Open-access Por uma ciência sensível, interdisciplinar e intercultural: desafios epistemológicos para resgatar a sabedoria na relação saúde, sociedade e natureza

Resumo

Este artigo apresenta as bases plurais de uma ciência sensível, interdisciplinar e intercultural para imaginar outras relações sobre saúde, sociedade e natureza inspirados em referenciais e autores das ciências sociais e humanas, incluindo e transcendendo a saúde coletiva, a sociologia e a antropologia. Trata-se de um ensaio reflexivo sobre questões epistemológicas, teóricas e metodológicas cuja base empírica e experiencial provém de discussões conceituais e pesquisas sobre promoção emancipatória da saúde junto a territórios e grupos sociais vulnerabilizados, em particular povos originários e de periferias urbanas. Tais pesquisas e metodologias empregadas buscam produzir conhecimentos junto com, e não apenas para, as comunidades e os territórios envolvidos. O artigo defende uma transição paradigmática que crie condições e possibilidades de encontros convivenciais de saberes envolvendo sistemas de conhecimentos científicos, tradicionais e situados em torno de problemas e lutas sociais por saúde, dignidade e direitos territoriais. Para melhor compreender e ultrapassar os limites da ciência moderna, com seus cânones e disciplinas especializadas, propõe-se o resgate da sabedoria perdida pela modernidade eurocêntrica no enfrentamento das várias crises em curso que assolam o planeta, o país, os territórios e vários ecossistemas em processos acelerados de degradação.

Palavras-chave:
Interculturalidade; Interdisciplinaridade; Transição paradigmática; Povos tradicionais; Promoção em saúde

Abstract

This article presents the foundations of a sensitive, interdisciplinary, and intercultural science aimed at reimagining the relationships between health, society, and nature inspired by references and authors from the social and human sciences, transcending traditional boundaries of sociology, anthropology, and collective health. This is a reflective essay on epistemological, theoretical, and methodological issues, in which empirical and experiential basis stems from conceptual discussions and research on emancipatory health promotion among vulnerable territories and social groups, particularly Indigenous peoples and those from urban peripheries. The research and methodologies employed seek to produce knowledge collaboratively, rather than solely for the communities and territories involved. The article defends a paradigmatic transition that creates conditions for the coexistence of scientific and traditional knowledge systems in addressing social issues and struggles for health, dignity, and territorial rights. To better understand and overcome the limits of modern science, with its canons and specialized disciplines, this article proposes to rescue the wisdom lost by Eurocentric modernity in facing the various ongoing crises that have been plaguing the planet, Brazil, certain territories, and various ecosystems in accelerated degradation processes.

Keywords:
Interculturality; Interdisciplinarity; Paradigmatic transition; Traditional peoples; Health promotion

Introdução: bases epistemológicas plurais em busca de uma ciência sensível, interdisciplinar e intercultural

Este artigo, em forma de ensaio, propõe as bases epistemológicas de uma ciência sensível, interdisciplinar e intercultural, que são necessariamente plurais e dinâmicas e correspondem a inúmeros grupos que nesse momento enfrentam diversas crises no planeta e no país. Nosso objetivo maior é potencializar a produção de conhecimentos que imaginem novas relações entre saúde, sociedade e natureza para enfrentar as crises em andamento em suas múltiplas dimensões, principalmente a socioambiental, sanitária e democrática. Juntas elas compõem uma crise mais ampla considerada como civilizatória e expressão da modernidade eurocêntrica (Quijano, 2000).

Ao longo do artigo abordamos questões epistemológicas, conceituais e metodológicas em torno das condições, limites e alternativas para a construção de diálogos interdisciplinares e interculturais em encontros e pesquisas envolvendo tanto territórios de povos tradicionais e originários, como também de espaços urbanos e periferias influenciados por características culturais e identitárias desses povos, marcantes em grande parte do Sul Global. Nossa hipótese é que abordagens especializadas em torno de disciplinas e objetos específicos, sejam elas das ciências sociais e humanas, ambientais ou da vida, precisarão cada vez mais serem acompanhadas por novas bases epistemológicas que validem a qualidade da produção de conhecimentos numa perspectiva mais ampla de conexão e diálogo entre diferentes sistemas de conhecimento.

A base empírica e experiencial do artigo resulta da realização de projetos de um núcleo de pesquisa que, nos últimos anos, tem atuado junto a populações e territórios vulnerabilizados nos campos e cidades envolvidos em processos emancipatórios, incluindo povos originários da Amazônia e do Nordeste. Para compreender os problemas e construir alternativas, temos aprofundado dimensões epistemológicas em torno do conceito de promoção emancipatória da saúde (PES), que alicerça nossa visão ampliada de saúde para além da determinação social dos processos saúde-doença. A PES se apoia na articulação de três campos interdisciplinares de conhecimento: saúde coletiva, ecologia política e escolas pós-coloniais, em especial as epistemologias do Sul (Santos; Meneses, 2014). Eles fornecem as bases conceituais para analisar os limites das utopias modernas (liberal e socialista/comunista), a crise da modernidade eurocêntrica e propor alternativas emancipatórias de transição paradigmática e civilizatória a partir da articulação entre quatro dimensões de justiça: social, sanitária, ambiental/territorial e cognitiva/histórica (Porto, 2019).

Os processos de transição paradigmática que propomos envolvem o que Nunes (2008) denomina de resgate da epistemologia. Trata-se de um processo de transformação sucessiva que caminha da soberania epistêmica restrita ao ambiente acadêmico para um diálogo crescente com sistemas de conhecimentos enraizados principalmente nas experiências do Sul global. O Sul global é entendido como as civilizações e sociedades de diferentes continentes (América, Ásia, África e Oceania) cujos saberes e experiências foram subalternizados, invisibilizados ou suprimidos pela história colonial caracterizada pela expansão hegemônica da modernidade ocidental eurocêntrica, com suas características logocêntricas e utilitaristas que dissociaram sociedade, vida e natureza.

