Resumo
As obras artístico-literárias na saúde coletiva, sobremodo nas ciências sociais e humanas em saúde, revelam potencialidades interessantes enquanto fontes de dados, na medida em que podem se apresentar como importantes registros históricos de fatos, percepções, concepções, narrativas e memórias sociais acerca de temas de interesse ao campo em tela. Deste modo, o presente estudo, metodologicamente estruturado sob o formato de um ensaio teórico-metodológico-crítico, tem por objetivo apresentar algumas cogitações quanto às possibilidades de tal uso, em diálogo com autoras e autores da literatura e da saúde coletiva que já se aventuraram em tal atrevimento. Longe de propor afirmações categóricas rotundas, o estudo, em seus resultados, evidencia alguns diferentes olhares sobre a questão entre teóricas e teóricos contemporâneos, mas também propõe possibilidades deste uso, de forma a manter o rigor metodológico que se espera no campo da saúde coletiva, sem perder no horizonte a inventividade e a criatividade que as obras artístico-literárias podem autorizar e introduzir, enquanto recursos de pesquisa, para o sanitarismo brasileiro e, mais particularmente, para as ciências sociais e humanas em saúde.
Palavras-chave:
Saúde Coletiva; Ciências Sociais e Humanas em Saúde; Pesquisa Qualitativa em Saúde; Arte; Literatura
Abstract
Artistic-literary works in Collective Health, especially in Social and Human Sciences in Health, reveal interesting potentialities as sources of data, as they can present themselves as important historical records of facts, perceptions, conceptions, narratives and social memories about themes of interest to the field in question. Thus, the present article, methodologically structured in the format of a theoretical-critical essay, aims to present some considerations regarding the possibilities of such use, in frank dialogue with authors of Literature and Collective Health who have already ventured into such audacity. Far from proposing roundabout categorical statements, in its results, it highlights different perspectives on the issue among contemporary theorists, but it also proposes possibilities for this use, in order to maintain the methodological rigor expected in the field of Collective Health, but without losing on the horizon the inventiveness and creativity that artistic-literary works can authorize and introduce, as research resources, for Brazilian sanitaryism and, more particularly, for the Social and Human Sciences in Health.
Keywords:
Collective Health; Social and Human Sciences in Health; Qualitative Research in Health; Art; Literature
Preâmbulo
A arte, enquanto expressão da história e da cultura humana a partir de multimeios, é considerada campo vasto para a reconstituição da realidade em seus diferentes tempos históricos, já sendo objeto de análise em distintos campos do conhecimento, sobretudo na filosofia e nas ciências sociais e humanas (Ianni, 2004). Para o campo da saúde coletiva, todavia, muito embora já sejam notórios alguns interessantes usos de recursos artísticos para a produção de análises pertinentes ao campo (Alves, 2018; Veronese, 2020), tal presença ainda não se vê de forma tão larga - talvez, como consequência de excessivos e pretensos rigores metodológicos, que desqualificam a arte e seus objetos enquanto recursos suficientemente úteis em pesquisas na área da saúde (Carvalho; Lima; Coeli, 2020).
Acerca da literatura, particularmente, vê-se a possibilidade de a mesma representar uma “ampliação do olhar” na formação em saúde coletiva (e em demais graduações da área da saúde), como tem sido apregoado por algumas autoras e autores das ciências da saúde desde os anos de 1990 (Sá; Palha; Villa, 1998). Não obstante, tal ramo das artes também não encontrou grande alargamento de seu lastro na saúde coletiva nas últimas décadas - apesar de interessantes exemplos em pesquisas nas ciências sociais e humanas em saúde (Alves, 2018; Veronese, 2020) - e, deste modo, carece ainda de um maior reconhecimento tanto de suas potencialidades quanto de sua fidedignidade para o campo em tela.
Posto em tais termos, o presente ensaio teórico-metodológico-crítico1 (Meneghetti, 2011), tricotado em diálogo com a experiência de pesquisa do autor principal, visa a apresentar algumas cogitações quanto às possibilidades do uso de recursos artístico-literários em pesquisas no campo da saúde coletiva, e mais particularmente nas ciências sociais e humanas em saúde. Afirma-se, desde já, que o presente, longe de taxar declarações absolutas e definitivas sobre o assunto, antes, deseja revelar perspectivas sobre tal, dialogando com algumas teóricas e teóricos contemporâneos, narrativamente selecionados em breve revisão. De tal modo, enseja-se sugerir perspectivas metodológicas para as pesquisas em saúde coletiva que se valem de tais recursos, a partir de alguns exemplos concretos (Alves, 2018; Seligmann-Silva, 2008; 2010), ao mesmo tempo em que se possa incorporar a originalidade das obras artísticas e literárias como recursos para as pesquisadoras e pesquisadores do sanitarismo brasileiro. Passemos a tal.
Primeiras Cogitações: Sobre Arte, Ciência, Saúde, Experiência e Saber de Experiência
Sá, Palha e Villa, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em estudo publicado em 1998, já retratavam os limites e possibilidades do uso de recursos artístico-literários como elementos para pensar e produzir acadêmico-cientificamente sobre a saúde. Dizem-nos que o ser humano, em seu fazer da história, “[...] cria, consome e recria a cultura, sendo esta tecida num emaranhado de crenças, valores, atitudes, costumes, mentalidades, práticas temporais e ‘atemporais’” (p. 56). Logo, ele imprime essa mesma cultura, vivida enquanto experiência, na expressão de tudo aquilo que o cerca e a partir de tudo aquilo que o permite viver, como em sua “alimentação, corpo, gestos, imagens, livros, mitos, sexo, filmes, clima, inconsciente, mentalidades, entre outros” (p. 56).
