RESUMO
No presente artigo, reunimos nomes de foliões identificados nos Maços de População da Capitania e da Província de São Paulo referentes ao período de 1765 a 1850. Esses registros constituem um raro testemunho de uma atividade musical de tradição oral nos períodos colonial e imperial. Cruzando os dados obtidos com a documentação paroquial das respectivas localidades, esboçamos resumos biográficos desses foliões a fim de compreender quem eram essas pessoas, seu entorno familiar, suas formas de subsistência e como a atividade de folião se inseria em suas vidas.
PALAVRAS-CHAVE:
Foliões; Folia do Divino; música popular na São Paulo colonial
ABSTRACT
In this article, we have assembled the names of foliões identified in the censuses of the Captaincy and the Province of São Paulo for the period between 1765-1850. These records constitute a rare testimony to an oral tradition musical practice in the colonial and imperial periods. By cross-referencing the data obtained with the parish records of the localities where they lived, we have reconstucted the biographies of these foliões in order to understand who these individuals were, their family environment, their ways of living, and what the activity of folião represented in their lives.
KEYWORDS:
Foliões; Folia do Divino; popular music in colonial São Paulo
Este artigo constitui um dos resultados da pesquisa intitulada “Música e musicistas nos Maços de População da Capitania e da Província de São Paulo (1765-1850)”3, cujo objetivo é reunir e analisar todos os dados referentes à prática musical e aos indivíduos atuantes nesse campo, que se encontram ali registrados - muitos deles ainda desconhecidos pela historiografia da música. Entre as ocorrências identificadas, destacam-se registros de pessoas cuja ocupação principal é descrita como “folião”, alguns dos quais associados especificamente às festividades dedicadas ao Divino Espírito Santo.
Surgido na Idade Média, o culto ao Espírito Santo - uma das manifestações divinas da Trindade oficializada no Concílio de Niceia (325 d.C.) e no Concílio de Constantinopla (381 d.C.) - originou celebrações tanto litúrgicas quanto paralitúrgicas, que foram rapidamente transferidas ao Brasil com o avanço da ocupação portuguesa. A Semana de Pentecostes (Hebdomada Pentecostes) começava no Domingo de Pentecostes (sete semanas após o Domingo de Páscoa) e era preparada pela Vigília do Pentecostes no dia anterior, terminando no sábado seguinte. Na vigília eram publicamente celebradas as Matinas e, no domingo, a Missa e as Vésperas e Matinas, cantadas com polifonia e/ou cantochão, também previstas para os demais dias da Semana de Pentecostes. Em português também denominada “Divino Espírito Santo” e coloquialmente apenas “Divino”, a festa de Pentecostes no Brasil incluía, desde pelo menos o século XVIII, formas paralitúrgicas ou populares de devoção, como a Novena do Espírito Santo e as Folias do Espírito Santo, estas celebradas nas ruas, sem sacerdote, com cânticos em português e acompanhamento de violas e outros instrumentos, geralmente externos à música litúrgica.
As festas populares do Divino apresentam marcada presença de elementos paralitúrgicos, entre os quais se destaca a eleição de um imperador e uma imperatriz, que “reinam” durante o período de celebração. As “Folias do Divino”, segundo Elis Regina Barbosa Angelo, são
[...] apresentadas por meio da organização de pequenos grupos de até cinco pessoas, os Foliões do Divino, [que] preparam tanto os encontros quanto algumas das Festas do Divino propriamente ditas. Na sua ritualística, começam visitando as casas das zonas rural e urbana, e assim vão dançando e cantando os feitos e os poderes do Divino Espírito Santo, recolhendo donativos e fazendo orações, e também angariando fundos para sua celebração. (ANGELO, 2023, p. 346-347).
De acordo com Affonso A. de Freitas, o grupo tradicional de foliões, ao menos em inícios do século XX, seria constituído “de um ou dois violeiros, de um tocador de tambor e de diversos rapazolas tocadores de pandeiro e ferrinhos” (FREITAS, 1927, p. 120), como nas figuras 1 e 2, lembrando que existem também as Folias de Reis (no Dia de Reis ou Epifania, em 6 de janeiro) e folias em louvor a outros santos, como São Gonçalo, São Benedito, São Sebastião e Sant’Ana (LOURENÇO, 2014, p. 70).
Tinhorão (2000, p. 151) lamenta a ausência, nos arquivos musicais, de registros das harmonias que animavam as festividades do Brasil colonial. Contudo, em razão de sua natureza oral, essas musicalidades populares - entre as quais se incluem as folias - dificilmente deixariam registros escritos. Um achado incomum foi efetuado por Fernando Lacerda Duarte e Paulo Castagna (2018, p. 168), que estudaram um manuscrito musical de Catas Altas (MG), datado de 1855, e outro sem data, nos quais se encontra a letra de uma Folia do Divino junto às partes vocais de uma missa e de um responsório das Matinas de Pentecostes, o que sugere a ausência de oposição entre a liturgia solene e as manifestações do catolicismo popular. Algo semelhante ocorreria também na Europa, segundo Giulia Gabrielli, que identificou, em um manuscrito medieval sul-tirolês4, a descrição de uma procissão na qual aparece a anotação “das überige singen die Pauren”5, sugerindo que parte da celebração era assumida por práticas paralitúrgicas populares. A anotação, contudo, é uma adição posterior à produção do manuscrito, sendo provavelmente dos séculos XVI ou XVII (GABRIELLI, 2019, p. 277-279). (Figura 1 & Figura 2)
Festa do Divino por Miguelzinho Dutra, 1841, aquarela sobre papel, 348 x 240 mm, MR241, acervo do Museu Republicano de Itu. Fonte: Wikimedia (2025). Cumpre ressaltar que a maior parte dessas imagens não é necessariamente da folia em si, mas da coleta de esmolas na cidade para a festa em bairros mais afastados ou em zona rural.
