RESUMO
Apesar dos avanços tecnológicos em relação aos registros vacinais, a diversidade de Sistemas de Informação de Imunização impõe desafios técnicos e operacionais, particularmente no que se refere à infraestrutura tecnológica e à usabilidade. Este estudo, baseado nas ‘Guidelines for Evaluating Public Health Surveillance Systems’ do Centers for Disease Control and Prevention, objetivou avaliar o Sistema de Vigilância em Imunizações no Brasil, em 2024, com ênfase no atributo simplicidade, que abrange a estrutura e a facilidade de uso dos sistemas de informação. Foram analisados os critérios: fluxo de dados, organizações envolvidas, transferência e disseminação de dados, integração com outros sistemas, processo de validação dos dados e capacitações oferecidas, classificados como simples ou complexos. O Sistema de Vigilância em Imunizações foi classificado como complexo, com exceção do processo de validação dos dados. A diversidade de sistemas de informação utilizados por diferentes profissionais e instituições, públicas e privadas, compromete o fluxo contínuo dos dados e exige elevado grau de interoperabilidade. As capacitações são insuficientes e pouco eficazes, e a complexidade do Sistema de Vigilância em Imunizações exige avanços tecnológicos e operacionais para melhorar a qualidade da informação.
PALAVRAS-CHAVE
Tecnologia biomédica; Sistemas de informação em saúde; Confiabilidade dos dados; Programas de imunização; Avaliação em saúde.
ABSTRACT
Despite technological advances in vaccination records, the diversity of Immunization Information Systems poses technical and operational challenges, particularly regarding technological infrastructure and usability. This study, based on the ‘Guidelines for Evaluating Public Health Surveillance Systems’ from the Centers for Disease Control and Prevention, aimed to evaluate the Immunization Surveillance System in Brazil in 2024, with an emphasis on the attribute of simplicity, which encompasses the structure and ease of use of information systems. The following criteria were analyzed: data flow, organizations involved, data transfer and dissemination, integration with other systems, data validation process, and training offered, classified as either simple or complex. The Immunization Surveillance System was classified as complex, with the exception of the data validation process. The diversity of information systems used by different professionals and institutions, both public and private, compromises the continuous flow of data and requires a high degree of interoperability. Training activities are insufficient and not very effective, and the complexity of the Immunization Surveillance System demands technological and operational advances to improve the quality of information.
KEYWORD
Biomedical technology; Health information systems; Data accuracy; Immunization programs; Health evaluation.
Introdução
Os Sistemas de Informação em Imunizações (SII) são ferramentas gerenciais essenciais para o fortalecimento do Sistema de Vigilância em Imunizações, tanto em nível local quanto nacional1,2. O monitoramento e a avaliação de indicadores de imunização, por meio de dados oportunos, confiáveis e acessíveis, possibilitam a identificação de áreas com baixa cobertura vacinal, que demandam a implementação de estratégias para a prevenção e o controle de doenças imunopreveníveis3,4.
Atualmente, no Brasil, diferentes SII são utilizados para o registro das imunizações. Na Atenção Primária à Saúde (APS), esses registros são realizados por meio dos softwares Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC) e Coleta de Dados Simplificada (CDS), que integram a Estratégia e-SUS APS. Além disso, o aplicativo e-SUS Vacinação e o Novo Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunizações (Novo SIPNI) também são utilizados na APS para registrar, respectivamente, doses de vacinas aplicadas fora das unidades de saúde e em campanhas nacionais. Além desses, alguns municípios utilizam sistemas próprios ou terceirizados para o registro vacinal na APS5,6. Fora desse escopo, serviços como hospitais e clínicas privadas de vacinação também realizam registros por meio do Novo SIPNI ou sistemas específicos, o que evidencia a grande diversidade de SII no País6.