Tal reconhecimento, então, significaria reconhecer também que os seres humanos produzem e registram as suas experiências, a sua história e a sua cultura não apenas a partir de meios formais, ou de fontes de pesquisas produzidas pelos rigores de métodos, mas sim cotidianamente, em tudo o que fazem e em tudo o que registram; intencionalmente, ou não. A arte, por sua vez, seria uma forma desse registro, por vezes intencional, por vezes não, mas extremamente representativa dos estratos sociais, econômicos, políticos, históricos, culturais e ambientais de onde nasce.
Sua utilização na ciência, e particularmente no campo da saúde, outrossim, tornaria possível fazer dela um meio de “ensinar-aprender-sensibilizar-informar-formar” (Sá; Palha; Villa, 1998, p. 57) sobre as questões do viver, do morrer, da saúde e do adoecimento com larga riqueza e certa despretensiosidade, posto que, sem querer, esta acaba por propor-se a “questionar a verdade da ciência”, ao mesmo tempo em que “põe a nu os seus limites” (p. 57), já que despreocupada das “durezas do método científico”.
Muito embora o estudo em questão revele-se como importante registro desta discussão, ao nível acadêmico-científico, desde o final da década de 1990, ele mesmo reconhece ser tal debate ainda bastante introdutório, ensejando que outras experiências possam se evidenciar, a posteriori, para fazer “crescer o caldo”. É deste lugar que consideramos importante evidenciar as experiências trazidas por Biazevic, Michel-Crosato e Antunes (2012) e Araújo, Câmara e Ximenes (2012).
Biazevic, Michel-Crosato e Antunes (2012), docentes e pesquisadores também da Universidade de São Paulo (USP), nos apresentarão uma curiosa experiência de análise sobre construções acerca da saúde e da doença no Brasil do século XX, que se revelam interessantemente articuladas a partir de obras do escritor brasileiro Monteiro Lobato. Ao adentrarem em obras como Urupês, de 1914, e Mr. Slang e o Brasil e Problema Vital, de 1927, os autores vão destrinchando, nas narrativas de Monteiro Lobato, reflexões do escritor que retratam diversos âmbitos da saúde que se desenvolvia no país à época, como “o corporativismo médico, a atuação na Liga Pró-Saneamento, o paternalismo das práticas de saúde e a vulnerabilidade daqueles que possuem condição social desfavorável” (p. 290).
Notemos isso no seguinte trecho em destaque, em que Monteiro Lobato aposta haver uma certa “distribuição” das doenças com base na condição socioeconômica do “convalescente”:
Dona Lindoca sentia um certo orgulho da sua doença, cujo nome lhe soava bem aos ouvidos e fazia abrir a boca aos visitantes - policitemia... E como o marido e os demais lhe lisonjeassem a vaidade enaltecendo o chique das policitemias, acabou por considerar-se uma privilegiada. [...] É doença de gente graúda, Lindoca. Este mundo!... Até em questão de doença as bonitas vão para os ricos e as feias vão para os pobres! Você, a Pilão Arcado e o Grouvion, com policitemia - e lá a minha costureirinha do Catete, sabe o que lhe deu? Tísica mesentérica [...] (Lobato, 1961, p. 181 apudBiazevic; Michel-Crosato; Antunes, 2012, p. 295, grifo do autor).
Reconhecendo, desta feita, que (re)ler Monteiro Lobato poderia agregar aos estudos sobre a história da saúde pública no Brasil “novos” elementos nessa “velha” narrativa, os autores empreenderam o esforço de “ordenar uma apresentação sistemática do pensamento do autor sobre os temas relacionados à saúde” (Biazevic, Michel-Crosato e Antunes, 2012, p. 293), ponto em que demonstram, em termos práticos da pesquisa acadêmico-científica, aquilo que Sá, Palha e Villa (1998) já sugeriam décadas antes.
Sob outro ângulo, mas ainda no mesmo mérito, Araújo, Câmara e Ximenes (2012), psicólogas e pesquisadoras da Universidade Federal do Ceará (UFC), nos relatam outro contexto em que o uso da expressão artística colabora com o desenvolvimento de pesquisas e com a informação na área da saúde, ao recorrerem à arte como possibilidade de expressão do processo de desinstitucionalização estabelecido, no Brasil, a partir da Reforma Psiquiátrica. Relatam-nos as autoras que, acerca da arte e da saúde, “ambas estiveram sempre juntas no fazer humano, criar faz parte da saúde, saúde faz parte do homem, o homem é um ser criativo, cria e cuida de sua própria saúde” (2012, p. 113).
Conferindo-se à produção artística lugar tão central na composição daquilo que nos constitui sujeitos humanos, para as autoras, reconhecer a sua potência de leitura e representação da realidade é, portanto, consequência, ao passo que “a proposta da arte, como um recurso em Saúde Mental, possibilita a diversidade de expressão” (Araújo; Câmara; Ximenes, 2021, p. 113) e, em igual medida, “não se atrela à normatização da racionalidade, mas possibilita espaços de criação, afetividade e fortalecimento de laços” (2012, p. 113).
Vemos, assim, no diálogo com Araújo, Câmara e Ximenes (2012) e com Biazevic, Michel-Crosato e Antunes (2012), que a arte pode ocupar tantos e diferentes espaços quanto pensamos no setor saúde, configurando e mimetizando experiências humanas de processos de saúde e adoecimento em diferentes matizes; mas todos eles suficientemente representativos no ensejo ou no ato - propriamente dito - de reconstituir experiências a partir da expressão artística2.
Essas experiências podem figurar, deste ponto, como alguns exemplos do que Sá, Palha e Villa (1998) procuraram acusar em seu estudo: ainda que com rechaços de um certo modo de pensar acadêmico-científico, frente a certos nichos do sanitarismo brasileiro, a utilização de produções artístico-literárias pode e deve ser tomada do lugar de prestigiada fonte de informação para pensar sobre uma determinada sociedade, sua história e sua cultura, bem como sobre seus hábitos, crenças e práticas no que se refere às questões da saúde e do adoecimento.
