Open-access Construção do programa QualiCuidar: cuidado livre de gordofobia para a atenção primária à saúde

Construction of the QualiCuidar program: weight stigma-free care for primary health care

Resumo

Profissionais de saúde frequentemente reproduzem atitudes gordofóbicas que criam barreiras no cuidado em saúde às pessoas com obesidade, especialmente na Atenção Primária em Saúde (APS). Assim, este estudo teve como objetivo construir e aplicar, em caráter piloto, o programa QualiCuidar, voltado para a promoção de práticas de cuidado livres do estigma do peso na APS. A pesquisa seguiu abordagem quanti-qualitativa, contemplando a elaboração do programa, sua aplicação em duas unidades de saúde e sua avaliação por meio da aplicação das escalas Fat Phobia Scale e Short Version e Beliefs About Obese Persons Scale antes e após a participação; e também por meio de grupos focais ao final do Programa. Concluíram o programa 13 profissionais, majoritariamente Agentes Comunitários de Saúde (ACS) (84,6%). Embora não tenham sido observadas diferenças significativas nos escores das escalas aplicadas, os participantes relataram mudanças na oferta do cuidado às pessoas com obesidade, destacando maior empatia, escuta ativa e acolhimento. Também emergiram reflexões críticas sobre a necessidade de ampliar a participação de outros profissionais e de incorporar a temática na formação permanente em saúde. Conclui-se que o QualiCuidar demonstrou potencial para sensibilizar profissionais da APS, reforçando a importância de capacitações contínuas e multiprofissionais no enfrentamento da gordofobia.

Palavras-chave:
Profissionais de Saúde; Atenção Primária à; Saúde; Obesidade; Estigma Social; Capacitação Profissional.

Abstract

Health professionals often reproduce fatphobic attitudes that create barriers to healthcare for people with obesity, especially in Primary Health Care (PHC). Thus, this study aimed to develop and pilot the QualiCuidar program, designed to promote weight stigma-free care practices in PHC. The research followed a mixed quantitative-qualitative approach, encompassing the development of the program, its implementation in two health units, and its evaluation through the application of the Fat Phobia Scale - Short Version and the Beliefs About Obese Persons Scale before and after participation, as well as through focus groups at the end of the program. Thirteen professionals completed the program, with the majority being community health workers (84.6%). Although no significant differences were observed in the scores of the applied scales, participants reported changes in the care provided to people with obesity, highlighting greater empathy, active listening, and welcoming practices. Critical reflections also emerged regarding the need to broaden participation among other professionals and to incorporate the topic into ongoing health education. It is concluded that QualiCuidar demonstrated potential to raise awareness among PHC professionals, reinforcing the importance of continuous and multiprofessional training in tackling fatphobia.

Keywords:
Health Professionals; Primary Health Care; Obesity; Social Stigma; Professional Training.

Introdução

O estigma do peso pode ser definido como a discriminação moral que as pessoas com sobrepeso e obesidade vivenciam por possuírem um corpo ‘desviante’ da norma vigente (Brewis, 2014; Rubino et al., 2020). A desvalorização social de indivíduos devido ao seu excesso de peso gera atitudes negativas, discriminação, estereótipos e preconceitos (Rubino et al., 2020). Nesse contexto, vale marcar que o estigma do peso, per si, é responsável por gerar inúmeros desdobramentos negativos para a saúde física, mental e psicossocial desse sujeito, culminando em intenso sofrimento físico e psíquico (Puhl; Himmelstein; Pearl, 2020), estando associado a maior tendência ao comportamento sedentário; dificuldades no manejo do peso; aumento na desregulação metabólica; manutenção de relacionamentos de baixa qualidade; transtornos alimentares; isolamento social; baixa autoestima; abuso de substâncias; níveis mais elevados de depressão e ansiedade e maior taxa de suicídio (Pearl; Puhl, 2016; Puhl et al., 2017; Siqueira et al., 2021).

A patologização do corpo gordo endossa a gordofobia e a converte em um tipo de preconceito socialmente aceito e legitimado como uma preocupação genuína com a saúde, amparado pelo discurso biomédico que o sustenta (Poulain, 2013). Sob este prisma, destaca-se que o preconceito e a discriminação contra as pessoas com corpos maiores se fazem presentes, inclusive, nos serviços de saúde; e os profissionais de saúde são atores importantes nesse processo. Estes profissionais são, reconhecidamente, importantes agentes estigmatizados e uma fonte recorrente de preconceitos e estereótipos relacionados ao peso corporal (Phelan et al., 2015).