Perspectivas históricas nos estudos sobre folias e foliões
É extremamente raro encontrar registros de músicos populares no período colonial. Em geral, apenas aqueles poucos que tiveram acesso aos salões da aristocracia alcançaram lugar na historiografia musical - como Domingos Caldas Barbosa (1740-1800) e suas modinhas. Somente a partir do início do século XX, com o florescimento das disciplinas de antropologia e etnologia - e de seus equivalentes no campo musical, a antropologia da música e a etnomusicologia -, esses repertórios, bem como seus praticantes, passaram a constituir objeto de estudos sistemáticos. Via de regra, tais estudos descrevem e documentam as folias contemporâneas a partir da observação direta dos autores, sendo raros os trabalhos que oferecem uma perspectiva histórica sobre esses fenômenos.
No que concerne à Festa do Divino, Beatriz de Magalhães (2001) analisa a celebração de Sabará, considerada uma manifestação legitimamente popular, o que explicaria sua longevidade na tradição mineira em contraste com outras festas de cunho mais oficialista; entretanto, a autora não se detém nas folias. Jurandyr Ferraz de Campos (2013) discorre sobre as origens remotas da celebração e seus primeiros registros em Mogi das Cruzes para, em seguida, descrevê-la em seus vários desdobramentos - incluindo as folias - tal como se apresenta atualmente. Já no estudo de Fernando de Oliveira Moraes (2003), as informações sobre a Festa do Divino na cidade resultam de recolhas realizadas ao final da década de 1990. A perspectiva histórica sobre as folias do Divino é oferecida a partir do depoimento de um ancião, Seu João Manoel Nascimento, de 94 anos, seguido de uma descrição da prática recente.
Embora não tenhamos encontrado menções específicas a folias de Reis entre os foliões por nós estudados, não se pode descartar a possibilidade de que eles também atuassem durante o ciclo de Reis. Da literatura sobre o tema, destacam-se A Folia de Reis de Mossâmedes (1977), de Carlos Rodrigues Brandão, e Voices of the Magi (2002), de Suzel Reily. O primeiro, estudo de grande repercussão publicado pela então recém-criada Funarte, constitui um dos pioneiros na descrição detalhada do ritual, oferecendo um breve histórico sobre Mossâmedes, seguido da caracterização das folias observadas pelo autor. No segundo, Reily desenvolve uma análise comparativa das práticas dos foliões ativos nos estados de São Paulo e Minas Gerais, com o mérito adicional de transcrever musicalmente algumas das “toadas” em polifonias de até sete vozes.
Um dos raros estudos a fornecer uma perspectiva histórica sobre as Folias do Divino é o de Martha Abreu (2000). A autora utiliza menções literárias - como as de Manoel Antônio de Almeida, em Memórias de um sargento de milícias (1854), que descreve foliões juvenis os quais tocavam pandeiro, machete e tambor - e explora relatos de viajantes estrangeiros, entre os quais o reverendo Walsh (1830, v. II, p. 404-405), que entre 1828 e 1829 registrou a eleição de um imperador do Divino, mencionando apenas a existência de uma “banda de música” cuja execução era “muito alegre”. A autora menciona também o escritor e desenhista nova-iorquino Thomas Ewbank, que em 1846 testemunhou a atuação de foliões do Divino no Rio de Janeiro, observando como cidadãos de diferentes camadas sociais prestavam seu respeito aos símbolos do Espírito Santo que aqueles carregavam. Os esmoleres partiam das igrejas da Lapa, Santa Rita e Santana e percorriam a cidade solicitando donativos para o Espírito Santo, acompanhados por “uma banda de negros, consistindo de dois corneteiros, três tambores, uma clarineta e um flautim”, que “emergiam e recomeçavam a tocar uma valsa”6 (EWBANK, 1976, p. 192). Os mais humildes contribuíam com frutas, animais e outros gêneros alimentícios quando não tinham moedas. No entanto, a perspectiva histórica fornecida por viajantes estrangeiros - no caso, anglo-saxões - corre o risco de ser distorcida pela estranheza que muitos deles provavam diante de práticas festivas exóticas às quais não tinham qualquer vínculo.
Portanto, dada a relativa escassez de dados históricos sobre o fenômeno das folias, sejam do Divino ou de Reis, o presente trabalho contribui para o avanço do conhecimento acerca da historicidade dessa tradição, constituindo-se como o primeiro a identificar foliões em período tão recuado.
Os foliões na documentação histórica primária paulista
Além dos relatos de viajantes, outras fontes históricas relativas às práticas musicais populares provêm de documentos oficiais, especialmente daqueles produzidos quando tais manifestações se vinculavam a questões legais. Um exemplo encontra-se em um ofício de 18 de novembro de 1822, redigido por Joaquim Pupo Nogueira, então comandante de Xiririca (SP), no qual ele comunica às instâncias superiores a presença irregular de esmoleiros provenientes de freguesias vizinhas:
Pede a m.a obrigação pôr na respeitavel Presença a V. Ex.as, q’ os R.dos Parochos das villas de Apiahy, e Itapeva costumão anualmente impenhar-se, com o desta Freguesia a fim de virem esmolleros pidir com o nome dos Imperadores, e Imperatrizes daquellas villas; de q’ infalivelm.te acontece avêr repugnancia da p.te dos commandantes; por ser isto sempre em tempo das colheitas dos arrozes; e as vezes depois de ter paçado o dia de Pentecostes: de maneira, q’ aparecem aqui todos os annos seis bandr.as, tres incarnadas de Imperadores, e tres brancas de Imperatrizes: vindo a ser quatro daquellas duas villas, e duas desta, q.do parece justo, q’ cada hum déve tirar sóm.te nos limites da sua Freguesia. Parece isto hú negocio bem fundado: porq’ escandalizados já os habitantes deste lugar; apontão com o dedo serto sujeito, q’ vindo aqui todos os annos a esta diligencia, tem comprado escravos sem ter outro mêio p.a isso; escandalizando ainda mais, as funçoeins q’ fazem, gastando superfluam.te as esmollas, q’ talves serão tiradas, contra a vontade de m.tos pobres, q’ levados das cantigas, com q’ os atraem, dam o arroz, q’ tanto lhes custa, e depois lhes faz falta p.a acudir as suas necessidades7.
Embora tais documentos registrem a existência do fenômeno, raramente permitem identificar seus protagonistas8. Ainda assim, sobretudo graças aos censos históricos paulistas, foi possível reunir informações detalhadas sobre foliões atuantes em diferentes localidades da capitania e, posteriormente, da província de São Paulo, no período compreendido entre 1767 e 1835.
