Open-access Charcot e a grande neurose: paradigmas e paradoxos para além da Salpêtrière

Charcot and the Great Neurosis: Paradigmas and paradoxes beyond the Salpêtrière

Charcot et la Grande Névrose: Paradigmes et Paradoxes au-delà de la Salpêtrière

Charcot y la Gran Neurosis: Paradigmas y Paradojas más allá de la Salpêtrière

Resumo

O presente trabalho examina a relevância da contribuição de Jean-Martin Charcot (1825-1893) para os estudos sobre a histeria, com especial atenção ao deslocamento teórico-metodológico de uma abordagem estritamente neurológica para a consideração de aspectos psíquicos. Utilizando-se de uma metodologia que compreendia a observação anatômico-clínica, a análise iconográfica e experimentos baseados na hipnose, Charcot elaborou critérios diagnósticos específicos, incluindo a identificação dos estigmas histéricos e das zonas histerógenas, e reformulou a histeria enquanto patologia do sistema nervoso. A investigação demonstra que sua concepção da condição foi progressivamente ampliada, incorporando gradativamente fatores psíquicos como os conceitos de trauma e ideia fixa, o que o posiciona como um dos precursores das ciências psicológicas do século XX. A análise histórica evidencia um paradoxo em seu legado: suas descobertas no campo da neurologia permaneceram amplamente reconhecidas, enquanto seus estudos sobre a histeria e seus avanços epistêmicos foram posteriormente desconsiderados com a ascensão de figuras como Freud e Janet. Por fim, procuramos destacar como Charcot desempenhou papel central na transição entre a tradição organicista oitocentista, bem como nas concepções modernas acerca dos transtornos psíquicos das neuroses.

Palavras-chave:
Charcot; histeria; história da psiquiatria; neurose; hipnose; Salpêtrière


Abstract

This paper examines the relevance of Jean-Martin Charcot’s (1825-1893) contribution to hysteria studies, with particular attention to the theoretical and methodological shift from a strictly neurological approach to the consideration of psychic factors. Using a methodology that encompassed anatomo-clinical observation, iconographic analysis, and hypnosis-based experiments, Charcot established specific diagnostic criteria, including the identification of hysterical stigmata and hysteriogenic zones, and redefined hysteria as a disorder of the nervous system. The study demonstrates that his conception of the condition gradually expanded, progressively incorporating psychic factors such as the concepts of trauma and fixed idea, positioning him as one of the forerunners of twentieth-century psychological sciences. The historical analysis highlights a paradox in his legacy: while his discoveries in neurology remained widely recognized, his studies on hysteria and epistemic advances were later dismissed with the rise of figures such as Freud and Janet. Finally, we aim to emphasize how Charcot played a central role in the transition between the nineteenth-century organicist tradition and modern conceptions of the psychic disorders of neuroses.

Keywords:
Charcot; hysteria; history of psychiatry; neurosis; hypnosis


Abstract

Cet article examine la pertinence de la contribution de Jean-Martin Charcot (1825-1893) aux études sur l’hystérie, en accordant une attention particulière au déplacement théorico-méthodologique d’une approche strictement neurologique vers la prise en compte des aspects psychiques. En utilisant une méthodologie comprenant l’observation anatomo-clinique, l’analyse iconographique et des expériences basées sur l’hypnose, Charcot a élaboré des critères diagnostiques spécifiques, incluant l’identification des stigmates hystériques et des zones hystérogènes, et a reformulé l’hystérie en tant que pathologie du système nerveux. L’étude démontre que sa conception de cette affection s’est progressivement élargie, intégrant peu à peu des facteurs psychiques tels que les concepts de traumatisme et d’idée fixe, ce qui le positionne comme l’un des précurseurs des sciences psychologiques du XXe siècle. L’analyse historique met en évidence un paradoxe dans son héritage : ses découvertes dans le domaine de la neurologie sont restées largement reconnues, tandis que ses études sur l’hystérie et ses avancées épistémiques ont été par la suite marginalisées avec l’ascension de figures telles que Freud et Janet. Enfin, nous cherchons à souligner comment Charcot a joué un rôle central dans la transition entre la tradition organiciste du XIXe siècle et les conceptions modernes des troubles psychiques des névroses.

Mots-clés:
Charcot; hystérie; histoire de la psychiatrie; névrose; hypnose


Resumen

El presente trabajo examina la relevancia de la contribución de Jean-Martin Charcot (1825-1893) a los estudios sobre la histeria, con especial atención al desplazamiento teórico-metodológico desde un enfoque estrictamente neurológico hacia la consideración de aspectos psíquicos. Utilizando una metodología que comprendía la observación anatómico-clínica, el análisis iconográfico y experimentos basados en la hipnosis, Charcot elaboró criterios diagnósticos específicos, incluyendo la identificación de los estigmas histéricos y las zonas histórogenas, y reformuló la histeria como una patología del sistema nervioso. La investigación demuestra que su concepción de esta condición se amplió progresivamente, incorporando gradualmente factores psíquicos como los conceptos de trauma e idea fija, lo que lo posiciona como uno de los precursores de las ciencias psicológicas del siglo XX. El análisis histórico evidencia un paradoxo en su legado: sus descubrimientos en el campo de la neurología permanecieron ampliamente reconocidos, mientras que sus estudios sobre la histeria y sus avances epistémicos fueron posteriormente desestimados con el auge de figuras como Freud y Janet. Finalmente, buscamos destacar cómo Charcot desempeñó un papel central en la transición entre la tradición organicista del siglo XIX y las concepciones modernas sobre los trastornos psíquicos de las neurosis.

Palabras-clave:
Charcot; histeria; historia de la psiquiatría; hipnosis


A constituição da psiquiatria dinâmica tem uma de suas raízes na investigação sistemática das histerias, as quais, ao longo do desenvolvimento dessa disciplina, adquiriram posição central na compreensão das neuroses. Ao serem integradas ao escopo psiquiátrico nascente, essas entidades clínicas não apenas receberam uma significação própria, mas foram reformuladas dentro de um arcabouço epistemológico e clínico inédito. Esse movimento de assimilação e reelaboração, todavia, não se processou de forma isolada, mas em meio a um ambiente cultural e científico efervescente, no qual tais quadros nosológicos já exerciam papel determinante tanto na medicina quanto no imaginário social.

