Resumo
Este ensaio busca delinear e entrecruzar um diálogo (possível) entre a sociologia pragmática de Laurent Thévenot e a “Escola Antropológica de Niterói”, na qual tomo como objeto central da análise o livro de autoria de Arno Vogel, Marco Antonio da Silva Mello e Flavio Pessoa, Galinha D´Angola. Trata-se de uma operação interpretativa do autor do ensaio com a finalidade de buscar explicitar linhas epistemológicas comuns. Desse modo, buscarei contribuir para que o público brasileiro disponha elementos suplementares para o refinamento do entendimento da potencialidade da sociologia de Laurent Thévenot, observando questões situadas no Brasil, bem como para evidenciar a originalidade da antropologia brasileira e sua capacidade de forjar quadros teóricos mais amplos.
Palavras-chave:
Sociologia pragmática; Laurent Thévenot; Antropologia brasileira
Abstract
This essay seeks to delineate and cross-reference a possible dialogue between Laurent Thévenot’s pragmatic sociology and the “Anthropological School of Niterói,” in which I take as the central object of analysis the book written by Arno Vogel, Marco Antonio da Silva Mello, and Flavio Pessoa Galinha D´Angola. This interpretative exercise seeks to explain common epistemological lines. Thus, I seek to contribute to providing the Brazilian public additional elements for refining their understanding of the potential of Laurent Thévenot’s sociology in light of issues in Brazil and to show the originality of Brazilian anthropology and its capacity to forge broader theoretical frameworks.
Keywords:
Pragmatic sociology; Laurent Thévenot; Brazilian anthropology
Este texto é um ensaio. Minha proposta é de produzir um diálogo entre a sociologia pragmática de Laurent Thévenot e a “Escola Antropológica de Niterói”, na qual tomo como objeto central da análise o livro de autoria de Arno Vogel, Marco Antonio da Silva Mello e Flavio Pessoa, Galinha d’Angola. O entrecruzamento das abordagens dos autores do Brasil e da França foi conformado por mim ex-post. Afinal, o encontro entre Laurent Thévenot e a antropologia brasileira se deu muito posteriormente à publicação de suas principais obras e textos. Igualmente, Vogel, Mello e Pessoa transitam por estradas teóricas que não estão associadas, a princípio, à sociologia pragmática francesa. Trata-se, portanto, de um diálogo possível e formulado por mim.
Buscarei explicitar os caminhos possíveis e os entrecruzamentos com a sociologia pragmática de Laurent Thévenot e a antropologia do político-simbólico, dos rituais, dramas e conflitos identitários inscrita no livro Galinha d’Angola. Focando particularmente nas implicações sociológicas do rito do Iaô à missa da Igreja Católica, considerando suas implicações sociológicas para repensar a noção de sincretismo, buscarei traçar as linhas de diálogos possíveis entre as abordagens dos antropólogos brasileiros e do sociólogo francês.
Inicio o ensaio com uma breve história dos encontros entre cientistas sociais dos dois continentes, com o propósito de situar o leitor com o contexto da produção dos diálogos internacionais e institucionais, para posteriormente tecer, de forma ensaística, os entrecruzamentos.
Comecemos pela história dos encontros….
“A VIDA É A ARTE DOS ENCONTROS…”
Mais ou menos 1995… 1996…
Roberto Kant de Lima, o Kant, em muitas ocasiões relatou que, embora tivesse feito sua formação nos EUA (realizou seu doutorado em Antropologia em Harvard e realizou trabalho de campo lá), deslocou seu interesse para o outro lado do Atlântico para sedimentar laços institucionais e acadêmicos com grupos que eram do interesse de seus colegas de departamento (Departamento de Antropologia da UFF) e, na ocasião, o recém-criado Programa de Pós-Graduação em Antropologia e Ciência Política (PPGACP, hoje Programa de Pós-Graduação em Antropologia - PPGA). A França era um desses lugares, dentro do quadro internacional, que suscitava o interesse dos professores ligados aos dois espaços institucionais da Antropologia da UFF. Mesmo mantendo no Brasil seu olhar etnográfico e analítico dirigido para os EUA, diante de sua visão institucional e acadêmica (e face a sua generosidade e senso de coletivo), passou a conceder uma atenção para a França. Mas na vida, mais do que projeções e planejamentos, é preciso fazer proveito dos encontros e oportunidades ofertadas pelos cruzamentos dos destinos.
Kant havia retornado de Harvard com uma tese original e inovadora sobre a polícia e o sistema de justiça criminal (Kant de Lima, 2019), abrindo um novo terreno de estudos empíricos a respeito de um objeto, à época, pouco estudado, periférico e malvisto pelas ciências sociais na ocasião (e ainda assim o é, apesar dos pesares!): o sistema de justiça e segurança pública. A professora Lícia do Prado Valladares estava organizando um seminário internacional no antigo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) (hoje Instituto de Estudos Sociais e Políticos - Iesp) sobre a temática da violência, justiça, criminalidade, favelas, sobre o universo urbano etc. Como relatado pelo próprio Kant, ao tomar ciência da existência do seminário tomou a liberdade de ligar para a professora Lícia Valadares para lhe perguntar sobre o motivo de ele não ter sido convidado para o evento, já que tinha acabado de defender uma tese, fruto de uma densa pesquisa etnográfica junto à justiça e à polícia, que estava relacionada com o a temática do colóquio. A professor Lícia, diante dos argumentos kantianos, não pensou duas vezes e o integrou à programação do seminário.
