Open-access Educomunicação e saúde coletiva no Brasil: uma revisão de escopo

Educommunication and public health in Brazil: A scooping review

RESUMO

O artigo objetivou mapear e analisar as evidências disponíveis sobre educomunicação e saúde, a fim de discutir possibilidades de desenvolvimento dessa potencialidade dialógica na saúde coletiva, nos cenários do SUS. Trata-se de revisão de escopo conduzida segundo Joanna Briggs Institute e checklist PRISMA-ScR. As buscas foram realizadas nas bases BVS; Redalyc; Google Acadêmico; Web of Science; Scopus; Pubmed e Oasisbr. Na elegibilidade foi usada a ferramenta Rayyan e incluídos artigos completos, em inglês, português e espanhol, que se dedicaram ao estudo de contextos brasileiros. Foram analisados 28 estudos que abordavam a intersecção da educomunicação e a saúde coletiva brasileira, publicados entre os anos de 2009 e 2023, que se estabeleciam por meio de protagonismo dos sujeitos, a partir da construção de diversos tipos de materiais, como cordéis, jogos educativos, pinturas, teatros, além da abordagem de diversos temas de saúde pública, como infecções sexualmente transmissíveis, câncer de mama, promoção de saúde bucal e mental, educação ambiental. Observou-se uma relação promissora entre educomunicação e saúde coletiva no Brasil, de modo que se evidenciaram as possibilidades de desenvolvimento dessa potencialidade dialógica entre os campos de educação e comunicação nos cenários de práticas da prevenção e da promoção de saúde no SUS.

PALAVRAS-CHAVE
Saúde pública; Comunicação em saúde; Educação em saúde; Sistema Único de Saúde; Educomunicação.

ABSTRACT

The article aimed to map and analyze the available evidence on educommunication and health, in order to discuss possibilities for the development of this dialogical potential in collective health, within the scenarios of SUS. This is a scoping review conducted according to the Joanna Briggs Institute and the PRISMA-ScR checklist. The searches were carried out in the BVS, Redalyc, Google Scholar, Web of Science, Scopus, Pubmed, and OASISbr databases. Rayyan was used as the eligibility tool, and complete articles in English, Portuguese, and Spanish that focused on Brazilian contexts were included. A total of 28 studies addressing the intersection of educommunication and Brazilian collective health, published between 2009 and 2023, were analyzed. These studies were characterized by the subjects’ protagonism, through the creation of various types of materials, such as cordel literature, educational games, paintings, theater, in addition to covering various public health topics such as sexually transmitted infections, breast cancer, oral and mental health promotion, and environmental education. A promising relationship between educommunication and collective health in Brazil was observed, highlighting the potential development of this dialogical capability between the fields of education and communication in the scenarios of prevention and health promotion practices within SUS.

KEYWORDS
Public health; Health communication; Health education; Unified Health System; Educomunication.

Introdução

O campo da saúde coletiva no Brasil foi erigido em uma conjuntura de debate pela questão democrática, nos anos de 1970 e 1980, em particular nos movimentos pela democratização da saúde, conhecidos como Movimento da Reforma Sanitária, que propunha o reconhecimento do direito à saúde como inerente à conquista da cidadania1. Como campo interdisciplinar de práticas e saberes, apresenta uma tríplice conformação de áreas do conhecimento: a epidemiologia; as políticas públicas e o planejamento, bem como as ciências sociais e humanas2. No panorama sanitário brasileiro, as práticas comunicativas e educativas estiveram presentes desde as primeiras políticas públicas de saúde, entre 1900 e 1920, com caráter coercitivo e práticas biomédicas de convencimento da população à adoção de comportamentos e medidas de higiene para prevenção de doenças3.

No contexto da Reforma Sanitária e criação do Sistema Único de Saúde (SUS), a comunicação e educação em saúde se esboçam nas teses da 8ª Conferência Nacional de Saúde, no que diz respeito às pautas de participação social; no direito à educação e informação plenas; na tentativa de regulamentação da propaganda de medicamentos e produtos lesivos à saúde e na proposta de criação de um sistema nacional de informações, o qual garantiria o acesso à informação, indispensável ao controle social4.

