Open-access Sociologia é para ser divulgada: usos, questões e potenciais em Sociologia Para Quê?

Nascimento, Carolina Monteiro de Castro; Godoi, Rodolfo. Sociologia para que?. Porto Alegre, RS: Zouk, 2024. 334. 978-65-5778-149-4

Bernard Lahire (2014) encara a questão provocadora “Sociologia para quê?”, chamando a atenção para o fato de que, muitas vezes, a resposta previamente incorporada por quem faz essa pergunta seria “não serve para nada”. Ao mesmo tempo, ele aponta que a “Sociologia é uma ciência comumente forçada a passar tanto tempo a explicar e a justificar seus procedimentos e sua existência quanto a entregar os resultados de suas análises” (Lahire, 2014, p. 47). Assim, o título da coletânea recentemente publicada pela Editora Zouk, em parceria com o Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGSol) da Universidade de Brasília (UnB), organizada por Carolina Nascimento e Rodolfo Godoi, apresenta-se com o título provocador dessa questão tantas vezes ouvida por professoras e professores de todas as etapas de ensino. No entanto, como resposta, não retorna simplesmente aos clássicos ou a justificativas ora mais técnicas, ora mais humanistas sobre a importância dos conhecimentos sociológicos para o público mais amplo, mas, sim, apresenta, de forma prática, como as pesquisas realizadas na área dialogam diretamente com as questões sociais, políticas e culturais mais atuais e desafiadoras no país.

O livro se coloca uma dupla finalidade: servir como um possível manual sobre temas atuais das pesquisas em Sociologia – útil para cursos introdutórios – e, ao mesmo tempo, divulgar as investigações desenvolvidas no âmbito do PPGSol. Trata-se de um objetivo ousado, dada a complexidade envolvida na produção de manuais introdutórios, seja pela variedade de temáticas pertinentes, seja pela necessidade de adotar uma linguagem ao mesmo tempo técnica e acessível, além das exigências quanto ao próprio formato editorial.

Apesar do desafio peculiar que o grupo se propôs, considero que, de modo geral, conseguiram sustentar uma linha argumentativa consistente ao longo de toda a obra. A coletânea cumpre a proposta inicial ao equilibrar, de forma adequada, a retomada teórica dos temas com uma linguagem acessível, seguida da apresentação de questões contemporâneas e de problemas de pesquisa sociológica que incidem diretamente sobre a vida das pessoas. Quase todos os capítulos oferecem, primeiro, um panorama crítico das abordagens mais canônicas da Sociologia e, em seguida, apresentam interpretações fundamentadas em autoras e autores que propõem alternativas teóricas – isto é, enquadramentos analíticos mais plurais e atualizados – para ampliar a compreensão dos fenômenos sociais e fomentar novas perspectivas investigativas. Além disso, a obra incorpora debates centrais para a Sociologia brasileira, contribuindo para ampliar as referências e o repertório teórico e crítico da disciplina, fortalecendo seu diálogo com as demandas sociais atuais. Ainda no que diz respeito à pretensão de funcionar como manual introdutório, vários capítulos incluem quadros com indicações de leituras para aprofundamento, bem como sugestões de sites e materiais suplementares relacionados às referências citadas. Esse recurso contribui para apoiar leitores menos familiarizados com a Sociologia ou que estão ingressando na área, criando uma ponte entre a pesquisa acadêmica e esse público. No que se refere ao segundo objetivo – constituir um espaço de divulgação das pesquisas em curso no PPGSol –, o livro cumpre a meta com relativa facilidade, sobretudo graças à organização das temáticas e ao diálogo estabelecido entre os diversos capítulos, que possibilita uma visão do conjunto das investigações, apesar de que algumas temáticas abordadas poderiam estar melhor relacionadas ou reorganizadas em outras sessões, como o objetivo era seguir as linhas do Programa, as escolhas foram coerentes com esse objetivo.

