Resumo
O artigo discute a implicação ética e política da clínica psicanalítica frente às temáticas do racismo e da violência social de gênero, analisando também os efeitos dos letramentos institucionais sobre suas práticas. Apresenta polêmicas surgidas no trabalho clínico com respeito às questões identitárias, discutindo as imposturas e potencialidades da escuta analítica diante delas. Com base em autores como Jacques Lacan, Jorge Alemán e pensadores decoloniais, propõe distinguir as subjetividades normalizadas pelo capitalismo neoliberal e o sujeito do inconsciente, sem, contudo, dissociar esse último de sua inscrição histórica e social. Conclui com uma reflexão crítica sobre a distinção entre a política e o político, proposta por Jorge Alemán, situando a especificidade da psicanálise como prática sensível ao inapropriável do sujeito.
Palavras-chave
Psicanálise; política; sujeito do inconsciente; discurso capitalista
Abstract
This study discusses the ethical and political implications of psychoanalytic clinical practice regarding the issues of racism and gender-based social violence and analyzes the effects of institutional literacy processes on its practices. It describes the controversies that have arisen in clinical work regarding identity-related issues, exploring the impostures and the potentialities of the analytic listening in such contexts. Drawing on authors such as Jacques Lacan, Jorge Alemán and decolonial thinkers, this study proposes a distinction between the subjectivities normalized by neoliberal capitalism and the subject of the unconscious — without, however, dissociating the latter from its historical and social inscription. It concludes with a critical reflection on the distinction between politics and the political as proposed by Jorge Alemán, situating the specificity of psychoanalysis as a practice attuned to the unappropriable dimension of the subject.
Keywords
Psychoanalysis; politics; subject of the unconscious; capitalist discourse
Abstract
Cet article examine les implications éthiques et politiques de la clinique psychanalytique face aux problématiques du racisme et de la violence sociale de genre, en analysant également les effets des littératies institutionnelles sur ses pratiques. Il présente les controverses apparues dans le travail clinique en lien avec les questions identitaires, en discutant des impostures et des potentialités de l’écoute analytique face à ces enjeux. S’appuyant sur des auteurs tels que Jacques Lacan, Jorge Alemán et des penseurs décoloniaux, il propose de distinguer les subjectivités normalisées par le capitalisme néolibéral du sujet de l’inconscient, sans toutefois dissocier ce dernier de son inscription historique et sociale. Il se conclut par une réflexion critique sur la distinction entre la politique et le politique, telle que proposée par Jorge Alemán, situant la spécificité de la psychanalyse comme une pratique sensible à ce qui, du sujet, reste inappropriable.
Mots-clés
Psychanalyse; politique; sujet de l’inconscient; discours capitaliste
Resumen
Este artículo discute la implicación ética y política de la clínica psicoanalítica frente a las temáticas del racismo y de la violencia social de género, analizando también los efectos de las alfabetizaciones institucionales sobre sus prácticas. Presenta polémicas surgidas en el trabajo clínico con respecto a las cuestiones identitarias, discutiendo las imposturas y potencialidades de la escucha analítica frente a ellas. Con base en autores como Jacques Lacan, Jorge Alemán y pensadores decoloniales, propone distinguir las subjetividades normalizadas por el capitalismo neoliberal y el sujeto del inconsciente, sin disociar, sin embargo, a este último de su inscripción histórica y social. Concluye con una reflexión crítica sobre la distinción entre la política y lo político, propuesta por Jorge Alemán, situando la especificidad del psicoanálisis como práctica sensible a lo inapropiable del sujeto.
Palabras clave
Psicoanálisis; política; sujeto del inconsciente; discurso capitalista
Nos últimos anos, o crescimento das lutas contra o racismo e as discriminações de gênero deram ensejo a campanhas políticas mundiais, como “Vidas negras importam” (2013) e “#Me too” (2017). Além disso, vimos proliferar os chamados letramentos racial e de gênero/sexualidade, através de práticas pedagógicas e vivências institucionais, visando a maior conscientização e transformação das relações de violência contra sujeitos minorizados. Entretanto, paradoxalmente, os inegáveis avanços políticos se viram acompanhados pelo recrudescimento do racismo, da misoginia e da transfobia, o que revela a centralidade desses dispositivos na reprodução do capitalismo (Fanon, 2005, 2008; Mignolo, 2020; Segato, 2021; Mbembe, 2018, 2021). Atualmente, integro grupos de trabalho e reflexão sobre relações raciais no Instituto Sedes Sapientiae e no Instituto AMMA – Psiquê e Negritude. Neles, temos buscado pensar/vivenciar os atravessamentos do racismo em nossas relações pessoais e institucionais, refletindo também sobre a histórica anuência da psicanálise diante do tema, para dizer o mínimo. Observamos a urgência de enfrentar a normatividade da branquitude, promovendo a inclusão das diversidades étnico-raciais e culturais tanto na formação quanto nas práticas clínicas.
