Open-access A relevância da liderança frente à segurança do paciente no atual contexto

A pandemia da COVID-19 é um dos assuntos mais abordados mundialmente, dado o impacto social, econômico e comportamental gerado, além da alta taxa de morbidade e letalidade associada à dificuldade de se iniciar as medidas terapêuticas precocemente, à gravidade dos casos e à superlotação dos serviços de saúde, acarretando sobrecarga de trabalho aos profissionais, aumento na demanda de equipamentos e materiais e a necessidade de súbita alteração dos processos assistenciais.

Todos esses fatores seguramente comprometem a segurança dos pacientes, gerando demandas de enfrentamento por todos os atores envolvidos, com destaque para as lideranças dos sistemas e serviços de saúde. São os líderes que devem conduzir o processo, tendo o grande desafio de garantir a segurança dos pacientes nesse contexto epidemiológico de enfrentamento da pandemia.

Cabe destacar um novo modelo que ressalta estratégias para aumento da segurança, o qual reforça que as lideranças devem retirar do foco somente a busca pelos erros, chamado modelo safety 1, mas que enfatizem a busca dos acertos, bem como o modo como são reproduzidos esses acertos, nominado como modelo safety 2(1). O sistema de saúde é complexo e tem como características ações aleatórias, mudança de contexto e de condições(1), a exemplo do vivenciado na atualidade com a pandemia da COVID-19, que assola o mundo com milhões de vidas perdidas. Assim, torna-se essencial a figura de líderes que possam captar as interconexões e acertos relacionados à segurança, de modo que possam lidar com a complexidade e dinamismo da saúde.

Nesta perspectiva, fica evidente que o desafio dos líderes é maior na atualidade, haja vista que necessitam se aprimorar nos novos paradigmas, buscando entender a complexidade do sistema e conduzir a equipe olhando para os aspectos positivos da segurança do paciente, sem descartar a análise das causas que levam aos erros.

Tais líderes necessitam, ainda, ser resilientes na adaptação à pressão para fornecer cuidado seguro e eficaz aos pacientes, bem como proteger os trabalhadores que têm grande sofrimento emocional gerado pela pandemia, o que pode impactar adversamente a segurança do paciente(2). Deve-se considerar que a equipe de enfermagem está exposta à COVID-19, pois representa os profissionais de saúde que estão na linha de frente da assistência; assim, sua segurança precisa estar garantida para que haja qualidade e minimização de erros. Esses profissionais, a partir de incentivo das lideranças, devem relatar todos os eventos do dia-a-dia, e não apenas os resultados ruins; dessa forma, obtêm-se informações relevantes e, muitas vezes, subutilizadas.

Estudo realizado em 71 hospitais da Pensilvânia, que prestam atendimento a pacientes diagnosticados com a COVID-19, identificou que 1% dos eventos adversos foi sério, inclusive levando a óbito. Os demais, 99%, foram classificados como incidentes que ocorreram, principalmente, no Departamentos de Emergência, seguidos das Unidades de Clínica Médico-Cirúrgica e Unidades de Terapia Intensiva(3), o que pode comprometer a saúde das pessoas de modo progressivo. Confrontar esta realidade, por exemplo, significaria examinar todo o trabalho realizado, a necessidade de ajustes e adaptações a partir dos erros e acertos ocorridos.

Destarte, observa-se que as agendas de pesquisa devem continuar avançando na abordagem de questões operacionalmente relevantes sobre a segurança do paciente, e o novo conhecimento deve ser traduzido e efetivamente implantado na prática em todos os níveis, desde as lideranças até os prestadores de cuidados diretos e familiares com envolvimento coletivo e participativo, sendo necessário considerar táticas para os líderes equilibrarem melhor as diversas prioridades concorrentes, garantindo que a segurança seja vista e tratada como um valor central(4).

Diante da preocupação com a pandemia e a inevitabilidade de tomadas de decisão rápidas em um cenário muitas vezes caótico, tornou-se essencial rever as práticas assistenciais, investir no processo educativo da equipe de saúde e na comunicação dialógica, e aprimorar o processo de trabalho. Por meio do investimento nessas áreas, possibilita-se o fortalecimento das lideranças que precisam, então, incentivar estratégias que possibilitem o engajamento, a valorização e participação da equipe na tomada de decisões organizacionais(5) contribuindo para o sucesso dos resultados assistenciais.

Depreende-se que mudanças nos processos de trabalho, bem como a facilitação da comunicação e da tomada de decisão são essenciais, porém se constituem em desafios para líderes que têm reunido esforços para o combate da pandemia. Reduzir o número de eventos adversos com danos deve ser uma das metas das lideranças e equipes interdisciplinares. Destarte, o desenvolvimento de modelos organizacionais, capazes de fornecer caminhos para garantir a segurança dos pacientes e da equipe, é premente, especialmente considerando-se a situação epidemiológica atual.

Referências bibliográficas

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    08 Nov 2021
  • Data do Fascículo
    2021
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