RESUMO
A obra Correspondência inédita e anotada - Alberto de Serpa - João Cabral de Melo Neto - O cavalo de todas as cores, organizada por Solange Fiuza e Arnaldo Saraiva, foi publicada no ano de 2025 com o timbre da Ateliê Editorial e nos apresenta a correspondência oficial entre dois escritores, o brasileiro João Cabral de Melo Neto (1920-1999) e o português Alberto de Serpa (1906-1992), É sobre esse volume, contemplando os ensaios assinados pelos organizadores e as cartas transcritas na edição, que versa a resenha.
PALAVRAS-CHAVE:
João Cabral de Melo Neto; Alberto de Serpa; correspondência
ABSTRACT
The book Correspondência inédita e anotada - Alberto de Serpa - João Cabral de Melo Neto - O cavalo de todas as cores, organized by Solange Fiuza and Arnaldo Saraiva, was published in 2025 by Ateliê Editorial and presents the official correspondence between two writers, the Brazilian João Cabral de Melo Neto (1920-1999) and the Portuguese Alberto de Serpa (1906-1992). This review focuses on this volume, including the essays written by the organizers and the letters transcribed in the edition.
KEYWORDS:
João Cabral de Melo Neto; Alberto de Serpa; correspondence
“Se não foram os deuses que no-las
ensinaram, foram decerto, os poetas que
inventaram estas fábulas. E por quê?
Porque a Poesia é o seu melhor
testemunho”
( Régio, 1950 , s. p.).
O filme Central do Brasil (1998) recria a narrativa de Dora, uma professora que escreve cartas na estação Central do Brasil, região para a qual afluem as linhas de trens oriundos da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. O longa representa a prática do envio de correspondência pelos correios, exercida até a interferência do contato por e-mails em nossas vidas.
Atualmente, quantas pessoas ainda se correspondem por cartas?
É sobre essa prática oficial entre dois escritores, o brasileiro João Cabral de Melo Neto (1920-1999) e o português Alberto de Serpa (1906-1992), que versa a obra Correspondência inédita e anotada - Alberto de Serpa - João Cabral de Melo Neto - O cavalo de todas as cores, organizada por Solange Fiuza e Arnaldo Saraiva, publicada no ano de 2025, com o timbre da Ateliê Editorial. A correspondência entre os autores tem como enfoque O cavalo de todas as cores, revista publicada em janeiro de 1951, cuja edição foi debatida ao longo dos anos entre 1949 e início de 1950.
A obra organizada por Fiúza e Saraiva, com 245 páginas, é dividida em quatro segmentações, a saber: “Alberto de Serpa e João Cabral”, assinada por Arnaldo Saraiva; “Narrativa de uma revista em processo”, da lavra de Simone Fiúza; e “Sobre esta edição”, com a rubrica dos dois organizadores. A quarta seção reúne a correspondência com notas explicativas e, entre as três primeiras divisões e o conjunto das missivas, os leitores têm acesso ao fac-símile da única edição de O Cavalo de todas as cores.
O texto inicial do livro nos traz a apresentação de Alberto de Serpa, escritor português, nascido na cidade do Porto em 9 de janeiro de 1920. Intelectual ativo em sua época, colaborou em várias revistas literárias e foi secretário de redação da Presença. O texto de Saraiva aponta registros da circulação da literatura brasileira nas revistas luso-brasileiras, época em que Serpa já “trocava livros com vários escritores do Brasil” (p. 17), como O Sentimento do Mundo, de Carlos Drummond de Andrade, oferecido “ao admirável poeta”.
Por certo, Saraiva delineia o perfil de um poeta português com fortes ligações à literatura brasileira, tanto que foi o responsável pela organização da primeira antologia da poesia brasileira publicada em Portugal, pela Portugália Editora, denominada As melhores poesias brasileiras (SERPA, 1944), com 54 poetas, desde José de Anchieta a Vinícius de Moraes.
