Open-access Experiências de homens transexuais no parto e pós-parto à luz do cuidado transcultural*

Objetivo: desvelar as experiências de homens transexuais durante o parto e pós-parto à luz da Teoria da Diversidade e Universalidade do Cuidado Cultural.

Método: estudo qualitativo e descritivo operacionalizado pelo método de estudo de casos múltiplos. Coleta de dados realizada por meio da amostragem do tipo intencional composta por cinco homens transexuais, selecionados por critérios de conveniência e disponibilidade. As entrevistas foram transcritas na íntegra e os resultados foram organizados e adaptados ao Modelo Sunrise .

Resultados: a maioria dos participantes são “primíparos”, e com parto cesáreo. Na adaptação do Modelo Sunrise , observou-se o estímulo à medicalização e manejo mecanicista do parto; medo do parto natural; violência perpetrada contra os homens transexuais resultantes da dificuldade de acesso à informação por parte do homem gestante e atenção obstétrica não qualificada às necessidades do público, repercutindo em cuidado fragilizado, com insatisfação frente ao serviço de saúde.

Conclusão: as experiências de homens transexuais durante o parto e pós-parto perpassam por um misto de vivências, geradoras de danos, sobretudo, quando vinculadas às situações de violência transfóbica e violação de direitos.

Descritores:
Pessoas Transgênero; Parto; Saúde do Homem; Atenção Primária à Saúde; Minorias Sexuais e de Gênero; Enfermagem


Destaques:

(1) Possibilita reflexão sobre a assistência obstétrica aos homens transexuais.

(2) Influência do estigma social sobre o parto normal na escolha da via de parto.

(3) Necessidade de atenção hospitalar que reconheça a singularidade do parturiente.

(4) O contexto ambiental pode revelar maiores situações negativas na assistência.

(5) O cuidado é potencializado por estratégias de enfrentamento às situações do parto.

Objective: to unveil the experiences of transsexual men during childbirth and postpartum in the light of the Theory of Diversity and Universality of Cultural Care.

Method: a qualitative and descriptive study using the multiple case study method. Data was collected using an intentional sample of five transsexual men, selected on the basis of convenience and availability. The interviews were transcribed in full and the results were organized and adapted to the Sunrise Model.

Results: the majority of the participants were «primiparous» and had given birth by cesarean section. In adapting the Sunrise Model, we observed the encouragement of medicalization and mechanistic management of childbirth; fear of natural childbirth; violence perpetrated against transsexual men resulting from the difficulty of access to information by the pregnant man, and obstetric care not qualified to meet the needs of the public, resulting in fragile care, with dissatisfaction with the health service.

Conclusion: the experiences of transsexual men during childbirth and the postpartum period are a mixture of experiences that generate damage, especially when linked to situations of transphobic violence and violation of rights

Descriptors:
Transgender Persons; Parturition; Men’s Health; Primary Health Care; Sexual and Gender Minorities; Nursing


Highlights:

(1) Provides an opportunity to reflect on obstetric care for transsexual men.

(2) Influence of social stigma about normal childbirth on the choice of delivery route.

(3) Need for hospital care that recognizes the uniqueness of the parturient.

(4) The environmental context can reveal more negative situations in care.

(5) Care is enhanced by coping strategies.

Objetivo: revelar las experiencias de hombres transexuales durante el parto y posparto a la luz de la Teoría de la Diversidad y Universalidad del Cuidado Cultural.

Método: estudio cualitativo y descriptivo operacionalizado por el método de estudio de casos múltiples. Recolección de datos realizada por medio de un muestreo intencional compuesto por cinco hombres transexuales, seleccionados con base en criterios de conveniencia y disponibilidad. Las entrevistas fueron transcritas íntegramente y los resultados fueron organizados y adaptados al Modelo Sunrise .

Resultados: la mayoría de los participantes son “primíparos” y con parto por cesárea. Al adaptar el Modelo Sunrise , se observó el estímulo a la medicalización y el manejo mecanicista del parto; miedo al parto natural; violencia perpetrada contra hombres transexuales producto de la dificultad de acceso a la información por parte del hombre embarazado y de la atención obstétrica no calificada a las necesidades del público, resultando en un cuidado debilitado, con insatisfacción con el servicio de salud.