Nesse contexto de implicação clínica e institucional, o título provocativo de um evento realizado recentemente no Instituto Gerar de Psicanálise — Imbricações do letramento social na clínica psicanalítica: posturas e imposturas — funcionou como disparador das reflexões que se seguem. O título abre espaço para uma discussão crítica a respeito do modo como nós, psicanalistas, temos conduzido nossas práticas, dado o efeito dos processos de letramento2 sobre racismo e violência de gênero, cada vez mais presentes nas instituições de formação, e cujas discussões atravessam e interrogam diretamente o trabalho clínico. Refletirei sobre isso adotando o método psicanalítico como ferramenta de análise do laço social, considerando os entrelaçamentos entre inconsciente, linguagem e discursos identitários nas formas contemporâneas de subjetivação.
Penso que, em decorrência do amplo movimento político e dos letramentos institucionais, uma das novas e promissoras posturas psicanalíticas seja a abertura aos repertórios culturais e às epistemologias situadas referidas às pessoas trans, negras, pardas e indígenas, cujas vozes se encontram silenciadas no discurso social hegemônico e, particularmente, nos institutos de psicanálise. Tal abertura inverte o foco habitual da pauperização de pessoas trans e não brancas para a da branquitude cisheteronormativa, que se mostra impermeável ao reconhecimento de sujeitos que não lhes sejam idênticos (Preciado, 2022, 2023; Schucman, 2020).
O reconhecimento afirmativo das formas de subjetivação, socialização e conhecimento de pessoas subalternizadas, tem se mostrado como um dos antídotos mais potentes contra as concepções universalizantes, essencialistas e segregacionistas da branquitude. Aceder ao encontro com essas diversidades parece ser o desafio de uma nova postura psicanalítica, o que para nós, analistas majoritariamente brancos(as), está demasiadamente próximo e demasiadamente longe. Próximo, porque nossas subjetividades se forjam em um contexto de mestiçagem simbólica e cultural, tal como propõe David Pavón-Cuéllar (2020), no qual múltiplas tradições coexistem, mesmo que em tensão. E, distante, porque as estruturas de poder racial e os mecanismos de branqueamento operam com força, bloqueando o reconhecimento efetivo dessas mesmas alteridades. Adentremos o paradoxo.
A formação social do Brasil e da América Latina no período colonial se deu na conjunção assimétrica entre indígenas autóctones, europeus brancos e negros africanos, configurando um hibridismo étnico e cultural profundamente atravessado pelos processos da escravidão e do racismo. Construímos nossas subjetividades no jogo das exclusões e violências raciais, habitados por tradições culturais em conflito, afirmadas e negadas a um só tempo. Reproduzimos os padrões coloniais e também resistimos coletivamente a eles (Pavón-Cuéllar, 2017, 2020). No último caso, por exemplo, subvertemos os modelos ocidentais de maternidade nos movimentos políticos das “Mães da Praça de Maio”, na Argentina, no “Movimento Colombiano de Mulheres pela paz” e no movimento “Nossas filhas de regresso à Casa de México”. Produzimos novos parâmetros epistemológicos, conforme, por exemplo, as noções de “fronteira” e “identidade mestiça” propostas por Gloria Anzaldua; o “criptograma da violência”, pensado por Rita Segato a respeito dos crimes sexuais brutais na Ciudad Juárez (México); as figuras da virgem — Maria e do huacho (filho(a) de mãe índia e órfão(ã) de pai espanhol desaparecido), descritas pela antropóloga chilena Sonia Montecino, analisando o papel da mulher em mitos de origem multirracial (Femenias, 2006).
