RESUMO
Neste artigo, faremos uma leitura de dois livros do pernambucano José da Natividade Saldanha, Elementos de retorica en castellano y latin (1826) e Poemas oferecidos aos amantes do Brazil (1822), evitando, porém, qualquer relação com os dados biográficos do autor. O primeiro, que recuperamos a partir do exemplar depositado na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da Universidade de São Paulo, será analisado com base nas dimensões relacionadas à poesia, em especial as ideias de figura, tropo, sublime e gosto. O segundo receberá um estudo que evidencie suas dinâmicas de ambiguidade e de contradição, sobretudo no aspecto da permanência e impermanência do tempo a partir do Tempus fugit virgiliano.
PALAVRAS-CHAVE:
José da Natividade Saldanha; retórica; poesia
ABSTRACT
In this article, we will analyze two books by the Pernambuco-born José da Natividade Saldanha, Elementos de retorica en castellano y latin (1826) and Poemas oferecidos aos amantes do Brazil (1822), avoiding, however, any relation to the author’s biographical data. The first, which we have retrieved from the copy deposited at the Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin at the Universiade de São Paulo, will be examined based on dimensions related to poetry, especially the ideas of figure, trope, sublime, and taste. The second will undergo a study that highlights its dynamics of ambiguity and contradiction, particularly in the aspect of the permanence and impermanence of time based on the Virgilian Tempus fugit.
KEYWORDS:
José da Natividade Saldanha; rhetoric; poetry
Dos vultos misteriosos que habitam as poesias luso-americana e do Império do Brasil na década de 1820, talvez nenhum tenha experimentado de maneira mais radical a política do período do que José da Natividade Saldanha2. Pernambucano não branco e educado em Portugal, sua história pessoal, que eventualmente ganha tons míticos e ufanistas, mobiliza tensões raciais e institucionais que transpassam as Américas e a Europa, sobretudo em sua participação na Confederação do Equador, em 1824, e em seus consequentes processos, condenações à morte e malfadados exílios nos Estados Unidos, França, Inglaterra e, por fim, na Grã-Colômbia (FARIAS, 2015).
Como é infelizmente habitual nesses casos, por vezes a sua narrativa de vida foi sobreposta à matéria artística, em biografismo pouco proveitoso. Em posição contrária, neste artigo analisaremos, de modo focado, as criações de Saldanha, com atenção a Elementos de retorica en castellano y latin, impresso em Caracas em 1826, do qual avaliaremos com maior detalhe as partes relativas à poesia, e a Poemas oferecidos aos amantes do Brazil, publicado em Coimbra no ano de 1822. Iremos nos furtar, porém, de tecer comentários sobre composições apócrifas, como “Feito no dia de sua fugida do Pernambuco” (SALDANHA, 1875, p. 43) e “A sua condenação a morte” (SALDANHA, 1875, p. 44), saídas no volume colecionado por José Augusto Ferreira da Costa em 1875, uma vez que a confirmação documental de autoria e a localização precisa dos manuscritos estão por ser feitas.
Em relação ao primeiro, trataremos de apresentá-lo, visto que se trata de documento redescoberto, e de compará-lo com o Compendio rhetorico (1794), de Bento Rodrigo Pereira de Soto-Maior e Menezes, a fim de compreendermos as mudanças da reflexão retórica em Portugal nas primeiras décadas do século XIX. No caso do segundo, iremos estabelecer seus principais assuntos e temas, bem como discutir alguns pontos que nos parecem insuficientemente abordados na bibliografia contemporânea sobre a obra - sem a expectativa, porém, de esgotá-los.
Indeterminação e insondabilidade (1826)
Elementos de retorica en castellano y latin (SALDANHA, 1826) é um livro esquecido. Publicado durante a estada final do autor no norte da então República da Grã-Colômbia (território que pouco depois viria a se tornar a Venezuela), dele se conhece apenas um exemplar, recuperado pelo bibliófilo Rubens Borba de Moraes e hoje depositado na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da Universidade de São Paulo (ANTUNES, 2017, p. 128). Na ocasião de sua consulta, em fevereiro de 2024, ele apresentava perfeito estado - evento raro e alegre para nós, que conhecemos tão bem as agruras do trabalho de recuperação de documentos poéticos brasileiros antigos. Além de sua importância para o estudo da obra de Saldanha, ele oferece uma chance única para visualizarmos as ideias retóricas que circulavam pelos letrados locais da última geração predominantemente formada em Coimbra - pois, como aponta José Murilo de Carvalho (2008, p. 72), após a criação dos cursos de direito em São Paulo e Olinda em 1828, o número de estudantes emigrados caiu de forma drástica.
