencionais, para progressivamente conceder um significado à atribuição identitária presentes nos seus mundos, buscando fundamentar a qualificação e requalificação das categorias identitárias tanto nos quadros interacionais como nos normativos.

Mota e Peláez analisam as principais transformações na ordem de grandeza identitária de afrodescendentes ao longo da história do Brasil, mostrando como a qualificação negativa dos quilombos durante o período colonial os associava a um estado de sujeitos criminalizáveis, algo que só depois de dois séculos foi superado, quando outras requalificações e sentidos emergiram, a partir das releituras do legendário Quilombo de Palmares. O livro O Quilombismo, de Abdias Nascimento, destacou a reafirmação identitária, e ressignificou os quilombos como fontes de resistência política e cultural negra, releitura reivindicada por novos ativismos negros críticos às teorias de democracia racial, que exaltam a necessidade de reconhecer de modo diferente o papel do negro na construção da nação, conferindo-lhe outra ordem de grandeza e sentidos. Portanto, a noção de aquilombamento (empretecimento), segundo Mota e Peláez, passou a representar a retomada da população negra da sua própria história, reafirmando a “sua capacidade de narrar e lembrar eles mesmos da sua própria história”.

Esses novos significados do ser negro e se autoidentificar, justificar, validar, compor, gerenciar e negociar diversos “revestimentos de si”, depende, para Mota e Peláez, da agência e capacidade crítica e cognitiva dos atores na sua apreensão e discernimento dos modos que a situação lhes permite agir em cada momento frente à pluralidade de modos de ação aos quais estão expostos em cada situação. Algo que também desenvolve o último artigo, de Mariana Garzón Rogé, baseado em suas pesquisas empíricas sobre a primeira fase do peronismo na Argentina (entre 1945 e 1955).

Garzón Rogé se apoia em reflexões de historiadores franceses como Lepetit, Delacroix, Boltanski e Latour, e de pragmatistas americanos como Dewey, para demonstrar como a perspectiva pragmatista abriu a disciplina à exploração de outras dimensões menos conhecidas sobre a história do peronismo. Mostra como debates sobre a natureza da primeira fase do peronismo são intermináveis entre historiadores argentinos, que costumam se perguntar que tipo de trabalhadores teriam constituído as bases desse primeiro momento do movimento: se mais heterônomas – de uma adesão de pessoas vindas do campo abertas aos vínculos paternalistas e populistas com seu líder –, ou autônomas – adesão maior de trabalhadores sindicalizados e urbanos, que encontravam em Perón a atenção às suas demandas –; se elas foram cooptadas e enganadas por um Estado cada vez mais autoritário (que ergueu sua própria derrocada quando o golpe cívico-militar de 1955 o destituiu); ou se atuaram em diversos processos de escolhas conscientes e racionais. Questões desse tipo representam o modo tradicional da História pensar o passado, do qual a autora procura se distanciar desde o olhar pragmatista das suas pesquisas.

Ela argumenta que ao se tentar decidir se a adesão dos trabalhadores teria sido de um modo, ou do outro, se perde a chance de registrar as controvérsias e dilemas que os próprios atores em estudo enfrentaram em situações concretas, abertas a uma pluralidade de possibilidades distintas de ação. Uma história pragmatista descreve processos vividos por atores competentes, investigando como foram “produzidos, transformados, disputados, estabelecidos ou usados”, a partir de um rastreamento atento de como esses diferentes atores do passado “faziam tudo”. Ao examinar o que esses atores “buscavam nomear, rebater, matizar, contradizer ou enfatizar” em diferentes situações concretas, procura-se levar em conta suas tentativas práticas de organizar suas experiências nos cursos de ações e disputas nas quais estavam envolvidos, com o objetivo de definir as situações em que intervieram.