Tal postura, julgadora e discriminatória, para além de comprometer a prática profissional respeitosa, acolhedora e digna, promove o afastamento das pessoas gordas dos serviços de saúde e de ações de autocuidado e perpetua os prejuízos à saúde física e mental relacionados ao estigma do peso (Phelan et al., 2015; Rodrigues; Miranda; Cabrini, 2023). Portanto, os profissionais que deveriam ofertar cuidado e apoio se convertem em uma importante fonte de violência e contribuem sobremaneira para a piora do sofrimento inerente ao estigma do peso (Cordeiro de Oliveira et al., 2024).

A falta de formação e/ou capacitação adequadas favorece a adoção de práticas excessivamente centradas no peso como único marcador de saúde e perpetuadoras da gordofobia. Nessa direção, para enfrentar a gordofobia e oferecer um cuidado mais inclusivo e adequado às pessoas com obesidade, é essencial a construção de iniciativas educacionais e de capacitação especialmente voltadas para os profissionais de saúde. Estas iniciativas devem ser estruturadas visando a desconstrução dos preconceitos arraigados acerca da obesidade e a promoção de práticas de cuidado ancoradas no combate ao estigma do peso (Rubino et al., 2020). A produção de novos caminhos e formas de abordagem que coloquem o cuidado à pessoa com obesidade - e não seu peso corporal - no centro das ações e práticas em saúde é fundamental no processo de recuperação da dignidade e promoção de justiça social para este público (Tomiyama et al., 2018; Valente Teixeira; Luis Pais-Ribeiro; Da Costa Maia, 2012).

Todavia, programas de educação permanente direcionados aos profissionais de saúde que sejam especificamente voltados para a promoção de práticas de cuidado livres do estigma do peso ainda são escassos no cenário nacional (Cordeiro de Oliveira et al., 2024). À vista disso, considerando a relevância da temática, os prejuízos à saúde inerentes ao estigma do peso, a postura gordofóbica dos profissionais de saúde e a escassez de iniciativas educacionais voltadas ao seu combate, o objetivo do presente estudo foi construir e aplicar, por meio de um estudo piloto, um programa de educação permanente para promoção do cuidado livre do estigma do peso entre profissionais da Atenção Primária em Saúde (APS) no intuito de qualificar o cuidado às pessoas com obesidade.

Métodos

Trata-se de um trabalho com abordagem quanti-qualitativa, de delineamento transversal, cujas etapas incluíram: (1) o planejamento e a construção de um programa de qualificação; (2) a execução de uma etapa piloto; e (3) a avaliação dos resultados da ação. Cada etapa será apresentada e descrita separadamente.

1. O processo de construção do Programa QualiCuidar

O planejamento e a aplicação do programa QualiCuidar (Qualificação do cuidado às pessoas com obesidade na atenção primária à saúde), que trata-se de um projeto de extensão vinculado ao curso de Nutrição de uma universidade pública do interior de Minas Gerais, abarcou cinco etapas principais: (1) delimitação do problema e dos desfechos esperados; (2) levantamento de percepções e necessidades dos profissionais-alvo da capacitação; (3) determinação do conteúdo programático; (4) construção da estrutura detalhada do programa; e (5) realização do estudo piloto (Figura 1).

Figura 1
Principais etapas do planejamento e da aplicação do programa QualiCuidar.

Inicialmente, foi utilizada a literatura científica para a construção da etapa 1; e a realização de grupos focais com os profissionais de saúde atuantes na atenção primária para o desenvolvimento da etapa 2.

A busca na literatura teve por objetivo a ampliação e o aprofundamento da compreensão das repercussões negativas do estigma do peso na vida e na saúde das pessoas com obesidade; do papel do profissional de saúde como agente estigmatizador; dos melhores caminhos para estruturação de intervenções que visam a redução do estigma do peso junto aos profissionais de saúde, e a melhoria do cuidado em saúde prestado às pessoas com obesidade. Esta busca foi realizada a partir de artigos de revisão publicados nos últimos 5 anos, na base de dados PubMed, cuja ênfase estivesse nos temas: ‘estigma do peso’; ‘prejuízos do estigma do peso’; ‘estigma do peso e profissionais de saúde’; e ‘intervenções para redução do estigma do peso’ (Bannuru, 2025; Lawrence et al., 2021; Pearl; Sheynblyum, 2025; Rubino et al., 2020; Siqueira et al., 2021; Talumaa et al., 2022; Westbury et al., 2023).