Para reverter essa tendência eurocêntrica, acentuada na atualidade pela crise socioambiental, apoiamo-nos em referenciais epistemológicos, conceituais e metodológicos que buscam avançar em processos de convivência e mútua aprendizagem em diálogos, encontros ou ecologias de saberes envolvendo tanto sistemas de conhecimentos científicos como outros chamados de tradicionais, ou ainda de natureza contextual e situada indissociáveis da vida comunitária e cotidiana. Por isso acrescentamos à proposta de Nunes a ideia de resgate da sabedoria e de epistemologias de conexão que buscam permanentemente restabelecer pontes entre a ciência e outras esferas do conhecimento humano, como cosmologias, filosofias, arte e senso comum.

Mais que uma nova utopia ou necessidade social e epistêmica, avançar nas conexões é uma condição necessária para a construção respeitosa de agendas e respostas aos diferentes problemas enfrentados por diferentes populações e territórios, em particular povos tradicionais como originários, quilombolas e camponeses com seus vários hibridismos. Esses povos vivem em contextos marcados por conflitos ambientais, violências, racismos, subalternização e processos de vulnerabilização, mas ao mesmo tempo suas lutas e saberes alimentam esperanças sobre como resgatar sabedorias perdidas na relação sociedade e natureza.

Uma das bases para a construção deste artigo está relacionada à aproximação da saúde coletiva com o campo da ecologia política (Alimonda et al., 2017) e uma abordagem socioambiental crítica, que analisa os conflitos ambientais e territoriais a partir do desenvolvimento do capitalismo neoliberal e o papel do neoextrativismo na América Latina e no conjunto do Sul Global. Projetos do agronegócio, da mineração e infraestruturas associadas encontram-se por detrás de inúmeros conflitos ambientais que assolam territórios e grupos populacionais em todo o território brasileiro, a maioria envolvendo povos originários, afrodescendentes e camponeses.

Nos últimos anos o núcleo ao qual pertencem os autores tem privilegiado pesquisas que envolvem populações e territórios tradicionais em espaços rurais, como indígenas, de matriz africana e camponeses, também denominados no Brasil de povos e territórios das florestas, campos e águas. Temos também nos ocupado da relação campo-cidade, em particular em territórios vulnerabilizados das periferias urbanas. Nossas pesquisas analisam como processos emancipatórios nos campos e nas cidades são marcados por iniciativas em que questões como o cuidado, o alimento e a relação com a natureza são elementos estratégicos para a construção de territórios sustentáveis, inclusivos e saudáveis. Portanto, seja no campo ou na relação campo-cidade todas as iniciativas mencionadas perpassam diálogos interdisciplinares e interculturais com povos, cosmologias e culturas ancestrais que influenciam e, atualmente, têm sido resgatadas e retomadas por movimentos sociais e organizações comunitárias, inclusive nas cidades.

Nesse contexto, é estratégico propor bases epistêmicas plurais e dinâmicas para a produção de conhecimentos que possam transcender paradigmas específicos e áreas especializadas das ciências sociais e humanas, como a antropologia, já que os problemas socioambientais e sanitários na atualidade são complexos e várias abordagens e áreas interdisciplinares do conhecimento, como as ciências ambientais e da saúde, e a educação, são mobilizadas para enfrentar lutas sociais e problemas concretos no âmbito comunitário e territorial. Trata-se de uma questão interescalar, já que tais problemas são simultaneamente locais e globais, expressão de forças motrizes e de processos sistêmicos, seja no âmbito social, cultural e histórico, seja no âmbito das interfaces entre riscos globais (como as mudanças climáticas) e sua relação com os vários ecossistemas.

Seguindo as trilhas de Paulo Freire (2019) e Orlando Fals-Borda (2010), uma estratégia epistemológica central de nossa proposta é não dissociar o pensar e o sentir para avançar no que temos denominado de descolonizar e coracionar a academia. Isso tem avançado em movimentos epistemológicos e artísticos que se intercruzam e concretizam-se na proposição de uma ciência sensível que contribua para promover dinâmicas emancipatórias. Tal processo, simultaneamente acadêmico-ético-político-pedagógico, consubstancia-se na construção do que temos denominado de metodologias sensíveis co-labor-ativas (Fasanello; Porto, 2022), cujo objetivo é a produção de conhecimentos junto com, não apenas para ou sobre, os territórios, suas populações, movimentos e organizações comunitárias voltados à transformação social. Para isso, duas tarefas dessas metodologias são permanentemente trabalhadas: (i) como a objetividade do conhecimento pode almejar a compreensão de diferentes concepções e visões de mundo - objetivo da justiça cognitiva, do interconhecimento e da alteridade; (ii) como a ciência com consciência proposta por Morin (2000) incorpora o corpo e os afetos como constituintes da própria forma de conhecer o mundo de forma viva e transformadora. Um dos objetivos de uma ciência sensível, interdisciplinar e intercultural apoiada em tais metodologias é o resgate da sabedoria pela academia, em diálogo com saberes e práticas que podem ser encontrados, mantidos e atualizados por diferentes povos tradicionais e movimentos sociais que lutam por saúde, dignidade e direitos territoriais.

A estrutura do artigo está composta da seguinte forma. Após essa introdução, discutimos a pluralidade epistêmica do mundo para pensar desafios e lacunas da interdisciplinaridade e o papel da interculturalidade. Na sequência usamos alguns autores da saúde coletiva e das ciências sociais, em particular da antropologia, que fornecem argumentos para pensar limites e alternativas que avancem na interdisciplinaridade e na interculturalidade para a produção de conhecimentos. Em seguida, a partir de encontros de saberes e projetos de pesquisa desenvolvidos nos últimos anos, apresentamos exemplos e experiências que buscam refletir e pôr em prática os desafios da interculturalidade no imaginar alternativas para a produção de conhecimentos sobre saúde, cuidado comunitário e natureza que para nós, são impulsionadores de processos emancipatórios e de transição paradigmática. Concluímos o artigo propondo que, para melhor compreender e ultrapassar os limites da ciência moderna, com suas disciplinas especializadas e cânones, precisamos, mais do que descontruir ou romper, apoiar movimentos que diluam e reconectem fronteiras entre ciência, vida, sociedade e cultura de forma consistente e respeitosa.