Além disso, destacam-se as noções de “amefricanidade” e “pretuguês”, formuladas por Lélia Gonzalez (2020) em suas análises sobre a cultura brasileira sob a marca da racialização; os estudos de Silvia Rivera Cusicanqui (2018), intelectual e ativista indígena boliviana, sobre o mundo ch’ixi e a crítica à colonialidade do saber; e a constituição de uma influente corrente de pensamento decolonial latino-americano, com projeção global, proposta por autores(as) como Enrique Dussel, Aníbal Quijano, Walter Mignolo, Maria Lugones, entre outros(as).
Tudo isso concorre em nós com as tradições universalizantes e colonizadoras da branquitude europeia e do imperialismo norte-americano, constituindo os insolúveis da nossa peculiar mestiçagem. Os processos políticos de conscientização social sobre o racismo e a violência de gênero podem nos reconectar às nossas experiências coletivas de resistência e emancipação, um trabalho incontornável no caminho da decolonização de nossas práticas e instituições, profundamente marcadas por heranças coloniais.
Nessa linha, por exemplo, José Damico e Tadeu de Paula, em O sublime negro e o duplo alvejamento dos corpos: mestiçagem e a produção do desejo de embranquecer (no prelo), refletem sobre a riqueza simbólica e o manancial sublimatório contidos nos mitos e religiões afro-brasileiras, na cosmovisão indígena, nas narrativas e ritmos do samba brasileiro, elementos pouco acionados em nossa escuta clínica, muitas vezes catequizada por produções do Norte Global, mais afeitas à mitologia grega e aos estudos e literatura do chamado Primeiro Mundo. Portanto, é fundamental considerarmos o enquadramento geopolítico na construção das teorias e modelos clínicos psicanalíticos, reabilitando autores(as) do Sul Global que até ontem estavam invisibilizados em nossas universidades e instituições psicanalíticas. Isso nos permite um pensamento próprio, pulsante, alinhado aos princípios de justiça social, um pensamento de matriz brasileira, que leva em conta os nossos problemas e a nossa gente (David & Vicentin, 2020; Guerra, Ribeiro, Bispo et al., 2021; Canavêz, 2020).
Voltando ao título provocativo do evento que inspirou este texto, pensemos, agora, sobre as imposturas provenientes da confusão entre as finalidades da clínica psicanalítica e da prática político-pedagógica voltada à sensibilização e formação crítica em torno das questões raciais e de gênero, considerando suas respectivas especificidades.
Nessa perspectiva, uma impostura psicanalítica está em não escutar, e mesmo silenciar, na clínica, as singularidades étnicas, de gênero e de classe a partir das categorias abertas pelo próprio letramento político-pedagógico-institucional. Situação insólita, que faz lembrar “A máquina do mundo”, poema de Carlos Drummond de Andrade. Nele, ansiando pela decifração do mistério de todas as coisas, o eu lírico recua, no instante mesmo em que a máquina lhe oferta a revelação. Como no poema, também entre nós se opera um gesto de retração: diante da possibilidade de uma nova escuta e transformação, recuamos, muitas vezes, renovando a repetição do já conhecido agora sob outras formas.
Trata-se de um movimento paradoxal, no qual novas categorias são rapidamente assimiladas e neutralizadas em sua potência transformadora, o que impede que sejam verdadeiramente integradas ao trabalho psicanalítico. Desativamos, assim, a sua capacidade crítica na familiaridade de nossos hábitos interpretativos. Tal impostura raramente se mostra de modo explícito. Entretanto, ela pode estar referida, por exemplo, na atual polêmica entre psicanalistas, a respeito do modo como lidamos — ou não — com as chamadas questões identitárias de raça e gênero nos atendimentos clínicos.
