Open-access A polêmica psicografia de Gevaerd: embuste, ufologia e pós-verdade1

Gevaerd’s controversial spirit letter: hoax, ufology and post-truth

La polémica carta psicografiada de Gevaerd: impostura, ufología y posverdad

Resumo:

Em 2022, um dos mais importantes ufólogos brasileiros faleceu em decorrência de uma queda. No ano seguinte, circularam nos meios ufológicos duas versões de uma carta psicografada atribuída a ele, gerando reações de repúdio entre seus colegas. Neste artigo, analiso os efeitos dessa carta sobre uma parcela da comunidade ufológica. Tomo o debate em torno da veracidade do documento como uma ocasião privilegiada para descrever como coletivos que regularmente acionam o idioma da suspeita em relação a governos, a cientistas e a instituições públicas lidam com situações controversas na própria comunidade. Este texto se volta à questão de saber como paracientistas com uma trajetória anterior à emergência das plataformas digitais navegam no ambiente da pós-verdade.

Palavras-chave:
cartas psicografadas; ufologia; pós-verdade

Abstract:

One of the most important Brazilian ufologists passed away as result of a fall in 2022. In the following year, two versions of a spirit letter attributed to him spread out in the UFO milieu, causing disapproval among his colleagues. In this paper, I analyze the effects of this letter on part of the UFO community. I take the debate around the authenticity of the document as a privileged opportunity to describe how collectives that regularly use the language of suspicion towards governments, scientists and public institutions deal with controversial situations within their own community. This paper addresses the question of how parascientists who have been active prior to the emergence of the digital platforms, navigate the pos-truth environment.

Keywords:
spirit letters; ufology; post-truth

Resumen:

En 2022, uno de los ufólogos brasileños más importantes falleció a consecuencia de una caída. Al año siguiente, circularon en los medios ufológicos dos versiones de una carta psicografiada atribuida a él, lo que generó reacciones de repudio entre sus colegas. En este artículo, analizo los efectos de esta carta en una parte de la comunidad ufológica. Tomo el debate en torno a la veracidad del documento como una ocasión privilegiada para describir cómo colectivos que regularmente movilizan el lenguaje de la sospecha en relación con gobiernos, científicos e instituciones públicas abordan situaciones controvertidas en su propia comunidad. Este texto se centra en la cuestión de saber cómo paracientíficos con una trayectoria previa a la emergencia de las plataformas digitales navegan en el contexto de la posverdad.

Palabras clave:
cartas psicografiadas; ufología; posverdad

Os efeitos dos mortos

Muitos antropólogos desenvolveram relações de longo prazo com os seus interlocutores. Os anos de convivência e de troca intelectual foram, inclusive, objeto de reflexões em livros e coletâneas. Um exemplo conhecido é a obra de Joseph Casagrande (1960), intitulada In the Company of Man: Twenty Portraits by Anthropologists, na qual pesquisadores contam histórias sobre indivíduos com quem trabalharam em colaboração direta durante a pesquisa. Outro caso é a longa colaboração entre Sidney Mintz e Don Taso, que resultou no livro Worker in the Cane: a Puerto Rican Life History (Mintz 1960) e em uma reflexão mais curta sobre o uso das histórias de vida na antropologia (Mintz 1984).

Mais contemporaneamente, a antropóloga brasileira Aparecida Vilaça (2018) publicou Paletó e eu: memórias de meu pai indígena, livro que apresenta as memórias de Paletó, homem da etnia Wari’, do Alto Rio Negro, com quem trabalhou por décadas. No caso de Vilaça, o falecimento do pai/interlocutor indígena octogenário acionou o trabalho da memória sobre a ocasião do encontro com Paletó e criou a oportunidade para detalhar algo da história do povo ao qual ele pertencia, inclusive um pouco de suas práticas mortuárias do passado. Diante de um morto, ilustre ou não, os Wari’ da juventude de Paletó optavam pelo consumo cuidadoso e sem avidez (Vilaça 2018) do corpo pelos não parentes. Destruíam-se também pelo fogo os objetos do falecido, em uma prática de “varrer” (Vilaça 2018:20) o morto.2

Mesmo nos casos como o de Vilaça e Paletó, em que o laço era forte, a morte, com frequência,3 põe termo à relação entre pesquisador e interlocutor. Isso, por óbvio, não significa que ela não possa agenciar efeitos duradouros. Isto é, se em certas ocasiões a aniquilação física aciona o luto em suas diferentes expressões (vide, por exemplo, a clássica discussão de Benedict [1934]), ela também tem a capacidade de disparar a produção discursiva e de dar vazão à construção de obituários, de homenagens, de epônimos e, inclusive, do trabalho poético.

Distintamente das relações entre antropólogos e interlocutores que ordenam os exemplos anteriores, mas ainda ilustrando o disparo de produções narrativas, observem-se os efeitos da queda fatal da antropóloga Michelle Rosaldo enquanto caminhava com as suas interlocutoras Ifugao na ilha de Luzon, nas Filipinas. Anos depois, em 2014, o falecimento repentino se tornou o motivo para o trabalho poético4 do seu marido (Quadro 1), o antropólogo Renato Rosaldo:

Quadro 1.
Poema - I was walking - Renato Rosado

Diante das atitudes perante a morte acidental de um homem Ilongot relatadas pela própria Michelle Rosaldo (1982:219), talvez coubesse até se perguntar pelos efeitos da queda de Michelle não apenas nas memórias do marido, mas entre as mulheres indígenas com quem caminhava no exato instante do acidente no penhasco. Aqui, diferentemente do caso de Aparecida Vilaça e Paletó, no qual a morte do interlocutor-parente é o mote para o trabalho literário da antropóloga, convém especular se a morte de Michelle Rosaldo não foi o motivo para o trabalho do luto entre as suas companheiras de caminhada.

É óbvio que aqui lidamos com eventos com proporções numéricas muito maiores, mas penso em efeitos similares àqueles testemunhados no caso envolvendo o povo Mebêngôkre Kayapó e a empresa brasileira Gol Linhas Aéreas. Em 2006, uma aeronave da companhia caiu na terra indígena Capoto-Jarina, situada em Mato Grosso, o que resultou na morte das 154 pessoas a bordo. O evento disparou uma ação de pedido de indenização dos Kayapó contra a empresa. Alegou-se que “a área constitui uma ‘mekaron nhyrunkwa’, uma casa dos espíritos, vedada ao uso da comunidade para fins de caça, pesca, roça ou construção de aldeias” (Anjos 2016).

Situações como a relatada não constituem novidades no campo da antropologia, pois são numerosos os exemplos dos efeitos dos mortos em diferentes instâncias da vida. Em situações de pesquisa, reproduzem-se referências a ancestrais que permanecem com os seus parentes após a morte (Astuti 2017) e a espíritos cuja agência incide sobre as pessoas mesmo depois do passamento. Para ficar apenas com dois casos, vale mencionar os “espíritos de colonizadores holandeses”, relatados por Mello (2020:61), e as comunidades formadas em torno do culto de Babá Egun, descritas por Conceição (2011). Recordemos ainda o lugar dos mortos e de seus efeitos no sertão de Pernambuco, onde assistimos ao “posicionamento no mundo por meio da constituição e manutenção da memória dos mortos para a fabricação e manutenção de uma família” (Villela 2020:221). Logo, a informação de que os mortos produzem efeitos e que antropólogos os tenham analisado nas constituições de coletivos humanos está muito longe de causar qualquer surpresa.6 Situação menos evidente e, é verdade, um pouco mais rara, é aquela em que um pesquisador tem a oportunidade de trabalhar com o material que um interlocutor produziu, ou supostamente produziu, depois da morte.