Destaque também se faça, neste ínterim, ao constatarmos que a modernidade tem produzido uma certa ambivalência na relação entre a arte e as ciências (não apenas da saúde) - frequentemente tomadas como existentes em esferas humanas distintas e, até mesmo, antagônicas. No entanto, essa dicotomia é absolutamente superficial, pois ambos os campos podem coexistir em esferas, na verdade, complementares. A arte - com sua capacidade de evocar emoções, estimular a imaginação e desafiar percepções e concepções - e a ciência - com seu rigor metodológico e busca por uma compreensão mais objetiva e replicável dos fenômenos - podem fornecer novas perspectivas sobre fatos sociais e leituras de mundo, afetando, outrossim, ferramentas metodológicas para a operação dessas mesmas leituras. Por corolário, ao invés de isolá-las, um diálogo imiscuído pode enriquecer-nos tanto na produção científica quanto na produção artística contemporâneas - argumento este que não é, reconheçamos, inteiramente inédito, posto já ter sido ponderado em estudos como os de Lima e colaboradores (2015), Sato e Ayres (2015) e Veronese (2020) e, sobrepujantemente na saúde, em parte significativa dos escritos sobre racionalidades médicas, de autoria de Madel Therezinha Luz (Tesser; Luz, 2008).
Mais ainda, e longe de qualquer exaustão argumentativa preliminar, essa complementaridade, registre-se, já vem sendo observada, com fartura, também a partir das humanidades, particularmente nos estudos que se utilizam de premissas filosóficas derivadas da estética (Plaza, 2003; Sawada; Ferreira; Araújo-Jorge, 2017). Filósofos têm argumentado que a estética, enquanto ramo da filosofia que investiga a natureza da arte, da beleza e das imagens, pode mediar uma espécie de interseção entre a arte e as ciências. Isto se daria, exempli gratia, ao explorar questões como a percepção sensorial, a interpretação simbólica e a experiência emocional; lócus onde a análise estética revela as profundas interconexões entre modos de (re)conhecimentos humanos artísticos e científicos. Esses estudos destacam que a integração entre arte e ciência, portanto, não apenas enriquece ambas as áreas, como argumentamos acima, mas também oferece novos prismas para (re)interpretarmos desafios humanos antigos e contemporâneos, que, vistos nessa lente dupla, podem ser revistos, reimaginados e reinventados.
Isso encontra coro e maior fundamento teórico-metodológico-crítico, em uma dimensão analítico-discursiva mais geral, se observarmos as contribuições advindas do filósofo espanhol Jorge Larrosa Bondía, a partir de seu texto intitulado Notas sobre a Experiência e o Saber de Experiência, publicado em 2002. Nele, Bondía (2002) aborda a relação entre experiência e conhecimento, propondo-nos uma reflexão sobre a natureza da experiência humana e sua importância para a construção do conhecimento. Ele argumenta que a experiência não é apenas uma acumulação de vivências, mas sim um processo complexo de interação entre o sujeito e o mundo, influenciado por fatores como memória, afetividade e linguagem. O autor destaca a importância de reconhecer a singularidade de cada experiência e a necessidade de se valorizar o papel do sujeito como agente ativo na construção do saber - o que, a contragolpe, faz de quase toda experiência singular um algo que é também reflexo coletivo e social.
Ademais, Bondía (2002) discute também a relação que há entre experiência e educação, destacando a importância de uma ação pedagógica sobre o mundo que leve em consideração, invariavelmente, a riqueza e a diversidade das experiências daqueles que se colocam em relação no processo de aprendizagem. Ao fazê-lo, ele problematiza os conceitos mais tradicionais de experiência e de conhecimento, convidando-nos a repensar concepções e leituras mais tradicionais e a considerar novas possibilidades para a compreensão - e até mesmo a reconstituição - da complexidade que há na relação entre “viver algo” (a experiência) e “saber sobre algo” (o saber da experiência).
Logo, se tomarmos a expressão artística como mimetismo de experiências humanas transpostas para obras que representam o(s) saber(es) de seu(s) criador(es), nosso argumento se encontrará fortalecido, na medida em que, na arte, há uma sobrepujança de experiências como o que nos afeta, nos ocorre e nos impacta, e sobre o que produzimos como um saber - a exemplo do que ocorre nos processos que envolvem a saúde e o adoecimento e a formação para o trabalho com estes mesmos processos. Assim, a abordagem de Bondía (2002) sobre a experiência e o saber de experiência, doravante, pode ser fundamental para uma defesa da arte como expressão da experiência humana (individual-coletiva) e do seu uso como recurso no campo da formação e das pesquisas acadêmico-científicas, inclusive na saúde.
Notemos com maior minúcia: primeiramente, ao nos auxiliar no reconhecimento da arte como uma forma de expressão da experiência humana, Bondía (2002) nos permite enfatizar a importância de considerar as vivências individuais e subjetivas de pacientes e profissionais de saúde, por exemplo. Nesse sentido, a arte pode proporcionar um meio único para explorar e comunicar essas experiências, oferecendo uma linguagem simbólica que transcende as limitações da comunicação verbal, enrijecida pelo léxico (bio)médico-centrado.
Além disso, a perspectiva de Bondía (2002) destaca a importância de uma visão ampliada acerca da própria apreensão da experiência, que considera, outrossim, não apenas os aspectos cognitivos, mas também os emocionais, afetivos e sensoperceptivos do “viver a experiência”. A arte, então, seja na forma de pintura, de escultura, de texto, de música, de dança ou de outras expressões artísticas infindas, tem o poder de evocar uma gama de emoções, afetos e sensopercepções corporais, permitindo que diferentes pessoas acessem e/ou expressem aspectos mais profundos de experiências humanas (individuais-coletivas).