O volume, em formato in-octavo e produzido em papel de boa qualidade (apesar de irregularidades menores), é costurado e encadernado. Ele conta com 291 páginas, divididas em três seções, “De la invencion”, “De la disposicion” e “De la elocucion” (a mais longa, ocupando cerca de dois terços do impresso), além de um prólogo e de uma introdução geral, chamada “Preliminares”. Em sua folha de rosto, o nome do autor surge grafado como “J. de la Natividad Saldanha” e há uma indicação de sua graduação em “derecho civil, &c”. A datação é veiculada como “1826-16”, igualmente utilizada em outras publicações da Imprenta de Devisme hermanos daquele ano, como nos tomos da Coleccion de documentos relativos a la vida pública del libertador de Colombia y del Peru Simon Bolivar (1828), a despeito de não compreendermos seu sentido.
O prólogo, de pendor político claro, constrói um breve parâmetro de uso e uma história da retórica. Nele, o autor defende que a oratória detém uma “íntima conexion com la libertad” e que, por essa razão, ela não pode “cultivarse ni florecer donde reina la arbitrariedad, donde el poder supremo se confia á uno solo, pues este gobierno por su natureleza, quita á la elocuencia todo influjo em los negocios públicos” (SALDANHA, 1826, p. v). Após uma citação da introdução de Filosofía de la elocuencia, do espanhol Antonio de Capmany y de Montpalau (obra publicada originalmente em 1777 e reeditada de maneira rotineira nas décadas seguintes), Saldanha prossegue em sua argumentação da relação entre retórica e liberdade até citar suas principais referências para a feitura do trabalho - “Ciceron, Quintiliano, [Dominique] de Colonia, &c. [...], [Hugh] Blair, [Charles] Batteux, y Capmany” (SALDANHA, 1826, p. ix) - e encerrar afirmando seu desejo de auxiliar na formação de homens “afables y morigerados” (SALDANHA, 1826, p. xii).
Essa postura é notavelmente diversa daquela defendida pelos manuais portugueses anteriores. No Compendio rhetorico, de Bento Rodrigo Pereira de Soto-Maior e Menezes, publicado em 1794, afirma-se, ainda de acordo com a proposição pombalina feita em 1759 (INSTRUCÇÕES..., 1759, p. 14-18), que a retórica
... he huma Colesão das observasoens, que como axióma fizerão os homens doutos, para servir ao Orador de norma pratica, e activa, que lhe dese regras, para a perfeisão dos seus discursos, e compozisão das suas Orasoens. [...]
[A filosofia racional] nos encina a discorrer com raciocinio; e dá regras, com que se cultivão as luzes da razão: e [a retórica] faz pôr em pratica o fruto das mesmas luzes cultivadas; e dá normas, para nos explicarmos com ordem, pureza, e elegancia. (MENEZES, 1794, p. 3-4).
Apesar de uma aparente ausência de discurso político, a racionalidade das “luzes cultivadas” que busca por “ordem, pureza, e elegancia” é típica do processo que José Subtil (2020, p. 20-21) chama de Estado de Polícia, que, após o terremoto de Lisboa em 1755 e a Lei da “Boa Razão”, de 1769, instituiu aparatos administrativos centralizadores que romperam, em parte ou totalmente, com as teorias corporativistas. Além da diferença primordial ideológica óbvia entre um republicano oitocentista liberal e um súdito setecentista do Império Português, nota-se, na publicação de Menezes, a ausência, com exceção de menções esparsas a Camões, de autores modernos - apesar de o mesmo não ocorrer no Compendio da rhetorica portugueza, escrito por Antonio Teixeira de Magalhães (1782, p. 22-23), no qual, por exemplo, o autor fala sobre Boileau.