Conclusión: las experiencias de los hombres transexuales durante el parto y posparto involucran una mezcla de vivencias que generan daño, especialmente cuando se vinculan a situaciones de violencia transfóbica y vulneración de derechos.

Descriptores:
Personas Transgénero; Parto; Salud del Hombre; Atención Primaria de Salud; Minorías Sexuales y de Género; Enfermería


Destacados:

(1) Promueve la reflexión sobre la atención obstétrica a hombres transexuales.

(2) Influencia del estigma social sobre el parto natural en la elección de la vía de parto.

(3) Necesidad de una atención hospitalaria que reconozca la singularidad del parturiento.

(4) El contexto ambiental puede revelar mayores situaciones negativas en la asistencia.

(5) El cuidado se potencia con estrategias de afrontamiento de las situaciones del parto.

Introdução

Do ponto de vista da saúde integral, o processo de gestação nos homens transexuais pode resultar em experiências positivas e negativas, visto que, em sua maioria, alguns deles têm preservado os órgãos do sistema reprodutor, a exemplo da vagina, útero, tubas uterinas e ovários, com a capacidade de gestar e parir, tornando-lhes imprescindíveis a atenção à saúde ginecológica e obstétrica, como garantia de direitos sexuais e reprodutivos, a segurança e a proteção gravídico-puerperal ( 1 ) .

Sabe-se que na Austrália, entre os anos de 2013 e 2018, registrou-se um total de 205 homens trans que pariram; no Brasil, por sua vez, pessoas trans e não-binárias que engravidam não são identificadas nos dados de serviços de saúde pela impossibilidade de preenchimento do quesito “identidade de gênero” em locais de referência para o cuidado obstétrico, a exemplo dos centros de parto ou maternidades. Isso impossibilita analisar as diferentes experiências durante o parto e o puerpério, bem como tornar visíveis as desigualdades no acesso e os reflexos na saúde integral individual ( 2 ) .

Verifica-se a incipiência de estudos nacionais e internacionais abordando a temática aqui discutida. Em particular, há uma lacuna significativa no âmbito da Enfermagem, em relação à assistência à saúde de homens transexuais durante o ciclo gravídico-puerperal, uma vez que esse cuidado é discutido durante a formação profissional a partir de uma perspectiva cis-heteronormativa, contribuindo com uma visão limitada do cuidado, excluindo experiências e necessidades específicas deste grupo social. Dessa forma, a realização desta pesquisa poderá subsidiar uma prática avançada em Enfermagem de forma a considerar as particularidades socioculturais deste segmento populacional durante o parto e pós-parto imediato.

Destaca-se que, corriqueiramente, os homens transexuais, no período gravídico, manifestam aos profissionais da saúde desconforto com seu próprio corpo e/ou com a sua genitália, e que há a sensação de incômodo com situações cotidianas no cuidado à saúde, como os exames ginecológicos e o de toque vaginal a partir 36ª semana de gestação. Além disso, presumem que esses exames podem ser realizados sem o seu consentimento, inclusive, no trabalho de parto, o que contribui para o aumento do medo e da ansiedade e da não busca pelos serviços de saúde ( 3 - 4 ) . A esse respeito, ressalta-se que tais exames contribuem na identificação de problemas de saúde, e até para evitar um possível parto prematuro, pois objetivam analisar também a pélvis, de modo a avaliar a estrutura da vagina e do colo do útero.

Nesse contexto, a Teoria da Diversidade e Universalidade do Cuidado Cultural (TDUCC) de Madeleine Leininger, em seu modelo conceitual, o Sunrise , propôs considerar o cuidado ao ser humano de modo congruente com o conhecimento de sua cultura e visão de mundo, descobrindo o significado de um cuidado transcultural, a partir de práticas voltadas especificamente para cada cultura e seus fatores influenciadores na prestação da assistência à saúde. A teorista interpreta a existência de uma diversidade e universalidade cultural com foco na estruturação do cuidado para que a pessoa possa ser assistida de modo satisfatório e humanístico, sendo os conceitos de “Cultura”, “Visão de mundo”, “Contexto ambiental”, “Cuidado” e “Saúde” fundamentais para a compreensão deste estudo ( 5 - 6 ) .