A polêmica: os impasses da psicanálise diante das identidades
Grosso modo, as posições se organizam em torno de dois polos. Antes de apresentá-las, discutirei brevemente a noção de identidade, hoje disputada por diferentes disciplinas e movimentos políticos. Tal noção ganhou notoriedade a partir da década de 1980, com a explosão das teorias feministas, queer, anticoloniais, pós-coloniais e decoloniais3, que abriram caminho ao amplo reconhecimento de diversidades étnicas e culturais. Nesse contexto, a identidade deixou de ser pensada como uma essência única, fixa e estável, passando a ser compreendida como construção social, histórica e relacional. Stuart Hall (2008), por exemplo, concebeu, em 1992, a identidade como formação híbrida, em constante negociação e transição, afeita ao funcionamento neoliberal capitalista. Judith Butler (2003) introduziu, em 1990, a noção de “identidade performativa”, segundo a qual as identidades de gênero são produzidas por atos reiterados que atualizam e reproduzem as normas sociais. Em função de sua natureza repetitiva e performática, essas identidades são instáveis e nunca se ajustam plenamente aos sujeitos que as portam. Por sua vez, Berenice Bento (2017) desenvolve a noção de “transidentidade”, termo que também aparece em diversos estudos do campo queer.
Além disso, os feminismos decoloniais descortinaram as identidades modernas de gênero, raça e classe no quadro da interseccionalidade, analisando-as em seus efeitos combinados e como formas de classificação, uniformização e submetimento típicas do sistema capitalista neocolonial (Akotirene, 2020; Bilge & Collins, 2020). Nessa perspectiva, as identidades desrealizam e soterram os sujeitos colonizados, sendo-lhes impostas com a finalidade da dominação. Engendram, portanto, formas de subjetivação e dessubjetivação, não se deixando suspender no âmbito das análises clínicas, como querem os(as) psicanalistas que as dispensam de suas teorias e divãs.
Assim, o surgimento de novos paradigmas epistemológicos e políticos reabilitou a noção de identidade, conferindo-lhe o lugar de um significante tão privilegiado quanto problemático. Stuart Hall (2008) a define como “um desses conceitos que operam ‘sob rasura’ (...) uma ideia que não pode ser pensada da forma antiga, mas sem a qual certas questões-chaves não podem ser sequer pensadas” (p. 104). Frente a isso, os(as) psicanalistas, frequentemente contrariados(as), nos vimos devolvidos ao tema.
Situados em lados opostos, há aqueles(as) que reafirmam as posições críticas da psicanálise à noção de identidade, vista como formação unitária, cristalizada e referida ao campo do eu, privilegiando a noção de múltiplas identificações inconscientes, cujo desvelamento constitui o veículo e a finalidade da análise. É o caso, por exemplo, de Ceccarelli (2022) e Roudinesco (2022). Outros(as) argumentam os riscos de uma psicanálise conservadora que ignora a constituição performativa e não essencialista das identidades contemporâneas, seus sentidos simbólicos e políticos, evitando ou recalcando suas expressões e embates no âmbito dos atendimentos clínicos. É o que sustentam, por exemplo, Rivera (2020) e Ayouch (2023).
No primeiro caso, salienta-se o perigo da dissolução do dispositivo analítico frente a finalidades que não lhe são próprias, provenientes, por exemplo, do campo da militância política, reforçando as representações identitárias fixas em lugar de questioná-las. No segundo caso, argumenta-se o perigo de uma psicanálise impermeável às transformações históricas, em defesa de uma metapsicologia imutável e alienada de suas premissas misóginas e racistas, reproduzindo traumas no lugar de analisá-los. Temos, aqui, posições antagônicas, atribuindo, uma a outra, graves imposturas na realização de suas práticas.
O debate nos leva a indagar: De que formas as questões identitárias se enunciam, hoje, nos atendimentos clínicos? Haveria um evitamento ou uma incitação a elas, conforme os diferentes modelos em causa? De que modo definimos, hoje, o sujeito da análise? Retornando à polêmica, as duas posições psicanalíticas podem se cristalizar ou estabilizar, mais ou menos, em torno desse ou daquele modelo teórico-clínico, representado por esse ou aquele grupo de analistas, ganhando seus estandartes. Porém, é possível pensar que essas posições deslizem uma em direção a outra no trabalho cotidiano de cada um de nós, analistas, em função de fatores que extrapolam o nosso campo particular. Talvez essa seja uma razão da polêmica chegar, não raro, a um verdadeiro vespeiro, não sendo possível remetê-la inteiramente a um jogo entre os analistas dessa e de tal linha, os de esquerda e de direita, os conservadores e progressistas, etc. Não que essas inscrições sejam indiferentes, ou que possamos diluí-las de acordo com um relativismo oportunista. Ocorre, porém, que tal polêmica não parece se ligar apenas a esses determinantes. Vou fazer um desvio para retomar esse ponto mais adiante.