Saldanha, por sua vez, recupera o jesuíta Dominique de Colonia, autor de Arte Rhetorica Libri Quinque (1710, mas provavelmente lido em uma reedição feita em 1817, na cidade de Lyon), além de dialogar com nomes próximos, como Charles Batteux, responsável por Les quatre Poëtiques: d’Aristote, d’Horace, de Vida, de Despréaux (1771) e Principes de la littérature (1774), e Hugh Blair, escocês que redigiu Lectures on Rhetoric and Belles Lettres (1783). Ao longo do volume, é possível encontrar referências sobretudo a autores franceses, dos quais Saldanha aparenta ter conhecimento enciclopédico3, e, em especial, de Jacques-Bénigne Bossuet, nome destacado em várias oportunidades. As numerosas citações de espanhóis4 são explicadas pela consulta da Biblioteca selecta de la literatura española, o modelos de elocuencia y poesia, publicada em tomos por P. Mendibil e M. Silvela em 1819 (SALDANHA, 1826, p. 284). Todavia, o grosso dos exemplos são retirados, sem surpresa, dos clássicos latinos e gregos - Plutarco, Ovídio, Cícero, Horácio, Marcial, Virgílio, Quintiliano, Aristóteles, Demóstenes e Catulo. Repara-se a falta de luso-americanos, brasileiros e portugueses, exceto por breves alusões a Camões, o que pode ser explicado pela impossibilidade física de acesso ao material desses autores.
Malgrado o estrondoso início do volume, logo ele se aproxima de um tom mais rotineiro. Saldanha apresenta os três gêneros aristotélicos tradicionais (demonstrativo, deliberativo e judicial, além do didascálico) e as cinco partes da retórica (invenção, disposição, elocução, memória e pronunciação), discorrendo longamente sobre cada uma delas e seus mecanismos. Aqui, mais uma vez, ele difere de Menezes, que utiliza apenas quatro (excluindo a memória), por ser a divisão mais “seguida, e [...] na verdade a mais racional” (MENEZES, 1794, p. 7). A narração, parte da disposição, é descrita como uma “exposicion clara, breve, y sencilla del negocio, ó cuestion sobre que se contiende”, com qualidades de “claridad, brevedad, y verosimilitud” (SALDANHA, 1826, p. 43), dividida entre “historial, oratoria, y poética” (SALDANHA, 1826, p. 46). A poética é “muy libre, puede no guardar el orden del tiempo, admite mucha variedad de figuras y sentencias” (SALDANHA, 1826, p. 46). Em Menezes, ela surge dentro do campo da elocução, sendo uma “fórma de Orasão dirigida, e propria a pintar a natureza, e carater das couzas, e pesoas, pela maneira mais agradavel, que se póde conciderar” (MENEZES, 1794, p. 85-86).
Saldanha (1826, p. 125) descreve as figuras, que podem ser de palavra ou de sentença (ou pensamento), como aquilo fora do estilo comum de fala e que serve para trazer beleza ao discurso, “dar alma á las cosas inanimadas, y cuerpo á los pensamientos, como no sean afectados ó inconsecuentes”. Menezes (1794, p. 140) oferece notícia semelhante. Para Saldanha, as figuras de sentença possuem três classes, mobilização, deleite e educação, cada qual com suas muitas subdivisões (SALDANHA, 1826, p. 127-157). Já as de palavra são separadas em tropos quando o sentido do termo não é precisamente seu, e “simplemente figuras” (SALDANHA, 1826, p. 158). O tropo mais comum é a metáfora, “cuando el sentido propio de uma palabra se trasfiere en outro que no le conviene sino por alguna comparacion que el entendimento hace de los dos” (SALDANHA, 1826, p. 162). O autor aplica uma forma simples das categorias aristotélicas de construção metafórica, ignoradas por Menezes, e algumas das regras de Quintiliano, evitando, porém, a extrema complexidade dos preceitos seiscentistas de agudeza e apontando vícios que devem ser afastados (SALDANHA, 1826, p. 164-175). Mais adiante, ele comenta sobre a alegoria, utilizando-se do exemplo da nau do Estado de Horácio, provido por Platão e Quintiliano. O essencial aqui é a conservação da imagem da qual partem as primeiras expressões por meios análogos (SALDANHA, 1826, p. 190-194).
