Resumo
O artigo tem por objetivo examinar o início do tratamento das toxicomanias à luz da psicanálise freudiana e lacaniana, destacando os desafios específicos da clínica com usuários de drogas, tanto no consultório particular quanto em contextos institucionais. Defende que o uso de drogas não é um fenômeno homogêneo, mas adquire diferentes funções conforme a estrutura subjetiva (neurose, psicose ou perversão). A entrada em análise exige entrevistas preliminares que possibilitem o diagnóstico diferencial e a construção do vínculo transferencial. Aborda também a importância da temporalidade lógica nesta clínica, o papel da transferência marcada por atuações e a função do pagamento como cessão de gozo mesmo nos serviços públicos. Por fim, propõe uma direção do tratamento que privilegia a singularidade do sujeito frente às soluções universalizantes.
Palavras-chave:
Toxicomanias; entrevistas preliminares; transferência; diagnóstico
Abstract
This study aims to examine the beginning of treatment for addiction in the light of Freudian and Lacanian psychoanalysis, highlighting the specific challenges of clinical work with drug users in private practice and institutional contexts. It argues that drug use - rather than a homogeneous phenomenon - takes on different functions depending on subjects’ structure (neurosis, psychosis, or perversion). Entry into analysis requires preliminary interviews that enable differential diagnosis and the construction of the transference bond. This study also addresses the importance of logical temporality in this clinic, the role of transference marked by actions, and the function of payment as a renunciation of jouissance even within public services. Finally, it proposes a treatment direction that privileges the subject’s singularity over universalizing solutions.
Keywords:
Drug addictions; preliminary interviews; transference; diagnosis
Resumen
Este artículo tiene como objetivo examinar el inicio del tratamiento de las toxicomanías a la luz del psicoanálisis freudiano y lacaniano, con foco en los desafíos específicos de la clínica con usuarios de drogas, tanto en la consulta privada como en contextos institucionales. Defiende que el uso de drogas no es un fenómeno homogéneo, sino que adquiere diferentes funciones según la estructura subjetiva (neurosis, psicosis o perversión). La entrada en análisis requiere entrevistas preliminares que posibiliten el diagnóstico diferencial y la construcción del vínculo transferencial. También aborda la importancia de la temporalidad lógica en esta clínica, el papel de la transferencia marcada por actuaciones y la función del pago como cesión de goce incluso en los servicios públicos. Finalmente, propone una dirección del tratamiento que privilegia la singularidad del sujeto frente a las soluciones universalizantes.
Palabras-clave:
Toxicomanías; entrevistas preliminares; transferencia; diagnóstico
Abstract
Cet article vise à examiner le début du traitement des toxicomanies à la lumière de la psychanalyse freudienne et lacanienne, en soulignant les défis spécifiques posés par la clinique des usagers de drogues, tant en cabinet privé que dans les contextes institutionnels. Il soutient que l’usage de drogues n’est pas un phénomène homogène, mais qu’il acquiert différentes fonctions selon la structure subjective (névrose, psychose ou perversion). L’entrée en analyse requiert des entretiens préliminaires permettant le diagnostic différentiel et la construction du lien transférentiel. Il aborde également l’importance de la temporalité logique dans cette clinique, le rôle du transfert marqué par des actions et la fonction du paiement comme cession de jouissance, même dans les services publics. Enfin, il propose une oeirentation du traitement qui privilégie la singularité du sujet face aux solutions universalisantes.
Mots-clés:
Toxicomanies; entretiens préliminaires; transfert; diagnostic
No Brasil, a política de saúde mental, orientada pela Reforma Psiquiátrica, estabeleceu os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) como dispositivos centrais na rede de cuidados, buscando substituir o modelo hospitalocêntrico e manicomial. Dentre eles, os Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPSad) se dedicam especificamente ao tratamento de pessoas com problemas decorrentes do uso de álcool e outras drogas. A inserção de psicanalistas nesses serviços públicos coloca em jogo a ética da psicanálise, grifada pela escuta da singularidade, pela aposta no sujeito do inconsciente e pela recusa à segregação, em uma situação atravessada por demandas institucionais, protocolos da saúde pública e, não raro, por uma lógica que prioriza a normatização e a obtenção de resultados mensuráveis, como a abstinência (Torres & Vidal, 2020).
A psicanálise de orientação lacaniana aborda o uso problemático de drogas não como uma entidade nosológica fixa ou um transtorno comportamental específico, mas como manifestações clínicas, cuja compreensão exige ir além das descrições fenomenológicas ou das classificações psiquiátricas. E é por este motivo que se escolhe o uso no plural: as toxicomanias indicam diferentes fenômenos em diferentes estruturas clínicas.
As toxicomanias caracterizam-se pela predominância da droga na dinâmica subjetiva. Se a experiência humana é constituída pela falta do objeto de satisfação plena, o objeto-droga ocupa um lugar central como tentativa de fixação do objeto da falta, muitas vezes eclipsando outras formas de satisfação e de produção de laço social: “Na análise o objeto é um ponto de fixação imaginário dando, em qualquer registro que seja, satisfação a uma pulsão” (Lacan, 1959--60/2008, p. 143). A abordagem lacaniana situa essa predominância no campo do gozo como efeito da satisfação paradoxal da pulsão remetida ao mais além do princípio do prazer. A droga se torna um objeto elevado à necessidade que tenta desembaraçar-se da demanda introduzida pela linguagem (Lacan, 1960/1998e).
Lacan (1975) definiu a droga como o que permite o rompimento com o falo enquanto significante ordenador do gozo na lógica sexual. Essa ruptura aponta para uma tentativa de aceder a um gozo Outro, um gozo que prescindiria da mediação simbólica e da castração, situando-se fora do discurso e aproximando-se de uma satisfação autoerótica ou até autística. A droga emerge, deste modo, como um mais-gozar particular, um objeto produto da ciência, que o sujeito utiliza na tentativa de tamponar o mal-estar inerente à sua condição de ser falante e desejante por meio de uma satisfação direta no corpo (Torres, 2023).