Decerto que, durante as últimas três décadas, tanto a produção científica quanto as experiências comunicacionais e educacionais no âmbito do SUS ampliaram-se e diversificaram-se, configurando, nos dias de hoje, um mosaico plural de práticas e saberes4, que se expandem, juntamente aos estudos das representações midiáticas da saúde5,6, da relação comunicacional entre profissionais de saúde e pacientes7, do uso de mídias sociais8 e das fake news em saúde9, entre outros.

Assim como a saúde coletiva, os campos da educação e da comunicação também experimentam, a partir dos anos 1990, uma interseção teórica e prática que proporcionou novas significações para o fazer ‘comunicar-educativo’, orientada pelas ideias de Paulo Freire10,11 e Mário Kaplún12: a educomunicação. Entendida como um conjunto de ações de criação e desenvolvimento de ecossistemas comunicativos, a educomunicação é defendida por Soares13 como potente possibilidade de expressão a todos os participantes das comunidades educativas. Dessa maneira, a educomunicação é um termo que representa um paradigma para compreender e explorar as interfaces entre comunicação, educação e ação social.

De acordo com o dicionário da Academia Brasileira de Letras14, o termo é compreendido como o conjunto de conhecimentos e práticas que buscam promover ecossistemas comunicativos caracterizados pela abertura, democracia e criatividade. Esses ecossistemas são aplicados em diversos contextos, como espaços culturais, midiáticos, e educativos - sejam eles formais, como escolas; não formais, desenvolvidos por Organizações Não Governamentais (ONG); ou informais, como meios de comunicação voltados à educação. Essa abordagem é mediada por linguagens e recursos provenientes da comunicação, das artes e das tecnologias da informação, com o objetivo de garantir condições para aprendizagem e exercício da liberdade de expressão14.

Diante desse desenvolvimento dos dois campos com tantas intersecções e pontos de contato potenciais, infere-se que a epistemologia educomunicativa possa compartilhar instrumental teórico e prático capaz de produzir vínculos com o campo da saúde coletiva, de modo a potencializar os estudos e as experiências dessa interface nos cenários do SUS. Entretanto, as experiências de intersecção entre os campos são relatadas de maneira difusa na literatura científica e em políticas públicas no contexto brasileiro15-18, sendo defendido que se trata de uma ‘relação ainda por ser construída’19, sinalizando, assim, a relevância da realização de uma revisão de escopo para compreender o panorama das produções científicas sobre a temática, bem como as possíveis lacunas.

Portanto, o presente estudo busca mapear e analisar evidências disponíveis sobre educomunicação e saúde coletiva no Brasil, a fim de discutir possibilidades de desenvolvimento dessa potencialidade dialógica entre os campos nos cenários de práticas no SUS.

Material e métodos

No início da elaboração da revisão, o Protocolo de Revisão de Escopo foi registrado na plataforma Open Science Framework20. A revisão foi conduzida usando o referencial metodológico do Instituto Joanna Briggs e o checklist Preferred Reporting Items for Systematic Review and Meta-Analyses (PRISMA ScR)21,22. Foram desenvolvidas cinco fases de trabalho: 1) identificação da questão de pesquisa; 2) identificação dos estudos relevantes; 3) seleção dos estudos; 4) mapeamento dos dados; 5) síntese dos resultados.

Questão de pesquisa (Acrônimo PCC: Population or participants, Concepts and Context)

A questão de pesquisa é: Quais as aplicações da educomunicação no contexto da saúde coletiva identificadas no Brasil? Na qual P (população) refere-se ao Brasil; C (conceito) diz respeito à educomunicação e C (contexto) às suas aplicações no contexto da saúde coletiva.

Tipos de estudo

Não houve restrição quanto ao delineamento e ao ano de publicação dos estudos. Foram incluídos estudos nos idiomas inglês, português e espanhol.

Critérios de inclusão e exclusão

Foram considerados elegíveis: 1) estudos que se autonomeiam de educomunicação e saúde 2) estudos que apresentaram reflexões e/ou iniciativas em interface da educação com a comunicação em saúde que se dedicaram ao estudo de contextos brasileiros, com perspectiva educomunicativa, a partir de alguns critérios: ser um processo participativo, horizontal, inclusivo, democrático, múltiplo e diverso na representação de vozes e vivências dos envolvidos na execução da proposta.