Após esse percurso, chegamos, por fim, aos tópicos que mais nos interessam, pois estão diretamente relacionados à poesia e à produção do poeta pernambucano: as questões do sublime e do gosto. Partindo das leituras de Longino, Blair, Batteux, Boileau e Marmontel, Saldanha - que parece seguir o discurso português comum sobre o tema, como o de Correia Garção (BORRALHO, 2021, p. 57-66), ainda que sem reconhecer -, afirma incerteza de lidar com a ideia de sublime, “pues consiste em muchas cosas, de las cuales son algunas inexplicables” (SALDANHA, 1826, p. 241). Sua hipótese deriva da nobreza das expressões, do uso singular e elevado dos pensamentos e da grandeza do tema tratado (SALDANHA, 1826, p. 243) para gerarem um efeito no leitor ou ouvinte, “al cual es dificil resistir, y cuando el recuerdo que nos deja es permanente” (SALDANHA, 1826, p. 249). Menezes (1794, p. 121-124) trata o problema de modo objetivo ao entregar definições claras e categorias, sem demonstrar qualquer dubiedade.
O gosto, que não é discutido por Menezes, segue de maneira igual no território das definições quase abstratas, tomando o rumo da sensibilidade (SALDANHA, 1826, p. 256). Sobre ele, Saldanha (1826, p. 257) recomenda a leitura do “Essai sur le goût dans les choses de la nature et de l’art”, de Montesquieu, publicado postumamente no tomo 7 da Encyclopédie (1757), dirigida por Denis Diderot, bem como de Blair, que versa sobre o gosto como delicadeza (a perfeição da sensibilidade) e correção (a melhora que a sensibilidade recebe ao ser auxiliada pelo entendimento). Relembramos que esse conceito fora introduzido, ainda que, em aparência, não tenha repercutido inicialmente, ao público falante de língua portuguesa pelas traduções de Manoel de Freitas Brasileiro (1813), a partir de Joseph Addison e outros britânicos.
As articulações do sublime e do gosto, assim como a dimensão política do prólogo, marcam os graus de transformação que a retórica sofreu em Portugal em pouco mais de três décadas, entre 1794 e 1826. A principal mudança reside na abertura para procedimentos de linguagem e de elocução que constituam um caráter indeterminado, isto é, que não possam ser definidos estritamente por pressupostos de racionalidade, estes centrais na construção teórica, ainda afilhada às reformas pombalinas, de Menezes. Quando Saldanha diz não saber explicar com minúcia o sublime ou o gosto, ele aceita uma insondabilidade dentro de um regime normativo prático - insondável este que a historiografia da poesia confundiu, em inúmeras ocasiões, com uma meandrosa ideia anacrônica de “pré-romantismo”. Todavia, o que se apresenta é um quadro profundo, no qual atores como Saldanha estão em busca de uma articulação possível em um mundo cujas mudanças são incessantes. Por mais que ele possa designar, com apoio nas autoridades clássicas, uma dezena de categorias de figuras, há algo que, fora de controle, escapa.
Permanência e impermanência (1822)
Poemas oferecidos aos amantes do Brazil (SALDANHA, 1822), com seu curioso título ambíguo (pois pode ser lido, em uma ambivalência semântica que parece proposital, de duas maneiras: os amantes que vivem no Brasil ou aqueles que amam o Brasil), é composto, seguindo a tradição dos livros de poesia portugueses setecentistas, de uma disposição lógica de formas e de estruturas: uma seção inicial de quarenta e um sonetos, seguida por quatro odes pindáricas, outras doze odes simples (uma traduzida de Horácio), quatro odes anacreônticas, duas cantatas religiosas, dois ditirambos, dois idílios (um deles em prosa), quatro epigramas (um traduzido de Marcial) e um epílogo. Entretanto, sua organização não efetiva, no nível de assuntos, conjunto coerente, visto que o material é uma coletânea de peças escritas em diferentes momentos. Para avançar a análise, dividimos os assuntos em sete grupos, apesar de relativos entrecruzamentos:
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A glorificação do Império Português:
“A Bartomoleu Dias”; “A D. Inez de Castro”; “Ao mesmo asunto...”; “Á Aclamação do Sr. D. João VI”; “Na sentida morte de Sua Magestade a Rainha D. Maria I” (SALDANHA, 1822, p. 3; p. 7; p. 8; p. 11; p. 19).
