Open-access Desempenho da APS brasileira e inglesa durante a pandemia de covid-19: uma revisão de escopo

RESUMO

Este estudo teve como objetivo mapear as evidências disponíveis sobre o desempenho da Atenção Primária à Saúde (APS) no Sistema Único de Saúde (SUS), em comparação com o National Health Service (NHS) da Inglaterra, com foco no processo de trabalho durante a pandemia de covid-19, bem como identificar lacunas de conhecimento. Realizou-se uma revisão de escopo, baseada na metodologia JBI, com buscas nas bases PubMed, Lilacs, Scopus, Cinahl, Embase e Web of Science, em junho de 2024. Foram incluídos estudos em português, inglês e espanhol, segundo a estratégia PCC (População, Conceito e Contexto). A seleção foi conduzida por três revisores, com apoio dos softwares EndNote e Rayyan. Ao todo, 34 estudos foram analisados. Os achados indicam que a pandemia afetou significativamente o processo de trabalho da APS. Em ambos os sistemas, priorizou-se o atendimento a sintomáticos respiratórios, reduzindo atividades rotineiras e descaracterizando atributos da APS. No NHS, destacaram-se a centralidade dos médicos generalistas, ampliação da Telessaúde e maior capacidade estrutural; no SUS, atuação multiprofissional, limitada por fragilidades tecnológicas e falta de coordenação nacional. Identificou-se, ainda, ausência de estudos sobre Internações por Condições Sensíveis à APS e financiamento, indicando necessidade de investigações futuras que aprofundem efeitos da pandemia em perspectiva comparada.

PALAVRAS-CHAVE
Covid-19; Atenção Primária à; Saúde; Sistemas de saúde; Sistema Único de Saúde; Medicina estatal.

ABSTRACT

This study aimed to map the available evidence on the performance of Primary Health Care (PHC) in the Brazilian Unified Health System (SUS), compared to the National Health Service (NHS) in England, focusing on the work process during the COVID-19 pandemic, as well as to identify knowledge gaps. A scoping review was conducted, based on the JBI methodology, with searches in the PubMed, LILACS, Scopus, Cinahl, Embase, and Web of Science databases, in June 2024. Studies in Portuguese, English and Spanish were included, according to the PCC (Population, Concept and Context) strategy. Study selection was conducted by three reviewers, with the support of EndNote and Rayyan software. Overall, 34 studies were analyzed. The findings indicate that the pandemic significantly affected the PHC work process. In both systems, priority was given to caring for patients with respiratory symptoms, reducing routine activities and de-characterizing PHC attributes. In the NHS, the centrality of GPs, expansion of telehealth, and greater structural capacity stood out; in SUS, multi-professional action was limited by technological weaknesses and lack of national coordination. It was also noted a lack of studies on Ambulatory Care Sensitive Conditions and health financing, indicating the need for future investiga-tions exploring the effects of the pandemic from a comparative perspective.

KEYWORDS
COVID-19; Primary Health Care; Health systems; Unified Health System; State medicine.

Introdução

A pandemia de covid-19 desencadeou uma grave crise sanitária que exibiu fragilidades nos sistemas de saúde globais e expôs desafios para o enfrentamento e controle de emergências em saúde ao redor do mundo1,2.

A rápida reestruturação exigida dos sistemas de saúde provocou uma resposta predominantemente hospitalocêntrica, que negligenciou a integralidade do cuidado e as ações de prevenção - pilares fundamentais no enfrentamento da doença1-3.

Nesse sentido, o debate internacional sobre a importância da Atenção Primária à Saúde (APS) foi reaberto, ressaltando seu papel como base para sistemas de saúde universais e mecanismo fundamental para lidar com crises sanitárias, devido à sua capacidade de desempenhar funções de vigilância epidemiológica, manejar casos leves e moderados da doença e orientar o cuidado ao longo das Redes de Atenção à Saúde (RAS)1-3.

Países têm se comprometido, ativamente, a investir em seus sistemas de saúde, focando suas redes de cuidados primários, a fim de qualificar profissionais para atuar em todos os âmbitos de enfrentamento de crises sanitárias, como prevenção, resposta e recuperação4-6.

