Open-access COMBATE, SACRALIZAÇÃO E HEROÍSMO: A ENFERMAGEM NOS MURAIS DA COVID-19

COMBAT, SACRALIZATION AND HEROISM: NURSING IN COVID-19 MURALS

Resumo

A covid-19 suscitou múltiplas formas de representação e projeção identitária das profissões da área da saúde. Neste artigo, analiso pinturas murais dedicadas à enfermagem durante o período pandémico, procurando compreender as configurações de identidade da profissão aí (re)produzidas. Da análise destas manifestações artísticas, marcadas por um denso teor metafórico, é possível constatar a existência de ordenamentos iconográficos com sentidos distintos e, aparentemente, paradoxais. Destacam-se as construções biomilitaristas da enfermagem como atividade de combate heroico contra a pandemia e as significações como atividade quase divina, pautada pelo imperativo sagrado de cuidar dos pacientes. Nos dois aglomerados de sentidos estão presentes conceções de heroísmo e glorificação da profissão associadas a ideários (bélico e angelical) com amplo lastro histórico. Ainda que pareçam manifestamente contraditórios, estes ideários complementam-se, dando forma a uma síntese identitária ambivalente da enfermagem como combate vigoroso à doença e cuidado virtuoso ao doente.

Palavras-chave:
Enfermagem; Projeções identitárias; Pinturas murais; Covid-19

Abstract

COVID-19 has given rise to multiple forms of representation and identity projection in health professions. This study analyzes mural paintings dedicated to nursing during the pandemic to understand the configurations of professional identity that are (re)produced in such artworks. Exploring these pieces and their dense metaphorical content evinces iconographic arrangements with distinct and seemingly paradoxical meanings. Prominent among them are the biomilitarist constructions that portray nursing as a heroic battle against the pandemic and the representations that depict it as a nearly divine vocation, guided by the sacred imperative of caring for patients. These clusters of meanings contain concepts of heroism and the glorification of nursing associated with warlike and angelic ideals grounded in extensive historical roots. Although they seem manifestly contradictory, these ideals complement each other, shaping an ambivalent identity synthesis of nursing as vigorous fight against disease and virtuous care for the sick.

Keywords:
Nursing; Identity projections; Mural paintings; Covid-19

INTRODUÇÃO

A pandemia de covid-19 constituiu um período de exceção distópica no qual as atividades de cuidado (care work), amplamente feminizadas, saíram da sua relativa invisibilidade, receberam um reconhecimento sem precedentes e assumiram novos significados nas agendas políticas (Blanc et al., 2020; Debert & Felix, 2025; Lowenkron, 2022). Por razões óbvias, a investigação e prestação de cuidados no campo da biomedicina ganharam especial projeção e proeminência social (Lohse & Canali, 2021; Manthorpe et al., 2022). Esta é uma situação bastante comum quando ocorrem grandes emergências de saúde pública, com as figuras do médico e do cientista a assumirem quase sempre maior estatuto e destaque em diversos contextos do espaço público (Bayer & Oppenheimer, 2000; Lynteris, 2016). Na covid-19, a par destas duas entidades profissionais, a figura da enfermeira1 ganhou grande notoriedade numa situação de ampla valorização social da enfermagem, entre outras atividades de cuidado, como profissão da “linha da frente” das respostas aos exigentes desafios do cenário epidemiológico (Boulton et al., 2022; Demirci et al., 2021; Einboden, 2020; Mohammed et al., 2021; Stokes-Parish et al., 2023).

São justamente os tributos de distinção coletiva da enfermagem que me proponho a debater neste artigo, considerando para tal as manifestações de homenagem realizadas em murais de arte urbana durante a pandemia de covid-19 em diferentes contextos internacionais. Parto do pressuposto de que estas e outras representações artísticas, pela sua grande expressão iconográfica e visibilidade pública, constituem importantes significantes das identidades disseminadas sobre os principais agentes e protagonistas da crise pandémica (v.g., vírus, doença, profissionais de saúde e cientistas) (Nayar, 2022; Saji et al., 2021). Abordo, portanto, a referencialidade icónica dos murais no quadro de um exercício heurístico de compreensão dos sentidos estruturantes das construções identitárias dominantes da enfermagem no contexto da emergência sanitária. Neste exercício considero ainda, embora de forma breve, alguns dos contextos históricos e culturais constitutivos da enfermagem moderna, tendo em vista perceber o substrato simbólico que proporcionaram às expressões de identidade da profissão nos murais da covid-19.

CONFIGURAÇÃO DA PESQUISA, PROCEDIMENTO E PERSPETIVA

A análise que aqui desenvolvo circunscreve-se, empiricamente, a pinturas murais2 do período da pandemia de covid-19 com grande impacto, mediatização e visibilidade social. A pesquisa empírica estendeu-se por cerca de dois meses, entre junho e julho de 2024, e decorreu apenas no espaço digital da internet, um contexto de recolha de dados cada vez mais relevante e incontornável (Alinejad, 2018; Hunsinger et al., 2020; Markham, 2004; Park et al., 2023)3. No processo de identificação de potenciais murais a considerar na análise, recorri ao “Google Imagens” (https://images.google.com) e comecei por seguir um procedimento de pesquisa baseado em diferentes combinações de termos em inglês (v.g., “nursing”, “nurse”, “pandemic”, “covid-19”, “street art”, “murals”, “artists”). A partir dos resultados obtidos diretamente através desta estratégia acabei também por ser conduzido a outras fontes, ampliando assim o campo de incidência da pesquisa. A recolha só terminou quando se tornou evidente uma certa redundância e repetição de imagens.