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A amizade:
“Ao Tenente Antonio de Padua Vieira Cavalcanti...”; “Feito aos Srs. Francisco do Rego Barros, Sebastião...”; “Ao Sr. Francisco do Rego Barros no fim de um ano letivo”; “Ao Sr. Miguel Joaquim de Almeida e Castro, otimo Orador”; “Aos anos de um meu Amigo, o Sr. Francisco do Rego Barros; “Ao Sr. José Francisco Toledo”; “Ao Sr. Cadete Sebastião do Rego Barros em 1818”; “Ao Senhor Manoel Odoríco Mendes”; “Ao Senhor Jozé Francisco de Paula”; “Ao Senhor Antonio Joaquim de Melo”; “Aos anos de um Amigo”; “Ao R. Senhor Francisco Jozé Tavares Gama”; “Ao Senhor Jozé Francisco Toledo”; “Ao Senhor Manoel Carlos Velozo”; “Ao Senhor Francisco Carneiro Maxado Rios” (SALDANHA, 1822, p. 4; p. 17; p. 29; p. 30; p. 31; p. 34; p. 40; p. 89-90; p. 91-93; p. 94-95; p. 96; p. 97-99; p. 102-103; p. 104-105; p. 121-123).
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O bucolismo e a lira amorosa:
“Depois de aver contente protestado”; “Marcia! Marcia! ai de mim! está xegado”; “Os teus olhos gentís, encantadores,”; “Em vão, meu caro amigo, acautelado”; “Se no seio da Patria carinhoza,”; “Saudozos versos meus, que disterrado”; “Aquela, que na flor da Primavera”; “Noite, noite sombria, cujo manto”; “É Amor, ó mortaes, inda menino,”; “De gloria xeio, se de pó tingido,”; “Do Gnidio Nume o fogo devorante”; “Ceos! que silencio triste, que respira”; “Ao Sr. Manoel Ferreira Portugal”; “Canta o Pastor na Patria reclinado”; “Ao sacro Templo de Iminêo guiava”; “Saudozo bosque, rustica espesura,”; “A Parca dos mortaes pavor, e susto,”; “Eu deci á marmórea sepultura,”; “Já no roxo Oriente da existencia”; “A leitura da Novela = Paulo, e Virginia = me forçou a compor este Soneto”; “A uns anos”; “Mote dado, e glozado de repente n’um Oiteiro em Santa Clara”; “Ao Senhor Antonio Bento Pereira Anes Barreiros...”; “Á um Rouxinol”; “O galo de campina”; “O xexéo”; “O ponxe de caju”; “Nada tenho, nada quero;”; “Báco! é tempo: xegou a Primavera;”; “Vem, minha lira, vem carpir os males”; “Jozino, e Clóe” (SALDANHA, 1822, p. 5; p. 6; p. 9; p. 10; p. 13; p. 14; p. 18; p. 20; p. 21; p. 22; p. 23; p. 28; p. 32; p. 33; p. 35; p. 36; p. 37; p. 39; p. 41; p. 42; p. 43; p. 44; p. 77-83; p. 87-88; p. 106-107; p. 108-109; p. 110-111; p. 112; p. 124-126; p. 127-129; p. 130-134).
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A glorificação da pátria (Pernambuco ou Brasil):
“Á Mocidade Pernambucana...”; “Ao Sr. Antonio Joaquim de Melo”; “Ao mesmo Senhor no dia aniversario da restauração de Pernambuco”; “Ao mesmo Senhor”; “Á André Vidal de Negreiros...”; “Á D. Antonio Filipe Camarão...”; “Á Enrique Dias...”; “Ao Mestre de Campo Francisco Rebelo...”; “Ao Ilustrisimo e Reverendisimo Senhor Francisco Moniz Tavares” (SALDANHA, 1822, p. 12; p. 25; p. 26; p. 27; p. 45-52; p. 53-59; p. 60-65; p. 66-73; p. 74-76).
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A religião:
“Qual de Abrahão o mimozo decendente”; “Da estrondoza trombeta o som tremendo,”; “Ao Natal”; “Á Resurreição” (SALDANHA, 1822, p. 24; p. 38; p. 113-117; p. 118-120).
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Diversos:
“A um Réo de morte” (p. 15); “Ao mesmo asunto, não querendo o Réo confesar-se”; “Á morte de Napoleão Bonaparte”; “Tua Mãe veio á Roma? (Augusto dise”; “Elmiro se é fraco n’uma,”; “Tu dizes, que o meu Poema”; “Á Patria, e os meus Amigos” (SALDANHA, 1822, p. 16; p. 85-86; p. 135; p. 135; p. 135; p. 136).
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Traduções:
“Tradução da Ode 3 do Livro 4 de Oracio”; “Os versos, que tu recitas,” (SALDANHA, 1822, p. 100-101; p. 135).
