Open-access Mídias digitais e as fronteiras do religioso

Medios digitales y las fronteras de lo religioso

Na semana em que nos dedicamos à escrita da apresentação do dossiê “Mídias digitais e as fronteiras do religioso”, Mark Zuckerberg anunciou que sua organização, a Meta, iria encerrar suas ações de checagem de fatos nos Estados Unidos, passando a adotar o modelo de “checagem de comunidade”, semelhante ao usado pela plataforma X, antigo Twitter, de propriedade de Elon Musk. A Meta é uma empresa de tecnologia e mídia social responsável por redes sociais como Facebook, Instagram e WhatsApp.

A aliança de Zuckerberg aos esforços de Elon Musk contra toda forma de regulação das plataformas digitais veio a público na semana em que Donald Trump estava prestes a iniciar seu segundo mandato na presidência dos Estados Unidos, após ser, mais uma vez, eleito ao vocalizar e mobilizar um campo de articulação política radicalmente ancorado na defesa da liberdade de expressão dos indivíduos e na difusão de todo e qualquer tipo de informação, sem nenhum compromisso público com a confirmação de sua veracidade. Zuckerberg publicou um vídeo em suas redes sociais explicando sua decisão, no qual afirmou: “É hora de voltar às nossas raízes em relação à liberdade de expressão”. O posicionamento da Meta nos Estados Unidos é uma crítica direta aos esforços formulados e estimulados nos últimos anos por países da América Latina, como o Brasil, e por vários países europeus, que buscam regulamentar e combater as fake news e os discursos de ódio.

Mas o que esse cenário tem a ver com um dossiê sobre religião e mídias digitais? Os debates que permeiam as tensões na cena pública descrita nos parágrafos anteriores estão igualmente presentes nas questões centrais analisadas nos artigos que compõem este dossiê. Estamos falando dos intensos embates sobre regimes de verdade, produção de autoridade, novas institucionalidades, estratégias de regulação e a relação entre estado e mercado, entre outros. Além da convergência dessas agendas, ao atravessarmos essas temáticas com as análises acerca do religioso, outras problemáticas emergem, complexificando ainda mais os dilemas já apontados.

Talvez, daqui a alguns anos, o nome das empresas, das plataformas e dos sujeitos envolvidos nos conflitos citados acima se tornem notas de um passado longínquo: sabemos que a temporalidade do digital cria ruínas e deixa vestígios com muita rapidez. Mas já entendemos também que as análises do digital não são exercícios reflexivos específicos sobre aplicativos, plataformas e redes sociais, mas sim sobre processos e relações sociais, conflitos, formas de governo e práticas de poder que se dão nesses ambientes digitais e a partir deles. O interesse desta coletânea tratar dessas questões em sua relação com os estudos de religião e explorar os efeitos dessa imbricada fronteira para os debates públicos urgentes.

Religião e mídias digitais: imaginários de futuros utópicos e distópicos

Os embates públicos sobre a verdade dos fatos em plataformas digitais na atualidade estão diretamente ligados a uma concepção do perigo do controle das massas e da manipulação de determinados grupos sociais, perigo esse frequentemente articulado ao tema das eleições e das campanhas políticas em diversos países do mundo. Nesses debates, é comum encontrarmos no campo daquilo que favorece o engano, preocupações com manipulações midiáticas e religiosas.

Longe de minimizar as inquietações que ocupam a cena pública, interessa-nos qualificar o debate sobre as concepções do religioso que vêm sendo mobilizadas nesse cenário, sobretudo quanto à sua relação com as ideias de alienação e manipulação mental. No contexto da pandemia de covid-19, Machado (2020) formulou uma reflexão crítica sobre essa temática ao analisar como algumas combinações de ideias são vistas como perigosamente contagiosas e virais, em particular as ideias religiosas difundidas em larga escala midiática:

A mídia religiosa é usualmente percebida como um forte elemento de controle: a mídia produz a presença global da mensagem e carrega um aspecto sedutor ao mobilizar sentidos, sensorialidades e estéticas voltadas a conquistar mentes e corações. Se sozinha “a mídia” já é concebida como um perigo para a “consciência individual”, a articulação entre religião e mídia potencializaria ainda mais o perigo da alienação e do controle mental (Machado 2020:6).

Nessa perspectiva, a dimensão midiática de um projeto religioso pode atribuir um demérito à iniciativa, configurando uma equação na qual, quanto mais mídia, mais enganosa e perigosa se torna uma prática religiosa, o que reacende, em outros termos, as questões sobre charlatanismo e a regulação do religioso (Giumbelli 1997).

Há mais de duas décadas, um sólido campo de estudos em religião e mídia vem abordando essa relação em outros termos, acentuando a centralidade dos processos de mediação em toda e qualquer prática religiosa e ampliando a concepção de mídia para qualificar pesquisas sobre essa relação. Não é o caso de refazermos a revisão desse campo, já abordada em diferentes trabalhos (Stolow 2014; Engelke 2010; Machado e Sant’Ana 2023). No entanto, consideramos importante, diante desse cenário, destacar as contribuições específicas dos artigos elaborados no âmbito deste dossiê, a partir de dois pontos principais.