Uma das vantagens da documentação censitária como fonte histórica reside em sua capacidade de revelar outros segmentos da população além da alta elite e seus principais agentes administrativos. O mesmo aplica-se aos registros paroquiais da igreja católica, embora não constituam, propriamente, uma fonte específica sobre assuntos musicais. A metodologia adotada pressupõe, portanto, o cotejamento das informações extraídas desses dois conjuntos documentais a fim de reconstituir, em linhas gerais, as trajetórias dos doze “foliões” identificados. Cinco deles estão arrolados em Taubaté, três na cidade de São Paulo, e um em cada uma das seguintes localidades: Cotia, São José dos Campos, São Sebastião e Vila Bela da Princesa (Ilhabela).
Os registros paroquiais de Cotia e da cidade de São Paulo e seus bairros estão disponíveis para consulta apenas no Arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo, enquanto os de Mogi das Cruzes podem ser acessados on-line (FAMILY Search, 2013). Já a documentação referente a São Sebastião e Ilhabela - reunida na Cúria Diocesana de Caraguatatuba - somente pode ser examinada pelos funcionários responsáveis mediante pagamento de taxa. Solicitamos uma busca, mas não foram localizados assentos relativos aos indivíduos analisados, fato atestado por certidão negativa9. A Cúria Diocesana de São José dos Campos, por sua vez, impõe restrições para análise de documentos a pessoas sem vínculo de parentesco com os pesquisados10, e a de Taubaté informou que os livros anteriores a 1854 estão impossibilitados de consulta devido ao avançado estado de deterioração11.
Seguem, portanto, os esboços biográficos dos foliões identificados, elaborados a partir do cruzamento dos censos com os registros paroquiais efetivamente acessíveis. Organizamos os foliões segundo a freguesia em que foram arrolados, e todas as informações demográficas citadas provêm dos respectivos recenseamentos. Em vários casos, reproduzimos as idades declaradas pelos foliões e seus familiares tal como aparecem nos documentos, apesar da reconhecida imprecisão desses dados12. Optamos, ainda, por manter a grafia original dos nomes - como em “Barboza”, “Roza”, “Pedrozo”, “Buena” - bem como aquelas formas derivadas da pronúncia popular, como “Cabrar” (por “Cabral”), “Bernabe” (por “Barnabé”).
Cotia
Caetano João da Roza (c. 1700 13 -1787)
Aparece no censo de Cotia de 1767, no bairro de Caputera, com 64 anos, residindo com sua esposa, Maria Barboza, então com 52. Nesse mesmo ano, recebeu 20$000 como “Fulião do Espírito Santo”. Trata-se do folião mais antigo que foi possível identificar, já apresentado em estudo anterior (GONÇALVES, 2023, p. 269), possivelmente constituindo a menção mais remota a um folião do Divino encontrada em São Paulo. Seu nome volta a figurar nos censos de 1777, 1778, 1780, 1781, 1783, e 1785, sempre coabitando com a mulher, embora sem referência à sua ocupação profissional ou meio de subsistência. Faleceu em Cotia aos 87 anos, em 23 de abril de 1787. O registro de óbito indica que era membro da irmandade do Santíssimo Sacramento e que não deixou testamento “por ser muito pobre”14.
São José dos Campos
Bernabe Dias (fl. 1817)
Natural de São José dos Campos, Bernabe Dias aparece no censo local de 1817 aos 30 anos, identificado como “Folião do Espírito Santo”. Residia com a esposa, Maria Pedroza, e com os filhos José (7 anos), Maria (4 anos) e Joana (3 anos), todos classificados como “brancos”.
São Paulo (bairro de Santana)
Ignacio Mendes (1767-após 1820)
Também referido como Ignacio Mendes Aranha, nasceu em Mogi das Cruzes, onde foi batizado em 10 de julho de 176715, filho de Gonçalo de Siqueira Leme e de sua esposa, Escolástica de Siqueira Aranha. Casou-se na mesma vila, em 14 de janeiro de 179316, com Maria Buena de Camargo, filha de João Furquim de Camargo e Rosa da Veiga Buena.
Em 1811, o casal já se encontrava estabelecido na cidade de São Paulo, figurando no bairro de Santana como agregado do capitão de “cavalaria miliciana” Francisco Mariano da Cunha. À época, Ignacio tinha 39 anos e Maria Buena, 40; viviam com o filho José17, de 20 anos, identificado como “meliciano”, provavelmente integrante do contingente comandado pelo chefe da casa. Em 1813, a família passou a ocupar domicílio próprio, dedicando-se à agricultura. O registro desse ano indica colheita de 20 alqueires de milho, 5 de feijão e 12 de arroz. Todos foram classificados como “brancos”, categoria que permanecerá constante em documentos posteriores. No ano seguinte, a produção diminuiu ligeiramente (20 alqueires de milho, 3 de arroz e 3 de feijão), possivelmente devido à ausência do filho José. Em 1815, as atividades agrícolas prosseguem, e José retorna ao convívio familiar, acompanhado de outra “filha”, Quitéria (26 anos), posteriormente listada apenas como “agregada” mas que, na realidade, era irmã de Maria Buena. Em 1816, a colheita se limitou a 2 alqueires de milho e 5 de feijão; nesse período, conviviam na casa, além do casal, os agregados solteiros Quitéria e Joaquim (16 anos), bem como João, de 8 meses.
Em 1818, morre o infante João, permanecendo apenas Quitéria como agregada. Nesse ano, a produção agrícola foi severamente prejudicada, pois, segundo o recenseador, Ignacio “nada colheo por andar tocando rabeca nas folias”, anotação que constitui a única referência direta à sua atuação como músico. Em 1820, Maria Buena aparece residindo apenas com a irmã mais nova, Quitéria, sustentando-se por meio do trabalho de fazer fios. O registro indica que o marido estava ausente por doença, sem especificar o local onde se encontrava. É provável que Ignacio tenha falecido pouco tempo depois18, pois não há novas referências à família nos recenseamentos subsequentes. Em 1825, surge uma Maria Buena, então com 64 anos, registrada como agregada no domicílio de Roza Buena de Camargo. Presume-se que se trate da viúva de Ignacio, possivelmente acolhida por uma irmã que também havia se estabelecido no bairro de Santana.