No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) é um modelo universal, público e sustentado por uma APS abrangente, mas que enfrenta problemas de subfinanciamento e estruturação dos serviços desde sua origem. O SUS foi inspirado por sistemas de saúde semelhantes, entre eles, o National Health Service (NHS) inglês, que está disponível a cerca de 57 milhões de pessoas e é considerado um modelo pioneiro de acesso universal à saúde, elevando as expectativas quanto à sua capacidade para lidar com emergências sanitárias1,7,8.

As estratégias adotadas pelo NHS na APS durante a pandemia oferecem aprendizados relevantes para outros sistemas universais em contextos de crise sanitária. Embora existam diferenças políticas, econômicas e culturais entre os países, elementos estruturais - como cobertura, financiamento e força de trabalho - justificam comparações que, mais do que replicar modelos, buscam novas perspectivas9,10.

Para comparar a experiência do SUS e do NHS, foi realizada uma revisão de escopo com o objetivo de mapear as evidências disponíveis na literatura sobre o desempenho da APS nos dois sistemas, focando o processo de trabalho durante a pandemia de covid-19, e buscando identificar lacunas de conhecimento sobre o tema, para que futuras pesquisas possam ser orientadas, fortalecendo a APS em situações de crise sanitária.

Material e métodos

Estudo conduzido de acordo com o Manual para Síntese de Evidências da JBI, seguindo as recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analysis Protocols for Scoping Reviews (PRISMA-ScR), e cujo protocolo foi previamente registrado na Open Science Framework (OSF), em junho de 2024, sob o DOI: https://doi.org/10.17605/OSF.IO/DSCNB11-13.

A pergunta de pesquisa que norteou esta revisão foi: ‘Quais são as evidências disponíveis na literatura quanto ao desempenho da APS no tocante ao processo de trabalho no SUS em comparação com NHS inglês, durante a pandemia de covid-19?’, formulada com base no acrônimo ‘PCC’ (População, Conceito e Contexto): ‘P’ (SUS e NHS), ‘C’ (APS na dimensão do processo de trabalho) e ‘C’ (pandemia de covid-19)11.

Cumpre destacar que, inicialmente, este estudo teve como objetivo analisar o desempenho da APS não apenas sob a luz do processo de trabalho, mas, também, considerando a dimensão do financiamento dos sistemas de saúde no contexto da crise sanitária. Por essa razão, o tema foi incorporado à estratégia PCC e à questão norteadora da revisão. Entretanto, a escassez de evidências disponíveis sobre o financiamento desses sistemas inviabilizou a realização de uma análise específica dessa dimensão. Ainda assim, a ausência de estudos diretamente voltados ao financiamento foi interpretada como um achado relevante14. Observou-se que a temática foi mencionada em 1515-29 dos 34 artigos incluídos, predominantemente, de forma transversal, no âmbito das discussões sobre o processo de trabalho. Dessa forma, embora a pergunta de pesquisa desta revisão inclua a dimensão do financiamento, o produto final apresenta exclusivamente as evidências relacionadas ao processo de trabalho. As decisões metodológicas e os detalhamentos adicionais encontram-se descritos no material suplementar (https://doi.org/10.17605/OSF.IO/DSCNB).

Os critérios de inclusão foram: artigos que contivessem elementos da estratégia PCC. Foram considerados apenas estudos publicados em português, inglês ou espanhol, devido à localização do Brasil, na América do Sul, onde predominam os idiomas português e espanhol, enquanto a Inglaterra integra o Reino Unido, cujo idioma oficial é o inglês. Além disso, foram selecionados, exclusivamente, materiais publicados entre 2020 e 2024, recorte temporal que coincide com o período da pandemia de covid-19, proposto para esta revisão, cuja oficialização pela Organização Mundial da Saúde (OMS) se deu em março de 2020, e seu encerramento em maio de 20231,30. Incluiu-se literatura cinzenta, conforme detalhado no material suplementar.