Contudo, a clínica psicanalítica, especialmente com sujeitos psicóticos, revelou uma complexidade que tensiona a premissa inicial de Lacan. O uso de drogas, em determinados casos, não atua como um rompimento com o gozo fálico, mas pode funcionar justamente como um recurso para recompor uma função fálica fragilizada no sujeito. Dessa forma, pode contribuir para que ele encontre uma posição em um discurso, estabeleça uma identificação, ocupe um lugar em uma parceria sintomática ou mesmo se insira em um laço social. A droga não necessariamente conduz ao excesso devastador do gozo corporal; ao contrário, pode funcionar como um elemento que impõe certa limitação ao gozo (Siqueira & Darriba, 2020).
A complexidade das toxicomanias se revela ao analisarmos o efeito da droga nos três registros: Real, Simbólico e Imaginário (RSI). As toxicomanias evidenciam a dimensão do Real do gozo. A droga funciona como um objeto real que incide diretamente sobre o corpo para produzir uma satisfação imediata que prescinde da mediação simbólica. E, neste sentido, é possível incluir os remédios psiquiátricos, cada vez mais difundidos no contemporâneo. O desafio na clínica da toxicomania reside justamente na dificuldade de fazer a droga advir como significante, passível de ser elaborada pela palavra (Torres & Vidal, 2023).
Cabe ressaltar que não há uma teoria hegemônica sobre as toxicomanias na psicanálise de orientação lacaniana, mas uma pluralidade de leituras. Conforme aponta a literatura, essa diversidade resulta do uso de diferentes conceitos do ensino de Lacan aplicados ao fenômeno, bem como a diversidade de experiência clínica a partir da inserção de psicanalistas em diferentes instituições. Partindo da experiência clínica no campo da saúde mental, este artigo se alinha, portanto, a uma leitura pós-lacaniana que, apoiada em autores como Laurent (2012) e Miller (2023), amplia a hipótese inicial da droga como ruptura com o gozo fálico para investigar também sua função paradoxal como suplência ou parceria.
Inspirado nas formulações de Freud em “Sobre o início do tratamento” (1913/2010a) e aprofundado pelas contribuições da psicanálise de orientação lacaniana, este artigo propõe discutir os impasses e condições que marcam a entrada em análise de sujeitos emaranhados com a questão da droga. A contar da experiência acumulada em contextos clínicos e institucionais de atendimento a usuários de drogas, este trabalho busca articular essas contribuições teóricas com a prática contemporânea, abordando as funções das entrevistas preliminares, a importância do diagnóstico estrutural, os impasses transferenciais e a função simbólica do dinheiro na direção do tratamento.
Entrevistas preliminares e a sondagem inicial
O período que antecede a entrada formal em análise, denominado por Freud (1913/2010a) como “tratamento experimental” ou “sondagem”, assume, na perspectiva lacaniana, uma função lógica e estratégica fundamental, especialmente na clínica das toxicomanias, onde o endereçamento da demanda e o estabelecimento do laço transferencial apresentam desafios particulares. As entrevistas preliminares são um tempo necessário para “conhecer o caso e decidir se ele é apropriado para a psicanálise” (p. 76). O objetivo era duplo: por um lado, realizar uma pesquisa para construção de um diagnóstico diferencial, buscando discernir principalmente entre neurose e psicose para evitar erros práticos e desacreditar o método analítico; por outro, poupar o paciente da “impressão aflitiva de uma tentativa de cura que falhou” (p. 76), caso o tratamento não prosseguisse. Freud enfatizou que esse experimento preliminar já constituía o início de uma psicanálise e deveria conformar-se às suas regras. A técnica indicada era deixar o paciente falar livremente, intervindo o mínimo possível, apenas “o absolutamente necessário para fazê-lo prosseguir no que está dizendo” (p. 76). O foco recaía na escuta atenta para extrair os elementos necessários ao diagnóstico e avaliar as condições para o engajamento no processo analítico.
A psicanálise lacaniana radicaliza a função das entrevistas preliminares, concebendo-as não apenas como um tempo de avaliação diagnóstica, mas como um tempo lógico crucial para a retificação subjetiva e a instauração da transferência. Segundo Costa (2022), em função da atemporalidade do inconsciente, não se pode estabelecer um tempo pré-definido para essas entrevistas. Além disso, o momento inicial do tratamento possui um valor fundamental por suscitar a formulação de hipóteses diagnósticas que orientam intervenções e interpretações dos fenômenos patológicos e transferenciais. Do que se apreende da relação do sujeito com o Outro, com sua conjuntura social e com suas formas privilegiadas de satisfação pulsional frente à castração, mapeiam-se elementos relevantes para a direção do tratamento. Dessa maneira, mesmo nas etapas iniciais, a prática clínica é formalizada e justificada pela evidência do valor investigativo do trabalho clínico.
Na clínica das toxicomanias, essa fase se reveste das particularidades de avaliar o modo de endereçamento do sujeito ao analista e as especificidades da construção da transferência para chegar à função da droga. É fundamental investigar a natureza da demanda inicial. Seja no consultório ou na recepção de um dispositivo de saúde mental, cabe atentar para a pergunta: o sujeito chega por iniciativa própria, pressionado pela família, pela justiça, ou encaminhado por outra instituição?
Frequentemente, o pedido inicial não é de análise, mas de alívio imediato, de controle do uso ou de satisfação de necessidades básicas. O trabalho do clínico consiste em realizar uma torção neste endereçamento para transformá-lo em uma queixa ou em um pedido dirigido a um Outro (muitas vezes encarnado na instituição) e, finalmente, em uma demanda que ultrapasse o saber químico. Aposta-se na produção de um saber sobre o próprio gozo, endereçado ao analista, pois é essa elaboração que constitui a condição para a emergência de um sujeito implicado em sua própria questão (Beneti, 2014).
As entrevistas preliminares são o tempo privilegiado para que a transferência possa se esboçar e se instalar. Lacan (1967/2003a) enfatiza que a entrada em análise só ocorre com o estabelecimento do Sujeito Suposto Saber, ou seja, quando o analisando supõe que o analista detém um saber sobre a causa de seu sofrimento: “o eixo a partir do qual se articula tudo o que acontece com a transferência, cujos efeitos escapam quando, para apreendê-los, faz-se uma pinça com o desajeitado pun que vai da necessidade de repetição à repetição da necessidade” (p. 253).