Nesse processo, constituí um banco de 60 fotografias sobre diferentes murais que, em simultâneo, remetem para a covid-19 e os profissionais de saúde. De seguida, sujeitei este banco de fotografias a uma triagem destinada a selecionar as imagens que retratam murais em linha com os seguintes critérios: (i) são dedicados de forma explícita à enfermagem, seja em exclusivo ou em conjunto com outras profissões, mas neste caso individualizando a figura da enfermeira; (ii) estão situados em distintos contextos internacionais, em espaços públicos urbanos que lhes proporcionam grande visibilidade social; (iii) os respetivos autores são artistas (indivíduos ou coletivos) já com alguma projeção e reconhecimento na arte urbana; (iv) foram amplamente divulgados à escala global em diversos canais do espaço mediático; (v) assentam em representações com grande potência simbólica, mobilizando quase sempre elementos de natureza metafórica. Cumprindo a generalidade destes critérios, no final apurei um conjunto de dez fotografias sobre outros tantos murais, identificados no Quadro 1. Nesta seleção não segui qualquer parâmetro formal de representatividade. Procurei apenas cumprir os critérios atrás identificados e escolher murais que traduzem destacadas expressões icónicas da enfermagem amplamente reproduzidas durante o período pandémico. Deliberadamente, direcionei a atenção mais para recorrências e similitudes representacionais e não tanto para singularidades que, eventualmente, pudessem proporcionar a comparação e compreensão de diferenças culturais na construção da identidade da enfermagem em diversas sociedades.

Quadro 1
Lista de murais considerados na análise

Na análise deste conjunto de murais, segui uma perspetiva de inspiração iconográfica-iconológica, contemplando três exercícios densamente imbricados e, em certa medida, sobrepostos: identificação de temas, composições gráficas, motivos e símbolos (forma) da expressão artística; interpretação do seu sentido intrínseco (conteúdo); compreensão dos quadros socioculturais (contexto) em que este sentido mais imediatamente se inscreve (Mitchell, 2015, 2019; Müller, 2011; Panofsky, 1995). Comecei por observar os elementos visuais que sobressaem em cada mural (v.g., atores sociais, personagens, personificações, objetos, figuras), bem como as respetivas disposições, papéis, ações e relações. De seguida, centrei-me naquilo de que falam as imagens, procurando descodificar a sua linguagem, interpretar os significados e perceber as indexações identitárias que aí ganham forma. Neste exercício de descodificação, procurei considerar, dentro do possível, o contexto cultural das representações da doença e da prestação de cuidados de que resultam os grandes referenciais, sobretudo metafóricos, para a construção das narrativas visuais expostas nos murais. A partir daqui, foi possível deduzir dois grandes eixos interligados de entendimento das construções identitárias da enfermagem nas representações muralistas do período da pandemia da covid-19. Um eixo contempla a militarização da enfermagem como combate e expressão de heroísmo. Estreitamente associado a este, o outro eixo circunscreve-se à glorificação da enfermagem como atividade sacrificial e sagrada. É com base nestes dois eixos intersecionados que a seguir desenvolvo a análise.

A ENFERMAGEM COMO COMBATE (SUPER-)HEROICO

As estruturas organizacionais, conhecimentos, práticas e formas discursivas da biomedicina têm sido significativamente influenciadas por princípios militares, sobretudo a partir da cultura militarista que se foi instalando em muitas sociedades industrializadas ao longo da segunda metade do século XIX e das experiências das duas guerras mundiais do século XX (Cooter et al., 1998; Fuks, 2010; Harrison, 1996). A enfermagem moderna, nascida num ambiente eminentemente marcial (Helmstadter, 2020; Winslow, 1984)4, acompanhou, como é óbvio, este quadro de progressiva “militarização da medicina” (Cooter, 1994; Harrison, 1996; Liu & Cook, 2023). Não é de estranhar, por isso, uma certa tendência para assumir procedimentos de cuidado despolitizados, demasiado rígidos, obedientes à disciplina hierárquica da cadeia de comando e pautados por racionalidades de conquista de objetivos, por vezes em detrimento do próprio bem-estar dos pacientes (Darbyshire, 2011; Perron et al., 2010; Wurzbach, 1999).

As lógicas militaristas na prestação de cuidados de saúde estão, intrinsecamente, associadas a metáforas bélicas que estabelecem uma equivalência figurada entre a enfermidade e a guerra (Flusberg et al., 2018; Fuks, 2010; Milton, 2022; Sontag, 1978; Zimmermann, 2017)5. Tais metáforas revelam-se em discursos científicos e leigos em torno de diversas doenças e da respetiva atuação dos profissionais de saúde, com especial destaque para o câncer, o HIV/aids e, mais recentemente, a covid-19 (Lerner, 2003; Marey-Sarwan et al., 2022; Nie et al., 2016; Sontag, 1989; Waldby, 2003). De um modo geral, as noções marciais (v.g., invasor, inimigo, defesas, luta, combate, linha da frente, resistência, heróis) que compõem as metáforas da guerra expressam-se desde a escala microfísica de caraterização dos agentes patogénicos e da sua interação com o corpo humano à escala social das políticas socio-sanitárias, das práticas de cuidado e das expressões identitárias dos profissionais de saúde (Sacramento, 2022). A este propósito, Montgomery (1993, 1996) fala de biomilitarismo: “a system of images that permeates not only our public and private expressions about disease, but the entire edifice of scientific knowledge to which these inevitably return for their institutional warrant, and is finally visible in the very organization of medical culture” (1993: 67).