A distinção entre sujeito e subjetividade: o inapropriável de cada um/a e as formas homogeneizadas de subjetivação
As noções modernas de gênero e raça apresentam uma história marcada pela polissemia e usos políticos contraditórios. Nesse sentido, ao lado dos avanços trazidos pela noção de gênero, é possível observar a sua assimilação e instrumentalização planetária no confisco da mulher como objeto de negócio no mercado neoliberal. Vende-se a proteção e a liberação da mulher, através de Ongs e políticas governamentais, sem que se desative substancialmente a misoginia e o feminicídio. O que se observa, portanto, é o esvaziamento e a incorporação dos movimentos e categorias epistêmicas revolucionárias pelo capitalismo neoliberal. Por isso mesmo, tais categorias não se mostram estáveis e garantidas a partir dessa ou daquela teoria, e tampouco a partir dos processos de letramento social, ainda que sejam de suma importância. A disputa encarniçada pelos seus sentidos se aloja em um movimento maior, que se desenrola no chão social e não apenas nos debates acadêmicos. Talvez o que nos caiba, como psicanalistas, seja sustentar a tensão que essa disputa provoca (talvez outra tarefa dentre os impossíveis mencionados por Freud...). Delimitado o problema, tentarei agora uma análise e um posicionamento provisório, diante da enorme instabilidade do campo.
Trago, para isso, algumas considerações do psicanalista argentino Jorge Alemán (2022, 2023, 2024). O autor parte de uma colocação de Lacan no Seminário 20, de 1972, que consiste em diferenciar o sujeito da subjetividade. Tal afirmação se colocou no quadro das críticas de Lacan ao movimento de maio de 1968, na França, as quais não veremos aqui4. De todo modo, 40 anos depois, Alemán retoma essa ideia, reafirmando a importância de diferenciarmos as formas neoliberais de subjetividade forjadas no processo da normalização social, segundo as lógicas e tecnologias do poder, do sujeito do inconsciente tal como descrito pela psicanálise, o sujeito dividido e evanescente. Porém, para o autor, essa distinção não consiste em apartar o sujeito agente social e o sujeito vazio do inconsciente, depurando esse último de suas raízes históricas, conforme observamos em certas vertentes psicanalíticas. Vejamos como Alemán a concebe.
A diferenciação mencionada por Lacan e retomada por Alemán (2022, 2023, 2024) mostra-se crucial, especialmente quando se analisa o discurso capitalista, uma vez que ele visa, acima de tudo, a produção de subjetividades homogeneizadas e afeitas ao consumo desenfreado, na busca incessante de um mais de gozar, buscando desativar/eliminar as singularidades que se desviam desse caminho. Trata-se, em última instância, de um ataque direto à emergência do sujeito do inconsciente que, por definição, se constitui como irredutível à norma e responde de modo deslocado e singular aos dispositivos de uniformização social.
Haveria, portanto, no contexto do capitalismo neoliberal, um movimento de padronização das subjetividades, conforme as figuras contemporâneas do “empresário de si mesmo”, pensado por Dardot e Laval (2016); a subjetividade líquida, descrita por Bauman (2001), ou aquela referida à sociedade do cansaço, cunhada por Han (2015). A esse cenário somam-se as subjetividades fabricadas pela indústria farmacológica e pelos discursos de autoajuda, bem como as máscaras identitárias forjadas na padronização dos sujeitos. Essas formas homogeneizadas de subjetivação gravitam em torno da falta e do excesso; impelem os sujeitos à busca de um desempenho ilimitado que resulta sempre insuficiente, movidos por ideais padronizados inalcançáveis, estando mais do lado do gozo irrefreado do que do princípio do prazer. Atentam, portanto, contra a emergência do sujeito do inconsciente, referido à verdade do desejo e à singularidade absoluta, não subsumido à massificação do mercado. Atentam, consequentemente, contra a formação de uma comunidade baseada no respeito às diferenças.
Lacan, no Seminário 17 (1969-70/1992) e em “Televisão” (1974/1993), trouxe reflexões fundamentais a esse respeito, apresentando uma teoria propriamente psicanalítica sobre o capitalismo e suas formações discursivas. Identificou o discurso capitalista em seus efeitos de destruição do vínculo social, operando por meio da pulverização da ordem dos semblantes e dos significantes-mestres da tradição, mecanismos que, até então, regulavam majoritariamente o gozo por meio da interdição e da lei. Em seu lugar, instaura-se a proliferação dos objetos mais-de-gozar, ofertados incessantemente pela sociedade de consumo.