O certo é que objetivos semelhantes aproximaram os dois poetas, e essa meta estava centrada na difusão da literatura por meio de revistas, haja vista a participação de ambos em periódicos, quer sejam jornais ou revistas, conforme explanado por Saraiva. O contato entre os dois poetas adveio exatamente do desejo de João Cabral ter um colaborador para dar cabo à edição de uma revista.
[...] esse contato epistolar deveu-se certamente à sugestão de um colega diplomata, também escritor [...]. Esse colega era o alagoano Renato Mendonça (1912-1990). [...] Numa dessas conversas em que o poeta pernambucano lhe falou do desejo de envolver nos seus projetos editoriais poetas e leitores portugueses, Renato Mendonça [...] ter-lhe-á sugerido que pedisse o apoio do seu amigo portuense, de quem conhecia, mais do que o pernambucano, a larga experiência de poeta e de secretário de revistas. E João Cabral não tardou a tomar a iniciativa de contatar Alberto de Serpa, enviando-lhe, em 8 de junho de 1949, três dos sete volumes que já tinha editado na coleção O Livro Inconsútil e uma carta. (p. 20-22).
A partir de então foi iniciada a correspondência que dá matéria à obra em tela, com descrições pormenorizadas do entusiasmo entre os dois missivistas na elaboração da revista. O diálogo iniciado em 8 de junho de 1949, conforme já dito, teve resposta ainda no mesmo mês, e ao longo das cartas os autores trocaram ideias sobre todo o contexto que envolvia a revista, desde sua organização à escolha dos colaboradores, o artefato da produção, o mecanismo de vendas e distribuição, até a edição final de O cavalo de todas as cores, em fevereiro de 1950. A revista não teve sequência, e por um tempo a troca de missivas foi interrompida, justamente quando João Cabral foi afastado das atividades diplomáticas. Somente quando foi enviado a Sevilha, com a incumbência de pesquisas, o brasileiro retomou a conversa com Alberto de Serpa, para solicitar indicação de historiadores portugueses que tivessem conhecimento do mesmo estudo destinado a ele, com O Arquivo das Índias e o Brasil (MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES, 1966).
A recuperação das missivas entre João Cabral e Antônio Serpa constrói o que Solange Fiuza nomeia de “Narrativa de uma revista em processo”, segunda parte da obra em resenha. Na seção, a autora chama a atenção para algumas particularidades do poeta brasileiro, como a inaptidão assumida para escrever cartas, o gosto pela materialidade e o desejo de produzir livros artesanalmente, apontando, principalmente, a rede de relações estabelecida por Cabral.
A opção da autora em recolher e trazer a público a correspondência inédita, merece a classificação que o poeta de Morte e vida severina (2016) deu à palavra antologia, como uma escolha de qualidade. As cartas, como afirma Solange Fiuza, obedecem a uma “coesão em torno de um assunto central: a composição de O cavalo de todas as cores” (p. 33). E é nesse processo de interlocução que os dois poetas se fazem mostrar em suas apreciações e pontos de vista, seja em função da literatura, seja no entendimento político, posicionamentos fundamentais para a seleção e composição da revista. Tais fatores estão prontamente expressos quando Cabral revela suas preferências com relação à organização da revista, não limitada à esfera Brasil-Portugal, mas estendida à literatura catalã, como forma de apoio diante do regime político que a reprimia.
O momento político era polarizado àquela altura e, ao mesmo tempo, servil a um poder dominador: o salazarismo em Portugal, o franquismo na Espanha... E o Brasil, que vivenciou a experiência do Estado Novo (1937-1945), estava sob a presidência do general Dutra e retornaria à era Vargas em 1951. Todo o cenário influenciou na composição da revista, principalmente na perspectiva do poeta pernambucano, que reconhecia nas artes “um compromisso social” (p. 43). E “o critério político que mobiliza Cabral determina não apenas as escolhas dos textos, mas também a distribuição dos exemplares” (p. 46). É nesse viés caracterizado por Solange como “comunismo ortodoxo” (p. 49) que empaca o segundo número da revista - e O cavalo perde as cores:
A correspondência entre João Cabral e Alberto Serpa sobre a organização de O Cavalo de Todas as Cores ajuda a compreender as escolhas do primeiro número e o plano do segundo número como respostas a um momento político opressor, mas também favorável à luta pela renovação do pós-guerra. (p. 55).