A atividade de Ignacio Mendes como folião distingue-o dos demais por não possuir caráter “oficial”, no sentido de não configurar um ofício suficientemente lucrativo para constar nos registros formais. Seu envolvimento com as folias, tocando rabeca, é mencionado exclusivamente em razão do comentário depreciativo do recenseador de 1818, que atribuiu à participação de Ignacio nas festividades a reduzida produtividade agrícola do domicílio naquele ano.
Salvador Dias (c. 1772-1830)
Natural de Curitiba, Salvador Dias era filho de Victorino Dias e de Maria Mattozo. Contraiu matrimônio em 6 de junho de 181019 na paróquia de Santa Efigênia20 com Vicência Maria - também chamada Anna Vicência -, natural de Guarulhos, filha de pai incógnito e de Thereza Rodrigues da Câmara.
No censo do bairro de Santana do ano de 1816, Salvador aparece aos 50 anos, vivendo “de sua venda”, ao lado da esposa Anna, então com 25 anos, e dos filhos Antonia21 (2 anos), José (1 ano) e Maria22 (6 meses). Todos foram classificados como “brancos”. A informação de que os filhos nasceram “na cidade” sugere que a família, após residir em Guarulhos, se estabeleceu em algum ponto da capital. Dois anos depois, no recenseamento de 1818, Salvador continua vivendo “de sua venda”, mas é qualificado como “ordenança”, indicando um vínculo militar. Nesse levantamento, toda a família passa a ser categorizada como “parda”. A primogênita registrada é “Anna”23, de 4 anos, substituindo a “Antonia” mencionada em 1816; acrescenta-se ainda outra filha de nome Maria24, distinta daquela do censo anterior, que provavelmente falecera ainda bebê. Os registros paroquiais confirmam também o batismo de um filho, Antonio, realizado em 30 de dezembro de 181425, o qual não aparece nos censos - a não ser que corresponda ao “José”26 mencionado nos recenseamentos seguintes.
Em 1820, já com 57 anos, Salvador permanece identificado como “ordenança”, mas agora residente no “bairro do Tremembé”, sustentando-se por meio da prática de “andar tirando esmolas do Divino Espírito Santo”. No domicílio vivem a esposa, Anna Vicência (32 anos), e os filhos Anna (9 anos), José (7 anos), Maria (5 anos) e Antonio27 (1 ano), novamente todos classificados como “pardos”. A última referência censitária a Salvador em Santana surge em 1825, dedicado a “pedir esmollas para o Divino Espírito Santo”. Nesse ano, soma-se ao grupo familiar a filha Joaquina28, de 1 ano, “parda” como o restante da família. Os registros de batismos da paróquia de Santa Efigênia indicam ainda o nascimento de Delfino, batizado em 29 de julho de 182729.
Salvador Dias faleceu em 9 de julho de 183030, “com todos os sacramentos, sem testamento, [de] molestia hidropezia, de idade cincoenta e oito annos pouco mais, ou menos”. Foi encomendado e sepultado “no cemitério”, envolto em pano preto.
José Joaquim (fl. 1818-1829)
Natural de São Paulo, José Joaquim era filho ilegítimo31 do carpinteiro Ignacio Dias Leme e de Gertrudes Maria da Conceição. Surge no censo do bairro de Santana de 1818 com 11 anos, residindo com os pais - então com 50 e 43 anos - e os irmãos Tereza (9 anos) e Marianno (8 anos). Nesse levantamento, apenas o pai é classificado como “branco”, enquanto a mãe e os filhos aparecem como “pardos”. A família é novamente registrada em 1820, ocasião em que tanto José Joaquim quanto o pai figuram como “ordenanças”, o que indica sua incorporação ao exército.
José Joaquim contraiu matrimônio em 7 de fevereiro 182632, em Juqueri (atual Mairiporã), com Maria Luiza, natural daquela localidade e filha de Joaquim Antonio Ribeiro e Catharina Maria. No censo de Santana de 1825 - anterior à data do casamento, mas refletindo uma união já estabelecida - o casal aparece residindo na casa dos pais de José Joaquim. Ele é ali registrado com 17 anos, e Maria, com 16, todos classificados como “pardos”. Em 1827, já ocupa domicílio próprio, vizinho ao dos pais, onde “planta pouco para seo gasto”. Somente em 1829 José Joaquim passa a ser identificado como alguém que “vive de folias”. Nessa última aparição nos censos, o casal, categorizado como pardo, tem 22 e 20 anos, respectivamente, e José Joaquim exerce simultaneamente a função de “soldado da segunda linha”.
São Sebastião
Miguel Antonio Ribeiro (fl. 1798-1831)
Natural de São Sebastião, Miguel Antonio Ribeiro aparece pela primeira vez em 1798, aos 22 anos, como soldado miliciano “dos úteis”, residindo com a esposa Rosa Maria Cabral, então com 20 anos, natural de Ubatuba. O casal vivia da agricultura, tendo plantado cana-de-açúcar, que venderam por 16 mil réis, além de dois alqueires de feijão destinados ao consumo familiar. Em 1799, a família é registrada no “Bairro do Tobatinga” (também grafado “Taubatinga”), agora com o filho Francisco (1 ano). Nesse ano, a produção agrícola resultou em 12 alqueires de açúcar, que venderam, e 12 alqueires de farinha de mandioca, que consumiram. Em 1801, nasce o filho Vitoriano, e mantém-se o padrão de produção de açúcar para venda e farinha para consumo; o documento é assinado pelo alferes, possivelmente porque Miguel Antonio era analfabeto. Em 1802, o filho Francisco não mais aparece, provavelmente falecido, e pela primeira vez há uma classificação de “cor” da família: Miguel Antonio é classificado como “pardo”, enquanto Rosa Maria e Vitoriano são considerados “brancos”. Em 1806, a família passa a viver “de suas viagens”, e nasce outro filho de nome Francisco; todos são então identificados como “pardos”. No ano seguinte, a situação se mantém, exceto que apenas Miguel é classificado como “pardo”. Em 1808, retomam a subsistência à base de farinha. À residência somam-se a agregada Escolástica, parda, solteira, de 33 anos, e Sigismundo (7 anos), possivelmente filho desta; a situação se repete no ano seguinte, com o nascimento de Antonio. Em 1810, todos os membros da casa são registrados como “brancos”, e em 1811 os agregados já não residem mais com a família. Em 1813, nasce o filho João e surge Caetana, então com 3 anos, não ficando claro se é uma filha ou agregada, aparecendo na casa nos anos seguintes. O filho João desaparece dos registros em 1815, talvez falecido. Em 1817, o sobrenome do chefe, “Ribeiro”, é registrado; a família vive de “lavouras” e, no ano seguinte, retorna a viver de “viagens”.