O primeiro diz respeito ao fato de que os textos aqui apresentados qualificam análises críticas sobre a relação entre religião e mídia, sem reduzir essa combinação a uma mera denúncia dos perigos dos projetos religiosos e seus líderes, nem a uma suposta fragilidade e susceptibilidade ao engano dos sujeitos que participam dessas ações. Como abordaremos ainda nesta introdução, cada pesquisa aqui publicada foi desenvolvida a partir de bases teóricas e metodológicas que resultaram em análises compreensivas e críticas dos processos em andamento e da complexidade das relações articuladas em cada um dos campos discutidos.

O segundo aspecto que desejamos destacar diz respeito às especificidades do digital neste campo de questões sobre religião e mídia. Até que ponto é possível situar as pesquisas sobre religião e mídias digitais numa linha de continuidade com os estudos de religião e mídia? E quais rupturas substanciais elas implicam, no sentido de formar novas redes analíticas que atendam às suas especificidades? Pode-se considerar a antropologia digital como um campo dentro da antropologia da mídia, ou suas questões são de outro tipo? Pensar o digital se restringe às pessoas que se entendem como pesquisadoras de religião e mídia, ou abrange todas aquelas interessadas em refletir sobre religião na atualidade?

Como um exercício reflexivo sobre esta questão, voltemos ao tema da manipulação mental. A ideia de manipulação tem uma afinidade direta com uma certa concepção das mídias como empreendimentos de comunicação de massa, que produzem conteúdo para uma ampla coletividade. No centro dessa concepção, está um projeto de transmissão (broadcast) e manipulação de informações executado por grandes empresas (agências) de comunicação.

Os empreendimentos das mídias digitais alteram radicalmente o modelo desse projeto. Grandes empresas, como a Meta citada no início deste texto, convidam os usuários a produzirem seus próprios conteúdos e defendem uma (suposta) liberdade de expressão individual. O slogan Broadcast Yourself, usado por vários anos pela plataforma YouTube, e a referência aos perfis de usuários como “Canais”, representam o princípio comunicacional dessa plataforma: permitir que qualquer pessoa opere uma estação de transmissão pessoal.

Se retomarmos o debate do início dos anos 2000, fomentado pela turbulenta virada do milênio e seus avanços tecnológicos, podemos identificar dois imaginários contrastantes sobre os destinos da então chamada “cibercultura”. De um lado, a explosão do modelo comunicacional vigente apontava para um futuro glorioso e utópico, produzido pela mobilização de uma “inteligência coletiva”. No livro A Inteligência Coletiva: Por uma Antropologia do Ciberespaço (2003), Pierre Lévy apresenta sua visão teórica e filosófica sobre como a interconexão proporcionada pelo ciberespaço transforma a maneira como a sociedade organiza e compartilha o conhecimento. Como argumento central, propõe o conceito de inteligência coletiva, definida como a capacidade de grupos humanos de combinar seus conhecimentos, habilidades e experiências para resolver problemas e criar novas possibilidades. Levy argumenta que a internet e as tecnologias digitais ampliam essa capacidade, promovendo um novo tipo de relação social e cultural baseada na colaboração em escala global. Em sua perspectiva, a inteligência coletiva pode promover maior igualdade de acesso ao conhecimento, desde que garantida a inclusão digital dos indivíduos e o manejo ético do uso das tecnologias.

Por outro lado, diferentes cenários distópicos também eram formulados. Em O Culto do Amador, Andrew Keen (2009) oferece uma análise crítica do impacto da internet e das plataformas digitais na cultura, no jornalismo e nas indústrias criativas. Keen argumenta que, embora a internet tivesse potencial para ampliar o acesso à informação, a valorização excessiva de conteúdo gerado por amadores comprometeria a qualidade, a confiabilidade e a sustentabilidade da cultura e do conhecimento. Suas preocupações giravam em torno dos seguintes temas: desinformação; declínio da profissionalização; ilusão da democratização do conhecimento; benefícios das grandes corporações e questões éticas relacionadas à perda de privacidade e à disseminação do ódio.

Nosso objetivo nesta breve viagem do tempo é salientar que muitas das grandes temáticas críticas consideradas ultra-atuais sobre o digital permeiam as preocupações de pesquisadoras e pesquisadores deste campo há mais de vinte anos. Por isso, a cada nova fase desse jogo, torna-se fundamental qualificar os pontos críticos que marcam cada época. E um deles, crucial aos debates deste dossiê, é a dimensão pervasiva do digital na vida cotidiana na atualidade. Tal como formulado por Lins, Parreiras e Freitas (2020:04):

Com a consolidação da internet sem fio e a popularização dos smartphones (ver Lins 2019), deixamos de “entrar na internet” e passamos a nela viver imersos, ou, no mínimo, a termos nossa vida cotidiana atravessada pela digitalização, que atinge até mesmo aqueles que não dispõem de acesso doméstico. Hoje, documentos institucionais e pessoais são digitalizados, serviços dos mais diversos tipos - privados e públicos - são acessíveis on-line e requerem acesso à internet via login (com uso de senha pessoal); atividades profissionais nos mais diversos campos, bem como atividades educacionais, supõem que se estabeleça um mínimo de relação com tecnologias digitais e comunicação on-line. Assim, a dimensão prescritiva da tecnologia se torna clara no fato de que, como indivíduos, já não temos a escolha de recusa do digital, em sentido amplo.

