schoolUniversidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Departamento de Ciência Política, Centro de Estudos Republicanos Brasileiros (Cerbras), Belo Horizonte, MG, Brasil. christianbrunoas@gmail.comUniversidade Federal de Minas GeraisBrazilBelo Horizonte, MG, BrazilUniversidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Departamento de Ciência Política, Centro de Estudos Republicanos Brasileiros (Cerbras), Belo Horizonte, MG, Brasil. christianbrunoas@gmail.com
I
Roberto Schwarz (1987) assinala o caráter triunfalista da interpretação antropofágica do atraso da sociedade brasileira. Para o autor, a desarmonia entre padrões burgueses e sobrevivências primitivistas, amiúde índice de um destino malsinado, é convertida em atributo positivo pelo discurso da antropofagia. O otimismo ainda se expressa pela possibilidade aberta de construção de uma trajetória histórica alternativa à burguesa, em função da assimilação das conquistas técnicas da modernidade ao fundo primitivista da nação, delineando os contornos de uma experiência utópica no Brasil. Todo esse quadro é qualificado de ingênuo e ufanista por Schwarz (1987: 38): “A distância no tempo torna visível a parte de ingenuidade e também de ufanismo nestas propostas extraordinárias.” Talvez o termo ufanista não seja o mais adequado para se referir ao programa da antropofagia, por não me parecer estar no seu cerne uma exaltação cega e idílica de supostas virtudes superiores da nação, mas a identificação de um instinto nativo de agressividade que deve ser recuperado como condição para a deflagração de uma ruptura com estruturas normativas contrárias a uma existência mais lúdica e prazerosa. Por outro lado, o fato de o movimento antropofágico não recorrer à categoria classe como elemento propulsor de um processo revolucionário não constitui razão para classificar de ingênua sua proposta combativa, a qual está mesmo centrada no indivíduo e opera no plano dos referenciais simbólico-valorativos, sem, contudo, deixar de estar investida de alto teor subversivo e potencial transformador.
Christian Bruno Alves Salles é bacharel em história pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e doutor em sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp/Uerj). Atualmente é pesquisador do Centro de Estudos Republicanos Brasileiros (Cerbras) da UFMG.