No dia da palestra do Kant no referido evento, ocorreu um événement etnográfico. Depois de discorrer sobre sua etnografia acerca das práticas policiais da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, das formas de tratamentos dos dispositivos legais por parte dos seus agentes, um ouvinte, advogado, levantou-se de deu início à produção de um contraditório1 com o palestrante, desdizendo tudo o que o palestrante havia discorrido com seus dados etnográficos. Bem… Kant, imbuído de seu espírito aguerrido, bem como ciente da gramática e cosmologia dogmática própria do universo jurídico, e diante do terreno etnográfico consistente pelo qual caminhava, reconheceu que na fala (e discurso) do seu interlocutor na plateia reinava a lógica do contraditório. No lugar de dar início a um “embate argumentativo escolástico” que resultaria em nada, a não ser perda de tempo e energia, resolveu então convidar as pessoas da plateia para uma rápida visita à Delegacia que ficava nas cercanias do Iuperj para verificarem o que estava a expor por meio da épreuve etnográfica. Sair do disse-me-disse da retórica jurídica! Como era um evento pequeno, algumas delas se prontificaram a seguir o Kant para a observação. E lá pôde demonstrar in loco o que estava dispondo na palestra sobre sua etnografia. Matou a cobra e mostrou o pau!
Dentre as pessoas do público que se dispuseram a seguir o antropólogo, estava Isaac Joseph, professor titular do Departamento de Sociologia da Universidade de Paris Nanterre, um dos palestrantes internacionais do evento; diante da prática pragmatista de Kant, embora de longe fosse um pragmatista, Isaac julgou aquilo fabuloso e ficou positivamente impressionado com o gesto antropológico de Kant. O événement etnográfico desencadeou uma intensa conversa entre Isaac e Kant, culminando no início do entrelaçamento e diálogo (e profunda amizade) entre os dois. Isaac Joseph que retornou para a França, mas manteve contato com o colega brasileiro2.
Algum tempo depois, a filha de Isaac Joseph realizou uma viagem ao Brasil. Em sua passagem pelo Rio de Janeiro, ficou hospedada na casa de Kant. Muito grata pela generosidade, acolhimento e cuidado concedido a ela durante sua estadia no Rio, ela indagou Kant o que ela e seu pai (Isaac Joseph) poderiam fazer para retribuir a gentileza. Como ele relata, “meio sério, meio brincando”, sentenciou: “ele pode nos retribuir fazendo um Capes-Cofecub conosco”3. Para a surpresa de Kant, um ano depois (ou dois anos), Isaac Joseph aterrissou no Brasil com o propósito de discutir com o Kant e os demais professores da UFF a conformação de um Programa Capes-Cofecub4.
Foi a partir desse programa institucional que foi possível o encontro entre os(as) antropólogos(as) e cientistas sociais da UFF e Laurent Thévenot anos depois5. Entre causos, casos e acasos, foi nas encruzilhadas de muitos encontros, desencontros que os caminhos se cruzaram …
ENCRUZILHADAS DOS DESTINOS
Novembro de 2006.
Eu era um estudante de doutorado em Antropologia na Universidade Federal Fluminense, numa inserção no mundo acadêmico francês absolutamente estranho ao que estava habituado a vivenciar no Brasil. Encontrava-me como bolsista de doutorado-sanduíche no âmbito do Programa Capes-Cofecub celebrado entre a Universidade Federal Fluminense e a Universidade de Paris Nanterre (à época, Paris X)6. Estava realizando as disciplinas com o professor Daniel Cefaï na Universidade de Paris X (meu supervisor no doutorado na França), mas circulava nos seminários na École des Hautes Études en Sciences Sociales e utilizava a biblioteca desta instituição para me iniciar profundamente no árduo exercício de compreensão da sociologia e antropologia da chamada tournant pragmatique7.
Meu professor, Marco Antonio da Silva Mello, já havia me alertado da importância do trabalho do professor Laurent Thévenot, bem como meu orientador no Brasil, Roberto Kant de Lima, me aconselhava a fazer proveito desse momento para dialogar com Thévenot e parceiros8. Portanto, sempre atento aos conselhos dos meus mestres e mestras, segui os seus seminários na EHESS. E de fato havia algo de extraordinário naquela sociologia e naquele ser humano. Thévenot pensava às avessas, fora da caixinha da repetição de bordões sociológicos e antropológicos, e nos levava a nos inquietar por meio de exercícios efetivamente contorcionistas do ponto de vista do pensamento antropológico e sociológico.
