Open-access Paracoccidioidomicose e gastrectomia

Paracoccidioidomycosis and gastrectomy

Resumo

Em revisão feita em protocolos de 757 casos de paracoccidioidomicose foram encontrados 11 (1,5%) pacientes que previamente haviam sido submetidos à gastrectomia. É sugerido que à semelhança do que ocorre na tuberculose, os indivíduos submetidos à gastrectomia apresentam maior risco para o desenvolvimento dessas infecções.

Tuberculose; Paracoccidioidomicose; Gastrectomia; Doença granulomatosa infecciosa


Abstract

In a review of the clinical records of 757 cases of paracoccidioidomycosis 11 (1.5%) of the patients had been previously submitted to gastrectomy. It is suggested that after gastrectomy individuals present a higher risk for the development of such infections, similar to that which occurs in tuberculosis.

Tuberculosis; Paracoccidioidomycosis; Gastrectomy; Infectious granulomatous disease


COMUNICAÇÃO

Paracoccidioidomicose e gastrectomia

Paracoccidioidomycosis and gastrectomy

Patrícia Zambone da Silva; Flávio de Mattos Oliveira; Luiz Carlos Severo

Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS

Endereço para correspondência

RESUMO

Em revisão feita em protocolos de 757 casos de paracoccidioidomicose foram encontrados 11 (1,5%) pacientes que previamente haviam sido submetidos à gastrectomia. É sugerido que à semelhança do que ocorre na tuberculose, os indivíduos submetidos à gastrectomia apresentam maior risco para o desenvolvimento dessas infecções.

Palavras-chaves: Tuberculose. Paracoccidioidomicose. Gastrectomia. Doença granulomatosa infecciosa.

ABSTRACT

In a review of the clinical records of 757 cases of paracoccidioidomycosis 11 (1.5%) of the patients had been previously submitted to gastrectomy. It is suggested that after gastrectomy individuals present a higher risk for the development of such infections, similar to that which occurs in tuberculosis.

Key-words: Tuberculosis. Paracoccidioidomycosis. Gastrectomy. Infectious granulomatous disease.

Em 1985, Snider4 , em Editorial publicado na Revista Chest, informa que 17 autores verificaram , no período de 1946 a 1954, a ocorrência de tuberculose em pacientes gastrectomizados e concluíram que a incidência da doença havia sido maior entre esses do que na população geral. E que, no período de 1948 e 1979, doze casuísticas, com material variando entre 135 a 1.000 pacientes, comprovaram a alta incidência de tuberculose em indivíduos gastrectomizados; nas três maiores séries, a incidência variou de 1,4% a 2,5%.

Foi investigada a possível associação entre gastrectomia com outra doença granulomatosa, a paracoccidioidomicose (PCM).

Foram revistos os protocolos de 757 casos de PCM, diagnosticados em Porto Alegre (RS), no período de 1966 a agosto de 2002. O diagnóstico da micose foi fundamentado no encontro dos elementos fúngicos multibrotantes característicos do Paracoccidioides brasiliensis nos espécimes clínicos.

Onze (1,5%) dos 757 pacientes com PCM haviam sido submetidos anteriormente à gastrectomia, devido à úlcera péptica. A micose ocorreu entre 2 e 20 (média 12,6) anos após a cirurgia. A gastrectomia parcial dos pacientes foi confirmada radiologicamente (Figura1).


Todos os 11 pacientes eram homens com idade entre 35 e 69 anos. Em todos havia comprometimento pulmonar, sendo que em cinco o único órgão envolvido eram os pulmões. Nos outros pacientes havia lesões em outros órgãos (Tabela 1). No tratamento, foram usados cetoconazol, itraconazol e sulfametoxazol-trimetoprim (Tabela 1).

A relação observada entre a maior prevalência de tuberculose em pacientes gastrectomizados (1,9%)5 assemelha-se à obtida nos pacientes com paracoccidioidomicose submetidos à gastrectomia (1,5%). No entanto, o curso natural das duas doenças não apresentou modificação. A evidência de que a gastrectomia predispõe à tuberculose e à paracoccidioidomicose é apenas presuntiva. Na literatura brasileira já foi relatada associação de gastrectomia e paracoccidioidomicose2. Contudo, mais estudos merecem ser feitos na tentativa de verificar essa hipótese. Por outro lado, esses achados levam a questionar se a gastrectomia não constituirá fator de risco para outras doenças granulomatosas.

Além de influir na incidência da tuberculose e da paracoccidioidomicose, a gastrectomia tem influência real sobre a eficácia das drogas usadas no tratamento dessas infecções. A resistência ao cetoconazol ou ao seu uso em doses maiores e em períodos maiores de tratamento1, deve-se ao fato de que a droga necessita de meio ácido para ser eficaz. Além disso, pacientes gastrectomizados apresentam decréscimo de ferro, cálcio e da absorção de sais biliares no trato gastrointestinal3, o que potencialmente pode alterar a farmacocinética da medicação, levando a níveis sistêmicos subterapêuticos6. Por falha de absorção adequada em gastrectomizados, a resistência à rifampicina tem sido observada em tuberculosos6.

Recebido para publicação em 16/12/2002

Aceito em 28/8/2003

Referências bibliográficas

  • 1. Brummer E, Castaneda E, Restrepo A. Paracoccidioidomycosis: an update. Clinical Microbiology Reviews 6:89-117, 1993.
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  • 3. Pryor JP, O'Shea MJ, Brooks PL, Datar GK. The long term metabolic consequences of partial gastrectomy. American Journal of Medicine 51:5-10, 1971.
  • 4. Snider DE. Tuberculosis and gastrectomy (editorial). Chest 87:414-415, 1985.
  • 5. Steiger Z, Nickel WO, Shannon GJ, Nedwicki EG, Higgins RF. Pulmonary tuberculosis after gastric resection. The American Journal of Surgery 131:668-671, 1976.
  • 6. Welsh CH. Drug-resistant tuberculosis after gastrectomy double jeopardy? Chest 99:245-247, 1991.
  • Endereço para correspondência
    Dr. Luiz Carlos Severo
    Laboratório de Micologia/Hospital Santa Rita, Santa Casa Complexo Hospitalar
    Annes Dias 285
    90020-090 Porto Alegre, RS, Brasil
    Fax: 55 51 3214 8435
    E-mail:
  • Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      17 Fev 2004
    • Data do Fascículo
      Dez 2003

    Histórico

    • Recebido
      16 Dez 2002
    • Aceito
      28 Ago 2003
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