O aprofundamento na temática permitiu que fosse elencado o eixo central da capacitação - ‘cuidado em saúde na atenção primária para pessoas com obesidade: acolher, respeitar e não estigmatizar’que atravessou toda a sua construção e norteou o desfecho principal esperado, que foi: ‘redução da gordofobia entre profissionais de saúde da atenção primária do Sistema Único de Saúde (SUS)’. A partir desta delimitação inicial, foram especificados 4 temas estruturantes da capacitação: (1) obesidade: complexidades e interseccionalidades; (2) estigma do peso; (3) estigma do peso e o profissional de saúde; e (4) produzindo práticas de cuidado livres de gordofobia.

Em seguida, para possibilitar o alinhamento entre o desfecho principal esperado e as necessidades e percepções dos participantes da capacitação, foram realizados grupos focais com os profissionais de saúde envolvidos no estudo piloto (etapa 2). Tais grupos foram importantes para que a equipe executora conhecesse com mais profundidade os entendimentos e olhares daqueles profissionais sobre obesidade, estigma do peso, gordofobia e o processo de cuidado em saúde às pessoas com obesidade; auxiliando tanto na construção do conteúdo programático quanto no momento da avaliação do programa.

Após a realização das etapas 1 e 2, a equipe executora se reuniu para dialogar sobre os temas e subtemas que emergiram a partir dos grupos focais, a fim de refiná-los e organizá-los de forma conectada e didática. Ao final, foi consolidado o conteúdo programático da capacitação (etapa 3), composto pelos 4 temas iniciais com 15 subtemas (Figura 2).

Figura 2
Conteúdo programático final do programa QualiCuidar.

No que tange à operacionalização da capacitação, foi feita uma conversa individual entre a coordenação da equipe executora e a gestão das 2 unidades de saúde que fizeram parte do estudo piloto. O principal objetivo deste alinhamento foi favorecer a participação dos profissionais de saúde das unidades em questão. Nesse sentido, pontos importantes pactuados com a gestão foram: (1) encontros realizados na própria unidade, em dias, horários e periodicidade condizentes com a rotina de trabalho das equipes; e (2) certificação para os participantes que completarem a capacitação, com participação mínima de 75%. Ao final deste processo, teve-se como culminância a estrutura detalhada do programa (etapa 4), ilustrada na Figura 2.

2. Perspectivas didáticas e equipe executora

O programa foi concebido, desde o início, para acontecer nas próprias unidades de saúde e de forma presencial, uma vez que este formato se alinha com a concepção didático-pedagógica do programa, ancorado na perspectiva dialógica, ativa e crítico-reflexiva. Nessa perspectiva, entendemos que as competências desenvolvidas durante a capacitação irão possibilitar a produção de novos olhares, saberes e formas de cuidado para a pessoa com obesidade no contexto da APS, capazes de colocar o cuidado à pessoa no centro das ações e das práticas de saúde.

Para caminhar nesta direção, a equipe executora dialogou extensamente sobre os aspectos relacionados à forma de desenvolvimento dos temas e das atividades teórico-práticas a serem utilizadas em cada encontro, para que fossem dinâmicos, interessantes e com coerência e fluidez entre si. O membro da equipe responsável por cada encontro foi pensado considerando as afinidades e expertises, para favorecer o desenvolvimento do tema em questão. Houve, ainda, cuidados em relação à utilização da linguagem, para que fosse acessível às diversas formações (profissionais de nível médio, técnico e superior), uma vez que o programa seria aberto para todos os profissionais atuantes na unidade de saúde; além do cuidado em não utilizar expressões que são consideradas estigmatizantes ou patologizantes.

A equipe encarregada de construir e executar o projeto foi composta por três nutricionistas e professoras doutoras do curso de graduação em nutrição de uma universidade pública do interior de Minas Gerais; um psicólogo e professor doutor dos cursos da área da saúde da mesma instituição; e uma nutricionista do município e doutoranda pela instituição de origem dos demais componentes da equipe. Todos os membros, em níveis distintos, possuem expertise e experiência prática com os temas abordados no programa.