O Seminário ocorria nas dependências da EHESS, na rua Boulevard Raspail, em um prédio ao lado da Aliança Francesa. Na sala, uma mesa em formato de retângulo, no qual em uma ponta ficava Thévenot e noutra, no fundo, um relógio grande na parede para regular o tempo regrado do mundo do rendez-vous. As aulas começavam e terminavam nos horários exatos. Nem mais, nem menos… No curso tinham alunos de muitas nacionalidades: russos, belgas, alemães, franceses, italianos, brasileiros… O professor buscava imprimir, com seu humor e ironia particular, um ritmo às sessões que as tornavam acolhedoras, divertida e, sobretudo, estimulante intelectualmente. Ele fazia questão de pedir que os alunos se manifestassem sobre os temas e questões que eram tratados no curso. Pedia que falássemos de nossas pesquisas, trouxéssemos questões e problematizássemos o que estava sendo tratado. Diante de um público tão diverso, explorava as diferenças existentes entre os entendimentos, bem como das características dos mundos dos quais fazíamos parte. Era a curiosidade sincera em pessoa…
Uma questão, dentre muitas outras, que pairava no seminário e informava algumas discussões, dizia respeito aos limites do conceito de identidade9, nos moldes como ele havia se desenvolvido de forma original por meio do interacionismo simbólico de Erving Goffman (1975) ou da antropologia política das fronteiras étnicas de Fredrik Barth (2011). Essa discussão foi muito proveitosa para poder cruzar algumas linhas entre as duas ciências sociais: uma produzida em Paris e a outra em Niterói/RJ. Foi a partir dessa linha analítica que comecei a vislumbrar pontos convergentes; face aos estimulantes debates e reflexões que se desencadeavam em sala de aula, alguns pontos foram sendo tecidos.
Na próxima sessão, focando da obra de Arno Vogel, Marco Antonio da Silva Mello e José Flávio Pessoa de Barros, dedicada ao estudo da iniciação e identidade na cultura afro-brasileira presente no livro Galinha d’Angola, buscarei costurar alguns fios e pontos que foram forjados no diálogo com Laurent Thévenot em seu seminário na EHESS e, posteriormente, refinados em discussões empreendidas com um dos autores do livro mencionado, Marco Antonio da Silva Mello. Os entrecruzamentos analíticos e epistemológicos são elaborados por mim, afinal, Thévenot e Mello só foram se conhecer quase uma década depois da publicação de suas obras.
COSTURANDO LINHAS POSSÍVEIS DE DIÁLOGOS
O livro Galinha d’Angola: iniciação e identidade na cultura afro-brasileira, foi publicado no Brasil originalmente em 1993. Trata-se de uma obra inspirada na tradição da antropologia política processualista da chamada Escola de Manchester (que encontra nas figuras de Victor Turner, Max Gluckman, dentre outros, fonte de inspiração) e concebe a formação dos fenômenos humanos sob a égide do processo e do conflito, tensões nos engendramentos identitários e dramas sociais e no papel da interação entre as pessoas e os objetos.
Cabe notar que o primeiro capítulo concede uma atenção ao mercado, já que “uma viagem ao mundo afro-brasileiro começa no mercado. Nas Sete Portas, no Mercado Modelo ou na Feira de Água de Meninos, pois a Bahia” (Vogel et al., 2023: 5). O mercado é, justamente com os caminhos e suas encruzilhadas, o domínio por excelência de Esú e o lugar apropriado para observar o lugar que os objetos ocupam nos ritos sociais. Do mesmo modo, os objetos cumprem um lugar central na sociologia dos investimentos de formas ou na sociologia do engajamento (ou envolvimento) de Laurent Thévenot, pois para este autor o social requer matérias e materiais diversos para o investimento da forma social. Mas voltando ao livro dos cientistas sociais do Brasil, Vogel et al. (2023: 29) chamam atenção que:
O mercado constitui, sem dúvida a maior confluência de elementos simbólicos numa configuração sincrônica. Qualquer um deles pode levar ao investigador ao cerne da cosmologia do candomblé, ainda que se trate do mais despretensioso objeto. Isto não impede que existam ao lado desses caminhos, muitos deles acidentados e tortuosos, as estradas reais, as portas magnas.
Podemos considerar que o mercado compõe um dos mundos, no sentido atribuído por Boltanski e Thévenot em De la justification, de relevância nas épreuves pelas quais os iniciantes do candomblé (iaô) precisam se submeter para conferir seu novo estado: o de pertencente a comunidade de filhos-de santo. E é nele em que coisas e pessoas se entremeiam.
Nas linhas seguintes do livro se desenrolam, com sofisticação sociológica e etnográfica, as elaborações feitas pelas/sobre as coisas por meio dos agentes inscritos nos rituais iniciáticos, as exegeses simbólicas empreendidas pelos nativos e suas articulações com as análises socioantropológicas que lançam questões instigantes para a compreensão de determinados fenômenos sociais por meio de lentes que subvertem os focos analíticos tradicionais e lançam propostas originais do ponto de vista teórico e metodológico.
Buscando traçar os cruzamentos entre as perspectivas da antropologia brasileira e sociologia pragmática, podemos enfatizar que Boltanski e Thévenot (2020: 131), em De la justification, chamam atenção para o fato que “a qualificação de objeto não é, em nossa construção, reservada à natureza do cientista ou do técnico, que deteriam o privilégio sobre a realidade e a objetividade. Cada natureza conta com seus objetos, que se prestam igualmente à comprovação”. Um primeiro ponto de convergência importante emerge entre as duas démarches!
Todavia, queria avançar, já que não se trata de uma resenha do livro citado, para um aspecto que é a contribuição mais original estimulante trazida pelo livro dos três autores brasileiros e que se articulam com a sociologia dos investissement de formes e da sociologia dos envolvimentos (ou engajamentos) propostas por Laurent Thévenot (na bibliografia é possível verificar as diferentes referências a respeito). Trata-se da ida do iaô à missa, momento no qual as sequências de épreuves conformam materiais práticos para os revestimentos identitários dos sujeitos concernidos no processo de iniciação.
