Open-access O marxismo e a questão internacional, resenha de Marx, esse desconhecido, de Michel Löwy

Marxism and the international question, review of Marx, the unknown, by Michel Löwy.

LÖWY, M.. Marx, esse desconhecido.Querido, Fábio Mascaro. 1. ed.São Paulo: Boitempo, 2023

Publicada originalmente em francês no ano de 2022, por Éditions Le Retrait, a obra Marx, esse desconhecido, do cientista social marxista brasileiro Michel Löwy, foi traduzida por Fábio Mascaro e veio a lume pela Boitempo no ano seguinte. Antes de tratarmos da obra, cabe ressaltar a beleza de seu projeto gráfico, como a capa contendo o busto de Marx preenchido por recortes de seus manuscritos e sobreposições de seu próprio rosto, fornecendo à composição um aspecto a um só tempo cubista e new wave e, ainda, o exuberante frontispício de autoria de Guy Girard, trazendo uma cena na qual Löwy oferece à Marx o sol negro da melancolia. Parte da coleção Armas da Crítica, o livro possui uma dezena de capítulos e está dividido em duas partes, assim denominadas: Explorações; Revoluções.

Ao longo de quase duzentas páginas, o autor promove a interpretação de temas trabalhados por Marx, mas que receberam pouca importância por parte de muitos estudiosos do marxismo. Daí deriva o título do livro, que não oculta as contradições que volta e meia eram cometidas por Marx ou Marx em parceria com Engels. Aliás, o próprio teórico e revolucionário alemão não hesitava em rever suas posições quando o curso dos eventos históricos assim o exigia. Por essa e por outras razões, Marx sempre foi um antidogmático, como fica evidente em sua exposição sobre o caráter dialético do modo de produção capitalista em propiciar a expansão da riqueza e ao mesmo tempo submeter os trabalhadores ao movimento despótico das máquinas, à pauperização de suas condições de existência e ao embrutecimento.

Ou ainda, quando Löwy, ao abordar a controversa análise de Marx acerca da colonização da Índia pela Grã-Bretanha, aponta que em um momento mais maduro de sua obra, Marx teceu duras críticas em relação ao resultado das experiências coloniais, bem como a qualquer postura teórica que associava a emergência do socialismo ao desenvolvimento das forças produtivas ipso facto. Sobre isso, é esclarecedora a correspondência trocada entre Marx e a revolucionária russa Vera Zazulich, na qual o primeiro esclarece que a revolução poderia ocorrer num país predominantemente agrário e não necessariamente sob circunstâncias de um desenvolvido setor industrial.

Em determinado momento do livro, e ao registrar que para Marx o capitalismo resulta tanto na exploração do ser humano quanto da natureza, Löwy ressalta a potencialidade revolucionária do atual movimento ecossocialista. Devotado que era à ciência, Marx tomara nota das contribuições do químico alemão Justus von Liebig sobre o esgotamento dos solos, concluindo que este processo poderia levar à ruptura metabólica entre as sociedades humanas e a natureza. Sobre a luta contemporânea e a questão ambiental, Löwy (2023, p. 62) afirma: “O desafio é reorientar o progresso de maneira a torná-lo compatível com a preservação do equilíbrio ecológico do planeta, o que implica mudanças profundas na própria maneira de conceber a ciência e a tecnologia.”

Interessantes são, também, as análises que o autor realiza sobre a concepção de Marx e de Engel no que concerne à religião. Para ambos a religião não se resumia ao “ópio do povo”, prova disso é a curiosidade que o cristianismo primitivo despertou em Marx e em Engels, especialmente para o último devido à função contestatória e até revolucionária de alguns movimentos religiosos, a exemplo dos quiliastas. O autor realiza, ainda, aproximações não menos interessantes, como a relação entre o marxismo e o romantismo progressista, do qual a própria admiração de Marx pela Revolução Francesa seria decorrente. Por fim, explora o debate entre a revolução por etapas e a revolução permanente, apontando que já nos últimos anos de vida Marx tinha claro que a revolução seria conduzida apenas por um proletariado universal e que seria esta a única via para a emancipação humana total.

Tomando a totalidade da obra, considero que a questão em voga é o caráter internacional do mercado mundial, da questão ecológica, do atual estágio de avanço da ciência, da tecnologia e especialmente da tarefa revolucionária que se impõe à classe trabalhadora. Nesse sentido, Marx, esse desconhecido se insere no rol de livros recentemente publicados que apresentam temas que receberam pouca consideração por parte dos estudiosos marxistas, como o livro Marx nas margens: nacionalismo, etnia e sociedades não ocidentais, de autoria de Kevin Anderson. Nele, o autor explora temas que permeiam a obra de Löwy ora resenhada, como a dialética do progresso investida nos processos históricos.

É certo que muitos têm sido os reveses sofridos por aqueles que têm lutado contra a opressão do capitalismo, mas é certo também que a emergência de preocupações globais, como o aquecimento da terra e suas temíveis consequências, ademais das transformações no mundo do trabalho, tem aglutinado homens e mulheres em torno de um projeto universal de superação das atuais formas de vida. Por mais pontuais e localizadas que sejam as lutas, elas têm acontecido em toda parte. Nesse sentido, Marx pode até restar desconhecido em certa medida, mas os elementos que fundam o seu pensamento não. Segue viva sua exortação à união do proletariado.

Agradecimentos

Não se aplica

  • Agência financiadora
    Não se aplica
  • Aprovação por Comitê de Ética e consentimento para participação
    Não se aplica
  • Consentimento para publicação
    O autor consente a publicação do presente manuscrito.

Referências

  • ANDERSON, K. B. Marx nas margens: nacionalismo, etnia e sociedades não ocidentais. São Paulo: Boitempo, 2019.
  • LÖWY, M. Marx, esse desconhecido Tradução de Fábio Mascaro Querido. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2023.

Editado por

  • Editoras Responsáveis
    Mailiz Garibotti Lusa – Editora-chefe
    Laís Duarte Corrêa – Comissão Editorial

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Set 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    01 Out 2024
  • Aceito
    24 Mar 2025
  • Revisado
    09 Jul 2025
Creative Common - by 4.0
Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/), que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.
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