Não falo aqui de arquivos descobertos depois ou de registros privados, como as observações de Ruth Landes sobre os seus materiais que, mais tarde, se tornaram o objeto do trabalho de Olívia Cunha (2004). Falo de interlocutores que, supostamente, continuam a atuar após mortos, produzindo controvérsias nas comunidades que habitavam.

Indivíduos que, após passarem parte de suas vidas trabalhando em campos paracientíficos ou religiosos, continuam a se comunicar com a comunidade dos vivos. Um caso conhecido no Brasil é o do médium mineiro Chico Xavier, que, já morto, teria escrito livros psicografados.7 Analisaremos uma conjuntura semelhante neste texto. Não um caso de cartas produzidas por um médium, mas uma situação em que diferentes versões de uma carta psicografada atribuída ao espírito de um ufólogo famoso geram debates sobre a sua veracidade na comunidade de praticantes da ufologia. Ao acompanhar esse episódio, terei a oportunidade de pensar como comunidades que podem ser formadas a partir do idioma da suspeita e de raciocínios conspiratórios dirigidos a um fora lidam com situações controversas na própria comunidade. O meu objetivo com este texto é adicionar um pouco mais de compreensão à questão de saber como coletivos conspiratórios navegam no ambiente do que tem se chamado de pós-verdade.8

Organizei este artigo da seguinte forma: na primeira seção, apresento como, nos últimos anos, certos grupos de praticantes da ufologia no Brasil têm se valido de técnicas para o contato com extraterrestres familiares a religiões como o kardecismo. Também discuto como Ademar Gevaerd, um importante ufólogo brasileiro, passou a produzir discursos públicos que incorporavam as cartas psicografadas e as canalizações espirituais como formas legítimas de conhecimento sobre extraterrestres. Na segunda seção, apresento as duas versões da carta atribuída ao espírito de Gevaerd. Na terceira seção, discuto a reação de setores da comunidade ufológica ao aparecimento desses documentos. Na quarta seção, apresento as reflexões de um ufólogo amigo de Gevaerd sobre a carta. Na quinta e última seção, teço algumas observações sobre como comunidades forjadas no idioma da suspeita lidam com imitações que consideram prosaicas, isto é, com o nitidamente falso.

Os materiais que embasam a escrita deste trabalho são os seguintes: a) comentários do ufólogo Ademar Gevaerd em sua página pública em uma rede social, anos antes de sua morte; b) versões em vídeo e em texto de uma carta psicografada atribuída a ele; c) nota de repúdio escrita pela Revista UFO e os comentários dos ufólogos sobre a carta psicografada; d) uma entrevista com Marco Antônio Petit, antigo coeditor da revista UFO e amigo íntimo de Gevaerd, que publicou em suas páginas pessoais na internet uma manifestação em relação à carta psicografada; também me vali, ainda que de modo mais circunscrito, de: e) trocas de mensagens com o dono de um canal do YouTube que publicou a carta psicografada; f) comentários ouvidos durante uma palestra ocorrida na Associação Latino-Americana de Ufologia Científica, ocorrida em abril de 2024; e g) observações presentes na revista OVNI Pesquisa.

Antes de prosseguir, preciso fazer uma nota metodológica. Embora use fontes disponíveis online, este trabalho não se configura como uma etnografia digital. Diferentemente de pesquisas como a de Larissa Pelúcio (2015), por exemplo, não precisei criar um perfil e sustentar interações virtuais por um período duradouro, tampouco me vali de um esforço sistemático, concentrado em uma única plataforma, de coleta e registro. Os materiais sobre os quais me detive para compor este texto ou bem resultam de um acompanhamento não sistemático da página no Facebook de Gevaerd, personagem que entrevistei durante a primeira pesquisa com os ufólogos (Almeida 2015) e cujas postagens, mesmo depois de finalizada a investigação, eu lia, ou são desdobramentos da peça central analisada, a carta psicografada. Como se verá, os comentários sobre ela presentes no site da revista UFO foram aqueles selecionados pelos responsáveis pela publicação como reação à carta. A propósito dos comentários sobre o documento narrado em vídeo no YouTube, não usei nenhum método especial para selecionar as interações com o vídeo além da extensão dos comentários. Para finalizar, preciso observar que, no intervalo entre a submissão deste artigo para a revista e a sua publicação, a narração em vídeo mais longa da carta psicografada foi retirada do canal que originalmente a publicou.

Canalizações espirituais e psicografias na ufologia

Ainda que a ufologia seja mais conhecida publicamente pelo estudo dos discos voadores, das sondas, das luzes, das marcas de pousos e dos destroços de aeronaves de origem atribuída a alienígenas, parte de sua atividade pode envolver o estabelecimento de relações mais diretas com seres extraterrestres. Tais relações costumam ser mediadas por contatados, indivíduos que recebem mensagens e as transmitem aos seus pares, ou, ainda, por abduzidos, sujeitos levados à força para naves espaciais e outros locais extraterrestres e que, após experimentos realizados com os aliens ou outros intercâmbios com eles, voltam à Terra e comunicam o que viram aos humanos. Igualmente presente, mas menos comum, é o uso de canalizações espirituais (incorporações), nas quais extraterrestres se manifestam por meio dos corpos de médiuns, algo que está documentado, no contexto americano, desde “a virada do século XX” (Partridge 2015:394).

Em sua tese de doutorado, Leonardo Martins (2015), que realizou uma extensa pesquisa junto a diferentes grupos e indivíduos ligados ao tema da ufologia, destaca o caso da médium Sílvia (pseudônimo), que “recebe mensagens de seus guias, alguns dos quais extraterrestres, sem a necessidade de incorporação ou mesmo transe” (Martins 2015:281).

Durante a primeira pesquisa que fiz entre praticantes da ufologia no Brasil (Almeida 2015), tive notícias de episódios de incorporações extraterrestres em corpos humanos. Nesse campo, o exemplo mais conhecido é a canalização da alienígena Shell y Ann ou Shellyana de Iparian (figura 1), das plêiades, que vocaliza as suas mensagens cósmicas por meio da médium e ufóloga Mônica de Medeiros, que trabalha na Casa do Consolador, localizada em São Paulo. A extraterrestre Shell y Ann e Mônica Medeiros possuem vários vídeos no canal do YouTube do Centro.9 Alguns vídeos são palestras com recomendações alienígenas para uma boa vida e outros são programas do tipo “Shell y Ann responde”, nos quais Mônica deixa a alienígena incorporar e passa, então, a responder a perguntas dos seguidores.10

Figura 1
Médium Mônica de Medeiros Incorporando a Extraterrestre Shell y Ann, das Plêiades.

Debates sobre a validade de meios espirituais para se entrar em contato com extraterrestres são muito comuns entre ufólogos brasileiros desde, pelo menos, a década de 1980. O tema é também recorrente nas publicações ufológicas impressas (ver Almeida 2015). O que não era recorrente, no entanto, era a centralidade que tais formas de contato passaram a ganhar em uma parcela daquele que era o maior e mais capilarizado grupo de ufólogos brasileiros, formado em torno da revista UFO.11

Eu vinha acompanhando os movimentos de tal grupo desde 2011, mas a partir de 2013 constatei que a referência a elementos kardecistas se tornou mais aparente. O I Fórum Mundial de Contatados, realizado em Florianópolis, em 2013, foi um marco nesse sentido. Conforme documento (Almeida 2015), nele estavam presentes palestras que pretendiam unir ufologia e espiritualidade. A partir daquela época, Ademar Gevaerd, editor da revista UFO e organizador do evento, passou a enunciar a possibilidade de acessar conhecimentos extraterrestres pela via dos seus emissários humanos e de mensagens psicografadas.12

Aqui, é preciso dizer algumas palavras sobre esse homem. Ademar José Gevaerd nasceu em Maringá, onde atuava como professor de química. Interessado em ufologia desde novo, passou a trabalhar em tempo integral como editor da revista UFO, outrora a maior publicação sobre o tema no Brasil. Gevaerd também foi um dos organizadores dos maiores congressos da área nas duas primeiras décadas do século XXI. Especialmente na segunda década do século XXI, tais eventos não apenas abrigavam os já tradicionais estudiosos de casos envolvendo naves ou luzes, como davam centralidade a indivíduos que alegavam manter contatos diretos com alienígenas.