Portanto, a leitura de Bondía (2002) ressalta para nós a importância de valorizar a arte como uma forma legítima de conhecimento e expressão da experiência humana e do saber desta mesma experiência; e seu uso no campo das pesquisas em saúde é um ótimo exemplo de como podemos enriquecer nossa compreensão acerca das complexas experiências (individuais-coletivas) relacionadas aos processos que envolvem a saúde e o adoecimento humano, rompendo definitivamente com uma falsa dicotomia arte versus ciência.
Não obstante, ponderemos: se já temos estudos que apontam potestades nesse mérito, por que ainda encontraremos, dessarte, resistências à sua utilização em pesquisas acadêmico-científicas - sobremodo, para os fins deste estudo, na saúde coletiva? Para responder a isto, privilegiando a análise a partir de obras, sobretudo, literárias, convém dialogarmos com Alves (2018), como faremos a seguir.
Segundas Cogitações: Sobre Literatura, Temores Metodológicos e Saúde Coletiva
Paulo César Borges Alves, pesquisador brasileiro nas áreas da antropologia e da sociologia da saúde, professor e pesquisador da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em seu texto denominado “A Morte de Ivan Ilitch” e as Múltiplas Dimensões da Doença (2018), nos apresenta importantes considerações sobre a interface que há entre a literatura e a saúde coletiva, em seu exercício analítico-discursivo da obra de Liev Tolstói. Temos, por esse motivo, recorrido a esse estudo como um interessante exemplo de uso de narrativas artístico-literárias, enquanto método, na interface que envolve a literatura e a saúde coletiva, onde, nas palavras do autor:
As narrativas literárias contêm noções, descrições, interpretações de eventos pessoais e coletivos que são, de per si, uma forma valiosa de conhecimento dos fenômenos culturais. Como sugere Marías: ‘na poesia, na narração, no teatro, sobretudo na novela, a vida faz-se transparente a si mesma’. [...] o ser humano é novelista de si mesmo, pois não se pode viver sem se inventar como personagem e enredo, assim como não vive com os outros sem imaginá-los, sem projetar sobre eles ‘novelas de urgência’ elementares tornando-os inteligíveis para ele (Alves, 2018, p. 384, grifo do autor).
Vê-se, sem delongas, que o autor compreende e defende o uso de obras literárias (particularmente as narrativas) como recursos para a leitura dos fenômenos culturais e históricos de uma determinada sociedade, por conceber que tais obras, recursos artístico-literários produzidos em diferentes formas, em alguma medida, são ensejos de uma certa espécie de “registros da vida” - como já defendemos a partir de Sá, Palha e Villa (1998). No entanto, é também ele quem nos diz que esse processo nem sempre foi coeso, uniforme e consensual para o campo das pesquisas em saúde coletiva e, particularmente, em ciências sociais e humanas em saúde. Afirma-nos que há, em verdade, uma espécie de tensão (enquanto “hostilidade”) na relação entre a literatura (ou a arte) e a produção acadêmico-científica em ciências sociais - algo que já pincelamos brevemente neste ensaio. Vemos aqui um diálogo de Alves (2018) com Nunes (2015), pesquisador da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), que proclama a este respeito: “[...] não é assunto recente, mas envolve polêmicas e discordâncias” (2015, p. 402).
Por outro lado, Alves (2018) afirmará que essa tensão pode dizer de questões, em um primeiro olhar, sobre o método dessas produções - já que o(s) método(s) que fundamenta(m) produções acadêmico-científicas distingue(m)-se, em muito, de qualquer suposto ou pretenso “método” que intente fundamentar produções artístico-literárias. Já em um segundo olhar, essa tensão pode dizer também da própria forma como se concebe conhecimento a partir de ambas as formas de ler e escrever o mundo - revelando-se novamente a velha dicotomia entre a ciência enquanto discurso “oficial”, “formal” sobre as coisas, e a arte e a literatura (bem como outras formas de expressão “não científicas”) enquanto alegorias sobre a vida, mas “enviesadas” e/ou “sem fundamento”.
Para dissolver tais argumentos, o autor nos propõe, a princípio, que o objetivo de quem deseja pesquisar obras artístico-literárias como fonte de dados para pesquisas não seja o de delinear um modo de análise ou crítica literária, como se o nosso propósito fosse o de avaliar as dimensões artístico-literárias da obra em questão (o que, para certas ciências, realmente não faz o menor sentido); mas, sim, que afirmemos tais obras, do lugar de narrativas artístico-literárias, como narrativas suficientemente representativas da sociedade, da cultura e da história em que se inserem, para além de mera reprodução estética, quebrando a parede que divide essas produções discursivas das demais, porque:
Em primeiro lugar, não estamos preocupados em desenvolver uma análise ou crítica literária, em decompor ou separar elementos constitutivos de um texto para compreender melhor seus aspectos literários ou julgar princípios estéticos e padrões de gosto de uma determinada época. [...] Desnecessário é reafirmar que toda criação literária é produto de uma época e que a capacidade criativa do escritor se desenvolve em um campo de possibilidades que circunscreve a sua vida. Contudo, como procuraremos rapidamente argumentar, a literatura é muito mais do que espelho de uma sociedade (Alves, 2018, p. 383, grifo nosso).
Assim, afirmar-se-á que toda narrativa artístico-literária conserva em si algo de uma leitura sobre aquilo que representa e que não é meramente “espelhado”, ou reproduzido tacitamente; toda narrativa artístico-literária, com efeito, revela, também, sentimentos de época, dramas sociais, conflitos ético-políticos, embates morais, etc. Por isso, o seu uso como fonte de dados em pesquisas não só se justifica, mas até, em algum nível, se recomenda.
Valorizando os escritores na produção de narrativas acerca da história, e propondo a análise destas mesmas narrativas como um método de pesquisa, Alves (2018) parece dialogar com Bondía (2002), ao concluir que:
Através da sua obra, o artista nos instiga a olhar por trás dos conceitos que construímos a partir de nossa experiência direta e a recuperar a experiência mesma. Assim, é através do significado convencional das palavras que a literatura cria mundos paralelos, permitindo-nos ver de forma diferente o mundo em que vivemos, ampliando nosso senso de significados possíveis para a experiência. [...] Mas, deve-se enfatizar, é fundamental que a visão do escritor não se desvie demais da visão geralmente aceita no mundo da vida cotidiana, sob pena de perder a comunicação com os outros (Alves, 2018, p. 384, grifo nosso).
