Open-access A Construção de um grupo de pesquisa na sociologia francesa contemporânea

BOLTANSKI, Luc; LAZARUS, Jeanne; ESQUERRE, Arnaud. Comment s`invente la sociologie: Parcours, expeériences et pratiques croisés. Paris: Flamarion, 2024

Em sua magnum opus, The Sociology of philosophies, Randall Collins (2002) considera que a história da filosofia é uma construção coletiva, realizada através de grupos de amigos e, também, por meio de relações entre mestres e alunos que tendem a formar, segundo suas palavras, um close knit circle, ou seja, um círculo de intensas relações pessoais que, ao compartilharem pressupostos comuns de análises e investirem suas energias emocionais em um mesmo projeto intelectual, tendem a dar origens a escolas de pensamentos. Em sua visão, as escolas filosóficas são constituídas em locais específicos, como salas de aulas, seminários, conferências ou, ainda, em encontros informais entre os membros de um grupo e em contextos como universidades e departamentos acadêmicos, pois, para o autor, a vida intelectual é elaborada em situações concretas, uma vez que nenhum indivíduo encontra-se afastado de um determinado contexto espacial e local, de tal maneira que sua visão de mundo é elaborada e assimilada nesses ambientes.

Se, por um lado, ele identifica a existência de relações de alianças e cooperações no interior de um grupo de filósofos que compartilha uma visão comum da disciplina, por outro, aponta também manifestações de conflitos e crises que permeiam toda extensão do mundo intelectual, dado que as rivalidades operam no interior dos grupos nos quais os indivíduos elaboram uma determinada escola de pensamento, assim como nos embates entre escolas que praticam ideias oponentes.

Tais considerações de Randal Collins vieram a minha mente ao ler o livro Comment s`invente la sociologie: parcours, expériences et pratique croisés, pois seus capítulos evidenciam que a sociologia e suas diferentes escolas de pensamentos são igualmente uma construção coletiva, realizada através de constantes interações pessoais entre grupos de amigos e contatos pessoais entre professores e alunos. Tal como a filosofia, a sociologia é também estruturada em conflitos, que se desenrolam tanto no interior dos grupos que compartilham abordagens comuns, quanto entre diferentes paradigmas e/ou posturas teórico-metodológicas, na medida em que seus participantes disputam o reconhecimento de seus trabalhos - esfera que Collins denomina de espaço de atenção (attention space), ou seja, um lugar de destaque e visibilidade no interior dessa disciplina. Nesse sentido, como ressaltou Patrick Baert (2012) e, depois, o mesmo Baert e Morgan (2018), os sociólogos operam de forma recorrente em arenas competitivas, lutando por escassos recursos financeiros e por reconhecimento institucional e intelectual, de tal forma que suas intervenções, sejam elas a partir de livros, artigos, conferências ou participação em debates públicos, constituem partes integrantes dessa luta por legitimidade e respeitabilidade acadêmica.

Este livro, escrito a três mãos - Boltanski, Lazarus e Esquerre - teve como motivação transmitir uma imagem menos austera da sociologia, geralmente difundida pelos compêndios de metodologia e/ou epistemologia que tendem a apontar procedimentos a serem adotados pelos investigadores durante o processo de pesquisa. Afastando-se do caráter normativo e impessoal dessas publicações, os três autores expõem, a partir de suas experiências pessoais, desenvolvidas no contexto da universidade francesa, como realizaram suas atividades de pesquisas em sociologia, mencionando as dificuldades que encontraram nesse percurso e como tentaram contorná-las e seguir adiante em suas investigações.