Contudo, a admissão de contatos espirituais com extraterrestres não ocorria apenas nos eventos. Em 2015, Daniela, filha de Gevaerd e uma jovem assistente da revista UFO, faleceu em um acidente de carro. Gevaerd compartilhou a dor pela morte da filha em mais de uma ocasião em suas páginas nas redes sociais. Daniela falecera em março e, em dezembro do mesmo ano, Gevaerd divulgou para os seus seguidores uma mensagem psicografada por aquele que acreditava ser o espírito da filha:

“Nós, que sempre fomos curiosos sobre seres existentes além da Terra, estejamos convencidos de que na própria Terra inúmeras humanidades habitam”. E “Uma curiosidade que investiguei, há sim seres inteligentes que comungam conosco, como guardiões de nosso progresso”. Leiam bem: “Nosso planeta é habitado por muitas humanidades”. Isso para mim tem um peso enorme e mostra em definitivo que o mundo que vemos e vivemos não é nada se não uma fração do que ele é de fato. Ou seja, praticamente tudo a seu respeito nós desconhecemos (Postagem de Ademar Gevaerd no Facebook no dia 25/12/2015).13

Três anos após a perda, ele relatava que, apesar da dor terrível, já havia recebido não uma, mas sete mensagens psicografadas nas quais o espírito de Daniela explicava as condições do acidente, dizia onde estava e indicava que “civilizações coexistem conosco em nosso planeta”:

Amanhã será um dia bem triste para minha família e para mim. A falta que a Daniela faz é irreparável. Não imaginava que existisse dor assim. Mas compartilho com vocês um fato: ela já mandou, nestes três anos, nada menos do que 7 psicografias, uma delas explicando um pouco de como foi o acidente, outra o que ela faz onde está etc., todas com amor abundante. Em uma das mensagens, ela diz: “Nós, que gostamos dos mistérios do universo, muitas vezes não nos damos conta de quantas civilizações coexistem conosco em nosso planeta”. Gevaerd (Postagem de Ademar Gevaerd no Facebook no dia 06/03/2018).14

Em dezembro de 2022, Gevaerd teve uma queda em casa, o que resultou em uma morte prematura, aos 60 anos. A comoção nos meios ufológicos foi geral, pois, apesar de também manter desafetos e de antagonizar com certas figuras na ufologia, Gevaerd era uma espécie de representante público desse campo no Brasil. Desde a sua morte, a área vem se reorganizando, inclusive com o fortalecimento de novas publicações impressas dedicadas ao tema que, de alguma forma, quebraram a hegemonia da revista UFO.15

Em março de 2023, começaram a circular na internet duas versões de uma carta psicografada atribuída ao espírito de Gevaerd, uma em vídeo e outra em texto, que geraram reações por parte dos seus amigos próximos. Tais reações não são incomuns perante mensagens espirituais dessa natureza. Recordemos que, se “[n]o Brasil, são cinco casos de homicídio em que a decisão judicial se fundamentou em comunicações mediúnicas psicografadas por médiuns” (Pereira 2014:36), houve também certo debate sobre o uso de mensagens provenientes do mundo além-túmulo como elemento de prova na justiça.

Quero pontuar que, em face de cartas atribuídas a espíritos, não são raras controvérsias em torno da veracidade do material psicografado. Também comuns são contendas em torno de saber a quem caberiam os seus direitos autorais, isto é, ao médium ou à família do espírito que se comunica por meio dele. A esse respeito, recorde-se a observação do antropólogo Bernardo Lewgoy (2001) sobre a disputa judicial que envolveu o médium Chico Xavier e a viúva do escritor Humberto de Campos. Tratava-se de um “processo em que se pleiteava os direitos autorais pelas obras psicografadas, caso se confirmasse a autoria do famoso escritor maranhense” (Lewgoy 2001:60). Ainda no domínio jurídico, mais recentemente, Pellegrini, Almeida e Costa (2022) relataram o uso de uma carta psicografada durante o julgamento do caso envolvendo o incêndio na Boate Kiss, que vitimou 242 pessoas na cidade de Santa Maria - RS.

Deve-se notar que cartas psicografadas fazem parte de um conjunto maior de manifestações espirituais que, em alguns casos, se relacionam com processos de inquérito criminal ou julgamentos. Nesse campo, recorde-se o exemplo clássico do estudo de Contins e Goldman (1984) sobre a manifestação do espírito da entidade Maria Padilha, associada a um assassinato no Rio de Janeiro. Comenta Bahia (2024:5) que “a pombagira é um caso inédito na história da criminologia brasileira, pois não se conhece qualquer registro em que uma entidade espiritual tenha dado depoimento perante uma autoridade terrena”.

No caso em tela, como observei, a carta atribuída ao espírito de Gevaerd gerou rápidas reações por parte dos atuais responsáveis pela revista UFO e de alguns dos seus amigos, como o ufólogo Marco Antônio Petit, que desacreditaram o conteúdo. Passemos ao teor da missiva.

O teor da missiva, sua estrutura narrativa e as diferentes versões

Há duas versões da carta e ambas foram disponibilizadas no site da revista UFO na mesma página em que os editores redigiram a nota de repúdio dirigida aos que espalharam o conteúdo pela internet. A primeira versão apareceu em formato de texto, tal como disponho a seguir. Na primeira parte da carta, o alegado espírito de Gevaerd narra o sentimento que experimentou ao morrer, envia uma mensagem ao seu filho Daniel e apresenta notícias da filha falecida, Daniela. Aqui aparecem comentários pessoais dirigidos ao filho e a menção aos “seus sonhos de fama”, uma referência ao fato de o último ter participado de uma das edições do reality show Big Brother Brasil, apresentado no canal Globo.

Na segunda parte, encontramos informações sobre a vida além-túmulo. Em uma espécie de fusão entre o referencial kardecista e a ufologia, a carta atribuída ao espírito de Gevaerd afirma que anjos e aliens são, na verdade, “uma só entidade” controlada por uma espécie de demiurgo. A mensagem é completada indicando o mecanismo extraterrestre que produz as imagens nas plantações que o ufólogo estudara em vida (os agroglifos) e indicando que o conteúdo encaminhado16 pela NASA na nave americana Voyager, em 1977, já foi recebido pelos extraterrestres.