Publicações cujos títulos e resumos não respondiam à pergunta norteadora da pesquisa foram excluídas. As buscas foram conduzidas em junho de 2024, nas seguintes bases de dados: PubMed, Lilacs, Scopus, Cinahl, Embase e Web of Science. A estratégia de busca foi construída com base em descritores que constam no Medical Subject Headings (MeSH) e Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), combinados por meio de operadores booleanos (OR e AND), e adaptada para cada uma das bases utilizadas neste estudo, podendo ser visualizadas, na íntegra, no protocolo da revisão.

Os estudos selecionados foram inicialmente importados para o software de gerenciamento de referências EndNote e, em seguida, para a plataforma Rayyan, o que possibilitou a identificação e exclusão de publicações duplicadas, bem como a condução do processo de seleção dos estudos31,32.

Previamente a essa etapa, foi realizada uma calibração entre todos os revisores, com o objetivo de alinhar os critérios de elegibilidade. A seleção dos estudos foi conduzida de forma cega por dois revisores independentes, a partir da leitura de títulos e resumos. Nos casos em que não houve consenso, um terceiro revisor foi acionado para a resolução das divergências. A plataforma Rayyan registrou todas as decisões tomadas ao longo do processo32.

Durante a extração de dados, coletaram-se informações de cada publicação selecionada: características do estudo (autores, ano de publicação, país, região e sistema de saúde, tipo de publicação, desenho do estudo), principais resultados, desafios e contribuições. Além disso, identificou-se qual eixo de atuação da APS foi abordado dentro da dimensão individual e qual subdimensão específica foi contemplada, de acordo com o referencial teórico utilizado.

Como referencial, utilizaram-se duas das quatro dimensões propostas por Medina et al.33 para orientar a atuação da APS durante a pandemia de covid-19 - ‘Atenção aos usuários com covid-19’ e ‘Continuidade das ações próprias da APS’ -, por estarem mais alinhadas ao foco deste estudo, centrado no processo de trabalho em saúde. Essa escolha foi corroborada pela análise de Schenkman et al.27, que reagrupa os eixos de Medina et al.33 em duas grandes dimensões: coletiva (‘Vigilância em saúde nos territórios’ e ‘Suporte social a grupos vulneráveis’) e individual (‘Atenção aos usuários com covid-19’ e ‘Continuidade das ações próprias da APS’). Apenas a dimensão individual foi considerada nesta revisão.

Para fins analíticos e de apresentação, essa dimensão foi desmembrada em seus dois eixos, aqui tratados como dimensões. A partir delas, emergiram duas subdimensões fundamentais para a análise, também baseadas em Medina et al.33, cuja recorrência e relevância nas publicações justificam sua adoção: ‘Reorganização do processo de trabalho dos profissionais de saúde da APS’ e ‘Incorporação de novas tecnologias (Telessaúde)’.

Como desfecho do estudo, a revisão de escopo oportunizou, ainda, evidências acerca das aproximações e dos distanciamentos no desempenho da APS em ambos os sistemas de saúde, fundamentando-se na teoria da convergência/divergência34. Optou-se por apresentar os resultados por meio de uma síntese narrativa, para uma exposição mais clara dos contrastes e similitudes identificados ao comparar a dimensão individual da APS brasileira e inglesa durante a pandemia de covid-19, seguindo as recomendações do Prisma-ScR12.

Ressalta-se que os estudos não foram avaliados conforme sua qualidade metodológica, pois essa etapa não se constitui em exigência para revisões de escopo12.

Por não envolver a participação direta de seres humanos, este estudo não necessitou de submissão à apreciação de um Comitê de Ética em Pesquisa.

Resultados e discussão

O processo de seleção de estudos está descrito na figura 1, conforme recomendações do Prisma-ScR12.

Figura 1
Fluxograma do processo de seleção de estudos

Foram incluídas 34 publicações: dois relatos de experiência36,37, duas revisões de escopo38,39, duas pesquisas qualitativas17,20, dois estudos descritivos40,41, um estudo descritivo com corte transversal42, três estudos transversais27,43,44, três estudos exploratórios21,45,46, um comentário23, três notas técnicas28,29,47, dois estudos de caso22,26, uma pesquisa documental25, uma pesquisa avaliativa48, uma pesquisa qualitativa multicêntrica16, uma pesquisa descritiva e exploratória24, um estudo qualitativo, descritivo e exploratório49, um estudo longitudinal50, uma pesquisa observacional transversal15, um estudo transversal descritivo51, uma revisão da literatura e revisão documental52, um estudo qualitativo, analítico-descritivo, de casos múltiplos53 e três publicações que não explicitaram o tipo de estudo18,19,54.