Nesse sentido, o texto pontua as questões divergentes entre os dois organizadores, quando não conseguem estabelecer um padrão para as escolhas dos poemas, o que leva cada um a definir sua própria seleção, mantendo-se, individualmente, fiéis aos seus posicionamentos. Enquanto Antonio de Serpa preserva sua triagem mediante as relações de estima e preferência poética, João Cabral prima pela concepção política.
A descontinuidade da Revista provoca, quase que naturalmente, a irregularidade da correspondência, que vem a cessar nos anos de 1960. Malgrado o final do contato, o que chama atenção na recolha realizada por Solange, é a particularidade de uma relação estabelecida totalmente por cartas, tendo em vista a afirmação de Saraiva de que Alberto de Serpa e João Cabral, nunca tiveram um contato pessoal.
Singular é a análise realizada do material que acumulou 60 documentos, sendo “vinte e oito cartas e um telegrama de Serpa e trinta e uma cartas e cartões-carta de Cabral” (p. 67). Na seção “Sobre esta edição”, assinada por Fiuza e Saraiva, a materialidade e a origem desses escritos são caracterizadas quando os organizadores apontam os diferentes tipos de papel utilizados por Cabral, assim como diferem os locais de envio, enquanto relatam que as missivas de Serpa mantinham caráter metódico, datadas quase sempre aos domingos. Também é enumerado o número de cartas por ano no período em que permaneceu a troca. A organização do arquivo das missivas obedeceu a uma ordem com a manutenção das variantes do português brasileiro e europeu, a numeração das cartas, dispostas em ordem cronológica, a atualização da ortografia, padronização dos títulos de livros e periódicos, conservação da pontuação original e das abreviaturas.
Somado a isso, o trabalho de sistematização desses escritos apresenta ao leitor atual mais do que as informações concernentes à conversa para elaboração da revista, pois, no que tange ao autor brasileiro, passa-se a conhecer mais do que um ávido intelectual preocupado com a democratização da literatura. Identifica-se um perfil poético justificado nas linhas dos versos que o fizeram consagrado, pois só alguém com atenção aos malefícios da opressão e do fascismo poderia criar poemas na esteira do dramático Morte vida severina (MELO NETO, 2016) ou O cão sem plumas (MELO NETO, 1950), entre outros que ilustram a rica obra do autor. Posso asseverar que a obra em tela atualiza o público, inclusive, quanto às relações pessoais de João Cabral, cuja intimidade foi partilhada com Antonio Candido e Gilda de Mello e Souza, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Vinicius de Moraes, Murilo Mendes, Natividade Saldanha, Marques Rebelo, Lêdo Ivo, entre outros nomes, inclusive em Portugal. Quando já consagrado como poeta, João Cabral dá início a novas relações com a intelectualidade daquele país, incluindo críticos e escritores, com quem, naturalmente, também se correspondeu. Convém aludir à materialidade da obra Correspondência inédita e anotada - Alberto de Serpa - João Cabral de Melo Neto - O cavalo de todas as cores. A capa reproduz a mesma gravura da imagem do cavalo, presente no fac-símile da revista. O título aparece em fontes coloridas de vermelho e roxo disposto na parte superior e inferior de forma perpendicular aos nomes dos autores no centro da capa, o que oferece uma visualização de caminhos ou trilhas. A correspondência em si ocupa 162 páginas, o que corresponde a cerca de 66% da obra. Essas cartas estão todas com notas - um total de 298 - detalhadas com informações minuciosas, esclarecimentos substanciais em torno de nomes, obras, situações históricas e demais referências, indicando o conhecimento necessário para o público.