Experimentei uma incrível queda para o alto. Sim, ao perder a vida em uma queda banal, conheci no pós-vida coisas grandiosas. Guarde nossa pedra mística e enigmática, meu pequeno ser Daniel, pois ainda enfrentará muitos leões devido aos seus sonhos de fama. Nosso Urim e Tumim agora podem ser suas luzes e perfeição. Quanto à sua adorável irmã, a guerreira das estrelas, pude constatar na essência que ela está bem. Tudo é tão exuberante e extraordinário por aqui que em segundos devorou todos os meus longos anos de estudos ufológicos na Terra. Bem que dizem que a sabedoria andava com Deus no princípio. Agora, sim, tive o prazer de conhecer a sabedoria. Envio esta carta através da psique do médium para me comunicar com meus séquitos e esclarecer alguns temas que jamais compreenderia em vida. Para minha surpresa, anjos e Aliens são uma só entidade que se distribui em hierarquias, e não só vagueiam pelo universo como no espaço-tempo. O não contato direto só não ocorre devido às ordens do Eu superior. Ele liberta o emissário conforme a ocasião, assim como enviou Gabriel e os divinos loiros de Sodoma e Gomorra. Ele dá ordens aos seres e as rodanas [sic] como a carruagem de fogo e a nave de Ezequiel. Se digo que estou maravilhado, podem acreditar, pois são coisas inefáveis que se contemplam aqui. Em minha visão mental, pude ver o canhão de alta tecnologia que dispara agroglifos nas plantações, dos quais aqui se denomina Quasares Quânticos de 40 íons. Não importa a distância em anos-luz que as plantações terrenas serão apenas lousa para o giz extraterrestre. Em breve, a Terra entenderá as mensagens, pois me surpreendi aqui ao saber que a mesma tecnologia foi usada para escrever a mensagem na parede do rei Belsazar, da qual só Daniel pôde interpretar (fui abençoado em escolher este nome para você, meu filho). Pudera eu passaria todas as novas informações que recebi aqui, mas o vigia dos tempos não permite, e nem o extra sensorial [sic] do sensitivo que utilizo no momento suporta. Sendo assim, me despeço com alegria de ter partido, e não com tristeza. Só gostaria de ter recebido tal entendimento em vida para colocar em pauta na nossa conceituada revista UFO. Mas não me preocupo, pois Enzo saberá lidar com tudo isso no tempo certo. Mais uma importante informação: Eles captaram e sabem do disco de ouro da Voyager e se preparam para o contato em massa. Um abraço telepático a todos (Revista UFO 2023).

Note-se que essa primeira versão da carta traz alguns elementos presentes em outras mensagens psicografadas. Isto é, o autor apresenta informações íntimas ou pessoais de entes familiares de tal forma a indicar a probabilidade de veracidade do testemunho. Tal como é comum em outros textos do mesmo gênero, algumas informações sobre a vida além-túmulo são transmitidas, mas outras se mantêm em segredo, pois “o vigia dos tempos não permite” (trecho da carta).

A segunda versão,17 também disponível na página da revista UFO, é um fac-símile expandido da primeira, que altera alguns elementos do texto e a eles adiciona um conjunto maior de informações. Trata-se de uma narração incorporada a um vídeo hospedado no canal O Espiritualista, que recebeu o título de “A psicografia proibida do ufólogo Gevaerd faz revelação chocante sobre presidente Lula”.

Esse canal está dedicado à publicação de mensagens psicografadas atribuídas a personalidades públicas. Entre os nomes, estão Marisa Letícia, antiga esposa de Lula, Olavo de Carvalho, ex-guru da família de Bolsonaro, o Papa João Paulo II e os artistas Mussum, da série Trapalhões, e Dercy Gonçalves. Na caixa de comentários, o público faz menções às mensagens das personalidades, mas também indica nomes de parentes e amigos que precisam de orações. Encontram-se, ainda, mensagens de seguidores do canal se posicionando sobre a veracidade da carta (Quadro 2).

Quadro 2.
Comentários sobre o vídeo do canal “O Espiritualista”.

Note-se que os dois primeiros comentários questionam o fato de a mensagem atribuída ao espírito de Gevaerd se voltar para temas ligados à política brasileira. São indagações que revelam um descontentamento com a associação do presidente Lula aos reptilianos. O comentário 3 critica o autor do vídeo por má-fé. Já o comentário 4 sugere que Gevaerd teria passado por uma espécie de lição cósmica, tendo ido de alguém “cético para as questões espirituais” para um espírito que “teve que aceitar algumas coisas que são pilares concretos da espiritualidade”.

Observe-se que esses comentários relativos à verdade da carta, quando emitidos por pessoas que partilham dos pressupostos kardecistas, como suponho ser o caso, podem integrar uma questão maior ligada ao tema da confiabilidade do médium, tema já discutido por antropólogos que se voltaram à pesquisa sobre o espiritismo. Esse é o caso de Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti, segundo quem “[a] transmissão da Verdade requer não apenas que os homens de modo geral estejam à sua altura, como requer um médium capaz de efetivá-la, como dizem os espíritas, um médium fidedigno, i.e., capaz de filtrar, sem a interferência do seu Espírito, a mensagem espiritual” (Cavalcanti 1983:89). Bernardo Lewgoy indica que a confiabilidade da mensagem passa, nos meios espíritas, também por outro elemento: a “intertextualidade” (1998:101), isto é, as conexões entre a mensagem e outros textos tomados como confiáveis no ambiente kardecista. Giumbelli (1995:161), por seu turno, nos recorda que essa atenção ao ilegítimo está presente no trabalho fundador do kardecismo: ‘“[o] Livro dos Médiuns dedica um capítulo inteiro a formas espúrias em que se envolve o ‘espiritismo’”.

Nessa versão estendida, para além de trazer todos os elementos já presentes na primeira carta, o espírito de Ademar Gevaerd revela uma espécie de complô formado por reptilianos, raça extraterrestre que ameaçaria a segurança da Terra. Reativando um tema comum em certos círculos ufológicos, em particular, as teorias da conspiração que apontam para o controle do mundo por forças ocultas, a carta aponta que tais seres teriam “agentes infiltrados” entre os humanos. Entre eles, estaria o próprio presidente Lula, ele mesmo um infiltrado. A carta ainda avança afirmando que, com o apoio dos presidentes do Brasil, dos Estados Unidos e da China, os reptilianos estariam desenvolvendo o projeto de implantar os seus cérebros em corpos saudáveis humanos.

Nesse ponto, é preciso chamar a atenção para as fotos que acompanham a narração. Imagens de Gevaerd se somam a fotos do Papa Francisco em meio a alienígenas, a desenhos de extraterrestres reptilianos e a montagens do presidente Lula que sugerem que o homem que se apresenta hoje em seu lugar é uma espécie de clone (Figura 2).

Figura 2.
Frame do Vídeo Publicado no Canal O Espiritualista.

A propósito da Figura 2, parece ser importante observar que, desde o final de 2022, circulam em alas da extrema direita brasileira a teoria da conspiração segundo a qual Lula teria sido substituído por um sósia (Estado de Minas 2022). A novidade da carta é a sugestão de que quem controlaria o corpo não seria um outro humano, um sósia, mas sim um extraterrestre com intenções hostis.

Veremos a seguir que o idioma da farsa e da suspeita e a indicação de que quem fala pode não ser necessariamente o autor das mensagens é algo presente em outros locais além da carta imputada ao espírito de Gevaerd. Contudo, antes de passarmos a essa questão, quero apresentar algumas palavras sobre a autoria das cartas.

