Open-access “SOB A LUZ DESSA BANDEIRA, O EDIFÍCIO DO NOSSO FUTURO”: O JORNAL PALÁDIO, A POLÍTICA E AS ELITES LOCAIS DE ITACOATIARA – AM (1908 – 1911)1

“UNDER THE LIGHT OF THIS FLAG, THE BUILDING OF OUR FUTURE”: THE NEWSPAPER PALÁDIO, POLITICS AND LOCAL ELITES OF ITACOATIARA – AM (1908 – 1911)

Resumo

O contexto do periodismo, tanto no espaço do Amazonas quanto no cenário nacional mais amplo, na virada do século XIX para o XX, caracteriza-se por uma expansão na produção de jornais, inédita até então, em um momento em que o Brasil experimentava um processo de urbanização e crescimento econômico. O Amazonas, nesse recorte, passou por um processo caracterizado como boom fruto da exploração da borracha e do aumento populacional. Nessa conjuntura, este artigo estrutura-se a partir da tentativa de compreender as ações do periodismo em espaços fora da capital do Amazonas, Manaus, procurando lançar luz sobre a periodicidade do Paládio, jornal da cidade de Itacoatiara. Assim, acompanhar as atividades da imprensa no interior possibilita a percepção de movimentos políticos e articulações de grupos letrados em espaços urbanos mais acanhados, mas que desenvolviam dinâmicas próprias e relações particulares de poder e dominação.

Palavras-chave
Imprensa; Itacoatiara; política; modernidade; poder

Abstract

The context of journalism, both in the Amazon region and in the broader national scenario, at the turn of the 19th to the 20th century, is one of unprecedented expansion in newspaper production, coinciding with a period of urbanization and economic growth in Brazil. The Amazon region, within this context, underwent a boom driven by rubber exploitation and population growth. This article aims to understand the activities of journalism in areas outside the Amazonian capital, Manaus, focusing on the periodicity of Paládio, a newspaper from the city of Itacoatiara. Thus, observing press activities in the interior allows for the perception of political movements and the articulations of literate groups in smaller urban spaces, which nevertheless developed their own dynamics and particular power and domination relationships.

Keywords
Press; Itacoatiara; politics; modernity; power

Introdução

A imprensa que surgiu no Amazonas foi fruto de uma reconfiguração do cenário político, comparável à introdução da Imprensa Régia no Império. Em 1850, o Amazonas passou por uma relevante mudança ao ser elevado à categoria de província, tornando-se independente do Grão-Pará. Nesse contexto, o governador Tenreiro Aranha estabeleceu uma tipografia em Manaus, de onde surgiu o Cinco de Setembro, em 18513. Assim como ocorreu com a imprensa no Brasil, as atividades da imprensa representaram, no estado do Amazonas, um amplo espaço de debates e disputas entre as elites locais, além de servirem como forma de resistência das classes populares.

Especialmente no cenário da segunda metade do século XIX, Nelson Werneck Sodré, em História da Imprensa no Brasil – clássico da historiografia cuja primeira edição foi publicada em 1966 –, destaca um relevante processo de relações complexas potencializadas pelas consequências da Guerra da Tríplice Aliança4, quando o país se encontrava em um contexto em que reformas já demandadas – tais como a abolição da escravidão e os projetos republicanos – passaram a ter suas vozes cada vez mais difíceis de serem abafadas. A imprensa, em seu caráter interventor na opinião pública, assumiu protagonismo nesse momento.

A imprensa, já na Primeira República, começou a experimentar um processo de modernização em forma e conteúdo (COSTA, 1999 [1968], p. 233). Como destaca Maria de Lourdes Eleutério: “(...) o crescimento urbano propiciava o ímpeto de reportar novos focos de notícia” (ELEUTÉRIO, 2012, p. 57), ao mesmo tempo em que a imprensa se diversificava (SODRÉ, 1999 [1966], p. 259). Robert Levine, em O Sertão Prometido, discorre sobre o cenário do Massacre de Canudos e delineia o contexto das atividades periódicas no país:

No Brasil do século XIX, as taxas de alfabetização eram baixas, mas a atividade jornalística era intensa. Cada facção política disseminava suas ideias por meio de pelo menos um periódico. Em 1897, ano da última campanha contra Canudos, 27 jornais foram criados na capital federal

(LEVINE, 1995, p. 54).

Robert Levine, ao tratar do periodismo no século XIX, destaca que “quase 700 jornais foram publicados na Bahia no transcorrer do século, e até a aldeola de Curralzinho teve nove” (LEVINE, 1995, p. 54). Luís Balkar Sá Peixoto Pinheiro destaca o relevante número de pelo menos 600 jornais que circularam por todo o estado do Amazonas entre 1851 e 1950, dos quais cerca de 18%, isto é, aproximadamente 120 títulos, circularam no interior (PINHEIRO, 2017, p. 26).

As reflexões sobre as quais se debruça este artigo seguem a periodicidade do jornal Paládio, órgão do Club Recreativo Itacoatiarense, que circulou na cidade de Itacoatiara, no interior do estado do Amazonas. Entre 9 de setembro de 1908 e 23 de julho de 19115, período em que foram publicadas, respectivamente, a primeira e a última edição. O Paládio, sucessor do efêmero O Avança (1907), produto do mesmo grupo responsável pelo periódico objeto deste estudo, circulou pela cidade de Itacoatiara apresentando-se como órgão defensor dos interesses daquela população, apelando a um discurso de “moral” e “honra”, e reivindicando um progresso que a cidade pretensamente mereceria em troca dos esforços incansáveis dos batalhadores, os “paladinos do progresso” que viviam naquela terra.

Apesar de seu layout reduzido, quando comparado aos grandes jornais das principais cidades do país, o Paládio comportava-se como um arauto do progresso, procurando tecer redes de comunicação com os grandes centros. Isso significa que a sua rede de comunicações se expandia não somente rumo à capital do Estado, Manaus, mas também buscava se relacionar com as dinâmicas que aconteciam no Rio de Janeiro, então capital do país, e em São Paulo, dois dos principais centros urbanos do Brasil. Além disso, veiculava e opinava sobre questões do exterior, especialmente da Europa, bem como sobre a repercussão das tensões políticas na América Latina.

Nelson Werneck Sodré propõe que as forças que controlavam a imprensa a partir da segunda metade do século XIX eram o Estado e o capital comercial. Os jornais, ou os grandes jornais, tornaram-se empresas capitalistas, inseridas e manipuladas no conjunto de elementos apropriados pelas forças controladoras, o Estado e o capital. O jornal e a tipografia são instituições que antecedem a República, mas foi a partir dessa nova ordem institucional que a imprensa encontrou sua expansão e sua consolidação.

Apesar desse cenário de transformações que marca a transição do século XIX para o XX, com a consolidação da grande imprensa e seu caráter empresarial, Sodré também destaca, e é nessa esteira que caminha este artigo, que ainda resistia, especialmente no interior, nas pequenas cidades, a imprensa de caráter artesanal, representada pelas folhas semanais produzidas em tipografias simples (SODRÉ, 1999 [1966], p. 275), envoltas em processos mais rudimentares de produção e muitas vezes ligadas às lutas locais, geralmente vinculadas aos pequenos grupos da elite política que disputavam o poder nesses espaços.

É importante relativizar essa perspectiva levantada por Sodré. Autores como Luís Balkar Sá Peixoto Pinheiro e Luís Francisco Munaro, ao se voltarem para a imprensa interiorana no Amazonas, perceberam esse cenário do periodismo ligado às lutas locais e envolto pelos interesses das elites políticas. Mas, para além dessas questões, os autores também identificam, nesse periodismo um caráter que procura superar os limites da localidade. O próprio Paládio é expressão desse movimento, quando, apresentando-se como “defensor dos interesses locais”, procurava não apenas refletir as contradições daquela localidade, mas intervir em questões a nível internacional e difundir, na região, uma identidade progressista, adotando uma postura voltada a “conquistar a palma da vitória ao lado dos paladinos do progresso desta formosa Itacoatiara”6.

Crescendo à beira do rio Amazonas, a cidade de Itacoatiara se estabelece no contexto da exploração da borracha como um relevante espaço de articulação das navegações, e, de acordo com Luís Munaro, “pode ser considerada a maior cidade da periferia do estado do Amazonas no início do século XX” (MUNARO, 2015, p. 3).

Nas páginas do Paládio, não são poucos os textos que repercutem práticas e criam demandas nas esferas municipal, estadual e nacional, ou debates a respeito de posturas legisladoras de hábitos e costumes relacionados ao progresso, a exemplo do editorial do terceiro número do semanário, que, sob a manchete “O Paládio”, dizia:

Quando empreendemos a nossa jornada alimentava-nos ao lado de nosso esforço decidido pelo progresso desta terra o patrocínio franco e sincero de nossa educada população pressurosa a atender o apelo que lhe fizemos em prol da realização do nosso ideal7.

Na continuidade desse texto, o que se manifesta – e que se estende por toda a publicação do jornal – é uma constante “batalha pelo progresso moral e material” daquela terra. Um elemento serve à percepção não apenas dessa reivindicação da folha como também para perceber como esse discurso era empregado, quais projetos, debates e intervenções vinham juntos deste discurso, que elementos eram demandados como expressão desses avanços morais e materiais tão caros ao discurso do Paládio.