A análise só se sustenta pela presença de um elemento ternário: o significante introduzido no discurso, nomeado como Sujeito Suposto Saber, que emerge como uma formação inspirada e destacada do próprio analisante. Nas toxicomanias, em que a relação com o Outro é comumente assinalada pela desconfiança ou pela exigência de uma satisfação imediata, esse estabelecimento é delicado. O analista, através de sua escuta e de seus atos, busca pinçar no discurso do sujeito um significante particular (S₁) que possa fazer laço com o analisando para que o primeiro passe a ser incluído em sua economia psíquica. É um trabalho de fazer advir o analista como um parceiro possível, distinto da droga.
É necessário partir da questão: qual função a droga ocupa para aquele sujeito naquele momento? É ela o parceiro exclusivo que obtura a falta e impede o laço com o Outro? É uma tentativa de automedicação para um mal-estar insuportável? É um modo de gozo que rompe com os ideais? Ou, no caso da psicose, uma tentativa de estabilização? A droga recorrentemente satura o campo subjetivo, dificulta o endereçamento ao analista e o encadeamento dos significantes. Deve-se lembrar que o sujeito se constitui pela falta, sendo ele próprio o que falta ao Outro; do mesmo modo que emerge no deslizamento da cadeia significante, pois o significante é o que significa o sujeito para outro significante (Lacan, 1960/1998e). A escuta visa localizar essa função para além do fenômeno do consumo.
Outra questão crucial que surge das entrevistas preliminares é a da abstinência. É comum o tratamento começar pelo pedido de interrupção do uso da droga, seja pelo sujeito, por sua família ou por uma instituição. Existe uma contradição interna no tratamento tradicional ao uso de drogas: exige-se que o sujeito pare de usar droga para aderir ao tratamento. No entanto, a abordagem psicanalítica adverte contra a imposição da abstinência como condição a priori para o tratamento.
O uso da droga, como apontado por Laurent (2012), muitas vezes exerce função de formação de ruptura com o sintoma neurótico e com a fantasia que enquadra o gozo. A droga impulsiona o sujeito a um campo de gozo ilimitado, fora da mediação simbólica. Exigir a abstinência no início, antes que a função dessa ruptura seja minimamente compreendida e que um laço transferencial esteja estabelecido, arrisca agir na mesma lógica imperativa e superegoica que muitas vezes sustenta o próprio ciclo toxicomaníaco de recaídas. O Supereu, em sua vertente feroz, ordena “Goza!”, e a exigência externa de “Não use!” pode funcionar como o avesso especular desse mesmo imperativo, mantendo o sujeito em uma posição de submissão a um gozo comandado pelo Outro, seja ele a droga ou o ideal de abstinência.
Tomar a abstinência como fim em si mesma, desvinculada da singularidade do caso, impede a possibilidade de construção de um sintoma no sentido analítico. O sintoma é uma construção singular do sujeito, uma formação de compromisso, uma cifra de gozo que porta um saber inconsciente e que pode ser decifrada na análise (Lacan, 1960-61/2010). O uso de drogas, ainda que não seja um ato sintomático em si, pode tornar-se um sintoma no sentido analítico. A abstinência imposta pode curto-circuitar esse processo, substituindo o gozo da droga por um outro gozo, o gozo de obedecer, de se privar para o Outro, sem que haja elaboração subjetiva (Torres & Vidal, 2020).
A questão central que se impõe é: “Abstinência de quem?”. Seguindo a indicação freudiana, a abstinência deve ser considerada em dois níveis: por um lado, como uma exigência ética dirigida ao analista, que deve conter seu furor sanandi; por outro, como uma condição que implica o paciente, cujos pedidos devem permanecer frustrados e insatisfeitos para aceder ao encontro com o desejo que se manifesta nas formações do inconsciente. Na clínica das toxicomanias, essa postura ética precisa ser constantemente atualizada, caso a caso. Para que a abstinência adquira valor analítico, ela deve provir como ato do sujeito, vinculado à transferência e ao seu desejo de saber; e não como mera obediência a uma imposição externa ou superegoica. Isto posto, o manejo clínico nas entrevistas preliminares deve priorizar a instalação da transferência e a retificação subjetiva, em vez de se pautar por uma exigência imediata de abstinência.
Diagnóstico diferencial estrutural nas toxicomanias
A abordagem psicanalítica lacaniana do diagnóstico distancia-se radicalmente das classificações fenomenológicas ou comportamentais predominantes em outros campos do saber, como a psiquiatria. Em vez de categorizar a toxicomania como um transtorno específico, a psicanálise busca situar o fenômeno do uso de drogas no quadro mais amplo da estrutura clínica do sujeito. A questão diagnóstica fundamental não é se o sujeito usa drogas, mas como esse uso se articula com sua posição singular frente à linguagem, ao Outro e à castração (Torres, 2023).
Historicamente, a toxicomania foi associada a diferentes categorias diagnósticas, como a perversão (por causa da fixação patológica em um objeto), a neurose (identificada pela compulsão associada à insatisfação) ou mesmo a psicose (como ruptura com a realidade). No entanto, a psicanálise propõe um diagnóstico diferencial estrutural, baseado nos diferentes modos de negação da castração e de inscrição do sujeito na ordem simbólica, tal como formalizados por Lacan desde Freud: o recalque (Verdrängung), próprio da neurose; o desmentido (Verleugnung), característico da perversão; e a foraclusão (Verwerfung) do Nome-do-Pai, que define a psicose (Moreira & Teixeira, 2018).
A toxicomania, enquanto fenômeno, pode manifestar-se em qualquer uma dessas três estruturas, mas sua função e significação são radicalmente distintas em cada caso. O diagnóstico psicanalítico exige, portanto, ir além da superfície dos sintomas observáveis para investigar a lógica subjacente que organiza a relação do sujeito com o gozo e com o Outro. A clínica contemporânea, com suas apresentações sintomáticas muitas vezes fluidas e atípicas, como os chamados “novos sintomas” e as psicoses ordinárias, desafia a aplicação rígida das categorias estruturais clássicas (Laurent, 2014). Autores como Miller (2005) propuseram novas ferramentas conceituais, como a “clínica dos nós” e a atenção aos “índices discretos” de psicose, para abordar esses casos “inclassificáveis”. A investigação minuciosa da função que a droga desempenha na economia psíquica do sujeito torna-se crucial para o diagnóstico diferencial.