Dos 34 estudos, 16 foram publicados em 202315-18,21,22,24,27,38,41,42,44,48,49,51,53, cinco em 202023,28,37,47,52, cinco em 202119,26,29,43,46, cinco em 202225,36,39,45,50, dois em 202420,40 e uma publicação não apresentou data54. Quanto à procedência, 27 publicações referiam-se ao SUS15-20,22,24-29,36-38,40-42,44,47-49,51-54, seis abordaram o NHS23,24,43,45,46,50 e uma publicação mencionou ambos os sistemas39.

Das 27 publicações brasileiras, seis apresentavam abrangência nacional19,27,29,44,52,54, uma mencionava mais de uma região38, 11 estavam concentradas na região Nordeste18,20,25,26,36,37,40-42,51,53, quatro na região Sudeste16,17,24,49, três na região Sul22,47,48, enquanto as regiões Norte e Centro-Oeste foram mencionadas por uma publicação cada15,28. Já com relação aos seis estudos realizados na Inglaterra, cinco eram de abrangência nacional21,23,43,46,50, enquanto um foi conduzido nas regiões de Midlands, South East e South West England45. O estudo que abordou tanto o Brasil quanto a Inglaterra apresentou resultados com alcance nacional39.

Conforme os quadros 1 e 2, abaixo, 28 estudos15-26,36,37,39-49,51-53 abordaram de forma aprofundada as duas dimensões e subdimensões propostas. Outras seis publicações apresentaram variações: uma tratou exclusivamente da dimensão ‘Atenção aos usuários com covid-19’ e da subdimensão ‘Incorporação de novas tecnologias (Telessaúde)’54; duas analisaram ambas as dimensões, mas com foco exclusivo em uma subdimensão cada - ‘Incorporação de novas tecnologias (Telessaúde)’38 e ‘Reorganização do processo de trabalho’28; e três abordaram ambas as subdimensões dentro da dimensão ‘Continuidade das ações próprias da APS’27,29,50.

Quadro 1
Atenção aos usuários com covid-19 e Continuidade das ações próprias da APS no SUS e no NHS
Quadro 2
Reorganização do processo de trabalho dos profissionais da APS e incorporação de novas tecnologias (Telessaúde)

Atenção aos usuários com covid-19 e continuidade das ações próprias da APS

Flexibilidade e capacidade de adaptação são essenciais para que um sistema de saúde atue de forma eficaz tanto em ações rotineiras quanto em situações emergenciais55,56. Nesse cenário, a APS se destacou por sua capilaridade, proximidade com a população e atuação estratégica no enfrentamento da covid-19, especialmente no manejo de casos leves, testagem e encaminhamento de casos graves, além de funcionar como fonte de informação junto à comunidade15-19,22,24-28,36,39,40-42,44,46,48,49,51-53.

A incorporação do cuidado a pessoas com covid-19 exigiu rápidas mudanças nos processos de trabalho da APS no Brasil e na Inglaterra, com a adoção de novos fluxos e priorização de pacientes sintomáticos respiratórios15-20,22-26,28,37-49,51-54. Essas alterações evidenciam o papel central e adaptativo da APS, bem como a necessidade de garantir a continuidade e a qualidade do cuidado diante de um cenário prolongado de crise17,23,24,26,46,50.

Durante a pandemia, a APS se reconfigurou em ambos os países. No NHS, atendimentos presenciais foram amplamente substituídos por Telessaúde, priorizando casos suspeitos de covid-1923,39,45,46,50. Posteriormente, centros de atendimento (hubs) foram organizados localmente pelos Clinical Commissioning Groups (CCGs) e pelos Primary Care Networks (PCNs), responsáveis pelo planejamento de serviços e integração de clínicas de APS para otimizar o cuidado43,46,57. Apesar dessas estratégias, a suspensão de atendimentos não essenciais gerou preocupações quanto ao agravamento das Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) e ao comprometimento da função de coordenação da APS21,39,45,46,50.