O biomilitarismo e as metáforas bélicas que o integram, indiciando antagonismos e (pre)disposições ou ações heroicas de combate, demonstram grande transversalidade social e assumem particular relevância na generalidade dos discursos científicos, jornalísticos, políticos, artísticos e populares sobre a covid-19 (Castro Seixas, 2021; Ponimin, 2021; Sacramento, 2022; Schnepf & Christmann, 2022; Semino, 2021; Wicke & Bolognesi, 2020). Os murais da pandemia mais diretamente relacionados com a enfermagem confirmam a significativa recorrência e proeminência das figurações de teor marcial, dando alguma razão à suposição de Winslow (1984: 33): “Perhaps even more than medicine, nursing explicitly chose the military metaphor. It was used to engender a sense of purpose and to explain the training and discipline of the nurse”. De entre a dezena de murais que selecionei, o seguinte subconjunto de cinco figuras é ilustrativo da construção identitária da enfermagem com base em representações metafóricas em que se destaca o belicismo, a luta, a ação ofensiva, a valentia e o heroísmo no quadro da atuação perante a pandemia de covid-19.

No mural da Figura 1 é prestado tributo simultâneo aos heróis militares do Dia da Vitória na II Guerra Mundial (comemoração dos 75 anos, 8 maio de 2020) e aos “novos heróis” do National Health Service (NHS) do Reino Unido, numa altura crítica do “combate” à pandemia da covid-19. Na metade esquerda do mural está representado um soldado aliado, de arma na mão, a enfrentar o inimigo nazi e o seu poder aéreo, sinalizado em primeiro plano na figura de um avião que aparenta tratar-se do temível Stuka, bombardeiro de mergulho da Luftwaffe6. A outra metade do mural é destinada à figura da enfermeira que, numa disposição corporal de prontidão e firmeza, enfrenta o vírus SARS-CoV-2 de forma destemida, tendo ao seu lado uma extensa fila de camas de hospital (ainda) vazias. O soldado e a enfermeira, nos seus respetivos uniformes - únicos elementos com cores distintivas, à exceção do pequeno logo associado ao agradecimento ao NHS -, estão lado a lado em evidente harmonia simétrica e têm pela frente um cenário de tons sombrios, onde se destaca a ameaça imediata dos respetivos inimigos. De entre todos os murais, este é aquele que expressa de forma mais destacada o biomilitarismo e as metáforas da guerra, estabelecendo uma estrita associação entre o âmbito militar e a esfera da saúde, como aliás se pode depreender das próprias palavras do autor: “[…] the Army man against his enemy and then we have the NHS nurse fighting her enemy, which is the virus. It’s that little twist - the fights we have been in and the sort of war we are in now” (Tom Llewellyn apud Gupewell, 2020).

Figura 1
Sem título (Tom Llewellyn)

Nos restantes murais (Figuras 2 a 5), os elementos que referenciam de modo explícito e convencional o domínio militar (v.g., fardamento, equipamentos de guerra) são praticamente inexistentes. Porém, as representações de natureza marcial, bastante associadas a dinâmicas e disposições agonísticas, continuam muito vincadas. Nos murais das Figuras 2 e 4, estas representações assumem a forma de ações de combate declarado, nas quais o ataque é conduzido por enfermeiras e é dirigido com grande contundência destrutiva ao inimigo SARS-CoV-2. Nos murais das Figuras 3 e 5 não são apresentados de facto movimentos ofensivos de combate, até porque só é identificada uma das partes oponentes, a enfermeira, e o inimigo apenas se pode intuir implicitamente. Nesses dois murais sobressaem a prontidão, a preparação e a disposição para lutar, que se depreendem dos olhares vigilantes de ambas as enfermeiras, da máscara de super-homem já colocada por uma delas, pronta a entrar em ação (Figura 3), e das luvas de boxe já calçadas e braços em riste da outra (Figura 5). Neste último caso, as asas de anjo poderão ter subjacente a ideia de um combate com dimensão espiritual, que exige a transcendência das limitações humanas e assume a grandiosidade moral de desafio quase divino de proteção perante uma entidade viral profundamente malévola. De modo semelhante, no mural da Figura 4, a auréola poderá indiciar a virtude espiritual de uma luta benigna de sacrifício e bondade, na qual o esforço e o sofrimento da enfermeira são decisivos na destruição do vírus e na salvaguarda da vida humana.

Figura 2
50 FT HEROES (Shane Sutton)

Figura 3
Super nurse! (Fake)

Figura 4
Anjos na Terra (Mr. Dheo)

Figura 5
Healthcare hero (A. Zucchini-Fowler)

A par da iconografia agonística representando a enfermagem como atividade de combate ao vírus da covid-19, estes primeiros cinco murais incorporam diversos elementos significantes que, num plano simbólico, qualificam essa mesma atividade como uma expressão de heroísmo, fazendo sobressair a identidade da enfermeira como (super-)heroína7. Porém, os referenciais de equiparação usados nestas qualificações de heroísmo não são sempre os mesmos: na Figura 1 é o histórico herói-militar das grandes guerras; nas Figuras 2 e 3 são os super-heróis com poderes especiais, inspirados na cultura popular da banda desenhada; nas Figuras 4 e 5 manifesta-se uma espécie de hibridismo entre os heróis mundanos do espaço profano, que enfrentam corajosamente os grandes desafios da vida, e os heróis celestiais mitológicos do espaço sagrado, comandados por desígnios virtuosos no combate moral contra o mal (o vírus, neste caso)8. Estes e outros arquétipos de heroísmo têm sido historicamente incorporados e (re)construídos pelas próprias enfermeiras como elementos constitutivos da sua identidade profissional (Darbyshire, 2011; Hartrick & Schreiber, 1998).