Conforme destacado pelas autoras, na introdução ao dossiê “Estratégias para se pensar o digital”, publicado na revista Cadernos de Campo em 2020, a disseminação da digitalização na vida cotidiana, intensificada pela pandemia de covid-19, ampliou o interesse por questões antes restritas a estudiosos das mídias e da internet, envolvendo agora pesquisadores dos mais variados campos. Segundo Lins, Parreiras e Freitas (2020:05), “na verdade, a pandemia só fez acentuar um movimento de expansão e diversificação dos estudos do digital que já vinha sendo observado há algum tempo”.

Fronteiras entre o religioso, o tecnológico e o digital

Os esforços empreendidos nesta publicação evidenciam o interesse de pesquisadoras e pesquisadores do campo dos estudos da religião em se aproximar de questões teóricas e metodológicas oriundas das pesquisas sobre as mídias digitais. Essa afirmativa pode dar a impressão de que estes domínios estiveram, até mais recentemente, apartados. No entanto, contrariando as premissas mais arraigadas dos projetos de modernidade, religião e tecnologia têm uma relação muito mais complexa do que essa visão sugere. E muitas dessas aproximações têm suas origens no campo técnico-científico.

Para entender como esse imaginário tecnoreligioso esteve presente nas primeiras formulações sobre o digital, retomamos, mais uma vez, alguns trabalhos do início dos anos 2000. Margareth Wertheim (2001), em um de seus livros sobre a história cultural da ciência, reuniu testemunhos de uma variedade de cientistas que trabalhavam no desenvolvimento de tecnologias do então chamado ciberespaço, atentando-se às formulações religiosas que compunham suas compreensões, imaginações e expectativas sobre o futuro do digital. Michael Benedikt, professor da escola de Design da Universidade de Harvard, por exemplo, em uma revista científica editada por ele - Cyberspace: First Steps - afirmou que

o impulso em direção à Cidade Sagrada persiste. Ele deve ser respeitado, na verdade, pode florescer - no ciberespaço [...]. Se possível fosse, vagaríamos pela Terra sem jamais sair de casa; desfrutaríamos triunfos sem riscos e comeríamos da Árvore sem ser punidos, conviveríamos todos os dias com anjos, entraríamos no céu agora e não morreríamos (Wertheim 2001:15).

Kevin Kelly, diretor executivo da Wired - publicação estadunidense dedicada a temas de ciência e tecnologia - apontava: “Vocês vão ficar surpresos com a quantidade de dados da alma que teremos nesse novo espaço”. Na perspectiva da pesquisadora de realidade virtual no Laboratório de Tecnologia de Interface Humana da Universidade de Washington, Nicole Stenger: “Do outro lado de nossas luvas de dados, tornamo-nos criaturas de luz colorida em movimento, pulsando com partículas de ouro... Vamos todos nos tornar anjos, e por toda a eternidade!... O ciberespaço vai parecer o Paraíso” (Wertheim 2001:15).

O sonho de transcendência que, na análise de Wertheim (2001), povoava o ciberespaço, abrangia também o tema da imortalidade. Nessa sutil fronteira entre tecnologia e religião, diversos autores do campo científico assumiam a posição de enunciadores proféticos, sonhando com o dia em que seríamos capazes, por meio de um download, de nos transferir para os computadores. Stenger imaginou que no ciberespaço será possível criar doppelgängers (duplos) virtuais que permaneceriam jovens e magníficos para sempre. Segundo ela, o “presente eterno [do ciberespaço] será visto como a Fonte da Juventude, em que você se banha e refresca para emergir um jovem cintilante”. À medida que “ressurgimos” no ciberespaço, Stenger sugere, vamos adquirir o “hábito da perfeição” (Wertheim 2001:189).

Os teóricos do ciberespaço do início dos anos 2000 se tornaram profetas de uma eternidade alcançável por meio da evolução científica e tecnológica. A esperança da imortalidade ressurgia como renovação de uma ordem evolutiva do universo, cujos princípios se encontram em antigas utopias de fundo religioso. De acordo com Dovey (1996), uma das características retóricas dos textos populares sobre as novas mídias é a profusão de termos e assertivas que procuram transcender, mais do que definir. O autor afirma que os níveis aparentemente exponenciais do desenvolvimento tecnológico tornam difícil estabelecer qualquer definição precisa do que está acontecendo (Dovey 1996:xiii). O problema, diz ele, é saber onde parar, como traçar as linhas que podem nos oferecer referências para analisar esse processo. Pergunta, então, o autor: “Estamos apenas experimentando uma nova dose dos efeitos vertiginosos do progresso que caracterizaram o modernismo, ou isso é algo completamente diferente?”.