Resgatando a repercussão da aurora do jornal e como forma de dimensionar o lugar do Paládio na imprensa amazonense, na edição de 9 de setembro de 1908 do Jornal do Commércio8 de Manaus, circulou uma breve nota sobre o surgimento de uma pequena folha jornalística na cidade de Itacoatiara, a qual dizia: “Acaba de sair à luz da publicidade, n’aquela cidade do Baixo Amazonas, o ‘Paládio’, órgão do Club Recreativo Itacoatiarense. É um jornal de pequeno formato, mas feição moderna.9

Essa nota do Jornal do Commércio possibilita a percepção de alguns elementos, uma indicação do lugar do Paládio no espaço da cidade de Itacoatiara, uma dimensão de seu escopo no periodismo amazonense e o próprio olhar de um veículo de grande expressão na cidade de Manaus sobre um jornal menor do interior. Consolidado na imprensa local como um empreendimento de grande repercussão, o Jornal do Commércio10, ao definir o Paládio de Itacoatiara como um “jornal pequeno, mas de feições modernas” marca a diferença hierárquica entre ambos. Dessa forma, o Paládio nasce legitimado pelo Jornal do Commércio, mas é colocado em uma posição “à margem” da imprensa da capital, vista como referência.

A proposta do artigo consiste em acompanhar a periodicidade do jornal, buscando observar como o impresso se articulava e intervinha nas relações, dinâmicas e conflitos de Itacoatiara do início do século XX, contexto em que a cidade, como um dos principais espaços alcançados pela expansão da economia da borracha, reconfigurou-se por meio de um significativo desenvolvimento urbano.

O primeiro tópico do artigo, A Itacoatiara na virada do século XX e a atuação de João Pereira Barbosa, apresenta um panorama das disputas de poder e o contexto político da cidade no final do século XIX e início do século XX. A figura do Coronel Barbosa surge como elemento central do tópico, em razão de sua atuação como liderança política e de seus esforços para a criação de jornais que fizessem circular ideias e interesses pessoais.

O tópico Do apelo do povo, nasce um jornal, apresenta uma descrição mais detalhada dos elementos presentes no Paládio, entre tiragem, estrutura e projetos que fundamentam sua proposta. À luz dos interesses que circundam agremiações e grupos letrados, o tópico também apresenta os principais nomes que encabeçam o jornal e como estes se inserem nas dinâmicas da municipalidade.

Um jornal “apartidário” como porta-voz de um grupo político, o tópico de encerramento, é o ponto de conexão entre os tópicos anteriores e discute os discursos presentes nas páginas do periódico, sua reivindicação como produto “sem paixões políticas” e sua atuação fervorosa em defesa dos interesses do grupo político liderado pelo Coronel João Pereira Barbosa.

Os números do jornal Paládio permitem a construção de um olhar privilegiado sobre um dos expoentes do periodismo no interior do Amazonas, no contexto do chamado “boom” dos periódicos, que abrange as duas últimas décadas do século XIX e as duas primeiras do XX, possibilitando não apenas uma reflexão sobre o próprio jornal enquanto objeto, apropriando-se de suas ideias, debates e projetos, mas também enquanto fonte para uma historiografia do periodismo nos sertões amazônicos.

O que se pretende discutir, portanto, é como o jornal, posto como um elemento de intervenção urbana, se constrói e se articula, adotando, de forma consciente um discurso em defesa do ímpeto progressista e da modernidade, balizado pela consolidação da égide discursiva do capitalismo em expansão e, a partir disso, como o semanário desenvolve esse projeto em suas páginas, pondo-se como detentor da “grandiosa missão” de civilizar seus leitores e a população, ao passo que se coloca como intrépido defensor dos interesses da administração municipal.

A Itacoatiara na virada do século e a atuação de João Pereira Barbosa

A partir da segunda metade do século XIX até o início do século XX, o Amazonas passou por um processo de destacada expansão econômica. Em decorrência do aumento da demanda no mercado internacional, a extração da borracha começou a ganhar relevância, chegando a se tornar o terceiro maior produto exportado do país nas últimas décadas da centúria, “com 8% do valor total das exportações, porcentagem muito próxima à do açúcar (9,9%)” (FAUSTO, 2006 [1994], p. 239).

A partir desse aumento das exportações, o chamado boom da borracha consolidou-se na região com o desenvolvimento das redes bancárias e casas aviadoras11, o aumento populacional proporcionado pelas ondas migratórias – em especial advindas do Nordeste do país, e o crescimento das capitais, tidas como centros da borracha, Manaus e Belém.

O novo regime promulgou inovações. Uma das mais relevantes foi a maior independência econômica e administrativa das unidades federativas em relação ao governo central. A expansão da borracha desembocou na formação de um complexo cultural amazônico que, segundo Samuel Benchimol, “compreende um conjunto tradicional de valores, crenças, atitudes e modos de vida que desencadearam a organização social e o sistema de conhecimentos” (BENCHIMOL, 2021 [1999], p. 13).

Desse espraiamento, comenta Munaro, acompanhou-se “(...) o boom da borracha, o crescimento das cidades e a formação de aparelhos administrativos nas freguesias, vilas e cidades” (MUNARO, 2017, p. 23). A partir desse fortalecimento da vida urbana, o autor aponta o surgimento da necessidade, tanto por parte das administrações públicas quanto pelo comércio, da elaboração de esferas regulares de publicidade desses atos econômicos e administrativos. Isto é, considera-se que esses veículos eram apenas parcialmente ligados às esferas públicas, funcionando muito mais em torno das burocracias recentemente demandadas e tendo pouca ressonância para além dos círculos elitizados.

Luís Balkar Sá Peixoto Pinheiro propõe uma relação intrínseca entre o desenvolvimento da imprensa nas cidades interioranas com o urbanismo e decorrente da economia da borracha e do consequente deslocamento de contingentes populacionais para essas regiões. Como afirma o autor: “tanto é assim que é possível perceber nos registros catalográficos, a maior incidência de títulos em áreas e períodos alcançados pela expansão da borracha” (PINHEIRO, 2017, p. 23), o que explicaria uma maior produção de jornais em municípios como Itacoatiara, Borba e Manicoré, bem como nas regiões de Lábrea e Rio Branco (ainda vinculado ao Amazonas) no período de 1880 a 1920, de um lado. Por outro, localidades mais afastadas das áreas de seringais teriam tido pouca ou nenhuma atividade periódica.

Esses grupos, uma vez no controle da administração pública, detinham, em larga medida, o controle da palavra impressa, podendo inclusive, pela ação da força policial, empastelar jornais opositores sem grande esforço. Então, os periódicos, como forma de garantir sua subsistência, mas também, em muitos casos, como sua própria razão de ser, acabaram por atuar pautados por relações políticas. Mesmo o jornal-empresa se pauta por relações nas quais atua como servidor de um poder. “Tudo se personaliza e se individualiza” (SODRÉ, 1999 [1966], p. 276) esclarece Sodré, o que define, de certo modo, esses limites que compõem as linhas de atuação da imprensa, ou seja, quando envolta pelo jogo de interesses articulado pelos poderes públicos.

Em suma, observando o Paládio de forma detida, a própria duração do jornal aponta para sua aproximação com a administração de João Pereira Barbosa, quando este assumiu seu segundo mandato na superintendência em 25 de janeiro de 1908 (SILVA, 1998, p. 104), enquanto o jornal surgiria mais tarde, em setembro. Assim, após o encerramento da gestão do coronel em dezembro de 1910, com o Paládio houve o último número lançado em 23 de julho de 1911.

A centralidade do coronel João Barbosa representa o funcionamento dessa relação simbiótica entre atuação no jogo político reconfigurado na República, controle da administração pública e a participação ativa nos discursos produzidos nas imprensas locais. João Pereira Barbosa teve sua atuação política em Itacoatiara iniciada ainda aos últimos anos de Monarquia no Brasil. Barbosa ingressou na vida política da Serpa em 1886, quando assumiu um cargo na Câmara de Vereadores do município, nas eleições de 1 de dezembro de 1885 (SILVA, 1998, p. 191), com duração de um triênio ao mandato (1886 – 1889).

O cenário político das cidades mudou após a instauração da República. Ainda em 1889, como destaca Francisco Gomes da Silva, “Deodoro da Fonseca manda constituir a Junta Governativa Provisória do Amazonas, sob o comando do capitão-engenheiro Augusto Ximenes Vilerroy” (SILVA, 1998, p. 43). Sua principal ação em relação a Itacoatiara foi a dissolução da Câmara Municipal e a criação de um Conselho Municipal dedicado a regular as funções da antiga câmara.

Nessa nova configuração do poder na administração municipal, Raymundo Nunes Salgado foi designado para a presidência, juntamente com Miguel Francisco Cruz Júnior e Joaquim José Pinto de França, compondo o trio de intendentes. João Pereira Barbosa acabou ficando afastado da administração pública com o fim da Câmara (SILVA, 1998, p. 43).

Sucessor e homem de confiança de Villeroy (JOBIM, 1957, p. 202), Eduardo Ribeiro, membro do Partido Republicano Democrático, foi nomeado em 1892 por Floriano Peixoto como governador do estado, após já ter ocupado o posto entre 1890 e 1891. No mesmo ano, entrou em vigor a Constituição que extinguia os conselhos municipais e estabelecia a separação entre Intendência e Superintendência. A primeira passou a ter atribuições que se aproximam das de um vereador, enquanto a segunda assumiu a função de administração executiva (BALEEIRO, 2012, p. 34.). Em detrimento da figura de João Pereira Barbosa, quem acabou nomeado ao cargo de superintendente foi seu desafeto político Álvaro França, principal nome do PRD de Eduardo Ribeiro na cidade.