3. Estudo piloto

A etapa piloto do estudo foi desenvolvida em 2 unidades de saúde municipais, escolhidas de forma intencional, por serem locais de atuação da nutricionista que faz parte da equipe executora. Todos os profissionais de saúde atuantes nas unidades de saúde foram convidados. Para as análises, foram excluídos os profissionais que ultrapassaram o limite de 25% de faltas nos encontros do programa.

O método de análise foi constituído por um componente quantitativo e um componente qualitativo. Para o componente quantitativo, foram aplicados dois questionários, antes (T0) e após o final do curso (T1), a saber: Fat Phobia Scale-Short Version, que tem por objetivo avaliar o medo patológico da gordura, e a Beliefs About Obese Persons Scale (BAOP), que avalia as crenças explícitas sobre as causas da obesidade. Ambas as escalas foram utilizadas em suas versões traduzidas e adaptadas culturalmente para o Brasil (De Souza et al., 2024). Os dados de caracterização sociodemográfica e profissional também foram coletados no T0. Ademais, para avaliar o grau de satisfação com o programa, foi aplicada, em T1, a pergunta: ‘Qual é o seu grau de satisfação com o programa de capacitação oferecido?’, com cinco opções de resposta que variavam de muito satisfeito a muito insatisfeito. Os questionários foram aplicados pela plataforma Google Forms, após leitura e assinatura de ciência do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Para os dados quantitativos, as análises foram realizadas no software Statistical Package for Social Sciences (SPSS) versão 25.0. A normalidade das variáveis foi verificada por meio do teste de Kolmogorov-Smirnov, que indicou distribuição normal. Foi utilizado o teste T para amostras pareadas para comparação entre os tempos T0 vs. T1 (p<0,05).

Para o componente qualitativo, foi conduzido um grupo focal ao final do programa, com o objetivo de avaliar as percepções e desdobramentos nas práticas de cuidado às pessoas com obesidade pelos profissionais de saúde, a partir da participação no curso. A análise qualitativa foi realizada por meio da análise de conteúdo temática, seguindo as etapas descritas por (Braun; Clarke, 2006). Após a transcrição integral das falas, a primeira autora codificou os dados e desenvolveu os códigos iniciais. Posteriormente, a primeira e a segunda autoras se reuniram para discutir a codificação inicial e o levantamento dos temas. Em seguida, os temas foram revisados e sua definição foi finalizada pela primeira autora. Análises adicionais foram realizadas para refinar as especificidades e definir nomes para os temas e subtemas. Finalmente, a interpretação dos dados foi realizada com a participação de todos os autores. Os grupos foram guiados pela primeira autora do artigo, que possui grande experiência com esta técnica.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética da instituição sede da pesquisa (Parecer CEP: 7.121.842, CAAE: 67159523.0.0000.5154), e todos os participantes assinaram o TCLE.

Resultados e Discussão

Etapa quantitativa

A princípio, 31 profissionais de saúde iniciaram o curso. Todavia, compareceram ao mínimo de 75% dos encontros e compuseram a amostra final 13 participantes, representando uma perda de 58,1%. A maior parte dos profissionais era de ACS (84,6%), do gênero feminino (69,2%) e cor de pele autodeclarada como parda (53,8%). No que diz respeito à satisfação com o programa, 100% dos participantes ficaram satisfeitos ou muito satisfeitos com o mesmo (Tabela 1).

Tabela 1
Dados de caracterização dos participantes do estudo piloto da capacitação QualiCuidar, 2025.

Em relação à Fat Phobia Scale-Short Version e BAOP, não foram observadas diferenças significativas entre T0 e T1 (Tabela 2).

Tabela 2
Avaliação das escalas Fat Phobia Scale-short version e BAOP antes e após a participação no programa ‘QualiCuidar’.

Mudanças na percepção sobre pessoas gordas e nas crenças sobre a etiologia da obesidade podem ser particularmente resistentes, uma vez que envolvem dimensões morais e afetivas, além de cognitivas. Nessa direção, a ausência de redução nos escores da Fat Phobia Scale e da BAOP após a participação na capacitação, embora não seja um resultado esperado, converge com tal premissa. Moore et al. (2022), em revisão sistemática com meta-análise sobre intervenções para a redução do viés de peso em profissionais de saúde, observaram que as mudanças em crenças e estereótipos equivocados sobre peso e obesidade, após intervenções, são modestas e difíceis de serem sustentadas, especialmente se intervenções forem pontuais e sem reforço longitudinal.