O estudo da histeria, tema que perpassa eras e culturas, apresenta-se como um objeto de fascínio tanto ao investigador científico quanto ao público geral, em parte por sua capacidade de amalgamar ciência, sexualidade e espetáculo. A história da histeria abrange desde o conceito de um “útero errante” na Grécia Clássica1 - em que o útero era visto como responsável por diversas disfunções ao se movimentar pelo corpo feminino - até a representação da mulher possuída na Renascença, marcada pelos stigmata diaboli (Veith, 1965, pp. 9-13; p. 65). O percurso histórico chega às mulheres da elite parisiense do século XVIII, diagnosticadas primeiramente como vítimas dos enigmáticos vapores uterinos e, posteriormente, como mulheres de uma delicada sensibilidade nervosa (Arnaud, 2014, pp. 37-38). No final do século XIX, culmina na grande hystérie, com representações icônicas nos registros visuais da Salpêtrière e nas detalhadas narrativas de Freud, em que os sintomas das pacientes apontavam senão para um trauma imbricado na subjetividade destes. Ao fim e ao cabo, ao longo da história a experiência histérica tomou tantas formas quanto o número de médicos e pacientes.

No que tange aos significados, a ambiguidade, tal qual a manifestação da afecção, é ainda maior, já que os significados atribuídos à histeria durante a história foram múltiplos e precisam ser apreendidos por suas forças próprias e historicamente determinadas. Grosso modo, pode-se dizer que em termos classificatórios a histeria se fundia com o amplo espectro da melancolia no século XVI; no XVII, era frequentemente associada à hipocondria, os vapores e condições associadas ao baço [spleen] (Rousseau, 1993); por fim, no século XIX, a afecção se sobrepunha a noções como nervosismo, neurastenia e prostração nervosa, sendo muitas vezes considerada uma manifestação de “degeneração” ou um estado de insanidade. O que era moeda corrente entre os médicos era seu emprego de maneira nebulosa, aplicando esse termo a uma miríade de condições nervosas espasmódicas e distúrbios “nervosos”. Como observa Mitchell (1875):

Os casos de que falo, alguns médicos gostam de chamar de histeria, mas a histeria é o limbo nosológico de todas as enfermidades femininas sem nome. Poderia ser tão bem chamada de mysteria, pois seu nome nada nos ensina sobre o conjunto de estados mórbidos que se acumulam dentro de seus limites nebulosos. (p. 94)

Acompanhando Goldstein (1987, pp. 2-3), é possível pensar a história da psiquiatria através da intersecção de várias histórias - intelectual, social e política. E, de fato, a histeria pode ser melhor compreendida por meio dessa confluência.2 Com as reservas de um recorte necessariamente limitado e sob a chave da história intelectual, pode-se dizer que foi nas últimas décadas do século XIX, num período em que reinava o espírito positivista nas ciências naturais, que Charcot intentou - e parcialmente conseguiu - conferir maior estabilidade à definição da histeria, ainda que o debate permanecesse irresoluto (Goldstein, 1987, p. 326).

No campo acadêmico, a partir do fim do século XIX, surgiram várias narrativas acerca da “história da histeria”. As primeiras dessas criações vieram à tona como respostas ao acalorado embate entre as escolas de Nancy e Salpêtrière, carregando, portanto, sinais de uma parcialidade inerente. Hoje em dia pouco explorados, os textos de Gilles de la Tourette (1891), Abricossoff (1897), Amselle (1907) e Cesbron (1909) despontam como esforços pioneiros para organizar conceitualmente a história das doenças. Em uma etapa subsequente, destacam-se as obras de Veith (1965) e Trillat (1986), as quais, não obstante suas particularidades e lacunas, desempenharam um papel crucial na promoção dos estudos sobre a histeria em uma época de escassa atenção acadêmica ao tema. Essas obras foram alçadas ao status de clássicos e constituem referências fundamentais na historiografia do campo. Com efeito, por uma série de questões que ultrapassam nossos objetivos, a histeria tornou-se novamente um ponto de confluência e objeto de estudo a partir dos anos 1990;3 o que culminou em novas “histórias da histeria” como os trabalhos de Noel Evans (1991), Bronfen (1998), Micale (2008), Scull (2009) e Arnaud (2014).4 De forma semelhante ao fenômeno histórico investigado, os estudos contemporâneos sobre a histeria revelam-se múltiplos e variáveis, não se limitando a reproduzir uma história da histeria. Nesse sentido, sobressai a diversidade de disciplinas que examinam o tema, incluindo a história da ciência e da medicina, estudos clássicos, história e crítica literária, história da arte, estudos de gênero e estudos culturais. Fenômeno este que reflete a pluralidade de perspectivas no campo.

O presente artigo propõe uma análise e apresentação da trajetória intelectual de Jean-Martin Charcot no estudo da histeria, com ênfase nas tensões inerentes à sua abordagem, inicialmente organicista e embasada no modelo anatômico-clínico, mas que gradualmente incorporou elementos psíquicos, particularmente com a introdução da hipnose e da teoria do trauma.

A figura de Charcot e seu ambíguo legado

Conhecido pelo seu trabalho na Salpêtrière, Charcot realizou investigações fundamentais sobre localização cerebral, esclerose múltipla, tabes dorsalis e esclerose lateral amiotrófica (Goetz et al., 1995, pp. 99-107). Reverenciado ainda em vida como o “Napoleão das Neuroses” (Ellenberger, 1993, p. 146), dedicou o auge de sua carreira aos estudos e à investigação dessas enfermidades. Suas teorias sobre as neuroses alcançaram notável prestígio durante sua vida, angariando um grande contingente de seguidores dentro da comunidade médica e conquistando reconhecimento em âmbito internacional. Cumpre notar que as primeiras “histórias da histeria” da modernidade foram concebidas a partir e para a doutrina charcotiana. Não obstante, após seu falecimento, ocorre um declínio acentuado em seu status; seu legado foi duplamente interpretado: suas contribuições neurológicas foram enaltecidas, valendo-lhe o epíteto de “pai da neurologia”, enquanto seus estudos tardios sobre fenômenos psicológicos, como hipnose e dissociação, foram desqualificados como sensacionalistas e fraudulentos. De fato, poucos anos após sua morte, seus discípulos tomaram rumos distintos: Fulgence Raymond, a título de exemplo, seguiu uma linha organicista da neurologia; já Babinski tornou-se um dos principais opositores ao conceito de histeria charcotiano, propondo a substituição pelo termo pitiatismo. Adicionalmente, a ascensão da psiquiatria kraepeliniana, da psicanálise freudiana e da psicologia pavloviana acabou por obscurecer suas ideias, encerrando o ciclo de Charcot e a belle époque da histeria na França.