Como disse anteriormente, a versão mais curta está hoje publicada no site da revista UFO, que lhe faz fortes críticas. Ela também aparece narrada em um vídeo do canal Maktub Cósmico. Ao tentar rastrear o médium responsável pelo documento, entrei em contato com o referido canal. Nele, foi postado o vídeo com o título “Psicografia proibida de Ademar Gevaerd” (Maktub Cósmico 2023). No início da mensagem, afirma-se: “No dia 24/02/2023, no grupo ‘O olho que viu o amanhã’, retirada do facebook através do médium Valter Arauto, o vidente. Divulgou a suposta psicografia do grande ufólogo Ademar José Gevaerd”. Em fevereiro de 2024, conversei com Leandro Maktub, dono do canal, e ele me informou o seguinte:

Ela surgiu, a princípio, com o pessoal da Revista UFO dizendo que caso recebessem alguma informação de psicografia do Ademar José Gevaerd, que não publicassem, porque eles não autorizavam e estavam em busca das pessoas que tinham feito esta psicografia. Se eu não me engano, em uma casa espírita em uma cidade onde tem um centro de psicografia - acho que esse é o nome, Aureliano, que divulgou para mim. Entrou, conseguiu o meu contato, assim como você, entrou em contato e divulgou a psicografia. Eu entrei em contato com o filho do Gevaerd. Ele não me respondeu. Eu simplesmente coloquei como suposta psicografia.18

Posteriormente, Leandro me escreveu me informando que o nome da casa onde a mensagem foi recebida era CEURBA e que “Coliorano é quem é o regente da casa espírita”. Contudo, não consegui rastrear esse local ou fazer qualquer contato com os seus responsáveis.

Já sobre a segunda versão do documento, que incorpora a teoria da conspiração sobre o clone de Lula e os reptilianos, como sabemos, foi publicada no canal do YouTube O Espiritualista, de onde foi posteriormente apagada. Tentei contactar os responsáveis, mas não obtive êxito. Importa notar um outro elemento ligado à carta que fala de Lula e dos reptilianos. Entre as imagens presentes no vídeo, está a foto do médium Divaldo Franco, mas não há quaisquer informações de que ele tenha sido o responsável pela psicografia. Como se vê, os elementos disponíveis para pensar a origem do documento são bastante elusivos.

Farsa, mentira e suspeita na comunidade ufológica

Em nota publicada em sua página, a revista UFO negou a autenticidade das mensagens psicografadas. Para tanto, recorreu ao depoimento de Daniel, filho de Ademar. Segundo Daniel, “[i]sso foi muito baixo, oportunista, generalizado e superficial, não contendo nada que pudesse comprovar sua veracidade, misturando religião com ufologia, sem conexão alguma com a realidade de meu pai e da minha”. O mesmo site trouxe prints de mensagens de outros membros do grupo da revista UFO, que reproduzo no Quadro 3:

Quadro 3.
Reações de ufólogos à carta psicografada de Gevaerd.

Os comentários do quadro desacreditam a psicografia de diferentes formas. A mensagem 3, sem colocar sob suspeita o referencial kardecista, questiona o curto período entre a morte de Gevaerd e o início do envio das mensagens. A mensagem 8 ataca o próprio conteúdo da carta, que estaria errada ao indicar que Gevaerd teria morrido no exato momento da queda e não logo depois, enquanto estava internado na UTI. As mensagens 1 e 10 reputam ao responsável pela psicografia a condição de aproveitador e qualificam as suas ações como sensacionalistas e dotadas de um “misticismo doentio”. Já o texto 8 insiste: “Vamos ter que demonstrar que é fake”. Este último trecho chama a atenção pelo seguinte: de modo curioso, as comunidades que tradicionalmente são acusadas de acreditar em fenômenos não comprovados agora se veem envolvidas em uma pesquisa sobre a verdade de enunciados que circulam no próprio grupo. Os ufólogos, que tradicionalmente estiveram envolvidos em demonstrar a farsa e o acobertamento de governos, elites mundiais e extraterrestres, agora levantam suspeitas internas sobre a originalidade de uma mensagem espiritual atribuída ao seu membro mais importante.

Antes de passar ao próximo tópico, quero ponderar que nem a publicação presente na revista UFO, nem as mensagens apresentadas negam a possibilidade do envio de mensagens psicografadas por qualquer um que tenha morrido. Isso, pelo menos aqui, não está sob suspeita. Não se nega, portanto, que uma psicografia possa ser verdadeira. O que se nega é a originalidade dessa carta.

Embora provenha de um registro diverso, um paralelo pode ser feito com a situação documentada por Daniel Figueiredo (2020) em seu trabalho sobre a política e a feitiçaria na região de Nampula, no norte de Moçambique. Ao conversar com Chale Ossufo, antigo Edil de Nacala-Porto, sobre as situações nas quais um infortúnio pode ser explicado pela bruxaria, o autor pondera: “o que está em jogo, não é a exclusão da feitiçaria como categoria válida de entendimento. Mas, antes disso, o estabelecimento de critérios para saber quando é o caso para a lógica da feitiçaria ser acionada” (Figueiredo 2020:186).

Algo similar valeria para as reações de ufólogos às cartas psicografadas. Para alguns dos críticos da mensagem de Gevaerd, não haveria dúvidas de que cartas poderiam ser enviadas do mundo espiritual. No entanto, isso não significa que aquela carta, em particular, fosse dele.

“Quanto mais absurdas forem as supostas revelações, mais visualizações o sujeito vai ter”

Em novembro de 2023, Marco Antônio Petit, antigo coeditor da revista UFO, autor de livros sobre o assunto, palestrante frequente em congressos ufológicos e amigo de Gevaerd por décadas, publicou em suas redes sociais uma mensagem de repúdio à circulação da carta psicografada. Vi nessa manifestação a oportunidade de entrevistá-lo e ouvi-lo mais longamente sobre a circulação do referido documento. Em abril de 2024, Petit me esclareceu que ele próprio não é alguém que esteja distante do tema da ufologia esotérica, pois já teria dado palestras em centros espíritas19 (vide figura 3) e inclusive recebera, no passado, mensagens psicografadas dos seus pais transmitidas por médiuns.

Figura 3.
Cartaz de Divulgação de uma Palestra Ministrada por Petit (22/06/2024).

Contudo, Petit me confessou que, assim como ocorre com certos materiais que circulam na internet a propósito do tema extraterrestre, há muito engano envolvendo cartas psicografadas:

[...] a maior parte é, no máximo, algum tipo de processo de engano em que o médium cria uma situação que ele mesmo acredita que está sendo o porta voz de um processo desse, quando, na verdade, é um fenômeno exclusivamente psicológico. A maior parte, como de fotos de UFOs, como de supostos paranormais que fazem coisas aí - e, em grande parte, são mágicos. Não que os fenômenos paranormais não sejam autênticos. Eu acabei de fazer uma palestra ligando os fenômenos paranormais à ufologia na semana passada. Agora, então a gente já tem essa expectativa de que a maior chance em caso desses tipos, como no caso envolvendo o Gevaerd... (Entrevista com Marco Antônio Petit, abril de 2024).

Petit me contou que, assim que a carta de Gevaerd foi divulgada, começou a receber muitas mensagens de pessoas que diziam: “Você já viu isso? Gevaerd está se comunicando”. Teria sido essa grande quantidade de mensagens que fez com que ele se pronunciasse:

Mas eu fui bastante contundente dentro de uma negativa da possibilidade desta mensagem vir dele, porque ele... a gente começou junto na ufologia. Quando viajava, era o mesmo quarto. A gente interagia não só no aspecto ufológico, mas também na intimidade das nossas vidas pessoais. Ou seja, qualquer coisa de importante que acontecesse nas nossas vidas, a gente interagia (Entrevista com Marco Antônio Petit, abril de 2024).