Os discursos, de modo eventual, ganham tom contraditório. O exemplo mais claro está no soneto “Á aclamação do Senhor D. João VI” (evento ocorrido em 1818), em que a persona defende o monarca e o seu direito à violência - “Empunha, ó Rei supremo, um cetro augusto/ De teus claros Avós c’o sangue erdado;/ Cinge o Regio diadema não manxado,/ Terror do Ganges, e do Idaspe susto” (SALDANHA, 1822, p. 11) -, para logo depois, na página seguinte, louvar a “Mocidade Pernambucana, que se alistou em o ano de 1817”, marcando sua posição em favor dos revolucionários por meio da citação dos nomes de André Vidal de Negreiros e Enrique Dias:
Filhos da Patria, jovens Brazileiros,
Que as bandeiras seguís do Marcio Nume,
Lembrem-vos Guararápes, e ese cume,
Onde brilharão Dias, e Negreiros.
A discrepância estabelece uma problemática grave para uma leitura estritamente política, como aquela empregada por Regina Zilberman e Henrique Machemer (2023). Notamos, ainda, que Saldanha vivia, em 1822, em um espaço acadêmico e de sociabilidade da Universidade de Coimbra amparado sob o furor da Revolução Liberal do Porto ocorrida em agosto de 1820, cujo clima eufórico, embrenhado em disputas internas (CRUZEIRO, 1994), gerou, inclusive, uma publicação de peças poéticas dos alunos (COLLECÇÃO..., 1821). Sua escolha, portanto, pelo bucolismo - no qual ele adota, por vezes, a persona do pastor Josino (SALDANHA, 1822, p. 29, p. 32, p. 36, p. 39, p. 130-134), talvez influenciado por José Daniel Rodrigues da Costa, ou do Cisne (SALDANHA, 1822, p. 14, p. 25, p. 32, p. 34, p. 52, p. 52, p. 60, p. 68, p. 101) -, em rejeição das tópicas poéticas de temas e assuntos liberais e constitucionalistas que eram trabalhadas naquele mesmo ambiente por nomes como Almeida Garrett, revela que algo mais profundo ocorre em sua produção, algo não apenas circunscrito em seu aparato ideológico. Por mais que este se apresente de modo objetivo em algumas passagens - como em “Asim vivem Washington, e Franklin/ Asim vives, ó Páe da Pensilvania,/ Cujo nome não póde sem ternura/ Ouvir a umanidade” (SALDANHA, 1822, p. 76), que afirma a inclinação federalista que seria posteriormente exposta pelo autor em 1824 no periódico Argos Pernambucano (FONSECA, 2013, p. 102) -, o arranjo geral aponta para outra direção.
De todo modo, o poeta demonstra guardar consciência da maneira de apresentação de sua obra, em especial nas três epígrafes que a abrem. A primeira, mais destacada, vem de uma elegia de Tibulo: “Phoebe, fave, novus ingreditur tua Templa Sacerdos” (SALDANHA, 1826, s. p.) - ou “Febo, sê justo! Um novo sacerdote adentra” (ALVES, 2014, p. 58); a segunda, da safra do quinhentista António Ferreira, se refere diretamente a Saldanha e seus estudos universitários: “Não fazem danos as Musas aos Doutores/ Antes ajuda ás suas letras dão” (SALDANHA, 1826, s. p.); a última, por fim, que provém de um epigrama de Marcial, apela para o humor: “Sunt bona, sunt quaedam mediocria, sunt mala plura/ Quae legis hic; aliter non fit, Avite, liber” (SALDANHA, 1826, s. p.) -“Dos poemas aqui lidos, há bons, outros medíocres e alguns piores ainda; mas, sem isso, o livro não existe, vovô”, em tradução livre. Saldanha, assim, aceita sua posição de iniciante, “novus Sacerdos”, para o qual a ambiguidade (como a do título) e a contradição dos discursos são possíveis. Ao optar por nomes menos centrais para a tradição, como Tibulo e Ferreira, ele também reconhece sua própria dimensão marginalizada diante do rol de autoridades passadas.