O declínio da influência de Charcot ao longo do século XX levou à virtual ausência de estudos historiográficos e conceituais sobre seu legado na medicina e, sobretudo, na psicologia. A despeito da notoriedade de suas investigações sobre a histeria - ou quiçá devido à popularidade excessiva de sua obra, muitas vezes apresentada de forma sensacionalista -, o tema acabou por ser negligenciado ou simplesmente permaneceu estigmatizado por um longo período.5 Até muito pouco tempo atrás, estas lacunas persistiram e talvez só vieram à tona pela via de estudos freudianos à procura de um precursor e historiadores especializados em psiquiatria. Nesse sentido, destacam-se os trabalhos de Gasser (1995), Goetz et al. (1995), Gauchet & Swain (1997) e Micale (2008). Em comparação com os estudos freudianos que traçam uma genealogia de seu pensamento, explorando cada canto e origem possível, ainda restam investigações minuciosas sobre a escola da Salpêtrière ou iniciativas que explorem os casos clínicos de Charcot.

Charcot e a histeria no fin-de-siècle

Na medida em que a obra de Charcot é vasta e plural, pode-se dizer seguramente que a partir de 1877 a histeria se torna seu principal objeto de estudo. A partir daquele ano até sua morte, em 1893, o neurologista francês consolidou-se como uma figura icônica nos estudos sobre a histeria. Sua produção, desde o final da década de 1870 foi tão ampla quanto progressiva no que toca à neurose. Segundo Swain (1997, p. 73), entre 1870 e 1876 Charcot ministrou 5 lições sobre o tema; de 1877 a 1881, esse número cresceu para 8; entre 1882 e 1887, houve um registro de 17 lições; e, por fim, entre 1887 e 1892, o número alcançou 42 lições, consolidando sua dedicação ao tema. A intensificação quantitativa, acompanhada de outros sinais sintomáticos, evidencia um momento paradigmático para a histeria na França do fin de siècle, caracterizado pela expansão das dissertações científicas e pelo aumento no número de diagnósticos clínicos associados à condição. Como constata Terrisse (1984, p. 261), entre 1600 e 1934 há o registro de 520 teses, metade dessas está relacionada à figura de Charcot e foram publicadas na década de 1880. É assim que, no final do século XIX, a histeria emergiu como categoria diagnóstica predominante, configurando-se como fenômeno clínico responsável por cerca de um quarto dos internamentos femininos na Salpêtrière. E é também assim que Charcot assume a posição de professor da Cátedra de Doenças do Sistema Nervoso em 1882, a primeira posição do gênero no mundo; reputação que também encontra respaldo em sua figura fundadora que se consolida com os Archives de Neurologie, uma das primeiras revistas internacionais na área, que funda em 1880.

Uma característica particular do ensino e da transmissão da produção teórica de Charcot consiste na ausência de um modelo sistemático. Com efeito, Charcot jamais escreveu um tratado sobre neurologia, neuroses ou histeria. Em contrapartida, seus escritos assumem uma estrutura característica de coletâneas de histórias clínicas, nas quais se busca comunicar os aspectos da doença por meio de exemplificações clínicas bem delineadas e persuasão através da evidência empírica acumulada. Sua produção não é senão a expressão de uma oposição direta a qualquer forma de doutrina fechada; antes, ela emerge como uma estrutura epistemológica dinâmica, dotada de alta permeabilidade e em constante transformação. Não raro, o ilustre neurologista pratica ajustes e reformulações, procurando, diante de cada novo fenômeno ou observação que desafia as certezas consolidadas, edificar uma nova arquitetura teórica que acomode tais paradoxos. Suas teorias foram transmitidas em primeira mão por meio de palestras para a comunidade médica e pessoas externas, e pelas célebres “lições/aulas/palestras de terça-feira” [Leçons du mardi]6 junto aos seus alunos e visitantes, nas quais demonstrava sua prática. Esse material, que acabou por constituir o grosso da contribuição remanescente de Charcot, foi transcrito, organizado e publicado por seus discípulos. Sob sua tutela, passaram diversos médicos renomados, que marcaram seu nome na história da medicina como Babinski, Paul Richer, Gilles de la Tourette, Pierre Marie, Bourneville, entre outros. Curiosamente, foram os discípulos de Charcot que mais levaram adiante o projeto de uma sistematização de seu ensino e prática, aspirando circunscrever a histeria com rigor de leis e padrões clínicos.7 O mestre, contudo, frequentemente revelou-se inclinado a transcender tais delimitações. Ao acompanhar a progressão das lições e os relatos de seus contemporâneos, sobressai-se uma sensibilidade intelectual que celebra o fragmentário e múltiplo, cultivando tanto uma reverência como uma curiosidade pelas sutilezas que escapam às malhas dos grandes esquemas explicativos.