Acompanhando de forma crítica esses imaginários religiosos que povoavam o campo técnico-científico, importantes trabalhos do campo de estudos de religião se dedicaram à análise dessa versão, atualizada pelas questões do digital, da relação entre religião e tecnologia. Cabe aqui reforçar, com a intenção de deixar alguns elementos extras para o debate mais amplo, que a relação entre religião e o digital guarda significativa continuidade com uma relação mais geral, historicamente relevante, entre religião e tecnologia.

A coletânea organizada por Jeremy Stolow (2012), Deus in Machina: Religion, Technology, and the Things in Between, aborda esse campo de estudos a partir de uma perspectiva interdisciplinar, reunindo trabalhos da antropologia e da história da religião, dos estudos de mídia e dos estudos de ciência e tecnologia. As discussões reunidas nesse livro abrangem diferentes tradições religiosas, em diversas regiões do mundo, e contemplam uma variedade de tecnologias e procedimentos tecnológicos, como relógios e outros dispositivos de medição de tempo, cabos, cintos e talismãs com poderes mágicos, máquinas de diálise renal e transações comerciais mediadas pela internet. Essa obra editada por Stolow, bem como suas pesquisas sobre o telégrafo (Stolow, 2009) e as técnicas de captura da aura (Stolow 2025), são produções que contribuem com o necessário esforço de pensarmos sobre as rupturas, mas também as continuidades, que permeiam a relação entre religião e tecnologia diante das inovações tecnológicas.

Retomando os debates dos estudos de religião interessados pela articulação com as questões do digital no início deste século, destacamos a publicação organizada por Stef Auspers e Dick Houtman (2010), Religions of Modernity: relocating the sacred to the self and the digital. Além de discussões sobre a articulação entre tecnologia computacional, imaginários de salvação espiritual, animismo tecnológico e magia, essa obra confere especial destaque às pesquisas sobre Movimentos Nova Era e sua afinidade com as questões relativas ao imaginário do digital.

Outra vertente desses estudos concentrava-se na relação entre religião e os imaginários da ficção científica e da cultura pop, nos quais o digital se apresentava em sua versão superdimensionada pelas ficções. Como exemplo desse campo de exploração temática, ressaltamos o Handbook of Hyper-real Religions, organizado por Adam Possamai (2012). Entende-se como religiões hiperreais, na provocação que motiva a coletânea, aquelas religiões e espiritualidades inovadoras que misturam elementos de tradições religiosas com a cultura popular. No espectro dos trabalhos discutidos na obra, encontram-se pesquisas sobre grupos que praticam o Jediismo, apropriado dos filmes Star Wars, o Matrixismo, inspirado na trilogia Matrix, e rituais neopagãos baseados em histórias de O Senhor dos Anéis e Harry Potter. Na outra extremidade desse espectro, membros de religiões tradicionais, como o Cristianismo, podem ser influenciados ou inspirados, por exemplo, por O Código Da Vinci. Ao reunir vários estudos de caso, o livro analisa o consumo religioso dessas narrativas, em dinâmicas de copresença tanto on-line quanto off-line, utilizando uma abordagem das ciências sociais.

Nas pesquisas que articulam religião e tecnologias digitais nos anos 2020, parte das questões que tratam da relação entre o religioso e o digital se atualizaram, e outras se reorganizaram em novas direções. O texto de Beth Singler (2020), “‘Blessed by the algorithm’: Theistic conceptions of artificial intelligence in on-line discourse”, publicado em português na revista Debates do NER em 2023, propõe-se a discutir os entrecruzamentos entre Inteligência Artificial (IA) e religião, estabelecendo uma certa consonância com as questões discutidas anteriormente sobre as aproximações entre imaginários tecnológicos e religiosos.

Os artigos deste dossiê, no entanto, apontam em outra direção, mais relacionada às experiências cotidianas nas quais se imbricam religião e mídias digitais. Os trabalhos pioneiros de Birgit Meyer sobre religião, modernidade, tecnologia e mídias (Meyer e Pels 2003; Meyer 2006, 2009) já convocavam pesquisadoras e pesquisadores dos estudos de religião à resistirem aos encantos das inovações tecnológicas e a abordá-las de forma crítica e consistente, com atenção às dinâmicas de poder imbricadas nessas relações, comprometendo-nos diretamente com as nossas questões próprias sobre o religioso e com as transformações pertinentes à vida das pessoas. Segundo Machado,

Ao invés de interpretar as apropriações às vezes espetaculares de novas mídias por grupos religiosos como um fenômeno inteiramente novo, a questão levantada por Meyer é a de como um novo meio interfere com meios de comunicação mais antigos que há muito fazem parte das práticas religiosas. Essa compreensão, afirma a autora, desloca a investigação do campo restrito e limitado das oposições binárias, nas quais a religião se apresenta como o Outro da modernidade e da tecnologia, cujo eventual desaparecimento é presumido (2006). A rearticulação da religião na contemporaneidade, discute a autora, implica necessariamente em uma espécie de transformação, que produz mudanças de posição em relação ao Estado e ao mercado, bem como na forma da mensagem religiosa, nas estruturas de autoridade e nos modos e nas disposições de vinculação e pertencimento a comunidades religiosas. Uma das razões pelas quais a religião continua a ser uma força vital e apelativa, afirma Meyer, reside exatamente em sua propensão para se transformar, incorporando novas mídias e abordando e ligando as pessoas de novas maneiras (Machado 2015:140).