Deste ponto em diante, e ainda dialogando com Alves (2018) e Bondía (2002), não se pode prosseguir sem uma defesa fundamental: não há, doravante, o ensejo de reduzir a experiência humana transcrita na forma de expressões artístico-literárias a meras fontes de dados e/ou registros históricos para a pesquisa em saúde - ou, em outras palavras, fazer da literatura uma espécie de refém das pesquisas acadêmico-científicas, postas em vitrines ao seu bel-prazer consumista. Do contrário, a defesa (pois, sim, há uma defesa) posta em tela é de que as obras artístico-literárias são importantes para a pesquisa em saúde não apenas porque sejam “recursos” ou “dados” suficientemente válidos (o que, inclusive, o são), mas também por que elas nos abrem outras perspectivas de expressão, leitura, identificação e/ou explicação de fenômenos sociais que se dão em determinados tempos, espaços e contextos, filhas-frutas de um saber de experiência; nas quais, assim o cremos, os métodos científicos sobrepujantemente enrijecidos não necessariamente conseguirão captar a complexidade da experiência humana posta em tela.
Narrativas artístico-literárias podem, assim, constituírem-se como elementos indispensáveis para que se façam diagnósticos críticos acerca da realidade - sem serem reduzidos a meros “objetos de análise” da scientia. É na literatura e nas demais artes que podemos detectar sintomas sociais, sejam eles gerais ou específicos. É na literatura e nas demais artes que podemos compreender comportamentos individuais e coletivos e como eles moldam/moldaram ou influenciam/influenciaram movimentos de época, reverberando na sociedade, na cultura, na economia, na política, na história, no meio ambiente, etc. É na literatura e nas demais artes que podemos, inclusive, encontrar saberes silenciados de experiências dolorosas, não transcritos na letra fria das leis ou dos livros acadêmico-científicos, mas cruamente escrutinados na experiência-arte que é sintagma de seu(s) criador(es) e do mundo que o(s) circunscreve - como discutiremos brevemente em Seligmann-Silva (2008; 2010), logo mais à frente.
Não se deseja aqui, deste modo, tratar a literatura como um “simples recurso de pesquisa”, tendo em conta que isto poderia, inclusive, se configurar muito mais como um limitador e um redutor da potência dos escritos artístico-literários, do que o contrário. O argumento em tela vai muito mais ao encontro da ideia de que a literatura capta sentidos que a ciência não consegue, posta a verificação empírica e a análise eminentemente teórico-conceitual desta última, demasiadamente afastada da experiência humana (individual-coletiva) (Sá; Palha; Villa, 1998; Bondía, 2002; Alves, 2018). Logo, e uma vez mais derrubando a dicotomia arte versus ciência, a literatura pode ser parceira do processo de produção de conhecimento acadêmico-científico, ao oportunizar essa entrada voraz da experiência humana e do saber sobre tal experiência - neste enfoque, posta como narrativa artístico-literária - no cenário da pesquisa acadêmico-científica.
A bem da verdade, cabe também confessar que tais ponderações não são inteiramente novidades. Não podemos negar que a literatura - enquanto expressão do saber da experiência humana - já participou ativamente na fundação de conceitos formais, como podemos ver da obra de autores como Bakhtin, Foucault e Canguilhem - teóricos centrais nas pesquisas em saúde coletiva que, além disso, examinaram (os dois últimos, em particular), por exemplo, as relações entre o realismo na literatura e as teorias científicas e médicas do século XIX, utilizando-se, para isso, da literatura e da arquitetura (Portocarrero, 2009).3 Mesmo contemporaneamente temos visto os usos atribuídos às artes e, mais especialmente, à literatura, no processo de formação superior em saúde (Sá; Palha; Villa, 1998; Araújo; Câmara; Ximenes, 2012; Biazevic; Michel-Crosato; Antunes, 2012; Nunes, 2015). Todavia, esses exemplos, apesar de fortuitos, não são suficientes para esgotar uma certa leitura de que há, no encontro entre a arte e a saúde, enquanto campos do conhecimento, “temores metodológicos” que necessitam de transposição, especialmente no tocante a formas de leitura e produção de conhecimentos sobre a saúde que se estruturam, eminentemente, em métodos enrijecidos e pouco afeitos a uma valorização do saber da experiência humana (Bondía, 2002; Ianni, 2004; Nunes, 2015; Alves, 2018; Carvalho; Lima; Coeli, 2020; Veronese, 2020).
Isto posto, convém, por salvaguarda, reconhecermos ainda a existência de uma (vital) certa reserva ou cautela quanto ao uso da literatura nas pesquisas em Saúde Coletiva - para não dizer que não falamos dos “espinhos”. Muito embora as narrativas artístico-literárias, como temos argumentado, pareçam-nos oferecer uma perspectiva única e poderosa sobre as experiências humanas relacionadas à saúde (em seu conceito mais largo possível), é fundamental reconhecer que elas não são uma simples panaceia para as eventuais rigidezes da saúde coletiva e, portanto, têm suas limitações. Exemplifiquemos: as narrativas absolutamente “individuais” podem encontrar dificuldades em serem suficientemente representativas de uma população mais ampla, e o contexto social, econômico, político, histórico, cultural e ambiental em que elas são produzidas e/ou recebidas pode influenciar significativamente em sua interpretação e sua relevância para mimetizar questões mais gerais da população. Em outras palavras: basta recordar a construção cotidiana de narrativas neoliberais e/ou neoconservadoras contemporâneas que procuram revisar certos períodos históricos do país, negligenciando ou escamoteando violências estruturais que afetaram (e ainda afetam), historicamente, populações mais vulneradas do Brasil. Deste modo, uma análise crítica acerca dos usos e das limitações da literatura na pesquisa em saúde coletiva - e sobremaneira nas ciências sociais e humanas em saúde -, analisando detidamente quem narra e o que se narra em determinadas narrativas, é requisito peremptoriamente fundamental para garantir uma incorporação ética de tais narrativas na investigação acadêmico-científica.