Tais achados suscitam uma reflexão importante sobre a complexidade de se modificar crenças e atitudes gordofóbicas, mesmo entre profissionais de saúde. O estigma relacionado ao peso apresenta forte enraizamento sociocultural e é sustentado por narrativas do próprio campo da saúde, que associam o excesso de peso a fracasso individual, preguiça e falta de controle e disciplina (Puhl; Heuer, 2009; Tomiyama et al., 2018). Nesse sentido, percebe-se que intervenções educativas de curto prazo tendem a mostrar baixa efetividade na modificação destes vieses, sobretudo quando ocorrem de forma pontual.

Etapa qualitativa

A fase inicial de codificação resultou em 38 códigos preliminares. Após a reavaliação do material, alguns códigos foram consolidados, resultando em um total de dez códigos finais, organizados em três temas temáticos, que foram: (1) Construindo novos fazeres e ampliando olhares no cuidado às pessoas com obesidade; (2) A importância do programa de capacitação; e (3) Os desafios que permanecem.

Tema 1. Construindo novos fazeres e ampliando olhares no cuidado às pessoas com obesidade

Esta categoria inclui o desenvolvimento reflexivo do grupo em relação às concepções do cuidado em saúde prestado às pessoas com obesidade, indicando uma disposição em mudar a dinâmica de abordagem a estas pessoas, a partir dos aprendizados construídos na capacitação:

“(...) a minha escuta será melhor, até porque acaba que a gente vê a pessoa com questão de sobrepeso e a gente foca realmente só na questão da saúde dela, mas eu acho que é a escuta da gente(...)”

“(...) porque é muito diferente você ouvir, estou ouvindo, mas a gente para por ali, mas quando você escuta, é aquela escuta qualificada, humanizada, dali daquela fala e tenta propor uma resolução, é muito importante”.

“Eu acho que a melhor parte do grupo foi melhorar nosso acolhimento e a nossa escuta”.

“(...) depois das nossas reuniões, dos nossos encontros, começo a perceber o quão importante é a abordagem de todo profissional, o acolhimento.”

“(...) se colocar no lugar do próximo, porque, às vezes, muitas vezes, a gente não tem nem tempo de se colocar no lugar do próximo e isso foi muito interessante.”

Os trechos acima permitem observar como as participantes reagiram ao processo proposto, problematizando a forma de acolhimento que geralmente realizavam junto às pessoas com obesidade. A proposta problematizou a diferença entre “ouvir” e “escutar”, assumindo que a segunda implica uma posição empática e de não julgamento. Os relatos acima apontam que muitos participantes olharam criticamente para a forma como atuavam frente à obesidade. Assim, dentre as reconfigurações em relação ao cuidado, destacam-se a escuta, a empatia e o acolhimento como elementos centrais nas falas dos profissionais. Esse novo paradigma converge para os princípios do cuidado centrado no paciente, que deve respeitar as necessidades e valores individuais do paciente, reconhecendo suas experiências e histórias; e envolvendo-o ativamente no processo de cuidado (Johnsson et al., 2018). Brown et al. (2025), a partir de seu estudo, concluíram que pessoas com obesidade preferem uma consulta de atenção primária caracterizada por tratamento respeitoso e escuta atenta, reforçando a importância da incorporação desses elementos no cotidiano profissional. Ademais, reforçam a importância da educação dos profissionais de saúde em relação à gordofobia para a criação de um ambiente inclusivo para todos os pacientes.

Segundo Paim, Kovaleski e Selau (2024), o modelo biomédico, que ainda segue hegemônico no campo da saúde, implica em uma relação hierárquica na qual o profissional de saúde é portador do domínio técnico e detém todo o saber sobre a saúde do paciente, postura que muitas vezes justifica a distância e a falta de escuta dos profissionais. Nesse ínterim, a vivência da obesidade é reduzida a um acontecimento fisiológico decorrente de uma falta de responsabilidade do paciente. Portanto, uma escuta qualificada se abre, como apontam as falas acima, às diversas dimensões vivenciais que envolvem o processo saúde-doença e a obesidade, sendo necessária para o amplo cuidado em saúde.

Tema 2. A importância do programa de capacitação

Nesta categoria têm-se abarcadas as reflexões sobre a capacitação e sua relevância para ampliar a qualificação profissional, a fim de melhorar a abordagem junto às pessoas com obesidade:

“Eu achei interessante, porque nós tivemos momento de, assim, de se colocar no lugar do próximo, porque, às vezes, muitas vezes, a gente não tem nem tempo de se colocar no lugar do próximo e isso foi muito interessante.”