Foram excluídos: 1) estudos fora da saúde coletiva 2) estudos que relatam experiências fora do Brasil 3) estudos com abordagens estritas que não tratam da relação comunicação/educação.

Mapeamento dos dados

IDENTIFICAÇÃO DOS ESTUDOS

A pesquisa foi realizada nas bases BVS; Google Acadêmico; Web of Science; Scopus; Red de Revistas Científicas de América Latina y el Caribe, España y Portugal (Redalyc); Pubmed e no Portal Brasileiro de Publicações e Dados Científicos em Acesso Aberto (Oasisbr).

As estratégias de busca foram elaboradas, primariamente, a partir do vocabulário controlado, por meio dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e do Medical Subject Headings (MeSH) do Medline. Para maior amplitude dos resultados nas bases de dados, as estratégias foram também compostas de vocabulário não controlado, com palavras-chave e seus respectivos sinônimos. São eles: “Educomunicação” OR (Educação Midiática) OR (Educação para os Meios) OR (Alfabetização Midiática) OR (Literacia Midiática) OR (Media Education) OR (Media Literacy) OR (Media Information Literacy). Seguem as estratégias utilizadas no quadro 1.

Quadro 1
Estratégias de busca utilizadas nas bases de dados. 2023
SELEÇÃO DOS ESTUDOS

Após a retirada de duplicatas por meio dos programas Mendeley e Rayyan, procedeu-se a leitura de título e de resumo, no período de outubro de 2023 a janeiro de 2024, realizado por duas revisoras (AC e IM) com auxílio da ferramenta blind on do software Rayyan. Divergências foram dirimidas por uma terceira revisora (TB).

EXTRAÇÃO DOS DADOS

Os artigos selecionados para leitura na íntegra tiveram os dados extraídos e organizados no software Excel®, de acordo com as seguintes variáveis: Autor/Ano; Título do artigo; Tipo de artigo/estudo; Localidade do estudo; Autodenominação sobre o conceito (Educomunicação/educação em saúde/comunicação em saúde/interação educação e comunicação); Sujeitos participante da ação (jovem, idoso, mulheres, etc., não cabe); Aspectos sobre a participação dos sujeitos nas pesquisas estudadas (protagonista ou passivo, etc.); Material produzido; Aplicação da educomunicação na saúde coletiva. Um revisor (IM) realizou a extração e um segundo revisor (FTSE) fez a conferência dos dados.

Síntese dos resultados

Após a coleta das informações, os resultados foram apresentados de forma descritiva, em diagramas de fluxos e tabelas. Os dados foram analisados em cinco categorias analíticas, à luz do paradigma educomunicativo, o qual concebe o lugar de interface entre os campos da comunicação e educação, reconhecendo uma teoria da ação comunicativa que privilegie o conceito de comunicação dialógica; uma ética de responsabilidade social para os produtores culturais; uma recepção ativa e criativa por parte das audiências; uma política de uso dos recursos da informação de acordo com os interesses dos polos envolvidos no processo de comunicação (produtores, instituições mediadoras e consumidores da informação), o que culmina com a ampliação de espaços de expressão e participação13.

As categorias analíticas foram:

  1. Autodenominação sobre a abordagem: denominação conceitual sobre os conceitos de interseção de educação e comunicação;

  2. Elementos da ação: as atividades educacionais e/ou comunicacionais praticadas;

  3. Protagonismo dos sujeitos: papel dos participantes das experiências relatadas nos estudos;

  4. Materiais produzidos: peças de comunicação, materiais midiáticos ou educativos produzidos como resultado da experiência;

  5. Aplicabilidade na saúde coletiva: experiência no campo da promoção, proteção e recuperação da saúde das populações, respeitando suas diversidades e territorialidade.

Resultados

Foram identificadas 1670 referências, excluindo-se duplicatas restaram 1352 das quais, ao passarem pela leitura de títulos e resumos, excluiu-se 1316, restando 36 para leitura de texto completo. Nessa etapa, exclui-se 12 por não atenderem aos critérios de elegibilidade, restando 24 estudos, aos quais se somaram quatro, inseridos manualmente, totalizando 28 estudos incluídos na presente revisão de escopo, conforme representado na figura 1.