A pluralidade epistêmica do mundo: desafios e lacunas da interdisciplinaridade e o papel da interculturalidade

O ponto de partida para nossa reflexão epistemológica é revisitar o conceito de interdisciplinaridade e seus conexos (mono/multi/transdisciplinaridade). Ele foi e continua sendo importante para definir o campo da saúde coletiva a partir da proposta de autores críticos como Michel Foucault, Pierre Bourdieu e filósofos da ciência que influenciaram intelectuais importantes da saúde coletiva como Paim e Almeida Filho (1998), Minayo (2010) e Madel Luz (2009). Apesar de algumas diferenças, os autores convergem sobre os limites da disciplinaridade restrita (mono e multidisciplinaridade) e dos avanços propiciados pela inter ou transdisciplinaridade como caminhos inevitáveis de articulação para compreender e atuar ante objetos e sistemas complexos.

Um aspecto interessante a observar é que a diferença entre as duas modalidades de disciplinaridade (inter ou trans) não tem sido definida de forma precisa ou consensual, existindo pelo menos duas acepções relevantes. A primeira, aceita pelos autores mencionados anteriormente, caracteriza uma trajetória evolutiva da interdisciplinaridade para a transdisciplinaridade na busca por análises mais abrangentes e totalizantes em função da potencialidade hierárquica ou integrativa que certas disciplinas, teorias ou conceitos possuiriam para analisar e propor soluções para problemas complexos. Já para a segunda acepção, uma abordagem transdisciplinar é caracterizada como uma abertura para o diálogo entre conhecimentos acadêmicos e saberes (tradicionais, situados, locais) produzidos ou acionados por diferentes sujeitos fora dos espaços científicos. O diálogo se realizaria em redes colaborativas formadas por diversas categorias de atores, com o objetivo de gerar conhecimentos e desenvolver ações em torno de problemas e necessidades concretos (Mertens et al., 2022). Essa visão de transdisciplinaridade se aproxima, como veremos mais a frente, da de interculturalidade. Contudo, poucas vezes aprofunda as diferenças, dificuldades ou condições para que esse diálogo entre saberes distintos se realize, assumindo, na maioria das vezes, um protagonismo dos saberes científicos e da academia na organização e definição das gramáticas usadas para o diálogo.

Essa explicação se mantém relativamente estável no campo da saúde coletiva desde meados dos anos 1990, e as duas acepções têm convivido sem maiores aprofundamentos desde então. Porém, como veremos a seguir, problemas complexos e o diálogo com discussões epistemológicas recentes têm redirecionado ou produzido maior densidade conceitual e epistemológica sobre o tema.

Sem dúvida a recente crise sanitária produzida pela pandemia global de covid-19, em conjunto com outras crises de natureza social, política, econômica, ambiental e humanitária, tem sido um propulsor para a renovação epistemológica no campo da saúde coletiva. Isso fica evidente no artigo de Nísia Trindade Lima intitulado “Pandemia e interdisciplinaridade: desafios para a saúde coletiva” (2022), autora cuja atuação virtuosa como Presidente da Fiocruz acabou alçando-a ao Ministério da Saúde no novo governo Lula em 2023. Em verdade, o cenário anterior à pandemia já apontava várias crises que vinham se agudizando e foram intensificadas nos anos posteriores ao golpe contra o governo da Presidente Dilma Rousseff.

No artigo, Lima (2022) revê a ideia da interdisciplinaridade para avançar na compreensão e enfrentamento da pandemia de Covid e suas consequências. A pandemia é considerada um ‘fato social total’ por sua capacidade de movimentar e tornar indistinguíveis diferentes esferas que compõem a sociedade como um todo, sejam elas jurídica, econômica, religiosa ou cultural. Para enfrentar as várias crises provocadas ou agudizadas pela pandemia, a autora propõe dois caminhos a serem levados a cabo pela interdisciplinaridade no campo da saúde coletiva: superar as divisões entre mundo natural e sociedade ante a gravidade da crise ambiental, e a relevância da nova conformação do campo da informação e comunicação e seus impactos na sociedade contemporânea. Esse tema é estratégico para entender e atuar ante a crise democrática e política produzida, entre outras, pela manipulação de fakenews e discursos que colocam em lados opostos ciência e vários grupos sociais, muitos com tendências negacionistas, fundamentalistas e/ou fascistas. O modelo de ciência especializada seria um obstáculo epistemológico a ser superado pela interdisciplinaridade, conceito este mais acentuado pela autora que o de transdisciplinaridade, mencionado apenas quando referenciado pelos autores já citados da saúde coletiva.

Tendo por referência esse importante artigo de Nísia Lima, gostaríamos de destacar duas lacunas ou limites nas discussões sobre interdisciplinaridade na saúde coletiva. Primeiro, a radical ausência do termo interculturalidade nos trabalhos mencionados sobre interdisciplinaridade. Segundo, embora os principais autores da saúde coletiva considerem os processos sociais, econômicos e culturais como fundamentais para o enfrentamento das iniquidades e desigualdades sociais, inexiste uma preocupação epistemológica sobre o lugar cognoscente dos sujeitos não acadêmicos enquanto produtores de conhecimento. Eles são considerados, via de regra, como detentores de saberes, valores e práticas não científicos de natureza política, ideológica e cultural, ou ainda como senso comum ou conhecimento leigo. Movimentos sociais de trabalhadores, feministas, ambientalistas e mesmo de populações tradicionais (como indígenas e quilombolas) são assumidos como sujeitos fundamentais reconhecidos enquanto cidadãos e protagonistas da transformação social, mas distantes ou irrelevantes para a definição dos critérios de qualidade para a produção de conhecimentos assumidos pelos cânones científicos da modernidade. Nesse sentido, caberia à ciência e suas comunidades especializadas de pares o papel de outorgar o critério final de qualidade dos conhecimentos válidos, mesmo na transdisciplinaridade, o que reforça a ideia de objetividade e de procedimentos metodológicos que mantenham o distanciamento necessário dos pesquisadores da realidade analisada e dos sujeitos que estão submergidos nela.

