Resumo
Este artigo analisa como enfermeiras negras identificam a vivência cotidiana do racismo e sexismo no ambiente de trabalho e que mecanismos são sugeridos por elas para seu enfrentamento. Além disso, nos dedicamos a descrever as percepções das mulheres negras sobre as consequências que essas opressões podem gerar em suas vidas. Esta pesquisa é resultado de uma dissertação de mestrado, com a realização de entrevistas semiestruturadas para a coleta de dados e Teoria Fundamentada nos Dados (TFD) para a análise. Participaram da pesquisa quatro enfermeiras, a partir dos seguintes critérios de inclusão: mulheres negras, enfermeiras atuantes em hospitais do município do Rio de Janeiro e maiores de 18 anos. A análise dos dados culminou na construção de cinco categorias e dez subcategorias. A articulação das categorias e subcategorias possibilitou o surgimento da categoria central: constatando que o racismo e o sexismo afetam a saúde das enfermeiras negras e reconhecendo que a educação é a principal ferramenta de enfrentamento a essas iniquidades. Os resultados e discussões apresentados apontam que as enfermeiras negras compreendem que o entrecruzamento do racismo e sexismo afeta diretamente suas vidas e que a educação é fundamental para promover o enfrentamento e transformação necessários para uma mudança na sociedade.
Palavras-chave:
Enfermeiras negras; Racismo; Sexismo
Abstract
This article analyzes how black nurses identify the daily experience of racism and sexism in the workplace and what mechanisms they suggest for dealing with it. In addition, we dedicate ourselves to describe the perceptions of black women about the consequences that these oppressions can generate in their lives. The research is the result of a master’s dissertation, with semi-structured interviews conducted for data collection and Grounded Data Theory (FDT) for analysis. Four nurses participated in the research, based on the following inclusion criteria: black women, nurses working in hospitals in the city of Rio de Janeiro, and older than 18 years old. Data analysis culminated in the construction of five categories and ten subcategories. The articulation of the categories and subcategories allowed the emergence of the central category: finding that racism and sexism affect the health of black nurses and recognizing that education is the main tool for confronting these inequities. The results and discussions presented point out that black nurses understand that the intersection of racism and sexism directly affects their lives and that education is essential to promote the confrontation and transformation necessary for a change in society.
Keywords:
Black nurses; Racism; Sexism
Introdução
Segundo a Constituição Federal, no seu Artigo 5º, “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza...” (Brasil, 1988). Entretanto, essa igualdade nem sempre é respeitada, pois no Brasil, muitas vezes, a cor da pele define a posição social, política e econômica. A forma cruel, insensível e desumana com a que o racismo brasileiro torna invisível uma população de cerca de 80 milhões de pessoas negras é um problema que merece ser analisado, reconhecido e superado, pois essa iniquidade violenta essa parcela da sociedade de forma constante e cruel.
A mulher negra é particularmente afetada pelo racismo. Segundo estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), organizado por Marcondes et al. (2013), as mulheres negras sofrem maior discriminação no mercado de trabalho, recebem menores salários, são a maioria das trabalhadoras com menor qualificação e estão no topo da linha de desemprego no Brasil. Tais fatores nos levam a afirmar que a mulher negra é invisível em nossa sociedade (Marcondes et al., 2013; Davis, 2016).
Nesse sentido, a construção da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), por meio da Portaria 992, de 13 de maio de 2009, é um marco importante na construção de uma política realmente igualitária, visando a saúde do povo negro e, consequentemente, da mulher negra. A PNSIPN preconiza que o racismo, as desigualdades étnico-raciais e o racismo institucional são determinantes sociais das condições de saúde (Brasil, 2013).
Não importa em que segmento social a mulher negra está inserida, os obstáculos que ela precisa superar são inúmeros. Com a mulher negra, enfermeira, não é diferente. Elas sofrem pressões no seu cotidiano, motivadas pelos preconceitos devido ao processo histórico de construção da profissão, que surgiu no século 19, atendendo às demandas da sociedade (Silva, 2006).
Muitas das mulheres que aceitaram trabalhar com o cuidado dos doentes eram pobres e não tinham instrução, isto porque as mulheres de classes privilegiadas e não queriam exercer essa função considerada desprivilegiada. Devido ao machismo e sexismo que eram marcantes naquela época, essas mulheres, denominadas enfermeiras, foram rotuladas como de moralidade questionável, bêbadas e analfabetas. Não tinham seus trabalhos valorizados e eram submetidas a extensas jornadas e péssimas condições de trabalho (Padilha et al., 2020).
Segundo pesquisa feita pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) - por iniciativa do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), organizada por Machado (2017), que teve como objetivo gerar dados amplos e confiáveis que permitissem avaliar a situação da profissão e propor mudanças - a enfermagem, no Brasil, é majoritariamente feminina e negra. A pesquisa aponta que a equipe de enfermagem, que é formada por enfermeiras, técnicas e auxiliares de enfermagem, possui 85% de profissionais do sexo feminino. No quesito cor/raça, revela que 53% se autodeclaram como preta ou parda.