Frente a isso, como deter a proliferação social do gozo mortífero intrínseco às subjetividades padronizadas, que ataca os vínculos de amizade, solidariedade, compartilhamento, enfim, o próprio liame social? Segundo Alemán (2024):
O problema é, a partir dessa mutação do neoliberalismo em sua produção de subjetividade, ver que lugar é inalcançável nessa produção, a que lugar não pode acessar este dispositivo de performance e gozo que se expande transversalmente por todos os laços sociais. (p. 12)
O autor afirma que é apenas a singularidade irredutível e insubstituível do sujeito, denominada por ele como Solidão: Comum, que se faz inapropriável ao discurso capitalista dessubjetivante. Sobre esse conceito nomeado por duas palavras, Alemán considera que o termo solidão provém de Lacan, referida a uma condição radical do sujeito que não pode ser suprimida por nenhuma relação intersubjetiva ou grupal. E o termo comum se refere ao campo do Outro, estabelecido no comum da língua e como laço social. Desse modo, a singularidade irredutível e não compartilhável se produz no campo do Outro e, portanto, no laço social. Segundo o autor, o não compartilhável dos sujeitos no laço social diz respeito a um coletivo que não se pode “confundir com a psicologia das massas, nem com os modelos da Igreja e do exército, nem com os modelos da massa primária regressiva dominada pelo instinto [pulsão] de morte” (Alemán, 2024, p. 13). É o que surpreendemos nos atos coletivos instituintes, atos que engendram, por exemplo, uma comunidade quilombola, ou um levante popular de emancipação.
Essa concepção de coletivo, fundada na co-presença de singularidades irredutíveis e não compartilháveis, permite pensar o comum não como fusão identitária ou adesão a uma ideologia única, mas como aquilo que abriga o dissenso e o desencontro como dimensões constitutivas. Nessa perspectiva, a solidão: comum se apresenta como um operador ético-político fundamental para a psicanálise contemporânea, pois convoca a prática clínica e institucional a sustentar o inapropriável dos sujeitos no próprio cerne do laço social, sem pretender curá-lo, eliminá-lo ou normatizá-lo.
Para Alemán, ainda que imbricadas, as relações de poder, as subjetividades e a posição do sujeito referida à solidão: comum devem ser discernidas, especialmente no âmbito das análises clínicas. Nesse plano, subsumir o sujeito a uma subjetividade construída pela normalização social pode conferir-lhe “uma coerência unificada ideologicamente”, reforçar uma pertença grupal, mas desconsidera e o segrega da sua divisão intrínseca, reproduzindo “um superego sufocante” (Alemán, 2024, p. 15). Pois se a singularidade irredutível do sujeito não pode advir, então “não há nenhum lugar nem para exercer resistência, nem para recuperar legados históricos, ou praticar a rememoração e a invenção” (Alemán, 2022, p. 5). Isso consumaria o “crime perfeito” do poder neoliberal, que tensiona anular o advento do sujeito no campo da linguagem.
As dimensões da política e do político: tensões e atravessamentos na clínica contemporânea
Pois bem. Nesse ponto preciso, Alemán (2022) propõe discriminar a política e o político5: “a política é tudo isso que surge dos dispositivos de poder do Capital, e ao invés disso eu chamo de político o que é ‘inapropriável’” (Alemán, 2022, p. 5), o que não é dado à condição de posse ou apropriação ou mesmo compartilhamento. O político é o instante em que o sujeito advém, interpelando os ditames do seu tempo; ele opera no comum da lalangue, e por isso mesmo se faz inapropriável pelo discurso capitalista.