Apesar de pertencerem a gerações diferentes - Luc Boltanski iniciou seu percurso profissional em sociologia na metade dos anos 1960, Arnaud Esquerre no final dos anos 1990 e Jeanne Lazarus no início dos anos 2000 -, compartilharam experiências comuns. Todos eles, em momentos distintos, durante a formação em sociologia, frequentaram a École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), a qual, ressaltou Michèle Lamont, conservou, ao longo do tempo, as particularidades de manter um diálogo entre diversas ciências sociais e outras ciências humanas, ao contrário da formação universitária americana, que tende a ser alérgica e distante de uma perspectiva interdisciplinar, inclinando-se a enfatizar uma visão acadêmica disciplinar (Lamont, 2015, p. 80.). Os autores indicam que a passagem pela EHESS reverberou em seus trabalhos, posto que, durante a elaboração e o tratamento de seus objetos de investigação, lançaram mão de leituras de diferentes áreas das ciências sociais, o que possibilitou uma produção intelectual marcada por uma ótica interdisciplinar, ampliando as dimensões de seus temas de investigações e de seus resultados. Ao mesmo tempo, ocuparam postos acadêmicos bastante similares em instituições de pesquisas em Paris e utilizam uma abordagem teórica na sociologia bastante similar, embora tenham realizados trabalhados em torno de objetos de pesquisas diferentes.

O livro constitui o resultado dos diálogos entre os três autores, ocorridos no período de outubro de 2021 a fevereiro de 2023, no qual foram realizadas reuniões semanais gravadas, para abordar uma agenda de reflexão construída previamente por eles. Nesses encontros, foram abordadas várias dimensões que permeiam a construção do trabalho intelectual na sociologia, posteriormente submetidas a uma revisão para compor tal publicação. A partir desse procedimento, o livro foi estruturado em três partes, que compõem os quinze capítulos e que podem serem lidos de forma separada.

A primeira parte, denominada “Oficina dos sociólogos”, expõe brevemente o itinerário individual de cada um dos autores, no contexto da sociologia francesa, mencionando as instituições e os professores que desempenharam papel importante na formação acadêmica deles, bem como, seus trabalhos de pesquisa. Similarmente, aborda os mecanismos que estruturam a disciplina no contexto francês, tais como os laboratoires (laboratórios), que ocupam uma posição relevante na formação acadêmica dos pesquisadores, a realização de seminários, as interações que ocorrem em seu interior entre professores e estudantes, e a relevância de publicações da produção dos trabalhos empreendidos em forma de livros e de revistas, cujas atividades vêm sendo objeto de constantes avaliações por parte de agências governamentais, principalmente os pesquisadores vinculados ao Centre Nationale de la Recherche Scientifique (CNRS).

Na segunda parte, “O dispositivo sociológico”, são destacados os recursos utilizados para a elaboração de conceitos e os procedimentos para a construção de modelos explicativos, bem como os meios adotados para estabelecer comparações entre eventos e países, e como se defrontaram com a questão sociológica das regularidades dos fenômenos sociais. Já na terceira parte, “A sociologia na sociedade”, os autores propõem uma reflexão sobre uma série de questões decorrentes da proximidade dessa disciplina com acontecimentos que se manifestam na vida das sociedades, particularmente com a questões do mundo da política que repercute na atuação da sociologia: os problemas sociais. Discutem as pressões externas que são dirigidas à sociologia, por parte do Estado, por movimentos sociais para esclarecer e/ou interferir em problemas sociais nas esferas da saúde, do trabalho, da escola dentre outras. Nesta terceira parte, o livro discute também a relevância social e política da sociologia. Os relatos realizados pelos três autores ao longo do livro cobrem um período que se estende desde a metade dos anos 1960 até o ano de 2023, fornecendo um importante material sobre a história intelectual da sociologia francesa, abordando várias de suas dimensões institucionais, ao mesmo tempo em que analisam as mudanças que ocorreram nessa esfera durante o percurso estipulado.