Figura 1
Fluxograma da seleção dos estudos

Dos 28 estudos incluídos, sete eram relatos de experiência19,23-28; sete pesquisas-ação/participativa/emancipatória29-35; quatro estudos metodológicos36-39; uma pesquisa pseudo-experimental40; duas pesquisas sociais descritiva e/ou avaliativa17,41; um estudo de métodos mistos42; dois estudos de caso43,44, dois estudos de intervenção45,46 e duas pesquisas qualitativas47,48. Os estudos foram desenvolvidos nas cinco regiões do Brasil (gráfico 1). O período de publicação dos estudos foi entre 2009 e 2023 (gráfico 2).

Gráfico 1
Número de estudos por região

Gráfico 2
Período de publicação dos estudos, 2009 a 2023

Os resultados foram categorizados e discutidos segundo as categorias analíticas: autodenominação sobre a abordagem; elementos da ação; protagonismo dos sujeitos; materiais produzidos e aplicação na saúde coletiva.

Do ponto de vista conceitual, o termo educomunicação estava explícito nos estudos de Janes et al.17, Consani et al.19, Moyses et al.24, Lima et al.26, Oliveira et al.34, Cal et al.39, Wittlin40, Valentim et al.43, Furtado45 e Silva et al.47. Tais autores abordaram o conceito de educomunicação de maneira plural e heterogênea, mas convergindo no que diz respeito à prerrogativa essencial do conceito: um conjunto de conhecimentos e ações que visam à construção de ecossistemas comunicativos abertos, democráticos, criativos e participativos, que fomentam a construção da cidadania.

Janes et al.17 apresentam a educomunicação como modelo comunicativo mais eficiente, democrático e formador de cidadania, na perspectiva de uma prática comunicacional de ‘mão dupla’ e não unidirecional, sendo a recepção dos sujeitos crítica e interativa, que ressignifica a mensagem a partir de sua experiência de vida. Consani e Morais19 destacam que proposições de estratégias educomunicativas dentro da Saúde vêm ganhando espaço, porém se trata de uma relação ainda a ser construída, na perspectiva que o âmbito dessa tripla relação se estende enormemente e ainda carece de investigações mais aprofundadas.

Moyses et al.24 trabalham a potencialidade do conceito para melhor compreender o papel da comunicação na formação e informação da sociedade, propiciando a cidadania e a difusão da saúde como um direito subjetivo junto à opinião pública. De maneira semelhante, Valentim et al.43 apresentam a abordagem educomunicativa como uma inovação estratégica para o desenvolvimento de novos recursos educacionais para a saúde. Já Lima et al.26 citam o termo educomunicação apenas no objetivo de seu trabalho, mas não o referenciam em parte alguma de seu texto, sinalizando o uso do mesmo apenas como uma conjunção de práticas educativas e comunicativas, e não no seu sentido lato sensu de um paradigma de um campo do conhecimento, envolvendo interfaces entre comunicação e educação.

Oliveira et al.34 defendem que a educomunicação articula campos distintos que se potencializam - a comunicação e a educação - e contribuem para a transformação cultural. Analogamente a isso, Cal et al.39 apresentam a educomunicação como forma de intervenção social, que busca tornar o indivíduo reflexivo e atuante, a partir da apropriação de ferramentas comunicacionais disponíveis. Wittlin40 reafirma que, no campo da saúde, a educomunicação é uma práxis relativamente nova que, apesar da similaridade com os campos da promoção da saúde e prevenção das doenças, expande seus potenciais para práticas de cuidados, reabilitação e combate à desinformação de forma altamente participativa. O autor cita a concepção da Associação Brasileira de Pesquisadores e Profissionais de Educomunicação (ABPEducom) que compreende a educomunicação como paradigma orientador de práticas socioeducativas, que criam e reforçam ecossistemas comunicativos abertos e democráticos em espaços educativos, promovendo a gestão compartilhada de recursos comunicativos, suas linguagens e tecnologias.