Ressalta-se a importância de diminuir as desigualdades e as disparidades em saúde, promover a equidade no cuidado e possibilitar a garantia dos direitos humanos e da justiça social para se alcancem os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável ( 7 - 8 ) . Nesse sentido, este estudo possibilita a reflexão sobre a assistência obstétrica aos homens transexuais no parto e pós-parto que promova as mudanças significativas dos processos de trabalho em diferentes cenários de atuação profissional pública ou privada. Ante o exposto, formulou-se a seguinte questão norteadora: quais as experiências de homens transexuais durante o parto e pós-parto? Para tanto, objetivou-se desvelar as experiências de homens transexuais durante o parto e pós-parto à luz da Teoria da Diversidade e Universalidade do Cuidado Cultural.

Método

Delineamento e local do estudo

Trata-se de um estudo qualitativo ( 9 - 10 ) e operacionalizado pelo método de Estudo de Casos Múltiplos ( 11 ) . O cenário investigado é vinculado à Secretaria Estadual de Saúde, por meio da Coordenação Estadual de Atenção Integral à Saúde Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (LGBT) de Pernambuco (PE), e em nível nacional com pessoas vinculadas à Aliança Nacional LGBT.

Definição da amostra

Participaram do estudo cinco homens transexuais “parturientes”. A amostragem foi do tipo intencional ( 12 ) , composta por participantes selecionados a partir de critérios de conveniência e disponibilidade, após estabelecidos os seguintes critérios de inclusão: ser homem transexual com vivência em trabalho de parto vaginal ou cesárea; ter idade igual ou superior aos 18 anos de idade. Os critérios de exclusão foram: homens transexuais que vivenciaram o trabalho de parto e que não possuíam recursos tecnológicos como computador, celular, Internet, entre outros, para possibilitar a realização da entrevista. Foram incluídos os participantes por inserção progressiva, a partir da saturação teórica das respostas às entrevistas semiestruturadas ( 13 ) .

Coleta de dados

A coleta de dados foi realizada nos meses de setembro e outubro de 2021. Para tanto, foi utilizada a técnica de entrevistas individuais ( 13 ) , em modalidade virtual (remota), pela plataforma Google Meet ® , em encontro único, com roteiro semiestruturado, composto por questões fechadas relacionadas às características sociodemográficas e de questões abertas relacionadas ao fenômeno empírico investigado, a saber: 1. Fale-me sobre a sua experiência durante o momento do parto e pós-parto; 2. Conte-me como ocorreu a assistência à saúde prestada pela equipe de saúde durante o seu parto e o pós-parto; 3. Caso você tenha optado por amamentar no pós-parto, fale-me como se deu esta experiência; 4. Você conhece outros homens transexuais que engravidaram ou que estejam grávidos? Conte-me sobre as experiências que conheceu. A caracterização sociodemográfica dos participantes, foi realizada após a disponibilização um questionário antes das entrevistas. Durante a captação dos participantes a partir do contato com as instituições parceiras, que ocorreu nas principais redes sociais digitais acessadas no Brasil: Facebook ® , Instagram ® e WhatsApp ®(14) .

As anuências para o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e o Termo de Autorização de Uso de Imagem e Depoimento foram disponibilizadas para a assinatura pela plataforma Google Forms ® ( online ). Para cada entrevista foi solicitado ligar a câmera do celular ou do computador para a captação de imagem, linguagem corporal e entonações de voz pela plataforma Google Meet ® , obtendo-se um tempo médio de uma hora para cada uma delas.

As entrevistas foram realizadas pelo pesquisador principal, que é integrante da comunidade LGBT e possui expertise na execução de estudos qualitativos, o que contribuiu para o processo de coleta das informações, que foram posteriormente transcritas na íntegra e disponibilizadas aos participantes para que fosse realizada a validação do conteúdo, realizando ajustes e correções, se necessário. Nessa etapa, todos os participantes leram o material e não foram sugeridas mudanças no conteúdo. Todo o material foi submetido à análise lexicográfica clássica por meio do Método Reinert ( 15 ) de classificação de segmentos de texto instrumentalizada pelo software gratuito Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires (IRAMuTeQ) versão 7.0 ( 16 ) . A partir do emprego do IRAMuTeQ foi possível categorizar os dados, mediante a avaliação de similaridade ( 17 - 19 ) .