Cabe observar que Charcot nunca foi médico alienista no sentido estrito e remetendo à tradição francesa. E mesmo que tenha explorado aspectos teóricos da psicologia, sobretudo após meados da década de 1880, é difícil circunscrever sua prática por meio de uma definição clássica de psiquiatria. Ainda que produto da rica tradição médica francesa, sua filiação não era ao alienismo pineliano, mas à tradição anatomopatológica e à escola de Claude Bernard. Nos anos em que desenvolvia sua teoria da histeria, Charcot ocupou a cátedra de Anatomia Patológica na Faculdade de Medicina de Paris, sendo mais precisamente classificado como médico de medicina interna com uma especialização em neurologia clínica. Como complementa Micale (1995):

Charcot classificou a histeria como uma neurose, mas ele utilizou esse termo no sentido estritamente neurológico do final do século XIX: um distúrbio orgânico do sistema nervoso superior, com um substrato anatômico e fisiológico de natureza e localização desconhecidas. Assim, ele classificava a histeria não entre as patologias mentais, mas junto a outros “distúrbios nervosos funcionais”, como epilepsia, tabes dorsalis, coreia, esclerose múltipla, paralisia geral e doença de Parkinson. A metodologia de Charcot para o estudo dos distúrbios nervosos era orgânico-patológica, consistindo essencialmente na correlação entre observações clínicas realizadas em vida e dados obtidos por meio de autópsias. (...) Em outras palavras, na sua formação médica, metodologia científica, atividades clínicas, afiliações acadêmicas e perfil de pacientes, Charcot pertencia a uma tradição dentro da medicina francesa substancialmente distinta do alienismo clássico francês da primeira metade do século XIX. (p. 137)

O sucesso de Charcot e seus alunos não foi a apropriação psiquiátrica da histeria, mas sim a afirmação de sua abordagem neurológica.

Eles se viam como um grupo de médicos iluministas contemporâneos, determinados a erradicar os resquícios de erros e superstições do passado onde quer que ainda persistissem. Ostensivamente, substituir as crenças de tempos “pré-científicos” pelos métodos e descobertas da ciência empírica moderna era um exercício iluminista crucial, que Charcot considerava irresistivelmente gratificante. Enredada por séculos em ignorância científica, preconceitos populares e perseguições religiosas, a histeria tornou-se um tema central para uma reinterpretação racionalista. (Micale, 2008, p. 128)

Com uma grande quantidade de casos documentados e supervisionando diversas teses sobre a afecção, o neurologista francês foi figura pivotal para a reformulação conceitual da histeria no século XIX. Na esteira de Briquet, ao promulgar uma espécie de neurologização da histeria, Charcot inaugurou uma fase singular na história da enfermidade, na qual se abandonou gradativamente a concepção da histeria como mal intrinsecamente feminino, ginecológico ou de impulsos sexuais exacerbados, migrando para uma visão que abordava também uma parcela psíquica e subjetiva da doença. Dentro desse quadro, cabe ressaltar que os sinais somáticos não se extinguiram, mas passaram a ser, em parte, vistos como reflexos de um distúrbio psicológico, o que deu origem a uma nova concepção do corpo, que deixou de ser percebido como um mero objeto inerte e passou a ser reconhecido como um corpo subjetivo. Em consonância com Briquet, Charcot sustentava que homens também poderiam ser acometidos pela histeria, ainda que em proporções menores.8 Em sua visão, a histeria era uma disfunção do sistema nervoso central, análoga a doenças como a epilepsia e a sífilis,9 resultante de uma lesão dinâmica ou funcional,10 passível de futura identificação pela anatomo-patologia. Em sua teoria madura, o neurologista propunha que tal disfunção decorria de uma predisposição hereditária e era desencadeada por fatores ambientais, como traumas físicos ou emocionais.11

Com o intuito de diferenciar a histeria de outras doenças, o que se tornava difícil justamente pela característica anárquica do sintoma histérico, que, além de vasto era transitório, Charcot empreendeu um esforço classificatório visando delimitar um conjunto de anormalidades sensório-motoras, definindo-as como estigmas histéricos. O programa investigativo foi executado em colaboração com Paul Richer, discípulo que conjugava aptidões médicas e artísticas. Essa parceria resultou na elaboração da tese de doutorado de Paul Richer, Étude descriptive de la grande attaque hystérique ou attaque hystéro-épileptique et de ses principales variétés (1879), estudo sistemático e de fôlego - com mais de 800 páginas com inúmeros casos e ilustrações - que se estabeleceu como referência central, sendo posteriormente publicado em formato de livro em 1881.

Os autores estruturaram o paroxismo histérico em uma série de quatro fases [périodes] (Richer, 1881):

  • 1. Epileptoide: manifesta-se de forma análoga a um ataque epiléptico convencional. Inicia-se com a perda da consciência e uma fase tônica caracterizada por contratura muscular generalizada, progredindo para uma fase clônica com movimentos convulsivos rítmicos, e culminando em uma fase resolutiva com relaxamento muscular progressivo.

  • 2. Contorções e grandes movimentos (ou clownismo): distingue-se por manifestações motoras extensivas e aparentemente desordenadas. O elemento mais característico desta fase é a postura em arco [arc-en-cercle], na qual o corpo forma uma curvatura posterior extrema, apoiando-se apenas na cabeça e nos pés. Movimentações violentas e acrobáticas são frequentes, acompanhadas por vocalizações e gritos.

  • 3. Atitudes passionais [attitudes passionelles]: caracteriza-se pela expressão dramática de estados emocionais intensos. Nesta fase, manifestam-se alucinações vívidas, frequentemente relacionadas a experiências prévias ou conteúdos imaginativos, acompanhadas por poses teatrais e gesticulações expressivas. Os pacientes podem apresentar alternância entre estados emocionais contrastantes.

  • 4. Fase delirante: última fase na qual a consciência retorna parcialmente e o paciente permanece sob delírio de caráter variável, caracterizado pela possibilidade de alucinações, distúrbios motores e delírio da memória. Os estados emocionais nesta fase são voláteis, podendo incluir manifestações de choro, riso e conversação exuberante. O retorno à consciência completa ocorre gradualmente. (pp. 41-146)

A grande hystérie, caracterizada pela sequência das quatro fases descritas, representava o type, o modelo nosológico integral da neurose em sua forma canônica. Embora sua apresentação completa fosse excepcional, este construto teórico servia como referencial analítico para a compreensão das manifestações fragmentárias ou irregulares, que podiam apresentar ciclos repetitivos, alterações sequenciais ou ausência de características diagnósticas esperadas. Foi com esse modelo que Charcot aplicou à histeria sua metodologia analítica característica, utilizando os mesmos critérios diagnósticos utilizados em outras neuropatologias. A abordagem sistemática revelou padrões universais12 que, segundo o autor, transcendiam especificidades temporais, geográficas e étnicas, sendo “aplicáveis a todos os tempos, a todos os países e todas as raças”, pois suas manifestações, independentemente de variações superficiais, “sempre se vinculam logicamente ao tipo fundamental” (Charcot, 1881, p. viii).