Na medida em que o livro fornece informações sobre o itinerário dos três autores, seria oportuno indicar, de forma sucinta, como cada um ingressou nesta disciplina. Segundo Boltanski, Jean-Louis Fabiani, em seu livro La sociologie comme elle s’écrit. De Bourdieu a Latour, descreve-o como um autodidata em sociologia, menção a qual ele concorda, pois, em sua avaliação, a maioria dos indivíduos que ensinavam e/ou realizavam pesquisas em sociologia na década de 1960 eram autodidatas, uma vez que os cursos de graduação em sociologia, ao contrário do Brasil, surgiram tardiamente na França, ou seja, por volta de 1958 (Paradaise; Lorrain; Demazière, 2015; Miceli, 1989; Merkel, 2024) No entanto, realizou graduação em sociologia, frequentando as aulas de Raymond Aron, proferidas no anfiteatro da Sorbonne - Aron e George Gurvich eram os únicos responsáveis pelo ensino de sociologia naquela instituição. Logo em seguida, participou dos seminários de Bourdieu que estava iniciando sua carreira acadêmica como assistente de Aron na Sorbonne, após ter estado e pesquisado na Argélia. Foi seu irmão, que havia conhecido Bourdieu em Alger, quem o apresentou em um jantar no pequeno restaurante no Quartier Latin. Desse encontro, surgiu o convite para Boltanski integrar a equipe de Bourdieu, que era oito anos mais velho que ele e desempenhou um papel importante em sua iniciação sociológica. Boltanski tornou-se membro da equipe do Centro de Sociologia Europeia (CSE) que, embora tenha sido criada por Aron, foi, efetivamente, conduzida por Bourdieu, seu diretor científico.

Foram nessas circunstâncias que Boltanski trabalhou com grande proximidade com Bourdieu entre 1969 e 1976, participando de pesquisas realizadas no CSE. A primeira delas resultou no livro Un art moyen. Esssai sur les usages sociaux de la photographie, realizado ao lado de Bourdieu e Jean-Claude Chamboredon. O professor teve também atuação proeminente na criação da revista “Actes de la Recherche en Sciences Sociales”, em 1985, participação relatada por si próprio no livro Rendre la realité inacceptable, de 2008. Desde então, esse periódico tornou-se um dispositivo importante na institucionalização do CSE, e na afirmação e difusão da orientação teórica sociológica produzida por esse Centro. Contudo, entre o final dos anos 1970 e o início dos anos 1980, Boltanski iniciou progressivamente um distanciamento com relação ao CSE e ao quadro teórico formulado por Boudieu. Em seu relato, o autor ressalta que suas diferenças não se baseavam em questões pessoais e políticas, posto que concordava plenamente com as posições políticas de Bourdieu; suas divergências assentavam fundamentalmente em um terreno teórico. A partir de então, passou a trabalhar no programa de construção de uma sociologia pragmática (Baert; Silva, 2010, p. 42-48).

Já Jeanne Lazarus dirigiu-se para a sociologia após graduar-se em geografia. Ao entrar no Instituto de Estudos Políticos de Paris, conhecido como Sciences Po, teve contato com alguns cursos de sociologia e de economia. Como havia trabalhado algum tempo no sistema bancário, redigiu um projeto de mestrado. Visto que conhecia trabalhos de Boltanski, especialmente Le nouvel Esprit du capitalisme e De la justification, solicitou-lhe que assumisse sua orientação no mestrado na EHESS sobre o sistema bancário, explorado a partir de uma perspectiva da sociologia econômica. Passou, então, a ser orientada por Boltanski, tanto no mestrado, quanto no doutorado, e frequentou as atividades e seminários do seu orientador e de Laurent Thévenot, no Grupo de Sociologia Política e Moral (GSPM). Considera que suas questões de pesquisas foram influenciadas em grande medida pela sociologia pragmática e pelos conceitos formulados por Boltanski.