Tratamento e análise dos dados

Os achados centrais encontrados no Estudo de Casos Múltiplos realizado, foram discutidos teoricamente a partir dos pressupostos da TDUCC ( 20 ) . A análise dos dados foi ancorada na TDUCC, proposta por Madeleine Leininger, em que se aborda a necessidade de o profissional considerar o contexto cultural no qual o indivíduo se encontra inserido, propiciando cuidados harmônicos àquela identidade local, sendo elencados cinco conceitos que a sustentam, sendo eles a cultura, visão de mundo, contexto ambiental, cuidado e saúde; associado à literatura científica pertinente à temática ( 20 ) .

Aspectos éticos

Este estudo foi submetido à aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), sob o CAAE nº 47777421.0.0000.5208 e parecer de número 4.862.503/2021, seguindo as recomendações da Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012 do Conselho Nacional de Saúde brasileiro ( 21 ) .

Resultados

Dispõem-se na Figura 1 os casos múltiplos dos homens transexuais “parturientes” do estudo, identificados por pseudônimos autodeclarados no momento das entrevistas, de acordo com o perfil gravidez-parto.

Figura 1
- Casos múltiplos dos homens transexuais participantes do estudo (n = 5). Recife, PE, Brasil, 2023

Na Figura 2 apresenta-se o agrupamento dos registros mais significativos por conceito elencado a partir da adaptação do Modelo Sunrise , proposto pela TDUCC, alocando as falas em consonância com as experiências dos homens transexuais durante o parto e pós-parto. Assim, os relatos expõem o medo do parto, a violência obstétrica, transfóbica, moral, psicológica, sexual ou por negligência, entre outros, conforme apresentado abaixo.

Figura 2
- Experiências atribuídas ao parto e pós-parto imediato por homens transexuais, adaptadas do Modelo Sunrise . Recife, PE, Brasil, 2023

Na Figura 3 tem-se o resultado da construção da adaptação do Modelo Sunrise, traduzida em ideias-chaves mais recorrentes nos discursos dos homens transexuais parturientes, evidenciando os aspectos intrínsecos ao parto e pós-parto vivenciados por estes sujeitos, a serem considerados para o reconhecimento de um cuidado transcultural. Na Figura 4 evidencia-se uma relação entre os fatores culturais e os elementos presentes nos discursos dos indivíduos participantes do estudo.

Figura 3
- Adaptação do Modelo Sunrise . Valores que influenciam os cuidados de saúde aos parturientes. Recife, PE, Brasil, 2023

Figura 4
- Fatores culturais que influenciam os cuidados de saúde e os elementos presentes na fala dos parturientes. Recife, PE, Brasil, 2023

Discussão

Destaca-se a incipiência de literatura científica nacional e internacional que abordem as especificidades de homens transexuais durante a gestação, parto e puerpério, reafirmando a necessidade deste estudo, que engloba a Obstetrícia e a Enfermagem nas discussões sobre as relações entre saúde, gênero e sexualidades. Ante o exposto, este estudo apresenta relevantes contribuições e implicações nestas áreas e no avanço do conhecimento científico na assistência pré-natal e obstétrica para as diferentes identidades de gênero, sobretudo quanto à visibilidade das experiências de homens transexuais durante o parto e o pós-parto imediato, sob a análise dos conceitos de “Cultura”, “Visão de mundo”, “Contexto ambiental”, “Cuidado” e “Saúde” proposto pela TDUCC de Madeleine Leininger.