Uma contribuição crítica para repensar as bases epistemológicas que sustentam o projeto da modernidade e sua ciência é realizada por Santos, Menezes e Nunes (2004) em torno da diversidade epistemológica do mundo. Para os autores essa pluralidade se expressa tanto de forma interna dentro da ciência e de seus paradigmas, como pela pluralidade de outros sistemas de conhecimentos. Em nossa proposta, assumimos que são justamente esses conhecimentos gestados fora dos cânones científicos que trazem sentidos e respostas sábias para questões e ações de natureza existencial e pragmática, seja ela individual ou coletiva, por conectarem dimensões fundamentais para a compreensão e resolução de problemas simultaneamente complexos e significativos, tornando indissociáveis fato e valor.

Existe uma vasta contribuição epistemológica nas últimas décadas que tem trabalhado novas perspectivas abrindo caminhos para a construção de abordagens interdisciplinares e interculturais. A partir das ciências da vida, Tesser e Luz (2002) mencionam a relevância de autores como Thomas Kuhn, Ludwik Fleck, Imre Lakatos, Paul Feyerabend, Humberto Maturana e Francisco Varela, dentre outros, os quais produziram uma ampla crítica à ilusão representacionista do positivismo. Para a epistemologia contemporânea representada por tais autores, todo movimento cognitivo torna indissociável fato e valor, cuja separação é um dos fundamentos da ciência normal no sentido kuhniano, superada pela nova conexão que traz para o centro a indissociabilidade entre cultura, os valores e as incertezas em qualquer forma de conhecimento. Como alternativa epistemológica, Funtowicz e Ravetz (1993) propuseram uma nova abordagem, a Ciência Pós-Normal, para enfrentar problemas complexos ao lidar com fatos incertos e valores elevados.

Retomando Tesser e Luz (2002), “os interesses, os valores, as tradições, os paradigmas, os estilos de pensamento, o treinamento e a aprendizagem que todas as pessoas carregam” (p. 368) tornam inviável alcançar um conhecimento objetivo puro. Esse é um dos fundamentos para que o novo desafio epistemológico esteja alicerçado não apenas em conhecimentos científicos e abordagens internas à ciência, mas sim numa pluralidade epistemológica mais ampla possível graças aos diálogos interculturais.

Enquanto a pluralidade científica é enfrentada pela interdisciplinaridade, a pluralidade do diálogo entre múltiplos sistemas de conhecimentos têm sido denominada, na falta de um nome melhor, de interculturalidade, ou ainda de transdisciplinaridade, embora evitemos usar essa expressão por manter a superioridade epistêmica das disciplinas científicas. A pluralidade externa aos conhecimentos científicos inevitavelmente inclui dimensões cosmológicas, espirituais, filosóficas, metafísicas, culturais, artísticas, práticas e de senso comum, sendo o resgate deste entendido por Stengers (2022) como uma missão filosófica estratégica na atualidade. Para nós, o desafio de uma ciência contemporânea para resgatar a sabedoria passa por construir e praticar com qualidade três atributos estratégicos: ser sensível pela conexão entre razão com afeto, arte e intuição; ser interdisciplinar por reconhecer e viabilizar a pluralidade interna à ciência, apoiando transições paradigmáticas; e ser intercultural por reconhecer e ampliar a pluralidade epistêmica para além da ciência moderna.

De certa forma, a interculturalidade surge como resposta para pensar os limites e alternativas de propostas epistemológicas aos dilemas da ciência especializada e mesmo da interdisciplinaridade. A proposta de uma interculturalidade crítica para avançar nos limites da ciência moderna vem sendo explicitada nas diversas escolas pós-coloniais em suas várias vertentes e continentes fora da Europa, seja na Ásia, África, América ou Oceania. Devido à nossa trajetória, nos aproximamos particularmente das chamadas epistemologias do Sul (Santos; Meneses, 2014). Embora seu principal autor seja o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, tal vertente realiza um esforço permanente de produzir um pensamento mais independente sobre o Sul Global. Por exemplo, pela aproximação orgânica com movimentos sociais e intelectuais de vários continentes do Sul Global, caso da antropóloga moçambicana Maria Paula Meneses, co-organizadora do livro aqui mencionado. Para esses dois autores as epistemologias do Sul podem ser definidas como o:

[…] conjunto de intervenções epistemológicas que denunciam a supressão dos saberes levada a cabo, ao longo dos últimos séculos, pela norma epistemológica dominante, valorizam os saberes que resistiram com êxito e as reflexões que estes têm produzido e investigam as condições de um diálogo horizontal entre conhecimentos. A esse diálogo entre saberes chamamos ecologias de saberes (Santos; Meneses, 2014, p. 13).

Um objetivo estratégico das epistemologias do Sul é promover uma transição paradigmática que enfrente a radical separação hierárquica entre conhecimento científico e o conhecimento chamado pelas epistemologias dominantes do Norte Global, pejorativamente, de vulgar ou leigo, como o popular, situado, tradicional e religioso. Nesse sentido, caberia à interdisciplinaridade trabalhar com a pluralidade interna da ciência, enquanto a interculturalidade teria como desafio epistemológico ampliar a conexão da ciência com a pluralidade de conhecimentos produzidos no âmbito da sociedade e da vida comunitária que fornecem sentidos e dignidade à existência humana nos contextos em que florescem. O conjunto das propostas conceituais e procedimentos metodológicos das epistemologias do Sul caminham nessa direção, como justiça cognitiva, ecologia de saberes, sociologias das ausências e das emergências, tradução e diálogo intercultural, artesania de práticas e, mais recentemente, as metodologias colaborativas não extrativistas (Santos, 2018).

Algumas inspirações conceituais e antropológicas para diálogos interdisciplinares e interculturais no campo da saúde coletiva

Mesmo abordagens interdisciplinares podem incorrer em inflexibilidades que dificultam a transição paradigmática quando se restringem a reconhecer como válida apenas a pluralidade interna da ciência com suas disciplinas e paradigmas. Tal perspectiva reserva à antropologia a principal responsabilidade pelo diálogo intercultural enquanto especialidade disciplinar que estuda os saberes e práticas dos povos tradicionais, como os indígenas, assumidos enquanto cultura ou, no máximo, etnociência, com um estatuto diferenciado e muitas vezes inferior em relação à ciência moderna. A ideia de diálogos, encontros ou ecologias de saberes ampliam o horizonte dessa concepção ao assumir o desafio do conhecimento de nossa era na busca de criar condições para o diálogo frutífero, respeitoso, convivencial e contextual entre diferentes sistemas de conhecimento. Tais interações entre espaços acadêmicos com os tradicionais e situados são produzidos e atualizados por comunidades ampliadas de pares que incluem outros sujeitos e conhecimentos vinculados a territórios, comunidades e movimentos sociais, cujas lutas por reconhecimento e sobrevivência estão profundamente imbricadas com a natureza e os processos de produção e defesa da vida.