Miguel Antonio só é designado como folião em 1821, quando o registro especifica que “He Fuliam de que vive e ganha por ano 10$000 [réis]”. Nesse ano, à residência soma-se a filha Maria (2 anos), e Vitoriano (25 anos), já soldado miliciano, aparece como agregado na casa junto à esposa Benedita (26 anos). Em 1823, voltam a se dedicar à agricultura; Vitoriano, registrado como “Vitoriano Cabrar”33, passa a residir em domicílio próprio vizinho aos pais, com a esposa Benedita Leite e a filha Ana (1 ano) - situação que se mantém no ano seguinte. A partir de 1825, apenas Antonio e José permanecem na casa paterna, e a família inicia a produção de café. Em 1827, retomam as “viagens” como fonte de subsistência, e Caetana (24 anos) retorna à residência dos pais com o marido Ricardo (26 anos), natural da “Ilha Grande”, pardo como ela. Nesse ano, Rosa é registrada como “Roza Cabrar”, o que se repetiu em 1829. Em 1830, apenas José (10 anos) permanece na casa, onde a família vive de lavouras. O último registro da família ocorre em 1831, quando o chefe é identificado como “Miguel Luis” e somente Antonio (20 anos) continua residindo com os pais, que passam a viver de suas “agências”.
Taubaté
Salvador Corrêa do Prado (fl. 1815-1825)
Natural de Pindamonhangaba, segundo alguns registros censitários, ou de Taubaté, de acordo com outros, Salvador Corrêa do Prado aparece pela primeira vez em 1815, aos 37 anos, residindo com a esposa Joana Francisca (34 anos) e a filha Ignez (8 anos), todos classificados como “brancos”. O chefe da família é registrado como “mendigo”, situação que se mantém no censo seguinte.
Em 1817, Salvador é mencionado como “Fulião”, atividade na qual teria ganho 9$000 réis, valor destinado às despesas domésticas. Nesse mesmo ano, já figura vivendo com a segunda esposa, Vicência Maria (16 anos), em decorrência do falecimento da primeira, aos 36 anos. Em 1818, permanece registrado como “Foliam”, obtendo novamente 9$000 réis, padrão que se repete em 1820.
Em 1822, observa-se uma interrupção na atividade de folião: Salvador dedica-se à agricultura de subsistência em terras alheias (“a favor”), e à família soma-se a filha Gertrudes (2 anos), primogênita do segundo casamento. Retorna à função de “Fulião” em 1825, aos 47 anos, ganhando 10$000 réis para uso doméstico; nesse ano, nasce a filha Maria, e a família passa a ser classificada como “parda”. O último registro de Salvador ocorre em 1829, quando vive de agricultura de subsistência (“planta para sua casa”), sendo ele, a esposa e as filhas novamente identificados como “pardos”.
A julgar pelos dados dos censos, Salvador Corrêa do Prado destaca-se como um dos foliões mais ativos, com registro dessa atividade em 1817, 1818, 1820, 1825 e 1829, sugerindo que poderia ter exercido uma função de liderança entre os demais participantes da folia em Taubaté.
Joaquim Carlos Pedrozo (fl. 1816-1830)
Natural de Taubaté, Joaquim Carlos Pedrozo surge pela primeira vez no censo de 1816, aos 38 anos, residindo com a esposa Floriana Antonia (31 anos) e os filhos Vicente (9 anos), João (7 anos), Francisca (3 anos) e Maria (1 ano), todos classificados como “brancos”. O chefe da família é registrado como “negociante”, atividade na qual ganhou 10$000 réis, destinados ao consumo doméstico.
No ano seguinte, a composição familiar permanece inalterada, e Joaquim é pela primeira vez identificado como “Fulião”, atividade pela qual recebeu 16$000 réis, igualmente utilizados nas despesas da casa. Em 1828, ainda atuando como “Fulião”, acumula 40$000 réis e três éguas de ventre. Nesse ano, a família perde o filho João, falecido aos 15 anos. Em 1829, a atividade de folião continua a sustentar o domicílio, rendendo 12$000 réis. O último registro de Joaquim Carlos ocorre em 1830, aos 50 anos, ainda como “Fulião”, quando aufere novamente 40$000 réis para consumo familiar.
Juntamente com Salvador Corrêa do Prado, deve ter sido um dos líderes do grupo de foliões de Taubaté, tendo atuado como tal por pelo menos 13 anos, de 1817 a 1830.
Antonio José Vaz (fl. 1816-1828)
Natural de Taubaté, Antonio José Vaz aparece pela primeira vez em 1816, aos 24 anos, ao lado da esposa Maria José (23 anos), ambos classificados como “brancos”. Nesse ano, dedicava-se à agricultura de subsistência, obtendo 1.600 réis com a venda de 12 galinhas. Concomitantemente, exercia a função de “Fulião”, acumulando 6$000 réis, destinados às despesas domésticas.
Em 1817, apenas a atividade agrícola é mencionada, incluindo a venda de milho, que rendeu 8$000 réis. Em 1822, é registrado como “taverneiro”, tendo auferido 6$400 réis naquele ano, e à residência se agrega Maria Madalena (53 anos), viúva, possivelmente mãe ou sogra. O último registro do casal data de 1828, quando Antonio, aos 34 anos, é registrado apenas como “mendigo”.
Francisco Rodrigues (fl. 1825)
Natural de Taubaté, Francisco Rodrigues surge no censo de 1825, aos 25 anos, residindo com a esposa Anna Maria (24 anos), ambos registrados como “brancos”. Nesse ano, é identificado como “Fuliam de Fulias”, sem maiores detalhes sobre sua atuação.