Furtado45 reflete sobre os diversos sobrenomes que a educação vem recebendo, se transformando ao longo do tempo, desde uma educação bancária até a educação dialógica, educação entre pares e a educomunicação. O autor destaca que a educomunicação amplia sua abordagem para além da leitura crítica dos meios de comunicação e propõe que educadores e educandos se apropriem das diferentes tecnologias de informação e comunicação (jornais impressos, rádio, televisão, internet) no dia a dia de salas de aulas, ONG ou espaços de educação não formal, de maneira participativa e em diálogo horizontalizado. De maneira semelhante, Silva et al.47 desenvolvem a educomunicação como um processo permanente, em que o indivíduo se apropria do conhecimento e o adapta à sua realidade, de modo a construir reflexões e ações.

Os demais autores da revisão trouxeram definições conceituais que se aproximam e podem ser consideradas como uma abordagem educomunicativa, mesmo não se definindo como tal, pois tratam de experiências e pesquisas de educação em saúde que, em alguma medida, fazem interface com o campo da comunicação (ou vice-versa), trazendo uma abordagem participativa, horizontal, inclusiva, democrática, múltipla e diversa na representação de vozes e vivências dos envolvidos na execução da proposta, conforme se propõe no paradigma educomunicativo.

Portanto, o elo de intersecção da relação entre educação e comunicação que conforma uma práxis verdadeiramente educomunicativa pode ser caracterizado pelos elementos da ação, em conjunto com o protagonismo dos sujeitos envolvidos na experiência. Dessa maneira, vivências de oficinas de produção coletiva e dinâmicas participativas para produção de roteiros de filmagem, produção de imagens, programas de rádio, materiais artísticos diversos, aplicativos de celular, blogs, podcasts e curta-metragem17,19,23-26,29-32,35,46-48; entrevistas prévias e/ou rodas de conversa para realização de Círculo de Cultura28, produção e posterior validação de materiais educativos30,37 e criação e moderação de grupo de WhatsApp42, todas desenvolvidas em contextos de protagonismo e alta participação dos sujeitos, configuram essa concepção comunicacional não linear e participativa caras à educomunicação.

Além disso, também foram mapeadas ações de produção de fotonovela instantânea, dramatizada e projetada pelos participantes, em tempo real, seguidas de debate acerca do conteúdo criado40; produção de recursos educacionais abertos disponibilizados na Internet43; oficinas de capacitação e teatro para posterior multiplicação entre pares na comunidade45; grupo focal com debate sobre os temas incitados por radionovelas criadas para a comunidade39, realização de recitais de cordéis e debate coletivo nas escolas41; grupo focal com posterior construção coletiva de jogo da memória38, games e caça-palavras36; criação de grupo de Facebook com postagens de situações-limites/temas para promoção de diálogo33; apresentação participativa de teatro de mamulengos e leitura coletiva de cordéis44; criação de ‘mural interativo’, que visa articular comunidade com o grupo tutorial para definição dos temas a serem desenvolvidos nas atividades lúdicas27 e vivência imersiva e participativa em exposição artística34.

No que concerne aos materiais produzidos, observou-se a diversidade criativa das produções tecnológicas dos estudos, aqui concebendo tecnologia enquanto um produto social, para além do seu valor instrumental de artefato maquínico50. Dessa maneira, houve a produção de documentários23; de imagens29; programas de rádio24,48; materiais educativos diversos, como cartilhas30,37, criação de grupos de WhatsApp para compartilhamento de informações em saúde42, ferramentas autorais, como a ‘Sua Saúde em Três Tempos’40, Recursos Educacionais Abertos43, cordéis41,44, programas em rádios comunitárias17,32,46,48, podcasts26, jogos da memória38 e jogos educativos31; produções artísticas como radionovela, músicas, poesias, pinturas25,39; vídeos19,48; oficinas de arte-educação35; círculos de cultura virtuais e presenciais28,33; games36; teatros de mamulengos44; exposições artísticas34; curta-metragem47, gincanas, teatro de fantoches, musicalização e pinturas27.

Em relação à aplicação na saúde coletiva, os estudos abordaram temas diversos, sendo abordagens preventivas bastante frequentes17,19,24,46, tratando sobre o uso de álcool e outras drogas29,31,32, câncer de mama42, infecções sexualmente transmissíveis em jovens28,36,45; HIV/aids em idosos e em mulheres35,38; covid-1926, arboviroses44 e depressão47.