Esse conjunto de SII compõe o Sistema de Vigilância em Imunizações no Brasil, permitindo o monitoramento de surtos de doenças imunopreveníveis, a avaliação das ações de imunização e a identificação de disparidades na cobertura vacinal5-7. Contudo, diversos países, incluindo o Brasil, enfrentam desafios quanto aos registros e à gestão das informações de imunização, destacando-se a interoperabilidade e a qualidade dos dados um dos principais obstáculos1, além da resistência de profissionais à adoção de inovações tecnológicas8,9.
Na Agenda de Imunização 2030 (AI2030), a Organização Mundial da Saúde (OMS) enfatiza a importância de dados vacinais de alta qualidade para assegurar uma cobertura vacinal adequada, visando aprimorar a capacidade de resposta dos programas de imunização10.
O Centers for Disease Control and Prevention (CDC), por meio das ‘Guidelines for Evaluating Public Health Surveillance Systems’, reforça a importância de avaliar periodicamente os sistemas de vigilância em saúde pública, para assegurar a qualidade das informações e a eficácia na interação entre tecnologia e usuários11.
A avaliação dos atributos definidos pelo CDC - simplicidade, flexibilidade, qualidade dos dados, aceitabilidade, sensibilidade, valor preditivo positivo, representatividade, oportunidade e estabilidade - possibilita identificar fragilidades e potencialidades, além de orientar melhorias voltadas à otimização do desempenho do sistema e à efetividade das informações geradas11. Entre esses atributos, a simplicidade está diretamente relacionada com a qualidade e a oportunidade dos dados, sendo influenciada pela estrutura tecnológica e pela facilidade de uso11,12. Sistemas simples facilitam a compreensão, a implementação, o registro e o manejo das informações; favorecem a assimilação durante o uso e fortalecem a interoperabilidade com outras plataformas11,12.
Vários fatores comprometem a eficiência do Sistema de Vigilância em Imunizações. Dentre eles, destacam-se registros incompletos e/ou duplicados2,3,8,13,14, a insuficiência de equipamentos tecnológicos ou sua inadequação, uma vez que muitos não atendem aos requisitos mínimos necessários para o funcionamento adequado1,4,8.
Diante da complexidade das funcionalidades tecnológicas, avaliações recorrentes devem ser consideradas para garantir a eficiência da gestão da informação. Assim, este estudo teve como objetivo analisar o fluxo dos registros de vacinação do Sistema de Vigilância em Imunizações no contexto brasileiro, com ênfase na análise do atributo simplicidade, a fim de contribuir com estratégias para aprimorar os processos de registro e uso das informações em saúde.
Material e métodos
Estudo descritivo e de avaliação do Sistema de Vigilância em Imunizações, que adotou como referencial teórico a publicação ‘Guidelines for Evaluating Public Health Surveillance Systems’ do CDC dos Estados Unidos da América11. Neste estudo, foi avaliado o atributo de simplicidade, que se refere à estrutura e à facilidade de operação das tecnologias11,12.
Para analisar a simplicidade, foram considerados os critérios propostos pelo CDC11: a descrição e a representação gráfica do fluxo dos dados de imunização do Sistema de Vigilância em Imunizações; as organizações envolvidas na operacionalização e no gerenciamento dos dados; a transferência e a disseminação dos dados consolidados; a integração com outros sistemas; o processo de validação dos dados; e as capacitações oferecidas aos usuários.
Inicialmente, foi realizada a leitura de manuais, notas técnicas, portarias, boletins e relatórios disponíveis em sites oficiais, além de dissertações, teses e artigos científicos, com o objetivo de aprofundar o conhecimento sobre a estrutura e operação do Sistema de Vigilância em Imunizações no Brasil, bem como aumentar a percepção sobre a sua classificação como simples ou complexo.