No lugar de tratar o problema da ida do iaô à missa da Igreja Católica a partir da chave analítica do sincretismo, Vogel et al. (2023: 128) consideram que o “sincretismo assume a forma de um obstáculo epistemológico”. O sincretismo:
é na realidade o campo paradoxal de uma articulação sociológica não só possível, nos termos da cultura brasileira, mas obrigatória na deontologia do candomblé. A partir daí, acreditamos poder propor uma alternativa para solucionar o enigma (Vogel et al., 2023: 128).
A maneira de “solucionar o enigma”, portanto, consiste em considerar as - tomando a liberdade para fazer usos de categorias da sociologia pragmática francesa - gramáticas políticas inerentes ao universo do candomblé, levando em consideração os diferentes regimes de ação implicados nas fases dos rituais - o dia-do-nome (orúkǫ), o panán (ou a quitanda do iaô) e a romaria.
Ao realizarmos uma leitura pragmática da obra dos antropólogos brasileiros, é possível notar as possíveis conexões. Por exemplo, caracterizar as fases dos rituais como modus operandi do desenvolvimento de ordres de grandeur. Mas o que seriam as ordres de grandeur?
No lugar de usos correntes de categorias como classe, habitus, raça etc., Boltanski e Thévenot desenvolvem a ideia de ordens de grandeza, apontando, por um lado, para o pluralismo radical com o qual as pessoas são confrontadas nas sociedades contemporâneas, e, por outro lado, para as diferentes formas com as quais os atores podem se investir de distintas maneiras no laborioso trabalho de composição e coordenação de seus revestimentos e/ou estados e dos processos e formas em que eles concebem os diferentes componentes identitários que atestam a autenticidade da sua reivindicação. Como enfatizam Boltanski e Thévenot (2020: 86):
Foi ao nos perguntarmos sobre os problemas apresentados por sua confrontação em um mesmo quadro discursivo, e até nos mesmos enunciados, que fomos levados a colocar no centro de nossa investigação as questões levantadas pelo próprio ato de qualificar - não apenas as coisas, mas também esses seres particularmente resistentes à qualificação que são as pessoas. Concentrar nossas pesquisas nas operações de qualificação mostrou-se algo de interesse maior, porque essa posição nos permitiu um movimento de ida e vinda entre as interrogações habitualmente determinadas pela epistemologia e as questões mais próprias à sociologia ou à antropologia.
A noção de grandeza nos parece particularmente fecunda do ponto de vista analítico e metodológico, pois ela evidencia que nas situações de disputa e conflitos, como observados no ritual da ida do iaô a missa, os momentos de perturbação, de avaliação e reorientação dos modos de qualificação das coisas e pessoas se processam em um universo multiforme, sob a égide da incerteza e sua natureza é compósita. Como salientam Vogel et al. (2023: 141):
As identidades assumem, ao longo da romaria, e em grau crescente, uma modalidade contrastiva. No interior da igreja defrontam-se dois pontos de vista. Esse encontro, acalorado ou não, tem sempre um alto potencial dramático. Os atores em presença não podem enganar-se quanto aos seus respectivos papéis. A distinção é nítida. Salta, por assim dizer, aos olhos; e por isso não deixará de ser atestada pelas atitudes, olhares e comentários. Não há como ignorar a diferença. A situação configura-se de tal modo que uma parte dos fiéis presentes no recinto sagrado é posta, sem apelação, diante do evidente envolvimento da outra com o candomblé. O que parece estar em causa, aqui, é a legitimidade (ou não) da presença do iaôs no santuário católico.
Nesse sentido, a noção de grandeza propõe um deslocamento epistemológico que visa evidenciar a multiplicidade de modelos de ação que são ofertados e que podem ir para além daqueles apresentados por categorias que congelam a análise dos fenômenos e antecipam interpretações que, muitas vezes, como no caso da noção de sincretismo, mais confundem do que propriamente colaboram para elucidar o enigma antropológico. A sociologia de Thévenot é particularmente atenta às competências críticas dos atores, bem como à apreensão e ao discernimento deles em compor com a pluralidade de formas do mundo sem cair num relativismo estéril, pois, como frisa Thévenot (2006: 251):
A análise levada a cabo com Luc Boltanski sobre as “ordens de grandeza” nos conduz a reconhecer o pluralismo radical com o qual as pessoas são confrontadas nas nossas sociedades críticas, aquela de qualificar legitimamente a ação em público (Boltanski e Thévenot, 1991). Mais que etiquetar as diferenças de estatutos, de pertencimentos a grupos sociais ou disposições duráveis, exploramos uma hipótese ortogonal sobre a vida em sociedade: as mesmas pessoas que são levadas a compor a experiência de uma pluralidade de maneiras de qualificar uma conduta e de colocá-la à prova (épreuve). Mais que uma diferença de papéis, de mundos sociais, ou até mesmo de identidades escolhidas, esta pluralidade conduz a diferentes basculements das provas de realidade, submetendo-as às tensões críticas das pessoas e da comunidade inteira.