Quando falamos especificamente da profissional enfermeira, com nível superior de ensino, a pesquisa revela que a profissão é majoritariamente feminina. As mulheres são 86,2% da categoria. Já no quesito raça e cor, 37,9% se autodeclaram preta ou parda e 57,9% se declaram brancas (Machado, 2017). Essa diferença é reflexo de como as mulheres negras encontram mais obstáculos para ascender na carreira, obstáculos esses gerados pelo racismo e sexismo que as oprimem.
Na área da saúde, é possível visualizar como a intersecção entre classe, raça e gênero funciona quando observamos homens brancos e de classes privilegiadas no topo e mulheres negras de classe social mais baixa na base. Profissões como médico, dentista, farmacêutico e veterinário comumente são exercidas por brancos, enquanto profissionais da limpeza, cozinha, e enfermagem são exercidas por mulheres negras. Esse quadro tem apresentado melhora, mas ainda insignificante. Portanto, entendemos que as mulheres negras, incluindo as enfermeiras, estão no centro da matriz das opressões (Silva, 2006; Davis, 2016).
Assim, neste trabalho, analisamos como as enfermeiras negras identificam a vivência cotidiana do racismo e sexismo no ambiente de trabalho e, por conseguinte, que mecanismos são sugeridos por elas para seu enfrentamento. Além disso, nos dedicamos a descrever as percepções das mulheres negras sobre as consequências que essas opressões podem gerar em suas vidas.
O impacto do racismo e sexismo na vida da mulher negra
O preconceito e a discriminação racial associados ao racismo impactam a dinâmica das relações sociais, promovendo a exclusão social dos grupos afetados negativamente. No âmbito desta pesquisa, compreende-se o racismo como: “o conjunto de práticas sociais, jurídicas, políticas, institucionais e outras fundadas na recusa da presunção de igualdade das pessoas humanas” (Fields; Fields, 2012, p. 17). Segundo Achille Mbembe, o racismo suscita algo que é duplo, que confunde, que mascara, como um simulacro. Apoia-se em converter algo que é real em outra diferente. Além de deturpar o real, também é uma forma de distúrbio psíquico, que fixa afetos negativos (Mbembe, 2014).
O documento “Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça”, produzido pelo Ipea (Pinheiro, 2011), considera que as desigualdades de gênero e raça estruturam a sociedade brasileira. Segundo o Instituto, a pesquisa não apresenta nenhuma novidade, pois os movimentos negro e de mulheres vem denunciando a opressão sofrida por essa parcela da população há décadas. Esses movimentos têm denunciado, repetidamente, as péssimas condições de vida das mulheres negras e os obstáculos enfrentados para alcançar a participação igualitária em diversos aspectos da vida social.
Na declaração de Durban, oriunda da III Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata, ocorrida em agosto de 2001, na África do Sul, constatou-se que a conjugação racismo e sexismo acarreta para a mulher negra, “[...] uma deterioração de sua condição de vida, à pobreza, à violência, às múltiplas formas de discriminação e à limitação ou negação de seus direitos humanos” (Brasil, 2001). O documento atenta para a necessidade de uma ótica mais sistemática sobre essa questão, além da integração da perspectiva de gênero nas políticas, estratégias e programas de ação contra o racismo.
Segundo Glick e Fiske (1996), o sexismo é um conjunto de estereótipos que avaliam de forma cognitiva, afetiva e atitudinal os papéis apropriados aos indivíduos, em função do seu sexo. Os autores afirmam que as atitudes sexistas justificam e reforçam a desigualdade entre os sexos e podem ser expressas de forma ambivalente, ou seja, por meio de atitudes tanto hostis como benevolentes perante o sujeito-alvo de preconceito.
Tanto o racismo como o sexismo se concretizam em ações silenciosas e rotineiras, produtoras de sentidos, dificilmente flagrados, mas capturados por sua recorrência e pela eficácia dos pequenos e rotineiros gestos de discriminação. Essas situações são frequentes no cotidiano, acontecem de forma velada e disfarçada. São ações perpetuadas nas relações pessoais e naturalizadas pela nossa sociedade.
Segundo Carneiro (2011), racismo e sexismo produzem sobre as mulheres negras uma situação de asfixia social, que gera desdobramentos negativos em todas as dimensões de suas vidas. Essa asfixia se reflete no rebaixamento da autoestima, em danos à saúde mental e na expectativa de vida inferior à de mulheres brancas, sendo 66 anos para as mulheres negras e 71 para as mulheres brancas. Além disso, possuem menor índice de casamentos e se encontram em ocupações de menor prestígio e remuneração. A naturalização do sexismo e racismo no ambiente laboral é gritante na realidade das mulheres e extremamente preocupante, deixando-as em situações de inferioridade e desqualificação (Lage; Souza, 2017).
Abordagem metodológica
O estudo de abordagem qualitativa, é fruto da minha dissertação de mestrado de mesmo título. Foi pautado por entrevistas semiestruturadas e realizado no período de janeiro e fevereiro de 2022, após aprovação do Projeto de Pesquisa no Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), do Instituto de Estudos e Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro/IESC-UFRJ, parecer nº 5.197.345, teve como objetivo responder à questão da pesquisa: como as enfermeiras negras enfrentam o racismo e sexismo no ambiente de trabalho?