Para minimizar a subjetividade inerente à avaliação do atributo simplicidade, foi realizado um consenso entre os itens analisados. Participaram desse processo: um grupo de especialistas na temática, composto por docentes e discentes do Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Universidade Federal de São João del-Rei, bem como docentes da Universidade do Estado de Minas Gerais e da Universidade de São Paulo. Além disso, participaram a referência técnica de imunização e o suporte técnico de informação do Sistema de Informação em Saúde do município. Esses pesquisadores e profissionais possuem ampla formação e experiência em temas relacionados com imunização e sistemas de informação, o que contribuiu para a robustez e maior confiabilidade dos resultados.
O quadro 1 apresenta os parâmetros utilizados para definir cada classificação (simples e complexo) do atributo de simplicidade.
Parâmetros utilizados para definir cada classificação (simples e complexo) do atributo de simplicidade do Sistema de Vigilância em Imunização do Brasil, 2024
Para detalhar os resultados dos itens relacionados com o critério capacitações dos usuários do Sistema, foi aplicado um questionário elaborado no Google Forms. O link do questionário foi enviado aos participantes por meio de WhatsApp e e-mail entre abril e maio de 2024. Os vacinadores da APS de um município de grande porte da Macrorregião Oeste de Minas Gerais (n = 72) participaram do estudo, selecionados com base nos seguintes critérios de inclusão: ter no mínimo seis meses de experiência em atividades de sala de vacinação e disponibilidade para responder ao questionário durante o expediente. Foram excluídos profissionais em férias, em afastamento médico e/ou sem acesso ou habilidades para responder ao questionário on-line. O questionário abordou os seguintes aspectos: se os participantes haviam sido capacitados para o uso do sistema; se tinham conhecimento da disponibilidade de material instrutivo para consulta na unidade; se precisaram recorrer a canais de comunicação para esclarecimento ou retirada de dúvidas sobre o sistema e se as diversas funções do sistema foram bem integradas19.
Para a classificação final da simplicidade do Sistema de Vigilância em Imunizações, foram considerados, pelo menos, 60% dos critérios avaliados como simples, segundo proposta do CDC11. Essa classificação foi utilizada em outros estudos para explorar o funcionamento de diferentes sistemas de vigilância em saúde2,20.
O estudo recebeu aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São João del-Rei, conforme Certificado de Apresentação de Apreciação (CAAE) nº 37555620.9.0000.5545 e Parecer nº 4.523.507. Todos os aspectos éticos, como confidencialidade e privacidade dos participantes, foram assegurados de acordo com a Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde21.
Resultados
Participaram do estudo: 72 profissionais de enfermagem (40% enfermeiros, 57% técnicos e 3% auxiliares), com predominância do sexo feminino (78%) e idades entre 23 e 66 anos (mediana de 41 anos). A maioria atuava na Estratégia Saúde da Família (98,6%), com tempo médio de experiência em salas de vacinação de 7 anos e 8 meses. Em relação à formação, 37,5% tinham ensino médio profissionalizante; 25%, graduação; 30,5%, especialização; 4,2%, mestrado; e 2,8%, doutorado. Entre os profissionais, 34,7% desconhecem os materiais instrutivos disponíveis, 93,1% já utilizaram canais de suporte e 77,8% se consideram capacitados para utilizar os SII. Somente 69,4% consideram que há integração entre as funcionalidades dos SII e outros sistemas de informação, como o Cadastro Nacional de Usuários do Sistema Único de Saúde (CadSUS) e do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES).
A revisão dos documentos identificados sobre a Estratégia e-SUS APS (softwares PEC e CDS, aplicativo e-SUS Vacinação), Novo SIPNI, além de normativas para o uso de sistemas próprios ou terceirizados, permitiu descrever e elaborar o fluxo da informação dos registros de vacinados no Sistema de Vigilância de Imunização, primeiro critério do atributo de simplicidade (figura 1). Esse fluxo abrange as salas de vacinação da APS, as salas de vacinação da rede pública e privada que não pertencem à APS e os sistemas gerenciais responsáveis pelo acompanhamento e monitoramento dos dados vacinais.