Os desafios para diálogos mais profundos com povos originários e comunidades tradicionais estão presentes em diversos trabalhos sociológicos e antropológicos latino-americanos que inspiram práticas de interdisciplinaridade e interculturalidade contra ou, como preferimos, anti hegemônicas e que contribuem para a transição paradigmática. Enquanto a ideia de contra hegemonia implica em disputa e eventual tomada de poder dentro de um sistema sociopolítico hegemônico, a proposta de anti hegemonia é por nós entendida enquanto estratégia de ampliar e fortalecer convergências em processos emancipatórios de liberdade, auto-organização, autonomia e autodeterminação envolvendo distintos movimentos e sujeitos sociais que lutam por dignidade.

Em estudos sobre os povos mayas tzeltales y tzotziles de Chiapas (México) e mapuches de La Araucanía (Chile), o pluralismo epistemológico e contextual indígena expressa-se no mais profundo respeito aos diversos seres, sejam humanos, vegetais, animais, minerais e espirituais (Quilaqueo; Sartorello, 2018). Eles subjazem no território que cada pessoa habita e onde são realizadas atividades de uma comunidade para alcançar o “estar bem” e o “viver bem”, obtido por andanças experienciais (ou guianças, como denomina o sábio brasileiro Iran Xukuru, da etnia de mesmo nome) e conselhos de mestres e sábios, homens e mulheres que não separam a escola formal da escola da vida. Ou ainda nos trabalhos de Guerrero Arias, Ferraro e Hermosa (2016), que propõem o corazonar e descolonizar da ciência para a produção de conhecimentos a partir da sabedoria andina, uma ética e política para a compreensão do sentido do ser, do sentir, do pensar, do dizer e do fazer no cosmos, no mundo e na vida.

Outra referência é do antropólogo mexicano Eduardo Menéndez (2016), crítico atento aos desafios da saúde intercultural com suas propostas, ações e fracassos. Ele nos alerta que o diálogo intercultural precisa reconhecer a realidade, as relações sociais, as assimetrias e o poder biomédico. Os problemas da interculturalidade restrita se apresentam quando não enxergamos os perigos de desconsiderar o racismo ou vinculá-lo a um “culturalismo” que omite relações de dominação estrutural, ou ainda quando desprezamos a capacidade de agência e negociação das populações tradicionais, atrelando a condição de vulneráveis à necessidade de tutela que reduz ou impede seu poder de agência. Dessa forma, desvaloriza-se aquilo que Menéndez (2016) denomina de transacionar como condição de políticas e práticas mais efetivas e justas de atenção e promoção da saúde. Elas estão relacionadas à capacidade de realizar concessões recíprocas entre as partes e transigir, considerando as assimetrias, para encerrar ou dirimir certos conflitos de forma justa e efetiva, algo tão fundamental para aprendermos em contextos de intolerâncias e violências na busca por democracia e paz, uma missão estratégica dos diálogos interculturais enquanto objetivo da justiça histórica. Caso contrário, mesmo instituições oficiais e políticas públicas bem-intencionadas podem, em nome da interculturalidade, por exemplo enfraquecer o importante papel dos curadores tradicionais, incentivar conflitos inter ou intra-étnicos, ou ainda contribuir para os chamados epistemicídios, um termo criado pelas epistemologias do Sul para compreender e denunciar processos de apagamento e aniquilamento de sistemas de conhecimentos do Sul Global, como os de inúmeros povos originários.

Recordamos também trabalhos de alguns antropólogos contemporâneos que têm sido inovadores no sentido de romperem fronteiras para enfrentar o desafio interdisciplinar proposto por Nísia Lima (2022) voltado a diluir fronteiras entre Natureza-Cultura-Sociedade. Isso ocorre tanto com a tradição antropológica mais clássica que dá continuidade aos trabalhos de Lévi-Strauss no estudo de povos “não modernos” que ainda vivem no presente, como em outros que se aproximam da vida cotidiana em pleno ocidente. Por exemplo, Viveiros de Castro (2016), ao inventar o perspectivismo ameríndio para compreender as cosmologias amazônicas, no modo como humanos, animais e espíritos veem a si mesmos e aos outros seres do(s) mundo(s), contribui para novas possibilidades interdisciplinares e interculturais que constroem alternativas epistemológicas para além da antropologia, sejam elas acadêmicas, políticas, artísticas ou éticas.

Outro antropólogo contemporâneo que vem contribuindo para possibilidades interdisciplinares e interculturais na construção de um novo “paradigma ecológico” nas ciências sociais é Tim Ingold (2015). Seus trabalhos discutem as relações entre percepção, movimento, criatividade e habilidade, explorando esses conceitos nas interfaces entre antropologia, biologia, arte, arquitetura e design. Ingold ajuda a romper com as grandes divisões da modernidade e da epistemologia dominante, como natureza-cultura, sujeito-objeto-mente-mundo, até entre os sentidos corporais, como mãos-calcanhares, a visão e os outros sentidos. Por isso, para Ingold “… se mover, conhecer e descrever não são operações separadas que se seguem uma as outras em série, mas facetas paralelas do mesmo processo - o da vida mesma…” (2015, p. 13). A realidade é assumida como um conjunto de fios e linhas entrelaçados de movimentos entre os vários seres que compõem e são coprodutores da vida, sejam humanos e não humanos, vegetais e mesmo minerais. No caso específico dos humanos, como seres reflexivos e falantes, geramos narrativas, sentidos e histórias que marcam nossas trajetórias. De alguma forma, a proposta ingoldiana se aproxima tanto das Três Ecologias propostas por Félix Guattari (1990) e do perspectivismo ameríndio, como da sabedoria que buscamos aflorar com a transição paradigmática em direção as potencialidades emancipatórias de uma ciência interdisciplinar e intercultural apoiada por metodologias sensíveis e co-labor-ativas.

