Resumo
Este artigo analisa a interação entre o Congresso pela Liberdade da Cultura e a comunidade de sociólogos latino-americanos, destacando o papel do Instituto Latino-Americano de Relações Internacionais (ILARI, 1966-1972), dirigido pelo belga Louis Mercier Vega. O texto procura explicar por que e como o ILARI acionou a sociologia científica como ferramenta para promover sua agenda “anti-totalitária”, e qual o resultado intelectual de tal operação. Por meio da análise de cartas trocadas entre Mercier, seus aliados e sociólogos da região, o artigo argumenta que o “giro sociológico” empreendido pelo ILARI dependia do trabalho coletivo dos sociólogos latino-americanos, o que permitiu a circulação de agendas intelectuais periféricas que não se ajustavam com exatidão ao modelo liberal-conservador do CLC.
Palavras-chave
Guerra Fria Cultural; Congresso pela Liberdade da Cultura; ILARI; Sociologia latino-americana; periferia
Abstract
This article analyzes the interaction between the Congress for Cultural Freedom and the community of Latin American sociologists in the 1960s, highlighting the role of the Latin American Institute of International Relations (ILARI), directed by the Belgian Louis Mercier Vega. The text explains why and how ILARI employed “scientific sociology” as a tool to promote its “anti-totalitarian” agenda, and the intellectual outputs of this operation. The article analyzes the correspondence between Mercier, his associates, and sociologists in the region to argue that ILARI’s “sociological turn” relied on the collective work of Latin American sociologists, which promoted the circulation of peripheral intellectual agendas that did not fit into the liberal-conservative model of the CCF.
Keywords
Cultural Cold War; Congress for Cultural Freedom; ILARI; Latin American sociology; periphery
Introdução
Nos debates sobre a chamada Guerra Fria Cultural, muito já se escreveu sobre o Congresso pela Liberdade da Cultura (CLC, 1950-1967; posteriormente, Associação Internacional pela Liberdade da Cultura, AILC, 1967-1977), organização criada com financiamento da Agência Central de Inteligência (CIA, 1947-) em Berlim, em 1950, como forma de promover os valores associados ao campo “anti-totalitário” e combater o que se entendia ser a ação comunista nos meios intelectuais e culturais3. Ao longo de sua existência, o CLC editou revistas culturais prestigiosas, como Encounter e Preuves, organizou seminários internacionais coordenados por cientistas sociais do porte de Edward Shills, Daniel Bell e Raymond Aron e financiou a circulação global de escritores e cientistas europeus e norte-americanos associados à causa da “defesa da liberdade da cultura”, dentre outras atividades.
Entre os principais temas que atraíram os historiadores, destacam-se a gênese de seu surgimento à luz das controvérsias culturais e literárias na Europa do pós-guerra (GRÉMION, 1995), o efeito do financiamento oculto da CIA sobre as atividades do CLC (SAUNDERS, 2000), a vinculação do Congresso com o projeto geopolítico de construção de uma ordem atlântica integrando Europa Ocidental e Estados Unidos (SCOTT-SMITH, 2003), os discursos empregados pelos seus operadores para a construção de um cânone literário moderno e “ocidental”, baseado na circulação de escritores e artistas ao redor do mundo (RUBIN, 2012), a natureza de suas publicações culturais, que ocupavam lugar central na vida intelectual de muitos países (MUDROVCIC, 1997; SCOTT-SMITH e LERG, 2017) e as razões para seu apogeu e posterior declínio (COLEMAN, 1989).
Um dos principais temas que ainda carecem de maior investimento bibliográfico diz respeito às dinâmicas da Guerra Fria Cultural4 nos espaços do chamado Terceiro Mundo, em que as iniciativas promovidas pelo CLC encontravam cenário bem diverso daquele experimentado na Europa Ocidental. No caso da América Latina, a Revolução Cubana de 1959, o peso das ações intervencionistas norte-americanas na região e o entusiasmo da intelectualidade e juventude locais com a linguagem anti-imperialista tornavam o trabalho do CLC especialmente difícil, o que levou o historiador Patrick Iber a empregar a expressão “Latin American Cultural Cold War” para dar conta dessas particularidades (IBER, 2015).
O engajamento de escritores latino-americanos nas controvérsias da Guerra Fria Cultural já mereceu alentados estudos, hoje tornados clássicos. O caso da revista Mundo Nuevo, publicação patrocinada pelo CCF e uma das principais responsáveis pela consagração dos novos romancistas da região, gerou análises que discutiram tanto a natureza de seu projeto estético, como o grau de autonomia logrado por seu editor Emir Rodriguez Monegal (MUDROVCIC, 1997; ALBUQUERQUE, 2011). Os efeitos da Revolução Cubana e da politização crescente da atividade cultural no continente foram discutidos por Cláudia Gilman, que destacou as transformações no significado da figura do “intelectual” em meio a um chamado às armas que, em muitos casos, resvalava no anti-intelectualismo (GILMAN, 2003). Estudos comparativos que ilustram as diferenças na operação dos centros locais estabelecidos pelo CLC em países da região também floresceram, com a bibliografia convergindo para um diagnóstico da importância de se mapear a aclimatação da agenda “anti-totalitária” do Congresso em espaços culturais dotados de tradições intelectuais prévias (NALLIM, 2019; JANELLO, 2015).
A aproximação entre o CLC e a comunidade latino-americana dos cientistas sociais, em especial ao longo da década de 1960, é tema mais recente no debate historiográfico, tendo merecido alguns estudos fundamentais para a construção das perguntas que orientaram este artigo. O trabalho de Iber permanece como referência para essa discussão, por ter sido um dos primeiros a examinar detalhadamente o projeto cultural modernizador do CLC na década de 1960 e o entrelaçamento entre as dinâmicas globais da Guerra Fria e os contextos regionais, marcados pelas disputas dentro da esquerda em torno da Revolução Cubana e das tensões entre revolução e vida intelectual (IBER, 2015). Iber analisou o ILARI, mas destacou o trabalho de organização da vida literária efetuado por meio de Mundo Nuevo.
Mais recentemente, um conjunto de trabalhos esmiuçou o projeto do ILARI para as ciências sociais na região, destacando-se as contribuições de Karina Janello, Elizabeth Cancelli, Vânia Markarian e Marcelo Ridenti (JANELLO, 2018; CANCELLI, 2017; MARKARIAN 2020a e 2020b; RIDENTI, 2022). Karina Janello detalhou as atividades editoriais promovidas pelo CLC na Argentina e no Uruguai para impulsionar a agenda da sociologia científica na região, num processo que permitiu a formação de improváveis redes entre atores financiados pela CIA e cientistas sociais progressistas (JANELLO, 2018). Tendo como foco o caso brasileiro, Cancelli explorou a relação entre o financiamento internacional das fundações norte-americanas e o trabalho de agendamento intelectual que teria se imprimido no vocabulário de sociólogos e cientistas políticos locais (CANCELLI, 2017). Markarian explorou a relação entre o ILARI e o sociólogo Aldo Solari, uma das figuras-chaves do CLC na região e importante articulador regional de redes científicas (MARKARIAN, 2020a), além de ter investigado as controvérsias sobre financiamento internacional nas universidades uruguaias (MARKARIAN, 2020b). Já Marcelo Ridenti examinou de forma detalhada o impacto das atividades do CLC na cena acadêmica e científica brasileira, em especial por intermédio de iniciativas como a revista Cadernos Brasileiros (RIDENTI, 2022).