Doravante, essas últimas ressalvas nos abrem espaço, de agora em diante, para tomarmos as narrativas autobiográficas como exemplo e objeto último de nossa presente análise/discussão, considerando-as formas privilegiadas de narrativas, mesmo entre as obras artístico-literárias. Passemos a elas.
Terceiras Cogitações: Sobre “Literatura de Testemunho” e Narrativas Artístico-Literárias Autobiográficas nas Pesquisas em Ciências Sociais e Humanas em Saúde
Ao descrever experiências vividas per si, produzindo o que poderíamos chamar aqui de “narrativas de si mesmo”, autoras e autores nos permitem acessar as suas experiências de um lugar que é, em mesma medida, artístico-literário, mas também visceralmente autoral, testificado, testemunhal. É o que sentiremos na leitura de obras de autoras e autores brasileiros como Carolina Maria de Jesus - escritora, compositora e poetisa negra mineira, mais conhecida por seu livro Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, publicado em 1960 - e Maura Lopes Cançado, Stella do Patrocínio e Lima Barreto - autoras e autor estes últimos, por sua vez, conhecidos por obras de diferentes tipos, mas sobretudo por seus diários que narram experiências de internação psiquiátrica em diferentes momentos da história do Brasil ao longo do século XX (Silva, 2017).
A esse gênero literário, cuja escrita se centra na experiência vivida pela autora ou pelo autor, ao invés da produção de uma história fictícia, há diferentes nomes classificatórios no âmbito das letras, da literatura e da crítica literária. Porém, chama-nos a atenção, em particular, e a título de conciliábulo, a proposição do conceito de “Literatura de Testemunho”, criado e desenvolvido pelo professor e pesquisador também da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Márcio Seligmann-Silva (2008; 2010).
Da análise do conceito de “Literatura de Testemunho”, argumenta-se que tal forma de produção literária pode ser uma importante fonte de dados históricos sobre determinado tema, quanto mais delicado e difícil seja o seu trato ante a sociedade. Por essa medida, na expressão artístico-literária, certas vezes e certas coisas poderão ser ditas e defendidas com maior penetração social do que quando feitas a partir da escrita de âmbito acadêmico-científico ou mesmo jurídico-legal, já que, na arte e na literatura, certos temas não encontraram tanta resistência para verem-se registrados. É o caso, segundo o autor, dos registros narrativos autobiográficos de alguns dos inúmeros episódios de violência e violação de direitos ocorridos no Brasil durante o período da ditadura civil-empresarial-militar brasileira, entre 1964 e 1985 (Seligmann-Silva, 2008; 2010).4
Não obstante, e ainda nessa mesma direção, diz-nos o autor que a predileção por registrar certos fatos históricos em forma de literatura, por óbvio e como temos argumentado até aqui, não deve nos afastar deles enquanto fontes de produção de memória e acesso à história de um povo, posto que permitir tal afastamento seria confirmar a tese de que não interessam à ciência certos temas que evidenciam violências e violações de direitos, presentes arraigadamente na expressão de narrativas artístico-literárias diversas (ou “testemunhos”, nas palavras do autor) ao longo da história da humanidade. Note-se:
Talvez a busca deste local do testemunho seja antes uma errância, um abrir-se para sua assistematicidade, para suas fraturas e silêncios. É na literatura e nas artes onde esta voz poderia ter melhor acolhida [...]. Mas isto não implica, tampouco, que nós não devamos nos abrir para os hieróglifos de memória que os artistas nos têm apresentado. Podemos aprender muito com eles (Seligmann-Silva, 2008, p. 78).
Acerca de tal, em estudo publicado em 2010, de nome O Local do Testemunho, Seligmann-Silva dirá que as obras artístico-literárias, ao se constituírem como testemunhos narrativos de experiências diversas, retratam contextos sociais e devem ser tomadas do lugar de “[...] vértice entre a história e a memória, entre os ‘fatos’ e as narrativas” (Seligmann-Silva, 2010, p. 06). Ao fazê-lo, reconheceremos que produções como narrativas autobiográficas (destacadamente na forma de diários, diz-nos o próprio autor), são notórios instrumentos de (re)construção de memórias, contra o intencional esquecimento de fatos históricos que denunciam períodos “traumáticos” da história social, econômica e política de um povo.
Precisamente por isso, tomando emprestado o conceito cunhado pelo autor, testemunhos, na forma de narrativas autobiográficas - em obras como a de Carolina Maria de Jesus, já supracitada, e Diário do Hospício & O Cemitério dos Vivos (1956), de Lima Barreto - conforme Seligmann-Silva (2010), podem/devem ser tomados do lugar de fontes de dados em pesquisa, inclusive em saúde, para que nos transportem à experiência de seu narrador na maior riqueza de detalhes possíveis, em flagrante aspiração de (re)visitação a determinado fato e/ou contexto histórico, uma vez que: “O diário [ou a narrativa autobiográfica] produz páginas que se embaralham com a vida de seu autor-protagonista. Nele somos tocados pelo ar que o personagem respirava” (Seligmann-Silva, 2010, p. 07).