O diagnóstico diferencial, por consequência, não é um exercício classificatório estéril, mas uma bússola essencial para a direção do tratamento. Em aspectos gerais, na neurose, o trabalho visará dialetizar a relação do sujeito com a falta e o desejo para incitar a construção de um sintoma analítico para o tratamento do gozo (Fattore, 2024); nas psicoses, a direção será a de identificar e, eventualmente, sustentar ou auxiliar na construção de suplências (delirantes, imaginárias, ou mesmo o uso controlado da droga) que permitam ao sujeito estabilizar-se frente a um gozo não localizado pelo significante fálico (Mendonça & Rosa, 2020); na perversão, a direção será de questionar as posições de gozo da divisão do sujeito vividas na fantasia perversa na tentativa de encarnar o objeto a para completar o Outro e acessar gozo pleno (Pena & Guerra, 2023).
Apresentam-se, a seguir, algumas hipóteses sobre como a toxicomania pode se manifestar e que função pode adquirir em cada uma das três grandes estruturas clínicas.
O neurótico, dividido pelo recalque da castração e pela demanda endereçada ao Outro, pode recorrer à droga por diferentes vias, o neurótico “paga com seu sintoma para conservar o seu próprio desejo” (Geraldo & Dias, 2021, p. 8), e a análise buscaria talhar a renúncia ao gozo do sintoma para aceder a esse desejo. Na histeria, o uso de drogas pode ser compreendido como um apelo dirigido ao Outro, uma tentativa de suscitar sua presença e obter uma resposta. A substância, principalmente quando falta enquanto um objeto, presentifica a insatisfação estruturante do desejo histérico. Em certos casos, o consumo de drogas proporciona um meio de provocar o desejo do Outro ou de se apresentar como objeto desse desejo, inclusive funcionando como uma convocação que mobiliza a rede de relações, muitas vezes sendo justamente a insistência de um familiar ou parceiro que conduz o sujeito à demanda de tratamento.
Na neurose obsessiva, tendo em vista a compulsoriedade de uma resposta à injunção de gozo do Supereu, uma tentativa de controlar ou transgredir a lei paterna internalizada, ou uma forma radical de anular o desejo e a dúvida que o atormentam. A droga oferece uma satisfação direta que encerra os labirintos do pensamento obsessivo. Não é incomum o uso de drogas ser organizado ao redor de um ritual muito bem estabelecido. No mesmo sentido, o movimento de adesão e abandono de tratamento também atualiza o caráter ritualístico da posição subjetiva do obsessivo em sua tentativa de destruição do desejo, pois “O obsessivo é muito essencialmente alguém que é penso. Ele é penso avaramente. Ele é penso em circuito fechado. Ele é penso para si mesmo” (Lacan, 1975, p. 14; grifo no original)
Na fobia, o sujeito insere um objeto, que funciona mais como símbolo do que como significante, entre S₁ e S₂ para evitar o desaparecimento na operação simbólica em que o sujeito é representado por um significante para outro. Diante da angústia provocada pela ausência de coordenadas no Outro, o símbolo fóbico é posicionado para tamponar o buraco deixado entre os significantes, ocupando o lugar destinado ao desejo e impedindo, assim, o aniquilamento subjetivo na simbolização (Brillaud, 2023). A droga pode estar a serviço da fobia no sentido de evitar o desejo e, consequentemente, a angústia.
Nas psicoses, em função do Nome-do-Pai não ter sido inscrito, o sujeito encontra-se invadido por um gozo não balizado pela castração, muitas vezes no lugar de objeto do gozo do Outro. A droga pode incidir, nesse cenário, de múltiplas formas. Para a esquizofrenia, o uso da substância permite uma tentativa de regulação do invasivo pulsional para aplacar a angústia de fragmentação corporal ou de dar alguma consistência a um corpo vivido como despedaçado. Na paranoia, o recurso pode ser de localização do gozo oriundo do delírio persecutório ao construir um sentido atribuído à droga, reduzindo o estranhamento intrínseco ao delírio (Torres & Vidal, 2023). Já na mania, a droga se insere como fixação em um objeto frente ao sujeito que desaparece na cadeia metonímica infinita; e, na melancolia, pode ser o movimento de anulação radical, de consumação do sujeito como objeto-dejeto (Brillaud, 2023).
Por fim, o perverso, pelo mecanismo do desmentido (Verleugnung), recusa a castração no Outro e se posiciona como instrumento para realizar o gozo desse Outro. A droga pode se inserir nessa lógica como um objeto fetichista, ou seja, um objeto indispensável e condicional para o acesso ao gozo que se pretende pleno ou, no binômio masoquismo/sadismo, a droga pode funcionar como instrumento de infligir sofrimento ou exercer dominação e submissão sobre o outro para buscar um gozo absoluto enquanto gozo do Outro (Pena & Guerra, 2023).
Um ponto que se deve estar atento na avaliação do diagnóstico estrutural é a função da droga para o sujeito na relação com o Outro e com o gozo do corpo, que deve ser realizada em transferência.
A transferência no início do tratamento nas toxicomanias
A transferência, definida por Freud (1913/2010a) como o motor da análise e, simultaneamente, sua maior resistência, apresenta contornos particularmente complexos e desafiadores na clínica com sujeitos toxicômanos. A relação prévia e intensa com o objeto-droga e as particularidades da relação com o Outro nessa clínica impõem obstáculos e exigem um manejo cuidadoso desde as primeiras entrevistas.
Freud (1913/2010a) compreendeu a transferência como a reedição, na figura do analista, de protótipos e clichês infantis, mobilizando tanto sentimentos ternos (transferência positiva) quanto hostis (transferência negativa). A faceta de resistência ocorre quando tais sentimentos interrompem a associação livre. Com isso, Freud adverte contra a comunicação prematura de interpretações antes que uma transferência eficaz esteja estabelecida, pois isso pode levar ao aumento da resistência e ao abandono do tratamento.