Na luta heroica contra o vírus, os poderes, capacidades e recursos usados são representados de distintas formas, ainda que a máscara seja um elemento praticamente transversal. No mural da Figura 1 destacam-se a firmeza profissional da enfermeira e o respetivo equipamento hospitalar, embora esta representação literal ganhe maior densidade semântica ao ser equiparada metaforicamente a um cenário de guerra e ao que é exigido ao soldado nessa situação: disciplina, destreza, força e coragem. Nos murais das Figuras 2 e 3 sobressaem as capacidades sublimes - metaforizadas no poder dos raios laser e nos extraordinários dons do super-homem - que a enfermeira tem de colocar ao serviço dos mais vulneráveis no combate à pandemia. Por último, nos murais das Figuras 4 e 5, destacam-se a resistência física e a combatividade, aliadas às virtudes sacrificiais da abnegação, compaixão e fidelidade na prestação de cuidados. Muitos dos atributos projetados nesses cinco murais tendem a convergir com o conteúdo de discursos das redes sociais produzidos na altura da pandemia (Miller et al., 2022) e com relatos de enfermeiras que cuidaram de pacientes infetados, sendo que as próprias recorreram a metáforas militares e agonísticas para lidar com a ameaça sanitária em causa (Marey-Sarwan et al., 2022).

O heroísmo de pendor belicista expresso nas representações muralistas é uma inevitabilidade intrínseca da hegemonia das metáforas da guerra no processo de construção cultural (incluindo aqui a ciência) da covid-19. Sendo construída como uma guerra, a situação pandémica suscitou efervescências coletivas, disposições sociais e políticas de identidade geradoras de heróis, tal como num contexto de guerra (Čolović, 2016; Daugbjerg, 2019; Ribeiro, 2005). A glorificação heroica foi dirigida de forma particularmente enfática aos trabalhadores da “linha da frente”9 (como as enfermeiras), a posição mais perigosa e decisiva na luta contra o inimigo. Lembrando os louvores aos militares que defenderam a pátria sem reservas, os tributos de heroicização destacaram quase sempre o compromisso incondicional e os sacrifícios pessoais ao serviço de todos. Estes tributos assumiram ainda maior carga glorificante quando enfermeiras e outros profissionais de saúde foram infetados e morreram no decurso da sua atividade. Além de heróis, passaram também a ser representados como mártires (Sacramento, 2022).

A recorrência das metáforas biomilitaristas da guerra, do combate e do heroísmo nas representações da enfermagem durante a pandemia da covid-19 não é uma novidade. Pelo contrário. Como já foi sinalizado anteriormente, estes traços identitários acompanham a profissão desde a sua formalização moderna e, genealogicamente, inscrevem-se em diferentes quadros histórico-culturais com algumas convergências e continuidades. Na impossibilidade de uma análise exaustiva, identifico sinteticamente apenas alguns dos quadros primordiais da genealogia do biomilitarismo: (i) a ancestral (e fundacional) relevância da antiguidade clássica greco-romana nos cânones culturais ocidentais, nomeadamente através da sua literatura épica (v.g., A Ilíada e A Odisseia, de Homero) versando sobre a guerra entre o bem e o mal, a coragem, a honra e a celebração dos heróis (Bleakley et al., 2014); (ii) as estreitas “conexões materiais” entre a esfera militar, a prestação de cuidados médicos e a saúde pública, que acabaram por ser refletidas e reutilizadas metaforicamente na literatura vitoriana (v.g., obras de Mary Shelley, Charles Kingsley, Arthur C. Doyle, Bram Stoker e Joseph Conrad), justamente durante os primórdios da medicina moderna, contribuindo para a rápida popularização cultural das metáforas marciais (Servitje, 2021); (iii) o desenvolvimento inicial da enfermagem muito marcado, como já foi dito, pelas experiências de prestação de cuidados na Guerra da Crimeia, em meados do século XIX, e por modos de organização e valores deontológicos de matriz cultural militarista (Bostridge, 2015; Helmstadter, 2020; Wurzbach, 1999); (iv) a expressiva incorporação de perspetivas e terminologias marciais na construção da teoria microbiana da doença em finais do século XIX, em particular por Louis Pasteur, então muito sugestionado pelo conflito Franco-Prussiano (1870-1871) e pela humilhante derrota francesa (Fuks, 2010; Sontag, 1978); (v) a proeminência social dos temas militaristas no século XX - resultante das duas guerras mundiais e da tensão geopolítica da Guerra Fria -, a sua massificação na cultura popular (v.g., televisão, cinema e banda desenhada) e a crescente transposição para o campo da saúde através das muitas “guerras às doenças” então declaradas (Nie et al., 2016).