Fluxo da informação dos registros de vacinados do Sistema de Vigilância em Imunizações no Brasil, 2024
Descrevendo o fluxo da informação dos registros de vacinados no Sistema de Vigilância em Imunizações
Com relação ao tipo de SII utilizado para o registro dos dados vacinais, o PEC, implantado nas Unidades de Atenção Primária à Saúde (Uaps), é a tecnologia mais amplamente adotada17. Embora o PEC seja a ferramenta predominante na APS17, o Sistema de Vigilância em Imunizações também envolve outras tecnologias, como o CDS e o aplicativo e-SUS Vacinação, ambos parte da Estratégia e-SUS APS5. É importante ressaltar que os registros realizados nesses sistemas devem ser integrados ao PEC para garantir a exportação adequada das informações5,6. O Novo SIPNI, por sua vez, é utilizado na APS para registrar doses aplicadas em campanhas nacionais, gerenciar o estoque de imunobiológicos e monitorar as coberturas vacinais15. Além disso, alguns municípios optam por utilizar sistemas próprios ou terceirizados para o registro dos dados de imunização6.
No que diz respeito ao fluxo da informação dos registros de vacinados do Sistema de Vigilância em Imunizações no Brasil, as informações vacinais registradas no PEC são enviadas diariamente ao Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica (Sisab)5,22. As Uaps que utilizam sistemas próprios ou terceirizados seguem o mesmo processo, integrando seus dados ao Centralizador Nacional do Sisab22,23. Nesse contexto, a transmissão dos dados é realizada por meio da tecnologia Apache Thrift, um framework de comunicação de dados desenvolvido pela Apache Software Foundation, projetado para facilitar a interoperabilidade entre diferentes linguagens de programação24.
Essa ferramenta tecnológica utiliza uma interface de definição de serviços para descrever funções e tipos de dados, facilitando a construção de serviços escaláveis e de alto desempenho. O Thrift suporta múltiplos protocolos e formatos de transporte, tornando-o ideal para sistemas distribuídos e microsserviços, o que garante eficiência e agilidade na comunicação das informações24.
As informações enviadas para o Sisab passam duas validações: a verificação de duplicidade dos registros enviados e a conferência da data de atendimento. Se aprovados, os dados são enviados para a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), na qual ocorre uma nova checagem, envolvendo informações do usuário, do profissional, da equipe e do estabelecimento de saúde. O processamento e a validação desses registros são atualizados diariamente no Sisab por meio do Relatório de Vacinas Registradas no e-SUS APS5,22.
As principais causas de invalidação incluem inconsistências ou ausência do Cartão Nacional do SUS e do Cadastro de Pessoa Física no CadSUS, bem como falhas na identificação do profissional ou estabelecimento no CNES, exigindo correção pelos municípios5.
Os gestores devem monitorar a validação dos registros, corrigindo ou excluindo inconsistências no e-SUS APS. Em sistemas próprios ou terceirizados, as retificações dos dados só são possíveis em municípios com pelo menos um PEC instalado para recepção de arquivos Thrift5.
Ressalta-se que os registros contidos no PEC podem ser enviados diretamente à RNDS por meio do Registro de Imunobiológico Administrado em Rotina desde que o município possua certificação digital que autorize essa transferência. No entanto, esses dados não passam por processo de validação, sendo apenas disponibilizados para aumentar a transparência e a rastreabilidade das informações vacinais22.
As salas de vacinação não vinculadas à APS, como hospitais, Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (Crie), maternidades e clínicas privadas, registram as vacinas no Novo SIPNI. Esse sistema apresenta maior capacidade de integração com outras plataformas, permitindo um compartilhamento mais eficiente dos dados entre os sistemas. Quando esses serviços utilizam outros sistemas com interoperabilidade, as informações são enviadas diretamente à RNDS6.