Foram feitas quatro entrevistas semiestruturadas que ocorreram de maneira remota, por meio da plataforma ZOOM, permitindo a gravação das mesmas. A primeira entrevistada, nossa semente, foi selecionada a partir dos critérios de inclusão: mulheres negras, enfermeiras, maiores de 18 anos, que desejassem participar da pesquisa. Após, foi solicitado que ela indicasse outra enfermeira dentro das características necessárias para a pesquisa. O fechamento amostral se deu após a entrevista da quarta enfermeira, pois os dados obtidos já apresentavam certa redundância e não surgiram novas informações. Atingimos, assim, o ponto de saturação.
Considerando a qualificação profissional das enfermeiras entrevistadas, há uma enfermeira com doutorado, uma com mestrado e duas com especialização. Em relação à idade, elas possuem entre 35 e 50 anos. Referindo-se à variável tempo de formação, identificou-se o tempo mínimo de 10 e o máximo de 17 anos. Três das enfermeiras são plantonistas e uma está na docência, mas relatou ter trabalhado como plantonista por mais de 20 anos. Duas das enfermeiras entrevistadas possuem dois vínculos empregatícios, sendo um em um hospital municipal e outro em um hospital federal. Uma enfermeira possui somente um vínculo empregatício em um hospital federal. A quarta enfermeira possui vínculo empregatício em uma universidade federal do Rio de Janeiro.
Partimos da Teoria Fundamentada em Dados (TFD) ou Grounded Theory (GT) como base para a concepção do estudo. A TFD é um método cujo objetivo é revelar estratégias desenvolvidas por meio de situações vivenciadas no processo de compreensão das experiências e interações de pessoas dentro de um contexto social. Essa metodologia de pesquisa foi desenvolvida, originalmente, por dois sociólogos, Barney Glaser e Anselm Strauss, em 1967, nos Estados Unidos (Strauss; Corbin, 2008).
A análise dos dados na TFD, segundo a perspectiva straussiana, ocorre por meio das seguintes etapas: codificação aberta, codificação axial e codificação seletiva. Na codificação aberta, houve intensa e constante interação com os dados preliminares, bem como de reflexões, interpretações e observações realizadas, além do auxílio da análise comparativa, conforme prevê a TFD. Os textos foram analisados integralmente, parágrafo por parágrafo, como orienta Strauss e Corbin (2008). Ao proceder à leitura do texto, pouco a pouco, eram formuladas perguntas: esse dado refere-se a este estudo? O que os dados referem ou afirmam? O que está acontecendo? O que o participante quis dizer?
Na codificação axial, as categorias foram desenvolvidas em termos de suas propriedades, e então dimensionadas. Propriedades são as características ou atributos de uma categoria, enquanto dimensões são a localização das propriedades ao longo de uma linha. Ao delinear as propriedades e dimensões, diferenciamos uma categoria da outra, oferecendo maior precisão (Strauss; Corbin, 2008).
Nessa última fase da análise, a codificação seletiva, objetivou-se integrar e refinar as categorias, realizando uma intensa interação com os dados num processo contínuo que se desenvolveu com o tempo. O propósito foi elaborar uma categoria central, onde as outras categorias desenvolvidas pudessem ser agrupadas e integradas.
Resultados e Discussão
Constituiu-se o fenômeno ou categoria central: Constatando que o racismo e o sexismo afetam a saúde das enfermeiras negras e reconhecendo que a educação é a principal ferramenta de enfrentamento a essas iniquidades. Emergiram como resultado do estudo 10 subcategorias e 5 categorias, apresentadas no quadro-síntese abaixo:
Reconhecendo as experiências de racismo
Está dividida em duas subcategorias: “Identificando as experiências com o racismo em várias etapas da vida” e “Constatando que o racismo, além de velado, é estrutural”.
Na subcategoria, “Identificando as experiências com o racismo em várias etapas da vida”, as enfermeiras expõem experiências que, muitas vezes, não foram identificadas na infância, mas somente compreendidas como racismo na fase adulta. O trecho abaixo exemplifica tal situação:
Então a primeira experiência que eu lembro foi, eu era pequena, não vou lembrar exatamente a minha idade, eu fui ao mercado com a minha mãe e a minha mãe estava na fila e ela perguntou as horas a uma mulher branca, e aí a mulher não respondeu. Eu não me atentei no momento, não prestei atenção, assim, na situação. Aí a minha mãe ficou irritada com aquela situação e a mulher simplesmente não olhou pra cara dela e aí a minha mãe resmungou assim: racista (E1).
Percebe-se, que o racismo incide na vida da entrevistada desde cedo e está intrínseco ao imaginário do branco, ocasionando situações estressantes, que afetam diretamente a saúde mental dessas mulheres, que precisam lidar com esse tipo de agressão até mesmo na fila do mercado. Sueli Carneiro (2011, p. 62) afirma que “uma das características do racismo é a maneira pela qual ele aprisiona o outro em imagens fixas e estereotipadas, assim como o relatado por E1 no mercado.