SACRALIZAÇÃO E GLORIFICAÇÃO DA ENFERMAGEM

Se o biomilitarismo é um marcador identitário que acompanha a enfermagem moderna praticamente desde a sua fundação, o mesmo se pode dizer da sacralização da profissão através do ainda preponderante arquétipo (e estereótipo) da enfermeira como anjo misericordioso (Bridges, 1990; Darbyshire & Gordon, 2005; Dingwall et al., 1988; Hallam, 2012; Hoeve et al., 2014). Neste modelo primordial, a representação da enfermeira assenta em noções morais de sacrifício, pureza, abnegação, bondade e compaixão, as quais povoam alguns discursos sociais (por vezes, científicos e políticos) da enfermagem e, amiúde, são incorporadas pelas próprias profissionais, de forma mais ou menos implícita, nas práticas e discursos de construção da sua identidade (Fealy, 2004; Juergens, 2018; Tierney et al., 2019; Van der Cingel & Brouwer, 2021). Vinculados a estas noções do arquétipo angelical encontram-se, geralmente, valores de género tradicionalistas centrados no feminino, remetendo para uma feminilidade não emancipada, maternal, sacrificial e orientada para o dever do trabalho reprodutivo do cuidado (Hallam, 2012; Smith et al., 2024).

A sacralização da enfermagem, quase como dom transcendente, não é uma construção inócua. Ela tende a desencadear repercussões consideráveis, sobretudo negativas, no quotidiano laboral, na subjetividade e na identidade de quem exerce a atividade. Daí as perspetivas críticas que têm sido dirigidas aos estereótipos românticos da ideal enfermeira-anjo, destacando, entre muito outros, os potenciais efeitos perversos no que diz respeito ao desprestígio científico da profissão (o virtuosismo da vocação e a misericórdia seriam o mais importante), à degradação da carreira e das condições de trabalho (o espírito de sacrifício e a abnegação seriam suficientes) e ao acrescido desgaste físico e emocional de ter como referência o ideal impossível de um trabalho imaculado (afinal a perfeição dos anjos não contempla erros) (Darbyshire & Gordon, 2005; Smith et al., 2024; Stokes-Parish et al., 2023). Apesar das evidências a comprovar estes efeitos negativos e das propostas de reconstrução identitária da profissão, as representações indutoras de sacralização da enfermagem persistem e são ainda bastante expressivas, particularmente em momentos de crise sanitária.

O contexto da pandemia da covid-19 ilustra de forma inequívoca a persistência da figura feminina angelical nas narrativas e consagrações em torno da enfermagem, envolvendo amiúde as próprias organizações profissionais do setor, como destacam Smith et al. (2024: 3): “Professional nursing organizations hold tight to campaigns in which nurses are portrayed as feminized angels of mercy and brave selfless devoted caretakers. […] perpetuate tropes and gendered stereotypes around ongoing angel narratives of selfless service, sacrifice […]”. Muitos destes tropos e estereótipos foram (re)produzidos graficamente em representações muralistas do período pandémico. O segundo subconjunto de murais (Figuras 6 a 10) é bastante expressivo quanto à construção identitária da enfermagem em estreita associação à figura angelical-maternal, transcendente, cuidadora, devocional e sofredora.

Figura 6
Our nurses, our saints (Bandit)

Figura 7
In praise of nurses (Will Phillips)

Figura 8
NHS nurse (Akse)

Figura 9
Sem título (Franco Rivolli)

Figura 10
Frontline heroes (Melbourne Murals Team)

Enquanto no primeiro subconjunto de murais (Figuras 1 a 5) sobressaem as construções metafóricas marciais, glorificando a enfermeira como combatente corajosa e virtuosa, neste segundo subconjunto (Figuras 6 a 10) as referências bélicas desaparecem quase por completo e assumem manifesta preponderância as metáforas metafísicas de âmbito espiritual e sagrado. No lugar das representações da enfermeira com uma hexis corporal vigorosa e agonística, a combater (ou pronta a combater) a doença, surgem no novo grupo de murais representações que expressam perseverança tranquila, vocação e sacrifício de si em prol do dever sagrado de proteger, indiciando algumas das virtudes disposicionais ideais (v.g., disponibilidade, atenção, intencionalidade, responsabilidade, competência) de uma “ética do cuidado” (Gilligan, 1993 [1982]); Hirata & Guimarães, 2012; Koggel & Orme, 2010; Maio, 2018; Mol, 2008; Tronto, 2020 [1993]) que vai muito para lá do domínio técnico da enfermagem.

Subjacente a todas estas últimas representações está uma iconografia de sacralização da enfermagem, seja através da designação explícita “Our nurses, our saints” e das marcas faciais do sacrifício abnegado (Figura 6), da auréola do martírio e da santidade (Figura 8) ou ainda das asas de anjo (Figuras 7, 9 e 10). No caso da Figura 7, as asas (e toda a personagem da enfermeira) apresentam uma tonalidade dourada, que pode ser entendida como evocação da espiritualidade e do sagrado. Já na Figura 9 somente evidenciam um matiz translúcido celestial, subtilmente dourado. A par das nuances cromáticas, a abertura das asas, particularmente notória nas Figuras 7 e 10, reforça os referenciais simbólicos da proteção sublime. Independentemente dos seus diversos grafismos e expressões artísticas, as asas estão quase sempre associadas, sobretudo na chamada tradição judaico-cristã, às noções de amparo, segurança, misericórdia e cuidado, desde logo no âmbito da saúde. São várias as passagens bíblicas a estabelecer este nexo simbólico, como acontece no Salmo 91:4-6: “Ele te cobrirá com as suas penas, e debaixo das suas asas estarás seguro; a sua verdade é escudo e broquel. Não temerás espanto noturno, nem seta que voe de dia, nem peste que ande na escuridão, nem mortandade que assole ao meio-dia”.