Adicionalmente, também foram circunscritas e identificadas as “zonas histerógenas” na superfície corporal, cujo paradigma advém de estudos sobre a epilepsia, de Brown-Séquard. Essas zonas se estendem por grande parte do corpo e se tratam de áreas que, quando pressionadas, podem incutir ou interromper uma crise histérica.13 Este é um dos fatores que dissolve, em certa medida, a díade histeria-ovário: em vez de ser “a zona histerógena” propriamente dita, a região genital se torna mais uma entre as possíveis regiões sensíveis. As zonas, no plural, não fazem senão o papel de expandir a sensibilidade somática e a compreensão da enfermidade, não mais enclausurada somente na zona genital.14 A dissolução completa dessa relação histórica e insistente ganha fôlego quando Charcot adota o hipnotismo e concebe um modelo traumático da histeria, em meados dos anos 1980. Daí em diante o trauma psíquico se torna um possível agente desencadeador dos fenômenos histéricos; e é assim que, do soma ao psyche, opera-se uma gradativa psicologização da histeria no final do ensino charcotiano.

A hipnose, adotada como ferramenta experimental e metáfora laboratorial para os processos fisiológicos inerentes à histeria, foi peça-chave no vasto programa de pesquisa da Salpêtrière. O método não apenas iluminou, mas também ampliou as investigações sobre a relevância da imaginação e outros fatores psicológicos na gênese dos estigmas da grande neurose. Charcot fazia uso da hipnose para reproduzir paralisias artificiais em pacientes diagnosticados com histeria, utilizando essa técnica para investigar os mecanismos subjacentes à condição. Durante o transe hipnótico, ele induzia imobilizações por meio de sugestões, demonstrando em apresentações clínicas como os fatores psicológicos influenciavam diretamente manifestações neurológicas. A reversibilidade das paralisias induzidas apontava a ausência de causas orgânicas e corroborava a interpretação de que os sintomas histéricos derivavam de processos psicogênicos moduláveis. Destarte, mediante estas apresentações clínicas sobre as paralisias histéricas, que datam de meados dos anos 1980, Charcot conseguiu sintetizar eixos geralmente distintos da literatura médica naquilo que veio a ser sua concepção notadamente inédita: isto é, a histeria traumática masculina. Confluindo 1) os trabalhos de neuroses traumáticas, comumente denominados de railway brain ou railway spine pela literatura britânica (Page, 1883), ou seja, enfermidades nervosas que surgiam após um período de latência ou incubação de semanas ou meses, seguindo acidentes traumáticos nos quais o paciente sofrera pouca ou nenhuma lesão visível, com 2) as suas pesquisas sobre a hipnose e a reprodução de paralisias artificiais e 3) a concepção de Russel Reynolds (1869) acerca da “paralisia dependente da ideia”, Charcot estabeleceu uma progressiva compreensão sobre o componente psíquico e seus possíveis mecanismos agentes na histeria. A fundamentação etiológica relacionada a experiências emocionais intensas e a reprodução experimental da neurose através de métodos hipnóticos sustentavam essa abordagem interpretativa. Dentro da perspectiva psicológica da histeria, manifestações como a paralisia ou ataques histéricos eram compreendidos como efeitos da “autossugestão” do paciente, uma resposta retardada ao impacto físico e emocional de um trauma, dado o estado de predisposição do sistema nervoso. A sugestão feita pelo experimentador, nesse sentido, podia evocar sinais semelhantes, acionando os mesmos mecanismos fisiopatológicos que, normalmente, seriam ativados de forma involuntária e inconsciente pelo paciente. O neurologista francês propõe que, em estados de elevada sugestionabilidade psíquica, o impacto físico do trauma é reproduzido em um nível representacional, consolidando-se como uma ideia fixa [idée fixe] - fruto de “uma autossugestão involuntária e predominantemente inconsciente”; denomina o intervalo temporal entre a experiência traumática e a manifestação histérica como “uma etapa de incubação destinada à elaboração mental inconsciente” (Charcot, 1890b, pp. 450-456).

Cumpre notar, todavia, que se trata, em última instância, de uma psicologização muito distinta dos paradigmas contemporâneos, onde por psicologia, entende-se a fisiologia racional da região cortical; ou seja, a depender da lição de Charcot, pode-se compreender cortical e psíquico como sinônimos. O neurologista elabora uma concepção teórica na qual o organicismo materialista se harmoniza com uma incursão no domínio psicológico, sem implicar uma separação que assuma as ideias como entidades apartadas do corpo em uma esfera imaterial. De maneira equivalente, a formulação proposta recusa qualquer abandono da anatomia e da fisiologia em benefício de uma psicologia erigida sob os ditames de uma ciência da alma. Como observa Goetz et al. (1995), “Charcot preferia consistentemente modificações graduais em vez de revisões abruptas, e toda a sua carreira demonstrou uma habilidade, como no caso da introdução da histeria masculina, de se deslocar sutilmente, expandindo para novos territórios enquanto preservava a impressão de continuidade sem falhas” (p. 205). Nesse contexto, infere-se que, ainda que Charcot demonstrasse uma inclinação especulativa em direção aos modelos psicogênicos, sua obra não alcançou uma ruptura paradigmática, talvez devido à interrupção prematura causada por seu falecimento, que lhe vedou o aprofundamento dessa trajetória. Entretanto, essa linha de pensamento encontrou continuidade e expansão nas obras de dois de seus alunos mais notáveis: Pierre Janet e Sigmund Freud. Apesar de suas significativas contribuições para a ampliação do campo psicológico, Charcot permaneceu firmemente comprometido com uma perspectiva materialista, postura que reiterou em 1890 e que manteve até sua morte. Na ocasião, o autor declara que, mesmo que a lesão anatômica da histeria desafie os recursos investigativos disponíveis, “a histeria tem suas leis, seu determinismo, absolutamente como uma afecção nervosa com lesão material” (Charcot, 1890a, p. i). Em última instância, o seu materialismo não faz com que ele não possa indagar sobre fenômenos psicológicos, antes, confere-lhe uma continuidade erigida na premissa de se tratar das mesmas bases materiais, ainda que em nível mais elevado e inapreensível momentaneamente. Ao adotar o entendimento do sistema nervoso enquanto um complexo de funcionalidade integrada, delineia-se uma concepção que articula de maneira contínua as manifestações motoras, sensoriais e representacionais.