“Em “Constatando que o racismo, além de velado, é estrutural”, as enfermeiras foram unânimes ao afirmarem que vivenciam e vivenciaram o racismo velado de diferentes formas. Disfarçadas de “brincadeiras”, ou justificadas com aquela expressão: “eu não sabia que era racismo!”, as condutas vão se perpetuando e as mulheres vão adoecendo. No trecho abaixo, a entrevistada aponta o racismo estrutural e como ele está arraigado em nossa sociedade e, consequentemente, muito presente no ambiente laboral.
Eu cada dia mais sou convencida pelos fatos e pelo que a gente vive mesmo, que o racismo ele é muito forte no Brasil e é algo que nós precisamos enfrentar assim como o sexismo. Então tanto o racismo quanto o sexismo eles existem e eles estão fortemente enraizados na nossa sociedade, apesar de nós termos muitos discursos de que o racismo é uma invenção e de que é algo que os próprios negros falam se vitimando e etc. assim como as mulheres, não é. Ele está muito presente nas estruturas da sociedade, ele está muito presente no ambiente de trabalho (E3).
Os dados demonstram que o racismo está enraizado em nossa sociedade, perpetuado por meio de condutas que, muitas vezes, não são consideradas como racistas, o que caracteriza o chamado racismo cotidiano. Para Kilomba (2019), todo comportamento que coloca a pessoa negra como outro/a é racismo cotidiano. Nesse sentido, o racismo cotidiano citado pelas entrevistadas não é uma situação inabitual, mas um padrão contínuo, uma incessante exposição ao perigo, que se repete constantemente ao longo da biografia da pessoa negra, que pode ocorrer no ônibus, na fila do supermercado etc. (Kilomba, 2019).
Identificando o sexismo vivenciado pelas enfermeiras negras no ambiente de trabalho
Essa categoria foi dividida em: “Equipe de enfermagem constituída por mulheres negras” e “Identificando que o ambiente de trabalho é um lugar onde há sexismo”.
A subcategoria “Equipe de enfermagem constituída por mulheres negras” revela que o cuidado é feminino e negro. As equipes de enfermagem são formadas por mulheres negras em sua maioria, principalmente nos cargos de nível fundamental e médio, denotando que as mulheres negras ainda encontram dificuldade de ascender profissionalmente.
Na minha equipe, especificamente, nós somos 98%, 90% de mulheres e negras. A minha equipe é composta por maioria negra. Assim, eu tenho na minha equipe apenas um homem, que é negro, mas o resto da minha equipe que trabalha comigo de nível médio são todos negros. São todas mulheres negras (E4).
Éramos sete mulheres no total, se eu não me engano, no total de oito pessoas, oito ou nove pessoas. Eu não estou lembrada agora. É porque depois teve a questão da pandemia, que a equipe aumentou, mas foi por pouco tempo, né. O que estou te trazendo, assim, é a equipe original que a gente ficou muitos anos juntos né, enfim... mas que eu me lembre, eram sete mulheres num total de oito. Acho que eram só dois homens. Sim, majoritariamente mulheres (E2).
É possível perceber que as equipes de enfermagem são formadas, em sua maioria, por mulheres negras, incluindo enfermeiras, auxiliares de enfermagem e técnicas de enfermagem. Importante salientar que as profissionais auxiliares e técnicas de enfermagem somam a maior parte da equipe, entretanto, também são as profissionais com menor escolaridade e menor remuneração, tornando explícito com a intersecção entre raça, classe e gênero posicionam as mulheres negras da equipe de enfermagem em lugares subalternos.
Em, “Identificando que o ambiente de trabalho é um lugar onde há sexismo”, as enfermeiras ressaltam terem sofrido ou presenciado situações sexistas que geraram incômodo e constrangimento. Os trechos abaixo ilustram situações de assédio sexual vivenciados pelas entrevistadas:
Eu já vivenciei assim, é eu acredito que seja considerado assédio né, mas eu não entendi como uma situação de violência, talvez o meu conceito esteja equivocado eu não entendi como uma questão de violência, mas de assédio sim. Ah cantada, mensagem que manda no WhatsApp. Nós que trabalhamos principalmente em ambiente hospitalar a gente deixa o telefone, se comunica, então a gente acaba tendo o telefone de profissionais de outras categorias, dos próprios colegas né, isso é atual. Em alguns momentos pelo telefone, pessoalmente aqueles elogios com segundas intenções ou intenções claras mesmo sem disfarçar (E1).
[...] a discussão foi bastante acalorada, foi bastante tensa. Ali estava acontecendo uma discordância entre eu, essas duas enfermeiras que eram plantonistas com esse médico chefe e o médico do outro serviço que estava lá para apoiar no processo. Estávamos assim: os dois homens de um lado com uma linha de raciocínio e nós três do outro lado, com outra linha de raciocínio né, e enfim. A gente discordando. E esse médico que era chefe do serviço, ele toda vez que alguma mulher ia falar, porque nós éramos a maioria ali, ele meio que fazia como se fosse um gesto para a gente parar de falar, para a gente ouvir o que esse outro médico da comissão de infecção hospitalar tinha a dizer. Esse outro médico não deixava a gente falar, toda hora que a gente ia contra-argumentar ele interrompia a gente e esse médico chefe meio que dando apoio a ele, como se estivesse silenciando a gente. E chegou um momento assim, que foi o auge do absurdo, foi que eu estava sentada do lado desse médico chefe né, ele quando eu fui contra-argumentar o outro médico ele espalmou a mão na direção do meu rosto para eu parar de falar [...] (E2).