O passo seguinte, a ser dado com o estabelecimento da transferência, é sustentar qual a função da droga em relação ao desejo inconsciente: o desejo, concebido como metonímia da falta-a-ser, manifesta-se pelo encadeamento contínuo de significações, uma vez que não existe uma significação última, fechada em si mesma. Ele se estrutura justamente nesse deslizamento metonímico, no qual cada sentido remete a outro, produzindo como resultado um “pouco de sentido” que, no entanto, revela-se como seu fundamento, pois o “desejo só faz sujeitar o que a análise subjetiva” (Lacan, 1958/1998d, p. 629).
A transferência é necessária para questionar o desejo porque presentifica uma dimensão da angústia intrínseca ao desejo. Diante de um ponto de opacidade do desejo do Outro e de intensa angústia, torna-se evidente a importância da transferência como enquadre necessário para que o desejo suscitado pela pergunta do analista não transborde para a atuação. O sintoma torna-se interpretável na medida em que a transferência se instala; antes disso, o acting out pode ser entendido como o início de uma transferência ainda não simbolizada - uma “transferência selvagem” (Lacan, 1962-63/2005). Quando a angústia emerge de forma avassaladora, a atuação aparece como defesa frente a essa irrupção. É importante destacar que a angústia é uma modalidade de comunicação compartilhada entre o sujeito e o Outro; para que as atuações possam ser lidas como mensagem endereçada, é necessário que quem ocupa o lugar do Outro o reconheça como tal.
Na clínica das toxicomanias, o estabelecimento e o manejo da transferência enfrentam obstáculos específicos. A própria construção do laço transferencial se mostra dificultada, uma vez que o investimento libidinal maciço no objeto-droga faz dele o parceiro privilegiado, deixando pouco espaço para o analista. A relação do toxicômano com a droga pode ser apreendida, num primeiro nível, como uma parceria autoerótica com um semblante de objeto a. Nessa lógica, a substância funciona como um objeto que promete, ilusoriamente, tamponar a falta estrutural. Essa parceria, muitas vezes de caráter cínico, representa uma tentativa de organizar o gozo através de uma nova nominação do sintoma (Ferreira, 2018).
Contudo, a “teoria do parceiro” de Miller (2023) propõe uma análise mais radical que nos permite ir além da fenomenologia do uso da substância. A parceria aqui não seria com um semblante, mas com o próprio Real do mais-de-gozar. Nessa perspectiva, as toxicomanias se apresentam menos como uma nova forma de sintoma e mais como um “anti-amor”. Se o amor é o que tenta construir um laço com o Outro para velar a não-relação sexual, o anti-amor é a estratégia que visa curto-circuitar essa necessidade de um parceiro-sintoma. Trata-se de uma solução de solidão que estabelece um laço direto e assexuado com o gozo, prescindindo da mediação do Outro. A droga oferece uma satisfação imediata que a relação transferencial, marcada pela falta e pela espera, dificilmente se iguala. Por isso, o primeiro desafio é criar um lugar para o analista na economia psíquica do sujeito e produzir novas parcerias.
Uma marca recorrente é a manifestação da transferência predominantemente sob a vertente negativa com traços de desconfiança, hostilidade e ataques à pessoa do analista. Alternativamente, pode aparecer uma demanda de colorido superegoico, em que o analista é idealizado e colocado no lugar de um salvador onipotente ou de um juiz severo, encarregado de impor a lei e a abstinência. Neste sentido, observa-se que a multiplicação de ofertas de tratamento para usuários de drogas, como grupos de autoajuda, internações compulsórias e comunidades terapêuticas religiosas, parece basear-se na lógica de reforço da culpa como uma das atribuições do Supereu, ao promover a inclusão forçada dos sujeitos em discursos totalizantes que desconsideram sua singularidade e impõem a abstinência como norma: “saber totalitário como agenciamento de discurso dirige-se justamente ao objeto a como produtor de novos sujeitos descartáveis ao laço social” (Bezerra & Darriba, 2020, p. 215)
Dada a dificuldade de simbolização e a primazia do ato nas toxicomanias, a transferência muitas vezes se expressa por meio de atuações (acting out). Faltas às sessões, recaídas estrategicamente situadas antes ou depois das sessões, uso de drogas no consultório ou instituição, provocações, testagem dos limites do analista e da instituição, e abandono abrupto do tratamento são manifestações comuns. Entretanto, pode-se apostar que o acting out manifesta-se como um apelo, pois “clama pela interpretação” (Lacan, 1962-63/2005, p. 140). Enquanto o sintoma pode ser interpretado no enquadre da transferência estabelecida, a atuação seria o início dessa dinâmica, funcionando como uma “transferência selvagem” e o manejo dessa transferência exige do analista a sustentação de uma posição que suscite o ato e dê abertura para elaboração pela palavra “no âmbito psíquico” (Freud, 1915/2010b, p. 220).
As atuações, embora disruptivas, não devem ser vistas apenas como mera resistência, mas como mensagens endereçadas ao analista passíveis de tornarem-se um enigma. Elas indicam a presença de um Real que não encontra via de simbolização. Por isso, o manejo implica não responder no mesmo nível (com repreensão ou término do tratamento, por exemplo), mas tentar escutar o que o ato busca dizer para reintroduzir a dimensão da palavra e da implicação subjetiva.
Paradoxalmente, o analista deve estar atento ao surgimento de uma demanda insistente por interpretações e soluções rápidas, expressando uma busca por um saber imediato que replica a lógica da satisfação instantânea proporcionada pela droga. Atender a essa demanda, como já advertiu Freud, tende a ser contraproducente. Com o fortalecimento da transferência, o analista pode ocupar, progressivamente, o lugar anteriormente destinado à droga, o que explica o surgimento dessa expectativa de satisfação e o recrudescimento de aspectos imaginários da transferência. Esse deslocamento, contudo, reduz a intensidade libidinal do vínculo com a substância e possibilita a transferência do investimento erógeno para a relação analítica (Silva & Cremasco, 2010).