Ou seja, para elaborar os sentidos e significados válidos, ou justificativas identitárias que sejam legítimas, os atores portam consigo competências cognitivas práticas que estão disponíveis nos mundos em que habitam para que esses repertórios ganhem em generalidade, mediante determinadas condições que pressupõem o basculement, ou seja, as mudanças e alterações de direções das ações que conduzem o trabalho de qualificação para caminhos oblíquos. Como ressaltam Boltanski e Thévenot (2020: 40-41) no prefácio à edição brasileira do livro A justificação:
Uma vez que os estados não podem ser atrelados de uma vez por todas às pessoas, como conciliar a previsibilidade ligada aos estados de grandeza e a recolocação do processo de comprovação (Boltanski, 2012[1990])? Esse problema lança luz sobre outra tensão do modelo, relacionada ao fato de as pessoas deverem contar com uma identidade pessoal compatível com as sucessivas mudanças de qualificação. Ora, nosso modelo, ao se deter no julgamento, não comporta uma teoria da identidade pessoal, o que supõe conceituar modos de continuidade temporal constitutivos das pessoas em engajamento (Thévenot, 2006, 2013, 2016a). O resultado da comprovação, quando estabilizado de forma duradoura e mesmo quando, não sendo mais atualizado, estiver memorizado, tende não apenas a identificar o estado de grandeza de um ser, mas a lhe conferir o que geralmente se denomina uma identidade. Não seria, então, necessário estender o modelo da justificação no sentido de uma teoria da identidade para conferir o peso adequado a uma figura nele apresentada, a do transporte de grandeza?
Estender o modelo da justificação no sentido de uma teoria da identidade, significa considerar a maneira pela qual os atores se investem das formas convencionais para, progressivamente, conceder um significado à atribuição identitária presente em seus mundos, levando o cientista social a investigar com minúcia, a partir da etnografia, os repertórios compósitos (Thévenot, 2006) que permeiam os recursos de qualificação das “identidades” sem reduzir estas formas a qualificações previamente estabelecidas (como a do sincretismo no caso do ritual do iaô na missa). Afinal, são nessas operações críticas que se fundamentam o trabalho de qualificação e requalificação das categorias identitárias dispostas no quadro interacional e normativo. Ou seja, tanto a abordagem dos antropólogos brasileiros, como a do sociólogo francês, conformam utensílios analíticos muito mais propícios a lidar com os quadros valorativos em que os equipamentos identitários são afirmados, renegociados e reposicionados nos deslocamentos produzidos pelos atores, nesse caso o iaô, entre os mundos e gramáticas políticas.
Em sua sociologia dos regimes de envolvimento, desenvolvida anos depois da publicação do clássico livro De la justification, Laurent Thévenot (2006) apresenta um quadro de outra ordem em que busca dar conta das passagens, mudanças de percursos e composições nas operações públicas de reivindicação de um estado de uma pessoa ou coisa. Isso permite que, ao mesmo tempo, possamos voltar a atenção à maneira em que os atores edificam as estruturas comuns que os ancoram aos mundos e o trabalho de coordenação exigido entre aquilo que o ator porta e aquilo que lhe é disponibilizado no universo das economias das grandezas (Thévenot, 1986, 2006). Ao permitir o aprendizado de uma pluralidade de maneiras de se envolver em comum, o gesto pragmático é uma ferramenta de compreensão de um mundo no qual as diferenças identitárias se colocam em tensão, sem ir diretamente às conceptualizações ofertadas nas vitrines normativas e conceituais das comunidades humanas e da comunidade de cientistas sociais.
Essas formulações analíticas podem ser articuladas com as de Vogel et al. (2023: 142), quando eles enfatizam que:
“Nossa hipótese é, pois, que, no caso da romaria, estamos também diante de uma espécie de desafio. Mais sutil que o de Kapiolani, porque se esta reivindica o monopólio do sagrado, aqui o que se reivindica é a coparticipação no seu agenciamento. O bando de iaôs que percorre as grandes cidades do litoral brasileiro, às sextas-feiras, é, no sentido próprio do termo, um bando vindicatório.
Nesta direção, as operações analíticas devem conceder uma maior atenção aos modos como se operam as qualificações e as vindicações em seus diversos mundos e, bem como lidar com diferentes elementos presentes nas múltiplas composições possíveis que se refletem nos processos de identificação e qualificação das “identidades”. A vindicação supõe reconhecimento, e o reconhecimento, como frisa Ricoeur (2004), pressupõe o estabelecimento das ordens de grandezas na dinâmica das justificações nos cenários de interação. Ela igualmente implica um custo de investimento corporal e simbólico dos atores. Essa proposição persegue e se desdobra do que Thévenot desenvolveu no final dos anos 1980 em torno da noção de investimentos de forma. Segundo ele,
Esse tipo de observação nos levou a modelar as operações de formatação - ou investimentos de forma - requeridas para a implementação dos acordos de coordenação (Thévenot, 1984). Um ambiente apropriado suporta um tipo de convenção de coordenação normativa, estando “qualificado” para tal. A noção de investimentos de forma amplia a concepção econômica de um custo de investimento que deve sacrificar a liquidez em troca da espera de benefícios futuros. Uma concepção mais ampla da formula de investimento equilibra o custo ou o sacrifício que implica no estabelecimento da forma de equivalência convencional e o rendimento da economia de coordenação esperada a partir da implementação desta forma (Thévenot, 1986). Essa noção amplificada inclui o investimento, enfatizando que a forma investida não confere em troca um poder de coordenação mais que ao custo de sacrificar outra coordenação potencial (Thévenot, 2024).