A confluência entre o pensamento materialista e a psicologia fundamentada na fisiologia inaugurou uma compreensão unificadora do sistema nervoso, dissolvendo antigas fronteiras entre corpo e alma. O direcionamento psicológico que Charcot imprimiu à histeria representou uma renovação interpretativa das tradições precedentes, sem, contudo, abster-se de preservar continuidades fundamentais.

Nesse sentido, a descoberta e a pesquisa da histeria masculina, em harmonia com as investigações sobre paralisias psíquicas, ilustram a crescente psicologização do trauma e o abandono gradual de uma patologia definida pelo sexo. Adicionalmente,

A histeria apelava à ambição de Charcot de ser inovador em um campo médico ancorado em manifestações somáticas, mas que avançava em direção à psicologia. Por fim, a grande neurose, com sua prevalência e diversidade, oferecia um domínio fértil para sua excepcional capacidade de atrair alunos para um empreendimento comum. (Goetz et al., 1995, p. 213)

Não obstante, a realização de tal movimento epistêmico esteve condicionada à necessidade de atender aos rigores impostos pela comunidade científica, o que implicou a adoção de métodos e critérios que se enquadrassem nos parâmetros considerados cientificamente válidos. Ora, a anatomopatologia, pilastra central das teorias localizacionistas, deparava-se, no enigmático fenômeno da histeria, com um obstáculo intransponível, pois a ausência de uma base orgânica discernível esvaziava qualquer tentativa de sua localização. Esse desafio não só minava a crença numa origem visível da enfermidade, como também restringia os possíveis contornos positivos da própria investigação. Com efeito, tais desafios motivaram a criação de metodologias mais apuradas com o intuito de iluminar, sistematizar e, por fim, desvelar os segredos da histeria. Consequentemente, surgem na Salpêtrière as 1) estratégias visuais e gráficas, incluindo representações da grande hystérie, a iconografia fotográfica e as mensurações gráficas; 2) sistematização das fases, com sua caracterização e causação; 3) metodologia experimental para demonstração e averiguação das fases, que, entre outras coisas, utilizava-se da hipnose como meio; e 4) mensuração através de instrumentário científico.15 Com essa delimitação metodológica, buscava-se examinar e reproduzir o fenômeno de acordo com os paradigmas científicos vigentes. Ao fim e ao cabo, a abordagem que se estruturava num modelo que mesclava anatomoclínica, experimento fisiológico e caracterização visual, buscava sedimentar uma forma de dar à histeria estabilidade e regularidade com o intuito de eliminar qualquer acusação de simulação e pseudocientificidade. O prince de la science almejava, não negar a negatividade do quadro histérico, a qual reconhecia, mas trazer aspectos metodológicos positivos e estáveis de modo a calcar bases sólidas e respeitáveis à investigação da histeria. Em outras palavras, a objetividade orgânica, inapreensível, era compensada pela objetividade metodológica com que o fenômeno era tratado.

Um dos sustentáculos da realidade e da apreensão do fenômeno histérico se encontra na reprodução gráfica, que se estende desde a reprodução de resultados advindos de aparelhos de mensuração à reprodução artística e fotográfica do fenômeno histérico. Nesse contexto, a iconografia da histeria no final do século XIX encontra uma de suas expressões mais célebres em Une Leçon Clinique à la Salpêtrière, de Brouillet. Exibida no Salão de Paris em 1887, a obra alcançou grande visibilidade na capital francesa e no mundo; a composição se distingue pelo tamanho monumental, com figuras em quase escala real, o que não é senão reflexo da grandiosidade com que o tema foi tratado.16 Soma-se a isso as representações amplamente difundidas por Bourneville & Regnard (1878) e Richer (1881), que se fixaram no imaginário popular e se alastram até os dias de hoje, quase como um símbolo - seja da histeria, seja do período.

No entanto, contrariamente ao que as imagens e as pressuposições sugerem, a maior parte dos casos diagnosticados com histeria na Salpêtrière não correspondiam à chamada grande histeria, mas sim às manifestações rotuladas como “pequena histeria” [petite histérie] ou formas parciais [formes frustes]. Atualmente essas imagens são repetidamente reproduzidas e frequentemente interpretadas como os registros mais fidedignos e relevantes sobre a histeria no fin-de-siècle. Consequentemente, cria-se uma tendência a considerar o ataque histérico como a expressão mais característica da condição; desse modo, as ilustrações e fotografias dos discípulos de Charcot são vistas, majoritariamente, como reflexos de fenômenos médicos amplamente aceitos no século XIX, servindo como representações da patologia em seu estado mais exacerbado. Contudo, mesmo durante o período de maior entusiasmo nas décadas de 1880 e 1890 na Salpêtrière, local que é muitas vezes identificado como o centro dos estudos sobre histeria, esses casos representavam ocorrências tão raras quanto exóticas.17

Charcot, cujas contribuições se encontravam predominantemente no campo médico-investigativo em vez do terapêutico, sustentava, sob forte influência do pensamento de Morel, que a histeria era uma condição intrinsecamente hereditária, o que, por consequência, limitava as possibilidades de cura.