“(...) às vezes, a gente não para pra ver e, agora, a gente ter essas reuniões, a gente tem mais esclarecimento, às vezes, até pra saber informar mais, assim, o paciente, uma coisa mais diferente da realidade da gente.”

“(...) no dia a dia, de qualquer maneira a gente vai resgatando um pouquinho de tudo o que foi falado e a questão de estereótipos, questão de como olhar a pessoa de maneira mais humanizada, acolhedora, então, assim, ele foi ótimo, foi excelente.”

“(...) depois das nossas reuniões, dos nossos encontros, começo a perceber o quão importante é a abordagem de todo profissional, o acolhimento (...)”

Observa-se que a abordagem com acolhimento e humanização foi bastante referida pelas profissionais. Sobre as reflexões geradas pelo programa de capacitação, evidencia-se o movimento de adotar um olhar mais amplo quando em atendimento, a prática da empatia e a oferta de uma escuta mais ativa e afetiva. Esse entendimento estabelece uma aproximação com com estudo semelhante realizado por Cordeiro de Oliveira et al. (2024), que também avaliou o impacto de um curso educativo, e demonstrou a ampliação da compreensão sobre a importância do cuidado em saúde às pessoas com obesidade, bem como a reflexão e a autocrítica dos profissionais de saúde.

No Brasil, a educação permanente é estabelecida como estratégia prioritária para a formação de trabalhadoras e trabalhadores do SUS, no âmbito da Política Nacional de Formação Permanente em Saúde (PNEPS). A Política passou por revisão em 2018, com o objetivo de avaliar a sua implementação e os principais desafios enfrentados, envolvendo desde os processos de elaboração até a avaliação dos programas. Atualmente, não há nenhuma iniciativa de política pública com o tema de estigma relacionado ao peso corporal que visa a formação de profissionais da área da saúde (Brasil, 2018), o que evidencia a importância do presente programa. Outro aspecto levantado nesta categoria foi a importância de se ampliar a participação no Programa pelos profissionais atuantes nas unidades:

“(...) como eu falei acho que a maioria dos profissionais pudessem participar realmente disso aqui pra que eles aprendessem também da mesma maneira que a gente aprende.”

“(...) eu gostaria só essa questão mesmo, que os outros profissionais tivessem essa oportunidade.”

“(...) esse tipo de reunião tinha que ser pra vários profissionais (...) acho que, muitas das vezes, como eles não estão aqui, faz parte do nosso trabalho orientar, “ó, paciente tal vai vir aqui, tenta tratar de uma forma diferente”, porque ele vai evadir, depois, ele não volta mais, a gente multiplicar isso, não só fora da unidade, mas aqui dentro (...)”

Estas narrativas externalizam a visão das participantes acerca da importância e relevância de se ampliar a qualificação quanto à participação dos demais profissionais atuantes nas unidades, para que a abordagem junto às pessoas com obesidade melhore de uma maneira mais efetiva. Cordeiro de Oliveira et al. (2024) também observaram que os profissionais consideraram que o curso ofertado agregou a suas formações, que expressaram o desejo de que mais profissionais pudessem ter acesso aos materiais. Nessa reflexão, vale marcar que foram evidenciados desafios relacionados à participação e retenção dos profissionais nos encontros do Programa, especialmente relacionados à sobrecarga e às muitas demandas de trabalho. O maior apoio da gestão, a partir de maiores estímulos à participação e também por meio da incorporação das capacitações no Programa de Educação Continuada (PEC) das unidades, são alternativas viáveis para contornar tais desafios.

Nessa direção, fica clara a importância da incorporação da compreensão ampliada sobre obesidade e gordofobia na formação continuada dos profissionais de saúde, com vistas a mudanças na prática profissional (Duarte; Queiroz, 2024) de forma a contribuir para uma abordagem de saúde mais abrangente, ética e respeitosa para as pessoas com obesidade.

Tema 3. Os desafios que permanecem

Esta categoria revela que os principais desafios que se mantêm estão relacionados aos próprios profissionais de saúde, e também a pouca valorização do papel dos ACS.

“(...) independente da forma que a gente trata ele em casa, a abordagem em casa, na hora que chegar aqui e o profissional tratar ele diferente, ele não vai voltar mais.”

