Publicada originalmente em francês no ano de 2022, por Éditions Le Retrait, a obra Marx, esse desconhecido, do cientista social marxista brasileiro Michel Löwy, foi traduzida por Fábio Mascaro e veio a lume pela Boitempo no ano seguinte. Antes de tratarmos da obra, cabe ressaltar a beleza de seu projeto gráfico, como a capa contendo o busto de Marx preenchido por recortes de seus manuscritos e sobreposições de seu próprio rosto, fornecendo à composição um aspecto a um só tempo cubista e new wave e, ainda, o exuberante frontispício de autoria de Guy Girard, trazendo uma cena na qual Löwy oferece à Marx o sol negro da melancolia. Parte da coleção Armas da Crítica, o livro possui uma dezena de capítulos e está dividido em duas partes, assim denominadas: Explorações; Revoluções.
Ao longo de quase duzentas páginas, o autor promove a interpretação de temas trabalhados por Marx, mas que receberam pouca importância por parte de muitos estudiosos do marxismo. Daí deriva o título do livro, que não oculta as contradições que volta e meia eram cometidas por Marx ou Marx em parceria com Engels. Aliás, o próprio teórico e revolucionário alemão não hesitava em rever suas posições quando o curso dos eventos históricos assim o exigia. Por essa e por outras razões, Marx sempre foi um antidogmático, como fica evidente em sua exposição sobre o caráter dialético do modo de produção capitalista em propiciar a expansão da riqueza e ao mesmo tempo submeter os trabalhadores ao movimento despótico das máquinas, à pauperização de suas condições de existência e ao embrutecimento.
Ou ainda, quando Löwy, ao abordar a controversa análise de Marx acerca da colonização da Índia pela Grã-Bretanha, aponta que em um momento mais maduro de sua obra, Marx teceu duras críticas em relação ao resultado das experiências coloniais, bem como a qualquer postura teórica que associava a emergência do socialismo ao desenvolvimento das forças produtivas ipso facto. Sobre isso, é esclarecedora a correspondência trocada entre Marx e a revolucionária russa Vera Zazulich, na qual o primeiro esclarece que a revolução poderia ocorrer num país predominantemente agrário e não necessariamente sob circunstâncias de um desenvolvido setor industrial.
Em determinado momento do livro, e ao registrar que para Marx o capitalismo resulta tanto na exploração do ser humano quanto da natureza, Löwy ressalta a potencialidade revolucionária do atual movimento ecossocialista. Devotado que era à ciência, Marx tomara nota das contribuições do químico alemão Justus von Liebig sobre o esgotamento dos solos, concluindo que este processo poderia levar à ruptura metabólica entre as sociedades humanas e a natureza. Sobre a luta contemporânea e a questão ambiental, Löwy (2023, p. 62) afirma: “O desafio é reorientar o progresso de maneira a torná-lo compatível com a preservação do equilíbrio ecológico do planeta, o que implica mudanças profundas na própria maneira de conceber a ciência e a tecnologia.”
Interessantes são, também, as análises que o autor realiza sobre a concepção de Marx e de Engel no que concerne à religião. Para ambos a religião não se resumia ao “ópio do povo”, prova disso é a curiosidade que o cristianismo primitivo despertou em Marx e em Engels, especialmente para o último devido à função contestatória e até revolucionária de alguns movimentos religiosos, a exemplo dos quiliastas. O autor realiza, ainda, aproximações não menos interessantes, como a relação entre o marxismo e o romantismo progressista, do qual a própria admiração de Marx pela Revolução Francesa seria decorrente. Por fim, explora o debate entre a revolução por etapas e a revolução permanente, apontando que já nos últimos anos de vida Marx tinha claro que a revolução seria conduzida apenas por um proletariado universal e que seria esta a única via para a emancipação humana total.
Tomando a totalidade da obra, considero que a questão em voga é o caráter internacional do mercado mundial, da questão ecológica, do atual estágio de avanço da ciência, da tecnologia e especialmente da tarefa revolucionária que se impõe à classe trabalhadora. Nesse sentido, Marx, esse desconhecido se insere no rol de livros recentemente publicados que apresentam temas que receberam pouca consideração por parte dos estudiosos marxistas, como o livro Marx nas margens: nacionalismo, etnia e sociedades não ocidentais, de autoria de Kevin Anderson. Nele, o autor explora temas que permeiam a obra de Löwy ora resenhada, como a dialética do progresso investida nos processos históricos.
É certo que muitos têm sido os reveses sofridos por aqueles que têm lutado contra a opressão do capitalismo, mas é certo também que a emergência de preocupações globais, como o aquecimento da terra e suas temíveis consequências, ademais das transformações no mundo do trabalho, tem aglutinado homens e mulheres em torno de um projeto universal de superação das atuais formas de vida. Por mais pontuais e localizadas que sejam as lutas, elas têm acontecido em toda parte. Nesse sentido, Marx pode até restar desconhecido em certa medida, mas os elementos que fundam o seu pensamento não. Segue viva sua exortação à união do proletariado.
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O autor consente a publicação do presente manuscrito.
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