Escanteado da vida pública, João Pereira Barbosa encabeçou a oposição a França. Ademais, Barbosa, procurando resistir ao desgaste de sua figura que ressoava nos olhares das lideranças estaduais, adotou uma posição oposicionista valendo-se da imprensa como porta-voz dos seus interesses. Em 1893, Barbosa “fez-se sócio do capitalista Avelino Augusto Martins, instalando o matutino semanal O Município que adotou a linha crítico-literária” (SILVA, 1998, p. 51).

A oposição feita por Barbosa foi relativamente sólida até 1895, quando o “papel impresso é mais forte que as metralhadoras”. Álvaro França, sofrendo com os ataques constantes da oposição, valeu-se do apoio do governo de Eduardo Ribeiro, e mandou fechar a tipografia de O Município como um ato e afirmação de sua posição. Com efeito, celebrou contrato (SILVA, 1998, p. 57) com o jornal A Federação, que era editado em Manaus e servia como canal direto de promoção dos feitos da superintendência.

Os ventos que sopravam sobre a posição política de João Pereira Barbosa no cenário de Itacoatiara mudaram com a virada do século. Em 1903, com o desgaste da imagem de Álvaro França, Barbosa foi empossado como superintendente por meio de portaria emitida em 3 de agosto pelo governador Silvério José Nery. No cargo, foi sucedido por Luiz Stone em 1905. No ano seguinte, em parceria com o comerciante Joaquim Francisco Figueiredo, Barbosa lançou o semanário Arauto, que se tornou conhecido na cidade de Itacoatiara.

Em janeiro de 1908, o coronel Barbosa retornou ao cargo de superintendente. Sua proximidade com as principais figuras do Partido Republicano Democrático garantiu maior prestígio à sua gestão quando Antônio Clemente Ribeiro Bittencourt assumiu o governo do estado em julho do mesmo ano.

Nesse cenário de estabilidade e de relação próxima entre a administração de Barbosa e a gestão de Bittencourt no âmbito estadual (OLIVEIRA, 2019), e tendo figuras de sua confiança em agremiações como o Club Recreativo Itacoatiarense e, consequentemente, no Paládio, não chega a ser surpresa a posição apoiadora do jornal em relação ao superintendente e, de forma mais abrangente, ao governo de Antônio Bittencourt no âmbito estadual. Em sua análise sobre o Humaythaense e a relação do jornal com seu fundador, José Francisco Monteiro, Davi Avelino Leal destaca a importância das publicações de datas comemorativas como uma oportunidade para compreender como o periódico aborda esses momentos em suas páginas.

A própria existência e duração do Paládio confunde-se com o cenário político que o circunda. Na condição de fruto do Club Recreativo Itacoatiarense, foi composto por figuras como Ozorio Alves da Fonseca, major Francisco Domingos do Lago e José Libanio Bezerra. Esses nomes encabeçam a organização do periódico enquanto atuam próximos da superintendência municipal chefiada pelo coronel João Pereira Barbosa.

Do apelo do povo, nasce um jornal

Antes de abordar o contexto de relações nas quais o jornal está imerso e interfere, faz-se necessário um movimento de desconstrução da fonte, privilegiando seus aspectos técnicos, os principais nomes em sua composição e seus espaços de atuação na municipalidade.

O Paládio, como já apontado, nasce da reformulação do Club Pessoal do Avança, que passou a ser chamado de Club Recreativo Itacoatiarense. O jornal, nessa reconfiguração, incorporou novas tecnologias tipográficas em sua produção. É importante ressaltar que, apesar de ser um jornal de pequeno porte e com pouca influência além de Itacoatiara, busca estabelecer um espaço de sociabilidade e construir um elo que constitua uma comunidade de leitores.

Além de ser defensor do programa traçado pelo Club Recreativo Itacoatiarense e dar continuidade ao programa de seu antecessor, O Avança, o Paládio se apresenta como uma ferramenta disposta a enfrentar todos os obstáculos que se colocarem em seu caminho, conforme mencionado em sua primeira edição. Enfim, seu objetivo é conquistar o progresso dos “paladinos” daquela localidade.

A primeira questão que diferencia o jornal de seu antecessor é a existência de uma tipografia própria. Enquanto O Avança tinha a sua diagramação elaborada na tipografia do Arauto – jornal de maior circulação em Itacoatiara –, o Paládio contava com a “tipografia do Paládio”, localizada na então Travessa 7 de Setembro. O primeiro anúncio publicado nas páginas do jornal foi o da tipografia, no qual se divulgava o trabalho com impressões de diversas naturezas, tais como cartões de visita, participações de casamentos, batizados e memorandos, ofertando “asseio e rapidez nos trabalhos da Tipografia do <Paládio>”12.

A existência de uma tipografia específica para o Paládio, que não apenas imprimia o jornal, mas também produzia diversos tipos de impressos, combinada à tipografia do Arauto, oferece uma visão mais abrangente do cenário da imprensa em Itacoatiara no final da década de 1900. A presença de duas oficinas tipográficas durante o mandato de João Pereira Barbosa como superintendente municipal não é mera coincidência, uma vez que ambos os jornais estavam alinhados à administração local e recebiam doações de materiais do coronel.

Outro reflexo em relação ao seu antecessor está em sua estrutura. Enquanto O Avança apresentava um tamanho de 23,5 x 16 cm, com um caderno de quatro páginas e duas colunas, e valores de $200 para o número do dia e $300 para números atrasados, o Paládio trouxe uma estrutura mais complexa, começando pelo tamanho. Inicialmente, este tinha 26 x 32 cm e, posteriormente, passou a 29 x 40 cm.

Além disso, o Paládio manteve inicialmente uma estrutura de quatro páginas, com três colunas cada, mas entre as edições 73 e 79, adotou uma diagramação com quatro colunas. Apesar da falta das edições 74 a 78 dificultar a compreensão das causas dessa reorganização do formato do jornal, é possível observar que, mantendose as quatro páginas, os anúncios passaram a ocupar as duas últimas, exigindo a organização em quatro colunas, em vez de três, a fim de manter a quantidade de publicações e notas na folha.

Em relação aos valores, enquanto O Avança cobrava apenas por números avulsos, o Paládio, indicando uma maior tiragem, estabeleceu o sistema de assinaturas, mantendo o preço do número do dia em $200. O valor para números atrasados era de $400, a assinatura semestral chegava a 6$000 e o valor anual era de 10$000.

Em comparação, o Arauto mantinha um sistema de vendas semelhante, porém com valores diferentes: o número avulso custava $400, o atrasado $300, a assinatura semestral 9$000 e a anual 15$00013. Já o Jornal do Commercio14, dos grandes títulos que circularam na cidade de Manaus no mesmo contexto, realizava suas vendas apenas pelo modelo de assinaturas anuais, tendo o valor de 50$000 para a capital e 60$000 para os interiores e outros estados. De acordo com Leno José, o Jornal do Commércio só começou a apresentar valores de venda a partir de seu número 3391, de 5 de outubro de 1913, sendo $200 o avulso e $500 o número do dia (SOUZA, 2010, p. 116).

Jornais como o Humaythaense15, da cidade de Humaitá, que em 1908 circulava pelos valores de $500 o número avulso, 10$000 a assinatura semestral e 18$000 a assinatura anual, e O Manicoré16, da cidade de mesmo nome, também em 1908, apresentava valores de $300 para os números avulsos, 8$000 para as assinaturas semestrais e 15$000 para as anuais. Esses números permitem delinear o cenário da imprensa nos interiores do Amazonas, definindo uma diferença significativa entre esses periódicos e grandes jornais da capital, como o Jornal do Commércio.

A principal questão que esses valores indicam é a disparidade entre as assinaturas semestrais e anuais, enquanto os valores dos números diários e avulsos variam entre 300 e 500 réis, isto é, as assinaturas de jornais mais longevos como o Humaythaense e O Manicoré, ou mais próximos do caráter empresarial, como o Jornal do Commércio de Manaus, alcançavam valores significativamente superior aos do Paládio. Os valores da folha do Recreativo Itacoatiarense, quando postos em paralelo a esses exemplos, fornecem indicativos do escopo do periódico. Com a sua periodicidade recém-iniciada, o Paládio encontrava-se em um contexto de menor expressão mesmo no cenário local, em que o Arauto sendo o maior jornal naquele momento. Em suma, os valores também podem indicar uma tentativa do jornal de alcançar um maior número de leitores entre a população da cidade, além de poderem ser interpretados como traços dos limites do impresso, circunscrito aos espaços do Club.

O jornal era de periodicidade semanal, como era comum na imprensa interiorana. Contudo, não seguia à risca essa proposta, não por vontade própria, mas em razão das limitações técnicas que lhe são impostas. No jornal, é comum o registro de comemoração pelo recebimento de doações de material tipográfico, muitas vezes ofertadas pelo coronel João Pereira Barbosa, superintendente da cidade e proprietário do jornal Arauto, além das comuns notícias da ida do diretor da folha, Ozorio Alves da Fonseca, a Manaus, a fim de obter material tipográfico.