Considerando a proposta peculiar dessa obra, esta resenha também assume um formato diferente do habitual. Não pretendo discutir em profundidade conceitos e teorias apresentados ao longo do livro, nem avaliar sua pertinência ao campo acadêmico da Sociologia. Meu objetivo é apresentar as diferentes seções e capítulos a partir de um olhar de professora – levando em consideração tanto minha experiência no ensino de Sociologia no Ensino Médio, quanto como docente de disciplinas da licenciatura e introdutórias de Sociologia em diversos cursos de graduação. Em ambos os casos, é recorrente o desafio de lidar, de um lado, com textos excessivamente densos para determinados contextos e públicos e, de outro, com a necessidade de materiais mais didáticos e atualizados. Nesse sentido, o livro Sociologia para quê? consegue cumprir, a meu ver, com eficácia o propósito declarado desde a sua concepção.

A Sociologia como conhecimento a ser ampliado

A Sociologia, enquanto ciência, dialoga constantemente com elementos do senso comum – inclusive a partir de imagens-conceituais amplamente utilizadas no cotidiano, como democracia, ideologia ou desigualdade social, que circulam em noticiários, redes sociais e conversas informais. Essa proximidade com o cotidiano confere à disciplina grande potencial para impactar a forma como as pessoas entendem a si mesmas e o mundo à sua volta, tornando-a um conhecimento estratégico para a formação crítica e cidadã. No entanto, por força de uma tradição historicamente elitista, a Sociologia nem sempre se engaja no debate público e, por vezes, subestima a necessidade de diálogo aberto e acessível com a sociedade em geral, em especial no contexto escolar ou de formação profissional.Uma forma de ampliar a presença pública da Sociologia é garantir sua inserção como disciplina obrigatória na educação básica, especialmente no Ensino Médio. Outro espaço estratégico para a disseminação do conhecimento sociológico é sua presença obrigatória nos currículos de formação geral de diferentes áreas do ensino superior. Esse contato, mesmo que inicial, tem como objetivo garantir uma formação integral e crítica, buscando formar estudantes mais éticos e empáticos às questões sociais do país. Nesses contextos – tanto na educação básica quanto em ciclos de formação geral para outras áreas de conhecimento –, os textos reunidos em Sociologia para quê? podem ajudar estudantes e docentes em três principais frentes: (1) possibilitar o acesso a uma discussão teórica ampla, que contempla autores clássicos e contemporâneos, mas de forma acessível a públicos não especialistas; (2) atualizar os cursos introdutórios e as aulas de Sociologia no Ensino Médio com pesquisas recentes e temas que dialoguem diretamente com a vida cotidiana; e (3) estimular reflexões metodológicas que fortaleçam o letramento científico e crítico na sociedade. Para compreender de maneira mais concreta como essas frentes se materializam na formação escolar e universitária, é possível avançar para a análise de como o livro organiza seus conteúdos.

A primeira parte do livro, dedicada a questões raciais, de gênero e, também, à Sociologia Brasileira, é fundamental para atualizar o debate em torno do objeto de conhecimento “concepção de etnocentrismo e modernidade”, previsto na legislação, e para aprofundar discussões sobre desigualdades. É importante lembrar que, na última versão da BNCC, as referências aos estudos de gênero foram suprimidas por pressão da bancada evangélica no Congresso (Semis, 2017; Silva, 2020). Ainda assim, graças à mobilização e persistência de docentes em todo o país – muitos enfrentando perseguições e até demissões –, as temáticas de gênero seguem centrais para o ensino de Sociologia e dos demais componentes da área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas nas escolas. A primeira seção do livro reúne três capítulos que dialogam com teorias sociais contemporâneas, oferecendo materiais que podem ser usados de forma produtiva tanto em cursos de graduação – especialmente em disciplinas introdutórias – quanto no ensino médio.