Isto nos leva à reflexão sobre a posição do analista, que na perspectiva lacaniana não se reduz a um Outro que sabe ou que satisfaz a demanda - ainda que o Sujeito Suposto Saber seja importante para o início do tratamento -, mas a de semblante de objeto a, causa do desejo. Compreende-se que o deslocamento do investimento libidinal só é possível quando a direção do tratamento é sustentada pelo desejo do analista, um desejo opaco, que se apresenta como enigma. Esse desejo, ao retornar ao analisante na forma da pergunta Che Vuoi?, promove o deslizamento dos significantes e permite que o analista se sustente como semblante. Para Lacan (1971/2009), a função primária da verdade reside na maneira como o semblante se coloca no lugar daquilo que ele é. Ao resguardar esse lugar de vazio, de falta, o analista permite que a demanda do sujeito possa se descolar da necessidade imperiosa da droga e se articular como enigma sobre seu desejo e seu gozo. É a partir desse lugar que a transferência pode ser motor da análise.
A recomendação freudiana de aguardar a instalação da transferência antes de realizar intervenções significativas, “para assegurar isto, nada precisa ser feito, exceto conceder-lhe tempo” (Freud, 1913/2010a, p. 86), visa permitir que o sujeito invista no analista e no dispositivo analítico. As entrevistas preliminares configuram esse tempo lógico fundamental para a consolidação do laço transferencial.
A dimensão temporal na clínica das toxicomanias
Freud (1913/2010a), em sua prática e em seus escritos sobre a técnica, administrava a sessão predominantemente com o tempo cronológico. Ele estabelecia uma hora fixa para cada paciente, responsabilizando-o por esse tempo, mesmo em caso de ausência, como forma de lidar com as resistências e garantir a continuidade do trabalho. Alertava para as consequências negativas das interrupções, mesmo breves, e admitia a necessidade de sessões diárias em certos casos. Quanto à duração do tratamento, Freud era cauteloso, comparando a pergunta do paciente à do caminhante da fábula de Esopo e respondendo “Caminha!”, indicando que a duração dependeria do “passo” do paciente (p. 79). Ele reconhecia que a psicanálise demandava longos períodos, devido à “lentidão com que se realizam as mudanças profundas na mente” e à “atemporalidade” dos processos inconscientes (p. 80).
Lacan (1945/1998a) promoveu uma subversão dessa concepção cronológica ao introduzir a noção de tempo lógico na condução das sessões. Inspirado em seu escrito “O tempo lógico e a asserção da certeza antecipada”, o psicanalista francês postulou que a duração da sessão não deveria ser fixada pelo relógio, mas modulada pelo próprio movimento do discurso do analisando e pela intervenção do analista. O tempo lógico se desdobra em três momentos: o instante de ver (o momento da percepção ou do impasse), o tempo para compreender (o período de elaboração, de construção de hipótese e de associação) e o momento de concluir (o ato que precipita uma certeza ou uma decisão).
A técnica lacaniana do corte da sessão atinge justamente essa temporalidade lógica: a interrupção da sessão pelo analista em um momento significativo visa sublinhar um significante crucial, escandir o discurso, interromper um gozo ou precipitar uma conclusão no sujeito, operando sobre o tempo do inconsciente. A experiência subjetiva não é organizada linearmente, pelo contrário, é na escansão entre um significante e outro que o sujeito emerge. Entende-se o inconsciente estruturado como linguagem enquanto abertura e fechamento (Lacan, 1960/1998e).
A clínica das toxicomanias habitualmente se desenrola sob o signo da urgência subjetiva. Overdoses, crises de abstinência, acting outs violentos, ideação suicida são manifestações que irrompem de forma abrupta, colocando o sujeito e a equipe em estado de alerta. O modelo do tempo lógico oferece uma ferramenta conceitual valiosa para pensar a intervenção nesses momentos críticos. Muitas vezes, o sujeito na urgência encontra-se fixado no “instante de ver”, paralisado pela angústia ou impelido a um ato sem elaboração. A intervenção analítica, seja pelo corte da sessão ou de outras táticas que introduzam uma pausa, uma escansão na cadeia significante, pode abrir um tempo para compreender (Leitão, Leite, Costa & Matos, 2023).
Esse tempo é fundamental para que o sujeito possa iniciar o trabalho de simbolização do que irrompeu como Real traumático e endereçar alguma palavra sobre o inominável. A elisão desse tempo de elaboração leva ao curto-circuito, à repetição do ato ou à cronificação do padecimento. O manejo do tempo pelo analista visa colher uma passagem da perplexidade da urgência para a construção de um enigma, de uma questão que possa ser trabalhada simbolicamente para que a urgência seja subjetivada e não apenas sofrida passivamente como objeto do Outro.
A dimensão temporal está intrinsecamente ligada à transferência e ao ato interpretativo. O tempo lógico da sessão, manejado pelo analista, permite inculcar no kairós, isto é, no momento oportuno em que a emergência de um significante ou a vacilação do sujeito abre uma brecha para a intervenção. A noção de kairós, com sua polissemia, aponta para a complexidade de se definir o momento oportuno de uma intervenção analítica. Com Lacan, articula-se esse instante oportuno diretamente à interpretação, compreendida como uma pontuação singular capaz de fazer surgir sentido pelo não sentido das associações do analisante, pontuação que escande ou mesmo suspende a sessão, valendo-se da ambiguidade, da alusão e do silêncio (Châtelet, 2023).
No entanto, a pressa em interpretar continua sendo um erro técnico crucial. O corte da sessão pode sublinhar um dito, mas a interpretação que visa desvelar uma significação inconsciente só tem efeito se o sujeito estiver próximo de alcançá-la por si mesmo: “tem-se de ter cuidado em não fornecer ao paciente a solução de um sintoma ou a tradução de um desejo até que ele esteja tão próximo delas que só tenha de dar mais um passo para conseguir a explicação por si próprio” (Freud, 1913/2010a, p. 86).
Nas toxicomanias, em que a relação com o tempo é influenciada pela busca da satisfação imediata, a modelagem artesanal e paciente da temporalidade pelo analista é ainda mais essencial para introduzir uma outra lógica, a do tempo do desejo e da elaboração. O tempo para compreender não é apenas do sujeito, mas também do analista, que precisa escutar e construir sua hipótese antes de intervir: “é uma pontuação oportuna que dá sentido ao discurso do sujeito” (Lacan, 1953/1998b, p. 253).