Outra preciosidade é o fac-símile da revista O cavalo de todas as cores, reproduzida, fielmente, a partir do exemplar da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, em Portugal, impressa em Barcelona, na casa do poeta João Cabral, numa prensa manual Minerva, adquirida por ele. A capa apresenta um cavalo tipográfico assinado pelo artista plástico Francisco García Vilella e na contracapa há as informações sobre o exemplar:
O CAVALO DE TODAS AS CORES § revista trimestral dirigida por ALBERTO DE SERPA e JOÃO CABRAL DE MELO NETO § tiragem limitada a duzentos exemplares § publicada em Barcelona por João Cabral de Melo.
A seleção para a composição da revista, como já dito, foi atribuída aos dois organizadores e, na primeira parte do volume está a autoria de Pedro Homem de Mello, com “Nove canções católicas”, obra inédita. Na sucessão está o poema “A bomba atômica”, de Vinicius de Moraes, contraponto à natureza espiritual do poema português que, embora não fosse original - pois já havia sido publicado, em 1946, no livro Poemas, sonetos e baladas - registra a marca do poeta brasileiro em produções que refletem o caráter social e político. Seguindo as preferências de João Cabral, a revista reproduz, após o poema de Vinícius, a composição “Cuatro poetas”, do poeta, tradutor e crítico de arte catalão Rafael Santos Torroella, registrando, assim, o desejo de Cabral de propalar a literatura catalã. Na sequência, o texto em prosa “Poesia”, de José Régio, aborda uma reflexão sobre a poesia e suas “extremas razões”. Encerra-se a revista com ilustrações da Xilografia Popular em Cataluña, apresentadas com apreciação de Enric Tormo i Freixas, com ensaio de mesmo título - “Xilografía popular en Cataluña” -, seguido de reproduções de gravuras dos séculos XVII e XVIII. O sumário está disposto na capa final, e a cópia a que temos acesso certamente é de um dos exemplares computados para a distribuição entre os pares, pois nela consta um oferecimento assinado por João Cabral: “Ao Dr. Rodrigo Otávio, homenagem de seu camarada. João Cabral de Melo Neto. Londres, 21.6.951”. A revista, com 39 páginas, sem notas explicativas, teve uma tiragem de 200 exemplares em sua primeira edição, que, como sabido, veio a público no primeiro mês de 1950.
Na carta de 22 de janeiro de 1950, Alberto de Serpa organiza a remessa dos volumes “em pequenos pacotes, de peso inferior a um quilo” (p. 161). Na carta resposta, datada de 31 de janeiro de 1951, João Cabral se refere às questões tipográficas - que não o deixaram satisfeito - do texto de José Régio e explica sobre a distribuição da tiragem: “Quanto ao número de exemplares: a revista é tirada a 200. V. pode dispor da metade. Os meus eu os distribuirei por aqui e mandarei uns 50 para que a Saudade distribua a quem melhor lhe parecer, no Rio. Está conforme?” (p. 164). Também nessa carta, o poeta brasileiro dispõe seu plano para a segunda edição da revista:
No 1º número, fui responsável por 3 pliegos: o do Vinicius, o do Santos Torroella e o do gravador catalão. Você, por dois. Será interessante que, no 2º, V. se encarregue de 3 e eu de 2. Você já me mandou: Fernando Pessoa e Leonor de Almeida. Gostaria, por isso, que mandasse um 3º. Lembro, entretanto, para que a coisa fique variada, que mande alguma coisa não portuguesa: castelhana, francesa, galega. Etc. Por que não galega, mesmo que seja antiga? (p. 164).