Experiências recentes de pesquisa com povos originários: interculturalidades e encontros de sábios na produção de relatos significativos

Para discutir o trilhar da transição paradigmática que almejamos em torno dos diálogos interdisciplinares e interculturais, este tópico sintetiza algumas frentes de trabalho que ilustram experiências em projetos de pesquisa em territórios e etnias indígenas com a participação dos autores, assim como uma atividade que denominamos de Encontros de Saberes. Para mais informações acessar https://neepes.ensp.fiocruz.br/.

A primeira frente discute com o povo Munduruku do Médio Tapajós, desde 2017, estratégias e ações para enfrentar vários problemas provocados por empreendimentos econômicos, em particular o garimpo de ouro. A região de atuação do projeto é a Bacia do Rio Tapajós, em particular o Médio Tapajós, onde vive parte dos Munduruku e outros grupos sociais tradicionais como os beiradeiros. O território tem sido palco de inúmeros conflitos ambientais decorrentes do modelo neoliberal, desenvolvimentista e neoextrativista existente na Amazônia, como a construção de hidrelétricas, infraestruturas como hidrovias, rodovias e portos para o transporte de grãos do agronegócio, madeireiras, fazendas de gado, ou ainda a mineração e o garimpo ilegal de ouro. Para construir alternativas de segurança e soberania alimentar nos territórios afetados pela contaminação de mercúrio decorrente do garimpo ilegal, temos avançado em diálogos interculturais a partir de projetos de pesquisa com os Munduruku na construção de uma rede sociotécnica de pesquisa-ação em agroecologia com o apoio da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), Associação Brasileira de Agroecologia (ABA), universidades, Organizações Não Governamentais (ONGs) e instituições de pesquisa, com destaque para a Embrapa Amazônia Oriental.

A segunda frente pensa a interculturalidade na agricultura e no cuidado tradicional em conjunto com a preservação ambiental a partir do olhar sensível de coletivos audiovisuais indígenas de duas etnias do Nordeste, os Tingui-Botó em Alagoas e os Xukuru do Ororubá em Pernambuco. Eles iniciaram o contato com o núcleo de pesquisa dos autores questionando a existência de documentários sobre indígenas que desconsideravam o protagonismo dessas populações em construírem suas próprias narrativas, registros e histórias a partir de seus saberes e lutas. A partir de uma proposta do cinema como atual contador de histórias (Fasanello e Porto, 2022), alicerçada na Sociologia das Imagens (Cusicanqui, 2015), a sensibilidade de cineastas indígenas assumiu um papel estratégico no diálogo intercultural entre os pesquisadores acadêmicos e os territórios nas lutas sociais. Dessa forma foi construído um projeto com a parceria de dois grupos de pesquisa da Fiocruz com experiência na produção de documentários e organização de mostras audiovisuais.

Uma terceira frente articula as duas anteriores com um projeto em andamento denominado Promoção Emancipatória da Saúde e Agroecologia para a Defesa de Territórios Indígenas e Biomas Ameaçados. O objetivo geral é promover a segurança e soberania alimentar a partir da sistematização e compartilhamento de experiências sobre agriculturas tradicionais e agroecologia em territórios indígenas, com oficinas realizadas em três biomas e regiões do país, o Nordeste, a Amazônia e o Centro-Oeste. A divulgação dos resultados será realizada por meio de audiovisuais produzidos junto com cineastas indígenas, assim como cadernos interculturais, relatórios e artigos científicos.

Por fim, há uma quarta frente de trabalho que denominamos de Encontros de Saberes. Esses encontros representam uma estratégia prática para a construção compartilhada de agendas, questões de pesquisa, sistematização de experiências, aprendizados e perspectivas futuras de trabalho. Os Encontros buscam avançar na construção de diálogos interdisciplinares e interculturais ao reunir intelectuais acadêmicos e orgânicos de movimentos sociais e territórios vulnerabilizados, incluindo indígenas, camponeses, populações de matriz africana, periferias urbanas, movimentos feministas, antirracistas, agroecológicos, ou ainda que atuam em práticas comunitárias, holísticas e tradicionais de cuidado. Entre 2018 e 2023 já foram realizados três Encontro de Saberes, o último sobre as metodologias sensíveis co-labor-ativas e as condições para processos mais efetivos de interação e diálogo que articulem linguagens científicas com outras não logocêntricas, como as artísticas, gráfico-imagéticas, poético-musicais, audiovisuais e populares. Outro tema que acompanha todos os Encontros é o fortalecimento do trabalho em redes sociotécnicas de cooperação que apoiem demandas e lutas concretas nos territórios.

Em todas as frentes de trabalho que envolvem indígenas e outras populações tradicionais o primeiro aspecto a destacar é a dedicação que vem sendo dada para a construção de relações de confiança na realização dos diálogos interculturais. Com o início da pandemia em 2020, foram assumidas diversas reuniões, oficinas e seminários híbridos e virtuais para os pesquisadores acadêmicos e presenciais para os indígenas. Assumimos a figura do pesquisador bolsista do território como figura estratégica para assumir e organizar diversas atividades dos projetos realizados durante o período da pandemia, com os cuidados preventivos previstos nos protocolos de pesquisa. Durante os projetos, a organização de questionários e entrevistas semiestruturadas sempre são discutidas pela equipe de pesquisadores acadêmicos e sujeitos dos territórios, e aplicadas pelos próprios indígenas em seus territórios. No caso dos indígenas cineastas do Nordeste, a experiência colaborativa de co-construção e co-presença foi além ao incorporar na coordenação do projeto dois indígenas junto com dois pesquisadores acadêmicos, tomando decisões conjuntas sobre as diversas fases e ações do projeto.

A proposta das metodologias sensíveis co-labor-ativas vêm sendo implementadas de várias formas desde o início dos trabalhos, com especial destaque para conversas guiadas nos territórios por lideranças tradicionais com as quais temos nos envolvido. Trata-se de um exercício de escuta profunda e produção do que chamamos de relatos significativos, quando histórias orais são contadas e traduzidas, caso dos Munduruku que possuem uma língua nativa utilizada no cotidiano das aldeias não urbanas. As rodas de conversa e os espaços construídos para contação de histórias e produção de desenhos, além das andanças guiadas nos territórios, vêm marcando os diálogos interdisciplinares e interculturais em processos de inter e autoaprendizados em nossa relação convivencial e contextual com os sujeitos em seus territórios, sejam indígenas ou outros grupos sociais.