A associação da enfermagem, sempre na figura feminina da enfermeira, ao cuidado altruísta, compassivo e devotamente prestado em sacrifício pessoal é transversal a todos os murais deste segundo subconjunto. No mural da Figura 6, duas enfermeiras, acabadas de retirar as respetivas máscaras, evidenciam nos seus rostos as marcas da exaustão física e da sua dedicação incondicional, enquanto uma terceira, (ainda ou já) com a máscara, parece simbolizar a continuidade ininterrupta do trabalho e a omnipresença do dever. Um pouco à semelhança desta última, a enfermeira do mural da Figura 7, com a respetiva bata e máscara, asas abertas em pleno e a ultimar a colocação das luvas, mostra a preparação para a entrada imediata sem serviço, rendendo colegas ou reforçando um trabalho de cuidado que parece exigir compromisso físico e moral ilimitado. É justamente esse compromisso incondicional, exigindo muitas vezes transcendência, crença e martírio pessoal10, que aparenta ser simbolizado no halo de luz sobre a enfermeira no mural da Figura 8. Ainda neste mural, o contraste entre a luminosidade do halo, bem como do próprio rosto da enfermeira, e o fundo escuro sugere a ideia da enfermagem como expressão de esperança no contexto tenebroso da pandemia. A conceção da enfermagem enquanto esperança é reforçada no mural da Figura 9, com elementos iconográficos (v.g., braços a amparar o país afetado, atenção centrada na entidade protegida) indiciadores de confiança de se estar em “boas mãos”, tão boas quanto as mãos maternais que cuidam dos filhos11. No mural da Figura 10, as mãos e as asas estendidas da enfermeira a sustentar a Terra afastando-a do vírus, em evidente esforço de carregar o peso do mundo12, também creditam confiança nas extraordinárias capacidades protetoras da enfermagem, por mais pesados que sejam os desafios da covid-19.

Em todos estes murais sobressai uma expressão etérea, de natureza sagrada, da enfermagem como sublime resistência aos efeitos devastadores da pandemia, como perseverança absoluta no cumprimento do dever e como dádiva de sacrifício pessoal que vai além das estritas obrigações da profissão, muitas vezes em condições laborais precárias e que provocam grande “carga mental” e intenso desgaste emocional (Bitencourt & Andrade, 2021; Molinier, 2022). Ao mesmo tempo, fica evidente que a prestação de cuidado interpela profundamente a subjetividade, gera complexos (e ambivalentes) modos de envolvimento pessoal e esbate as delimitações das esferas afetiva e técnico-profissional (Fazzioni, 2018; Guimarães & Hirata, 2021; Hirata & Molinier, 2012; Molinier, 2010). Pela carga emocional e dimensão sacrificial do trabalho de enfermagem, entende-se o sentido de glorificação heroica que perpassa as representações. Todavia, este heroísmo não assume uma feição tão vigorosa, agonística e icónica como no primeiro subconjunto de murais (Figuras 1 a 5), expressando-se predominantemente na imagem da enfermeira como ente transcendental e extraordinário, que se entrega de forma incondicional e em sacrifício próprio ao imperativo maior de cuidar do outro. Mais do que dicotómicas, as expressões de heroísmo subjacentes aos dois grupos de murais (combate ao vírus e à doença; cuidado devoto aos doentes) assumem-se como complementares. Aliás, dois dos murais (Figuras 4 e 5) do primeiro subconjunto fazem, de certo modo, a síntese entre o heroísmo militarista de combate e o heroísmo sagrado compassivo: enfermeira com auréola atacando o vírus com um bastão (Figura 4) e enfermeira com asas de anjo, luvas de boxe e pronta a entrar em combate (Figura 5).

Os tropos de sacralização heroica da enfermagem, tal como a sua metaforização biomilitarista, são indissociáveis de determinados quadros histórico-culturais e têm acompanhado a genealogia da profissão desde os seus primórdios. Antes mesmo da progressiva institucionalização científica e técnica da enfermagem, o amparo mais formal aos doentes era assegurado sobretudo por entidades religiosas e caritativas, o que acabou por suscitar uma vincada representação social do cuidado como atividade compassiva, vocacional e sacrificial de natureza quase sagrada (McGuinness, 2013; Nelson, 2001). Esta representação consolidou-se e ganhou projeção com a figura icónica romantizada de Florence Nightingale. Pela sua tão enfatizada dedicação altruísta aos soldados feridos ou doentes durante a Guerra da Crimeia, recorrendo a uma lâmpada durante as rondas noturnas, ficou conhecida como “dama da lâmpada” e “anjo da Crimeia” (Darbyshire & Gordon, 2005). Ainda decorria a guerra e o jornal The Times, numa notícia de 8 de fevereiro de 1855, já fazia eco da narrativa poética do anjo misericordioso que assegurava cuidado e conforto, levando um raio de esperança com a sua lâmpada aos soldados hospitalizados:

She is a “ministering angel” without any exaggeration in these hospitals, and as her slender form glides quietly along each corridor every poor fellow’s face softens with gratitude at the sight of her. When all the medical officers have retired for the night, and silence and darkness have settled down upon these miles of prostrate sick, she may be observed alone, with a little lamp in her hand, making her solitary rounds (apud Cook, 1913: 237).