Fica perceptível na fala das enfermeiras que elas sofreram uma situação sexista. Dois homens brancos, que no auge de sua superioridade (segundo o pensamento equivocado deles) não permitiram que três mulheres opinassem sobre o assunto. Segundo a entrevistada, foi preciso que ela se erguesse e erguesse também o tom de voz para ser ouvida. Hooks (2019) HOOKS que o sexismo está impregnado no imaginário social, que desencadeia um vasto conjunto de representações e comportamentos que desprezam, desqualificam, desautorizam e violentam as mulheres, as colocando em posição de menor prestígio social, como o ocorrido com E2.
Identificando que o excesso de trabalho, além do racismo e do sexismo afetam a saúde da enfermeira negra
Dividimos essa categoria em: “Identificando que as mulheres negras da equipe de enfermagem não priorizam o autocuidado” e “Constatando que a mulher negra da equipe de enfermagem tem sua saúde afetada por conta do excesso de trabalho, racismo e sexismo”.
Em “Identificando que as mulheres negras da equipe de enfermagem não priorizam o autocuidado”, as entrevistadas apontam que a maioria das mulheres negras de suas equipes normalizam o fato de não se cuidarem, sem compreender que isso é um tipo de agressão. O relato o abaixo aponta uma situação:
Eu vejo muitas mulheres que trabalham comigo que vem com essa proposta mesmo de.. “Ah não, eu não posso ficar doente, eu não posso me fragilizar porque eu tenho que criar meus filhos. Eu não posso me fragilizar porque eu não posso parar de trabalhar. Aí eu falo: gente, mas todo mundo pode né, todo mundo adoece. Mas a gente tem tanto isso impregnado que a gente acaba trazendo isso pro nosso dia a dia. Eu acho que isso é uma coisa que tem que mudar. A gente precisa olhar mais pra nossa saúde. A gente precisa se cuidar melhor. A gente tem o direito de ser bem tratada, de ser bem cuidada. A gente tem que entender que a gente tem esse direito pra gente não normalizar as agressões que a gente passa por aí em atendimentos médicos, em procedimentos. Então a gente não pode achar que isso é normal. A gente tem que entender que a gente pode e deve ser bem tratada sim, e que a gente tem o direito de ficar doente, de tratar da nossa cabeça (E4).
Corroborando a fala acima, o Dossiê “Mulheres negras: retrato das condições de vida das mulheres negras no Brasil” (Marcondes et al., 2013), revela uma crescente histórica de domicílios chefiados por mulheres negras. Outro dado interessante apontado pelo Dossiê é que essa chefia é solitária, na qual inexiste a figura do marido ou companheiro. Em função disso, essas mulheres sentem-se mais pressionadas e acabam por acumular muitas funções. A fala de E1 discorre nesse sentido.
E aí aquela dedicação extrema à família e vai se colocando de lado, mas no sentido de que elas acabam se sacrificando muito pra sustentar um padrão familiar,aquilo que elas idealizam mesmo que elas querem de melhor para família e, muitas vezes, seus companheiros não estão tendo o mesmo esforço que elas tem, né? Eu percebo muito isso nas conversas que a gente tem. Muitas têm companheiros e tal, que tem sim suas funções e seus trabalhos, mas são pessoas que, digamos assim, não acompanham o ritmo e, às vezes, eu acho que elas acabam se sabotando, entendeu? Porque elas assumem isso e acabam tomando a frente e se prejudicando. Eu vejo um pouco disso nas pessoas que eu convivo e isso reflete diretamente na saúde delas (E1).
Nessa subcategoria, constatou-se que a mulher negra da equipe de enfermagem renuncia ao autocuidado ao priorizar o cuidado de outros, como filhos, pai, mãe e parentes em geral. Collière (2003) explica que a execução do cuidado está diretamente ligada à evolução dos cuidados maternos. Desse modo, essas mulheres acabam colocando essa “vocação” em cuidar acima de outras coisas.
Em “Constatando que a mulher negra da equipe de enfermagem tem sua saúde afetada por conta do excesso de trabalho, racismo e sexismo”, verificou-se que essas mulheres não possuem cuidado adequado com a saúde, apesar de serem profissionais dedicadas ao cuidado. O fragmento abaixo expõe sobre:
[...] nem todo mundo tem acesso, de maneira geral, falando de tratamentos de saúde. Mas, assim, digamos, assim, no meu nível, as pessoas que eu convivo no meu ambiente de trabalho, muitas mulheres negras, eu percebo que elas se colocam muito de lado né, por conta de ou de precisar ter um excesso de trabalho. Na maioria das vezes, as que eu conheço, precisam trabalhar porque tem estrutura familiar e tudo mais. Mas não tem assim tantos recursos financeiros que permitem, às vezes, elas trabalharem menos. Então, isso já faz com que elas também tenham que trabalhar mais e aí tem a carga doméstica que tem que carregar. Então, eu percebo que em alguns momentos elas vão se colocando de lado né (E1).