O envio das cartas segue na conversação sobre a remessa dos exemplares, sua distribuição e o planejamento para o segundo número da revista, registrando-se que Alberto de Serpa se compromete a “mandar-lhe colaboração do Poeta Ildefonso-Manuel Gil, de Saragoça, ou Rafael Morales, de Madrid” (p. 168). No mês de março de 1950, os dois poetas trocam diversas cartas e, logo na primeira desse mês, Alberto de Serpa, ao comunicar a alegria em receber os pacotes contendo O cavalo, expressa a preocupação em iniciar logo em abril o número seguinte “para ganharmos regularidade” (p. 168). Nessa mesma missiva, o poeta português anuncia que irá expor à venda “35 exemplares em livrarias de Lisboa, Porto e Coimbra, para que quaisquer poucos interessados tenham possibilidade de adquirir” (p. 168). Em resposta, João Cabral demonstra-se empolgado com o seguimento da revista e esboça o planejamento com os textos que já possuem e com os que podem receber.
A esquematização para a continuidade da revista acalanta os organizadores, e Cabral, em carta de 23 de março de 1950, manifesta, inclusive, a sequência para os volumes 3 e 4, esboçando o plano de publicações a vir.
A interlocução entre os poetas nos dá a ver a lenta distribuição d O cavalo, enquanto permanecem animados pela sequência. Alberto de Serpa não olvida esforços para a disseminação da revista: “Entreguei à Portugália do Porto 35 exemplares para venda em Lisboa, Porto e Coimbra, pois pareceu-me justo que alguns furiosos da Poesia pudessem ter O Cavalo” (p. 183). E é pelo final de março que os pacotes ainda chegam às terras lusas, alguns violados e com número menor do que o esperado e, enquanto engatinha o compartilhamento dos exemplares, permanece o esboço para a possível efetivação da continuidade da revista, na carta de 28 de março de 1950, quando Serpa comunica: “Com todo prazer, dou só Pessoa e a Leonor de Almeida para o no. 2. Telhe o no. como quiser, que tudo ficará excelentemente! Para o 3, eu terei, então, os 3 pliegos” (p. 186). E, já em abril, Serpa insiste: “Já começaram os trabalhos do no 2? Conseguiremos tê-lo pronto em maio? Seria ótimo, para, com o no. 3, termos regularidade” (p. 191).
Ao se ler a correspondência, percebe-se o sonho acalentado pelo curso de O cavalo, como também a preocupação diante das impressões que causou. Passado mais de um mês após a carta enviada por Alberto de Serpa, em 21 de maio de 1950, ele questiona novamente: “E o nosso Cavalo? [...] Veja se me dá um pouco de fogo para nosso Cavalo! Ele não deve parar tão perto - pois não?” (p. 193-194). Conforme exposto por Solange Fiuza, a distração de João Cabral diante da revista foi justificada pela saúde dos filhos e dele mesmo, que esteve a faltar e deixou O cavalo “misteriosamente enferrujado” e, aos poucos ficaria esquecido, ao que se queixa Serpa, em carta de setembro de 1950: “Fico muito triste por nem uma linha me dar sobre O Cavalo... Devo considerá-lo morto? Aqui, perguntam-me por ele, de vez em quando, com um sorriso triste de velório. E eu respondo que sim, que sairá um dia. Mas sairá?” (p. 212).
A última carta de Alberto de Serpa em que faz referência à publicação da revista data de janeiro de 1951. As linhas registram a ausência de notícias, a solicitação, ainda, de envio de volumes, para dispor entre conhecidos:
Toda a gente me pergunta pelo Cavalo. E eu dou-o, umas vezes, por afundado em mares tumultuosos, outras, fugido para nuvens, deste mundo sem Poesia, horrorizado. Mas a verdade é que me custa muito vê-lo parado. Não poderá o João lançar um novo número de despedida? Vejo a impossibilidade de o mantermos, assim distantes como estamos: próximos, sei que o entusiasmo de um contagiaria o outro, e O Cavalo não tropeçaria. Assim, parece-me melhor, realmente, darmos a tarefa por finda. [...] Veja, Amigo, se ainda tem coragem para lançar esse número 2. Talvez que surgissem, depois forças para continuarmos... Peço notícias urgentes sobre o caso. (p. 220-221).