João Francisco Portes (fl. 1835)
Natural de Taubaté, classificado como “branco” e livre, João Francisco Portes aparece unicamente34 no censo de 1835, aos 33 anos, residindo com as agregadas Joanna (23 anos) e Maria (13 anos), ambas solteiras e igualmente identificadas como “brancas”. Embora conste como “casado”, sua esposa não é mencionada no registro - a menos que a designada como agregada Joanna seja, de fato, a mulher do chefe da casa. Nesse ano, João Francisco é registrado como “Fuliam do Espírito Santo”, atividade por meio da qual obteve 100$000 réis.
Vila Bela da Princesa (Ilhabela)
José da Silva Vila Nova (fl. 1814-1825)
Natural de Ubatuba, segundo alguns registros dos censos, ou de Cabo Frio, de acordo com outros, o encontramos pela primeira vez em 1814, aos 39 anos, junto à mulher, Marianna (38 anos) e às filhas Isabel (15 anos) e Claudina (1 ano), sendo a família classificada como “parda”, e o chefe vivendo “de suas agencias e do oficio de Alcaide” - situação que se repete em 1815 e 1816, com exceção da ocupação de alcaide, que não se vê mais registrada. O censo de 1818 o arrola na terceira companhia de ordenanças, e o faz natural de “Campos”, enquanto a mulher, Marianna, seria natural de Ubatuba, sendo que, na casa, além deles, sobrou apenas a filha Claudina. Em 1819-1820, “vive de seu oficio de Alfaiate” e, em 1823, volta a viver “de suas agências”.
Aparecerá como “Fulião” pela primeira vez em 1824, aos 76 anos, e, na casa, além da mulher Marianna (52 anos) e da filha Claudina (12 anos), soma-se o neto José (4 anos) como “agregado” - talvez filho da filha Isabel que não mais figura na casa. O encontramos pela última vez em 1825, como “Folião”, sendo que a conformação da casa permanece a mesma do ano anterior.
Perfil socioetnográfico dos foliões
Dos doze foliões identificados, quatro estão explicitamente associados à Festa do Divino Espírito Santo: Caetano João da Roza, Salvador Dias, Bernabe Dias e José Francisco Portes. Quanto aos demais, não há indicação dos festejos a que se vinculavam, embora seja bastante provável que também atuassem nas celebrações dedicadas ao Divino.
Nota-se significativa concentração de foliões em Taubaté, que reúne cinco deles, entre os quais dois apresentam atuação contínua ao longo de vários anos. Destaca-se Salvador Corrêa do Prado, ativo entre 1817 e 1829, provavelmente exercendo funções de “mestre”. Os Mapas de População35 de 1817, 1818 e 1820 dessa freguesia diferenciam o “músico de solfa” dos “folioens de cantar”, isto é, o músico leitor de partituras daquele ligado à tradição oral (Figura 3). Em São Paulo, três foliões foram registrados no bairro de Santana, sem que isso implique exclusividade da prática nessa localidade.
Um “Muzico” e um “Fuliam de cantar em fulia” e seus ganhos anuais, em réis. Maços de População de Taubaté, 1820, Apesp
Em relação à composição étnica dos foliões, seis são descritos como “brancos”, três como “pardos”, dois apresentam classificação variável (caso de Salvador Corrêa do Prado e Salvador Dias, que surgem ora como “pardos”, ora como “brancos”) e um não possui registro de cor, pois Caetano João da Roza faleceu em 1787, antes da sistematização dessa categoria nos censos. José Joaquim, por sua vez, listado como “pardo”, era filho de pai branco e mãe parda. Tais dados contrastam com o relato de Thomas Ewbank (1976, p. 191) sobre o Rio de Janeiro, onde os foliões observados seriam “habitualmente negros”. A discrepância pode refletir tanto uma particularidade da prática carioca quanto a percepção subjetiva do estadunidense Ewbank acerca de quem ele identificava como “negro”.
As ocupações exercidas pelos foliões apresentam grande diversidade: lavoura de subsistência, cultivo de cana e café, atividades de taverneiro, viajante, alfaiate, negociante, ofício de alcaide e até casos de mendicância. A folia parece constituir apenas mais um desses ofícios. Tal multiplicidade de funções expressa as estratégias de sobrevivência adotadas por populações empobrecidas em contextos de poucas oportunidades, fenômeno semelhante ao observado por Gioconda Mussolini em Ilhabela (de onde, aliás, provém um dos foliões aqui identificados):
Como os próprios moradores afirmam: Aqui não há profissionais. Um homem não pode se dedicar a fazer o tempo todo uma cousa só. Se houvesse sempre trabalho, então sim. Mas hoje um carpinteiro tem bastante trabalho; daqui ha pouco, o trabalho lhe falta. Ele não pode se dedicar a uma cousa só. (MUSSOLINI, 1946, p. 1).
Casos como o de Ignacio Mendes demonstram que outros indivíduos também integravam as folias sem constarem formalmente como foliões nos censos. Situação semelhante envolve Luiz Antonio Pereira, vereador e presidente da câmara de Ubatuba em 1836, que, ao ser sorteado para compor um júri, apresentou atestado médico alegando enfermidade. Todavia, teria sido visto nas imediações de São Sebastião solicitando esmolas para o Divino, o que gerou indignação por parte de um leitor d’O Novo Farol Paulistano, cuja carta, publicada em 23 de julho de 1836, denunciava que:
Dos 34 d’ali sorteados só se apresentarão oito, ou nove; os de mais mandarão Certidões de estarem doentes, e o que mais admirou foi que hum Senhor sorteado jurado Luiz Antonio Pereira36 mandasse Certidão de estar doente, e no entanto constasse a todos que elle andava nas immediações deste termo de São Sebastião tirando esmolas para a festa do Divino Espirito Sancto; este bello jurado contentou-se mandar a Certidão e commutar o Jury em folia de tal cantarola, e achou que assim tinha cumprido com seus deveres de Cidadão Brasileiro; como que o Brasil fosse composto de fuliões. Porque o que mais admira isto com o dicto Senhor é por ser elle segundo dizem Vereador da Camara, e Presidente da mesma”. (INIMIGO das..., 1836, p. 5).