Esse conjunto bibliográfico produziu diversos avanços historiográficos, entre os quais: a) uma explicação das dinâmicas locais que estruturam a relação entre o ILARI e os sociólogos em diferentes países, como Argentina, Uruguai e Brasil; b) um detalhamento das atividades editoriais e intelectuais promovidas pelo ILARI na região, como forma de construir a agenda da sociologia científica; c) uma explicação para a adoção dessa estratégia, que estaria afinada com o projeto de modernização da mensagem anti-comunista do CLC. Alguns temas permanecem gerando controvérsias entre os estudiosos, em especial a discussão sobre o real impacto do agendamento exercido pelo ILARI nas ciências sociais locais, discussão na qual se destacam Cancelli e Janello.
De forma a contribuir para essa controvérsia, um tópico que merece maior investigação diz respeito ao processo de enraizamento da agenda sociológica do ILARI na América Latina, que implicava a circulação de um projeto nascido no contexto euroamericano em espaços intelectuais periféricos, mas dotados de tradições culturais autônomas. Afinal, o trabalho efetuado por Mercier e pelo ILARI na década de 1960 coincidiu com o apogeu do processo de institucionalização da sociologia latino-americana, o que fazia com que a agenda da “sociologia científica”5 não fosse exclusividade de uma única organização e/ou instituição.
O presente artigo junta-se a esse campo de debates por meio de um estudo centrado no que chamo aqui de “giro sociológico” empreendido pelo CLC na América Latina ao longo da década de 1960, e que foi marcado pela promoção da agenda da chamada “sociologia científica” como forma de modernizar o programa do Congresso na região. Esse giro teve dois momentos principais: a) a chegada em 1962 do belga de origem chilena Louis Mercier Vega (1914-1977), incumbido de modernizar a estratégia do CLC, afastando-o da doutrinação anti-comunista e aproximando-o das novas gerações de intelectuais locais; c) a criação, em 1966, do Instituto Latino-Americano de Relações Internacionais (ILARI, 1966-1972), organização que iria crescer sob os auspícios da Associação Internacional pela Liberdade da Cultura6 e editar, dentre outras revistas7, o periódico científico Aportes.
Argumento que o giro sociológico do CLC na década de 1960 não implicou somente a imposição de uma agenda político-intelectual, pois a estratégia empregada por Mercier, em especial após a criação do ILARI, dependia do trabalho coletivo realizado por sociólogos latino-americanos, que cultivavam suas próprias agendas profissionais e intelectuais. Assim, essa operação, embora motivada por um projeto hegemônico anticomunista e alinhado aos interesses geopolíticos norte-americanos, permitiu a circulação de ideias e conceitos vinculados aos discursos da sociologia científica latino-americana do período, implicando uma aclimatação da agenda do CLC em um espaço periférico.
Entende-se aqui por “espaços periféricos” as regiões que se situavam em uma relação de subordinação e dependência na divisão global da produção de conhecimento que se estruturou no pós-Segunda Guerra, e que concentrou na Europa e nos Estados Unidos os principais recursos intelectuais, econômicos e simbólicos que permitiram a organização de universidades, centros de pesquisa, organizações e revistas científicas e culturais (HEILBRON, 2014). Entretanto, no caso específico da América Latina, essa condição de subordinação não impediu que se construíssem nesses espaços periféricos eventuais centros relativamente autônomos de produção de conhecimento, nos quais a produção de agendas intelectuais e estratégias de pesquisa seguiam lógicas próprias de uma comunidade intelectual emergente (KREIMER, 2019). No subcampo da história das ciências sociais, esse processo de aclimatação tem sido explorado em diferentes trabalhos, que evidenciam como a condição de dependência pode conviver com processos de criatividade intelectual periférica (BEIGEL, 2013; BRASIL JUNIOR, 2013; MERKEL, 2023) .
O emprego do conceito de periferia procura atentar não apenas para as especificidades do trabalho intelectual efetuado pelos operadores do CLC na América Latina, mas ressaltar a imbricação entre as dinâmicas de poder que organizavam esse trabalho e os processos de criação intelectual em condições de dependência. Considero que o debate na literatura especializada a respeito do maior ou menor grau de “cooptação” logrado por organizações como o ILARI pode ser reinterpretado à luz de uma discussão sobre como se dava o processo de circulação científica em um contexto de assimetrias estruturais entre centros e periferias. Nesses termos, trata-se menos de opor “cooptação” à “autonomia” como tipos polares e mais de entender como repertórios intelectuais hegemônicos são traduzidos e recriados nos espaços intelectuais periféricos.
O texto desenvolve a hipótese em três seções. Na primeira apresento o lugar da sociologia e das ciências sociais no projeto euro-americano do CLC, destacando o debate sobre “o fim das ideologias”, alimentado nas conferências coordenadas pelo Congresso na década de 1950 e por obras e textos publicados por sociólogos como Edward Shills e Daniel Bell8. Na segunda seção, analiso o processo de transposição de tal agenda para o contexto latino-americano, apontando como Mercier elegeu a sociologia científica como ferramenta principal para rejuvenescer o Congresso na região e atrair as novas gerações para suas atividades. Em seguida, o artigo demonstra como Mercier e o ILARI incorporaram parte da agenda sociológica latino-americana, buscando integrá-la aos seus propósitos ideológicos. Ao final, o texto sistematiza os dados de forma a evidenciar a contribuição desse caso para o entendimento de uma questão central no campo da História Intelectual – o processo de circulação/tradução de ideias hegemônicas em contextos periféricos.
O CLC, a sociologia e o debate sobre o “Fim das Ideologias”
O CLC era uma organização transnacional formada a partir de redes e indivíduos com trajetórias diversas, o que tornava complexa a tarefa de definir o sentido de sua agenda “antitotalitária” e a natureza de seu engajamento com as forças políticas que gravitavam em torno do anticomunismo. Às controvérsias entre adeptos de uma posição “neutralista” e defensores da política externa norte-americana e entre ferozes críticos do comunismo e aqueles que viam no macartismo um perigo similar para a “liberdade da cultura”, somavam-se diferentes sensibilidades políticas nacionais, resultando numa organização que, ao menos em seus primeiros anos, carecia de maior coesão (GRÉMION, 1995). James Coleman identifica três períodos na história do Congresso: o primeiro, entre 190 e 1958, seria marcado pela formação de uma comunidade “atlantista” orientada para o combate intelectual ao comunismo soviético; o segundo (1958-1962), delimitado pela emergência de revisionismos no campo comunista e pela crítica ao estalinismo, seria marcado por uma orientação mais aberta ao Terceiro Mundo e menos doutrinária politicamente; finalmente, o momento que vai de 1963 a 1967 seria de progressiva retirada, diante da ascensão da Nova Esquerda no mundo ocidental e das críticas ao imperialismo norte-americano (COLEMAN, 1989).