No item referente a “cultura”, registrou-se a percepção de que os homens transexuais tinham em relação ao parto natural e aos atos de violência ocorridos nesse momento, por vezes naturalizados. Nesse sentido, o estigma social que culturalmente considera o parto normal como perigoso, que gera dor e sofrimento, exerce uma influência significativa sobre as experiências de homens transexuais. Este aspecto corrobora o que Leininger afirmou, ou seja, que a cultura poderá guiar o indivíduo ou um grupo em suas ações e construir a maneira como gostaria de ser cuidado. Parte desse sentimento relaciona-se à assistência de saúde ofertada pelo Sistema Único de Saúde (SUS), muitas vezes vista como desqualificada, uma vez que acredita-se que os atendimentos ocorrem após longos períodos de espera, e justifica-se, com isso, a escolha pela cirurgia cesárea mesmo diante de condições para realizar o parto natural, relacionando a via cirúrgica como rápida e segura ( 22 ) .

Destaca-se que, com a medicalização do parto, difundiu-se socialmente que os efeitos de remédios e procedimentos técnicos e tecnológicos realizados por profissionais da saúde são mais eficientes que a própria fisiologia corporal. As evidências científicas relatam que os principais fatores que desencadeiam o medo do parto natural entre os homens transexuais são os relatos de dor por familiares e amigos que passaram por esse momento, a ansiedade relacionada ao sofrimento durante o parto normal, a insegurança de não ser capaz de concluir o parto e o temor que ele cause complicações ao recém-nascido (RN) ( 23 ) . O medo deste momento pode estar relacionado às mudanças, também, do canal vaginal (a parede da vagina consiste em três camadas: mucosa, muscular e adventícia), devido ao uso de testosterona durante o processo de afirmação de gênero e as preocupações sobre os cuidados insuficientes, como a falta de recursos em serviços de saúde, ou relativas à competência transcultural dos profissionais em assistir o parto de um homem transexual, visto a incipiência desta discussão nos cursos de formação em saúde ( 3 - 4 , 24 ) .

Em uma das experiências de um dos participantes do estudo, ao qual “o parturiente” optou pela via de parto normal, ocorreram os procedimentos de indução do parto e da episiotomia. Observou-se a ausência de informação por parte do usuário sobre do que se tratava e a tomada de decisão na realização dos procedimentos sem o seu devido consentimento explícito e informado, o que pode se caracterizar também como uma violência obstétrica. Destaca-se que, apesar dos critérios para realizá-la, a indução é considerada um procedimento invasivo, e que pode impactar na experiência do parto e no nascimento, aumentando o tempo de espera e até implicando em complicações obstétricas, a exemplo do risco de laceração perineal e hemorragia pós-parto ( 25 ) .

Um “dos parturientes” que teve como via de parto a cesárea eletiva afirmou ter de permanecer isolado no pós-parto imediato, tornando este um momento solitário. O sentimento que perpassou esta vivência assemelhou-se ao que pode ser denominado de “solidão puerperal”, caracterizada pela exacerbação da solidão após o parto, devido à impossibilidade de visitas ou à extensão do internamento dele ou do RN ( 26 ) . Ainda assim, a cesárea mostrou-se uma opção viável para os homens transexuais que vivenciaram a gestação, sendo a via de parto escolhida por quatro dos cinco “parturientes”.

As relações que homens transexuais estabelecem junto aos profissionais da saúde, especialmente entre os que o acompanham durante a assistência ao parto e ao pós-parto imediato, influenciaram de maneira significativa o cuidado prestado. Verifica-se a reprodução de uma deslegitimação da identidade de gênero “do parturiente”, a partir de sua identificação pelo gênero feminino na etiqueta do RN na sala de parto, o que gerou um momento de intenso de estresse, de forma que esta situação se caracteriza como uma violência transfóbica, o que demonstra o despreparo na formação profissional e da instituição de saúde.

Estas situações podem ocorrer, ainda, no momento do registro do RN, ainda no serviço de saúde. Assim, no Brasil, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que o Ministério da Saúde, a partir do mês de setembro do ano de 2021, realizasse alterações na Declaração de Nascido Vivo (DNV) e no Sistema de Informações de Nascidos Vivos (SINASC), para que se faça constar neste documento a categoria “parturiente”, independente dos nomes dos genitores. Isso possibilita o recolhimento de dados para a formulação de políticas públicas e o respeito à autodeclaração de gênero dos ascendentes ( 27 ) .