O fato de as mulheres negras da equipe de enfermagem não cuidarem efetivamente da saúde está diretamente relacionado com a necessidade do trabalho excessivo condicionado às barreiras que o racismo e sexismo exprimem em suas vidas. Segundo as entrevistadas, elas necessitam trabalhar mais para aumentar os seus rendimentos, porque muitas vezes são as responsáveis financeiras por seus lares.
Nessa perspectiva, Marcondes et al. (2013) apresenta um dado interessante. As famílias chefiadas por mulheres negras encontram-se na posição de piores rendimentos, sucedidas pelos homens negros, mulheres brancas e homens brancos, acarretando maior risco de vulnerabilidade social para as mulheres negras. Dessa maneira, esgotadas pela carga de trabalho excessivo, acabam por negligenciar sua saúde.
Outro ponto interessante levantado por E4 se refere à pandemia de covid-19, quando as equipes de saúde como um todo sofreram com o excesso de trabalho. As equipes de enfermagem, que como sabido são constituídas em sua maioria por mulheres negras, foram duramente afetadas e, por muitas vezes, negligenciaram seu próprio cuidado para cuidar do outro.
Enquanto enfermeira, a gente tem que ter um equilíbrio muito grande pra lidar com as dores dos outros e as nossas, né? E a gente vê nesse momento de pandemia, a gente vê muitas coisas acontecendo, muita gente adoecendo, então a gente fica um pouco desestruturada. Então, a gente tem que prestar atenção nos nossos sintomas, no nosso organismo se não a gente acaba não conseguindo tratar do outro e nem cuidar da gente mesmo. Então eu acho que é isso. As mulheres negras ainda têm que combater isso enquanto pacientes. Combater esse racismo que lhe é jogado enquanto pacientes, enquanto pessoa. Porque eu acho que a gente é meio que desumanizada mesmo. A gente é visto como nada, então a gente tem que ter esse olhar atento pra não normalizar esse tipo de coisa (E4).
Centenaro et al. (2022), em um estudo que pesquisa Transtornos Mentais Comuns (TCM) em trabalhadores da enfermagem durante a pandemia de covid-19, diz que 35,5% dos profissionais de enfermagem que trabalharam durante a pandemia desenvolveram TCM, como ansiedade, insônia e fadiga, que resultam em adoecimento mental que desestrutura as profissionais, como sinalizou E4.
Constatando que a educação é a principal ferramenta para o enfrentamento do racismo e do sexismo
Essa categoria está dividida em duas subcategorias: “Identificando diferentes formas de se educar e se fortalecer para o enfrentamento do racismo e sexismo” e “Reconhecendo que a educação é uma ferramenta de enfrentamento ao racismo e ao sexismo”.
Em “Identificando diferentes formas de se educar e se fortalecer para o enfrentamento do racismo e sexismo”, as enfermeiras citaram como fazem para educar-se contra o racismo e sexismo, para dessa forma ficarem fortalecidas para essa tarefa árdua.
E assim, uma das coisas interessantes que eu vejo, por exemplo, lá no meu trabalho, você deve saber, tem coletivos né. Tem o coletivo de mulheres e tem o coletivo de de... agora eu não lembro o nome do coletivo, mas eles estudam literaturas voltadas para as questões raciais. Eu não lembro o nome do coletivo. E aí eu acho que.. e aí é não só na vida adulta, mas no ambiente de trabalho né, ou seja, eu acho que é possível em todos os ambientes dialogar, estudar e trocar ideia sobre isso, porque realmente abre seus olhos (E2).
Aprender com o coletivo emergiu como estratégia para superar as dificuldades que o racismo e o sexismo impõem. Leite et al. (2019) aponta que os coletivos têm como propósito desafiar poderes e transformar realidades, ocasionando um rompimento com as pautas coloniais que lhes são impostas. São oriundos de movimentos sociais, que têm lutado arduamente para recuperar o lugar de fala da pessoa negra. Por meio desse processo, os indivíduos se educam e educam toda a sociedade.
Corroborando as entrevistas, Gusmão (2015) afirma que em toda sociedade existe algum tipo de aprendizagem relativo às inúmeras e diversas vivências cotidianas coletivas. Não é somente na escola onde a educação se realiza. Nessa perspectiva, “a educação é compreendida como partilha, comunicação e troca, pressuposto da aprendizagem e componente fundamental da cultura” (Gusmão, 2015; p.22). As entrevistadas consideram significativo trocar, dialogar com outras mulheres e transferir esse conhecimento para as crianças, como fala a entrevistada E1:
Eu acho que não tem outro caminho pra você conseguir gerar uma conscientização, gerar políticas fazer diferença, você precisa ter conhecimento e eu não digo especificamente conhecimento universitário, procurar conhecimento dentro da causa, saber se empoderar dentro daquilo, né? Cada um com a sua causa, aí em lugares específicos, por exemplo, dentro de comunidades eu sei que existem representações ali que fazem a diferença, que tem engajamento, que tem conhecimento dentro daquela causa, e é isso eu acho que esse conhecimento é que traz o poder né pra tentar transformar de alguma maneira (E1).