A respeito de Arnauld Esquerre, foi um conjunto de leituras de autores como Sartre, Camus, Barthes, Deleuze, Nietzsche e outros, durante a adolescência, que motivou o autor a realizar, inicialmente, um curso de filosofia na EHESS. No entanto, por questões práticas, visando obter um posto de trabalho ao término da graduação, realizou sua formação acadêmica inicial na área de economia e finanças, no Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciensces Po), ou seja, a mesma instituição frequentada por Jeanne Lazarus. Até então, não havia tido contato com leituras em sociologia, no entanto, em 1995, ocorreu um importante movimento social na França contra a reforma da previdência, no qual Bourdieu teve uma presença marcante. Em consequência da participação do sociólogo nesse movimento, somado ao fato que Esquerre havia lido seu livro La Distanction que lhe marcou intelectualmente, solicitou a Bourdieu a possibilidade de assumir a orientação de seu mestrado a respeito da profanação de um cemitério judeu, ocorrido na cidade francesa denominada Capentras. Como ele não estava mais assumindo orientações de trabalhos, em função de sua eleição para o Collége de France, indicou-lhe Patrick Champagne para orientá-lo em sociologia na EHESS. Durante esse período, Esquerre participou de vários seminários, não somente em sociologia, mas também em filosofia, história e linguística. Porém, sentiu-se desapontado com os seminários de Patrick Champanhe e de Bourdieu. Em função disso, solicitou a Boltanski orientar seus trabalhos, o que resultou na tese de doutorado sobre a questão da manipulação mental.

Não se trata aqui de apresentar de forma detalhada os trabalhos realizados pelos três autores do livro, fato este que excederia os limites desta resenha, mas de indicar que, uma vez estabelecidos os marcos inicias de seus interesses intelectuais, novas questões e objetos de investigações foram incorporados. A esse respeito, deve-se mencionar que os trabalhos de Jeanne Lazarus têm sido realizados na fronteira entre sociologia e economia e continuam abordando a questão do dinheiro, todavia, acrescentando novas dimensões, como a relação das políticas bancárias enquanto um mecanismo de proteção social, problemática explorada em seu livro Les politiques de l`argent (2022). Ao mesmo tempo, acrescentou em seus temas de pesquisa a questão da performatividade e da subjetividade das mulheres em suas relações com a posse do dinheiro, tratada em seu artigo L`argent des femmes. Quelques pistes de la recherche (2021).

Quanto a Aranaud Esquerre, a preocupaçao intelectual que tem conduzido seus trabalhos visa investigar determinados aspectos da atuação do Estado contemporâneo com relação à polícia, à educação e à justiça, procurando analisar seus impactos na dimensão psicológica dos indivíduos, seus efeitos na existência dos corpos humanos, e nas formas de controle de expressão, explorada em seu trabalho Interdire de voir. Sexe, violence et liberté d `expression au cinema (2019). Ao mesmo tempo, tem adicionado em sua agenda de pesquisa objetos possivelmente considerados como estranhos e/ou marginais, como os relatos sobre fenômenos aéreos não-identificados, o que deu origem ao livro Théorie des évenemments extraterrestre. Essai sur le récir fantastique (2016).

Vários dos primeiros trabalhos de Boltanski foram realizados em parceria com Bourdieu, no interior do CSE, e inspirados pela sua abordagem, cuja elaboração encontrava-se em sua fase inicial, tal como La production de l`ideologie dominante (1976). Em seguida, ocorreu um progressivo processo de afastamento desse paradigma, que se manifestou por volta de 1976, em parte decorrente do ceticismo de Boltanski com relação ao conceito de habitus, enquanto um recurso teórico para explicar as regularidades das ações dos indivíduos. Em certa medida, o fio condutor de seus trabalhos moveu-se de, num primeiro período, uma orientação pela sociologia crítica para, em um segundo momento, uma interrogação desta postura crítica, cujo transcurso tornou-se percetível com a publicação de Les cadres (1982), chegando a um afastamento, exposto em seu livro De la Critique (2009). Desde o inicio da década de 1990, sua produção ocorreu paralelamente à elaboração de uma perspectiva teórica na sociologia, cujos contornos foi explicitado em livro elaborado em parceria com Laurent Thévenot, De la Justification (1991): o autor passou a enfatizar as dimensões contingentes da ação dos indivíduos, seus momentos de incertezas, com os quais se deparam com dilemas de opções, tal como ocorrem com os personagens das obras de ficção de Samuel Becket e de Isaac Singer, duas referências literárias importantes em seus trabalhos. Por outro lado, embora tenha investigado uma diversidade de objetos, sempre procurou situar no centro de seus trabalhos as mesmas questões sociológicas, apresentadas de diferentes formas, tais como os problemas das desigualdades e das injustiças sociais. Sua preocupação crescente com questões políticas da vida contemporânea encontra-se expressa em trabalhos como Vers l’extrême. Extension des domaines de la droite (em parceria com Esquerre) (2014) e Qu `est ce l `actualité politique? Ëvenements et opinions au XXI siècle (2022).