Verifica-se, também, que após o aumento do uso de técnicas de fertilização in vitro, adoções e demais recursos para garantir a parentalidade entre a população LGBT, especialmente entre homens transexuais, a certidão de nascimento passou a não fazer referência aos genitores como “mãe” e “pai”, utilizando-se do termo “filiação” a partir de 2017, com o Provimento nº 63 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) ( 28 - 29 ) .

O contexto ambiental apresentou-se no relato de afastamento da criança “do parturiente” após um parto cesáreo, bem como a ocorrência de uma situação de violência sexual quando o usuário se encontrava sob os efeitos da anestesia. Estas situações se somam às diversas experiências negativas que ocorrem no âmbito hospitalar, com reflexos no sofrimento e no gatilho de adoecimento mental das pessoas transgênero.

Este ambiente que se faz presente no momento do parto e pós-parto imediato pode ser decisivo sobre quais as impressões a pessoa irá atribuir à sua experiência. Nesse sentido, a violência sexual sofrida por um “dos parturientes” se fez presente, e este verbalizou a ocorrência de uma “molestação” por parte de um profissional da saúde, momentos após o parto cesáreo, em uma tentativa de se aproveitar dos efeitos da raquianestesia para praticar a ação criminosa. Nessa situação, após denunciar a violência sofrida para a genitora que o acompanhava no serviço de saúde, “o parturiente” sofreu mais uma violência quando não foi ouvido, tendo sua experiência posta em questionamento, uma vez que estava sob os efeitos de medicamentos.

A centralidade do cuidado esteve na prática do uso de técnicas não-farmacológicas para o enfrentamento às dores do parto, ao mesmo tempo que se observa o desrespeito “ao parturiente” por parte da profissional da saúde, tornando a assistência fragilizada e violenta. O uso de formas não farmacológicas de alívio da dor durante o trabalho de parto, a exemplo da musicoterapia, massoterapia, termoterapia e uso da bola suíça, apareceram como estratégias utilizadas pelos profissionais da saúde, de maneira a possibilitar um apoio para que as pessoas parturientes pudessem enfrentar as dores do trabalho de parto, uma vez que este é um evento visto como uma das experiências mais significativas para as pessoas envolvidas.

A categoria “saúde” expressou o sentimento “do parturiente” sobre o serviço de saúde prestado durante o parto, observando-se a insatisfação da assistência proporcionada pela instituição, ao mesmo tempo que ele reconhece o cuidado da profissional da saúde em oferecer um acolhimento e apoio ao enfrentamento das situações de violência presentes naquele momento. Isso gerou um sentimento de esperança no usuário. Observou-se, também, a importância do papel do profissional da saúde em fazer com que “o parturiente” o visse como um apoio no compartilhamento de suas angústias, estabelecendo um vínculo positivo e gerando sentimentos de apoio e confiança no enfrentamento das situações de violência. Este fato evidencia a necessidade de se considerarem as especificidades da pessoa parturiente durante o cuidado obstétrico, a partir do reconhecimento e da valorização da sua singularidade, de sua cultura e visão de mundo.

A categoria “visão de mundo” relaciona-se com o processo de amamentação, revelando-se como um fenômeno que constitui a masculinidade dos sujeitos e é possível de ser realizada no pós-parto imediato, objetivando a manutenção da alimentação da criança neste momento da vida. Quanto à opção ou não de homens transexuais “parturientes” amamentarem, verifica-se que os participantes deste estudo se dispuseram a realizá-la no pós-parto imediato, e por vezes ocorreu o estímulo à amamentação pela equipe de saúde na primeira hora de vida do RN. Em um dos “parturientes”, que estava em uma relação estável transcentrada heterossexual, o aleitamento ofertado à criança ocorreu por meio da companheira, uma mulher transexual, para que esta pudesse cumprir com o papel social de “mãe’ tornando-se a responsável por este processo até o quarto mês de vida do RN, sendo iniciada em seguida a introdução de fórmula láctea infantil e o retorno do uso da testosterona pelo homem transexual ( 30 ) .