“Muitas vezes, eu falo pro paciente, não depende só de mim, depende do médico, depende da enfermeira, então, se eu trato de uma forma humanizada, chega aqui, ele é tratado de uma maneira diferente, ele vai travar (...)”.

“(...) acaba que esse bloqueio, essas questões da gente não conseguir ser multiplicador, porque ninguém respeita, digamos assim, a nossa fala, isso daí complica demais o nosso serviço porque a gente poderia ter feito aqui o curso, a capacitação e, numa próxima educação continuada, a gente até se juntar e fazer tipo um bate papo e ser repassado um pouco das informações do que a gente conversou aqui.”

As falas apresentadas revelam uma preocupação com a forma com que a abordagem no tratamento da obesidade vem sendo conduzida pelos profissionais, levando ao afastamento das pessoas com obesidade do sistema de saúde. A relação entre profissionais de saúde e pacientes desempenha papel relevante nos processos de adesão e comunicação em saúde (Duarte; Queiroz, 2024), o que implica em coerência e uniformidade. Conforme Sulino, Assunção e Queiroz (2015), a qualidade da comunicação entre o profissional de saúde e o paciente é um importante fator para melhorar a atenção à saúde de forma integral, além de estabelecer um vínculo terapêutico.

Ainda, destaca-se nas falas a pouca valorização do papel dos ACS, que se sentem inferiorizados pelos demais profissionais atuantes nas unidades de saúde, o que dificulta a multiplicação de saberes junto a estes profissionais. Guanaes-Lorenzi e Pinheiro (2016) também observaram o surgimento de sentidos de desvalorização pelos ACS, como baixos salários e pouco reconhecimento de sua função quando comparados a profissionais de nível superior.

Nesse contexto, vale marcar a importância dos ACS em sua atuação próxima à comunidade e seu potencial para construção de vínculos. Os ACS compartilham e vivenciam desafios e aprendizados singulares do trabalho, caracterizado pelo contato e relacionamento íntimo com as famílias do território, que revelam necessidades pouco percebidas pelos demais profissionais da unidade de saúde, exercendo assim o papel de articulador da Estratégia Saúde da Família nos territórios (Nepomuceno et al., 2021).

Para a superação desses desafios, é essencial o engajamento mútuo entre todos os profissionais de saúde envolvidos no tratamento da obesidade, para que ofereçam uma abordagem mais acolhedora, humanizada, com escuta ativa e livre de julgamentos, reduzindo os prejuízos potenciais decorrentes da gordofobia no cuidado às pessoas com obesidade.

Considerações finais

A partir dos presentes achados, verifica-se que a capacitação, apesar de não reduzir os escores de gordofobia e crenças negativas em relação à obesidade, foi importante para sensibilizar os profissionais acerca da importância de qualidades essenciais do cuidado centrado na pessoa, como a escuta ativa, o respeito e o acolhimento. A partir desses resultados, fica clara a importância da realização de capacitações aos profissionais de saúde, de forma contínua e ampliada, para auxiliar na qualificação e promoção do cuidado livre de estigma do peso. Assim, externaliza-se a importância e relevância do presente programa de capacitação.

O cuidado à pessoa com obesidade pode ser desafiador, principalmente quando consideramos a complexidade e a multifatoriedade dos determinantes sociais da saúde. Portanto, este cuidado demanda ações de uma equipe multiprofissional no âmbito da saúde e, para que seus diferentes determinantes e desdobramentos possam ser abordados de maneira conjunta e articulada, é importante a realização de ações de capacitação de forma articulada e continuada. Cabe destacar que toda a equipe que atua na atenção primária deve ser convidada a ampliar seu olhar sobre essa condição.

Nesse contexto, destacamos que tão importante quanto a presença da equipe multiprofissional é a qualificação dessa equipe para o cuidado da pessoa com obesidade, para poderem estabelecer relações entre pessoas: profissional-paciente; e não entre profissional“objeto do cuidado”, reduzindo o outro à sua condição de saúde. Se a equipe multiprofissional não estabelecer relações ancoradas em qualidades essenciais e inerentes ao cuidado, como respeito, empatia, acolhimento e escuta, tais relações recairão em objetificação, não se constituindo em uma verdadeira relação de cuidado.

Declaração de Disponibilidade de Dados

Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.

Referências

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  • Editores:
    Marcelo Pfeiffer Castellanos

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    18 Set 2025
  • Aceito
    14 Out 2025
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