Nesse encontro com o testemunho - ou, para não esquecermos de Bondía (2002), com uma espécie de saber de experiência testemunhal - que uma obra artístico-literária produzida enquanto narrativa autobiográfica propicia, e resgatando a defesa da mesma como suficiente representação de uma determinada sociedade - o que estamos contundentemente a defender -, veremos que a sua potência “pode ser transformada em energia mesmo muitos anos depois de passados os fatos, justamente porque na estrutura do texto se entrecruzam, em uma trama, a vida íntima com a pública, o trabalho literário com as marcas do ‘real’” (Seligmann-Silva, 2010, p. 07). Logo, qualquer “temor metodológico” acerca de tais obras/narrativas enquanto recursos de pesquisa, pelo lido até aqui, reiteramos: não pode e não deve prosperar, na medida em que seria deslegitimar tais obras/narrativas do seu lugar de registro histórico de uma determinada realidade, temporal e espacialmente localizada.
Esse tipo de análise, inclusive, torna possível evidenciar quais elementos do passado permanecem historicamente operando influências no presente, ainda que esse encontro com os elementos do passado não seja um encontro “direto”, mas sim um encontro “mediado”. Esta mediação, entretanto, produzida pelo autor-narrador com aquele que o lê, abre brechas para tal leitura histórica, o que pode produzir consideráveis ponderações para (re)pensar o presente.
Assim, para ilustrarmos derradeiramente ao campo da saúde, no exemplo do texto de Lima Barreto (2017) mencionado acima - que remonta à sua experiência de hospitalização em um manicômio, entre os anos de 1919 e 1920 - veremos o autor em seu diário produzir críticas ao saber-fazer psiquiátrico, desdenhando do quanto o mesmo é efetivo (ou não) no processo de cuidado à loucura. Ele questiona, em seu testemunho, mais fortemente a psiquiatria, acusando haver ineficácia em seus métodos - e afirma que o hospício e o saber-fazer psiquiátrico, portanto, não curam ninguém. Assim, tomando a loucura por objeto, ele afirma que: “Debruçar sobre o mistério dela e decifrá-lo parece estar acima das forças humanas. Conheço loucos, médicos de loucos, há perto de trinta anos, e fio muito que a honestidade de cada um deles não lhes permitirá dizer que tenha curado um só” (Lima Barreto, p. 74).
Nessa ironia, ele acusa haver no ambiente do hospital psiquiátrico práticas e concepções que remontam à Idade Média, fazendo uma comparação deste espaço com um “cemitério”:
Amaciado um pouco, tirando dele a brutalidade do acorrentamento, das surras, a superstição de rezas, exorcismos, bruxarias, etc., o nosso sistema de tratamento da loucura ainda é o da Idade Média: o sequestro. Não há dinheiro que evite a Morte, quando ela tenha de vir; e não há dinheiro nem poder que arrebate um homem da loucura. Aqui, no hospício, com as suas divisões de classes, de vestuário, etc., eu só vejo um cemitério: uns estão de carneiro e outros de cova rasa. Mas, assim e assado, a loucura zomba de todas as vaidades e mergulha todos no insondável mar de seus caprichos incompreensíveis (Lima Barreto, 2017, p. 74).
Esse breve trecho da obra barretiana nos evidencia, para o campo da saúde mental, como o testemunho de Lima Barreto, há mais de cem anos atrás, revela a sua atualidade quando pensamos que ainda (infelizmente) convivemos com práticas psiquiátricas manicomializantes, classistas e racistas, que urgem por serem substituídas por outros modos de cuidado, em liberdade. Constitui-se, de tal modo, em exemplo inconteste do quanto, no campo das pesquisas em saúde, é possível que a retomada de testemunhos como o que está aqui ligeiramente posto nos auxilie a evitar a (re)assunção de práticas bárbaras e ultrapassadas, disfarçadas de práticas autointituladas “modernas”. Notemos:
Mas é claro que não existe um acesso direto a estas ruínas. Elas se misturam com as de nossos presentes. À escrita performática do diário responde a nossa própria leitura performática, na qual nos lemos no espelho do diário. Refletimo-nos, assim, nos cacos e estilhaços dos diários que lemos. Trata-se de uma leitura, portanto, particularmente autorreflexiva e que será tanto mais demandada quanto mais nossa autoimagem estiver em crise (Seligmann-Silva, 2010, p. 8, grifo do autor).
Ilustração feita, em que pese a discussão aqui sustentada e todos os seus vieses, a partir das cogitações teórico-metodológico-críticas debatidas, cremos evidenciada, então, a possibilidade e a potência do uso de narrativas autobiográficas, expressas na forma de obras artístico-literárias, nas pesquisas acadêmico-científicas, como exemplificado na perspectiva da “Literatura de Testemunho” (Seligmann-Silva, 2008; 2010); e, por corolário, nas pesquisas em saúde coletiva - e, mais destacadamente, no âmbito das ciências sociais e humanas em saúde. Se o nosso compromisso ilativo, enquanto pesquisadoras e pesquisadores da saúde, é o de pensar em modos mais saudáveis de viver, resgatar narrativas de nossa história, expressas a partir da arte e da literatura, em testemunhos (ou saberes de experiências testemunhais) produzidos a partir de outros moldes, pode fornecer-nos bons “objetos de análise”, dialeticamente históricos e contemporâneos, para nossas pesquisas; e, por que não dizer, pode também configurar-se como um bom modo de não repetirmos erros de outrora.
Arremate
Neste estudo, procuramos, ensaisticamente, apresentar algumas cogitações quanto às possibilidades do uso de recursos artístico-literários em pesquisas no campo da saúde coletiva, e mais particularmente nas ciências sociais e humanas em saúde. Da leitura das contribuições centrais de autores como Bondía (2002), Alves (2018) e Seligmann-Silva (2008; 2010), vimos que as obras artístico-literárias, destacando-se as narrativas autobiográficas, podem ser ricas fontes de dados (e mais além) para a reconstituição de experiências humanas e saberes de experiências diversos, sobretudo alguns dos mais dolorosos e difíceis para o olho humano, nu, capturar.