Petit me confidenciou que os indícios de que a carta não era de Gevaerd podiam ser encontrados na incompatibilidade entre o modo como o antigo amigo pensava a ufologia e como o campo fora tratado na carta, mas também na maneira como o documento apresentava as questões familiares. Um dos indícios de que a psicografia seria falsa é o fato de que nela o espírito de Gevaerd não fez menção ao seu filho Pedro:

Quando o médium começou a falar da parte familiar, aí foi um desastre. Porque aí ficou claro que ele só conhecia literalmente aquilo que era público. E se esqueceu - porque, na verdade, não sabia. São pouquíssimas pessoas que sabem que o Gevaerd tem um filho, que é o Pedro. Que é bem mais novo. Quer dizer, como é que um pai vai se referir aos seus filhos e esquecer de um? É um absurdo. E outros detalhezinhos, que, às vezes, não são tão pequenos assim, que mostraram que a pessoa... Aí não vou afirmar que é uma fraude proposital do médium, mas o que eu posso dizer é que essa mensagem não veio de jeito nenhum do Gevaerd. Agora, tem gente que vive dessa situação. “Vive”, eu não quero dizer financeiramente, vive tipo se tornando uma pessoa em evidência (Entrevista com Marco Antônio Petit, abril de 2024).

O meu interlocutor indica que, no passado, para ganhar relevância, um ufólogo teria que apresentar as pesquisas, realizar as investigações. Hoje, por outro lado, “quanto mais absurdas forem as supostas revelações, mais visualizações o sujeito vai ter” (Entrevista com Marco Antônio Petit, abril de 2024).

Sobre o falso

Ao refletir sobre as possíveis entradas para pensar a reação de alguns membros da comunidade ufológica ante a psicografia falsa de Ademar Gevaerd, um conjunto de caminhos se mostra disponível: as reflexões de Luiz Costa Lima (1980) sobre o conceito de mímese nos dão acesso ao tema da imitação e do simulacro; a antropologia de Nils Bubandt (2009) nos permitiria avançar sobre a discussão dos efeitos de cartas falsas; as observações de Luiz Eduardo Soares (1979) sobre a legitimidade do estudo das psicografias pela antropologia nos permitiria, se quiséssemos, armar uma defesa do pesquisador que persegue “objetos ‘secundários’”.20

Todos esses caminhos sugerem vetores de análise possíveis, mas, para efeitos deste trabalho, optei por outro rumo. Como anunciei no início do artigo, estou interessado em tomar esse caso como uma ocasião interessante para refletir sobre situações em que grupos de paracientistas precisam separar materiais que consideram confiáveis de outros que percebem como fraudulentos.

Ante essa proposta, pode-se objetar que os ufólogos sempre estiveram envolvidos na busca pela foto legítima, pelo vídeo não retocado, pela evidência autêntica, e que lhes é própria uma retórica atenta a elementos como a confiabilidade da testemunha e a qualidade das fotografias dos discos. Pode-se, ainda, complementar que a sua autoidentidade está construída em torno da ideia de que buscam desvelar a verdade sobre os discos voadores. Conforme argumentou recentemente Diana Espírito Santo (2023:255, tradução minha), “a maior parte dos autores fundadores da ufologia escrevem abundantemente sobre o engano”. Ou, em outro trecho, “o engano é uma preocupação permanente dos ufólogos, testemunhas de avistamentos, e observadores do céu de modo geral” (Espírito Santo 2023:265, tradução minha). Diante do exposto, todo o debate em torno da veracidade da psicografia atribuída ao espírito de Gevaerd não sinalizaria para outra coisa além dos modos muito costumeiros entre eles de lidar com as evidências.

E é assim que, em face da carta, os ufólogos acionam todo o aparato de pesquisa por indícios de sua veracidade. Do mesmo modo que se faz com as imagens de discos, as quais precisam ser diferenciadas das fraudes, das montagens, dos erros de interpretação, tanto os comentários dos ufólogos na página da revista UFO quanto as observações de Marco Petit buscam discernir a real autoria. Trata-se, realmente, de um trabalho de filtragem, de depuração, aquilo que Susan Harding e Kathleen Stewart (2021:220) chamam de “uma varredura por signos”.

Cabe, no entanto, indicar que, se os ufólogos se construíram historicamente enquanto especialistas em discernir o engano, a novidade da condição presente é que tanto eles quanto nós, cientistas, nos encontramos em cenários que Cesarino (2022) nomeou de “não-lineares”, de “entropia aumentada” (Cesarino 2021:79). Isso significa que, se antes já tinham de lidar com a possibilidade sempre presente da foto de disco voador montada, do relato do falso contatado, da abdução nunca ocorrida ou do vestígio de nave artificialmente criado, agora eles se veem obrigados a aumentar exponencialmente a sua atenção ao falso.

Aparentemente, esse cenário de “entropia aumentada” (Cesarino 2021:79) está na base do crescimento da retórica cientificista21 entre aqueles praticantes da ufologia envolvidos nessa atividade muito antes de o tema inundar as plataformas de vídeo e, de certa forma, ser inundado por elas. Em face de canais que disseminam informações consideradas absurdas com o fim de obter maiores visualizações e, por consequência, retornos financeiros, ufólogos mais antigos, isto é, aqueles habituados a fazer vigílias, a participar de grupos ufológicos, de congressos especializados e que compartilhavam seus trabalhos nos boletins e revistas próprios, parecem responder aderindo de forma mais estrita a certa concepção de ciência próxima a seus ideais normativos. Poderíamos aqui ecoar Latour (2002:82), para quem “ninguém é mais positivista que os criacionistas ou os ufólogos”.

Tudo se passaria, portanto, como se, no cenário da pós-verdade, grupos comumente identificados como críticos aos cientistas reforçassem a sua adesão a uma retórica que mimetiza (Almeida 2015) o discurso científico. Isso se dá a ver não só no incansável trabalho de depuração quando diante de fatos novos, mas na adoção de uma forma hiperbólica de cientificismo. Observe-se que, com isso, esses grupos terminam por infundir nos espaços em que se criam um ideal de ciência distante da prática cotidiana dos cientistas. Um ideal de ciência que lembra as recomendações presentes em manuais e que parece sugerir que a ciência pode ser produzida desde que se sigam certas recomendações. Esse ideal, que Latour soube mapear, se por um lado encarna “bastante bem a imagem que os estudiosos gostariam que eles fizessem de si próprios” (2002:82), por outro lado dissemina nos espaços ufológicos - e em outros onde as seus vídeos e textos circulam - um tipo de mistificação da ciência que alimenta o ambiente da pós-verdade. Como não notar as afinidades entre essa concepção manualesca e o “do it yourself” terraplanista, tão bem documentado por Holanda (2023)? Com a retórica da posse de boas intenções e a defesa de um espírito científico, aparentemente estamos a um passo da crítica às redes científicas, de sua leitura como um maquinário pesado e obsoleto.

No entanto, é preciso algum cuidado, pois, no caso em análise, a adesão aos referidos ideais normativos da ciência não se faz sem a introdução de diferenças importantes.

No caso que analisamos, 1) a afirmação de que a psicografia de Gevaerd era falsa não vinha acompanhada da observação de que toda carta psicografada é falsa. Isso é coerente com uma característica dos grupos estudados por Harambam e Aupers (2015:471) e a sua crítica à “visão de mundo materialista” que atribuem à ciência. 2) A indicação de Petit de que algumas pessoas vivem “dessa situação” sugere a autoconsciência de que precisam agora navegar com mais atenção no mar de produções ilegítimas. 3) Da fala de Petit, deduz-se que, antes, bons ufólogos tentavam mostrar que as suas afirmações não eram absurdas. Com as novas dinâmicas engendradas pelas plataformas, quanto mais absurdas são as afirmações, maior capilaridade tem o ufólogo. 4) A busca por sinais de que a carta era falsa por parte dos integrantes da Equipe UFO reproduz os métodos indiciais de construção de evidências ufológicas.