O letramento social ou os movimentos sociais de grupos minorizados podem ser pensados como da ordem da política, estabelecendo semânticas e forças indispensáveis ao trabalho de desalienação social, informando e sendo informada pelo político, como expressão de singularidades que não são capturáveis pelo empuxo do discurso capitalista. De acordo com Alemán, a clínica psicanalítica, referida aos fundamentos revolucionários de Freud e Lacan, situa-se no campo do político, e não da política. Desse modo, é necessário apurar em que sentido o ato psicanalítico se constitui como um ato político. Porém, o que Alemán parece não considerar suficientemente é que essas dimensões não se mostram plenamente destacáveis, o político e a política; não há como depurá-las completamente, para então forjar o campo clínico na pureza do político. A política “entra” e se estabelece na clínica, como o político se estabelece no campo social maior.
Disse anteriormente que a polêmica psicanalítica em torno das questões identitárias se constitui não apenas entre escolas e partidos políticos, mas se produz em deslizes e deslizamentos vividos por cada um de nós no cotidiano da clínica. Podemos pensar que tais deslizes/oscilações se fazem como resultado de múltiplos fatores. Um deles pode ser a dança sempre des-ritmada entre o político e a política no setting analítico, o que nos requer uma discussão aprofundada6, tema para uma próxima reflexão. O letramento social, como resultado da luta concreta e do avanço político das chamadas minorias sociais, nos interpela a esse respeito, e mais: nos empurra a lidarmos com aquilo que nos é mais específico — a dimensão do político.
Por outro lado, aqueles deslizes podem acontecer, também, pela descaracterização da nossa prática, tomada pelo discurso do mestre capitalista que desativa singularidades absolutas no lugar de promovê-las. Aqui, não há dança nenhuma, mas a marcha neoliberal uniformizada.
Frente a isso, cabe indagarmos as mutações do discurso do analista frente ao discurso capitalista avançado, suas condições atuais, e se guardam os mesmos contornos desenhados por Lacan. A reflexão proposta por Alemán pode nos ajudar nesse ponto, ainda que seja preciso dialetizá-la um pouco mais, trabalhando suas tensões internas. A título de exemplo, vale considerar a afirmação do autor de que, na ação política contra o capitalismo neoliberal contemporâneo (e o letramento social pode encarnar uma delas), não se deve
(...) pensar, como fez certa esquerda pós-moderna, em que tipo de revolta seria inapropriável para o mestre, deve-se pensar, em todo caso, o que é inapropriável para o discurso capitalista. Não se trata de estar contra o discurso do mestre a todo custo. Pelo contrário, o que está em jogo é separar o discurso do mestre do mercado... (considerar) um discurso do mestre organizado pela política e não pelo mercado. (Alemán, 2024, p. 12)
Curioso: reafirma-se, aqui, a função do significante-mestre (S1), com a observação de que é preciso distinguir um discurso do mestre articulado à política daquele submetido à lógica do mercado e do gozo capitalista. Porém, a essa altura, que a política nos restitua um mestre nos coloca novamente frente à máquina do mundo, de Drummond, ou frente ao mal de arquivo, de Derrida (2001). É como se todo o esforço na distinção entre a política e o político soçobrasse no mestre, aliás, um mestre novamente despossuído de qualidades. Entretanto, no dizer de Ayouch (2023), o mestre enunciado por Lacan tem gênero e cor, ocultos pelo manto colonial da psicanálise que naturaliza sua universalidade. Parece que Alemán, como todos nós, não escapamos definitivamente do discurso neoliberal incinerador, que assimila e se adapta às categorias subversivas, anulando-as, para vê-las renascer alhures, em um pêndulo infernal.
Feita a ressalva, encontro grande valor e potência nas noções de político e de solidão: comum, de Alemán, considerando o que elas permitem pensar sobre os impasses e as reinvenções do dispositivo psicanalítico na contemporaneidade. Nessa direção, vale lembrar a observação do psicanalista Massimo Recalcati, no prólogo ao livro de Alemán (2023): “A ‘ferida ontológica da ausência de relação’ que Lacan teoriza precisamente como estrutural... é reaberta por Alemán como a possibilidade de um pensamento inédito do comum” (p. 6; tradução minha). Trata-se, sem dúvida, de uma ideia instigante a desenvolver.
Como conclusão provisória, e para tomar uma posição em relação à famigerada polêmica, penso que a questão não está em receber/invocar ou ignorar/forcluir as chamadas identidades de gênero e raça no âmbito das análises. Elas estão, por nós e pelos(as) analisantes. Ocorre que essas identidades podem ou não se constituir como subjetividades desenhadas ao serviço da lógica neoliberal, assim como podem ou não abrigar a subversão do sujeito. Não há qualquer estabilidade intrínseca a elas, e é nessa tensão e oscilação que vem se instalar o ato analítico.