Os investimentos de forma podem ser observados nos cenários da romaria, pois cumprem o papel de atestar pertencimentos e, simultaneamente, valorizar as ligações e vínculos de comunalidade. Nele, há a conformação do pertencimento a um novo estado e assunção de uma identidade que comporta um alto custo de seu uso no espaço público brasileiro: o de filho de santo de uma religião perseguida, discriminada e estigmatizada. Segundo Vogel et al. (2023: 142):
Há, sem dúvida, uma volta ao quotidiano. Não se trata, porém, da gradativa e tranquila reagregação a uma normalidade prévia aos ritos iniciáticos. Pelo contrário, essa reagregação consiste em fazer o iaô sentir, de forma inequívoca, e, sob certos aspectos contundentes, a sua nova inserção social. Levam-no a experimentá-la de maneira viva e marcante. Mostram, de forma jocosa, num caso, ou dramaticamente, no outro, em que sentido ele se tornou diferente dos demais, por obra e graça da iniciação. O panán e a romaria atesta, portanto, a diferença como dimensão constitutiva de sua nova identidade.
Nesse sentido, é possível traçar mais uma vez paralelos entre a abordagem dos autores brasileiros e com a de Laurent Thévenot. Segundo este, há:
um deslocamento do problema colocado pela multiplicidade de modelos de ação que traga um esclarecimento diferente sobre sua integração. Podemos considerar o problema tal como ele é colocado ao objeto do pesquisador, nesse caso o sujeito da ação. Ele também é confrontado a uma pluralidade de modelos, não àquele do teórico social, mas àqueles nos quais se servem comumente as pessoas para apreender os eventos em termos de ação social, se apropriar da conduta do outro ou reapropriar de sua própria conduta (Thévenot, 2006: 6).
Desse modo, a questão que se impõe é como tratar a pluralidade das condutas? A proposição de Thévenot é de deslocar a atenção para os quadros (cadres) nos quais as pessoas apreendem as condutas e as colocam em vias de comunicação. Essa apreensão importa às pessoas por sua orientação na coordenação de suas condutas. Uma tal orientação guia sua conceitualização dos quadros, reatualizando esse conceito a partir de trabalhos anteriores, tanto aqueles referentes às classificações, quanto os relativos às formas convencionais (Thévenot, 2006, 2024). Sua abordagem procede de uma pesquisa sobre os quadros de coordenação da ação e sobre suas diferenças ao olhar da coordination exigida entre os atores e os demais, mas igualmente entre o ator ele mesmo. Explorando uma variedade de comuns e de comunicação de desigual porte, identifica um regime elementar de conduta humana particularmente pouco propícia a uma larga mise en commun (Thévenot, 2006: 11). Como frisa o autor:
nossa abordagem não concebe uma ordem estabelecida ou reproduzida, mas uma constituição de ordem que é duvidosa e problemática. Mais do que a coordenação finalizada, nosso objeto é a inquietude da coordenação. Enfatizamos que o termo coordination, tal como ele é entendido aqui, é um transbordamento das regras, hierarquias ou acordos formais aos quais eles são frequentemente associados. Ainda, a coordination concerne em primeiro lugar a relação do ator com ele mesmo num meio ambiente onde ele deve coordenar sua própria conduta. (Thévenot, 2006: 12).
Na perspectiva de Thévenot, os atores, humanos e não humanos, são levados a uma experiência virtual, em movimento, em rede, em transição para um exame da vida em sociedade e da figuração da conduta humana. Pois, o objetivo “é poder seguir as mudanças profundas dos envolvimentos dos seres humanos no mundo” (Thévenot, 2006: 43). Mais do que seguir um “eu” que representa, Thévenot propõe constituir um quadro, uma variedade de figurações, que não sejam reduzidas a escalas de representações, mas que possam se diferir de acordo com as animações de figurinos, nos quais os seres humanos são equipados da capacidade de ação e de interação com um meio apropriado, podendo fazer o mesmo uso de diversos regimes envolvimentos.
No ritual do iaô na missa, há um trabalho de equipamento de novos papéis e identidades que produzem transições de formas e estados: do mercado, na casa de santo, na saída do iaô ou na ida do iaô à missa há um conjunto de procedimentos, formas e ações que reconfiguram o modo como uma mesma pessoa se apresenta no mundo e o modo como ela se configura e coordena sua propriedade identitária. E essas passagens entre os mundos e formas implicam uma inquietação da coordenação dos atores, nesse caso o iaô, na conformação de sua nova condição. Do mesmo modo, o ritual de iniciação do iaô implica uma transação entre o que poderíamos tratar em uma linguagem pragmática, de investimentos de formas, e um alto custo pessoal de sua assunção. Afinal, como frisam Vogel et al. (2023: 145):
A nova identidade do iaô não é, no entanto, uma personalidade social para uso interno. Não se restringe ao espaço do terreiro, nem aos momentos litúrgicos da casa-de-santo. Terá, ao contrário, implicações que ultrapassam, largamente, esses limites, repercutindo, de modo sensível, sobre o desempenho dos filhos-de-santo na sociedade mais ampla.