Ao contrário de vários países, como Estados Unidos e Inglatera, locais onde se verifica uma descentralização da produção da pesquisa em sociologia (Scott, 2020; Calhoun, 2008), diversos trabalhos indicam que a sociologia francesa durante o período de 1970 até metade dos anos 1990 esteve fundamentalmente centralizada em Paris e, em certa medida, estruturada em torno dos trabalhos elaborados pelos participantes das equipes dirigidas por Bourdieu, Touraine, Crozier e Boudon (Heilbron, 2020; Paradaise; Demazière; Lorrain, 2015). Vale acrescentar que, segundo alguns trabalhos, os quatro autores mencionados anteriormente, ao lado de Bruno Latour e de Luc Boltanski, são os mais citados e reconhecidos no plano internacional da sociologia (Simon; Turner, 2014; Ollion; Abbot, 2016). O Grupo de Sociologia Política e Moral foi formado em 1985 por pesquisadores dissidentes que desejavam afastar-se das oposições que estruturavam a sociologia francesa e que colocavam em dúvida os paradigmas dominantes que eram conduzidos teoricamente pelos trabalhos das equipes dirigidas pelos quatro sociólogos mencionados anteriormente, e/ou por uma abordagem marxista que vinha perdendo vitalidade naquele momento.

A criaçao do GSPM contou também com a participação de um grupo de pesquisadores que se sentiam desconfortáveis teoricamente no interior do Centro de Sociologia Europeia (CSE). Vários desses acadêmicos, tais como Boltanski, Larent Thevenot, Michael Pollack, Alain Derosière, Nathalie Heinich, e doutourandos como Eve Chiapello, Phillipe Corcuff, Francis Chateauraynaud, juntaram-se a dissidentes de outros centros de pesquisa, como Élisabeth Claverie, Nicole Dodier, Jean Louis-Derout e demais para darem início ao GSPM, cujo nome foi inspirando na obra Économie. comme science morale et politique, de Albert Hirschman, publicada pela Gallimard em 1984.

Seguindo uma tradição francesa, os seminários e os laboratórios existentes no interior dos Grupos e/ou Centros de Pesquisa tendem a organizar suas atividades conforme a orientação teórica de seus líderes intelectuais e colaboradores, tal como sucedeu com o CSE, dirigido por Bourdieu. Em geral, no contexto francês, os Grupos de pesquisa ou organizações similares movimentam-se em torno de adversários e aliados teóricos. Nesse sentido, os membros do GSPM, ao se afastarem de um modelo teórico estruturado a partir de uma perspectiva disposicional - que tende a explicar a regularidade dos comportamentos dos indivíduos baseada em um processo de interiorização durante a infância, bem como, através de suas inserções em determinados grupos sociais - direta e/ou indiretamente, elegeu como seu adversário teórico o CSE e, como aliado, o Centro de Sociologia de Inovação (CSI) que era dirigido por Bruno Latour.

Ao contrário dessa postura, os trabalhos desenvolvidos no GSPM, inspirando-se na sociologia interacionista americana, que possui laços com a tradição do pragmatismo, procuraram ressaltar a competência dos indivíduos em agir de distintas maneiras em função da situação nas quais se deparam, mostrando-se capazes de modificar seus princípios de julgamentos quando passam de uma situação para outra. Apontam também manifestações de conflitos e crises que permeiam toda extensão do mundo intelectual, visto que as rivalidades operam no interior dos grupos nos quais os indivíduos elaboram uma determinada escola de pensamento, assim como nos embates entre escolas que praticam ideias oponentes.