Outra questão que circunda o jornal diz respeito à sua tiragem. O periódico oferece poucas informações acerca dos seus números de produção. Levando em conta os dados de densidade populacional levantados por Francisco Gomes da Silva em relação à cidade de Itacoatiara na virada do século XX, chega-se ao contingente aproximado de 12 mil pessoas na cidade (SILVA, 1998, p. 21). O Paládio não oferece números claros acerca de suas vendas, tendo aparecido apenas o número de 87 assinantes do jornal no ano de 1911. Apesar de seus valores relativamente acessíveis, se comparados aos de outros jornais – inclusive o Arauto –, é possível supor que o periódico não tenha alcançado números muito expressivos de vendas para além dos círculos do Club Recreativo Itacoatiarense.

Em relação à sua equipe editorial, o jornal, em suas primeiras publicações anunciava como expediente apenas o nome de seu redator-chefe, José Libanio Bezerra. Além da função de redator, Bezerra17 também ocupava o cargo de “agente” do Jornal do Commércio de Manaus, em Itacoatiara, uma espécie de correspondente enviado à cidade para angariar assinaturas para o periódico da capital18.

Com a saída de Bezerra do jornal e sua ida para Pernambuco, no número 34, o Paládio apresenta um novo expediente. Além dos nomes dos redatores Olympio Gonçalves Pires e Antônio Simões Barata, já presentes na redação do Avança, aparece a figura de Manoel do Carmo Menezes, também membro do Clube Itacoatiarense e José Mauro de Oliveira como gerente – função que antes não aparecia no expediente no jornal. Porém, a principal figura que aparece nessa nova configuração, como diretor da folha, é Ozorio Alves da Fonseca.

A presença de Ozorio à frente do Paládio indica uma orientação mais clara da folha em direção à reivindicação do seu papel enquanto defensora de um projeto de progresso moral e material, que somente poderia ser levado a cabo por esse “instrumento de luz” que, segundo o então diretor, ensina a história e põe sua pena de combate em prol dos fracos e oprimidos.

Junto dessa reafirmação do lugar da imprensa, o jornal, sob direção de Ozorio estreita relações com a administração pública – possivelmente em razão de sua proximidade com João Pereira Barbosa –, tornando-se mais comum o aparecimento de publicações que dizem respeito a medidas da superintendência, como as já citadas notas de exportação, editais e mesmo saindo em defesa da gestão de Barbosa e da própria figura de Ozorio.

Antes de assumir a direção do jornal, Ozorio já se fazia presente nas páginas do Paládio, a exemplo do texto “Saudação”, publicado ainda no sétimo número do jornal. O texto, escrito por Antônio Barata se refere à comemoração do aniversário de Ozorio, no dia 4 de outubro:

Busco flores colher, para ofertar-te, N’árido campo – a minha inteligência – Mas entristeço, pois lhes falta essência E esse matiz encantador da arte. Embora! Quem me impede de saudar-te? Eu te saúdo, pois; e a Providência Praza enflorar-te a senda da existência, onde não possa rir feliz talhar-te.19

Esse pequeno texto poético não apenas indica a atuação de Antônio Barata no campo literário com recorrentes textos do gênero nas páginas do jornal, como também destaca a aproximação entre as figuras atuantes no corpo editorial da folha jornalística. Além disso, desde seus primeiros anos na cidade de Itacoatiara, Ozorio aparece associado a figuras relevantes da elite econômica e política local. De acordo com Francisco Gomes da Silva, aos onze anos, Ozorio já trabalhava em uma tipografia local e, posteriormente, passou a exercer função na empresa Óscar Ramos & Cia20.

O ano de 1908 não foi apenas o período de reformulação do Club Recreativo Itacoatiarense. Nesse cenário, ocorreu a eleição de uma nova diretoria e o surgimento do Paládio. A nova diretoria do Club contava com Francisco Domingos do Lago na presidência e Mariano Laroze de Azevedo como vice-presidente, os redatores Antônio Simões Barata e Manoel do Carmo Menezes ocuparam, respectivamente, os cargos de primeiro e segundo secretários. Por sua vez, José Libanio Bezerra ocupou o posto de orador e Ozorio Alves da Fonseca assumiu o cargo de tesoureiro.

Nesse ano também ocorreu o retorno à administração municipal do coronel João Pereira Barbosa, figura relevante na política local desde a adesão à República.

Em sua segunda gestão à frente da superintendência, figuras relevantes no Club e no jornal ocuparam posições importantes na administração local, dentre as quais Ozorio Alves da Fonseca na secretaria.

Não é possível afirmar de forma precisa que o casamento de Ozorio Alves com Tharcila Barbosa resultou em sua aproximação com o coronel João Pereira Barbosa, mas é inegável a importância dessa influência na atuação pública de Ozorio. Aos dezenove anos de idade, Ozorio já possuía experiência em oficina tipográfica e havia estabelecido uma relação com Óscar Ramos, um dos principais nomes do comércio de Itacoatiara. No entanto, foi por meio da relação com o coronel Barbosa que Ozorio ingressou na administração pública, atuando na secretaria durante a segunda gestão do coronel. Ao assumir a função de secretário, Ozorio desempenhou o papel de porta-voz na superintendência, divulgando seus atos e projetos. Além de ocupar a secretaria durante a gestão de João Pereira Barbosa e exercer a função de tesoureiro do Club Recreativo Itacoatiarense, Ozorio também era suplente do chefe de polícia em 190921.

Outra pessoa a ser destacada não na produção do jornal, mas como presidente do Club proprietário e que mantém relações de relativa longa data com a administração e a elite local, é o major Francisco Domingos do Lago. Na primeira página do décimo sexto número do periódico, há uma coluna que homenageia seu aniversário:

E’ amanhã dia de festa para os que aqui marejam: o major Francisco Domingos do Lago, o prestimoso presidente do club cujos interesses defendemos, completa anos. Avesso á exibições, verá, entretanto, o nosso querido presidente, o seu lar regurgitando de pessoas amigas que irão levar-lhe os seus embora por tão justo motivo.

E há razão para isso. Há longos anos vive aqui o aniversariante e até hoje sua vida em sido um incessante labutar, um exemplo de caridade, de bom amigo, chefe de família e cidadão. O “Paládio” felicita o major Domingos do Lago e almeja-lhe um venturoso porvir.

Salve 25 de Dezembro.22

Não cabe aqui fazer um juízo de valor das virtudes do “bendito” major, no entanto, alguns elementos podem ser destacados. Em primeiro lugar, o jornal estabelece uma relação amistosa e de exaltação com figuras que fazem parte dos círculos sociais que compõem sua formação. Isso pode ser observado em outras colunas dedicadas a comemorar aniversários, festas, casamentos e reuniões de Clubs que mantêm relações próximas com o Club Itacoatiarense. O major Domingos do Lago é uma das figuras mais bem tratadas nas páginas do Paládio, cercado de elogios à sua moral e conduta a cada aparição.

Como já assinalado, Nelson Werneck Sodré relaciona os jornais que circulam nos interiores aos interesses de determinados grupos elitizados, e Maria Luiza Ugarte Pinheiro reforça essa indicação quando afirma que as pequenas folhas “traziam consigo o agravante de estarem atreladas a projetos políticos e visões sociais consolidadas no interior dos grupos dominantes, seja do ponto de vista político ou do econômico” (PINHEIRO, 2015, p. 26). Esse lugar social dos jornais garantia a sua existência, sobretudo como produto dessas elites locais.

A figura do major Francisco Domingos do Lago concentra boa parte da influência desse universo de interesses que circundam o Paládio, já que ele próprio possui relevância na política local muito anterior ao surgimento do Club e do jornal. Já em 1897, uma década antes da fundação do Club Itacoatiarense, Lago aparece nas páginas do Diário Official como substituto do recém-exonerado Jesuíno da Costa Fonseca no cargo de Prefeito de Segurança Pública do Termo de Itacoatiara23.

Em 1906, o Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial, produzido no Rio de Janeiro, tem, entre seus colaboradores a figura do coronel João Pereira Barbosa. A publicação serve como uma interessante fonte de informações sobre Domingos do Lago. Seu nome aparece não mais no cargo de prefeito de segurança pública, mas como secretário da Loja Maçônica Esperança e Harmonia da cidade de Itacoatiara, a qual tinha como venerável24 o coronel João Pereira Barbosa25.

Além de simplesmente resgatar essa atuação de Francisco Domingos do Lago na maçonaria, é importante ter clareza quanto à sua atuação junto à figura do coronel Barbosa, que, em 1906, já havia ocupado a superintendência local e ocuparia novamente em 1908. Ambos mantinham uma relação notoriamente próxima. Nesse contexto, o Paládio apresenta significativos indícios dessa proximidade: a atuação de ambos na loja maçônica, na vida pública da cidade de Itacoatiara e a presença constante do superintendente nas reuniões do Club Recreativo Itacoatiarense, sendo frequentemente homenageado ou atuando como orador.

Como destaca Luís Munaro, a Constituição de 1891 transformou de forma fundamental a política em nível municipal (MUNARO, 2018, p. 274), configurando esses espaços como zonas de conquista de votos, um verdadeiro teatro de disputas, tendo a autonomia municipal sido um projeto efusivamente defendido pelos ideários do federalismo, que argumentavam em favor da descentralização política e administrativa, repercutindo também na esfera do município.