O declínio das folias
Há quase um século, Affonso A. de Freitas (1927, p. 119) lamentava o desaparecimento da Folia do Divino na capital paulista37, prática que, segundo ele, conferia singularidade à festa em relação a outras celebrações populares. Entre os fatores que contribuíram para sua retração - assim como para o enfraquecimento de outras expressões do catolicismo popular - destacam-se as medidas de renovação religiosa implantadas pelo ituano Antonio Joaquim de Melo (1791-1861), bispo de São Paulo entre 1851 e 1861. Adepto do ultramontanismo, corrente que reforçava a autoridade romana e do alto clero sobre as práticas religiosas católicas, sua influência foi decisiva no processo de declínio das tradições leigas e paralitúrgicas. Conforme sintetiza Augustin Wernet (1987, p. 188): “Sem dúvida, o catolicismo iluminista cedeu lugar ao ultramontanismo. O catolicismo tradicional, que marcou o Brasil colonial, caracteristicamente leigo, social e familiar, foi substituído pelo catolicismo renovado de cunho individual, clerical e romanizado”.
A respeito das folias, o bispo manifestou-se na Carta Pastoral de 12 de janeiro de 1857, condenando-as tanto por razões morais quanto econômicas - afinal, como vimos, alguns dos foliões usavam essa atividade como fonte de renda:
[…] observamos a immoralidade que resulta do que se chama Folia, ou do como se servem os Foliões da bandeira do Espirito Santo para especular seus interesses; é um verdadeiro modo de vida e mesmo de furto. O Festeiro, vulgarmente - Imperador - junta um dos taes cantadores, fazendo-se a despeza á custa das esmolas; e o restante se parte ao meio; vindo muitas vezes o Imperador, depois de seis mezes, e um anno, receber vinte ou trinta mil reis. Ainda não é isto, segundo Nosso pensar, o maior mal; é sim tres ou quatro meninos, que bem podião applicar-se á algum officio ou dar-se ao trabalho de roça, viverem annos seguidos, em quanto tem voz, nesta vida de ociosidade; aprendendo vícios, e tornando-se inimigos do trabalho. (FONTOURA, 1898, p. 248).
Em 1920, o vigário de Itaquaquecetuba, padre José Sebastião, demonstra entusiasmo com a grande participação do povo na Festa do Divino, mas lamenta práticas consideradas de “pouco proveito espiritual”, entre elas a própria folia:
[...] Em vinte e nove de agosto realizou-se a tradicional festa do divino Espírito Santo com um enorme ajuntamento de povo. É sem duvida a festa que mais gente ajunta em Itaquaquecetuba. Infelizmente não são as festas ruidosas as melhores quanto ao proveito espiritual. O povo se limita às comezainas, folia, danças, música e fogos. (Livro do Tombo de Nossa Senhora d’Ajuda [de Itaquaquecetuba]: de 1916 até o presente, p. 14. In: FRADE, 2016, p. 235).
Os ataques, porém, não partiram apenas da igreja católica. Kilza Setti, já em 1985, ressalta o impacto desagregador de determinados grupos neopentecostais, cuja atuação contribuiu para o enfraquecimento - e eventual desaparecimento - dos costumes e, consequentemente, da identidade de certas comunidades:
A propaganda massiva utilizada por certos grupos pentecostais está criando um impasse religioso-afetivo para o caiçara, que esteve modelado, pelo menos há três séculos, na tradição católica. Além desse dilema da opção religiosa, a ruptura com a religião tradicional causa sérios problemas entre as famílias, amigos, pois a dissensão religiosa tem levado também a uma dissensão no seio da família ou entre grupos de vizinhança, causando divergências entre cônjuges, e ocasionando um clima de hostilidades entre católicos e não católicos. (SETTI, 1985, p. 264).
Considerações finais
Os resumos biográficos reunidos neste estudo constituem um conjunto inicial de informações, útil para investigações futuras sobre esses foliões dos séculos XVIII e XIX, possivelmente os mais antigos de que se tem notícia. A partir dos nomes e dados aqui compilados, torna-se possível rastrear sua presença em outras fontes assim como pesquisar suas linhagens - dado que muitas práticas musicais de tradição oral se transmitem entre gerações -, permitindo investigar eventuais vínculos entre esse fenômeno histórico e eventuais manifestações ainda existentes na atualidade.
Referências
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3
Financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), processo 2022/11899-3.
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4
Pertencente à coleção do Museu Diocesano de Bressanone, Itália, sob cota VII G 15.
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5
“O restante é cantado pelos camponeses”, tradução nossa.
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6
“[...] a negro band, consisting of two French horns, three drums, a clarionet, and a fife, emerged, and recommenced a waltzing air in the middle of the street” (EWBANK, 1856, p. 251).
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7
Oficio do comandante Joaquim Pupo Ferreira, Xiririca, 18/1/1822. Arquivo Público do Estado de São Paulo (Apesp), Pasta 1.1.315. Doc. 1.1.315.14, antigo Cx. 50, p. 5, doc. 14. Nas citações, foram mantidas a grafia e a pontuação dos textos originais.
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8
Autora de um relevante estudo sobre as atividades musicais na São Paulo colonial, Claudia Polastre (2008, p. 85) menciona a contratação de um “festeiro” para cantar nas festas do Divino em Guaratinguetá, em 1770. Contudo, tudo indica tratar-se de música sacra oficialista, e não das folias populares.
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9
Emitida em 10 de dezembro de 2024 e assinada pelo chanceler do bispado, padre Mauro José Ramos, e pela encarregada do arquivo, Selma Neder Martins Lemos.
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10
Comunicado de Hilda Vieira, auxiliar administrativa da Chancelaria da Cúria Diocesana de São José dos Campos, datado de 23 de outubro de 2024.
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11
Declaração de 12 de setembro de 2024 assinada pelo chanceler do bispado, monsenhor Irineu Batista da Silva.
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12
Aspecto igualmente observado por Carlos Bacellar (2008, p. 118).
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13
A análise das idades de Caetano, conforme registradas nos censos entre 1767 e 1783, bem como em seu assento de óbito, permite concluir que seu nascimento ocorreu por volta de 1700.