Também foram mapeadas experiências de promoção da saúde em geral25,27,40, promoção à saúde do homem30, promoção à saúde bucal41; promoção à saúde da comunidade ribeirinha48, promoção à saúde mental28,33; promoção à saúde das pessoas vivendo com HIV/aids37; educação ambiental24; enfrentamento da sífilis43; educação em saúde sobre sexualidade e uso de drogas31, violência sexual39, cuidados em higiene pessoal28 e assistência ao parto e nascimento34.

Discussão

Nesta revisão de escopo, identificaram-se estudos que abordavam a intersecção da educomunicação e a saúde coletiva brasileira, publicados a partir de 2009.

Os achados mostraram que, embora o termo educomunicação seja recente, sua consolidação representa o seu amadurecimento em virtude de abordagens conceituais, ações e produções advindas da interseção entre educação e comunicação como uma ação de protagonismo entre os participantes em seus territórios e redes e sobre temas mobilizadores. Também se observou que, para o campo da saúde coletiva, o foco está em práticas de promoção e prevenção de saúde por meio da participação social na produção de material multimídia como expressão comunicativa a propósito de situações do cotidiano que dizem respeito à saúde dos envolvidos e do público em geral.

A análise sobre as informações contidas na amostra confirma o que destacam os autores Soares et al.16, pois dos 28 artigos apenas um deles não trata da participação ativa de sujeitos e de públicos específicos em processos de comunicação coletiva sobre temas da saúde, que têm como intenção final a educação em saúde. A incorporação de ideias e conhecimentos a respeito da educomunicação, de modo a potencializar a mudança de atitudes e a iniciativa de ações significativas para os participantes do processo e para os demais a quem chegar o material produzido e disponibilizado, mostram-se como formas de transformar a realidade por meio dos sujeitos envolvidos nas práticas educomunicativas.

Além do caráter participativo dos sujeitos das pesquisas em estudo, outra característica importante é o ‘produto’, o resultado do processo coletivo de expressão comunicativa acerca de temas importantes para os envolvidos e suas comunidades e que dizem respeito à saúde. O produto é fundamental não só porque expressa, para seus autores, o que é significativo sobre algo do cotidiano, como também porque traz em si o potencial de promover a interação e o diálogo entre outras pessoas, outros sujeitos e atores sociais, individuais e grupais, emaranhados de relações e de organizações na sociedade civil, e que de muitos modos se afetam, se envolvem e criam sentidos às novas atitudes e práticas que o cotidiano requer. Da mesma forma, como apontado por Lima et al.49, a intersecção entre cultura e saúde, como realizado a partir de músicas, oficinas, exposições artísticas, se faz importante no sentido de promover novas articulações nas comunidades, criando sentidos às mensagens clínicas e ao aproveitamento do espaço vivo das populações e, consequentemente, efetivando as políticas de saúde.

Entre as diferenças encontradas, observou-se que, ao atuar com educação em saúde de forma independente dos processos tradicionais de comunicação de massa, embora convivam com eles, acontecem diversidades de produções midiáticas, pois elas serão resultado do que os participantes de cada grupo e situação construirão, à medida que suas relações interpessoais passam a tecer sentidos, objetivos, valores e práticas sociais como matéria-prima para a criatividade e a lógica humanas, que são capazes de criar e recriar significados e aplicações em seu cotidiano50,51. Quando há uma interseção entre campos tradicionais, como a comunicação e a educação, a possibilidade de um terceiro caminho se apresenta, com suas particularidades e inovações. Assim, tem como terceira parte do tripé conceitual a ação como instância de realização da existência social, por meio de práticas educomunicativas.