Ressalta-se a importância do papel do enfermeiro no processo de educação em saúde sobre as orientações dos riscos e dos benefícios da amamentação para os homens transexuais parturientes que não realizaram o procedimento cirúrgico da mastectomia masculinizadora, durante toda a assistência pré-natal, para que possam refletir e tenham a autonomia de decidir se irão ou não realiza-la, compreendendo este acontecimento como constituinte de sua masculinidade. Para isso, espaços como o alojamento conjunto tornam-se propícios para a realização deste tipo de orientação pelo enfermeiro ( 31 ) .

O cuidado obstétrico-neonatal, frequentemente marcado pela violação de direitos e pela cultura cis-heteronormativa, mostra que, além de lidar com o trabalho de parto, um momento já desafiador, os homens transexuais gestantes também lidam com o preconceito e a discriminação, que podem ser caracterizadas como violência obstétrica, uma vez que oferecem danos físicos ou psicológicos “ao parturiente” ( 32 ) .

Informa-se que este estudo apresentou limitações relacionadas ao número de participantes, por se tratar de uma população específica e de difícil acesso, agravando-se este durante o período da pandemia da COVID-19, diante de um contexto de vulnerabilidade socioeconômica. Diante de uma amostra por conveniência, ocorreram também, alguns impasses na inserção de homens transexuais no estudo, pois alguns deles não retornavam o contato com o pesquisador ou não apresentavam interesse em participar da pesquisa realizada por uma pessoa cisgênero. Além disso, os achados evidenciam o debate recente no Brasil e no mundo sobre as transparentalidades, bem como ampliam o escopo da atenção à saúde dos homens, considerando as distintas identidades de gênero, como no caso dos homens trans e suas demandas de saúde sexual, reprodutiva e familiar ( 33 - 36 ) .

Com o intuito de minimizar as possíveis limitações metodológicas no decorrer da pesquisa, foram estritamente seguidas as etapas de aproximação e seleção dos participantes. Uma divulgação abrangente do estudo foi realizada para evitar viés na estratégia de recrutamento. As técnicas utilizadas para apreender as experiências de homens transexuais durante o parto e pós-parto foram aplicadas de maneira coerente, e o referencial teórico foi empregado de forma responsável. Adicionalmente, foram conduzidas as atividades preliminares para a construção do estudo, visando reforçar a sensibilidade teórica do pesquisador principal e da equipe. Isso incluiu a integração dos participantes nos contextos relevantes, investimento em leituras, participação em disciplinas curriculares e capacitações específicas na área.

Conclusão

Este estudo evidenciou que o estigma social que culturalmente enfatiza o parto normal como perigoso, que gera dor e sofrimento, exerceu influência significativa na escolha da via de parto entre os homens transexuais, reforçando que as experiências vivenciadas são acometidas por diferentes situações de violência, seja moral, psicológica, sexual, transfóbica ou por negligência. A visão de mundo “do parturiente” leva à necessidade de atenção hospitalar que reconheça sua singularidade. Já o contexto ambiental pode revelar maior vulnerabilidade para a ocorrência de situações que possam gerar impactos negativos na assistência ao parto e pós-parto. O cuidado mostra-se potencializado a partir da realização de estratégias no apoio ao enfrentamento às situações intrínsecas ao trabalho de parto e à saúde, porém mediante as violências e a violação de direitos torna-se fragilizado.

Agradecimentos

A todos os homens trans que se dispuseram a compartilhar suas experiências.

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  • Todos os autores aprovaram a versão final do texto.
  • *
    Artigo extraído de dissertação de mestrado “Representações sociais da gestação entre homens trans”, apresentada à Universidade Federal de Pernambuco, Recife, PE, Brasil. O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) - Código de Financiamento 001, Brasil.
  • Como citar este artigo
    Pereira DMR, Araújo EC, Oliveira SC, Sousa AR, Espíndola MMM, Lemos DEB. Transsexual men’s experiences of childbirth and postpartum in the light of transcultural care. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2024;32:e4212 [cited]. Available from: . https://doi.org/10.1590/1518-8345.7040.4212

Editado por

  • Editora Associada:
    Sueli Aparecida Frari Galera

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    22 Nov 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    06 Set 2023
  • Aceito
    25 Fev 2024
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