Essa própria dinâmica expansionista dos cenários urbanos, impulsionada pela borracha, como destaca Vitor Nunes Leal, construiu em nível municipal uma arbitrariedade política concentrada nas mãos das lideranças locais, em geral “carismáticas (...) proprietárias de terras, cujas ramificações políticas se expandiam na medida mesmo de seus vínculos familiares” (MUNARO, 2018, p. 274). Essa percepção apontada por Leal ganhou ressonância quando os olhares se voltaram às figuras que circundam o Paládio.

A figura do major Francisco Domingos do Lago, na condição de presidente do Club, também possibilita a percepção de outro elemento presente no cenário urbano de cidades como Itacoatiara, haja vista que essas localidades se desenvolveram pautadas pelo crescimento urbano e pelo fortalecimento das elites desde o final do século XIX.

A historiadora Kívia Mirrana de Souza Pereira em As Elites se divertem; sociabilidades, identidades e associativismo no Ideal Club (Manaus, 1903 – 1920), ao refletir sobre o cenário de Manaus, argumenta que, a partir do fortalecimento das relações sociais no espaço urbano, é possível associar o crescimento26 de Clubs e agremiações com a expansão da cidade de Manaus e o vínculo “da formação de seus grupos sociais, em especial as elites econômicas, políticas e comerciais” (PEREIRA, 2021, p. 31).

Observando o Paládio enquanto produto, o Club, por meio de sua imprensa, procura constantemente se aproximar da sociedade local, por meio da promoção de bailes festivos, reuniões abertas na casa de seu presidente e projetos de criação de uma biblioteca, sobretudo como maneira de se consolidar uma cultura letrada. Além disso, há também a promoção de espaços e eventos culturais, como o carnaval, o teatro e as procissões religiosas.

O que se percebe é que esse processo de consolidação dos Clubs se relaciona com o crescimento da cidade, mas também mantém estreitos laços com as administrações públicas e com membros da elite política. O Paládio, já em sua primeira edição, apresenta uma postura que se conecta com a percepção de Pereira, ao deixar clara a sua posição como sucessor de O Avança, e principalmente de defensor dos interesses do Club do qual é produto, o Club Recreativo Itacoatiarense. Na coluna “Posse da Directoria”, dizia-se:

A 18 de Julho teve logar em casa do Majo Francisco Domingos do Lago, a sessão solene de posse da nova Diretoria do Club Recreativo Avança.

A par da esplendida ornamentação dirigida pelo nosso inteligente e ativo consocio Ozorio Alves da Fonseca, admirava-se o brilhante aspecto que apresentava a profusa iluminação disposta tanto interior como exteriormente.

Àquela hora teve lugar a abertura da sessão magna, ocupando a presidência, como substituto legal, o nosso consocio Olympio Pires, tendo ao seu lado os Ex.mos Snr. ª Dr. ª Lobão Veras e Emílio Pinheiro, dignos Juízes de Direito e Municipal desta comarca.

Empossada pela ordem a nova Diretoria ocupou a presidência o respectivo funcionário Major Francisco Domingos do Lago.

(...) Em seguida falaram o nosso orador oficial Snr. José Libanio Bezerra, professor Aureliano Paes de Andrade Oliveira pela sociedade musical <Euterpe> e <Club dos Girondinos>; Dr. Carvalho Leal pela <Associação Comercial> e Dr. José Emílio Pinheiro pelo <Arauto>.

(...) Foi uma esplendida festa a do <Club Recreativo Avança>, deixando a mais grata impressão a todos quantos a assistiram27.

Percebe-se, no trecho, uma rede de relações na qual o Club Recreativo Itacoatiarense e o próprio Paládio se inserem e se articulam na cidade de Itacoatiara. A primeira questão que aparece na coluna do jornal vai ao encontro de um dos pontos levantados por Kívia Pereira, trata-se do local onde a reunião de posse da diretoria do Club foi realizada, a casa de seu então presidente, o major Francisco Domingos do Lago.

Pereira argumenta que essas associações recreativas foram incorporadas à sociedade amazonense e estabeleceram conexões entre os chefes políticos e os projetos públicos nacionais. Com base nessa percepção, é possível observar que as reuniões do Club ocorriam na casa de seu presidente, o que evidencia a presença de um elemento de sociabilidade. Ao escolher sua residência como local de encontros do Club, Lago também proporcionava um espaço de interação entre os membros da elite política de Itacoatiara, além dos próprios integrantes do Club Itacoatiarense, aproximando-se de outras agremiações e da superintendência de João Pereira Barbosa.

A casa de Domingos do Lago, localizada na então rua Ruy Barbosa, é descrita no jornal como um prédio com duas grandes salas, vistoso e “caprichosamente ornamentado”. Ela funcionava como um espaço de sociabilidade entre a comunidade que circundava o jornal e o Club. É bastante comum o aparecimento, nas páginas do Paládio anúncios de festas, assembleias do Club, reuniões e cortejos na casa do major, contando com “famílias e distintos cavalheiros” e com destaque especial para as presenças do coronel João Pereira Barbosa.

No bojo dessas articulações presentes nas camadas letradas da cidade, o Paládio, especialmente em suas primeiras edições, apresenta de forma muito clara a sua posição, isto é, a de “defensor impertérrito” do programa traçado pelo Club desde a publicação de seu antecessor, O Avança. Logo em sua primeira edição, o jornal se constitui como um “altruístico empreendimento” dos moços batalhadores pelo progresso que aquela terra, pretensamente, seria merecedora. Ademais, o quarto número do jornal, em sua primeira página, oferece um complemento a esse indicativo da razão de existir do periódico enquanto defensor e difusor dos interesses do Club, sobretudo por meio da manchete “Itacoatiarense”:

E’ hoje essa denominação de nosso Club Recreativo que outrora foi <Avança>.

Quando surgiu á publicidade a resolução que havíamos tomado, e levado a efeito houve quem dissesse que o Club deixaria de existir porque o simpático nome que tinha, havia sido posto de lado. (...) Ainda que a mudança de denominação estivesse mui distante da que foi outrora, não podia isso de modo algum exprimir frieza de animo de nossa parte.

(...) Ao ‘contrário disso: atendendo mesmo ao ideal que alimentamos, a expressão <Itacoatiarense> traduz melhor o mundo de ideias que se aninham em nosso peito relativamente ao fim a que se propõe o nosso Club.

(...) E ali está o <Paládio> para prová-lo (...). Lembrem-se disso todos os nossos caros consócios e não esqueçam também que acima de tudo o nome Itacoatiara está gravado profundamente em nosso pensamento e é ele que nos domina.28

O dito “fim a que se propõe” o Club seria o progresso, no qual se ramifica em diversas manifestações que surgem nas páginas do Paládio. Nesse cenário, ao posicionar-se como defensor dos avanços morais e materiais que Itacoatiara seria merecedora, o programa do jornal se manifesta em sua atuação como emissor dos atos da administração do coronel Barbosa, nas demandas pelo aformoseamento da cidade e no melhoramento dos espaços urbanos, ressoando em aspectos ligados à moralidade, como a exaltação do trabalho e da educação.

O Paládio, portanto, vai ao encontro da interpretação de Luís Munaro sobre os jornais que circulavam nos interiores, entendidos como aqueles relacionados ao coronel ou ao grupo político que orbita sua esfera de publicidade, haja vista que se apresentam como “uma força moderna e vinculada ao progresso da cidade” (MUNARO, 2018, p. 278), propõem-se, sobretudo, como um sinal de superação de uma estagnação moral e material dos tempos da Monarquia em direção a um letramento e a uma civilidade que encaminhariam essas cidades ao progresso esperado.

Um jornal “apartidário” como porta-voz de um grupo político

Posto esse panorama dos aspectos técnicos do Paládio e a contextualização das principais figuras que encabeçam sua publicação, Ozorio Alves da Fonseca e Francisco Domingos do Lago, é também valioso aprofundar as aproximações da folha de Itacoatiara com a administração pública e o lugar social que o jornal defende. A principal questão a ser aprofundada é o “projeto do jornal”, entendido como a reivindicação da imprensa como uma “grandiosa missão”29, bem como o lugar que o Paládio ocupa na sociedade de Itacoatiara no início do século XX.

Davi Avelino Leal investiga as relações entre imprensa e cidade a partir das publicações do Humaythaense (1891-1917), fundado pela família de José Francisco Monteiro no bojo do crescimento urbano da cidade de Humaitá. O jornal visava à repercussão de temas de cunho político e econômico da cidade, “bem como à divulgação de ideais modernizadores e de controle da moralidade” (LEAL, 2017, p. 60).

É possível perceber um posicionamento muito semelhante ao do Humaythaense nas páginas do Paládio. A cidade de Itacoatiara, em comparação a Manaus ou Belém, é relativamente pequena (OLIVEIRA, 2019, p. 15), mas essa dimensão em nada impediu a construção de um imaginário local, idealizado pelos grupos dominantes, que colocava a cidade como despontando em franco progresso, fruto do adensamento populacional e de melhoramentos urbanos.

Em sua terceira edição, na primeira coluna de sua primeira página e sob o título “O <Paládio>”, o jornal procurou destacar algumas considerações sobre seu papel.

(...) Continuaremos sempre na rota espinhosa que nos traçamos, a batalhar pelo progresso moral e material desta terra que nos é tão cara e não nos humilharemos dizendo que esta população querida é que devemos a nossa gratidão sincera por todo o prestigio que nos tem concedido, por todo o auxílio moral que tanto nos consola e anima.