Em artigo recente, Didier Fassin (2020) nos sugere que o estudo sobre a emergência de teorias conspiratórias deve ser feito em relação ao contexto no qual elas emergem. Assim, as teorias da conspiração envolvendo o HIV na África do Sul no início dos anos 2000 precisariam ter a sua emergência pensada à luz da história de exclusão promovida pelo regime do Apartheid. Essa proposta, nos termos de Fassin (2020:132), está interessada em pensar as “condições de felicidade” dos rumores em determinados contextos.

O que defendo neste artigo é que a compreensão de como grupos subsistem no ambiente da pós-verdade deve, também, estar atenta à história pregressa de sua constituição. Logo, os ufólogos não são mais um grupo que habita esse ambiente. Se a sua história na esfera pública remonta ao ano de 1947, para compreendermos a transformação atual, importa não os diluir entre outros coletivos sem estar atentos às particularidades de seus procedimentos de pesquisa anteriores à era Trump.

Susan Lepselter (2024) é uma das antropólogas que pode nos ajudar a pensar essa transformação. Tendo estudado coletivos ufológicos na década de 1990, em seu artigo de 2024, a autora contrasta as teorias dos grupos que habitavam as margens do Estado, à disseminação mais ampla de teorias de conspiração na política contemporânea: “a teoria da conspiração como propaganda oficial significa algo diferente da teoria que emerge das margens sociais. [...] Os significados das narrativas conspiratórias são inseparáveis de sua posição situada22 (Lepselter 2024:175).

Quero ainda ressaltar que a atenção à história da constituição de grupos de paracientistas vale para ufólogos, mas também para outros coletivos, como os youtubers terraplanistas estudados por Jorge Garcia Holanda (2023). No caso dos terraplanistas, tendemos a vê-los como formadores do ambiente da pós-verdade, como os seus representantes mais exemplares. Contudo, parece-nos interessante analisar os seus processos internos, as suas dúvidas, as suspeitas, como soube fazer Holanda (2023) a propósito da polêmica envolvendo a reserva de um auditório para um congresso terraplanista. Se, por um lado, é uma agenda de pesquisa o estudo de como paracientistas contribuem para modular o cenário da pós-verdade, outro campo de estudos é como as incertezas próprias a esse ambiente também os produzem e os transformam.

Ocorre que as incertezas imanentes ao ambiente da pós-verdade, como já observei, maximizam a adesão ao cientificismo entre ufólogos, levando-os a se apegarem ainda mais a um ideal normativo de ciência caracterizado por um trabalho hiperbólico de depuração do falso. Ao fazê-lo, engajam-se em um exercício que, se aos olhos do indivíduo que o pratica é a forma correta de lidar com os dados que tem à mão, por outro lado tem por resultado infundir no próprio ambiente que habitam mais incerteza. Visualiza-se, então, uma espécie de relação de codependência entre processos de disseminação de artefatos como a carta e os processos correlatos de purificação da enorme massa de conteúdos ligados ao tema extraterrestre.

A polêmica envolvendo a carta atribuída a Gevaerd é emblemática dos processos de pesquisa pela verdade no ambiente engendrado pelas transformações epistêmicas relatadas por Cesarino (2022). Por isso escolhemos esse episódio. Todavia, um antropólogo que acompanhe os processos de constituição de grupos de ufólogos se depara com preocupações similares muito recorrentemente. Observe-se, por exemplo, esta postagem de Gilson Soares no grupo da revista UFO no Facebook, ocorrida em 17 de maio de 2020, no início da pandemia do novo coronavírus. Nela, o autor se queixava da influência da circulação de notícias falsas sobre a credibilidade dos materiais produzidos pelos ufólogos e interessados no assunto:

Se amanhã, de fato, ocorresse genuinamente um fato concreto, podem crer, vai por água abaixo. Não duvidem disso pois os memes foram insuperáveis em toda mídia. O ridículo e o poder da fake news somatizados aos lunáticos sem filtro, ao medo coletivo dessa pandemia, de uma crise mundial que bate a nossas portas, de revelações bombásticas e noticiários ruins que nos consomem dia a dia.23

O próprio Gevaerd, em uma postagem no mesmo grupo em 20 de maio de 2020, na qual agradecia as felicitações pela criação de um programa no YouTube intitulado “Ufologia sem fronteiras”, define a iniciativa como uma tentativa de promover um espaço livre de fake news: “tem muito embusteiro e oportunista falando bobagens em seus programas, posando de grandes conhecedores de Ufologia sem serem, e com isso passando notícias falsas ou enganosas, tudo para terem cliques e ganharem dinheiro do Youtube”.24

Concluo este artigo com a indicação de que esta é uma modesta contribuição à descrição de como coletivos de paracientistas têm navegado no cenário da pós-verdade. A análise do episódio apresentado neste texto é um capítulo de um projeto maior que venho desenvolvendo entre ufólogos e que analisa outros contextos etnográficos, como a revista OVNI Pesquisa, a Academia Latino-Americana de Ufologia Científica e a tentativa de ufólogos de registrar a sua atividade como ocupação reconhecida pelo Governo Federal. Em todos esses contextos, processos semelhantes podem ser observados.