A idealização de Florence Nightingale como personagem extraordinariamente abnegada e heroica, entregando-se sem reservas à sublime missão de cuidar, tornou-se ainda mais pronunciada e disseminada à medida que foi sujeita a múltiplas reproduções culturais, desde logo na literatura, rádio, televisão e cinema (Kalisch & Kalisch, 1983a, 1983b; Siles, 2021). Ela passou então a ser “easily identified as the soul or spirit of nursing and as the embodiment of selfless, devoted, compassionate care which borders on the saintly (Darbyshire & Gordon, 2005: 75). Ao longo do século XX, este agregado de noções (mais ou menos metafóricas) de sacralização consolidou-se como uma das grandes referências identitárias da enfermagem. Na atualidade, a sacralização glorificada como heroísmo continua a ser um traço de identidade marcante na imaginação social da enfermagem. Muitos murais da covid-19 são prova inequívoca disso.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A recente pandemia colocou a prestação de cuidados no centro da atenção coletiva e acabou por suscitar múltiplas formas de representação e projeção identitária das profissões do campo da saúde. No âmbito do trabalho aqui desenvolvido, debrucei-me especificamente sobre a enfermagem, considerando as imagens e os sentidos das expressões muralistas que lhe foram dedicadas durante o período pandémico da covid-19. Da análise destas manifestações artísticas, foi possível constatar a significativa densidade e eloquência da sua massa simbólica, composta principalmente por elementos figurativos de pendor metafórico que se destacam como referentes estruturais de configurações de identidade da enfermagem numa conjuntura de emergência sanitária global. A projeção artística no espaço público (quase sempre como tributo e reconhecimento) de imagens expressivas da enfermeira no seu ofício veio consolidar determinadas conceções, qualificações morais e atribuições identitárias de uma profissão particularmente valorizada no cenário de profunda comoção social gerado pela covid-19.

Os dois grupos de murais analisados apresentam ordenamentos iconográficos com sentidos diferentes e, aparentemente, paradoxais em relação à enfermagem. No primeiro grupo (Figuras 1 a 5) sobressaem indicadores simbólicos (v.g., figurações marciais; bastão e raios laser a destruir o vírus; luvas de boxe) que remetem para a noção biomilitarista da enfermagem como atividade agonística de luta vigorosa contra o vírus SARS-CoV-2 e a pandemia, beneficiando da coragem, da resistência transcendental e dos super-poderes da enfermeira. No segundo grupo de murais (Figuras 6 a 10), o foco passa do ataque impiedoso à doença para o cuidado compassivo e incondicional ao doente. São várias as referências simbólicas a sinalizar esta transição e a significação da enfermagem como atividade quase sagrada, marcada pela sublime oblação de assegurar amparo absoluto a quem precisa (v.g., chagas do sacrifício altruísta; asas de anjo; halo sagrado; disposições de cuidado maternais). Estes dois aglomerados de sentidos tendem a inscrever-se em dois grandes arquétipos-metáfora com amplo lastro histórico: o arquétipo militarista e o arquétipo angelical. Em ambos estão presentes conceções de heroísmo e glorificação da enfermeira, associadas a um ideário mais bélico ou a um ideário celestial. Ainda que pareçam manifestamente contraditórios, estes ideários e os respetivos arquétipos complementam-se, dando forma a uma síntese identitária ambivalente da enfermagem como combate vigoroso à doença e cuidado virtuoso ao doente. A heroicização presente nesta síntese identitária afigura-se redutora, antipolítica e perniciosa, pois desvia a atenção das condições estruturais (v.g., políticas de saúde, condições de trabalho) e sobrevaloriza a ação individual como suposto fator determinante do sucesso das respostas à doença (Sacramento, 2022).

Apesar da criatividade artística, as representações muralistas obedecem mais a um registo de continuidade do que de rutura, ajustando, atualizando e/ou recompondo elementos de identidade indissociáveis do desenvolvimento da enfermagem moderna desde meados do século XIX. Neste processo histórico, como se constatou, a construção social da profissão foi sendo modelada por múltiplas conjunturas e contextos culturais, que fizeram sobressair, entre outras, as idealizações militaristas e as alusões celestes (desde logo, a figura do anjo), quase sempre num registo de exaltação heroica. O que é expresso nos murais acaba, em larga medida, por reverberar estas formações simbólicas que acompanham a genealogia da enfermagem e estão consideravelmente enraizadas no imaginário social. A persistência destas associações estereotipadas, embora possa comportar aspetos considerados positivos, não deixa de ser uma situação preocupante, contribuindo para a desvalorização técnico-científica da enfermagem e para sobrecarregar as profissionais com (auto)exigências sobre-humanas, entre muitos outros potenciais efeitos perversos que urge estudar de forma aprofundada.

Disponibilidade de Dados:

Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo.