A gestão do tempo pelo analista conecta-se também à questão da abstinência e ao posicionamento ético do analista. Lacan (1973/2003b) utiliza a metáfora do analista como um santo que pratica a “descaridade”: diferente da caridade, que oferece o que se tem, o analista não dá ao paciente o que ele demanda (amor, compreensão, soluções imediatas), mas se oferece como semblante de objeto a, objeto causa do desejo, resto do gozo para “permitir ao sujeito, ao sujeito do inconsciente, tomá-lo como causa de seu desejo” (p. 519). A temporalidade, por conseguinte, não é apenas um elemento externo, mas uma dimensão intrínseca à operação analítica que visa deslocar o sujeito da tirania do gozo imediato para o tempo próprio do desejo inconsciente.
A função do pagamento na análise das toxicomanias
A questão do pagamento ocupa um lugar teórico e clínico relevante na psicanálise. Sua função transcende a mera troca comercial ou de prestação de serviço, imiscuindo-se nas tramas transferenciais e na economia do gozo. Na clínica com toxicômanos, especialmente em contextos institucionais em que o pagamento direto costuma estar ausente, a condução dessa questão torna-se particularmente complexa.
Freud (1913/2010a) considerou o dinheiro não apenas como meio de autopreservação do analista e poder de sua autoridade, mas também como depositário de “poderosos fatores sexuais” (p. 81). Observou a semelhança entre o tratamento social dado ao dinheiro e ao sexo “com a mesma incoerência, pudor e hipocrisia” (p. 81) e propôs que o analista deveria abordar as questões financeiras com a mesma franqueza natural que buscava introduzir nas questões da vida sexual. Além disso, Freud (1917/2006a) estabeleceu a série de equivalências simbólicas inconscientes entre fezes, presente, bebê, pênis e dinheiro, todos remetendo, em última instância, à problemática da dádiva, da perda e da castração.
Lacan (1954-55/1985) retomou e aprofundou essa articulação ao situar o dinheiro na ordem simbólica, como um significante que, como qualquer outro, participa das trocas e dos equívocos do discurso. Ele relacionou o dinheiro à função fálica, o falo como significante do desejo e da falta que o causa, e ao objeto a, o resto inassimilável do gozo que causa o desejo. Sublinha-se, com Lacan, que o falo passa de um significante a uma das formas do objeto a articulado como semblante, para prestar-se enquanto função (Bonfim, 2022). O dinheiro, afinal, funciona como um ciframento do gozo, uma forma de quantificar e mediar o gozo nas relações sociais (Geraldo & Dias, 2021).
Lacan (1956/1998c) também o descreveu como “o significante mais aniquilador de toda significação” (p. 41), apontando para sua capacidade de reduzir a complexidade das relações a um valor numérico. A metáfora da “libra de carne” (Lacan, 1962-63/2005) evoca o gozo absoluto que o sujeito precisa pagar para se inscrever no campo do Outro e aceder ao desejo. Com estas observações, é possível indicar por que o pagamento se torna um complicador na clínica das toxicomanias. O gasto de todo o dinheiro no consumo da substância é uma ação recorrente entre usuários de drogas, que também serve como critério para a avaliação de prejuízos sociais por profissionais de saúde mental. Há uma perda do valor simbólico do dinheiro associado às tentativas de rompimento com o próprio registro do Simbólico. Com isto, o dinheiro não entra como um objeto representante da falta que concede alguma troca com o Outro. Ele se reduz ao meio de acesso ao objeto-droga e seu gozo.
A tendência de gastar todo dinheiro em droga dá alguma abertura de intervenção, pois institui alguma coisa da falta. Quando a droga acaba e o dinheiro falta, pode-se demandar alguma coisa. No entanto, é também um ponto de atenção para o risco de atuação por ser um momento que se impõe ao sujeito uma urgência que pode levá-lo ao roubo, à venda de objetos pessoais, à mentira, sempre associado a uma desvalorização do objeto.
Se a análise, como demonstra Lacan (1959-60/2008), requer necessariamente um pagamento, uma cessão de gozo por parte do analisando para poder aceder ao seu desejo, o entrevero radical nas toxicomanias de ceder esse gozo se manifesta na dificuldade de realizar o pagamento ao analista. Não é incomum o sujeito usar o dinheiro que deveria pagar a sessão para consumir a droga e, com isso, justificar sua ausência ou demandar do analista algum tipo de abono. Com isto, deve-se ficar atento ao acúmulo de sessões no sentido de uma dívida crescente ou da redução de seu valor. O ato de pagar pelo tratamento analítico possui repercussões que vão além da remuneração do analista. Freud (1913/2010a) recomendava o pagamento regular em intervalos curtos para evitar o acúmulo de dívidas ou de honorários muito baixos por produzir efeitos transferenciais negativos, seja pelo agravamento da severidade superegoica, seja pela desvalorização do tratamento aos olhos do paciente.
O pagamento monetário introduz uma perda de gozo que ajuda a regular a relação transferencial ao distanciar os efeitos imaginários da relação entre o Eu e o outro. Preserva-se, ainda, o analista de ser tomado como objeto de gozo ou de gozar de seu analisando. Lacan (1954-55/1985) ressalta que o dinheiro serve para neutralizar algo ainda mais perigoso do que o valor em si: o fato de “dever algo a alguém” (p. 257). O pagamento dá encaminhamento a essa dívida simbólica e libera o sujeito para realizar o trabalho analítico, isto é, produzir um saber sobre seu gozo. Nesse sentido, Freud (1913/2010a) desaconselhava veementemente o tratamento analítico gratuito. Argumentava que isto aumentava certas resistências, tais como a tentação erótica na transferência ou a oposição à gratidão ligada ao complexo paterno, afastava a relação do mundo real e privava o paciente de um forte motivo para se esforçar pelo fim do tratamento.
A prática da psicanálise em instituições públicas como o CAPSad, onde o tratamento é oferecido pelo Estado gratuitamente, ainda que subsidiado pelos impostos coletados, coloca um desafio significativo em relação à função simbólica do dinheiro. Como cotejar essa dimensão crucial da cessão de gozo e da implicação subjetiva quando a troca monetária direta está ausente?