(...) Continuem os nossos caros leitores a observar o nosso caminhar e convencer-se-ão de que pomos acima de tudo o interesse desta terra que, si a adoram como acreditamos há de ter o seu concurso e consequentemente de todo elemento que concorra para o seu progresso como presume fazer o <Paládio>.

Temos muito que fazer para conseguirmos importantes melhoramentos que nos estão reservados pela ordem natural das cousas: certo não são com palavras que os alcançaremos, mas, de certo elas influem como mestras, como guias, no caminho do empreendimento.

Todos os compreendem; e vamos confiados, crentes, sob a luz dessa bandeira procurar levar a nossa pedra para ereção do edifício de nosso futuro, - desta terra, contando com a vossa proteção sincera30.

Constantemente, nas páginas do Paládio, especialmente em edições comemorativas, como as de aniversário do próprio jornal ou do Club Itacoatiarense, é possível perceber uma estrutura narrativa muito semelhante, que, na maior parte das vezes, inicia-se com uma aberta exaltação dos esforços dos membros do Club e dos realizadores da folha em prol desse ideal “honroso”, que é a luta pelo progresso da cidade de Itacoatiara. Junto a isso, o jornal sempre procurou dirigir um apelo à população, “querida” e “educada”, ou, em termos também comuns nas páginas do periódico, de “corações ardentes” e aos “intensos batalhadores” pelo futuro glorioso que aquela cidade mereceria31.

Mais do que isso, o jornal, em seus discursos, procura adotar um posicionamento que se projeta para a população como revestido de uma imparcialidade política, sempre associada a esse caráter altruístico e, por extensão, ao ideal de avanço moral e material da cidade. Os próprios subtítulos do jornal, que mudam ao longo de sua periodicidade, apresentam um interessante indicativo acerca do lugar na sociedade que o Paládio projeta ter, a partir de um projeto de transmissão cultural e de consolidação de uma cultura letrada. Essa produção de formas simbólicas aparece como indispensável em um veículo de imprensa.

Nesse cenário, o primeiro dos subtítulos, “Órgão do Club Recreativo Itacoatiarense”, que acompanha as primeiras páginas da folha até o número 38, carrega consigo o sentido apontado por Nelson Werneck Sodré em relação às pequenas folhas interioranas, ou seja, o de estarem atreladas a projetos e interesses específicos de grupos locais.

Além disso, é importante mencionar que o jornal passou por algumas mudanças em seu subtítulo ao longo de sua periodicidade. No número 38, ainda é apresentado como “Órgão do Club Recreativo Itacoatiarense”; no entanto, no número 41, o periódico adota nova denominação, passando a se intitular “Órgão Literário, Humorístico e Noticioso”. A partir da edição 57, essa denominação é alterada para “Órgão Literário, Noticioso e de Interesses Locais”. Por fim, a partir do número 79, abaixo do título, aparece a expressão “Semanário Literário, Noticioso e de Interesses Locais”.

É possível analisar que as mudanças nos subtítulos do jornal acompanham as transformações gradativas em seus interesses e na forma como o Paládio busca ser visto. O primeiro subtítulo, que foi utilizado até o número 38, intitulado: “Órgão do Club Recreativo Itacoatiarense”, reforça o papel do jornal não apenas como um produto do Club, mas também como um “defensor impertérrito” de seu programa de progresso para a cidade.

Apesar da ausência dos números 39 e 40, é perceptível que, juntamente com a nova alcunha de “Órgão Litterario, Humoristico e Noticioso”, o Paládio apresenta maior dinamicidade em seus temas, possivelmente decorrente da substituição de José Libanio Bezerra por Ozório Alves da Fonseca na diretoria do jornal. Como resultado, foram introduzidas colunas no periódico que abordavam pequenas informações e notícias sobre o país e o mundo, além da reprodução de contos e poemas.

A nova mudança de subtítulo ocorre junto ao retorno do jornal após uma interrupção de um mês, entre junho e julho de 1910. O Paládio reaparece renunciando à abordagem humorística em seu título e adotando a expressão “Interesses Locais”.

A partir da segunda metade de 1910, percebe-se um enfoque maior nos chamados interesses locais, indicados pelo subtítulo, por meio de textos sucessivos que reforçam o papel da imprensa, como a exaltação das obras da gestão de Barbosa, que se encerraria naquele ano, e o destaque para as demandas da administração pública e do próprio jornal, como a Mesa de Rendas e a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. O último subtítulo, “Semanario Litterario, Noticioso e de Interesses Locaes”, indica o interesse do jornal em adotar uma periodicidade semanal, em vez da quinzenal.

Apesar de os subtítulos do jornal indicarem a já apresentada tentativa de vincular seus interesses ligados às eventuais demandas da população local, de forma objetiva, os projetos específicos do grupo político do coronel João Pereira Barbosa são a razão de existir do Paládio.

Caminhando na compreensão desse cenário, interpreta-se o fazer jornalístico, a partir de Robert Darnton, como um microcosmo que não se encerra em si mesmo (DARNTON, 1990 [1989], p. 41). Ao contrário, constitui-se em um sistema de hierarquias e disputas que compõem a estrutura de um jornal, e que se relacionam, a partir de uma noção de territorialidade, com elementos externos à sua produção, como o público.

Nesse bojo, o Paládio está inserido em uma dinâmica que ainda dava seus primeiros passos na estruturação de uma maior complexificação da atividade jornalística, quando a profissão de jornalista ainda buscava consolidação no país. Esse periodismo interiorano, associado a um caráter mais artesanal de seu fazer, fruto de um “singular cenário “urbano” – ainda pouco diferenciado do meio rural que circunda e dá sentido à sua existência” (PINHEIRO, 2017, p. 10), aparece muito mais relacionado a essas disputas locais e aos interesses específicos dos grupos dominantes do que um periódico que assumia aspirações empresariais no início do século XX nas grandes cidades.

A esse respeito, Maria Luiza Ugarte Pinheiro contribui para o debate ao apontar que essa imprensa, enquanto sujeito e objeto, está inserida em um cenário de mudanças característico da virada do século XIX ao XX, e se constituía a partir dos interesses das elites dirigentes, empenhadas em se fazerem europeias, tendo se dedicado ao “culto exacerbado dos valores ocidentais e do refinamento da Belle Époque” (PINHEIRO, 2015, p. 119).

Nesse sentido, o coronel João Pereira Barbosa tem presença cativa no Club Itacoatiarense, recebendo o título de sócio benemérito na ocasião da reunião de posse da diretoria que iniciou a gestão de Domingos do Lago à frente do Club, o que repercutiu na primeira edição do jornal. Além dessa nota, o periódico dedica em seu primeiro número uma coluna, de título “Homenagem”, à figura do coronel, na qual se dizia:

Ao coronel João Pereira Barbosa, incansável batalhador pelo progresso desta formosa e hospitaleira Itacoatiara, deve o <Paládio> o tributo de sua mais sincera gratidão.

Ainda há pouco, o Club Recreativo Itacoatiarense, de que somos órgão teve a feliz lembrança de mandar-lhe o título de socio benemérito em atenção aos relevantes serviços que aquele prestimoso cavalheiro lhe há prestado. Entre esses serviços o <Paládio> destaca a organização de sua tipografia, cuja machinha Minerva, onde é impresso, grande quantidade de tipos novos, caixas e diversos outros materiais, são oferta daquele nosso distintíssimo amigo.

Assim, cumpre-nos deixar gravada nestas colunas a mais sincera expressão de nossa eterna gratidão a quem com a melhor boa vontade concorreu para que a nossa ideia triunfasse.32

Como dito anteriormente, João Pereira Barbosa tem sua atuação na política de Itacoatiara remontando aos últimos anos da Monarquia no Brasil. A partir da reconfiguração política na virada para o século XX, consolidou-se como liderança local, tornando-se a principal figura de representação entre os grupos letrados.

Nesse cenário de estabilidade e relação próxima da administração de Barbosa com a gestão de Antônio Bittencourt no âmbito estadual (OLIVEIRA, 2019, p. 15), bem como contando com figuras de sua confiança em agremiações como o Club Recreativo Itacoatiarense, e, consequentemente, no Paládio, não chega a ser uma surpresa a posição apoiadora do jornal em relação ao superintendente e, de forma mais abrangente, ao governo de Antônio Bittencourt no âmbito estadual.

Na sua análise sobre o Humaythaense e a relação do jornal com seu fundador, José Francisco Monteiro, Davi Avelino Leal destaca a importância das publicações em datas comemorativas como uma oportunidade para compreender como o periódico aborda esses momentos em suas páginas. Além disso, é possível observar, no Paládio, algumas questões relacionadas a publicações comemorativas, especialmente aquelas dedicadas ao aniversário do coronel João Pereira Barbosa.

As publicações, que aparecem nos números 15, 43 e 80 do jornal, dedicadas ao aniversário do coronel, possibilitam um olhar mais claro sobre esse tratamento, a exemplo do texto publicado no décimo quinto número do jornal, com o título “Salve 15 de dezembro”:

Ao despontar a aurora deste dia, Itacoatiara veste-se de gala comemorando o aniversário natalício de seu prestigioso filho, o Coronel João Pereira Barbosa.

E’ justo o despertar alegre de toda esta população que tem gravada n’alma o reconhecimento, o mais nobre sentimento humano, pelos relevantes serviços prestados pelo Coronel João Pereira Barbosa á esta terra que lhe serviu de berço e à sua família, e isto porque não foi o egoísmo que lhe traçou a marcha honrosa que tem trilhado até hoje.