Conforme foi observado por Randal Collins, os grupos de pesquisa que compartilham abordagens comuns são estruturados tanto em conflitos internos, quanto em concorrência e rivalidades com relação a posturas teórico-metodológicas rivais. Por volta de 2011, em função de conflitos que se acumularam no interior do GSPM, ele foi extinto; e Boltanski dirigiu-se para o Instituto de Pesquisa Interdisciplinar sobre questões sociais (IRIS), no qual passou a realizar diversos trabalhos em parceria com Arnaud Esquerre.

Este livro realiza uma contundente defesa da importância cultural, social e política da sociologia nos dias correntes, apontando sua presença em diferentes espaços da sociedade. Os autores salientam a dimensão pública da sociologia, destacando que ela serve ao debate público, na medida em que as produções de seus conhecimentos constituem uma arma relevante de crítica contra as injustiças sociais. Sua leitura indica que a sociologia se encontra presente nos sistemas universitários em várias partes do mundo.

Ao mesmo tempo em que ocorreu a profissionalização da disciplina, resultando na organização de associações nacionais de sociologia, a sua construção disciplinar se tornou um empreendimento mundial. Simultaneamente, essa disciplina adentrou no ensino médio em diferentes países, bem como penetrou, também, na mídia, nos blogs, na esfera do Estado, fornecendo elementos para formulação de políticas públicas em diversos países. Não menos importante, os conhecimentos produzidos por essa ciência passaram a ser disseminados na vida cotidiana, contribuindo para uma maior reflexividade dos indivíduos, de modo que possam transformar seus problemas privados em questões públicas e articular cognitivamente suas biografias com seus contextos históricos.

Referências

  • BAERT, Patrick; MORGAN, Marcus. “A performative framework for the study of intellectuals”. European Journal of Social Theory, v. 21, n. 3, p. 322-339, 2018. DOI: doi.org/10.1177/136843101769.
    » https://doi.org/10.1177/136843101769.
  • BAERT, Patrick. “Positioning theory and intellectual interventions”. Journal for the Theory of Social Behaviour, v. 42, n. 3, p. 304-324, 2012. DOI: https://doi.org/10.1111/j.1468-5914.2012.00492
    » https://doi.org/10.1111/j.1468-5914.2012.00492
  • BAERT, Parick; SILVA, Filipo. Social Theory: twentieth century and beyond. Cambridge: Polity, 2010.
  • CALHOUN, Craig. Sociology in America: A history. Chicago: University of Chicago Press, 2008.
  • COLLINS, Randall. The sociology of philosophies: A global Theory of intelectual change. Massachussetts: Harvard University, 2002.
  • HEILBRON, Johan. La sociologie française. Sociogènese d `une tradition nationale. Paris: CNRS Éditions, 2020.
  • LAMONT, Michele. Un diagnostique de la sociologie française, in Les sociologies françaises: heritages et perspectives (1960-2010). orgs. Paradaise, Catherine & 2015.
  • MICELI, Sergio (org.). História das Ciências Sociais no Brasil. v. I. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1989.
  • MERKEL, Ian. Intelectuais brasileiros e as ciências sociais francesas. São Paulo: Edusp, 2024.
  • OLLION, Etienne; ABBOT, Andrew. "French connections: The reception of French sociologists in the USA (1970-2012)." European Journal of Sociology/Archives Européennes de Sociologie, v. 57, n. 2, p. 331-372, 2016.
  • PARADAISE, Catherine; DEMAZIÈRE, Didier; LORRAIN, Dominique. Les sociologies françaises: heritages et perspectives (1960-2010). Nantes: Presse Universitaires de Nantes, 2015.
  • SCOTT, John. British Sociology: a history. London: Palgrave Macmilan, 2020.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    30 Set 2024
  • Data do Fascículo
    May-Aug 2024

Histórico

  • Recebido
    06 Mar 2024
  • Aceito
    08 Maio 2024
location_on
Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília Instituto de Ciências Sociais - Campus Universitário Darcy Ribeiro, CEP 70910-900, Tel. (55 61) 3107 1537 - Brasília - DF - Brazil
E-mail: revistasol@unb.br
rss_feed Acompañe los números de esta revista en su lector de RSS
Ir para arriba Notificar error