Michael Hochgeschwender (2003), por sua vez, identifica três grupos ou campos principais que disputavam a orientação do CLC: as facções norte-americanas mais ferrenhamente anticomunistas, representadas por nomes como Max Eastman, Sydney Hook, dentre outros indivíduos que não viam problemas em colaborar com o macartismo que grassava nos Estados Unidos; um grupo mais “moderado”, composto por nomes como Ignazio Silone, Melvin Lasky e Willy Brandt, que buscava construir um consenso social-democrata, estratégia que recebia apoio tanto de centros nacionais poderosos, como o inglês e o alemão, como do próprio secretário-executivo do CLC, Michael Josselson; e uma terceira facção, formada por cientistas sociais como Raymond Aron, Edward Shills, Daniel Bell e Seymour Lipset, que daria o tom do CCF a partir de meados da década de 1950.
Aron, Lipset, Bell e Shils foram não apenas alguns dos principais operadores do Congresso, como também responsáveis por livros e artigos que contribuíram para questionar as credenciais científicas e filosóficas do marxismo, avançar um diagnóstico sobre o esvaziamento ideológico das sociedades modernas do pós-Segunda Guerra e legitimar o novo consenso social-democrático europeu que seria um dos principais objetivos do CLC. Um evento-chave para a afirmação do discurso desse grupo foi a quinta conferência internacional da organização, a chamada Conferência de Milão, realizada em 1955, com o título “The Future of Freedom” (SCOTT-SMITH, 2002). Nesse evento, o espírito estridente e combativo da primeira conferência, realizada em Berlim, teria se arrefecido, dando lugar a um discurso inspirado no mote do “fim das ideologias”, expressão que sintetizaria uma gama de diagnósticos que apontavam para fenômenos variados, como o crescimento da sociedade de consumo, a industrialização das sociedades ocidentais, a perda de vitalidade dos conflitos ideológicos e o desenvolvimento das ciências sociais como forma de organizar de forma técnica os conflitos democráticos. Conforme Scott-Smith, esse discurso combinava uma valorização da tradição liberal atlântica, que unia norte-americanos e europeus, e uma aposta nas novas potencialidades trazidas pelo planejamento econômico de tipo keynesiano para organizar as sociedades do pós-guerra (SCOTT-SMITH, 2002).
Em seu relato sobre a conferência de Milão, publicado no mesmo ano de 1955 na revista Encounter, o próprio Shills procurou sistematizar o sentido geral dos trabalhos apresentados da seguinte maneira:
Os trabalhos, a despeito da diversidade de perspectivas e assuntos, circunscreveram-se a um único tema. Quase todos eles apresentavam, de um modo ou de outro, uma crítica do doutrinarismo, do fanatismo e da possessão ideológica. Quase todos ao menos expressavam a visão de seus autores de uma Humanidade cultivando e aperfeiçoando seu próprio jardim, guarnecido contra visões obsessivas e fantasias, e livre do assédio de ideólogos e fanáticos.
(SHILLS, 1955, p.53)
O clássico livro de Bell, lançado no ano de 1960, mas compilando ensaios publicados ao longo da década anterior em prestigiosas revistas (como a própria Encounter), foi talvez a expressão mais popular dessa operação intelectual (BELL, 1960). Em The End of Ideology: on the exhaustion of political ideas in the fifties, Bell analisa criticamente a transposição da linguagem do conflito de classes e da sociedade de massas para a caraterização da sociedade norte-americana, apontando a ineficácia de tais teorias em explicar as dinâmicas complexas de uma sociedade marcada pela emergência das credenciais técnicas como critério para mobilidade social. Além disso, Bell argumentava que as decisões tomadas pelo establishment da política externa norte-americana não derivavam nem das disputas de classe internas aos Estados Unidos, nem de uma suposta “elite no poder” que se comportasse de forma coesa, mas das movimentações soviéticas na Guerra Fria e da busca racional por contenção do bloco comunista.
A crítica à “política ideológica” era também recorrente nas obras de Shills na década de 1950. Em uma resenha da obra de Raymond Aron sobre os intelectuais, o sociólogo norte-americano argumenta que o pós-guerra seria marcado pelo progressivo descrédito de tal política, entendida por ele como uma forma de colonizar a esfera pública com lógicas de ação e retórica baseadas na defesa inflexível de crenças totalizantes, processo que teria se iniciado no século XIX e experimentado seu apogeu na primeira metade da década de 1920 (SHILLS, 1958). Shills sustenta também que o marxismo estaria perdendo sua eficácia intelectual por conta da crescente complexidade da vida contemporânea, que favoreceria a emergência de uma nova forma de política, denominada por ele de “civil politics”. Tratar-se-ia de uma lógica de ação que preservaria as separações entre as diferentes esferas da vida social, canalizando a vontade de aperfeiçoamento humano por meio dos canais institucionais tradicionais (partidos, imprensa, governos etc.) e baseando-se na crescente participação dos cidadãos comuns no autogoverno das sociedades.
Esse credo liberal-conservador encontraria refúgio na revista Minerva, publicação criada em 1962 sob o comando editorial do próprio Shills. Entre seu ano de formação e 1967, o CLC aportou, por meio de subsídios da Fundação Ford, 30 mil libras anuais para a revista, permitindo a Shills torná-la uma poderosa ferramenta na promoção de uma agenda baseada na racionalidade da ciência ocidental, que era tomada como substituta da “política ideológica” e bússola para um projeto controlado de modernização (COLEMAN, 1989; MACLEOD, 2016).
Note-se também que esse programa não se assentava apenas na promoção de determinadas ideias, mas também na disseminação de modos específicos de organização da vida intelectual e científica. Além de revistas como Minerva e Encounter, as conferências internacionais promovidas pelo CCF desempenhariam papel relevante na construção de uma incipiente “república das letras” informada pelo liberalismo e avessa ao comunismo. Como mostra a historiografia da ciência, conferências como essa podem ser pensadas em termos de sua infraestrutura material e dos seus efeitos na regulação de comportamentos dos agentes intelectuais (BIGG et al, 2023).
Finalmente, esse programa relacionava-se com a estratégia de incorporar setores da esquerda não comunista ao raio de ação do CLC, um projeto que não era propriamente inédito, já que a identificação da chamada “non-communist left” como ator central no combate ao “totalitarismo” pode ser verificada já na segunda metade da década de 1940, antes mesmo da formação do Congresso (COLEMAN, 1989; WILFORD, 2008). A chamada “abertura à esquerda” foi bem trabalhada na bibliografia, que destacou os seus resultados distintos na Europa, a depender do maior ou menor peso dos partidos comunistas locais na organização do campo de esquerda e das próprias tradições políticas pré-existentes (SCOTT-SMITH E LERG, 2017). O discurso anticomunista promovido pelo CLC no eixo atlântico passou, em poucos anos, de um estridente anticomunismo para a promoção de uma agenda orientada para o reformismo “democrático” sustentado em uma linguagem tecnocrática, que buscava na sociologia norte-americana do pós-Guerra elementos para a análise de uma sociedade “pós-ideológica”.
Mas, como essa agenda liberal se traduziu no caso latino-americano? De que forma esse discurso que integrava ciências sociais, tecnocracia e reformismo moderado seria apropriado em contextos regionais radicalmente diversos daquele vivenciado pela Europa Ocidental?