A questão do pagamento nas instituições está intrinsecamente ligada à tensão entre o discurso do analista e o discurso do mestre que rege a instituição. O financiamento estatal e a gratuidade podem interpor-se na relação analítica, arriscando colocar o analista a serviço dos ideais do discurso do mestre - a busca pela norma, pela saúde mental como ideal universal, pela adaptação social - em detrimento da escuta da singularidade e da diferença absoluta de cada sujeito, que é o cerne do discurso analítico (Geraldo & Dias, 2021). A gratuidade pode obscurecer a noção de que a análise exige um preço a ser pago pelo sujeito, não obrigatoriamente em dinheiro, mas em termos de renúncia ao gozo e implicação no trabalho (Lacan 1959-60/2008). Ela pode reforçar as resistências mencionadas por Freud e alinhar o tratamento a uma lógica assistencialista ou de direito social que mascara a necessária implicação subjetiva.
A concessão de benefícios financeiros, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC), também pode gerar efeitos paradoxais. Embora visem garantir direitos, podem acabar por fixar o sujeito na posição de “incapaz” ou “deficiente”, o que atravanca a emergência de uma postura desejante e obnubila sua relação singular com o dinheiro, a falta e o trabalho. Do mesmo modo, a oferta desses benefícios, se não forem avaliados pela singularidade do caso, ainda que feita em nome do bem, pode jogar o sujeito em uma relação muito mais devastadora de gozo expresso pelo aumento do consumo às vias de overdose. Lacan (1966/2001) salienta que a medicina contemporânea é caracterizada pela oferta de “tickets de benefícios” (p. 10) produzidos pelos avanços científicos que tentam dar alguma resposta à demanda do sujeito. Porém, o que o paciente demanda não é necessariamente a cura, mas o reconhecimento de seu lugar de doente. Por isso, a escuta clínica deve-se orientar pela “estrutura da falha que existe entre a demanda e o desejo” (p. 10).
O enfrentamento dessa questão no CAPSad intima o analista a um ato clínico que sustente a dimensão da falta e a implicação subjetiva na produção de um saber sobre o gozo, mesmo na ausência do pagamento monetário. Isso pode envolver a introdução de outras formas de pagamento simbólico, como o compromisso com o horário e a presença em determinadas atividades. A ética da psicanálise se orienta, justamente, pela abstinência do lado do analista, que, ao não impor um ideal de cura como a abstinência total, cria as condições para que o sujeito possa operar sua própria cessão de gozo. Nesse sentido, tanto a redução do uso da droga quanto a abstinência, quando surgem como um ato do sujeito no curso do tratamento, podem ser lidas como manifestações dessa cessão, um resultado do trabalho em transferência. Na mesma direção, em situações em que o paciente aparece para a sessão e apresenta a droga para o analista, tal gesto pode prenunciar uma tentativa de pagamento simbólico pela abertura de mão de um gozo, associado a uma demanda muito específica endereçada ao Outro. Este é um argumento para pensar uma articulação entre a clínica e a política de Redução de Danos (Torres & Vidal, 2020).
Trata-se, então, em instituições públicas, de sustentar uma marcação clara do valor do tratamento e do espaço de escuta, estruturada a um esforço contínuo de tentar garantir a escuta da singularidade de cada caso e opor-se à homogeneização imposta pelo discurso institucional. O desafio é fazer valer a lógica do desejo, em contraponto à prevalência da lógica da necessidade e do direito. Para tal, é válido recorrer à proposta de Freud (1919/2006b) de que no tratamento institucional “a aplicação em larga escala da nossa terapia nos force a fundir o puro ouro da análise livre com cobre da sugestão direta” (p. 181), sem, no entanto, abandonar as diretrizes éticas da psicanálise em que “o tratamento analítico deve ser efetuado, na medida do possível, sob privação - num estado de abstinência” (p. 176).
Considerações finais
A análise do início do tratamento das toxicomanias, a partir de Freud e Lacan, revela um campo de grande complexidade, exigindo uma escuta orientada para a singularidade da relação do sujeito com o objeto-droga. Demonstrou-se que o uso da droga não é unívoco, mas funciona como uma parceria singular, cuja elucidação se inicia nas entrevistas preliminares. É nesse tempo que se torna possível a instalação da transferência, ainda que esta se manifeste de modo frágil, por meio de resistências e acting out. É precisamente nesse campo transferencial que o diagnóstico estrutural pode ser construído, não como um exercício classificatório, mas como a investigação da função da droga na relação do sujeito com o Outro e com o gozo.
A abstinência deve ser abordada com cautela, para não reforçar a lógica superegoica que impede a constituição de um sintoma analítico. Intervenções como o manejo do tempo pela escansão e a sustentação do analista como semblante de objeto a tornam-se fundamentais para deslocar o gozo dessa parceria autoerótica e possibilitar a simbolização e outros modos de tratamento do gozo. A função simbólica do pagamento, mesmo em instituições, é crucial por implicar o sujeito na renúncia pulsional. Esses elementos convergem para uma mesma conclusão: em oposição ao discurso dominante e suas soluções universais, a ética do tratamento nas toxicomanias consiste em sustentar as condições para a emergência de um sujeito desejante.
Este trabalho, longe de esgotar a temática, abre caminhos para pesquisas futuras que aprofundem a investigação sobre as novas configurações das toxicomanias na cultura contemporânea. Embora o estudo reconheça suas limitações, como o risco de ser superficial em alguns pontos, sua aposta reside em levantar tópicos que contribuam para a prática clínica e a produção teórica. Fica demarcada, assim, a necessidade de desenvolver estratégias clínicas mais refinadas no início do tratamento.
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Este artigo é parte da pesquisa “Os fundamentos da clínica e processos de subjetivação nos dispositivos da Rede de Atenção Psicossocial”, desenvolvida no Laboratório de Psicanálise e Laço Social da Universidade Federal Fluminense (LAPSO/UFF) e no Programa de Pós-Graduação em Estudos da Subjetividade (UFF).
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Financiamento/Funding:
O autor declara não ter sido financiado ou apoiado / The author has no support or funding to report.
Disponibilidade de Dados de Pesquisa:
O conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo não está disponível publicamente.
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Editores do artigo/Editors:
Paulo Antonio de Campos Beer, Wilson Franco