O processo de educação familiar surgiu como imprescindível para a construção da identidade da pessoa negra. Segundo Gomes (2002, p. 39), “nenhuma identidade é construída no isolamento”, pelo contrário, o processo de construção da identidade é permeada de muito diálogo com outros indivíduos e ocorre durante toda a vida. É uma construção social, histórica e cultural, repleta de densidade e conflitos (Gomes, 2002).
Verificou-se, por meio dos discursos de nossas entrevistadas, que a educação popular em saúde se fez presente nas experiências citadas. Segundo Gomes e Merhy (2011), a educação popular considera os movimentos sociais locais como seus interlocutores, priorizando os interesses das classes populares. Para as autoras, esse tipo de educação retrata uma maneira brasileira de promover educação em saúde.
Em “Reconhecendo que a educação é a principal ferramenta de enfrentamento ao racismo e sexismo”, identificamos que o principal mecanismo encontrado pelas nossas entrevistadas para o enfrentamento do racismo e sexismo é a educação como fonte de conhecimento. Para elas, é de fundamental importância investir em educação como um todo e também educar-se especificamente sobre racismo e sexismo.
Eu acho que a educação é um ponto chave, é um ponto alto pra gente entender e enfrentar o racismo e o sexismo porque, como eu falei, pra mulher se colocar, eu vou falar mulher em geral. A mulher se colocar hoje no mercado, ter uma posição respeitável, ter um salário respeitável tem que haver estudo, tem que haver investimento. Aí eu estou falando de estudo mesmo, de graduação, de investimento em estudo mesmo. Mas fora isso, como eu falei, fora isso, acho que a gente tem que procurar estar atento ao que está à nossa volta. Além da graduação, que eu acho que é importante, mas o que está acontecendo à nossa volta, o que estão escrevendo os autores, as pessoas mesmo, outras mulheres que estão à nossa volta. Eu acho que essa troca, que não só aquela educação formal de ir para a escola, faculdade sei lá o quê, mas educação informal. Você aprender com outras mulheres, aprender com o outro, com o coletivo, com o seu coletivo pra enfrentar isso, assim, porque assim a gente vai se fortificando quanto mulher negra mesmo, assim né. Vai criando a base pra lidar com essas coisas (E4).
As entrevistadas foram unânimes ao apontar a educação como ponto chave para a transformação efetiva da realidade. Paulo Freire (2019) enfatiza que somente a educação pode trabalhar a serviço da transformação social e dessa maneira desenvolver indivíduos conscientes de seus atos e responsabilidades.
Reconhecendo a invisibilidade da mulher negra
Essa categoria está dividida em duas subcategorias: “Identificando as dificuldades de ascensão da mulher negra” e “Constatando a invisibilidade da mulher negra”.
A subcategoria “Identificando as dificuldades de ascensão da mulher negra” revela que as entrevistadas identificaram ser mais laborioso para as mulheres negras ascenderem tanto profissionalmente, quanto intelectualmente. Guimarães (2012) afirma que devido à herança da escravidão, o ponto de partida para as pessoas negras é desigual, além disso, tal desvantagem aumenta pois somam-se novas discriminações em cada etapa da competição social, na educação e no mercado de trabalho. A fala abaixo expõe essa situação:
Porque a mulher ainda tem esse... carregamos esse estigma, essa coisa cultural de ser calada, apagada, diminuída. Então pra gente conseguir ocupar um espaço e ser respeitada, a gente precisa caminhar duas vezes mais, e sendo mulher negra então, acho que quatro, cinco, sei lá, vezes mais (E4).
Segundo E1, mulheres negras em posição de destaque profissional surgem como uma exceção, condicionada a sua origem humilde que dificulta o acesso ao ensino. À luz da literatura, Bento (2022) explica que, nas sociedades desfiguradas pelo racismo, há uma predileção pelo mesmo perfil (masculino e branco) para os lugares de liderança e decisão, precarizando a condição de vida da população negra, produzindo subemprego e sub-representação dessa população.
Corroborando nossos resultados, Carneiro (2011) afirma que o principal ativo para a dificuldade de mobilidade social que as pessoas negras encontram, em especial, a mulher negra, é o processo de banimento social e exclusão de oportunidades educacionais. Segundo a autora, o aparelho educacional tem se organizado como fonte de processos de aniquilamento da confiança e capacidade intelectiva das pessoas negras.
Em “Constatando a invisibilidade da mulher negra” fica explícito na fala das mulheres que todas elas consideram que a mulher negra é invisível em muitos aspectos da sociedade. As cotas para negros foram citadas pela enfermeira no fragmento abaixo:
É assim... eu acho que ainda sim a gente ainda está muito invisível na sociedade de um modo geral. A gente infelizmente vive em uma sociedade que a gente precisa ter cotas, por exemplo, até para mídia, para novela, para propagandas. E ainda assim, a maneira como, por exemplo, as empresas fazem uso dessas cotas que é tem um negro, ou seja, aí tu vê assim, a gente não chegou a um equilíbrio, ou até mesmo ter uma propaganda sei lá com sete atores e sete serem negros. Não, eles sempre tem aquela coisa da cota, enfim, eu acho que a gente está caminhando, mas eu acho ainda tem essa questão da invisibilidade, seja na mídia, seja nas redes sociais (E2).