O primeiro momento do “giro sociológico” do CLC na América Latina
O CLC criou onze filiais na América Latina de 1953 a 1958, com diferentes graus de sucesso: Chile, Uruguai, Costa Rica, Honduras, Nicaragua, México, Cuba, Argentina, Colômbia, Porto Rico e Brasil. Esses centros regionais do CLC, em geral, buscavam repetir a estratégia “antitotalitária” da sua matriz europeia, o que implicava, em muitos casos, alinhar-se com setores que não nutriam grande apreço pela democracia latino-americana. Um dos principais operadores dessa primeira fase do CLC era Júlian Gorkin, um ex-militante comunista espanhol, combatente do POUM, que se exilara no México. Gorkin era responsável por supervisionar as atividades do CLC na região e editar a revista “Cuadernos”(1953-1965).
No início da década de 1960, uma mudança de orientação fazia-se necessária, e um personagem iria ganhar projeção como seu principal articulador. Tratava-se de Louis Mercier Vega, que se inserira nas redes anarquistas e antiestalinistas da década de 1930 de onde sairiam alguns ativistas que iriam integrar o CLC posteriormente. Do jeito que está, ficou muito generalizante. Assim como Gorki, Mercier lutara na Guerra Civil Espanhola, integrando a Coluna Durruti, tendo escapado para Santiago do Chile, onde residiu por um período. Após viajar por diferentes regiões, regressou ao continente europeu na segunda metade da década de 1940, continuando um trajeto de jornalista e ativista libertário que o levaria a ser um dos colaboradores franceses regulares da revista Preuves, um dos principais fóruns de discussão político-intelectual do CLC. Porém, ao contrário de Gorki, Mercier não acreditava na doutrinação anticomunista como a melhor estratégia para promoção dos objetivos do CLC na América Latina, alinhando-se aos que propunham uma estratégia mais aberta, sintonizada com os reclames e as reivindicações das novas gerações latino-americanas, que se viam energizadas pelo exemplo cubano (IBER, 2015; JANELLO, 2018; RIDENTI, 2022).
Mercier buscava estabelecer laços com a nova geração de cientistas sociais que estavam contribuindo para a institucionalização da disciplina na região, por acreditar que eles traziam novas perspectivas analíticas para debates que eram, até então, excessivamente doutrinários. No caso das formas de organização, defendia que o CLC deveria se estruturar como um centro irradiador de pesquisas e publicações de natureza científica, por meio do esforço coletivo de grupos de trabalhos coordenados por sociólogos qualificados.
Essa dimensão do giro sociológico do Congresso é visível nas correspondências trocadas nos primeiros anos da década de 1960, em que Mercier procura sistematizar sua visão. Em carta de janeiro de 1961 ao escritor Keith Botsford9, argumenta que a melhor estratégia para revitalizar a revista “Cuadernos” seria afastá-la dos debates doutrinários e torná-la uma publicação baseada na “discussão científica de fatos”, exportando tal método de debate para a análise de grandes questões políticas e sociais10. Nesse sentido, tratava-se de buscar uma suposta objetividade que operasse como um manto para a agenda anticomunista do CLC na região. No mesmo ano, um documento contendo trecho de uma carta trocada entre Botsford e Mercier analisa uma lista de possíveis interlocutores do Congresso, criticando a predominância de profissionais liberais acima de 45 anos e reafirmando a necessidade de convidar economistas e sociólogos para as atividades da organização11.
Essa nova estratégia não seria desprovida de tensões com os operadores locais, pois implicava dialogar com os cientistas sociais e com setores da intelectualidade progressista da região, o que deu ensejo a inúmeras disputas com o exilado romeno Stefan Baciu, figura-chave nas atividades do Congresso no Brasil e ferrenho anticomunista (RIDENTI, 2022). Em uma longa carta datada de abril de 1962, Mercier explica a Baciu sua visão sobre o tema, argumentando que o Congresso não seria uma “organização de luta da Guerra Fria” e que, no caso brasileiro, seria fundamental abrir-se para a esquerda, como forma de obter a adesão dos meios intelectuais não comunistas:
Parece-me que o Brasil é um desses países onde o clima de seus intelectuais nos obriga a tomar essa posição elástica e a nos ocupar essencialmente de problemas brasileiros, ‘despolitizando’ muito de nossas atividades e conseguindo o máximo de possibilidades de diálogo com as pessoas de esquerda, como, aliás, faz Silone na Itália e como tentamos fazer por intermédio de nossos amigos na Polônia e na Iugoslávia12
Em seguida, cita documento escrito pelo sociólogo norte-americano Edward Shills para sustentar que o CLC não deveria nem buscar uma ideologia, nem propriamente criar uma13. Essa longa carta deve ser entendida tanto como uma forma de demarcar a nova posição do Congresso na região, como uma evidência do modo como Mercier procurava introduzir o tema da política “não-ideológica” à luz da teorização liberal-conservadora de Shills.
Uma carta enviada a seu amigo alemão Helmut Rudiger no início de 1964 reitera em linhas gerais o programa que Mercier procurava implementar na região. Segundo ele, era necessário “dissipar” a “enorme confusão mental” que reinava na América Latina, ajudando os intelectuais locais a tomarem consciência “objetiva” dos problemas e fortalecendo o método científico de pesquisa como forma de combater a literatura de propaganda ideológica.14
Por meio da criação de grupos de estudos que trabalhem sobretudo com critérios e métodos científicos; pela confrontação entre os trabalhos realizados por pesquisadores latino-americanos e ‘estrangeiros’; por uma luta constante entre os slogans e a literatura ‘propagandista’; pela inserção em circuitos internacionais dos melhores valores latino-americanos15
Para concretizar esse giro sociológico, Mercier e seus aliados mobilizavam os recursos intelectuais concentrados no eixo euro-americano do Congresso, organizando conferências de sociólogos e intelectuais europeus pela América Latina e promovendo atividades e alianças a partir das indicações e conselhos de figuras-chaves do CLC. No primeiro caso, Mercier programou viagens de nomes como George Balandier 16 e Edgar Morin17 pela região, com despesas bancadas pelo Congresso. Essas viagens tinham como objetivo divulgar os debates travados por intelectuais ou cientistas vinculados ao CLC na Europa, em especial sobre temas que eram discutidos na América Latina. Tratava-se, portanto, de promover uma agenda intelectual que contribuísse para “racionalizar” as controvérsias, supostamente diminuindo o peso da retórica política inflamada. O francês Michel Collinet, por exemplo, tem seu nome sugerido por Mercier para ministrar um curso sobre movimento operário, aproveitando a efeméride dos cem anos da I Internacional, o que expressava uma tentativa do CLC de disputar a história do socialismo revolucionário, afastando-o do marxismo “oficial”18.