Desse modo, os três autores deslocam o problema da nova identidade do iaô e dos modelos explicativos forjados na esteira da noção do sincretismo, na medida em que:
O sincretismo afro-brasileiro é a expressão mais significativa desse faz-de-conta sociológico, paraíso da consciência ingênua, abalado pelo escândalo da romaria. Esta permite desnudar um dos mais zelosamente guardados domínios da ideologia na sociedade brasileira. O sincretismo estabelece a ficção de que, no seu território, todos os mal-entendidos se desfazem, todas as dificuldades se resolvem e todas as diferenças se esfumam num surpreendente acordo final. Com isso torna possível a uma sociedade fadada a viver “entre duas ou mais culturas” partilhar, de fato, uma visão de mundo comum (Vogel et al., 2023: 158).
Nesse sentido, a romaria exprime uma qualidade de épreuve importante para o trabalho de revestimento de uma identidade produzida a partir da inquietude da ação e de constituição do novo revestimento requerido ao iniciante no rito do candomblé. O iaô é conduzido à sua feitura pelas tensões da coordenação da ação consigo mesmo e com o universo público, sobretudo na ida à missa, momento no qual se revela toda complexa injunção requerida para passar de mundos, alterar seus estados e formas e conduzir seus investimentos de formas na relação entre pessoas-coisas-objetos dentro de um quadro preenchido de imprevisibilidades e operações críticas para os que se confrontam com o rito iniciático. Nesse sentido, a romaria desafia a própria ação de qualificação sociológica e antropológica, já que traz consigo problemas que estão no centro da
“investigação quanto as questões levantadas pelo próprio ato de qualificar - não apenas as coisas, mas também esses seres particularmente resistentes à qualificação que são as pessoas. As operações de qualificação podem ser percebidas como movimentos básicos da atividade científica, o que implica uma tomada dos objetos sobre os quais recairá uma explicação e sua colocação em equivalência, mas elas também constituem as operações cognitivas fundamentais das atividades sociais cuja coordenação exige um contínuo trabalho de aproximação, de designação comum, de identificação […] Ora, em muitos casos, essas mesmas pessoas se opõem à empreitada taxonômica das qualificações imprevistas e, assim, inclassificáveis, ou até mesmo se sublevam, se a oportunidade for oferecida, contra as pretensões de especialistas ou pesquisadores de as pretenderem qualificar de modo a aproximá-las de outras pessoas sob a promiscuidade de uma mesma categoria (Boltanski & Thévenot, 2020: 86).
Afinal, como apontam os antropólogos brasileiros, o sincretismo enquanto categoria analítica e nativa (como parte da autorrepresentação brasileira) não comportaria essa tensão com relação à qualificação ao observarmos a qualidade sociológica do rito do iaô à missa? “[…] as análises clássicas do sincretismo, que prestaram atenção ao que se passava entre os deuses ou dentro da mente dos indivíduos, esquecidas de que a solução do enigma estava nas relações entre os homens” (Vogel et al., 2023: 159). Considerar, portanto, as relações entre os homens não implicaria uma postura epistemológica pragmática, no sentido de lidar com as operações minuciosas dos atores na conformação de suas formas sem colocar as categorias analíticas a frente das ações dos atores?
Por fim, a título (in)conclusivo, friso que a finalidade do texto é de ofertar ao público brasileiro uma possibilidade de leitura cruzada entre perspectivas sociológicas e antropológicas inovadoras e de enorme potência analítica e etnográfica. Cabe a nós um pouco de esforço de entendimento, abertura de espírito e capacidade de leituras transversais. Este ensaio é uma experimentação da imaginação antropológica, com o propósito de ler artefatos teóricos e epistemológicos a partir de enquadramentos diversos. Afinal, para que servem teorias senão para que possamos relê-las a partir de outras lentes?!
Agradecimentos:
Agradeço aos pareceristas do artigo pelas observações críticas e aos organizadores da seção especial dedicada a Laurent Thévenot: Alexandre Werneck e Frédéric Vandenbergue. E um agradecimento especial ao Thévenot por todo aporte concedido nesses anos de cooperação, pois sua generosidade e ensinamentos levo para a vida! Dedico este texto ao mestre-timoneiro, Roberto Kant de Lima (in memoriam), fonte infinita de inspiração.
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1
Para maiores esclarecimentos sobre o tratamento concedido à categoria lógica do contraditório, consultar Kant de Lima (2023); Kant de Lima e Mouzinho (2016); Kant de Lima (2010), para mencionar apenas alguns que colaboram com a compreensão da categoria.
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2
Os aspectos mais minuciosos desse encontro são detalhados em artigo publicado por Mello et al. (2007).
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3
São os convênios Capes-Cofecub 240/98: “Espaços Públicos: conflitos e democracia em uma perspectiva comparada” e Capes-Cofecub 447/04: “Sociologia da experiência privada e pública no Brasil e na França. A república no cotidiano: conflitos sociais, ações coletivas, engajamentos associativos e provas pessoais”. O primeiro foi coordenado pelos professores Roberto Kant de Lima e Issac Joseph, sendo o segundo, com o falecimento precoce de Isaac, coordenado por Daniel Cefaï, que veio cumprir um papel de destaque e de enorme relevância para a continuidade das cooperações entre Brasil e França, tendo igualmente desempenhado enorme influência na formação de gerações de cientistas sociais do Brasil que estudaram com ele na Universidade de Paris X. O Convênio foi celebrado entre a UFF/Iuperj e a Universidade de Paris X (hoje Paris Nanterre).