Independentemente do SII de origem, o registro de qualquer vacina é enviado à RNDS, que atua como ponto de conexão entre todos os participantes do processo de vacinação aos dados de saúde6. Os registros de imunização na RNDS são integrados aos sistemas gerenciais (vacinômetro), permitindo o monitoramento em tempo real da cobertura vacinal. Um desses sistemas é o LocalizaSUS, plataforma tecnológica que oferece acesso à diferentes indicadores de saúde, incluindo o acompanhamento do total de doses aplicadas e a avaliação da cobertura vacinal por instância local6. Além disso, a plataforma OpenDataSUS disponibiliza os registros de vacinação contra a covid-1925.
Outra ferramenta fundamental para gerenciamento e monitoramento da vacinação é o SIPNI Gestão, que permite aos gestores de saúde acompanhar o estoque de vacinas, o registro das doses aplicadas e a geração de relatórios vacinais individualizados por instância local. O aplicativo Meu SUS Digital, por sua vez, possibilita que o usuário acompanhe seus dados vacinais, além de outras informações relacionadas com a sua saúde. Outros sistemas gerenciais podem monitorar dados vacinais utilizando a Interface de Programação de Aplicações, um conjunto de protocolos e ferramentas que facilita a integração de dados entre diferentes sistemas6.
Para orientar os profissionais responsáveis pelas salas de vacinação, o Ministério da Saúde do Brasil oferece materiais de apoio e um portal de suporte, com instruções sobre o registro adequado de vacinas na Estratégia e-SUS APS. Além disso, disponibiliza vídeos explicativos, informes técnicos sobre o Novo SIPNI e um canal de comunicação para esclarecer dúvidas5,6.
A descrição do fluxo dos dados de vacinação do Sistema de Vigilância em Imunização no Brasil permitiu avaliar os seis critérios do atributo de simplicidade apresentados no quadro 2.
Critérios de avaliação do atributo simplicidade, Sistema de Vigilância em Imunizações, Brasil, 2024
Dos seis critérios avaliados, apenas o processo de validação dos dados foi considerado simples (16,7%). Portanto, o Sistema de Vigilância em Imunizações foi classificado como complexo, pois a classificação final não atingiu 60% dos critérios avaliados como simples.
Discussão
Os resultados evidenciam que, de modo geral, o Sistema de Vigilância em Imunizações no Brasil é complexo, sendo apenas o critério relacionado com o processo de validação dos dados considerado simples.
Com relação à descrição e à representação gráfica do fluxo dos dados de vacinação, observou-se, neste estudo, que esse item ainda é considerado complexo. De fato, a diversidade de SII, como os sistemas da Estratégia e-SUS APS, o Novo SIPNI e outros sistemas próprios ou terceirizados5,6, representa um desafio significativo para a gestão das informações no sistema.
Essa variedade de sistemas pode resultar na perda de dados importantes, como o histórico vacinal dos usuários, conforme evidenciado na integração do PEC com o SIPNI29. Além disso, a fragmentação dos dados pode comprometer a precisão e a continuidade dos registros dos vacinados, podendo levar a interpretações equivocadas da cobertura vacinal, o que pode resultar na distorção da real situação vacinal da população1,14,27,30. Apesar dos avanços tecnológicos, a multiplicidade de SII traz uma série de obstáculos técnicos e operacionais à interoperabilidade e à consistência dos dados1. A falta de interoperabilidade entre os sistemas e a diversidade de plataformas utilizadas dificultam a integração e o acesso, em tempo real, a dados consistentes e fidedignos1,29-33.