Já a organização de seminários temáticos seria realizada por meio de contatos regulares como nomes influentes como Lipset e Shills19. O seminário sobre formação de elites seria exemplar de tal atividade. O evento terminou por ocorrer apenas em 1965, na cidade de Montevidéu, graças a uma parceria estabelecida entre o CLC, a Universidad de La Republica e o Institute of International Relations da UCLA, contando com a parceria entre Lipset e o uruguaio Aldo Solari, figura que se mostraria central na articulação do CLC na região do Prata (MARKARIAN, 2020a). O tema – elites – era afinado com a agenda sociológica liberal-modernizadora do CLC, que mobilizava a teoria estrutural-funcionalista para promover explicações sobre como os processos de mudança política e democratização em sociedades periféricas poderiam ser controlados ou moderados por uma ação racional de elites. Porém, o financiamento internacional, a temática adotada e o contexto político, marcado pela invasão norte-americana à República Dominicana, tornaram o evento um alvo fácil da esquerda uruguaia, e artigos críticos no conhecido semanário Marcha! obrigaram Lipset e Solari a ampliarem a lista de convidados, como forma de tentar garantir a legitimidade diante da esquerda regional (MARKARIAN, 2020b).
Assim, seria possível interpretar esse primeiro momento do giro sociológico como uma replicação do discurso vitorioso na conferência do CLC de 1955, quando o debate sobre o “fim das ideologias” sintetizou uma agenda intelectual que mobilizava a sociologia norte-americana do Pós-Guerra para pensar as novas condições de uma sociedade “não-ideológica” e atravessada por dilemas do planejamento democrático. Mas, um exame mais detido da questão revela uma realidade mais complexa, em que o trabalho de agendamento intelectual promovido por Mercier enredava-se com os interesses e projetos defendidos por sociólogos latino-americanos empenhados em tornar a disciplina uma ferramenta para superação do subdesenvolvimento, o que evidencia que a defesa da sociologia científica na América Latina poderia ganhar sentidos diversos do programa de “fim das ideologias” associado ao CLC na Europa e nos Estados Unidos. Embora em muitos casos esse projeto implicasse a importação de métodos e técnicas de pesquisa associados à sociologia norte-americana, o sentido político do projeto poderia se associar à superação de uma ordem tradicional e conservadora por meio das ferramentas da ciência social (MAIA, 2023). Se, no caso de Shills e Bells o alvo eram as “ideologias”, em especial o comunismo, entendidas como obstáculos para uma política liberal moderada e incremental, para muitos dos latino-americanos a sociologia tinha uma função transformadora e, em certa medida, revolucionária. Não à toa, como mostrou Fernanda Beigel, o “capital militante” foi um importante recurso de poder para agentes ligados ao processo de institucionalização científica na região lograrem se legitimar perante audiências universitárias (BEIGEL, 2010).
O ILARI e o segundo momento do giro sociológico
Em 1966, Mercier consolidou o novo projeto do Congresso na região com a criação do Instituto Latino-Americano de Relações Internacionais (ILARI). Até ser fechado por falta de fundos, em 1972, o ILARI editou revistas científicas e livros de ciências sociais, organizou um centro de documentação sobre o movimento operário latino-americano, fomentou numerosos grupos de pesquisa na região, e financiou galerias de arte em países como Brasil e Bolívia20. Para tanto, contou crescentemente com o trabalho coletivo efetuado por cientistas sociais da região, que, por sua vez, já vinham atuando em prol do que se entendia ser “sociologia científica”.
O processo de institucionalização das ciências sociais latino-americanas se deu fundamentalmente nas décadas de 1950 e 1960, tendo sido marcado por arranjos estabelecidos entre governos locais de inspiração desenvolvimentista, fundações e organizações internacionais como a UNESCO, a Ford e a Rockfeller, e atores locais imbuídos de uma crença na chamada “sociologia científica”, como os pioneiros Gino Germani, Florestan Fernandes, Orlando Fals Borda e Pablo González Casanova (GARRETON ET AL, 2005; JACKSON E BLANCO, 2014; BEIGEL, 2016). Em cada país, o resultado foi distinto, a depender da disponibilidade de recursos financeiros e políticos disponíveis, bem como da correlação de forças entre os “científicos” e outros atores que disputavam o monopólio de interpretação do social, tais como escritores, advogados e ensaístas.
Esse processo se deu no âmbito de uma divisão global do trabalho intelectual que reproduzia o lugar dependente da América Latina, condição que se traduzia no papel hegemônico exercido por doadores internacionais na região, que tinham o poder de escolher atores beneficiados e condicionar linhas de pesquisa e agendas intelectuais (LAÍZ, 2019; LAÍZ, 2022; CANCELLI, MESQUITA E CHAVES, 2023). Assim, a linguagem da sociologia científica latino-americana se baseava, em grande medida, na incorporação de métodos e teorias produzidos na academia norte-americana no pós-Segunda Guerra, como o estrutural-funcionalismo, os surveys e as técnicas estatísticas e o vocabulário do desenvolvimento, constituindo um terreno propício para a importação da agenda tecnocrática do “fim das ideologias” que o CLC promovia.
Entretanto, é fundamental notar que esses projetos latino-americanos se relacionavam com agendas políticas locais de superação do subdesenvolvimento, o que tornava os discursos sociológicos gestados em tal contexto mais atentos às particularidades históricas da região e seus efeitos sobre a teorização (BRASIL JUNIOR, 2013). Instituições como a Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO) e o Centro Latino-Americano de Pesquisa em Ciências Sociais (CLAPCS), ambas criadas em 1957, foram fundamentais para sistematizar uma agenda de pesquisa empírica orientada para os problemas do subdesenvolvimento, treinar e socializar as novas gerações na prática de investigação científica e circular conceitos e ideias-chaves sobre os problemas latino-americanos (FRANCO, 2007; BRINGEL E LEONE, 2021).
Assim, o “giro sociológico” iniciado no começo da década de 1960 e aprofundado com a criação do ILARI se traduziu em um processo de trabalho que dependia do engajamento de uma comunidade regional de especialistas já relativamente consolidada, com trajetórias e agendas próprias. Trata-se, portanto, de verificar como esse processo se concretizou e os seus resultados intelectuais.
Uma primeira dimensão desse processo de trabalho envolveu a articulação de redes intelectuais de assessoramento. Ao montar o ILARI, em janeiro de 1966, Mercier buscou o apoio e/ou a participação efetiva dos mais destacados cientistas sociais latino-americanos, não se limitando aos nomes que seriam mais próximos da orientação ideológica “antitotalitária”, como Gino Germani. O colombiano Orlando Fals Borda, por exemplo, seria um dos convidados, tendo respondido positivamente ao convite para se tornar um conselheiro, afirmando em carta que considerava que o CLC estava fazendo um trabalho relevante na América, embora devesse se abrir a todas as orientações ideológicas.21
O caso de Fals Borda é particularmente relevante por sua exemplaridade. Entre 1966 e 1968, Fals Borda, figura-chave na institucionalização da sociologia científica em seu país e empreendedor acadêmico com fortes laços com as fundações norte-americanas, passaria por um processo de radicalização política que culminaria na elaboração da famosa “pesquisa-ação” (ROJAS GUERRA, 2021; RAPPAPORT, 2020). A combinação entre formação científica, profissionalismo e radicalização ideológica seria experimentada por outros nomes da região, como Florestan Fernandes, também alvo das investidas de Mercier e do ILARI, e Pablo Casanova, figura de proa na institucionalização da sociologia no México e autor de trabalhos fundamentais sobre os vínculos entre sociologia e teoria marxista.