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4
O referido Programa de Cooperação bilateral abriu diversas portas de diálogos entre cientistas sociais do Brasil e da França, sobretudo, cabe destacar a importância do colóquio ocorrido em Cerisy-la-Salle, Culture civiques et démocraties urbaines, organizado por Isaac Joseph e Daniel Cefaï, que reuniu pesquisadores brasileiros vinculados ao mencionado programa Capes Cofecub e pesquisadores franceses (dentre eles Lauren Thévenot). Foi um momento oportuno para o início dos diálogos cruzados que resultaram no encontro e colaboração com Laurent Thévenot e demais colaboradores. Ver Cefaï e Joseph (2002) e Cefaï et al. (2011).
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5
Em decorrência dos diálogos estabelecidos, em 2007, o professor Luís Roberto Cardoso de Oliveira, na condição de presidente da Associação Brasileira de Antropologia (ABA), junto com o professor Roberto Kant de Lima (vice-presidente da ABA), convidaram o professor Laurent Thévenot para participar da VII Reunião de Antropologia do Mercosul (RAM), onde proferiu uma das Conferências do Congresso; momento no qual Thévenot pôde visitar e proferir conferências em cinco universidades brasileiras (UnB, Iuperj, UFRJ, UFRGS e UFF). Nessa ocasião, os diálogos com os colegas brasileiros se estreitaram, culminando na conformação de um programa Capes-Cofecub - regimes de engajamento particulares e universais em sociedades plurais: processo de administração de conflitos, ações coletivas e demandas de direitos e reconhecimento em perspectiva comparada (Brasil/França), celebrado entre a UFF e a EHESS, sendo coordenado pelo professor Marco Antonio da Silva Mello e por Laurent Thévenot. Por meio do referido convênio, missões de trabalho e de estudo foram realizados de brasileiros na França e franceses no Brasil. Laurent Thévenot empreendeu diversas missões no Brasil, bem como depois participou de seminários que organizei na UFF e de outros organizados pelo INCT-InEAC e o PPGA-UFF.
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6
No mesmo ano em que fui bolsista de doutorado sanduíche pelo Programa Capes-Cofecub, meus colegas Alexandre Werneck (hoje Professor da UFRJ) e Letícia de Luna Freire (hoje professora da UERJ) realizaram igualmente o estágio doutoral por meio do mesmo projeto de cooperação. No âmbito do mesmo programa Capes-Cofecub, realizaram estágio de doutorado sanduíche Soraya Silveira Simões (professora atualmente na UFRJ), Kátia Sento Sé Mello (atualmente professora titular na UFRJ) e Patricia Brandão. Felipe Berocan Veiga, na ocasião de mestrando do PPGACP (hoje professor na UFF), realizou uma missão de trabalho de campo com o professor Marco Antonio da Silva Mello no quadro do mesmo convênio.
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7
Para maiores informações a respeito da virada pragmática francesa, há muitos trabalhos disponíveis. Ver, por exemplo, Nachi (2006); Nardacchione (2016); Freire (2016); Correa & Castro Dias (2016); Dodier (1991); Brevilglieri & Stavo-Debauge (1997); Vandenbergue (2006); Werneck (2012).
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Na ocasião, Marc Breviglieri, na época orientando de Thévenot na EHESS, já havia realizado uma missão de trabalho no Brasil por meio do Programa Capes-Cofecub, e a qualidade de seu trabalho e seu refinamento intelectual (além da gentileza e humanidade ímpar) havia sido notado por todos. Embora tenha dialogado e estreitado relações com outros pesquisadores vinculados ao grupo de pesquisa de coordenado por Thévenot no GSPM, Marc foi seguramente com quem fiz mais os laços acadêmicos (e de amizade), resultando em inúmeras colaborações e atividades conjuntas. Depois, veio integrar o projeto por mim coordenado no âmbito do PPGA e do INCT-InEAC, o Programa Capes Print, posteriormente formulamos, com os nossos colegas Gabriel Nardacchione (da Universidade de Buenos Aires) e Pedro Garcia Sanchez (da Universidade de Paris Nanterre) um Projeto de Pesquisa financiado pela Fondation Maison Science de L’Homme (Programa Prefalc entre a Universidade de Paris Nanterre, sob a coordenação inicialmente de Pedro Garcia Sanchez e, posteriormente, coordenado pela professora Virginie Milliot da Antropologia da Universidade de Paris Nanterre, a UFF e a Universidade de Buenos Aires). No âmbito do Programa Prefalc da FMSH, destaco a participação de Luca Pattaroni na missão no Brasil e Argentina, já como professor da Escola Politécnica Federal de Lausanne/Suíça, que igualmente foi professor visitante no PPGA/UFF e participou de missões de trabalho no âmbito do Programa Capes-Cofecub já mencionado, coordenado pelos professores Laurent Thévenot e Marco Antonio da Silva Mello. Para maiores informações, ver Breviglieri et al. (2017) e Mota et al. (2021).
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Posteriormente busquei desenvolver de forma mais sistemática algumas questões formuladas nos diálogos cruzados. Ver Mota (2012, 2014a, 2014b, 2016, 2017) e Mota e Peláez (2025).
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Fonte de financiamento:
Bolsa de Produtividade 2 do CNPq.
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Aprovação do Comitê de Ética:
Não se aplica.
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Disponibilidade de Dados:
Os dados estão disponíveis no corpo do artigo.
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