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14
“Caetano João. Aos vinte e três de Abril de mil Sette// Centos e oitenta e Sette annos na circumvizinhança fa// leceo da vida presente Caetano João cazado com Maria// Barboza assistido com os Sacramentos de Penitencia e// extrema unção tendo de idade oitenta e Sette anos foi// seo corpo sepultado em sepultura da Irmandade do// sacramento de que era Irmão sendo conduzido na Tumba// e por mim acompanhado e recomendado não fez testamento// por ser muito pobre de que fiz este assento. O Vig.o Alexandre Luis de S. Payo”. Livro de Óbitos de Cotia (1775-1796), ACMSP 5-3-25, p. 122.
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15
Registro no Livro de Batismos de Mogi das Cruzes (1766-1780), p. 11v-12.
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16
Registro no Livro de Casamentos de Mogi das Cruzes (1788-1795), p. 76v-77.
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17
Registrado como “natural da Conceição”, o que pode indicar que a família tenha se estabelecido inicialmente em Guarulhos, antes de se transferir para o bairro de Santana.
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18
Buscamos seu registro de óbito nos livros paroquiais de Santa Efigênia, da Sé de São Paulo, e de Mogi das Cruzes, sem sucesso. Constatamos apenas, em Santa Efigênia, o registro de um Ignacio Mendes “solteiro, natural desta cidade” que faleceu em 22 de dezembro de 1823 aos “oitenta annos mais ou menos”, deixando instruções para seu testamenteiro, José Mendes, seu irmão. Livro de Óbitos de Santa Efigênia (1809-1834), p. 90-90v.
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19
Registro no Livro de Casamentos de Santa Efigênia (1809-1841), ACMSP 10-2-43, p. 5v.
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20
A paróquia de Santa Efigênia concentra os registros de grande parte dos habitantes da zona norte de São Paulo, incluindo o bairro de Santana.
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Batizada em 19/7/1813, segundo o Livro de Batismos de Santa Efigênia (1809-1829), ACMSP 10-2-47, f. 38v.
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22
Batizada em 6/3/1816, segundo o Livro de Batismos de Santa Efigênia (1809-1829), ACMSP 10-2-47, f. 63.
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23
Provavelmente se trata de Antonia.
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24
Batizada em 20/9/1818, segundo o Livro de Batismos de Santa Efigênia (1809-1829), ACMSP 10-2-47, f. 80v.
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25
Registro no Livro de Batismos de Santa Efigênia (1809-1829), ACMSP 10-2-47, f. 51.
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É comum que indivíduos com nome duplo tenham apenas uma das designações registrada no documento de batismo. Nesse caso, o menino poderia ter se chamado, por exemplo, “José Antonio” ou “Antonio José”.
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Batizado em 15/6/1821, segundo o Livro de Batismos de Santa Efigênia (1809-1829), ACMSP 10-2-47, f. 102. É possível que a lista do censo de 1820 tivesse sido completada no ano seguinte, justificando a presença de Antonio naquele ano.
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28
Batizada em 17/11/1824, segundo o Livro de Batismos de Santa Efigênia (1809-1829), ACMSP 10-2-47, f. 138v.
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29
Livro de Batismos de Santa Efigênia (1809-1829), ACMSP 10-2-47, f. 173.
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30
Conforme consta no Livro de Óbitos de Santa Efigênia (1809-1834), f. 151v.-152.
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31
No registro de casamento de José Joaquim consta ser ele “filho de pai incógnito e de Gertrudes Maria”, o que possivelmente indica que, no momento do batismo, Gertrudes Maria ainda não estava formalmente casada com Ignacio Dias Leme - se é que chegou a sê-lo um dia. Livro de Casamentos de Juqueri (1817-1835), ACMSP 6-3-49, f. 45. Encontramos diversas possibilidades para o batismo de José Joaquim no Livro de Batismos da Sé de São Paulo (1804-1811), ACMSP 3-2-16, às folhas 8, 38v, 68, 83v, 179v e 208.
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32
Registro no Livro de Casamentos de Juqueri (1817-1835), ACMSP 6-3-49, f. 45.
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33
Curiosamente, o sobrenome “Cabral” é aqui sempre grafado na pronúncia caipira, “Cabrar”.
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34
Encontramos, no censo de Taubaté de 1830, um indivíduo registrado como João “Cortes”, casado e pai de vários filhos, entre os quais duas meninas de nome Joanna e Maria. Embora essa configuração familiar se assemelhe à do folião analisado, há divergências quanto à idade e à classificação de cor - aqui indicado como pardo -, diferenças que, embora frequentes entre recenseamentos sucessivos, impedem uma identificação segura. Assim, os dados disponíveis não permitem afirmar que se trata da mesma pessoa.
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Quadros estatísticos presentes no final dos censos.
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Buscamos Luiz Antonio Pereira nos censos de Ubatuba e de São Sebastião de 1835 e 1836, sem êxito. Foi localizado apenas um “Luiz Antonio Moreira”. É possível que o autor, identificado apenas como “Inimigo das Intrigas”, tenha ocultado a identidade do criticado sob pseudônimo, ou que se trate de uma sátira sem relação direta com pessoas ou eventos reais.
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Isso não impediu que São Paulo fosse posteriormente “recolonizada” por foliões provenientes de outras regiões do Brasil. Mestre de Folia de Reis, José Alves Rodrigues, também conhecido como “Capitão Reis”, chegou a São Paulo vindo do interior de Minas em 1962. Após quatro ou cinco anos, “como tinha uma porção de ‘mineirada’ por aqui, falamos: ‘Vamos cantar uma folia-de-reis?’. Começamos a ensaiar, a vizinhança escutou, gostou, e aí foi” (MÜLLER, 2004). Capitão Reis apresentou-se regularmente no programa Viola, minha viola, teve suas performances gravadas em CDs e conservadas pela Casa do Violeiro e pela Associação Cultural Cachuera.
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GONÇALVES, Daniel Issa; CASTAGNA, Paulo. Foliões do Divino e outros “fulioens de cantar” na capitania e na província de São Paulo (1767-1835). Rev. Inst. Estud. Bras. (São Paulo), n. 93, 2026, e10779.
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Declaração de disponibilidade de dados
Os conjuntos de dados gerados e/ou analisados durante o estudo atual estão disponíveis no manuscrito e em materiais suplementares.
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