No Brasil, a reorganização da APS incluiu adaptações estruturais, estabelecimento de fluxos diferenciados e definição de unidades de referência para covid-1916,18,20,22,24-26,36,38,39,41,44,47,48,53. As atividades assistenciais favoreceram grupos prioritários, ao passo que ações preventivas e de promoção da saúde foram substancialmente reduzidas15-17,19,20,24-29,37,38,40,48,49. Visitas domiciliares foram direcionadas a grupos de risco16,18,19,24,37,40,41,47,48,53, o teleatendimento consolidou-se como estratégia central para a manutenção da atenção longitudinal15-19,21,24,36,38-40,42,43,49,51,52, enquanto a clínica odontológica restringiu-se a atendimentos de urgência, ampliando o quadro de desassistência22,28,29,42,51. Observa-se a ausência de diretrizes robustas voltadas à continuidade das ações da APS, expondo a fragilidade de sua valorização durante a crise sanitária e refletindo a desconsideração do papel estratégico das ações territoriais e do potencial de capilaridade da APS no enfrentamento da pandemia, no Brasil18.

Os estudos demonstraram que, durante a pandemia, as alterações no processo de trabalho fizeram com que o modelo de Estratégia Saúde da Família (ESF) se diluísse, perdendo, temporariamente, a capacidade de implementar seus atributos de coordenação do cuidado, longitudinalidade e, em alguns aspectos, a integralidade das ações e dos serviços de saúde, cooperando para que esse ponto de atenção assumisse um papel focado no atendimento emergencial15,16,19,24,26,40,49,53,58.

Reorganização do processo de trabalho dos profissionais de saúde da APS e a incorporação de novas tecnologias (Telessaúde)

À luz da análise dos artigos desta pesquisa, duas subdimensões, intimamente conectadas, destacam-se ao participar de forma integrada das alterações do processo de trabalho na APS em ambos os países, impulsionadas por ações relacionadas à pandemia que exigiram a reorganização do processo de trabalho dos profissionais e a incorporação de novas tecnologias, especialmente por meio da Telessaúde, nesse ponto de atenção.

No NHS, a reorganização do processo de trabalho da APS foi marcada pela adoção de consultas remotas, como procedimento padrão21,39,43. A sobrecarga do sistema levou à limitação de encaminhamentos para a atenção especializada, estimulando o uso de ferramentas digitais para conectar profissionais da APS a especialistas21,50. Observou-se sobrecarga de trabalho, aumento das responsabilidades e desvio das funções originais, agravados pela escassez de pessoal - problema estrutural anterior à pandemia, relacionado a baixos salários e aumento das atribuições45,50 - e pela falta de Equipamentos de Proteção Individual (EPI), comprometendo a segurança dos profissionais45.

No SUS, a reorganização se deu com a suspensão de atendimentos eletivos e realização de visitas domiciliares em ambiente peridomiciliar. Profissionais da saúde bucal foram redirecionados para atuar na triagem de pacientes sintomáticos, enquanto a APS assumiu funções típicas do pronto atendimento17,22,25,28,37,42,44,48,51,52. Os Agentes Comunitários de Saúde (ACS) também tiveram suas funções descaracterizadas, com atuação reduzida no território e maior participação em tarefas administrativas, fragilizando os vínculos com a comunidade16-18,26,27,36,47,49,52,54.

Apesar de ser essencial para evitar a desassistência, a implementação da Telessaúde encontrou obstáculos no Brasil devido a desigualdades regionais e sociais. Enquanto algumas unidades adotaram celulares e tablets, outras careciam até de telefonia básica, dificultando a implementação de tecnologias de cuidado remoto15,16,20,40,41,44,48,53. Assim como no NHS, o aumento das atribuições e a descaracterização dos papéis tradicionais provocaram estresse entre os profissionais e impactaram negativamente o desempenho da APS durante a pandemia15-17,19,24,36,40.