Então, encerramos estas cogitações com o intuito de incentivar, estimular o uso de narrativas artístico-literárias, em especial, nas pesquisas em ciências sociais e humanas em saúde, e dialogar com pesquisadoras e pesquisadores outros que, sozinhos, possam deparar-se com dúvidas acerca de tais possibilidades e potências. Ora, cremos que esteja aqui comprovado que “[...] o testemunho, com todos os seus conhecidos limites, buracos e impossibilidades, pode ser um caminho para [encarar] esta volta do que foi e ainda é recalcado pelas nossas elites” (Seligmann-Silva, 2010, p. 18).
Não queremos, também é fato, afirmar categoricamente que tais usos podem se dar despidos de crítica - ou mesmo que tais narrativas artístico-literárias devam ser utilizadas sem nenhuma salvaguarda. Como em toda pesquisa, e cremos bem frisado neste ensaio, é necessário o olhar ético da parte de quem trabalha com os dados postos à mesa - e, neste caso em particular, cabe uma especial cautela para não assumir narrativas individuais personalíssimas como estratos absolutamente generalizáveis da realidade social e coletiva. Não obstante, não se deve confundir cautela com reticências (ou, como aqui nominamos, com “temores metodológicos”), que possam acabar resultando em uma desistência ou descrença das potências de uso que procuramos, ao longo deste estudo, defender.
Esse é o esforço de quem, sobre bases nem sempre convencionais, quer fazer da saúde coletiva cenário de reinvenção de saberes e fazeres; e, nas artes, sobremaneira na literatura, podemos encontrar lastro para tal aventura e atrevimento - que há de encontrar, por sua vez, solo fértil para crescer e fazer-se cada vez mais presente nas pesquisas do âmbito das ciências sociais e humanas em saúde. Que assim o seja.
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1
Este artigo advém de cogitações pertinentes à pesquisa-mãe intitulada Saúde Mental e Relações Étnico-Raciais no Brasil: Narrativas de Lima Barreto, Leituras Historiográficas e Elucubrações Ulteriores (Rocha, 2022).
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2
É importante destacar que, muito embora reconheçamos que o setor “saúde”, têmporo-espacialmente, possa não ter interagido sempre harmoniosamente com a arte, devemos levar em conta a diversidade existente dentro deste mesmo setor. Para algumas áreas específicas do que chamamos de “saúde”, sobremaneira nas Ciências Sociais e Humanas em Saúde e nas Políticas Públicas de Saúde, a arte tem sido amplamente utilizada, e há bastante tempo - como se vê, destacadamente nas intervenções em Saúde Mental. Notemos: em Araújo, Câmara e Ximenes (2012), por exemplo, vê-se que as relações entre a arte, a Saúde Mental e a Atenção Psicossocial já vêm se configurando há algumas décadas, sobretudo no bojo da Reforma Psiquiátrica e da Luta Antimanicomial. Mais além, em estudos outros, podemos constatar ainda a arte emergindo no horizonte do trabalho com povos e comunidades tradicionais (Lima et al., 2015); com trabalhadoras e trabalhadores das mais diferentes áreas, dentro e fora da saúde (Sato; Ayres, 2015); e como ferramenta de estímulo à transformação da realidade social em contextos de massificada vulnerabilidade social (Lima et al., 2015; Sato; Ayres, 2015), etc. Contudo, isso não é suficiente para descaracterizar o fato de que nem sempre a arte foi tida como um recurso suficientemente válido no trabalho e nas pesquisas da área da saúde (Alves, 2018) - ponto central de nossa análise/discussão, e que, por isto mesmo, seguiremos a defender e desenvolver.
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3
A relevância dos estudos de Michel Foucault e Georges Canguilhem, no que toca ao nó crítico desta nossa elucubração, reside na maneira como ambos se utilizaram da literatura como uma ferramenta essencial para a elaboração de conhecimento de base crítica. Foucault, em suas investigações sobre práticas discursivas e sistemas de poder, recorreu a textos literários para ilustrar e criticar as construções sociais e os mecanismos de controle, destacando-se seus escritos sobre as prisões (Foucault, 1975). Canguilhem, por sua vez, usou a literatura para investigar as concepções de saúde e doença dentro de contextos históricos e culturais específicos (Canguilhem, 1966). A despeito do fato de que não nos é possível determo-nos, aqui, alongadamente nas produções de ambos os autores citados, vale o registro contumaz de que a abordagem de ambos evidencia como a literatura pode proporcionar uma compreensão mais profunda sobre as práticas e as ideias que moldam as ciências e a própria humanidade, revelando uma nada discreta conexão entre narrativas artístico-literárias e sistemas complexos de conhecimento. Ad fontes, e como temos defendido, a literatura nos direciona às fontes primárias do pensamento e da reflexão crítica - invariavelmente mergulhada nos contextos sociais, econômicos, políticos, históricos, culturais e ambientais em que seu autor-escritor-narrador se encontra experienciando a vida.
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4
As narrativas artístico-literárias do tipo testemunhal têm sido reconhecidas como uma poderosa ferramenta na promoção e garantia dos direitos humanos em diversos contextos (Seligmann-Silva, 2008; 2010; Silva, 2017). Essas obras, muitas vezes baseadas em experiências (ditas) “individuais” de injustiça, opressão e resistência, desempenham um papel significativo na mobilização social ao vociferar a experiência de sujeitos tornados marginalizados, amplificando as suas histórias para diferentes públicos, em diferentes tempos e em diferentes espaços - revelando que, de puramente “individuais”, tais histórias nada têm. Ao compartilhar experiências vividas na forma de testemunhos, essas narrativas não apenas documentam violações de direitos, mas também despertam solidariedade, revolta, empatia e comunhão, sensibilizando o público para questões sociais urgentes de outrora e de hoje. Através da narrativa artístico-literária testemunhal, portanto e em particular, indivíduos e comunidades podem promover conscientização, inspirar ações coletivas e pressionar diferentes setores sociais por mudanças sistêmicas.