Espírito de escol, inteligente e culto, honesto e patriota, muito o que Itacoatiara lhe deve por procurá-la elevar no trilho do progresso moral, intelectual e material aproveita não a ele só a maior soma de seus esforços reverte em benefício de toda uma população.

A sua vida tem sido uma epopeia nesta terra: como chefe de família, todos os sabem, é modelo de esposo e para; amigo, chega ao sacrifício; funcionário público e chefe político distinto, é de uma correção á toda prova, pondo acima de tudo o dever e a orientação sabia e prudente ao serviço da Pátria, pois que o Estado ou município lhe é fibra sensível.

(...) O <Paládio> e todo o pessoal que moureja nesta humilde tenda de trabalho, apresenta, pois, ao Coronel João Pereira Barbosa, as suas mais sinceras felicitações pela passagem de seu aniversário natalício.33

O coronel João Pereira Barbosa, uma figura de “imaculado” caráter, representa a “alma de todo o movimento progressivo” que teria transformado Itacoatiara, como revelam os discursos presentes no Paládio.

É possível observar a figura do coronel a partir da percepção de John Thompson segundo a qual “a posição que um indivíduo ocupa dentro de um campo ou instituição está estreitamente ligada ao poder que ele possui” (THOMPSON, 1998, p. 21), sendo o poder tratado como um mecanismo de intervenção e de alcance de interesses pessoais, como um fenômeno social penetrante.

Como já destacado, a gestão do Paládio possui estreitas relações públicas e privadas com Barbosa, desde o laço familiar de Ozorio até as posições na administração local ocupadas por membros do Club Recreativo Itacoatiarense. Essas aproximações se tornam mais claras durante as comemorações de aniversário, quando o coronel é congratulado, juntamente com a exaltação de sua importância para a cidade como um “ilustre e sábio” administrador responsável por transformar a vida material do local.

É importante notar que as únicas três fotografias presentes no Paládio são retratos do coronel publicados nas primeiras páginas dessas edições que contêm os textos de aniversário. Embora não se desconsiderem os significativos avanços nos equipamentos tecnológicos das tipografias, associados à profissionalização e à adoção de um caráter empresarial e industrial pela imprensa, é importante ter em mente que tais avanços não foram percebidos de maneira uniforme, nem com a mesma velocidade, nos espaços interioranos em comparação com as grandes cidades. Os espaços interioranos contavam com equipamentos tipográficos mais limitados em relação aos grandes jornais.

Pondo o Paládio em paralelo a jornais de maior porte, como o Jornal do Comércio de Manaus, o título de Itacoatiara, de feições mais simples, apresentava menor número de páginas e colunas e não dispunha de tantas condições para inserir imagens em suas publicações.

Nas três ocasiões em que uma imagem foi publicada no jornal, observa-se que se repetiu a mesma foto do coronel Barbosa. Todavia essa inserção de imagens mostra um avanço destacável nos aparatos tecnológicos disponíveis ao Paládio. Quando a folha do Itacoatiarense é comparada ao seu antecessor, seu contemporâneo Arauto, e mesmo com títulos posteriores como o Cá e Lá (1910) e o Correio da Serpa (1912), somente ele apresenta fotografias em suas edições, mostrando certo adiantamento em relação ao cenário local.

Além da exaltação constante da figura do coronel João Pereira Barbosa, o jornal adota constantemente uma posição de porta-voz da municipalidade, servindo como espaço de publicação de medidas da administração local, como os editais de alistamento militar34, além de matérias como os “Relatórios apresentados ao Conselho Municipal de Itacoatiara pelo Superintendente João Pereira Barbosa” que aparecem nos números 45 e 46, dedicados a um balanço das verbas orçamentárias e das despesas realizadas pela superintendência35.

Como já destacado em relação à duração do jornal, esta se confunde com a administração de João Pereira Barbosa na superintendência de Itacoatiara. Mais do que isso, a principal pauta presente nas páginas do Paládio é a cidade, entendida como objeto de interesses do grupo comandado pelo Coronel nos primeiros anos da década de 1910. Retomando debates como os de Munaro e Leal, é possível perceber, na folha itacoatiarense, essa relação simbiótica do impresso com os poderes que se articulam entre as elites letradas e políticas na Itacoatiara que cresce no alvorecer do século XX.

Conclusões

Os debates levantados ao longo deste texto servem como possibilidade de contribuir para a consolidação dos estudos sobre o papel da imprensa nos sertões do Amazonas no início do século XX.

Nesse contexto, a temática, ancorada nos debates da nova História Social, está voltada ao acompanhamento da trajetória do jornal Paládio e articula-se a um campo de investigação que propõe compreender esse objeto como prática e ação cultural inseridas no contexto social. Evitamos percepções que o tratam como emanação dos espíritos ou como derivação de instâncias estruturais (PINHEIRO, 2017, p. 22).

A importância da construção de uma História da Imprensa e sua relevância para a historiografia brasileira no século XXI são aspectos já consolidados, na medida em que os estudos que utilizam os jornais como fontes e objetos têm crescido de forma significativa nos meios acadêmicos. Anteriormente vistos como meros veículos das paixões e dos interesses de seus idealizadores e produtores, os jornais eram cercados por dúvidas e preconceitos por parte dos historiadores, que buscavam “verdades absolutas” para a história. Contudo, nas últimas décadas do século XX, houve uma reformulação desses olhares, haja vista que passaram a considerar os periódicos como objetos impregnados da subjetividade de seu tempo, marcados por disputas e discursos; no entanto, exercem um papel ativo na sociedade em que estão inseridos.

Influenciado por importantes trabalhos no campo da historiografia da imprensa amazonense, como as pesquisas de Maria Luiza Ugarte Pinheiro e Luís Balkar Sá Peixoto Pinheiro, o presente estudo buscou acompanhar a trajetória do jornal Paládio, órgão do Club Recreativo Itacoatiarense, durante seus anos de circulação, a fim de discutir as intervenções desse periódico no contexto urbano da cidade de Itacoatiara. Embasado nos ideais de progresso que caracterizavam a Belle Époque Amazonense, o jornal representou os anseios de uma elite política e social impulsionada pelo otimismo gerado pelo crescimento das exportações de borracha no Estado.

As atividades periódicas no Amazonas, entre os anos de 1880 e 1920 representaram um contexto relevante de publicações significativas, resultantes de interesses diversos em todo o Estado. Nesse sentido, esta pesquisa buscou explorar os estudos da história da imprensa no Amazonas para além da capital, deslocando-se para as regiões interioranas, a fim de discutir o papel desempenhado por um veículo de imprensa como o Paládio nas complexas e contraditórias disputas que se desenrolavam nos primeiros anos do século XX.

Desse modo, procurou-se mapear os discursos produzidos pelo Paládio, levando em consideração os interesses dos grupos associados à administração municipal do coronel João Pereira Barbosa. Além disso, identifica-se uma preocupação em promover, na cidade um projeto de cultura letrada.

No entanto, não se buscou, nos limites deste texto construir propriamente uma história de Itacoatiara, apesar do desejo de contribuir para os debates historiográficos sobre a cidade, mas se caminhou em direção aos espelhos e às miragens construídos pelo Paládio, observando, em suas páginas, o desenvolvimento de suas aspirações, projetos e contradições.

Ao realizar essa observação, percebeu-se que as páginas do jornal estabeleceram uma relação direta entre os projetos e discursos produzidos por uma sociedade e os interesses que se articulavam nos vínculos das figuras atuantes naquele círculo elitizado que era o Club Recreativo Itacoatiarense, alinhados à própria manutenção das estruturas de poder, dos privilégios e das sociabilidades propiciadas pelo protagonismo político do grupo do coronel João Pereira Barbosa em Itacoatiara.

Em um contexto em que a vida se tornava pública e a modernidade era uma reivindicação, os Clubs, como o Recreativo Itacoatiarense, constituíam espaços privilegiados para a articulação desses grupos e dos projetos políticos e sociais que orientavam seus interesses.

Apesar de um discurso em defesa da imparcialidade na atuação da imprensa, ao percorrer as páginas do jornal, ficou clara a relação direta da folha com a administração municipal de Itacoatiara, especialmente a do coronel João Pereira Barbosa, exaltado nas páginas do Paládio.

Fruto dessa propagação dos discursos das elites políticas de Itacoatiara, a imersão nas páginas do Paládio possibilita perceber que essa retórica se relaciona com a construção de identidades. Isto é, em sua “ilusão do fausto”, guiado pelo espelho que reflete seus próprios interesses e pela miragem que personifica um público idealizado, o jornal mobilizou reivindicações de melhorias urbanas, como a construção de escolas, edifícios, limpeza das ruas e o desenvolvimento das atividades do porto da cidade, especialmente com a Mesa de Rendas Alfandegada, para estabelecer um projeto de progresso moral e material para Itacoatiara.

Essa postura do jornal reflete o que foi apresentado na introdução do texto, a complexidade de seu lugar e do papel que reivindica, quando atua tanto como um órgão de interesses locais, constituindo-se como espaço de articulação das disputas políticas, também busca se aproximar de um contexto mais amplo da modernidade ocidental, apropriando-se de um discurso civilizatório que intervém nos hábitos e costumes, e reforça uma identidade social que se pretendia homogênea.