SUS e NHS: aproximações e distanciamentos

Cotejando a experiência de ambos os países, percebemos aproximações e distanciamentos. Tanto no SUS quanto no NHS, a incorporação de atendimentos voltados à covid-19 levou a uma interrupção nas atividades rotineiras da APS, que, ao ser utilizada como porta de entrada para pacientes sintomáticos, passou a oferecer parcialmente seus serviços nucleares15-20,22-26,28,37-49,51-54.

A incerteza quanto à doença levou autoridades a suspender atendimentos considerados não essenciais, para direcionar a assistência voltada à covid-1915,16,24,25,27-29,37,43,45,53.

O NHS apoiou-se, principalmente, na Telessaúde para continuar atendimentos e exercer ações de monitoramento remotas21,39,43. O SUS, por sua vez, poderia ter explorado de forma mais efetiva os estreitos laços construídos previamente com a comunidade, por meio de suas equipes na APS, para exercer funções de vigilância18. Apesar de também apresentar problemas estruturais para o atendimento remoto, além da necessidade de maior investimento na formação de profissionais, relatos demonstram que as condições para esse recurso no NHS ainda são bem melhores que no SUS, onde muitas unidades de saúde sequer possuíam telefones fixos15,16,20,21,39,40,41,44,48,53.

Ao retomar atendimentos presenciais, a reorganização da infraestrutura clínica na Inglaterra foi mais bem sucedida. Percebe-se maior capacidade estrutural, como, por exemplo, clínicas com entradas e saídas individualizadas e estacionamentos distintos. Algo muito distante da realidade observada no Brasil, onde a APS precisou de resiliência para readaptar espaços físicos e estruturais, já precarizados18,22-24,26,39,43-46.

No NHS, a APS é estruturada, principalmente, em torno dos médicos generalistas (GPs), e essa centralidade ficou evidente nos estudos analisados. Diferentemente do que foi observado nas pesquisas sobre o SUS, que apresentaram abordagem multiprofissional na APS, na Inglaterra, apenas um estudo explorou em profundidade o processo de trabalho de outro profissional que não o GP, analisando impactos da pandemia na enfermagem da APS inglesa, como atritos observados entre categorias profissionais, já que trabalhadores da enfermagem se sentiam desvalorizados em relação aos médicos45.

No Brasil, além da abordagem coletiva da equipe multiprofissional, os estudos resgatados investigaram, especificamente, o trabalho da enfermagem15,20,40,49, da odontologia29,42,51 e dos ACS18,19,41,47,52, enquanto nenhum estudo se dedicou exclusivamente ao trabalho médico, evidenciando a característica multiprofissional da APS no SUS, que se distancia do modelo médico-centrado para favorecer a colaboração interprofissional.

Por outro lado, a ausência de estudos sobre o processo de trabalho de outros profissionais essenciais da APS inglesa, como dentistas, reflete uma fragilidade na abordagem interprofissional do NHS. Essa limitação foi destacada como um aspecto a ser aprimorado na Inglaterra45.

Em ambos os sistemas, pudemos observar uma descaracterização da atenção primária, pautando-se em uma oferta de cuidados voltados ao pronto atendimento, com demandas pontuais e imediatistas. Acrescem-se a isso desvios importantes nas funções de determinados profissionais, cujas atribuições baseadas em ações no território - como os ACS - fazem parte da construção da identidade da APS brasileira, que foi subutilizada durante a pandemia24,49. No NHS, resgata-se dessa experiência a importância da abordagem interprofissional - como a realização de reuniões de equipe, além da autonomia local para tomada de decisão, mesmo com relativa falta de padronização nas respostas23,43,46. Essa interprofissionalidade e descentralização, apresentadas como mudanças positivas a serem implementadas no futuro da APS inglesa, já são características presentes no SUS, mas que não foram plenamente utilizadas. Reuniões de equipe canceladas e afastamento entre os profissionais levaram a atritos16,17,24. No Brasil, a descentralização da responsabilidade da saúde para os municípios, somada à falta de coordenação federal, levou a uma resposta muito heterogênea da atuação da APS no SUS, por isso, a maioria dos estudos incluídos apresentou recortes regionais, dificultando uma avaliação nacional18. Já na Inglaterra, houve a tendência de analisar experiências nacionalmente, negligenciando recortes e características regionais que poderiam fornecer insights sobre esse período43,45,46.