Os estudos sobre religião, mídia e tecnologia do início desse período, predominantemente publicados em língua inglesa, eram compostos por trabalhos de pesquisadores/as de diferentes países que se articularam, ao longo dos anos, por meio de diversas redes e projetos de pesquisa (ver Engelke 2010; Stolow 2014; Machado 2023). Após essa importante digressão sobre trabalhos desenvolvidos em sua maioria, em países do Norte, consideramos relevante também qualificar as produções desse campo de estudos com base nas pesquisas realizadas na América Latina e no Brasil.

Como se sabe, a geopolítica da produção do conhecimento concentra debates e publicações onde se encontram os recursos disponíveis para sua realização. No clássico circuito Sul-Norte, como parte do conjunto das publicações citadas anteriormente, editadas por Stef Auspers e Dick Houtman (2010) e Adam Possamai (2012), há dois artigos de Machado (2010, 2012), baseados em sua tese de doutorado, defendida em 2006, sob orientação de Patrícia Birman, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e supervisão de Birgit Meyer, na Universidade de Amsterdam.

A tese de Machado (2006) discute o imaginário tecno-religioso do Movimento Raeliano, permeado por imaginários sobre extraterrestres, inovações científicas, biotecnologias, transformações digitais da vida cotidiana e imaginários de futuro, amplamente alargados pelas potencialidades das revoluções científico-digitais. Para além dos meros usos do tecnológico e do digital, o trabalho analisa, no âmbito desse novo movimento religioso, a conformação de modos de subjetivação e concepções de mundo compreendidos como codificáveis, programáveis e remodeláveis, tanto em seus aspectos bioquímicos - como a clonagem humana - quanto em transmutações digitais e informacionais, potencialmente capazes de promover um modelo de vida eterna extracorpórea e digital.1

Em reflexões formuladas mais recentemente sobre o campo de estudos sobre Religião e Mídia, Machado e Sant’ana (2023) destacaram as particularidades de uma importante produção acadêmica, priorizando de forma mais assertiva “miradas a partir do Sul e do Brasil”, buscando evidenciar trabalhos pioneiros sobre religião e mídia no Brasil entre 2000 e 2010, como os de Magali Cunha, Patricia Birman e Maria das Dores Machado (apud Machado e Sant’Ana:298-305). Entre essas iniciativas, relembramos ainda o dossiê “Religião e Mídia”, editado em 2014 neste periódico, composto por artigos comprometidos com análises de mídias e mediações sonoras, visuais e digitais, tratadas em íntima relação com questões da vida ordinária, atravessadas por questões do mundo do trabalho, do sofrimento, de gênero e das relações com o espaço público (Machado 2014).

Dez anos depois, o dossiê “Mídias Digitais e as Fronteiras do Religioso” dialoga com outro cenário, relacionado mais diretamente às questões apontadas por Lins, Parreiras e Freitas (2020), citadas anteriormente, sobre a digitalização da vida cotidiana e sua intensificação durante a pandemia. O efeito desse processo nas práticas religiosas foi perceptivelmente intenso e, desde então, as pesquisas nesse campo vêm buscando mobilizar abordagem teóricas e metodológicas para tratar desta realidade. O texto de Bottino, Scheliga e Menezes (2020), intitulado “Experimentos etnográficos em redes e varandas: a religião em tempos de pandemia”, é um registro valioso sobre o compromisso e, ao mesmo tempo, o desafio de dar-se continuidade às pesquisas sobre religião durante aquele período, atentando-se, sobretudo, à “religião vivida” (Orsi apud Bottino, Scheliga e Menezes 2020: 291) durante a quarentena, e à mobilização dos atores sociais a partir da religião em seus cotidianos. Segundo as autoras,

Ao acompanhar as inflexões que surgiram nos grupos com os quais já pesquisávamos, a multiplicação de referências religiosas em nossa comunicação levou-nos a perceber que sua vivência religiosa estava sendo simultaneamente afetada e estimulada pela pandemia, que é o que pretendemos aqui discutir, ainda que de forma preliminar. Os dados apresentados nos chegaram de duas formas, correspondentes às seções nas quais organizamos o artigo: pela Internet, através do Whatsapp e do Facebook; pelas janelas e varandas do condomínio em que Bottino reside e realiza seu trabalho de campo. Tratam-se, portanto, como sugerido por Miller (2000), de reconfigurações das observações em andamento a partir de uma crise, que resultaram em experimentos etnográficos em torno da religião no Brasil em tempos de COVID-19 (Bottino, Scheliga e Menezes, 2020: 292).