Nos anos seguintes, Mercier iria construir laços de confiança com sociólogos-chaves em cada país da região, como forma de identificar oportunidades de colaboração intelectual e desenvolver iniciativas de fomento à sociologia científica que permitissem ao ILARI incrementar seu perfil institucional e intelectual. Uma das figuras-chaves nessa empreitada foi Aldo Solari, que realizou missões exploratórias em países da região com menor capacidade científica, ministrando conferências, auxiliando na identificação de possíveis “talentos” e avaliando as perspectivas de trabalho científico22. Além disso, parte de seu trabalho intelectual era efetivamente alinhado aos objetivos do CLC na região, em especial seu estudo crítico sobre o chamado Tercerismo, ideologia antiimperialista que mobilizava a esquerda uruguaia de então, que foi publicado em parceria com o Congresso (MARKARIAN, 2020a).
Função similar desempenharia o brasileiro Gláucio Dillon Soares, então diretor da FLACSO. Mercier consultava Soares sobre a cena sociológica regional, convidava-o para turnês por países menores como forma de identificar potenciais interlocutores, e incentivava-o a organizar dossiês e submeter artigos para Aportes. Em janeiro de 1967, Mercier escreve a Soares dizendo que estão precisando de gente jovem e qualificada profissionalmente, para animar as equipes que estariam sendo organizadas no Peru, na Bolívia e no Paraguai23. A viagem iria demorar um pouco para ocorrer, mas, eventualmente, Soares a realizou, relatando-a em extensa carta datada de 09 de dezembro do mesmo ano de 196724. Nela, faz algumas sugestões, entre as quais a transformação da Revista Paraguaia de Sociologia, então editada por Domingos Rivarola com apoio do ILARI, em uma publicação conjunta de cientistas sociais dos três países visitados, como forma de ampliar a visibilidade da produção da região.
No mesmo ano de 1967, o centro chileno do ILARI sediaria a reunião anual da organização, congregando seus representantes em diferentes países latino-americanos. Mercier fez questão de convidar pessoas que considerava identificadas com a “causa” da sociologia científica, como, por exemplo, Jean Labbens (representantes da UNESCO), o próprio Gláucio Soares (representando a FLACSO) e Carlos Marsal (CEPAL), além de figuras de destaque, como Anibal Pinto e Medina Echavarría.
Note-se que dificilmente se poderia dizer que nomes como Solari e Soares foram “recrutados” pelo ILARI, pois ambos já tinham uma carreira relativamente consolidada e dialogavam com Mercier em busca de espaço e oportunidades para seus próprios empreendimentos. Nessa mesma situação encontrava-se Gino Germani, que era um dos interlocutores mais frequentes de Mercier na Argentina. Esses sociólogos enxergavam as iniciativas do ILARI, particularmente a revista Aportes, como mais um espaço para a promoção da sociologia científica num contexto político cada vez mais rarefeito, em que o crescente autoritarismo militar cerceava os espaços de pesquisa e ensino.
A intensa troca de cartas com cientistas sociais latino-americanos permite apreender o lugar que o epistolário ocupava na produção dessa rede nesse difícil contexto. Do ponto de vista de Mercier, era preciso mobilizar os intelectuais, produzindo convites para eventos e publicações e criando espaços de debate intelectual em um cenário que se mostrava cada vez mais rarefeito. Tais cartas, portanto, devem ser vistas como formas de ação política, já que se destinavam a produzir e manter uma rede com cientistas sociais que já tinham suas próprias agendas, e que buscavam espaços para preservá-las.
Aportes desempenharia papel central nessa estratégia de atração de intelectuais para formação de redes. Entre 1966 e 1972, foram publicados 26 números desse periódico, com artigos assinados não apenas por nomes próximos do ILARI, como os já citados Solari e Germani, como por sociólogos de esquerda que eram conhecidos por suas críticas ao imperialismo científico e cultural norte-americano, como Florestan Fernandes e Aníbal Pinto. Ao longo desse período, Mercier estabeleceu uma correspondência incessante com vários cientistas sociais na região, tendo como mote a organização de dossiês na revista e convites para o envio de manuscritos inéditos.
Em novembro de 1967, o cientista político e intelectual nacionalista brasileiro Hélio Jaguaribe escreve a Mercier, agradecendo pelas informações sobre o projeto do ILARI e saudando a iniciativa, em especial diante da conjuntura de autoritarismo e cerceamento da pesquisa que se iniciara no continente25. Em sua resposta, datada de dezembro do mesmo ano, Mercier argumenta que o ILARI e a revista Aportes seriam uma contribuição à “tomada de consciência” dos latino-americanos sobre os problemas de seu tempo e um antídoto contra a tendência de “importação de modas intelectuais”. Assim, continua Mercier, o ILARI representaria um momento importante na formação de um “capital latino-americano próprio”26.
Essa carta permite ver como Mercier buscava articular sua defesa da sociologia científica com um argumento político a respeito da necessidade de autonomia intelectual regional, tema caro aos intelectuais latino-americanos. Naquele momento, as teorias da Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL, 1947-) circulavam na sociologia e na ciência política, fornecendo um repertório teórico mais amplo para a interpretação do subdesenvolvimento e para a identificação das condições necessárias para sua superação. Jaguaribe fora um quadro importante do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB, 1955-1964), um centro de disseminação do ideário nacionalista e anti-imperialista, mas tais formulações poderiam ser vistas nas obras de diferentes cientistas sociais latino-americanos, como Costa Pinto, Pablo Casanova e o já citado Fals Borda.
O interesse de Mercier no debate intelectual latino-americano estendia-se até o campo que ele entendia ser dos “marxistas dissidentes”. Em carta de março de 1966 enviada ao seu amigo Benito Milla, que era parceiro do CLC no Uruguai e exercia papel de relevo na organização da vida editorial local, Mercier elogia um texto recém-publicado pelo mexicano Rodolfo Stavenhagen, que viria ser o célebre artigo Siete tesis equivocadas sobre América Latina, sugerindo que estaria surgindo um movimento de renovação teórica heterodoxa, que se afastaria do marxismo “oficial”27.
Naquele momento, a FLACSO se tornava um importante espaço para construção tanto da sociologia científica como da missão política de superação do subdesenvolvimento, organizando cursos e treinando especialistas num ambiente que buscava mobilizar as ferramentas mais atualizadas da sociologia para a formação de um “capital humano” orientado para a autonomia intelectual. Mercier buscava então posicionar o ILARI ao lado de tais redes, o que se traduziu em uma quantidade significativa de artigos publicados em Aportes por cientistas sociais vinculados àquela instituição, como Marlos Kaplan, Aníbal Pinto, Gláucio Dillon Soares e Atílio Borón, dentre outros.
Em novembro de 1967, Mercier convidou Aníbal Pinto para organizar um dossiê sobre a relação entre os Estados Unidos e a América Latina, justificando que tomou conhecimento dos estudos recentes do autor sobre o tema28. Mercier argumentou que a possibilidade de qualquer ação anti-imperialista só poderia frutificar caso se conhecesse as relações objetivas entre as regiões, atentando para os dados e as correlações reais de força. Ou seja, ao invés de estabelecer uma crítica no terreno doutrinário (“anti-imperialismo” como sendo sinônimo de estratégia retórica esquerdista), Mercier procurou trazer o tema para a agenda das modernas ciências sociais, buscando um espaço de interlocução com um conhecido sociólogo progressista.