No Sistema de Vigilância em Imunizações do Brasil, há muitas organizações envolvidas em sua operacionalização e no gerenciamento de dados, o que pode ter contribuído para que esse item fosse considerado complexo. O Brasil é um país continental, com muitas salas de vacinação que apresentam realidades distintas, tanto nos serviços públicos quanto nos privados6. As atividades de vacinação envolvem principalmente os profissionais da equipe de enfermagem, responsáveis pelas salas de vacinação no País16, além de gestores e referências técnicas em imunização de todos os níveis federativos5,7,28. São vários os entraves, principalmente relativos ao processo de operacionalização e gerenciamento dos dados, envolvidos na implementação e utilização de um SII. Estudos identificaram a carência de recursos tecnológicos adequados e a baixa familiaridade dos profissionais de saúde com essas ferramentas como grandes desafios a serem superados18,26,34,35. Outros fatores agravantes são a falta de supervisão nas salas de vacinação16 e a escassez de recursos humanos para a alimentação oportuna dos dados14,32,34, somados à resistência de alguns profissionais em aceitar a tecnologia como instrumento facilitador dos registros de imunização8,9,35.
Pesquisas apontam que o contexto de implementação e o perfil dos profissionais atuantes nas salas de vacinação estão intrinsicamente relacionados com a eficiência do SII e a qualidade dos dados registrados2,8. Assim, como observado na presente pesquisa, nota-se que o cenário que envolve o Sistema de Vigilância em Imunizações no Brasil é um processo complexo e multidimensional, abrangendo recursos técnicos, capacitação e motivação dos recursos humanos, além de um ambiente organizacional propício, que garanta o uso regular dos SII com dados precisos e de alta qualidade2.
O uso adequado dos SII garante o eficaz gerenciamento das informações do Sistema de Vigilância em Imunizações2. Nesse sentido, quanto maior for a interação dos vacinadores com a tecnologia, maior será a probabilidade de obter dados vacinais confiáveis, precisos, oportunos e representativos da realidade do território nacional9,13.
Outros aspectos importantes a serem considerados é a transferência e disseminação dos dados consolidados e a integração com outros sistemas. De nada adianta que os registros sejam realizados corretamente se a transferência e disseminação desses dados não ocorrerem de forma segura e confiável27,31. Para isso, é preciso que haja uma boa interoperabilidade e comunicação adequada entre os sistemas que compõem o Sistema de Vigilância em Imunizações do Brasil, além da adoção de medidas de segurança e proteção dos dados coletados. Nesta pesquisa, ambos os quesitos mencionados foram considerados complexos.
Na atual conjuntura, os registros vacinais são enviados para a RNDS, independentemente do SII utilizado. Há uma diversidade de sistemas e plataformas empregadas no gerenciamento dos dados de vacinação. Essas ferramentas tecnológicas apresentam características e requisitos de interoperabilidade distintos, o que ressalta a importância de um elevado nível de integração entre elas5,6.
Estudos apontam que a interoperabilidade é um dos maiores desafios para a integração dos SII com o prontuário eletrônico devido à troca limitada de informações e aos riscos associados à segurança e à privacidade dos dados. Esse problema é observado não apenas no Brasil, mas também em diversos outros países, pois não se restringe ao cruzamento de bases de dados, abrangendo também aspectos técnico-políticos que influenciam diretamente a gestão de informações e as políticas de tecnologia da informação em saúde1,27.
Para que o Sistema de Vigilância em Imunizações cumpra seus objetivos e forneça estimativas confiáveis, é essencial, além do alcance da interoperabilidade entre os sistemas, aprimorar a qualidade, a privacidade e a segurança dos dados de todos os SII envolvidos nesse fluxo. Isso exige uma padronização dos registros vacinais e o desenvolvimento de soluções que facilitem a integração entre as plataformas, promovendo uma troca de dados eficiente e segura entre os sistemas1,36.
É necessário, ainda, que os SII sejam hospedados em hardware e software seguros, em conformidade com os padrões de proteção das informações pessoais de saúde dos indivíduos. A segurança exigida para essas tecnologias deve incluir mecanismos de criptografia, planos de recuperação de desastres, práticas de confidencialidade e privacidade, além de políticas que respeitem as leis e os regulamentos de proteção de dados vigentes nos países onde essas inovações tecnológicas estão implementadas37.