O dossiê “Religiões e Pandemia”, organizado por Côrtes e Machado (2021) em Religião & Sociedade, reuniu alguns artigos que também buscaram discutir aspectos da relação entre religião e mídias digitais no contexto pandêmico. Carini (2021) analisou novos rituais on-line e a formação de comunidades transnacionais no contexto budista; Barbosa (2021) discutiu em seu artigo como a comunidade islâmica brasileira reconfigurou suas práticas devocionais durante o mês do Ramadan no ano de 2020. Campos e Silva Neto (2021) promoveram em seu trabalho uma reflexão acerca dos efeitos da transição para o digital nos conflitos de intolerância, motivados pelo antagonismo entre duas marchas religiosas realizadas na cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul.

Articulando as questões pós-pandêmicas com dilemas ainda mais prementes relacionados à dimensão política desse debate, como os indicados na abertura desta apresentação, consideramos ainda mais urgente examinarmos o papel das mídias digitais na formação de comunidades religiosas, especialmente quando sujeitos, práticas e argumentos religiosos são moldados e viabilizados por processos de conflito e contestação. Aproximamo-nos, aqui, das questões formuladas por Hirschkind e Larkin (2008), que apontam para o fato de que compreender como religião, mídia e política se intersectam exige uma análise cuidadosa das formas e processos de circulação que, efetivamente, dão origem a essas esferas. Segundo esses autores, as religiões são constituídas por uma arquitetura de circulação e representação que, por sua vez, cria os contextos pragmáticos para os modos de prática e culto.

Nesse sentido, apenas por meio de uma atenção minuciosa à materialidade das formas religiosas - sejam elas baseadas em som, imagem ou corpo - e à sua circulação enquanto formas estéticas e rituais, é que podemos compreender como a religião se entrelaça com o político. A tese de doutorado de Mochel (2023), defendida no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional, sob orientação de Maria Elvira Díaz-Benítez, apresenta uma etnografia sobre circuitos de gênero, raça e classe que formam o cotidiano evangélico, levantando questões sobre projetos ético-políticos que emergiram com os usos de mídias digitais. A partir da trajetória de um Ministério não-institucionalizado que centralizava suas interações em grupos de oração no WhatsApp, o trabalho abordou como esse aplicativo tem reconfigurado coletividades evangélicas e carreiras pastorais no pentecostalismo.2

Sobre os artigos do dossiê

Uma das principais perguntas que atravessava a pandemia de covid-19 era sobre como seria o “novo normal”, o “novo” cotidiano após o fim daquele período. Nesse questionamento, pensava-se sobre o que se manteria da intensificação da digitalização da vida e o que seria descartado. Poderíamos, talvez, dizer que este dossiê, editado em 2024, retrata um pouco deste “novo normal” no campo religioso e, fazendo jus às aspas, procura abordar continuidades e rupturas que caracterizam esse processo. Diferente dos trabalhos elaborados nos primeiros anos da pandemia, as pesquisas aqui reunidas não apresentam experiências de transição de práticas religiosas para o digital, mas tratam de casos que demonstram a consolidação da pervasividade do digital em projetos religiosos institucionais, coletivos e individuais.

Os seis artigos deste dossiê destacam os efeitos da presença ubíqua e da qualidade pervasiva do digital nas relações humanas e, consequentemente, nas práticas religiosas. Com base em pesquisas de campo bem fundamentadas, os autores e autoras aqui reunidos destacam o digital a partir de seus usos cotidianos, bem como os efeitos gerados por esses usos no campo religioso cristão. Análises sobre práticas católicas e evangélicas nos conduzem a questões próprias deste tempo histórico, situando como as mídias digitais operam como agentes de transformação para novos regimes de visibilidade cristã na esfera pública.

As dimensões de gênero que envolvem essa visibilidade ganham maior destaque no artigo de Raphael Bispo, intitulado “É fã ou hater? interrupções religiosas e colapsos morais nas redes sociais digitais de artistas evangélicas”. A partir de uma análise sobre artistas que se tornam (ou deixam de ser) evangélicas, seu foco não esteve no reforço mais comum das normativas em torno da feminilidade e do casamento, mas na rejeição que essas artistas apresentam às trajetórias virtuosas. Entre as fronteiras dos ditos secular e religioso, o autor se ampara em etnografias que vem realizando sobre o tema para captar como moralidades e emoções são disputadas nas interações digitais. Inspirado pelo campo da antropologia da ética e da moral, Bispo se baseia em conceitos como interrupções, colapso moral, descontinuidades e transições para refletir em torno de dois eventos que envolveram a ex-cantora gospel Priscilla Alcântara e a modelo e ex-membra da Igreja Universal do Reino de Deus, Andressa Urach, que adentrou o mercado do sexo.

O enfoque analítico de Bispo está na relação das artistas com seus/suas seguidores/as nas redes sociais, em especial no Instagram. Não por acaso, essa rede foi escolhida como lócus fundamental para compreender processos singulares de produção da fama no mundo contemporâneo, ambiente digital que o autor destaca como “uma das principais plataformas de comunicação dos artistas com o público”. Foram, assim, as fofocas que rondam postagens feitas pelas artistas que possibilitaram compreender relações conflituosas, instáveis e ambivalentes que envolvem trajetórias reputacionais evangélicas. Ao enfatizar as relações que as artistas desenvolvem com seus haters, um tipo de fã que acentua transgressões e delimita a exemplaridade, o autor nos mostra como o mundo digital faz emergir novos agentes para a construção de normas de gênero e sexualidade no campo evangélico.