Dada a limitação de espaço do artigo, apresentamos aqui apenas um dos inúmeros exemplos que ilustram a potência dos diálogos interculturais e a ecologia de saberes que buscamos aprofundar nos projetos. Trata-se do relato feito por duas autoridades tradicionais Munduruku, ambos caciques de aldeias, Juarez Saw (aldeia Sawré Muybu) e Jairo Saw (aldeia Sawré Aboy). Eles apresentaram o que consideram ser casos de sucesso na relação entre os Munduruku e cientistas Pariwati (homens brancos). Durante o processo de licenciamento para a construção de uma barragem hidrelétrica no Tapajós, a organização Greenpeace levou alguns biólogos e ecólogos de importantes universidades brasileiras especializados em pássaros e peixes para discutir com os Munduruku os impactos do alagamento em certas partes do rio com a redução ou desaparecimento de certas espécies. As lideranças tradicionais chamaram essa atividade de Encontro de Sábios (Munduruku e os da ciência dos Pariwati), pois ambos compartilharam conhecimentos sobre o que sabiam acerca dos pedrais no meio dos rios, os quais seriam alagados com as hidrelétricas, mas que os Munduruku consideravam fundamentais para a sobrevivência e reprodução de peixes e pássaros. O resultado desse Encontro de Sábios foi estratégico para a posterior decisão do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) à época de negar, naquele momento, a licença para a construção da hidrelétrica.

Em momento posterior, no Encontro de Saberes promovido pelo Neepes em 2018, cacique Jairo refletiu sobre como seriam os três tipos de cientistas Pariwati que os Munduruku haviam se relacionado em anos recentes. O primeiro seria um egoísta que só pensa em si mesmo, no dinheiro e prestígio que seus trabalhos de pesquisa podem gerar. O segundo corresponde ao cientista competente e mais honesto, porém arrogante ao não reconhecer como válido o conhecimento tradicional dos Munduruku e povos indígenas. O terceiro e mais raro de se encontrar seria o chamado sábio da ciência, competente e humilde, que respeita e reconhece o conhecimento dos Munduruku e suas lideranças tradicionais como sábios de visão que enxergam e conversam com os seres que habitam rios, florestas e os vários mundos visíveis e invisíveis com quem permanentemente se comunicam. Ele afirma que o Encontro de Sábios ocorrido naquele momento entre os Munduruku com os pesquisadores levados pelo Greenpeace foi uma feliz experiência com esse tipo de sábio cientista, pois todos assumiram honestamente a colaboração para intercambiarem conhecimentos e ignorâncias para a complementaridade de saberes na tomada de decisões sábias. Como afirma o cacique Jairo, “quem sabe ensina para quem não sabe, e cada pessoa sempre pode ensinar e aprender alguma coisa”. Para Jairo, o futuro da humanidade em boa parte dependerá do encontro entre sábios como esses em várias partes do mundo, incluindo os cientistas Pariwati que se disponham ao diálogo respeitoso com os sábios tradicionais e seu poder de visão. Segundo cacique Jairo, os sábios indígenas podem alcançar vários conhecimentos legítimos, alguns revelados como dom, outros decorrentes das experiências com a natureza e suas culturas, outros derivados do pensamento lógico e das experimentações científicas aprendidas com os sábios da ciência. O que define um sábio de visão não é seu interesse imediato por recursos e poder, mas acima de tudo a sensibilidade no respeito pelo conhecimento e pela vida dos outros seres criados, sejam plantas ou animais que habitam florestas e águas, assim com tudo que compõe e conecta a vida. Esse respeito se traduz, dentre outras coisas, pela forma como se pede permissão para entrar em outros reinos e realidades que possuem espíritos ou seres exercendo um domínio mais legítimo por terem eles como seus lares. Por isso o pedido de permissão que os Munduruku fazem aos espíritos dos rios, florestas e da ‘terra preta’, frequentemente na forma de rituais e cantos tradicionais, para pescar, caçar ou plantar.

Na visão tradicional Munduruku, assim como em muitas cosmologias indígenas, a tragédia moderna e da ciência dos Pariwati representaria, acima de tudo, o desrespeito pela vida e pelos conhecimentos que existem em outras culturas e mundos, muitos dos quais não conhecemos ou só podemos adentrar intuitivamente pelo dom da visão que transcende o pensamento racional. Para o cacique Jairo, o mau dos Pariwati, do capitalismo, da ciência moderna e da modernidade, com seus poderosos e pretensiosos governantes, empresários, economistas, cientistas e suas tecnologias reside na arrogância destrutiva que despreza e destrói outras experiências e saberes, principalmente os que se colocam como obstáculos para sua pretensão egoísta de controlar a natureza. Por isso, cacique Jairo enxerga uma profunda e ignorante inversão na máxima moderna dos Pariwati, de que os mais civilizados e superiores são os cientistas, economistas, governos e empresários, enquanto indígenas como ele são primitivos, ignorantes e bárbaros. Encontros de Sábios seriam remédios para esse mal da humanidade em uma era de tanta ignorância e destruição.

Considerações finais

Existem dois objetivos para uma ciência sensível interdisciplinar e intercultural. Primeiro, analisar e promover processos emancipatórios voltados ao que temos denominado de descolonizar e coracionar a academia para resgatar a sabedoria. Segundo, avançar em processos de transição paradigmática que imaginem novas configurações sociedade-natureza-saúde a partir da produção de conhecimentos junto com os territórios, comunidades e movimentos sociais envolvidos em lutas por saúde, dignidade e direitos territoriais.