As respostas não chegaram, nem tardiamente, e o diálogo feneceu. A carta enviada por Serpa no anseio de “notícias urgentes” não foi respondida e, na derradeira carta dos anos de 1950, João Cabral discorre por outros assuntos, desconexos do que os uniu na farta correspondência trocada.
O silêncio entre os dois poetas se instalou por quatro anos, e mesmo com uma breve retomada da comunicação, nenhuma linha foi mais escrita sobre a revista - e O cavalo, desapareceu.
Estudos diversos sobre a correspondência entre os escritores são reveladores e fornecem, aos pesquisadores e à crítica literária, novos fundamentos, detalhes, impressões e, principalmente, informações só possíveis de alcançar numa produção do Eu sem a simulação ficcional ou poética. Mais do que a revista idealizada, a troca de escritos exibe uma faceta do campo literário, sua movimentação e a articulação dos atores necessários para sua existência.
Ter conhecimento do livro Correspondência inédita e anotada - Alberto de Serpa - João Cabral de Melo Neto - O cavalo de todas as cores desvela outra faceta da produção literária em que estão circunstanciados, mais do que o sonho de uma revista que democratize mais a literatura, os anseios desses seres que, além de poetas, ainda assumem a função de propagar a poesia e patenteá-la como um bem necessário.
Referências
- ANDRADE, Carlos Drummond de. (1940). Sentimento do mundo Rio de Janeiro: Record, 1998.
- CENTRAL do Brasil. Direção: Walter SallesJúnior . Roteiro: João Emanuel Carneiro, Marcos Bernstein. Produção: Martire de Clermont-Tonnerre e Arthur Cohn. Riofilme. Brasil, 1998. (113 min).
- MELO NETO, João Cabral de. Morte e vida severina Rio de Janeiro: Alfaguara, 2016.
- MELO NETO, João Cabral de. O cão sem plumas Barcelona: s. ed., 1950.
- MINISTÉRIO das Relações Exteriores. O Arquivo das Índias e o Brasil: documentos para a história do Brasil existentes no Arquivo das Índias de Sevilha. Pesquisa de João Cabral de Melo Neto. Prefácio de José Honório Rodrigues. Divisão de Documentação, Seção de Publicações, 1966.
- MORAES, Vinicius de. Poemas, sonetos e baladas: com 22 desenhos de Carlos Leão. São Paulo: Edições Gaveta, 1946.
-
O CAVALO de todas as cores n. 1, janeiro de 1950. Revista trimestral dirigida por Alberto de Serpa e João Cabral de Melo Neto ... publicada em Barcelona por João Cabral de Melo. Disponível em: Disponível em: https://chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/file:///C:/Users/user/OneDrive/%C3%81rea%20de%20Trabalho/IEB%20-%20publica%C3%A7%C3%B5es/RIEB/RIEB%2092/e10778%20RES/materiais%20de%20apoio/UCBG-RB-17-26_Obra_Completa.pdf Acesso em: dez. 2025.
» https://chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/file:///C:/Users/user/OneDrive/%C3%81rea%20de%20Trabalho/IEB%20-%20publica%C3%A7%C3%B5es/RIEB/RIEB%2092/e10778%20RES/materiais%20de%20apoio/UCBG-RB-17-26_Obra_Completa.pdf -
RÉGIO, José. Poesia. O cavalo de todas as cores, n. 1, jan. 1950, s. p. Disponível em: Disponível em: https://chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/file:///C:/Users/user/OneDrive/%C3%81rea%20de%20Trabalho/IEB%20-%20publica%C3%A7%C3%B5es/RIEB/RIEB%2092/e10778%20RES/materiais%20de%20apoio/UCBG-RB-17-26_Obra_Completa.pdf Acesso em: dez. 2025.
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Os conjuntos de dados gerados e/ou analisados durante o estudo atual estão disponíveis no manuscrito e em materiais suplementares.