Embora também focado no estudo de uma trajetória, os processos que envolvem a digitalização da vida religiosa tomam caminhos metodológicos diferentes no artigo “Mídia, mercado e ministério: a trajetória recursiva de um aplicativo para igrejas”, de Bruno Reinhardt. Os conflitos que envolvem usos cotidianos de plataformas e colocam sujeitos religiosos em evidência, tratados nos casos de Raphael Bispo, dão lugar aos contenciosos formados por trás da construção das plataformas. Por meio da trajetória de um aplicativo voltado para igrejas, o inChurch, Reinhardt descreve como a expansão do aplicativo se deu através de “pivotagens”, termo comum ao repertório dos negócios que designa adaptações e mudanças de curso em um projeto. Sua análise contribui para pensar sobre um modelo de ministério que, diferentemente de uma mera atualização dos “ministérios de mídia”, reflete mudanças advindas de uma “midiatização profunda”, conduzidas por novas relações entre produtores e consumidores.

Em um detalhado estudo sobre as “afinidades eletivas e crescentes” entre cristianismo e capitalismo, o autor nos mostra como as novas ondas de midiatização provocam reformulações naquilo que chamamos de humano. O autor nos convoca ao exercício epistemológico que constitui a ciência antropológica, ou seja, refletir sobre como a midiatização da vida modifica conceitos que utilizamos em nossas análises sobre religião. A ideia de recursividade, proveniente de um conceito matemático utilizado na programação computacional, é fundamental para sua reflexão sobre as transformações em curso já que, para ele, a recursividade constrói outros mundos. Nesse sentido, a trajetória do aplicativo inChurch recupera a clássica relação entre igreja e mundo, quase sempre tratada em termos de retroalimentação, para nos apresentar como o digital e seus mercados reinventam mundos religiosos.

As dinâmicas de gênero retornam à centralidade das reconfigurações religiosas através do digital em “Femininas, modestas e antifeministas: o ativismo on-line de mulheres católicas tradicionais”, artigo de Jaqueline Sant’ana Martins dos Santos. A pesquisa nos mostra como mulheres católicas, impossibilitadas de ascender institucionalmente aos cargos de tomada de decisão, vêm organizando projetos coletivos que lhe conferem protagonismo inédito nesse contexto. Em sua análise sobre o ativismo conservador de mulheres ligadas ao movimento católico tradicionalista, as interações digitais em torno da prática da “modéstia cristã no vestir” foram identificadas como promotoras de laços comunitários antifeministas que se expandem para circuitos de copresença entre on-line e off-line, como a venda de livros e a realização de cursos e encontros presenciais entre as mulheres.

Longe de traçar uma associação simplista com o conceito de agência feminina que permeia os estudos antropológicos da religião, a autora identifica como as católicas unidas por bandeiras conservadoras se constituem enquanto “ação organizada que busca exercer pressão política e transformação social”, projetando-se no espaço público de modo semelhante às iniciativas progressistas. Santos destaca a importância de movimentos estratégicos nesse campo que se aproximam de conquistas feministas (a valorização do trabalho doméstico, por exemplo), ao mesmo tempo em que rejeitam ideais “liberatórios” que envolvem autonomia do corpo, sexualidade e desejo.

Igualmente atento às reconfigurações causadas pelo digital no campo católico, Moisés Sbardelotto, no artigo “A missão nos ambientes digitais na perspectiva de uma Igreja sinodal: respostas católicas à ‘Reforma digital’”, nos mostra como as novas formas de comunicação deslocaram fronteiras ao renovar formas mais tradicionais e institucionalizadas do religioso. O autor propõe caminhos para compreender como a Igreja Católica responde às transformações convocadas pela ubiquidade do digital a partir da realização de um inédito “Sínodo digital” por meio de debates ocorridos em 2021. Em sua análise, conhecemos como essa iniciativa de atualização eclesiástica envolveu alianças institucionais com redes eclesiais e influenciadores digitais católicos, efetuando reestruturações que resultaram em documentos para gerar uma participação on-line mais ativa da Igreja.

Segundo Sbardelotto, este processo sinodal produziu “novos significados para a própria ideia de comunhão, participação e missão”. Além disso, também reformulou dinâmicas de autoridade religiosa que flertam com o perigo de explosões institucionais, algo que já presenciamos historicamente no campo evangélico. O autor chama a atenção para tentativas de controle realizadas pela Igreja no sentido de buscar institucionalizar os novos “missionários digitais”. Tanto no artigo de Jaqueline dos Santos como no de Moisés Sbardelotto, observamos esses e outros reforços constantes no campo católico, que visam produzir iniciativas mais conservadoras em comparação à atuação digital do campo evangélico.

