Resumo:
Este ensaio busca salvaguardar, por meio da fotografia, os aspectos simbólicos e rituais do Canjerê dos Pretos-Velhos, ritual da Jurema Sagrada realizado no Ilé Àṣẹ Ọ̀rìṣànlá Tàlàbí, terreiro de Candomblé Nagô e Jurema Sagrada localizado no bairro de Paratibe, em Paulista, Pernambuco. As imagens capturam a complexidade dessa celebração, que une gerações, corporeidades e entidades espirituais associadas à cura e à sabedoria. Elementos como velas, flores, cachimbos e diversos alimentos dispostos no altar criam uma atmosfera ritualística de fé e resistência. A cerimônia mostra como essa prática espiritual atravessa o tempo e se renova na devoção dos filhos e filhas do terreiro.
Palavras-chave:
Canjerê; Pretos-Velhos; Jurema Sagrada; terreiro; fotografia
Abstract:
This essay seeks to safeguard, through photography, the symbolic and ritual aspects of the Canjerê dos Pretos-Velhos, a ritual of the Sacred Jurema performed at the Ilé Àṣẹ Ọ̀rìṣànlá Tàlàbí, a Candomblé Nagô and Jurema Sagrada terreiro located in the Paratibe neighborhood, in Paulista, Pernambuco. The images capture the complexity of this celebration, which unites generations, bodies, and spiritual entities associated with healing and wisdom. Elements such as candles, flowers, pipes, and various foods arranged on the altar create a ritualistic atmosphere of faith and resistance. The ceremony demonstrates how this spiritual practice transcends time and is renewed in the devotion of the sons and daughters of the terreiro
Keywords:
Canjerê; Pretos-Velhos; Jurema Sagrada; terreiro; photography
Resumen:
Este ensayo busca salvaguardar, a través de la fotografía, los aspectos simbólicos y rituales del Canjerê de los Pretos-Velhos, un ritual de la Jurema Sagrada realizado en el Ilé Àṣẹ Ọ̀rìṣànlá Tàlàbí, un terreiro de Candomblé Nagô y Jurema Sagrada ubicado en el barrio de Paratibe, en Paulista, Pernambuco. Las imágenes capturan la complejidad de esta celebración, que une generaciones, corporalidades y entidades espirituales asociadas con la curación y la sabiduría. Elementos como velas, flores, pipas y diversos alimentos dispuestos en el altar crean una atmósfera ritual de fe y resistencia. La ceremonia muestra cómo esta práctica espiritual atraviesa el tiempo y se renueva en la devoción de los hijos e hijas del terreiro.
Palabras clave:
Canjerê; Pretos-Velhos; Jurema Sagrada; terreiro; fotografía
Este ensaio fotográfico é fruto de um trabalho de caráter etnográfico e de salvaguarda cultural desenvolvida no Ilé Àṣẹ Ọ̀rìṣànlá Tàlàbí, terreiro de Candomblé Nagô e Jurema Sagrada localizado no bairro de Paratibe, no município de Paulista, Pernambuco. A série reúne dez imagens captadas durante as celebrações aos Pretos-Velhos, realizadas em 2023 e 2024, e constitui um desdobramento da minha vivência na comunidade religiosa da qual faço parte.
O foco da série é o ritual do Canjerê dos Pretos-Velhos, celebrado anualmente no mês de maio no terreiro desde 1991. A palavra Canjerê tem origem nas línguas e vocabulários do povo banto. Segundo o Dicionário Banto do Brasil (Lopes 1999), ela deriva de njele, que significa uma cabeça cheia de pequenos objetos, usada em rituais com a finalidade de purificar o corpo e afastar espíritos malignos. Além disso, Cajerê está relacionada a termos como como nkengele (quicongo), que quer dizer rodopiar ou girar, e khongela (do ronga), que significa orar, rezar ou adorar, remetendo a ideias de movimento e encantamento. A palavra também pode ter sofrido influência de canjira, associada ao conjunto de danças rituais dos terreiros de matriz africana. No contexto da Jurema Sagrada, essa expressão designa uma manifestação ritualística complexa e multissensorial, na qual o sagrado se revela por meio de sons, aromas, alimentos e gestos, em comunhão com entidades espirituais associadas à cura, à sabedoria ancestral e à resistência.
O trabalho teve início em 2022, a partir do interesse em documentar visualmente os ciclos religiosos do Ilé Àṣẹ Ọ̀rìṣànlá Tàlàbí, incluindo o Canjerê dos Pretos-Velhos daquele ano, assim como os demais ciclos que integram o calendário ritual e festivo do terreiro. Ao longo desse processo, venho desenvolvendo uma abordagem fotográfica que salvaguarda visualmente aspectos simbólicos e rituais, por meio de uma prática comprometida com o respeito e com a forma como os próprios retratados desejam ser vistos e representados. Esse cuidado se faz necessário, sobretudo diante do histórico de reduções e estigmatizações que, muitas vezes, reduziram a prática da Jurema ao campo do folclore, desconsiderando a relevância das tradições afro-indígenas na formação cultural nordestina. Como observa Grünewald (2018), o Culto à Jurema Sagrada se configura a partir de trajetórias múltiplas e contextuais, nas quais tradições indígenas, afro-brasileiras e populares dialogam e se reinventam continuamente, evidenciando o caráter vivo e dinâmico dessas práticas.
Durante o Canjerê, o salão do terreiro é cuidadosamente preparado com flores, velas, cachimbos e alimentos, compondo um altar que se torna o centro das oferendas. Cada filho e filha da casa colabora trazendo um alimento, que será partilhado ao fim do ritual. Realizada à luz de velas, a cerimônia adquire uma atmosfera de acolhimento e intimidade, marcada pela presença dos Pretos-Velhos e pela entoação dos pontos cantados, que funcionam como instrumentos de comunicação com os encantados. Essa ambiência exigiu sensibilidade tanto para lidar com a baixa luminosidade quanto para captar a densidade simbólica do ritual, que foi registrado respeitando o fluxo natural da celebração. Por meio do jogo entre a luz das velas e a fumaça, e com uma narrativa imagética que alterna planos abertos e detalhes, as fotografias revelam a profundidade simbólica da cerimônia, sua memória viva e a continuidade de uma tradição que atravessa o tempo.
O Canjerê dos Pretos-Velhos, além de ser um rito religioso, configura-se como uma prática de resistência cultural e de enfrentamento ao apagamento histórico das tradições afro-indígenas no Brasil. Sua realização ininterrupta há mais de três décadas no Ilé Àṣẹ Ọ̀rìṣànlá Tàlàbí atesta a vitalidade da Jurema Sagrada enquanto espaço de afirmação coletiva de identidade e memória. Nesse contexto, a fotografia atua como um instrumento de retorno e valorização, preservando visualmente aspectos centrais da celebração e contribuindo para a salvaguarda das expressões culturais e espirituais ali manifestadas.
Editado por
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Editor-Chefe:
Edilson Pereira
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Editor-Assistente:
Lucas Bártolo
Não aplicável