Na ocasião, Aníbal Pinto se consolidava como um analista crítico do processo de desenvolvimento latino-americano, atuado como docente na importante ESCOLATINA, vinculada à Universidade Católica do Chile. Seus textos sobre história econômica iriam se converter em algumas das fontes principais para a elaboração das teorias dependentistas (BEIGEL, 2010) e o interesse de Mercier por sua produção evidencia o grau de engajamento com as vertentes mais radicais da sociologia latino-americana do período.
Outro exemplo da circulação intelectual estabelecida entre o ILARI e a sociologia latino-americana diz respeito ao debate em torno dos intelectuais e seu compromiso29. Na América Latina, esse conceito repercutiu inicialmente entre grupos intelectuais ligados ao existencialismo, por conta da recepção da obra de Jean Paul-Sartre, em particular seu texto sobre literatura e engajamento30.
O grupo reunido em torno da revista argentina Contorno foi fundamental para disseminar a categoria de compromiso, que teve ampla aceitação entre diferentes figuras literárias do país (SAVIGNANO, 2006; PETRA, 2018). Na década de 1960, a discussão sobre o compromiso dos intelectuais foi alimentada pelos efeitos da Revolução Cubana, relacionando-se com uma reivindicação anti-imperialista e subsidiando o apelo à transformação revolucionária. No caso das ciências sociais – que não eram o tema original de Sartre –, passou-se a falar em “sociologia do compromiso”, que explicitava a necessidade dos sociólogos latino-americanos engajaram-se nos movimentos populares e mobilizarem as ferramentas da disciplina para a luta de libertação (SIGAL, 1991; GIL, 2016). Ao longo dessa década, as novas gerações de sociólogos questionaram firmemente os “científicos” que lideraram os esforços de institucionalização da disciplina por meio de fundações internacionais e a adaptação de técnicas e métodos tidos agora como “imperialistas” (GIL, 2016). Gino Germani foi alvo de uma greve estudantil em 1962, além de críticas por parte de seus discípulos, enquanto na Colômbia, a geração de Fals Borda foi acusada de ser pró-imperialista por conta de seu trabalho com as fundações norte-americanas (JIMÉNEZ, 2017).
Seria de se esperar, portanto, que Mercier buscasse refutar esse discurso, que parecia legitimar ideologicamente o engajamento dos sociólogos com a causa cubana e outros ideias antitéticos ao CLC. Mas, em novembro de 1965, o centro argentino pela Liberdade da Cultura organizou um seminário de dois dias sobre a sociologia e o compromiso, no qual diferentes cientistas sociais buscavam disputar o sentido do termo, à luz do trabalho intelectual que era promovido pelo Congresso na região. O livro que resultou desse seminário traz as intervenções dos participantes e as sistematizações analíticas feitas por nomes como José Luiz Imaz (IMAZ ET AL, 1966). Imaz, em especial, procurou negar a ideia de que o engajamento devesse ser entendido como uma adesão a alguma ideologia ou um partido, tratando-se, na verdade, da responsabilidade do sociólogo com a ética da comunidade a qual pertence31. Esse argumento, inspirado nos textos do norte-americano Robert Merton, surge na fala de diversos outros palestrantes, todos preocupados em delimitar uma relativa autonomia do espaço de atuação profissional do sociólogo latino-americano.
Mas, ao mesmo tempo, boa parte dos palestrantes também reconhecia que os problemas do subdesenvolvimento eram particulares, em tudo distintos dos vivenciados pelas sociedades avançadas, o que faria com que a prática profissional da sociologia na América Latina tivesse uma orientação para a mudança social, um tema-chave na literatura da região. Vários dos palestrantes citam positivamente a obra de Wright Mills, autor norte-americano que seria identificado com a chamada “sociologia crítica”, e cuja obra teria ampla circulação na região nos anos seguintes.
Nos anos que se seguiram, o ILARI entraria em uma forte crise financeira, pois a nova subvenção acordada pela Fundação Ford para subsidiar as atividades globais da Associação Internacional pela Liberdade da Cultura, criada em substituição ao antigo Congresso pela Liberdade da Cultura, não se mostraria suficiente para manter o Instituto na região. Mesmo assim, Mercier continuaria a recrutar cientistas sociais progressistas como forma de “abrir à esquerda” o ILARI – fato celebrado em relatório publicado no ano de 1969 32-, organizar dossiês temáticos para a revista Aportes e promover debates que sistematizam os temas mais candentes da sociologia regional.
Em 1972, Aportes deixaria de ser publicada, e o ILARI encerraria suas portas. O padrão de financiamento internacional das ciências sociais latino-americanas se consolidaria por intermédio de fundações como a Ford, que já atuava na região desde a década anterior, por intermédio de um modelo que não demandava o grau de coordenação e centralização implementado por Mercier, embora não desprovido de condicionamentos geopolíticos similares (CANCELLI, MESQUITA E CHAVES, 2023). Qual seria, portanto, o saldo analítico dessa empreitada para o debate contemporâneo da História Intelectual?
Conclusão
O caso do ILARI oferece inúmeras possibilidades analíticas para a História Intelectual latino-americana, alguns já bem explorados pela bibliografia. Os mecanismos de agendamento intelectual e de cooptação empreendidos pelo Instituto foram examinados com precisão por Elizabeth Cancelli (CANCELLI, 2017), ao passo que a análise fina de suas publicações e iniciativas editoriais na região do Prata foi realizada por Karina Janello (2018). Também é possível analisar o ILARI à luz do debate sobre os efeitos do financiamento das ciências sociais latino-americanas por organizações transnacionais, que usualmente se foca em atores mais conhecidos e que produziram resultados mais duradouros, como as Fundações Ford e Rockfeller (CHAVES, 2018; MESQUITA, 2017; LAÍZ, 2019; 2022; BLOIS, 2023). Uma das questões fundamentais que emerge dessa bibliografia diz respeito aos resultados intelectuais desses mecanismos de financiamento internacional, que não escapavam às lógicas geopolíticas da Guerra Fria. É possível dizer que a sociologia latino-americana seria mais um episódio das chamadas “Cold War Social Sciences” (SOLOVEY, 2013)?
Neste artigo, procurei contribuir para esse debate atentando para o tipo de trabalho intelectual efetivado a partir da cooperação entre sociólogos latino-americanos e o ILARI. Assim, optei por analisar o processo de tradução e aclimatação da agenda sociológica euro-americana do CLC no contexto da Guerra Fria cultural latino-americana, que guardava peculiaridades em relação ao cenário europeu (IBER, 2015). Embora Mercier e seus aliados estivessem convictos da relação entre o ideal “antitotalitário” e as práticas da sociologia científica, o processo de implementação de tal agenda se mostrou mais complexo, permitindo a circulação de teorias latino-americanas sobre subdesenvolvimento e autonomia intelectual, mesmo num cenário de franca assimetria de recursos. Embora a literatura sobre a geopolítica do conhecimento tenha descrito de forma precisa as desigualdades econômicas e culturais que estruturam o cenário global das ciências sociais no pós-Segunda Guerra, em que progressivamente os Estados Unidos e a Europa Ocidental tornaram-se o “centro” (HEILBRON, 2014), ainda é preciso explicar como as práticas intelectuais concretas se desenrolaram nesse cenário tão assimétrico.
