O ano de 2020 comprovou que a evolução da ciência no último século foi capaz de transformar as ameaças causadas por microrganismos em um desafio possível de ser vencido. Na última pandemia que devastou o planeta, a pandemia de gripe em 1918, os melhores cientistas do mundo não conseguiram identificar o vírus, muitas medidas adotadas foram insuficientes e as tentativas de desenvolver uma vacina eficaz se mostraram inúteis. Nesta pandemia de COVID-19, um ano depois que os primeiros casos foram identificados na China, o compartilhamento de informações científicas, o aprimoramento de tecnologias e a utilização correta dos métodos científicos foram capazes de nos dar, em um período nunca visto na história, as primeiras vacinas contra a COVID-19 e a possibilidade de controlarmos a doença.
No entanto, não basta que como sociedade, tenhamos desenvolvido vacinas seguras e eficazes, é preciso que essas cheguem a todas as pessoas. E é nesse ponto que se concentram nossos maiores desafios. Nunca tivemos tantas informações disponíveis e ao mesmo tempo nunca em outra época a ignorância foi tão propagada. Grupos articulados divulgam desinformação e geram desconfiança e medo em relação às únicas armas com as quais podemos prevenir a doença; o papel da Enfermagem como educadores em saúde é, hoje, primordial.
Os dados apresentados no relatório sobre a situação da Enfermagem no Mundo demostram que a Enfermagem é o maior grupo ocupacional no setor saúde, respondendo por aproximadamente 59% das profissões na área da saúde1. Além disso, por fazer parte no Brasil das equipes de Saúde da Família, muito próximos às comunidades, conseguem ter um diálogo que se paute em uma linguagem acessível e contextualizada com a realidade de cada indivíduo e que nesse momento de pandemia é essencial para a promoção da saúde e prevenção de doenças, combatendo a desinformação2.
Infelizmente, testemunhamos que as estratégias de controle da COVID-19 no Brasil, se pautaram pela ampliação de leitos hospitalares, focando em uma ação assistencialista e pouco voltada para a Atenção Primária à Saúde (APS). A Enfermagem no Brasil pode fazer muito mais, focando seu trabalho nas ações da APS em visitas domiciliares intensificadas e com centralidade no cuidado às doenças de base como controle de diabetes e hipertensão e monitoramento de casos de pessoas com COVID-19 e seus contatos. A utilização de fluxograma na APS no momento da avaliação de um caso suspeito de COVID-19 tem o potencial de organizar o acesso ao cuidado e prevenir complicação da doença3.
Em relação à vacinação, essa organização se faz ainda mais imperiosa. A Enfermagem está à frente de todas as 38 mil salas de vacinação no Brasil e pode liderar nesse momento ações de educação em saúde, enquanto ainda não temos uma vacinação em massa para nossa população. Essa ação de educação em saúde certamente poderia impactar sobremaneira a adesão da população as vacinas e combinada com as ações de prevenção e promoção da saúde durante a pandemia dar visibilidade ao trabalho da Enfermagem no Brasil4-5. Há muito a ser feito e a Enfermagem está preparada para assumir seu papel na história que está sendo escrita durante a pandemia da COVID-19.
Referências bibliográficas
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1 World Health Organization. State of the world's nursing 2020: investing in education, jobs and leadership. [Internet]. Geneva: WHO; 2019 [cited 2021 Mar 07]. Available from: https://www.who.int/publications/i/item/9789240003279
» https://www.who.int/publications/i/item/9789240003279 -
2 Roecker S, Marcon SS. Health education in the family health strategy program: the meaning and praxis of nurse. Esc Anna Nery. [Internet]. 2011 Dec;15(4):701-9. doi: https://doi.org/10.1590/S1414-81452011000400007
» https://doi.org/10.1590/S1414-81452011000400007 -
3 Sales CMM, Silva AI, Maciel ELN. COVID-19 health surveillance in Brazil: investigation of contacts by primary health care as a community protection strategy. Epidemiol Serv Saude. 2020;29(4):2020373. doi: http://doi.org/10.5123/s1679-49742020000400011
» http://doi.org/10.5123/s1679-49742020000400011 -
4 Maciel ELN. A campanha de vacinação contra Covid-19 no Brasil: oportunidades e desafios. Nursing (São Paulo). 2021 [Acesso em 7 mar 2021];24(274):5340. Disponível em: http://revistas.mpmcomunicacao.com.br/index.php/revistanursing/article/view/1317
» http://revistas.mpmcomunicacao.com.br/index.php/revistanursing/article/view/1317 -
5 Ministério da Saúde (BR). Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica. Programa Nacional de Imunizações (PNI): 40 anos. [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2013 [Acesso 28 fev 2021]. Disponível em: Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/programa_nacional_imunizacoes_pni40.pdf
» http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/programa_nacional_imunizacoes_pni40.pdf