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    Artigo não publicado em plataforma preprint. Todas as fontes e bibliografia utilizadas são referenciadas. Não se utilizou ferramenta de Inteligência Artificial para a redação do artigo, incluindo levantamento de fontes e análise de dados. A pesquisa que originou este artigo contou com o apoio do Programa de Demanda Social da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES (processo nº 88887.962938/2024-00).
  • 3
    O intelectual e político paraense Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha publicou uma pequena crônica nas páginas do Jornal do Commercio de Manaus, em 1908, intitulada “A gazeta <Cinco de Setembro>”, na qual argumenta que a folha, tratada como a primeira da província, não teria passado de uma idealização, atribuindo ao Estrella do Amazonas o título de primeiro jornal. (Jornal do Commercio, nº1434, Manaus – AM, 22 de março de 1908).
  • 4
    Conflito armado ocorrido entre 1864 e 1870 entre a Tríplice Aliança, Brasil, Argentina e Uruguai, contra o Paraguai.
  • 5
    O jornal faz parte do acervo de periódicos do Centro Cultural dos Povos da Amazônia, contando com as edições microfilmadas e digitalizadas. Faltam os números 2, 14, 39-40, 53, 77-78, 82, 87 e 106.
  • 6
    ITACOATIARENSE, Paládio, nº1, Itacoatiara – AM, 9 set 1908.
  • 7
    O PALÁDIO, Paládio, nº 3, Itacoatiara – AM, 17 de setembro de 1908.
  • 8
    A partir do inventário de José Ribamar Bessa Freire (1990), é possível levantar algumas questões sobre o Jornal do Comércio. Fundado em 1904 por J. Rocha dos Santos, era um matutino diário que sob a luz da cidade de Manaus se tornou um dos jornais de mais longeva duração do estado. Entre interrupções e retornos, chegou aos cem anos, tendo inclusive feito parte do conglomerado de Assis Chateaubriand, os Diários Associados, a partir de 1943.
  • 9
    VARIAS NOTICIAS, Jornal do Comércio, nº1604, Manaus – AM, 9 de setembro de 1908.
  • 10
    Na esteira da noção de dimensão do Jornal do Commércio, Leno Souza (2010) destaca que a folha, desde sua fundação, mantinha uma rede de correspondentes no interior do Amazonas, como José Libanio Bezerra em Itacoatiara, um dos principais nomes ligados à fundação do Paládio, mas também chegou a ter esse serviço em Portugal. Enfim, trata-se de informações que ressaltam os alcances que o impresso se propunha.
  • 11
    Segundo José da Silva (2010, p. 37), a casa de aviamento era ponto central da cadeia de aviamento no século XIX em Belém e no Pará, servindo como base no sistema de fornecimento de mercadorias e crédito em troca de trabalho na produção extrativista.
  • 12
    TYPOGRAPHIA DO <PALADIO>, Paládio, nº3, Itacoatiara – AM, 17 de setembro de 1908.
  • 13
    ARAUTO: Publicação semanal, Arauto, nº70, Itacoatiara – AM, 26 de janeiro de 1908.
  • 14
    JORNAL DO COMMERCIO: Assinaturas, Jornal do Commercio, nº1604, Manaus – AM, 9 de setembro de 1908.
  • 15
    O Humaythaense circulou entre os anos de 1891 e 1917 na cidade de Humaitá, representando um dos excepcionais casos de jornais que passaram as três décadas de circulação. Era fruto da família do Comendador José Francisco Monteiro, fundador da cidade (LEAL, 2017, p.61).
  • 16
    O Manicoré circulou na cidade de Manicoré entre 1899 e 1908, com interrupção entre 1900 e 1907. (FREIRE, 1990, p. 138.)
  • 17
    José Libanio Bezerra fica na posição de redator-chefe apenas até o número 33 do jornal, mas já na edição 28 o periódico anuncia o seu regresso para seu estado natal, Pernambuco, deixando de ter participação no Paládio a partir de então.
  • 18
    ITACOATIARA, Jornal do Comércio, nº1501, Manaus – AM, 29 de maio de 1908.
  • 19
    BARATA, Antonio. Saudação. Paládio, nº 7, Itacoatiara – AM, 15 de outubro de 1908.
  • 20
    Tanto Samuel Benchimol (2021) quanto Francisco Gomes da Silva (1998) destacam a atuação de migrantes portugueses como especialmente importantes no processo de crescimento urbano e remodelagem da sociedade, atuando com proeminência enquanto classe política e liderança empresarial.
  • 21
    NOTICIARIO, Correio do Norte, nº307, Manaus – AM, 14 de dezembro de 1909.
  • 22
    DOMINGOS DO LAGO. Paládio, nº16, Itacoatiara – AM, 24 de dezembro de 1908.
  • 23
    ACTOS OFFICIAIS. Diario Oficial, nº909, Manaus – AM, 29 de janeiro de 1897.
  • 24
    O venerável é o principal posto de uma Loja Maçônica, representando a liderança administrativa.
  • 25
    ESPERANÇA E HARMONIA. Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial, nº63, Rio de Janeiro – RJ, 1906.
  • 26
    Pereira chega ao número de pelo menos 200 clubes que nasceram na cidade de Manaus entre 1854 e 1920.
  • 27
    POSSE DA DIRECTORIA, Paládio, nº1, Itacoatiara – AM, 9 de setembro de 1908.
  • 28
    ITACOATIARENSE. Paládio, nº4, Itacoatiara – AM, 22 de setembro de 1908.
  • 29
    O PODER DA IMPRENSA. Paládio, nº70, Itacoatiara – AM, 5 de setembro de 1910.
  • 30
    O PALÁDIO, Paládio, nº3, Itacoatiara – AM, 17 de setembro de 1908.
  • 31
    Durante toda a sua publicação, o jornal adota esse discurso de exaltação de seu projeto junto de um apelo à população de Itacoatiara em prol da caminhada ao futuro “glorioso” que àquela comunidade estaria por alcançar.
  • 32
    HOMENAGEM. Paládio, nº1, Itacoatiara – AM, 9 de setembro de 1908.
  • 33
    SALVE 15 DE DEZEMBRO. Paládio, nº15, Itacoatiara – AM, 17 de dezembro de 1908.
  • 34
    EDITAL DE CONVOCAÇÃO. Paládio, nº5, Itacoatiara – AM, 1 de outubro de 1908.
  • 35
    As duas edições também apresentam uma excepcionalidade em relação à estrutura geral do jornal. A exemplo das fotografias que somente são publicadas em homenagem ao coronel Barbosa, os números 45 e 46 apresentam uma diagramação de seis páginas. As duas páginas a mais foram dedicadas a esses dados sobre a administração local.

Disponibilidade de dados

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Referências Bibliográficas

    Bibliografia

    • Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial, nº63, Rio de Janeiro – RJ, 1906.
    • Arauto, nº 70, Itacoatiara – AM, 26 de janeiro de 1908.
    • Correio do Norte, nº307, Manaus – AM, 14 de dezembro de 1909.
    • Diario Official, nº909, Manaus – AM, 29 de janeiro de 1897.
    • Jornal do Commercio, nº1434, Manaus – AM, 22 de março de 1908; nº1501, 29 de maio de 1908; nº1604, 9 de setembro de 1908.
    • Paládio, nº1, Itacoatiara – AM, 9 de setembro de 1908; nº3, 17 de setembro de 1908; nº5, 1 de outubro de 1908; nº7, 15 de outubro de 1908; nº15, 17 de dezembro de 1908; nº16, 24 de dezembro de 1908; nº34, 5 de setembro de 1909; nº70, 5 de setembro de 1910.
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    • OLIVEIRA, Claudemilson Nonato Santos de. A Kipá e o Cocar: A rede intercomunitária judaica na estruturação urbana de Itacoatiara Tese (Doutorado em Sociedade em Cultura), Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2019.
    • PINHEIRO, Maria Luiza Ugarte. Folhas do Norte: Letramento e Periodismo no Amazonas (18801920). 3ª ed. Manaus - AM: Edua, 2015.
    • PINHEIRO, Luís Balkar Sá Peixoto (Org.). Imprensa e Sociedade na Amazônia 1870-1930. Manaus – AM: Editora CRV, 2017.
    • SARGES, Maria de Nazaré. Belém: riquezas produzindo a Belle Époque 1ª ed. Belém: PAKA-TATU, 2010.
    • SILVA, Francisco Gomes da. Cronografia de Itacoatiara Manaus: Imprensa Oficial do Estado do Amazonas, v.2. 1998.
    • SILVA, Francisco Gomes da. Cronografia de Itacoatiara Manaus: Papyros, Ind. Gráfica e Com. Ltda., 1997.
    • SILVA, José Rubisten da. Redes de Aviamento da Borracha e a Organização Espacial de Fortaleza do Abuanã/Amazônia Dissertação (Mestrado em Geografia). Universidade Federal de Rondônia, Porto Velho, 2010.
    • SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil 4ª ed. Rio de Janeiro: MAUAD, 1999 [1966]. 501.
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    • THOMPSON, John B. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. Petrópolis: Vozes, 1998.

    Editado por

    • Editores Responsáveis
      Maria Cristina Correia Leandro Pereira e Miguel Palmeira

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      22 Jun 2026
    • Data do Fascículo
      2026

    Histórico

    • Recebido
      06 Maio 2025
    • Aceito
      11 Mar 2026
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    Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Departamento de História Av. Prof. Lineu Prestes, 338, 01305-000 , Tel.: (55 11) 3091-3701 - São Paulo - SP - Brazil
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