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  • 1
    Ao longo do texto uso sempre o feminino “enfermeira”, tendo em conta a feminização da profissão (e do cuidado em geral) e procurando sinalizar criticamente algumas das suas representações sociais dominantes (Bitencourt & Andrade, 2021; Cohen & Wolkowitz, 2018; Puzio & Valshtein, 2022; Queirós & Silva, 2024).
  • 2
    De modo geral, as pinturas murais são obras de arte gráfica realizadas em superfícies de grandes dimensões (v.g., paredes, muros, fachadas de edifícios), recorrendo-se usualmente a tintas acrílicas duráveis e de cores expressivas (Mendelson-Shwartz & Mualam, 2024). Estas manifestações artísticas fazem parte do que genericamente se designa por arte urbana, a qual tem vindo a ser objeto de crescente valorização social, sobretudo como produto turístico (Campos & Câmara, 2019; Campos & Sequeira, 2019; Jażdżewska, 2017; Molina et al., 2020; Skinner & Jolliffe, 2017). Apesar da mercantilização a que está sujeita, a arte urbana foi e continua a ser um poderoso meio de condensação de ideários e identidades, contribuindo de forma significativa para a sua afirmação no espaço público (Bracco, 2023; Cruzeiro et al., 2024).
  • 3
    Considerando o âmbito desta pesquisa, a relevância da internet é particularmente notória. Ela tem sido a grande montra da arte urbana, fomentando seu reconhecimento e popularização (Philipps et al., 2017).
  • 4
    A experiência de Florence Nightingale na liderança da prestação de cuidados aos soldados britânicos durante a Guerra da Crimeia (1853-1856) foi decisiva na fundação da enfermagem moderna e na cultura de rígida disciplina militar então adotada (Bostridge, 2015).
  • 5
    As metáforas manifestam-se constantemente no pensamento, na linguagem e na ação, constituindo dispositivos conceptuais que permitem compreender o essencial de uma ideia, geralmente mais abstrata e complexa, nos termos de outra, mais comum e evidente (Hanne et al., 2014; Kimmel, 2004; Lakoff & Johnson, 2003; Maasen & Weingart, 2000).
  • 6
    Como a figura do avião não é muito percetível, poderá não se tratar de um Stuka, mas eventualmente de um Messerschmitt BF-109 ou de um Focke-Wulf 190, dois dos principais caças alemães usados na II Guerra Mundial.
  • 7
    Aliás, logo nos títulos de vários murais é feita referência expressa ao heroísmo da enfermeira (“Super nurse!”, “Healthcare hero”, “Frontline heroes”), sendo que num caso (“50 FT HEROES”) essa referência é exacerbada quer pela quantificação da altura dos heróis (50 pés, cerca de 15 metros), quer pela utilização de letras maiúsculas.
  • 8
    Este hibridismo dissipa-se nos murais analisados na secção seguinte do artigo. Os elementos mais mundanos e agonísticos desaparecem, afirmando-se de forma exclusiva as expressões iconográficas que sacralizam a enfermagem, glorificando a enfermeira sobretudo como uma figura heroica angelical de proteção.
  • 9
    Terminologia militar resultante da I Guerra Mundial e da tática da guerra de trincheiras usada pelas forças beligerantes.
  • 10
    O compromisso incondicional de quem presta cuidado pode entrar em conflito com o próprio (auto)cuidado (Lowenkron, 2022; Tronto, 1993). A maior incidência de situações de burnout de enfermeiras durante a pandemia da covid-19 é ilustrativa da ambivalência e do potencial conflito que permeiam o cuidado (Galanis et al., 2021; Nantsupawat et al., 2023).
  • 11
    A representação do país (Itália) envolvido na respetiva bandeira, a ser embalado pela enfermeira, sugere uma noção materno-nacionalista (e patriarcal) da enfermagem como profissão feminina particularmente vocacionada para cuidar da nação, em linha com a suposta vocação natural das mães para cuidar dos filhos. O “amor materno” continua, assim, a ser reproduzido como “figura fundante” da generalidade das atividades profissionais de cuidado, contribuindo para a tendência de naturalização do cuidado como responsabilidade feminina e atribuição mais orientada pela dádiva e o sentimento do que pela (justa) compensação remuneratória (Guimarães, 2016). Para se ultrapassar este enviesamento, Molinier (2010) propõe a gentleness como disposição ético-política para romper com a estrita associação entre feminilidade e cuidado/amor. Esta proposta de uma ética do cuidado universalista, sem fronteiras de género ou outras - pressupondo que, em dado momento da vida, todos somos vulneráveis, (inter)dependentes e precisamos de algum tipo de cuidado (Hirata & Guimarães, 2012) -, baseia-se na assunção da existência de uma “voz moral diferente” dos preceitos da ética da justiça e que resulta da experiência relacional-emocional-moral de quem cuida (Gilligan, 1993 [1982]); Tronto (2020 [1993]).
  • 12
    À semelhança do titã Atlas da mitologia grega, que sustenta a imensidão da carga dos céus sobre os seus ombros. Aliás, o mural da Figura 10 evidencia grandes parecenças com a representação de Atlas em escultura (Atlas Farnese), que se encontra no Museu Arqueológico Nacional de Nápoles (v. https://greciantiga.org/img.asp?num=0258).
  • Fonte de financiamento:
    Centro de Estudos Transdisciplinares para o Desenvolvimento (CETRAD), entidade financiada por fundos nacionais portugueses através da FCT - Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do projeto UID/04011/2025.
  • Aprovação do Comitê de Ética:
    Não se aplica.

Editado por

  • Editora responsável:
    Thays Monticelli (UFRJ, Brasil).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    30 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    11 Fev 2025
  • Revisado
    28 Abr 2025
  • Aceito
    28 Maio 2025
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