Para Carneiro (2011), reivindicar políticas de ações afirmativas e cotas, significa para o povo negro, sua legitimação como sujeito de direitos, consciente da dívida histórica de um país que acumulou capital por meio da exploração do trabalho escravo e não ofertou nenhum tipo de reparação e permanece obstando sua integração social por meio de inúmeras formas de exclusão racial, como citou E2.
Dar visibilidade para a mulher negra foi considerado relevante pela entrevistada E3. Exaltar o fenótipo negro, como seu cabelo crespo, é de grande valia para que essa mulher se sinta acreditada e valorizada. Atentar para isto também nos atendimentos de enfermagem foi um ponto pertinente levantado por ela, já que o racismo institucional é gritante dentro do ambiente hospitalar.
Grada Kilomba (2019), levanta questões significativas ao ressaltar que, historicamente, o cabelo característico do povo negro foi desvalorizado e considerado o estigma mais notório da negritude. Entretanto, com o desenrolar da história, o cabelo crespo passou a ser visto como um importante instrumento da conscientização política entre africanas (os) da diáspora.
A falta de representatividade nos meios de comunicação foi outro aspecto da invisibilidade da mulher negra levantado pelas entrevistadas. Ser uma mulher negra é ter que construir e reconstruir a sua autoestima todos os dias, devido à falta de representatividade nos meios de comunicação. As mulheres negras raramente são vistas como fontes seguras para matérias, o que acarreta num apagamento dessas como propagadoras de informação e opinião (Prateano, 2016).
Os apontamentos sobre o preterimento das mulheres negras nos relacionamentos revelam o quanto essa solidão é perceptível e dolorosa para as mulheres negras. Souza (1983) sustenta que a pessoa negra busca um objeto amoroso com características daquilo que, no seu subconsciente forjado por valores hegemônicos influenciados pela ideologia dominante, parece ser o ideal, o correto, o bonito, o branco. Dessa maneira acabam por preterir a pessoa negra. Abaixo, um fragmento sobre a solidão da mulher negra.
Pra relacionamento amoroso existe também uma invisibilidade. Eu me tornei muito observadora, né. Essa coisa de sair com amigas e perceber a sequência da predileção da população masculina é, enfim, isso é muito às claras, é muito notório, é muito gritante. Eu acho que ainda assim a gente está muito invisível em tudo (E2).
A tentativa de silenciamento das mulheres negras foi uma característica da invisibilização citada por nossas entrevistadas. Spivak (2018) salienta que, no contexto da produção colonial, o sujeito subalterno (nesse caso, pessoa negra) não tem história e nem voz. A mulher subalterna, particularmente a negra, está ainda mais na obscuridade pois é duplamente afetada, pela raça e pelo gênero.
Por fim, o campo da saúde foi novamente levantado pelas entrevistadas como um setor que invisibiliza as mulheres negras por meio do tratamento diferenciado nos atendimentos. Os achados do estudo de Leal et al. (2017) indicam que as disparidades segundo raça/cor são frequentes nos atendimentos às mulheres negras. Segundo as autoras e os autores, mulheres pretas e pardas realizam um número menor de consultas e exames pré-natais, e essa invisibilização se estende a outras situações de atendimento hospitalar.
Considerações finais
Em pleno século XXI, devido à constante reestruturação do racismo e sexismo, ainda nos deparamos com heranças culturais sexistas, que afetam as mulheres, especialmente à mulher negra, como a violência doméstica, a manutenção de estereótipos e os obstáculos que impedem a ascensão destas no mercado de trabalho. O trabalho das mulheres negras enfermeiras encontra-se exatamente no centro dessa confluência, onde sofrem com estigmas oriundos de heranças culturais sexistas e racistas que a profissão historicamente possui.
Com o desenvolvimento desta pesquisa, foi possível identificar o seguinte fenômeno: “Constatando que o racismo e o sexismo afetam a saúde das enfermeiras negras e reconhecendo que a educação é a principal ferramenta de enfrentamento a essas iniquidades”. Evidenciou-se que a intersecção do racismo e sexismo impõe na vida das mulheres negras efeitos negativos que reverberam em todas as dimensões de sua existência e que a educação é uma alternativa possível de transformação da realidade.
As percepções e as vivências compartilhadas pelas enfermeiras negras revelaram o panorama de exclusão social que elas se encontram, suscitando que é imprescindível nos debruçarmos sobre essa temática. A ausência de debates mais profundos sobre essas iniquidades, as fragilidades na construção de políticas públicas destinadas à saúde das mulheres negras e o desmonte da educação pública que afeta as pessoas negras em sua maioria, intensificam as vulnerabilidades vivenciadas por essas mulheres.
Por fim, esta conclusão fortalece o entendimento de que devemos lançar luz às temáticas invisibilizadas pela nossa sociedade. Portanto, questionar as desigualdades e opressões de classe, gênero e raça é fundamental e faz parte das mudanças que desejo alcançar, principalmente em relação às mulheres negras, que carregam o mundo em suas costas.
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