A causa primordial da histeria, ensina o sr. Charcot, é a hereditariedade, seja ela similar: mãe histérica, filha histérica; ou atuando por transformação [transformation]: o(s) progenitor(es) ou seus ascendentes sendo acometidos de uma afecção nervosa diferente da própria histeria. Ao lado da hereditariedade, existem apenas agentes provocadores/desencadeadores [agents provocateurs] da neurose. (Gilles de la Tourette, 1891, p. 37)

Daí surge o termo família neuropática [famille névropathique]. De fato, a histeria tem uma causa principal, que se relaciona com a hereditariedade, ou seja, a “diátese”, a qual constitui o fundamento das suas manifestações. Esse fator é reconhecido como necessário para o desenvolvimento da crise nervosa, ao passo que os agentes provocadores/desencadeadores [agents provocateurs]18 são meramente contingentes. Em suas investigações, é notável como Charcot busca incessantemente um fator geracional em seus casos; assim, antes de remeter aos possíveis tares névropathiques (estigmas/anomalias/defeitos neuropáticos) dos pais de um paciente, o neurologista afirma em tom categórico: L’hérédité vous dira presque tout (Charcot, 1889, p. 420).19 Segundo o autor, a transmissão da doença podia ocorrer de maneira linear, inalterada entre gerações, ou intercalada por saltos, reminiscentes do que hoje entendemos como herança recessiva. Por sua vez, a “hereditariedade transformacional” implicava que as anomalias nervosas se reorganizassem patologicamente em cada geração subsequente, assumindo novas formas clínicas. Portanto, cumpre notar que para Charcot a histeria é um transtorno hereditário-degenerativo do sistema nervoso, caracterizado por uma vasta gama de sintomas, um desenvolvimento errático e, na maior parte dos casos, um prognóstico adverso.

À luz dessa perspectiva etiológica, não é surpreendente que o tratamento fosse centrado na mitigação dos sintomas e na adoção de medidas profiláticas. As práticas clínicas seguiam as orientações clássicas, com o emprego de eletroterapia, hidroterapia, repouso, isolamento e anestesiogênicos. O foco das investigações, por sua vez, não era a cura imediata, mas sim a busca por entender os mecanismos subjacentes à histeria.

No final do século XIX, o campo médico da histeria se deparava com um dilema que, por mais que o prestígio de Charcot e de seus seguidores tentassem mitigar, não tinha solução. Até a sua morte, em 1893, a busca por uma evidência orgânica capaz de explicar o distúrbio foi infrutífera. Além disso, o modelo degenerativo, que havia sustentado tanto as pesquisas quanto grande parte da psiquiatria, estava entrando em colapso. Aliás, Freud é uma das figuras que gradativamente reduzem a importância atribuída ao modelo, até rejeitá-lo completa e explicitamente nos anos 1890 - tensão que é possível verificar nas últimas cartas trocadas entre Freud e Charcot (de Mijolla, 1988). A falta de uma abordagem terapêutica clara tornou-se insustentável, especialmente quando se considera o crescimento da prática privada e a ascensão de novos métodos terapêuticos. O contexto gerou uma mudança significativa na medicina, tornando-a mais receptiva às novas concepções e tratamentos voltados aos distúrbios nervosos. É sob tais circunstâncias que se sedimenta uma profunda mudança de paradigma: a compreensão da histeria transita dos domínios ginecológicos e neurológicos para uma abordagem de cunho psicológico, momento em que se solidificam tanto a psicologização das neuroses quanto a busca por princípios de sua terapêutica.

Considerações finais

Em síntese, a trajetória charcotiana evidencia uma inflexão decisiva na história das neuroses: do organicismo anatômico-clínico à progressiva psicologização do fenômeno histérico, mediada por um programa metodológico que articulou observação, iconografia e hipnose como “laboratório” do psiquismo. Ao propor estigmas, zonas histerógenas, histeria traumática masculina e o nexo entre trauma e ideia fixa, Charcot buscou conferir inteligibilidade, aos moldes de um positivismo em voga, a um objeto refratário à localização anatômica, substituindo a “lesão” por uma suposta objetividade metodológica. A elucidação do método - incluindo suas ambivalências - figura entre as premissas necessárias para uma apreensão rigorosa do trânsito da histeria nos domínios médicos. Tal premissa não é exaustiva: como toda operação historiográfica, a presente abordagem reconhece seus limites. Os objetos da história da psiquiatria encontram-se enredados em regimes institucionais de poder, em normatividades de gênero e de classe, em racionalidades econômicas e em fontes que, não raro, tendem a produzir o que descrevem. Evitar naturalizações e teleologias, portanto, implica fazer dialogar clínica e teoria com seus determinantes políticos e culturais (Rousseau, 1993, p. 109). Desse modo, embora este estudo contribua para a exposição do pensamento charcotiano acerca das neuroses, cumpre reinscrever o que foi relegado ao segundo plano: o campo político, a infraestrutura e a economia institucional, a cultura e as questões de gênero e de classe. Longe de diluir a especificidade do objeto, tal reinscrição evidencia os dispositivos que o sustentaram e lhe conferiram condições de possibilidade.