Ademais, a disponibilização de equipamentos tecnológicos que atendam às necessidades locais e estejam alinhados à infraestrutura existente, aliada ao apoio de uma gestão que incentive e promova o uso eficaz das tecnologias disponíveis, é apontada como uma estratégia para enfrentar os desafios mencionados38.
No que se refere ao processo de validação dos dados, este foi o único critério avaliado como simples, pois permite a emissão de relatórios para acompanhamento e correção de inconsistências. No entanto, a alta rotatividade dos profissionais, associada a baixos salários, pode comprometer a qualidade dos dados1,39. A saída do responsável pelo registro pode gerar a necessidade de outro profissional transcrever os dados, aumentando o risco de duplicidade de dados na RNDS, com registros simultaneamente validados e inválidos5.
Diversos países também adotam mecanismos próprios de validação dos dados registrados no SII, conforme observado neste estudo. Em vários países, para garantir que o registro de uma dose vacinal seja válido, os vacinadores podem selecionar a vacina e sua respectiva dose a ser administrada em uma lista incluída no sistema. Em outros contextos, a validação ocorre de forma automática, por meio de regras predefinidas e similares40.
Há ainda países que validam os registros dos SII por meio de leitores de código de barras, menus suspensos para selecionar a dose administrada em uma lista predefinida de vacinas, vinculação a um banco de dados de produtos ou upload de registros médicos eletrônicos por serviços da web. Em todos esses lugares, o registro das doses registradas não é realizado de forma manual40.
No entanto, pesquisadores relatam que ainda há ausência de processos consolidados para validação dos dados vacinais e controle de qualidade desses registros nos sistemas, o que representa um grande desafio para a obtenção de dados confiáveis, fidedignos e representativos da real situação vacinal das pessoas40,41.
Quanto ao último critério avaliado do atributo simplicidade, capacitações com os usuários, este foi considerado complexo. Embora sejam ofertados materiais e suporte aos gestores e profissionais de saúde5,6, há evidências de que as capacitações são insuficientes e pouco eficazes para a utilização dos SII3,8,32. Isso tem prejudicado a aceitação das tecnologias1,8,9,18,26. Nesse contexto, é fundamental assegurar que os profissionais aceitem e sejam devidamente capacitados para incorporar essas tecnologias em suas atividades diárias9.
Estudo aponta que a oferta de treinamento para as equipes de saúde que utilizam os SII ainda é limitada, sendo que apenas 7,8% dos profissionais de saúde nas Uaps receberam capacitação para usar esses sistemas. Além disso, 50% dos profissionais utilizavam os dados gerados pelos SII para tomar decisões enquanto apenas 31% elaboravam relatórios analíticos com base nessas informações42.
Um sistema deve ser fácil de aprender, permitindo que os profissionais compreendam rapidamente a sua interface; eficiente para usar, possibilitando alta produtividade na localização de informações; fácil de memorizar, para que os profissionais não precisem reaprender a usá-lo; pouco sujeito a erros, e agradável de usar, garantindo uma experiência satisfatória43.
Como visto, o Sistema de Vigilância em Imunização no Brasil é complexo, o que tem impactado a vida das pessoas, dos profissionais de saúde e dos gestores. A complexidade desse sistema afeta diretamente a adesão à vacinação, especialmente em populações vulneráveis. Isso ocorre devido à diversidade de sistemas existentes para os registros dos dados vacinais e à baixa interoperabilidade entre eles, o que gera inconsistências e incompletudes dos registros, uma vez que os dados ficam duplicados e/ou se perdem quando são transmitidos para outros sistemas. Essas questões dificultam o acompanhamento do histórico vacinal das pessoas, comprometem a qualidade dos dados e a confiança nos sistemas informacionais e nos serviços de saúde1,14.