Acreditamos que a contribuição de uma ciência sensível, interdisciplinar e intercultural será tão mais frutífera na medida que contribua para transformar e ampliar o papel da ciência especializada, sejam as sociais e humanas, da saúde ou ambientais, com suas disciplinas, paradigmas e cânones. Não se trata de abandonar a relevância da ciência normal especializada, seja aquelas voltadas aos mundos fisicalista, da vida ou das humanidades. Daí surge inclusive um mal-entendido de posições epistemológicas e políticas ditas radicais que acabam, em nosso ponto de vista, comprometendo ou inviabilizando diálogos interculturais por posições dogmáticas. A questão não é desconsiderar as evidentes contribuições das epistemologias do Norte Global, construídas nos últimos séculos de modernidade eurocêntrica. O desafio epistemológico de uma ciência sensível, interdisciplinar e intercultural é criar as condições para diálogos respeitosos entre diferentes sistemas de conhecimento. Compreender seus limites e ultrapassá-los na diluição de fronteiras entre vida, ciência e sociedade/cultura é estratégico para o diálogo intercultural com os povos originários e comunidades tradicionais, principalmente num momento que se agudizam inúmeras crises no planeta que implicam na necessidade de resgatarmos a sabedoria perdida pela modernidade e sua perspectiva utilitarista que acabou por reduzir e destruir a natureza (humana e não humana) ao controlá-la para atender interesses isolados e de curto prazo.

Acreditamos que o resgate da sabedoria pela ciência moderna implicará na incrementação de processos convivenciais entre as chamadas epistemologias do Norte e do Sul com encontros e sinergias entre sábios tradicionais, indígenas ou não, e grupos de cientistas acadêmicos abertos a processos de inter e autoconhecimentos, sendo por isso reconhecidos como cientistas sábios por lideranças indígenas como Jairo e Juarez Munduruku. Nessa perspectiva, os cientistas “do bem” se caracterizam por serem simultaneamente competentes e humildes, capazes de respeitarem e reconhecerem o conhecimento e a sabedoria tradicional. Dessa forma, todos compartilham conhecimentos e ignorâncias para a complementaridade entre os que sabem e os que não sabem na busca por decisões sábias. Diálogos interdisciplinares e interculturais respeitosos têm aflorado em projetos de pesquisa e Encontros de Saberes entre mestres tradicionais e a academia, como os realizados na Universidade de Brasília (UnB) nos últimos 20 anos (Carvalho, 2021). Os frutos e sementes desses diálogos são passos estratégicos para ultrapassar as crises civilizatória, paradigmática, socioambiental e sanitária que vivemos. Incorporar e interagir com sábios portadores de saberes tradicionais e situados é uma tarefa muito importante e recentemente, foi objeto de uma tese de doutorado que incorporou as contribuições de dois intelectuais orgânicos, um indígena (Ailton Krenak) e outro quilombola (Nego Bispo) em sua relação com a saúde coletiva (Aguiar, 2023).

É importante mencionar que temos percebido um papel cada vez mais importante de indígenas, quilombolas e lideranças de movimentos sociais, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) e o Movimento Sem Teto da Bahia (MSTB), que transitam na academia e possuem um papel importante nos processos de tradução intercultural entre saberes tradicionais, situados e científicos. Vários indígenas na atualidade têm exercido esse papel, sendo Ailton Krenak, Davi Kopenawa e Daniel Munduruku exemplos de intelectuais orgânicos indígenas que vêm influenciando o debate público atual sobre o presente e o futuro da humanidade a partir do Brasil. Outro exemplo é o autor do livro “O mundo em mim: uma teoria indígena sobre o corpo no Alto Rio Negro”, João Paulo Lima Barreto (2022), do povo Tukano e ganhador do prêmio CAPES Tese 2022. Ele tem expressado de forma singular sua cosmovisão confrontando-a com o saber acadêmico antropológico em uma teoria do corpo e do cuidado. Alguns indígenas com quem temos trabalhado nos projetos de pesquisa iniciaram uma atuação no recém criado Ministério dos Povos Indígenas, um desafio extremamente importante e delicado sobre a interculturalidade na política e no Estado.

Uma ciência sensível, interdisciplinar e intercultural precisa estar sempre aberta e atenta para incorporar uma pluralidade de perspectivas e dinâmicas que contribuam para exercícios de interculturalidade, encontros e ecologias de saberes. Por exemplo, temos nos aproximado a intelectuais feministas indígenas, como Elisa Pankararu, que apresenta uma perspectiva diferenciada do feminismo principalmente branco e eurocêntrico. No último Encontro de Saberes, Elisa se apresentou enquanto mulher indígena, sertaneja, nordestina, pernambucana, oriunda do Bioma Caatinga, e antropóloga. Portanto sua identidade se apresenta inextricavelmente relacionada com sua cosmologia e com a natureza em um bioma simultaneamente de beleza e encantamentos, mas também de conflitos e lutas. Elisa ressalta a Caatinga como um bioma único sendo, portanto, de grande importância ao equilíbrio climático, tanto no Brasil como no planeta, por isso suas lutas e seus conhecimentos transcendem seu território e sua etnia. Isso está relacionado ao que Fasanello e Porto (2024) denominam de interlutas como estratégia central para a construção de diálogos interculturais que aproximem e conectem diferentes movimentos e territórios em escalas crescentes. Posições dogmáticas e paradigmas fechados impedem essa aproximação, e contradições radicais entre diferentes grupos, como no caso de feminismos indígenas ou de mulheres islâmicas, podem apresentar incomensurabilidades radicais que impedem os diálogos sobre esses temas. A sabedoria indica, nesses casos, o reconhecimento de terrenos arenosos a serem enfrentados com cuidados, pausas e silêncios pragmáticos para que, sem a perda da dignidade e de valores importantes, possam ser mantidos diálogos interculturais e articulações interlutas entre territórios e grupos vulnerabilizados. A ideia de pluriverso e interculturalidade implica em assumirmos a diversidade na unidade e a unidade na diversidade com lema estratégico à construção de dinâmicas plurais e respeitosas para a produção de conhecimentos.

A presença de intelectuais indígenas, da negritude, do feminismo indígena e de muitos outros sistemas tradicionais de conhecimento expressam uma semente de futuro promissor para o florescer de diálogos interdisciplinares e interculturais importantes para, como nos diz Ailton Krenak, podermos adiar o fim do mundo em tempos sombrios com a luz de suas sabedorias sobre sociedade e natureza.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    30 Maio 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    06 Abr 2024
  • Revisado
    24 Jul 2024
  • Revisado
    23 Set 2024
  • Aceito
    09 Out 2024
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