  • 1
    King (1993) desconstrói o mito de uma “histeria antiga” unívoca ao evidenciar uma pluralidade textual e clínica nas fontes greco-romanas. Tratando-se, portanto, de uma construção retrospectiva que a modernidade impõe às passagens clássicas.
  • 2
    Remetemos o leitor à introdução da obra de Cazeto (2001, pp. 13-18), na qual se apresentam considerações pertinentes ao estudo da história no campo da psiquiatria.
  • 3
    Micale (1995, pp. 288-292) inventaria alguns fatores para a ascensão dos estudos sobre a histeria, entre eles, as questões de gênero, a influência do trabalho de Foucault e os problemas de cunho psicológico e psiquiátrico da contemporaneidade se destacam.
  • 4
    A concepção positivista de histeria como uma entidade mórbida universal e imutável, defendida por diversos dos autores citados, tem sido submetida a um rigoroso escrutínio histórico, justamente como efeito deste abrandamento do campo de pesquisa. Com efeito, a minuciosa análise de fontes primárias revela uma complexidade e diversidade nas manifestações clínicas e explicações atribuídas à histeria ao longo dos séculos, desafiando a noção de uma entidade patológica estável e transcultural que utiliza a mesma palavra para um conjunto heterogêneo de afecções que permeiam dezenas de séculos, torna-se absurda.
  • 5
    Entre 1893, ano de sua morte, e 1980, nenhum de seus escritos sobre histeria foi traduzido para outras línguas, tampouco se publicou uma biografia definitiva. Georges Guillain, em sua obra J. M. Charcot (1825-93): Sa vie, son oeuvre (1959), dedica apenas um capítulo sucinto ao estudo da histeria. Já A. R. G. Owen, em Hysteria, Hypnosis and Healing: The Work of J.-M. Charcot (1971), adota uma abordagem esotérica e se limita aos textos de Charcot disponíveis em inglês.
  • 6
    Freud traduz essas lições para o alemão, Cf. Charcot (1886; 1892).
  • 7
    As primeiras definições mais sistemáticas da histeria encontram-se na obra de Richer (1879, 1881), assim como as contribuições de Charcot a respeito das zonas histerógenas (Richer, 1880).
  • 8
    Em 1859, Briquet inovou ao iniciar seu Traité de l'hystérie clinique et thérapeutique com a descrição de sete casos de histeria em homens, calculando uma proporção aproximada de um homem para vinte mulheres afetadas pelo distúrbio. Charcot, uma geração depois, celebrou as contribuições de Briquet e se dedicou ao estudo dessa temática com especial empenho. De acordo com Micale (1995; 2008), entre 1878 e 1893, Charcot publicou mais de sessenta estudos de caso envolvendo homens e meninos, o que constitui cerca de um terço do total de publicações sobre histeria. Seu trabalho evoluiu em três etapas, cada qual com focos e estratégias distintas: entre 1878 e 1885, o principal objetivo de Charcot foi estabelecer a legitimidade da histeria masculina, desafiando os preconceitos médicos vigentes; nos anos médios e finais da década de 1880, Charcot investigou o tema em meio a disputas com neurologistas alemães sobre “distúrbios nervosos pós-traumáticos”; e entre 1887 e 1893, enfrentou os desafios do diagnóstico diferencial suscitados por esses casos.
  • 9
    Interessante notar como, a partir de revisões atuais do que se concebe por sífilis e epilepsia, é de se considerar que grande parte dos diagnósticos de histeria no passado poderia tratar-se de casos destas duas outras enfermidades. De fato, parte do empreendimento de Charcot também surge do ímpeto de diferenciar a histeria da epilepsia logo em seus primeiros encontros com a confusão entre as enfermidades (Charcot, 1872-1873, pp. 321-337); Richer (1881, p. 41) também chama a atenção para a diferenciação dos quadros. Por vezes, pode-se confundir e creditar a confluência das afecções justamente devido à nomenclatura utilizada pelos autores, hystéro-épilepsie.
  • 10
    Com efeito, esta é a “solução” de Charcot para a ausência de lesão. Ao utilizar a expressão “funcional”, ele aludia a uma distorção fisiológica difusa no sistema nervoso, que, ainda que não suscetível à detecção imediata, poderia ser sustentada por um substrato físico, certamente localizado na região cortical.
  • 11
    Observamos que a síntese aqui apresentada não faz jus ao sinuoso pensamento de Charcot. Charcot iniciou seus estudos sobre as histerias em 1870 e os seguiu até a sua morte, sendo seu principal objeto de estudos a partir de 1877. Enquanto alguns aspectos são uniformes e estão presentes em todas as fases de seu pensamento, como, por exemplo, a teoria da degenerescência e uma abordagem neurológica, há diferenças significativas entre as fases, sejam elas distinções teóricas e/ou metodológicas. O melhor trabalho que temos conhecimento que trata e reconhece esses períodos da teoria de Charcot é Le Vrai Charcot: Les chemins imprévus de l’inconscient (1997). Nele, Gauchet (1997, p. 100) aponta três tempos a partir de 1878: um primeiro que seria a abertura para o hipnotismo; um segundo, em 1885, que seria a descoberta do trauma e a possível determinação psíquica de sintomas orgânicos; e um terceiro, amplamente ignorado pela literatura, a partir de 1890, que levaria em conta o fator da personalidade e seus fenômenos de desorganização.
  • 12
    Cumpre notar que a difusão generalizada dessas características “teatrais” engendrou o cenário propício à preconcepção acerca de como “agem os insanos” em dado momento histórico (Goldstein, 1987, p. 330).
  • 13
    Richer (1880, pp. 1036-1038; 1881, pp. 33-36).
  • 14
    Embora tenha reduzido a atenção dada às formas genitais da histeria, manteve a defesa do conceito e, ao se deparar com a histeria masculina, propôs regiões histerogênicas análogas.
  • 15
    Entre os instrumentos, utilizavam-se o esfigmógrafo, pneumógrafo e o miógrafo.
  • 16
    Em 1983, Jean Louis Signoret, neurologista veterano da Salpêtrière, identificou as 25 figuras, muitas delas eram médicos e alunos da Clínica Charcot, o que confere à obra o valor de retrato coletivo da instituição.
  • 17
    “Nas cinquenta e uma histórias clínicas de histeria nos dois volumes de Leçons du mardi, uma análise dos sintomas revela as seguintes porcentagens: anestesias e hiperestesias localizadas ou unilaterais, 79%; anormalidades visuais, 76%; distúrbios paralíticos, 35%; e perda do reflexo faríngeo, 34%. Quarenta e sete por cento desses pacientes, ou vinte e quatro deles, apresentaram algum tipo de atividade convulsiva, enquanto 10% experimentaram desmaios ou vertigens em vez de convulsões, e 37% não apresentaram nenhum fenômeno convulsivo. Apenas 16%, ou oito pacientes, manifestaram duas ou mais fases do ataque clássico, e apenas seis pacientes, ou 12% do total, receberam os diagnósticos de histeroepilepsia, histeria maior [hystérie majeure] ou histeria com grandes ataques [hystérie à grandes ataques]” (Micale, 1995, p. 153).
  • 18
    O conceito propriamente dito foi elaborado por um discípulo de Charcot, cf. Guinon (1889).
  • 19
    O conceito de degeneração na medicina europeia emergiu no século XIX com obras de Lucas, Morel e Moreau de Tours. Entre as décadas de 1880 e 1890, esse conceito foi ampliado por figuras como o alienista francês Magnan e o criminologista italiano Cesare Lombroso, que passaram a incluir uma série mais abrangente de distúrbios e comportamentos humanos dentro do mesmo paradigma degeneracionista.
  • Financiamento/Funding:
    O autor declara não ter sido financiado ou apoiado / The author have no support or funding to report.

Disponibilidade de Dados de Pesquisa:

Não se aplica.

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Editado por

  • Editores do artigo/Editors:
    Paulo Antonio de Campos Beer, Caio Padovan

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    22 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    12 Ago 2025
  • Aceito
    11 Nov 2025
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