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O presente texto foi apresentado em evento intitulado Imbricações do letramento social na clínica psicanalítica: posturas e imposturas, realizado no Instituto Gerar de Psicanálise, em 1 de fevereiro de 2025. Na ocasião, diversos coletivos e instituições psicanalíticas se reuniram para discutir as implicações clínicas, éticas e políticas que atravessam o trabalho analítico quando este se confronta com as questões de raça, gênero e classe social.
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Utilizo o termo “letramento” para me referir, de forma geral, a práticas político-pedagógicas de sensibilização e formação acerca das relações raciais e de gênero, que buscam ampliar a percepção das desigualdades sociais historicamente produzidas. Reconheço que o termo suscita controvérsias e críticas conceituais, entre elas o risco de o “letramento” ser tomado como um dispositivo normativo, capaz de homogeneizar experiências ou de reduzir processos complexos a aprendizagens formais, bem como sua possível aproximação com dispositivos liberais de gestão da diversidade. Essas controvérsias são relevantes e revelam a heterogeneidade das apropriações do termo, mas não é objetivo deste texto examiná-las em detalhe. Interessa-me, aqui, assinalar o modo como tais práticas têm incidido sobre a formação psicanalítica, interrogando o trabalho clínico contemporâneo.
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De modo geral, as teorias anticoloniais remetem às lutas políticas e intelectuais de resistência ao colonialismo desde o século XX, frequentemente associadas aos movimentos de libertação nacional. Por sua vez, as teorias pós-coloniais, de origem anglo-saxônica (a partir, por exemplo, dos trabalhos de Edward Said, Gayatri Spivak e Homi Bhabha), analisam os efeitos persistentes do colonialismo nas produções culturais e discursivas, enfatizando a hibridez, a ambivalência e o poder da representação. Já as teorias decoloniais, formuladas majoritariamente no contexto latino-americano (a partir de Aníbal Quijano, Walter Mignolo e Catherine Walsh, entre outros/as), destacam a continuidade estrutural da colonialidade nas formas modernas de saber e poder, propondo o deslocamento epistêmico do centro euro-norte-americano para regiões historicamente subalternizadas. Para um aprofundamento dessas distinções, ver Luciana Ballestrin (2013) e Deivison Faustino (2022).
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Essas críticas foram formuladas por Lacan em intervenções públicas e desenvolvidas, sobretudo, no Seminário 17, sendo retomadas no Seminário 20. Grosso modo, o autor aborda o acontecimento histórico de maio de 1968 na França como sintoma do discurso histérico dirigido ao mestre, caracterização derivada de sua teoria dos discursos, considerando que movimentos revolucionários podem repetir a lógica da dominação que pretendem combater.
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Vale considerar que a distinção entre a política e o político foi trabalhada anteriormente por autores como Claude Lefort (1991), Ernesto Laclau e Chantal Mouffe (2015), e Jacques Rancière (1996). Para Lefort, o político se refere ao campo simbólico que estrutura o social, enquanto a política é o conjunto das práticas e instituições que operam nesse campo. Laclau e Mouffe associam o político à dimensão do antagonismo social constitutivo, em contraste com a política como gestão institucional. Rancière não opera com essa oposição, mas distingue a política, entendida como ruptura da ordem sensível, da polícia, que distribui, organiza e hierarquiza essa mesma ordem. Jorge Alemán, por sua vez, retoma essa distinção de modo original a partir da psicanálise lacaniana, associando o político ao sujeito do inconsciente e ao que escapa à lógica de apropriação do discurso capitalista, e a política aos dispositivos de regulação e gestão do capital, conforme se verá a seguir.
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Nas palavras de Alemán (2024): “A relação entre psicanálise e política é uma relação que não se encaixa desde o início, que está sempre sob o deslocamento temporário de um forçamento, de um ‘cedo demais’ ou de um ‘tarde demais’. Pensamos que é preciso suportar a tensão da peça que não encaixa, para pensar a questão da psicanálise e da política” (p. 4).
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Não se aplica.
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Referências
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Editores do artigo/Editors:
Nelson da Silva Junior, Ricardo Toledo Piza