Essa qualidade explosiva, mais característica dos (neo)pentecostalismos, é enfatizada nos artigos presentes neste dossiê, especialmente nos argumentos desenvolvidos por Leandro de Paula e Adoliran Medrado no artigo “‘Sua voz chegará antes do seu corpo’: espaço, tempo e mediação no ministério de um bispo profeta”. A partir de uma análise da presença digital do Bispo Bruno Leonardo, os autores indicam como as práticas e os vínculos institucionais no campo evangélico se diferenciam das relações católicas no digital, nas quais são possíveis transformações em termos de espaço, mas não de tempo. Isso porque, enquanto o campo católico digital apresenta uma importante dissociação espacial do religioso, dada a disseminada realização de missas transmitidas através sincronamente em lives, sobretudo durante a pandemia do covid-19, as práticas digitais evangélicas se diferenciam tanto em termos de espaço quanto de dissociação temporal.

Para respaldar esse argumento, Paula e Medrado citam as doutrinas propagadas em normativas da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) sobre os usos do digital na Igreja Católica, que não estimulam rituais gravados, com a justificativa de que não corresponderiam às “formas efetivas de comunhão com a ‘Igreja Viva’”. Assim, diferentemente do catolicismo e de outras “tradições que adotam práticas mais formalizadas de prece”, as mediações evangélicas permitem descontinuidade temporal, uma vez que são propostas nas quais o sagrado pode ser sentido a cada reprodução de um vídeo da prece, não importando a sincronicidade desse encontro. A análise feita pelos autores abrangeu os usos de redes como o Instagram e o YouTube pelo Bispo Bruno Leonardo, pregador pentecostal que ganhou popularidade no Brasil a partir de uma atuação digital combinada à realização de megaeventos em locais públicos, principalmente em sua cidade natal, Salvador.

Os autores destacam a importância da combinação entre mídias e eventos no caso de ministérios como o de Bruno Leonardo, enfatizando as potencialidades das relações religiosas no digital para ampliar conceitos clássicos como carisma, comunidade e autoridade religiosa. Através de sua forte presença nas redes, a imagem pública do bispo é transformada, deixando de ser um “pregador de multidões” para se tornar um “pastor que ora por suas ovelhas”. Assim, os autores nos mostram que, mais do que simplesmente conectar, os usos religiosos de mídias digitais desafiam convenções, borram fronteiras do religioso e remodelam profundamente as práticas de fé.

No artigo que fecha o dossiê, “O coaching no universo evangélico brasileiro: um panorama descritivo”, Taylor de Aguiar apresenta uma minuciosa análise sobre a relação entre o coaching e o cristianismo, mesclando temáticas que aparecem em diferentes textos, como as relações entre religião, digital e capitalismo, além das reconfigurações digitais no campo das autoridades religiosas. O autor destaca a emergência contemporânea do “coaching cristão” como prática que se relaciona com referências do campo evangélico, enfatizando uma distinção nativa e analítica em que o cristianismo aparece desassociado da ideia de religião para se tornar “estilo de vida”.

Aguiar confere centralidade à rede de relações traçada por Pablo Marçal com personalidades evangélicas de grande relevância no espaço público, revelando um complexo panorama de acusações sobre os perigos associados à mistura entre religião e política. Mais uma vez, o campo digital se mostra como agente fundamental, e não mero pano de fundo, na legitimação da atuação pública do coaching cristão. Com base em um levantamento de escolas on-line voltadas para essa formação, Aguiar aponta tendências que demarcam esse universo, ressaltando a importância de compreender as relações entre coaching e cristianismo em sua complexa articulação com empreendedorismo, demandas eleitorais e mercado religioso. Longe de uma análise que generalize ou simplifique essas combinações, o artigo apresenta diferenças significativas entre o coaching “feito para cristãos”, o coaching “que se reivindica como cristão” e o coaching de “empreendedorismo de palco”.

Por fim, cientes de que estamos diante de possibilidades inesgotáveis no uso das mídias digitais, este dossiê propôs abrir percursos analíticos, em vez de delimitá-los. A ausência de determinados pertencimentos religiosos nos artigos aqui publicados não significa que as mídias digitais não estejam presentes em diferentes projetos e experiências de fé. Ao enfatizar as fronteiras do religioso com as mídias digitais, refletimos sobre iniciativas mais conservadoras para esses usos no campo católico, até movimentações evangélicas que estouram institucionalidades, agregando modelos heterogêneos de práticas e pertencimentos cristãos. Dentro desse escopo teórico-conceitual, é possível enxergar caminhos inovadores para questões despertadas pelos debates sobre religião e mídia, que permanecem ao longo do tempo, atualizando nossos repertórios sobre a capacidade tecnológica de reativar e animar a imaginação de outros mundos religiosos.

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  • 1
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  • 2
    A pesquisa de Mochel ganhou desdobramentos em um pós-doutorado (2024-2028 / Bolsa FAPERJ Nota 10) sob supervisão de Carly Machado, para aprofundar-se nos circuitos religiosos transnacionais formados por meio do WhatsApp.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    2024
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