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  • DCE - DIÁLOGO COM OS ESPÍRITOS. (2021), “DcE 800 - [] Entidade Extraterreste Shellyana de Iparian - Médium Mônica de Medeiros”. YouTube Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=SZMAfW0K4lM&t=150s Acesso em: 10/03/2026.
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  • MAKTUB CÓSMICO. (2023), “A psicografia proibida de Gevaerd”. YouTube Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=CdF7-bew-eg Acesso em: 19/02/2026.
    » https://www.youtube.com/watch?v=CdF7-bew-eg
  • 1
    Esta pesquisa foi financiada pelo Edital CNPQ 32/2023.
  • 2
    Para uma discussão aprofundada das transformações nas práticas funerárias Wari’, ver Vilaça (1996).
  • 3
    Nas páginas seguintes, o leitor logo verá que, no caso deste texto, o uso da expressão “com frequência” é justificado.
  • 4
    No artigo Grief and Headhunters Rage, Renato Rosaldo relata que a morte de Michelle fez com que ele alcançasse outra compreensão da relação entre a “raiva” implicada no luto e a caça de cabeças Ilongot: “Apenas depois de ser reposicionado por meio de uma própria perda devastadora, eu pude compreender melhor o que os homens mais velhos Ilongot querem dizer quando descrevem a raiva do luto como a fonte do desejo de cortar cabeças humanas” (Rosaldo 2004:168; tradução minha).
  • 5
    Tradução minha. A propósito dos poemas, importa lembrar a observação de Ana Martins Marques a respeito do trabalho de tradução poética. Diz a poeta em “Tradução”: “Este poema/em outra língua /seria outro poema/um relógio atrasado/que marca a hora certa/de algum outro lugar/uma criança que inventa/uma língua só para falar/com outra criança/uma casa de montanha reconstruída sobre a praia/corroída pouco a pouco pela presença do mar/o importante é que/num determinado ponto/os poemas fiquem emparelhados/como em certos problemas de física/de velhos livros escolares” (Marques 2015:22).
  • 6
    Victor Turner (2005:39), por exemplo, nomeia “rituais de aflição” os procedimentos entre os Ndembu para lidar com a má sorte provocada pelos mortos: “Por que as sombras ‘saem dos seus túmulos’, como colocam os Ndembu para atacar os seus parentes? Várias razões são apontadas, sendo a mais importante que estes ‘esqueceram’ as sombras ou se comportaram de alguma forma que eles reprovaram. ‘Esquecer’ implica deixar de fazer oferendas de cerveja ou comida nas árvores de muyombu que são plantadas como santuários vivos no centro das aldeias ou não mencionar o nome das sombras quando lá se reza”.
  • 7
    De acordo Diana de Carli (2018:24), a psicografia é “uma forma escrita de comunicação em que uma pessoa encarnada ‘recebe’ informações do mundo dos mortos e escreve essas informações em forma de mensagens, cartas, contos, romances. É uma faculdade passível de ser desenvolvida pelo exercício e estudo da doutrina espírita”.
  • 8
    A noção de pós-verdade, desde a sua criação, recebeu tentativas de definição tanto midiáticas, que acenavam para a ideia de que os fatos teriam menos importância do que as narrativas, quanto acadêmicas, como são os casos de Costa (2021) e Kalpokas (2019). Aqui, subscrevo a definição de Letícia Cesarino (2022:227), que caracteriza a pós-verdade a partir de uma oposição entre “períodos lineares” e “não lineares”: “Nesses períodos lineares, estabilizam-se as condições para que fato e ficção, mapa e território possam ser distinguidos de modo eficaz, duradouro, e compartilhado pela maioria dos indivíduos numa mesma sociedade. O que vem se chamando de pós-verdade denota, por outro lado, uma desestabilização dessas condições”.
  • 9
    A casa do consolador também tem um canal na plataforma de vídeos curtos TikTok. Ali ouvimos mensagens de diferentes entidades que falam por meio da médium Mônica Medeiros. Nesse canal, Shellyana aparece com o nome de Shell Y Ann, ao lado de outras entidades, como Veludo, Tamiris, Pai Joaquim, Zé da Caatinga e Tupã.
  • 10
    Para ufólogos que pretendem praticar o que nomeiam “ufologia científica”, iniciativas ligadas à canalização de extraterrestres podem ser consideradas charlatanismo ou formas pouco profissionais de abordar o tema. Pesaria sobre os que a realizam a mesma suspeita que tais ufólogos podem ter em relação aos contatados. É o que está expresso neste trecho do artigo “Hipnose em contatados: entre a realidade e a fantasia”, assinado pelos ufólogos Philippe Piet Van Putten e Sara Braga e publicado na revista OVNI Pesquisa, uma revista de ufólogos científicos: “Há muito ficou claro para os ufólogos mais experientes que a maioria dos alegados contatados abduzidos é formada por pessoas altamente sugestionáveis e fantasiadoras, propensas à Síndrome da Falsa Memória. Isso não quer dizer que elas não tenham tido um contato verdadeiro com o fenômeno OVNI” (Van Putten e Braga 2021:10). Deve-se, contudo, estar atento ao fato de que a manutenção da nomenclatura “ufologia científica” pode não significar a desconsideração aos contatados. A título de exemplo, em abril de 2024, durante uma reunião da Academia Latino-Americana de Ufologia Científica, presenciei a apresentação de um trabalho de investigação de campo realizado por essa equipe ufológica que atestava que as observações de OVNIs por um contatado em São Paulo tinham “alta probabilidade” de serem eventos extraterrestres.
  • 11
    Para um exemplo de modalidade de contato similar aos meios espirituais na ufologia chilena, ver a discussão de Diana Espírito Santo (2025) sobre o grupo Rahma e o processo de “antenización” (Espírito Santo 2025:119) de mensagens extraterrestres. Note-se, contudo, que a “antenización” praticada no grupo Rahma não é uma incorporação.
  • 12
    Gevaerd escreveu no Facebook em 8 de janeiro de 2017: “No que eu costumo chamar de ‘andar de cima’, ou seja, para além da Terra, misturam-se entidades espirituais, desencarnados, mentores, consciências extrafísicas diversas, aparadores e também uma grande variedade de entidades que chamados de extraterrestres. Lá eles não têm as limitações da matéria e do tempo, e o tráfego e a convivência entre todas estas formas de vida, no plano imaterial, é coisa normal e rotineira” (GEVAERD 2017).
  • 13
    2 ADEMAR JOSÉ GEVAERD. (2015), Facebook. Disponível em: https://www.facebook.com/ajgevaerd?locale=pt_BR Acesso em: 13/11/2023.
  • 14
    ADEMAR JOSÉ GEVAERD. (2018), Facebook. https://www.facebook.com/ajgevaerd?locale=pt_BR. Acesso em: 13/11/2023.
  • 15
    Vide, por exemplo, o caso da revista Ovni Pesquisa, periódico fundado em 2018 e editado por Paulo Werner. A revista se apresenta como uma publicação voltada à ufologia científica.
  • 16
    Para uma análise do conteúdo das mensagens, ver Aranha (1990).
  • 17
    Não apresento a íntegra da segunda versão em razão de ela ser muito longa.
  • 18
    Conversa com Leandro Maktub em um aplicativo de mensagens.
  • 19
    Para uma etnografia aprofundada da relação entre religião e o tema extraterrestre, ver Machado (2006).
  • 20
    “[...] sinto em alguns meios intelectuais, não apenas entre antropólogos, a presença de um preconceito grave, de consequências imprevisíveis: o estudo de manifestações religiosas e/ou de formas sociais tendentes a um breve eclipse histórico (sic) representaria não mais que caprichos exóticos e inócuos de pesquisadores reacionários, descompromissados com as exigências urgentes do presente e do futuro. Investigações desta ordem condenariam o analista a um duelo anacrônico, narcisista e solitário com as pobres e diáfanas sombras do real. Segundo este preconceito, o antropólogo ou o pesquisador destes objetos ‘secundários’ seriam espécimes raros de adolescentes irresponsáveis ou aristocratas do saber esclerosado, colecionadores, já nem digo de borboletas, mas de centauros, tristes habitantes do fundo da caverna platônica. Ora, senhores, convenhamos; se todos olhássemos para o sol, que olhos não estariam cegos para a realidade menor - mas estruturante - do cotidiano?” (Soares 1979:123).
  • 21
    Poderíamos nos perguntar se essa retórica cientificista, tal como adotada por eles, não se enquadraria dentro daquilo que Susan Harding e Kathleen Stewart (2021:236) chamaram de “iluminismo com uma vingança”. A propósito desse comentário, vale observar como as tentativas de interpretação da emergência das teorias da conspiração costumam se definir a partir do “iluminismo”. Em alguns casos, como no citado, trata-se de um iluminismo subvertido, “com uma vingança”, como vimos anteriormente. Em outros, como em Comaroff e Comaroff (1999:281), descreve-se assim as “cosmologias ocultas”: “Em todos os lugares, as fronteiras da humanidade pós-iluminista são colocadas mais e mais em questão”. Na primeira versão, o iluminismo exacerbado. Na segunda, o iluminismo sob ataque.
  • 22
    Grifos meus.
  • 23
    Postagem de Gilson Soares no grupo privado da revista UFO realizada no dia 17 de maio de 2020. Disponível em: https://www.facebook.com/groups/534375286594710/user/100000891132826?locale=pt_BR. Acesso em: 06/02/2024.
  • 24
    Postagem de Ademar Gevaerd no grupo privado da revista UFO realizada no dia 20 de fevereiro de 2020. Disponível em: https://www.facebook.com/groups/revistaufo/permalink/2310216719010549?locale=pt_BR. Acesso em: 06/02/2024.
  • Declaração de Disponibilidade de Dados
    Não aplicável.

Editado por

  • Editora-Chefe:
    Carly Barboza Machado
  • Editor-Assistente:
    Lucas Bártolo

Disponibilidade de dados

Não aplicável.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    05 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    29 Jul 2024
  • Aceito
    05 Set 2025
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