De acordo com a desalinhadora variação de assuntos, a obsessão temática bastante óbvia pela morte - termo repetido ao longo do volume, junto de sua variação “Parca”, mais de 60 vezes - igualmente segue o pressuposto definidor da contradição, pois estabelece, em seu seio, uma disputa entre duas atitudes relativas ao tempo, a saber, permanência e impermanência (ou, em outros termos, o Tempus fugit virgiliano e a sua oposição). A repetida figuração da persona como Cisne, imagem própria daquilo que está prestes a morrer (LUSITANO, 1820, p. 186), reforça ainda mais esse sentido.
Vejamos o epílogo:
Patria minha, e de Eróes! Eis meus Poemas
Vão buscar em teu seio acôlho, abrigo;
No seio em que os cantei, bem que debalde
Roubar-mos pertendêra infame Déspota. (a)
Aceita-os, Patria! E neles vê pintado
O amor de um filho, que de o ser tem gloria:
Recebe cultos: para mim es Nume.
Qual fui outr’ora, sou ainda o mesmo.
E vós amigos, que lereis meus versos,
Aceitai-os tambem: á vós, á Patria,
Meus disvelos, meus dias ei votados.
Vêde: nos versos meus Eróes já vivem,
Eróes, que o Tempo submergiu no Letes.
Recebei um penhor do eterno laço,
Amigos, que me onrais, que onrais meus versos.
Fora o quarto verso, que se indica, em nota de rodapé, ter “aluzão particular” (e que a nós parece se referir ao conservador Afonso de Albuquerque Maranhão, que substituiu Gervásio Pires na junta do governo pernambucano em setembro de 1822), o poema pede acolha e honra da coleção, ao passo que sintetiza os assuntos vistos no volume: os amigos, a pátria e dela seus heróis. Porém, em outro circuito, menos direto, ele aponta tanto para a permanência das coisas no tempo (“Qual fui outr’ora, sou ainda o mesmo”), como para a recuperação daquelas que nele foram perdidas: os heróis, submergidos no Letes, que vivem agora nos versos - essa figura do rio do esquecimento já percebida por Amy Caldwell de Farias (2006, p. 137-138). Situações semelhantes surgem em outros momentos, como nos tercetos do soneto “Ao Sr. Antonio Joaquim de Melo” - “Eu, em candido Cisne transformado,/ Sobranceiro a uma fama tranzitoria,/ Á morte sobranceiro, ao Tempo, ao Fado; // Vou, mimozo Cantor das Muzas gloria,/ Estampar o teu nome celebrado/ Nos brilhantes altares da Memoria” (SALDANHA, 1822, p. 25) - ou nas odes voltadas para aqueles que combateram contra os holandeses no século XVII - “Levemos dos Eróes Pernambucanos/ A rutilante gloria/ Ao Templo sacrosanto da Memoria:/ Não deixemos em mudo esquecimento/ Tantos Varões famozos,/ Que da inveja a pezar em toda a idade/ Entregárão seu nome á Eternidade” (SALDANHA, 1822, p. 48).
De igual maneira, Saldanha fará uma relação de permanência e de recuperação com poetas luso-americanos de mesma formação coimbrense, como o carioca Manoel Inácio da Silva Alvarenga - vide a semelhança entre “Ponxe de caju” (SALDANHA, 1822, p. 110-111) e o rondó 33 “O cajueiro do amor” (ALVARENGA, 1799, p. 124-127), esse interessante símbolo, como diz Fernando Lima e Morato (2019, p. 311), de renascimento e refundação poéticas. Em outra esfera, ele modificará sentidos. O desterramento em suas próprias Minas Gerais, pelo qual sofre um Cláudio Manuel da Costa (ALCIDES, 2003, p. 77-136), aqui será invertido no soneto “Canta o Pastor na Patria reclinado” (SALDANHA, 1822, p. 33) e no idílio “Vem, minha lira, vem carpir os males” (SALDANHA, 1822, p. 127-129), duas das melhores composições do conjunto; já o pastor orgulhoso de suas posses, que abre Marilia de Dirceu vestido na brancura da lã das ovelhinhas (GONZAGA, 1792, p. 5), vive aqui sem ambições, satisfeito apenas com “a lira encantadora/ Do sonoro Anacreonte” (SALDANHA, 1822, p. 112).