Contrasta-se, também, uma relativa proteção financeira da APS no NHS, através do engajamento do governo em garantir

suporte financeiro, enquanto, no SUS, ficou evidente a acentuação dos desafios já vivenciados pela APS, acrescidos de dificuldades para acessar recursos emergenciais (insuficientes), enfraquecimento do trabalho interprofissional e comprometimento da abordagem territorial15-27.

Limitações do estudo

Uma limitação relevante a ser considerada é que os estudos analisados refletem diferentes momentos da pandemia, tanto no Brasil quanto na Inglaterra. Essa variação temporal acrescenta cautela quanto à comparação entre os dois sistemas de saúde, reforçando a necessidade de estudos futuros que avaliem períodos equivalentes da pandemia para uma análise mais aprofundada.

Considerações finais

Identificaram-se mudanças significativas no processo de trabalho da APS no SUS e no NHS durante a pandemia, com aproximações e contrastes relevantes. Ambos os sistemas priorizaram o atendimento a sintomáticos respiratórios, o que levou à redução ou interrupção das atividades rotineiras e à descaracterização de atributos como longitudinalidade, vínculo e integralidade.

No NHS, houve centralidade dos GPs, ampliação de atendimentos remotos e reorganização física das unidades com maior capacidade estrutural. Já no SUS, observou-se atuação mais coletiva e interprofissional, com destaque para profissionais da enfermagem, saúde bucal e ACS, muitas vezes, realocados. A limitação de recursos tecnológicos e estruturais dificultou a adoção da Telessaúde, evidenciando desigualdades regionais.

Enquanto a APS inglesa demonstrou maior capacidade de adaptação, sobretudo com o uso de tecnologias e autonomia local, a APS brasileira não conseguiu acionar plenamente seu potencial comunitário, em parte, pela ausência de coordenação nacional e pela fragmentação das respostas entre os territórios. Ambos os sistemas sofreram sobrecarga de trabalho, estresse profissional e perda de identidade das funções tradicionais da APS, revelando fragilidades pré-existentes - como falta de investimentos, escassez de recursos humanos e dificuldades estruturais.

Apesar disso, a crise revelou caminhos de aprimoramento, como a valorização da atuação interprofissional e a incorporação de tecnologias digitais - desde que acompanhadas de investimentos e suporte adequados. Futuras pesquisas devem se aprofundar no papel de categorias profissionais pouco investigadas, analisar recortes territoriais e temporais, e avaliar os impactos da pandemia sobre o acesso, a equidade e os desfechos em saúde.

Ainda que não tenha sido objeto principal desta pesquisa, ressalta-se a ausência de estudos sobre os efeitos da pandemia nos índices de Internações por Condições Sensíveis à Atenção Primária (ICSAP) - indicador amplamente utilizado para avaliar, de forma indireta, o desempenho da APS na prevenção de agravos e no manejo de condições crônicas. Considerando que a pandemia implicou a suspensão ou redução de atendimentos regulares, especialmente para pessoas portadoras de DCNT, é plausível que essa desassistência tenha repercutido negativamente nos índices de ICSAP. Assim, investigações futuras sobre esse indicador são fundamentais para mensurar os impactos reais da pandemia sobre o desempenho da APS, em ambos os sistemas. Além disso, identificou-se escassez de estudos que abordem outras dimensões vinculadas à APS, como o financiamento durante o período pandêmico, o que também merece maior atenção em pesquisas subsequentes.

  • Suporte financeiro: o presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (Capes) - Código de Financiamento 001

Disponibilidade de dados:

os dados de pesquisa estão contidos no próprio manuscrito

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Editado por

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    Abr-Jun 2026

Histórico

  • Recebido
    25 Ago 2025
  • Aceito
    10 Mar 2026
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