O capítulo 1 destaca a relevância de Lélia Gonzalez, Angela Davis e bell hooks, e analisa a importância de suas obras, articulando-as a discussões epistemológicas, como a relação com o marxismo, o enfrentamento a preconceitos linguísticos e epistemológicos e o papel dos homens nas discussões feministas. O capítulo 2 volta-se à análise, a partir da Sociologia da Literatura, de obras de escritoras negras. Ao articular literatura e Sociologia, o texto incentiva a interdisciplinaridade, amplia o repertório cultural e coloca autoras negras no centro do debate. O capítulo 3 retoma os “clássicos” da Sociologia Brasileira sob a lente crítica das teorias da modernização, predominantes no Brasil do século XX. Embora apresente de forma introdutória temas fundamentais como modernidade e questões raciais, o texto não aprofunda a análise da concepção de modernidade e, por vezes, suaviza o viés racista presente em Freyre; trata-se de um capítulo útil para iniciar estudantes na Sociologia Brasileira, mas que demanda acompanhamento de leitura crítica e textos complementares por parte dos educadores.A segunda seção do livro se dedica a questões de trabalho, desigualdades e diversidades, que também constituem temas estruturantes da Sociologia no Brasil e que abordam temáticas centrais nas expectativas de aprendizagem de estudantes de Sociologia no Ensino Médio. A seção é composta por 4 capítulos. O capítulo 4 apresenta um panorama histórico das concepções de “quilombo” em diferentes períodos e articula o debate sobre território e direitos, abordando, por exemplo, a Lei de Terras de 1850 e seu papel na consolidação das desigualdades raciais. O capítulo 5 articula um problema contemporâneo – o trabalho precarizado em plataformas digitais – com a teoria social clássica marxista. Essa conexão entre luta de classes e formas atuais de exploração oferece uma atualização potente para o ensino de Sociologia, especialmente no Ensino Médio e em cursos introdutórios do Ensino Superior, permitindo discutir categorias clássicas a partir de exemplos concretos e próximos da realidade dos estudantes. O capítulo 6 demonstra que, apesar do aumento no acesso de estudantes das classes populares às universidades, persistem desigualdades, sobretudo em cursos de maior prestígio e retorno econômico. Por fim, o capítulo 7 apresenta um panorama que vai de Simone de Beauvoir a pesquisas recentes no Brasil, discutindo machismo, violência de gênero e LGBTfobia como fatores centrais de bullying e discriminação nas escolas. Com linguagem clara e posicionamento assertivo, o capítulo reconhece os desafios de tratar do tema em sala de aula, mas enfatiza sua urgência, sugerindo estratégias de ensino que incluem o uso de redes sociais e tecnologias.

Na terceira seção, o livro avança para uma abordagem mais voltada à dimensão vivida do conhecimento e da cultura, explorando em seus dois capítulos experiências concretas e suas potências pedagógicas. O capítulo 8 revisita um momento marcante de retomada do movimento estudantil no Brasil, dialogando com discussões amplas sobre movimentos sociais e organização política, aborda o tema das juventudes e registra a memória recente da atuação estudantil. O capítulo 9 propõe uma reflexão sobre o aprendizado político a partir do cinema. Com clareza e didatismo, apresenta debates teóricos complexos, incluindo autores pouco recorrentes em cursos introdutórios, o que amplia seu potencial didático.

Na quarta e última seção do livro, os capítulos se propõem a pensar questões sobre política, religião, cidadania e segurança pública – temas previstos nos objetos de conhecimento da BNCC para o Ensino Médio. Apesar de serem categorias amplas, as temáticas permitem vincular debates contemporâneos a referenciais teóricos e metodológicos consolidados na área. O capítulo 10 discute conflito e violência no contexto escolar, com base em relatos de casos em escolas do Distrito Federal. Com uma abordagem focada na mediação e de caráter não-punitivista, o texto propõe estratégias para o diálogo democrático e a prevenção de conflitos como responsabilidade compartilhada por toda a comunidade escolar. No capítulo 11, amplia-se o foco para a violência policial e o extermínio da juventude negra no Brasil. O capítulo apresenta um panorama consistente sobre segurança pública e violência policial, contrapondo-se à abordagem sensacionalista predominante nos meios de comunicação. O capítulo 12 discute a percepção social sobre o Judiciário, com base em levantamento junto a estudantes de Gestão de Políticas Públicas na UnB. Além de contribuir para a formação crítica, oferece uma estratégia metodológica que professores podem replicar: aplicar pesquisas semelhantes em suas turmas antes de iniciar a discussão, tornando o aprendizado mais participativo.Na sequência, o capítulo 13 examina o fenômeno do bolsonarismo no Brasil sem cair em polarizações simplistas. Este capítulo potencialmente pode ajudar estudantes e professores a refletirem não apenas sobre o contexto político brasileiro, mas sobre a própria função e organização da democracia e suas implicações na vida cotidiana e na sociedade como um todo. Por fim, o capítulo 14 acrescenta a análise da religião ao debate sobre juventudes e identidades, considerando interseccionalidades de gênero, raça, classe e território. Ao conectar teoria, dados e experiências periféricas, oferece aos educadores uma abordagem concreta e contextualizada para tratar a religião na perspectiva sociológica, estimulando reflexões críticas sobre seu papel no debate público contemporâneo.