Todavia, em outras situações, a presença do tempo é destruidora, como na ode “Ao Ilustrisimo e Reverendisimo Senhor Francisco Moniz Tavares, Deputado ás Côrtes pela minha Provincia, e meu Amigo” - “O primeiro momento da existencia/ É o paso primeiro para a morte;/ Apareceu o seu fim, sem nós sabermos/ Se avia começado.// Á tudo estende o Tempo seu imperio;/ E asim como acabou Cambises, Xerxes,/ Babilonia acabou, e oje Palmira,/ É montão de ruinas” (SALDANHA, 1822, p. 75-76) - ou na ode “Ao Senhor Antonio Bento Pereira Anes Bareiros, Estudante do Terceiro Ano de Leis” - “Oh Tempo! Eu reconheço/ Teu sêlo impreso nestes monumentos,/ E eu te vejo em silencio,/ Sentado entre ruinas,/ Demolindo Persepolis, Cartágo/ Tébas, e Menfis, Tiro e Babilonia” (SALDANHA, 1822, p. 81). Aqui, na dimensão daquilo que é ruinoso e já não pode mais ser recuperado ou pescado do Letes, a impermanência revela seu quadro inteiro, suscitando sombra intensa.
No jogo de contradições e ambiguidades que estabelecem o funcionamento central de Poemas oferecidos aos amantes do Brazil (do qual a morte é tema central, sustentado por uma miríade de assuntos), a poética bucólica tardia de Saldanha (1822) acaba por se apresentar como um aparato liminar da transformação das lógicas setecentistas. Amparado por suas pátrias, Pernambuco e Brasil, o poeta e suas personae - o pastor Josino e o Cisne -, desterradas em Coimbra, buscam lidar, em nível profundo, com as dimensões de permanência e de impermanência do tempo, utilizando desde autoridades clássicas, como Virgílio e Horácio, a modernas, como Salomon Gessner e Antoine-Léonard Thomas (SALDANHA, 1822, p. 83-84). Nessa mistura, firmemente amarrada pelos preceitos vistos em Elementos de retorica en castellano y latin (SALDANHA, 1826), certo caráter distinto desponta, ao mesmo tempo que, do outro lado do Atlântico, movimentos antes impensáveis alteram, de forma decisiva, os mecanismos sociais e políticos de todo o universo português.
Considerações finais
Neste artigo, buscamos introduzir algumas ideias relativas à obra conhecida (e agora recuperada) de José da Natividade Saldanha. Nessa empresa, definimos seu trabalho em torno de quatro conceitos: pela via retórica, a indeterminação e a insondabilidade em aspectos nos quais o aparato tradicional português aparenta não dar conta, como as questões do sublime e do gosto; pela via poética, a contradição e a ambiguidade em uma produção que, apesar de lidar com um circuito político evidente, é fixada pelos sentidos de permanência e de impermanência temporais. Esperamos que esta análise (ainda, reconhecemos, rala) possa suscitar, no futuro, leituras menos biográficas do poeta, que respeitem a erudição e a complexidade de seu pensamento. O estudo de suas métricas e ritmos, bem como de seu entendimento de figuras e tropos, pode, cremos, tornar mais clara a experiência de sua poesia naquele radical momento.
Referências
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» https://doi.org/10.25094/rtp.2023n40a1022
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Agradecemos à equipe da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da Universidade de São Paulo, pelo auxílio na consulta do material. Nas citações foram mantidas a grafia e a pontuação dos textos originais.
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Surgem citados Honoré Gabriel Riqueti, Esprit Fléchier, Henri François d’Aguesseau, François Fénelon, Nicolas Boileau-Despréaux, Étienne Bonnot de Condillac, Molière, Vincent Voiture, Jean Racine, Pierre Corneille, Antoine-Léonard Thomas, Jean-François Marmontel, Montesquieu e Évariste de Parny.
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4
Surgem citados Manuel Cedeño, Tomás de Iriarte, Gregorio Mayans, Gregorio Garcés, Félix Varela, Quevedo, Salvador Jacinto Polo de Medina, Gaspar María de Nava Álvarez, Pablo Pedro Astarloa, Torcuato Torío de la Riva, Luis de León, Diego Hurtado de Mendoza, Diego de Saavedra Fajardo e Mariano Madramany y Calatayud.
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RODRIGUES, Bruno Gomes. O tardio pastor Josino (também conhecido como José da Natividade Saldanha ou Cisne) nos desterros de sua pátria Pernambuco entre 1826 e 1822. Rev. Inst. Estud. Bras. (São Paulo), n. 93, 2026, e10775.
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Os conjuntos de dados gerados e/ou analisados durante o estudo atual estão disponíveis no manuscrito e em materiais suplementares.
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