No ponto de vista gerencial, a fragmentação dos sistemas de informação exige estratégias de padronização e interoperabilidade. Experiências no Canadá e na União Europeia mostram que sistemas nacionais integrados, com validação automática e tecnologias como leitores de código de barras, otimizam a gestão da informação30,40. No Brasil, a RNDS é um avanço promissor, mas ainda requer melhorias na infraestrutura digital e na capacitação dos profissionais de saúde14,26,29.
No âmbito acadêmico, os resultados deste estudo contribuem para o debate sobre os desafios da vigilância em saúde no Brasil e apontam lacunas ainda pouco exploradas na literatura. A escassez de investigações que abordem a usabilidade dos sistemas de informação sob a perspectiva dos profissionais e as barreiras tecnológicas enfrentadas por diferentes populações revela a necessidade de pesquisas interdisciplinares, que articulem os campos da saúde coletiva, tecnologia da informação e ciências sociais9,26,27,29. Além do mais, este estudo dialoga com as pesquisas sobre vigilância em saúde ao preocupar-se com o monitoramento, consistência e consolidação dos dados em saúde e ao enfrentar os desafios da era digital nos sistemas públicos, a fim de promover um acompanhamento adequado da situação de saúde da população27.
Dentre as limitações deste estudo, destaca-se que, apesar das estratégias adotadas para reduzir a subjetividade na avaliação dos critérios do atributo simplicidade, os resultados devem ser interpretados com cautela, considerando as constantes atualizações e a heterogeneidade dos SII no Brasil. Outra limitação está relacionada com a coleta de dados por meio de formulários eletrônicos. Apesar das vantagens, como agilidade e maior alcance, essa abordagem pode resultar em alta taxa de não respondentes e respostas incompletas, afetando a representatividade dos dados. Adicionalmente, a fragmentação das informações nos manuais e normativas dos SII, associada à diversidade de tecnologias utilizadas no registro e na comunicação dos dados vacinais, dificultou a compreensão atual do fluxo de dados de vacinação no País.
No entanto, este estudo apresenta diversas fortalezas, como o uso das diretrizes do CDC, que conferem rigor à análise do Sistema de Vigilância em Imunizações do Brasil. A avaliação do atributo de simplicidade é essencial, pois permite uma visão abrangente dos desafios do sistema de vigilância ao descrever o fluxo de dados e analisar a usabilidade dos SII, aspecto crucial para sua aceitação e adoção.
Conclusões
O Sistema de Vigilância em Imunizações no Brasil enfrenta desafios significativos que demandam aprimoramento contínuo, tanto do ponto de vista tecnológico quanto operacional. Embora tenha havido avanços importantes com a implementação de tecnologias como o PEC, o e-SUS Vacinação e o Novo SIPNI, a eficácia dessas soluções está intimamente ligada à superação de questões técnicas, políticas e operacionais, além de envolver a capacitação constante dos profissionais de saúde. A integração de dados e a interoperabilidade entre diferentes plataformas continuam sendo um dos maiores obstáculos, impactando na qualidade e a consistência dos registros vacinais.
Por fim, a complexidade do Sistema de Vigilância em Imunizações no Brasil ainda apresenta desafios gerenciais relacionados com a integração dos sistemas e suscita discussões relevantes para investigações futuras. Reforça-se, assim, a necessidade de investimentos em infraestrutura digital do País e a formação profissional, com intuito de torná-la problematizadora, sendo o enfoque o real uso dos sistemas de informações e das informações geradas, de modo a atender às reais necessidades dos serviços de saúde e da população assistida.
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Suporte financeiro: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (código 001), Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (APQ-00877-20)
Disponibilidade de dados:
os dados de pesquisa estão contidos no próprio manuscrito
Referências
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Editora responsável:
Mônica Ferreira da Silva


Fonte: elaboração própria, 2024.