Por isso, Garzón Rogé se concentra em tematizar as consequências e faz outro tipo de perguntas às fontes históricas. Rastreia nelas como os atores em estudo conseguiram lidar com situações presentes no curso de suas próprias ações passadas – e o modo como essas situações foram produzidas enquanto problemáticas para esses atores – levando em conta as capacidades críticas desses/as protagonistas do passado, em lugar de criticá-los/as da falta delas. Um bom exemplo de como faz isso, é o modo como lê uma carta de um ativista peronista dirigida a um superior do partido com detalhamentos das atividades por ele desenvolvidas ao lhe solicitar uma promoção no emprego. Em lugar de destacar a linguagem pomposa ou expressões de afeto e deferência ao líder, ela busca vestígios das atividades realizadas pelo ativista que o mostrassem merecedor de receber respostas do seu líder. A partir da análise desse conjunto de pequenos atos dos protagonistas que foi analisando, conclui que as bases do primeiro peronismo solidificaram, de modo consciente, uma forma eficaz e útil de fazer política.

Não nega que processos de verticalização ocorreram, mas argumenta que os peronistas não foram apenas vítimas desse processo de verticalização, mas também parte do processo que exigiu validações, legitimidades, justificações e aceitação de sua parte. E que as formas deles agirem contribuíram para alicerçar as bases e estrutura desse primeiro movimento do peronismo, que abriu o caminho para o golpe cívico-militar. Mobilização e desmobilizações do peronismo não teriam ocorrido de modos antagônicos, nem contraditórios. Ambos ocorreram simultaneamente, senão nas motivações de muitos de seus protagonistas, certamente nas consequências de suas ações situadas.

A proximidade de perspectiva e temáticas tratadas neste artigo e no de Mota e Peláez é evidente. Seus argumentos e recortes temáticos ecoam processos políticos e identitários mencionados em um e outro, oferecendo às leitoras e aos leitores novos desenvolvimentos de um diálogo anterior entre os autores. Ambos analisam os diferentes modos em que processos de justificação, legitimação, reconhecimento e negociações de disputas políticas e modos de pertencimentos de seus protagonistas acontecem nas suas distintas arenas políticas e socioculturais. E se iluminam mutuamente ao tratar de temas políticos que envolvem a relação dos seus protagonistas com o Estado em dois contextos distintos, o de Mota e Peláez no presente (ou passado próximo), de comunidades quilombolas no Brasil, e o de Garzón Rogé no estudo do passado histórico do peronismo argentino.

Este dossiê oferece a seus/suas leitores/as uma diversidade de temas e abordagens sobre o giro pragmático na Sociologia, na Antropologia Social e na História. Todos os artigos mostram que a realidade deve ser interpretada levando em consideração a capacidade de agência dos atores envolvidos em determinados contextos interacionais. Os atores não são vistos, aqui, como meros reprodutores de estruturas que os transcendem, mas como agentes capazes de reflexão sobre as situações nas quais estão enredados.

Bibliografia

  • ALMEIDA, I. M. DE; CÉSAR, P.; RABELO, M. C. M. O Giro Pragmático nas Ciências Sociais: explorações em torno das teorias da prática e da ética. Revista Sociedade e Estado, v. 40, n. 1, 2025.
  • GARZÓN ROGÉ, M. O giro pragmático na História: o que ele pode fazer ao estudo de uma experiência política. Revista Sociedade e Estado, v. 40, n. 1, 2025.
  • IRVING, A. Time, Space and Death in Familiar Places: New York’s Lower East Side in a Time of HIV/AIDS. Revista Sociedade e Estado, v. 40, n. 1, 2025.
  • MOTA, F. R.; PELÁEZ, D. V. Revestimentos de Si: os limites do conceito de identidade e sua interface com a sociologia e antropologia pragmática no universo quilombola contemporâneo. Revista Sociedade e Estado, v. 40, n. 1, 2025.
  • PETERS, G. Hábito, *Habitus* e Reflexividade: um diálogo experimental entre praxiologia e pragmatismo. Revista Sociedade e Estado, v. 40, n. 1, 2025.
  • VILLANI, P. Sociological metaphysics and pragmatist sociology: the pragmatic and metaphysical utility of statistics in Gabriel Tarde. Revista Sociedade e Estado, v. 40, n. 1, 2025.
  • Editoria:
    Eduardo Dimitrov
    Andressa Ribeiro
    Maria Gabriela Hita

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Out 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    19 Maio 2025
  • Aceito
    22 Maio 2025
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Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília Instituto de Ciências Sociais - Campus Universitário Darcy Ribeiro, CEP 70910-900, Tel. (55 61) 3107 1537 - Brasília - DF - Brazil
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