Os resultados são úteis para as práticas de ação comunitária no SUS, uma vez que demonstram o potencial da educomunicação de promover diálogos efetivos com a comunidade, aproximando, por meio de atividades que se inserem em seus cotidianos, a população de assuntos essenciais para a manutenção da saúde pública, como controle de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), prevenção do câncer de mama, uso de álcool, entre outros. As práticas educomunicativas se diferem das outras propostas preventivas pois representam técnicas de comunicação educativa que mobilizam pessoas e instituições a propósito de temas do cotidiano e a partir do compromisso ético e humanista, com o diálogo e a democracia como princípios norteadores da exploração dos recursos tecnológicos disponibilizados - ou não - às pessoas, de modo a envolver os participantes e torná-los protagonistas do seu conhecimento, a partir do entendimento e discussão das necessidades da sua comunidade e dos recursos pertinentes para estabelecer o diálogo.

É certo que a abordagem educomunicativa vem alcançando territórios epistemológicos e institucionais muito além dos contornos dos campos da comunicação e da educação52, como o campo da saúde coletiva, conforme demonstrado nesse estudo. Todavia, para efetivação dessa abordagem nas práticas do SUS é necessário que se compreenda a educomunicação como uma abordagem relacional, sendo, portanto, imprescindível a proposta de projetos e políticas públicas de saúde que garantam “o diálogo como base, a práxis como meio e a transformação social como fim”, conforme nos ensina Consani52(111). Para tanto, cada proposta educomunicativa deve ser construída identificando preliminarmente a problemática existente no contexto em que se pretende atuar, a partir do diálogo com os atores envolvidos no território e com total participação e protagonismo dos sujeitos, reconhecendo a pluralidade de necessidades de diferentes públicos, regiões e culturas. A partir do reconhecimento desse panorama, é possível construir coletivamente as ações mediadoras, lançando mão de planejamento coletivo e colaborativo; de diversidade de abordagens, privilegiando metodologias ativas; alternância de funções para garantir a participação de todos; momento de deliberações e avaliação compartilhada52.

Houve limitações na revisão de escopo relacionadas ao processo de denominação de descritores padronizados de buscas nas bases de literatura, por ser um campo recente. No entanto, a estratégia foi abrangente para a realidade brasileira, trazendo não somente artigos publicados, mas teses e dissertações que mostram a expansão do campo científico das interfaces entre comunicação, educação e ação social, ancorado no paradigma da educomunicação. Com mais esta pesquisa, é demonstrada a frequente ampliação e a consolidação da educomunicação nas ciências e nas práticas socioculturais por meio da comunicação participativa e mobilizadora de conhecimentos e prática cidadã fortalecida.

A própria palavra ‘Educomunicação’ só foi reconhecida pela Academia Brasileira de Letras como uma palavra da língua portuguesa no ano de 2021. Assim sendo, acredita-se que sua incorporação como DeCS fará parte de um processo de reconhecimento e expansão do campo, que a presente revisão de escopo pode auxiliar.

Além disso, o recorte da revisão para o cenário da saúde coletiva brasileira, mesmo que disponível em língua inglesa ou espanhola, restringe a discussão conceitual da educomunicação e saúde, também presente em estudos internacionais sobre outros cenários, principalmente latino-americanos. Assim, espera-se que novos estudos possam ampliar essa discussão para as aplicações da educomunicação em outros contextos de saúde pública mundiais.

Conclusões

Esta revisão de escopo mapeou evidências sobre educomunicação e saúde coletiva no Brasil, discutindo as possibilidades de desenvolvimento dessa potencialidade dialógica entre os campos de educação e comunicação nos cenários de práticas no SUS. Notou-se como práticas em que os sujeitos foram protagonistas da construção de seu conhecimento foram fundamentais para a efetivação de ações de promoção e prevenção de saúde, com a capacidade de abranger diversos temas.

Portanto, as implicações para novas práticas de educação e saúde podem ser percebidas ao valorizar o envolvimento da comunidade e as suas vivências na construção de conhecimento relacionado à saúde, de modo a promover sentidos que tornam efetiva a apropriação de novas atitudes e práticas, evidenciando a importância da educomunicação na ação comunitária no âmbito do SUS. Dessa forma, propostas de novos estudos sobre educomunicação podem ampliar o conhecimento e as aplicações na saúde coletiva, ampliando a atuação do campo e os seus desfechos no SUS.

  • Suporte financeiro:
    não houve

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Editado por

  • Editora responsável:
    Jamilli Silva Santos

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    09 Jun 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    22 Out 2024
  • Aceito
    21 Mar 2025
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