Afinal, Sociologia para quê? – Considerações finais

Considerando de forma geral a análise realizada dos capítulos, gostaria de destacar que, além do uso direto dos textos com estudantes do Ensino Médio e em cursos introdutórios de Sociologia, esse livro cumpre também um papel importante de apoio e atualização profissional docente. A obra oferece, aos professores, contato com temáticas, teorias e metodologias de pesquisa contemporâneas, permitindo tanto o aprofundamento em áreas específicas de interesse quanto uma visão panorâmica do “estado da arte” da produção sociológica em andamento no país. Trata-se, portanto, de um conjunto de textos que dialoga com questões de grande relevância para a sociedade brasileira e que ocupam espaço central no debate público atual.

De modo geral, mesmo diante do duplo desafio que os autores e autoras se propuseram, e com as ressalvas naturais de adaptação a cada contexto, Sociologia para quê? cumpre bem seus objetivos. Os textos combinam linguagem acessível, panorama teórico consistente e pesquisas empíricas capazes de renovar o debate, além de fornecer dados e exemplos que podem motivar jovens pesquisadores. O cuidado em apresentar questões metodológicas em vários capítulos amplia ainda mais o valor da obra, abrindo a possibilidade de replicar experiências em contextos escolares ou em cursos introdutórios.

Assim, compartilho a esperança dos organizadores de que a Sociologia se consolide como um conhecimento vivo, presente e atuante, mobilizado por estudantes e docentes em todos os níveis e áreas. Que a pergunta tantas vezes repetida – por estudantes, famílias, gestores e colegas professores – “Sociologia para quê?” seja compreendida não como uma provocação, mas como um convite ao diálogo, à reflexão crítica e à ampliação dos espaços democráticos na educação. Que, a partir desta obra e de outras iniciativas semelhantes, se fortaleça a interlocução entre universidades e escolas, bem como entre docentes de diferentes níveis de ensino, para que nossas pesquisas e publicações acadêmicas ultrapassem os muros institucionais e alcancem o debate público, contribuindo para uma compreensão mais profunda do mundo em que vivemos.

Referências

  • LAHIRE, B. Viver e interpretar o mundo social: para quê serve o ensino da Sociologia? Revista de Ciências Sociais, v. 45, n. 1, 2014. Disponível em: https://wp.ufpel.edu.br/pibidfilosofiasociologia/files/2020/10/Lahire_Pra-que-serve-o-ensino-da-Sociologia_rcs_v45n1a2-1.pdf
  • SEMIS, L. «Gênero» e «orientação sexual» têm saído dos documentos sobre Educação no Brasil. Por que isso é ruim? 2017. Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/4900/os-termos-genero-e-orientacao-sexual-tem-sido-retirados-dos-documentos-oficiais-sobre-educacao-no-brasil-por-que-isso-e-ruim
  • SILVA, E. L. DOS S. Pânico moral e as questões de gênero e sexualidade na BNCC. História, histórias, v. 8, n. 16, p. 143–169, 2020. DOI: 10.26512/rhh.v8i16.31928
    » https://doi.org/10.26512/rhh.v8i16.31928
  • Editoria:
    Eduardo Dimitrov

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    23 Jan 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    06 Out 2025
  • Aceito
    18 Dez 2025
location_on
Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília Instituto de Ciências Sociais - Campus Universitário Darcy Ribeiro, CEP 70910-900, Tel. (55 61) 3107 1537 - Brasília - DF - Brazil
E-mail: revistasol@unb.br
rss_feed Acompañe los números de esta revista en su lector de RSS
Ir para arriba Notificar error