No caso deste artigo, a análise do processo de circulação científica entre centros e periferias se fez possível pelo tratamento dado ao material de arquivo. Tratando-se de um conjunto vasto de documentos gerados a partir das ações do Congresso, um arquivo como o da AILC tende a refletir a agenda, o interesse e as disposições de seus operadores, pois os demais personagens surgem nos documentos a partir de convites, questionamentos e interpelações emanadas do CLC. Esse, é claro, é um problema já conhecido entre historiadores que lidam regularmente com arquivos produzidos por instituições de controle, o que levou a um conjunto de reflexões sobre as leituras “a contrapelo” de documentos em busca de rastros ou performances subalternas33. A reconstrução de diálogos e circulações por meio desse conjunto pode acabar reificando o próprio poder constitutivo da organização, atribuindo às movimentações descritas em cartas e relatórios uma efetividade real que deve ser sempre colocada à prova. Nesta pesquisa, na medida do possível, procurei temperar esse risco mobilizando a bibliografia sobre sociologia latino-americana e outros materiais que permitam situar os personagens citados à luz de outras tramas que não apenas as derivadas do arquivo do CLC.
As cartas trocadas entre Mercier e seus interlocutores latino-americanos foram fundamentais para verificar a circulação de repertórios intelectuais em contexto de assimetria de recursos, o que torna fundamental refletir sobre esse material específico. Já há tempos os estudiosos da história da sociologia têm se debruçado sobre o epistolário como forma de reconstruir as práticas de criação intelectual e seus circuitos de recepção e leitura (JONES, 1983). Uma armadilha comum a ser evitada é tomar tais materiais como reveladores de um bastidor mais puro e autêntico, supostamente ocultado nas obras definitivas que vêm à luz como registros principais de intelectuais e cientistas. Ainda assim, cartas são valiosas fontes, por nos permitirem entender as práticas intelectuais dos sociólogos e as interações que lhes permitiam estruturar discursos, testar ideias e organizar argumentos que, eventualmente, ganhavam forma acabada (SORÁ, 2013).
No caso desta pesquisa, além de estudar o conteúdo dos textos em busca de evidências da presença de categorias e de conceitos caros ao debate sociológica da época, mobilizo a sugestão de tratar essas missivas como performances que buscam produzir efeitos no mundo, engajando intelectuais em projetos do CLC (DIAZ, 2016). Na medida em que se situam numa vasta sequência de trocas que por vezes duram anos, as cartas trocadas entre Mercier e sociólogos latino-americanos podem ser lidas como peças integrantes na produção de uma rede, e não simplesmente como emanações do sujeito epistolar. Estudos recentes têm provado a pertinência de utilizar tais materiais para investigação de tais redes intelectuais, que se mostram centrais para a conformação da disciplina no Brasil e no mundo (GOODWIN E HUGHES, 2011; CONSOLIM, 2021; MAIA E RODRIGUEZ, 2023). Mesmo que tal rede fosse produzida em contexto de franca assimetria, em que um dos lados desse contrato epistolar detinha os recursos materiais e políticos para fazê-la funcionar, a análise mais detida das práticas de conhecimento em jogo nas cartas evidenciou como os sociólogos latino-americanos buscavam projetar seus próprios projetos e interesses, constituindo um trabalho coletivo sem o qual o ILARI simplesmente não funcionaria. Como mostra a historiografia da ciência, manter e gerenciar as redes científicas formadas por iniciativas transnacionais são atividades tão importantes quanto o próprio conteúdo em si das ideias que circulam nesses espaços (BIGG ET AL, 2023). Assim, embora os objetivos políticos do CLC fossem globais, não se desviando do combate à influência soviética, as dinâmicas centro-periferia não deixaram de condicionar sua operação em regiões do III Mundo. No Velho Mundo, a sociologia promovida pelo Congresso da Liberdade da Cultura era orientada para o planejamento tecnocrático de uma sociedade “pós-ideológica”, marcada pela abundância material, pelo suposto esvaziamento do conflito de classes e pelo papel diretivo das camadas técnicas. Na América Latina, o processo de institucionalização científica da disciplina carregou um sentido político alternativo, orientado para o objetivo de superação do subdesenvolvimento, seja no campo econômico, seja no campo cultural. Quando Mercier e seus aliados estabeleceram o ILARI, esse processo que articulava ciência e política ganhava tom ainda mais radical, acionando conceitos como compromiso e autonomia intelectual, o que levou Mercier a mobilizar linguagens latino-americanas que tinham uma ressonância cultural forte na região. Essa conclusão pode ser pensada à luz de achados anteriores de Marcelo Ridenti e Karina Janello, que demonstraram como a operação intelectual do ILARI produziu resultados mais complexos e plurais do que se esperaria de uma organização financiada originalmente pela CIA (JANELLO, 2019; RIDENTI, 2022). Afinal, as revistas e editoras que gravitaram em torno das redes do ILARI desempenharam papel significativo na constituição do campo da sociologia na segunda metade da década de 1960, em especial num contexto de progressivo fechamento político no continente.
A bibliografia recente sobre a história das ciências sociais latino-americanas tem demonstrado como a estrutura centro-periferia que moldou a geopolítica do conhecimento no pós-Segunda Guerra não necessariamente se traduziu em um processo contínuo de transmissão unilateral de agendas e ideias nascidas no Norte Global para as regiões periféricas, apontando o papel criativo exercido por intelectuais em condições de dependência estrutural (BEIGEL, 2016; BRINGEL E LEONE, 2021, MERKEL, 2022). A história da relação entre o ILARI e a sociologia latino-americana oferece mais uma evidência para essa crescente literatura.
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Artigo não publicado em plataforma preprint. Todas as fontes e bibliografia utilizadas são referenciadas. A pesquisa foi realizada com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq, que me concedeu uma bolsa de produtividade para o projeto individual “Ciência e engajamento na Guerra Fria: a sociologia latino-americana nas décadas de 1960 e 1970” (processo 309307/2019-8) e financiamento para a pesquisa coletiva “Arquivos, intelectuais e pensamento social” por meio do Edital Universal 2023 (processo 405036/2023-0) e da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro - FAPERJ, por intermédio do Programa de Apoio a Projetos Temáticos no Estado do Rio de Janeiro, com o qual obtivemos financiamento para a pesquisa coletiva “Arquivos, intelectuais e pensamento social: desafios teórico-metodológicos” (processo E-26/210.087/2023).
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Há uma longa discussão sobre o conceito de totalitarismo, que embora tenha operado no pós-1945 como uma forma de agrupar diferentes experiências políticas modernas como o fascismo e o comunismo em um bloco antagônico ao que se entendia ser a democracia liberal, tem uma genealogia mais complexa, remontando às primeiras críticas italianas ao fascismo e aos escritos de dissidentes soviéticos (para uma breve periodização analítica do uso do conceito, ver TRAVERSO, 2017). Segue-se aqui a análise de Guilhot, que mostra como, no pós-Segunda Guerra, o conceito foi central para permitir que o caldo antifascista dos anos de 1930 pudesse ser mobilizado no eixo do Atlântico Norte em uma retorica “democrática” e “antiautoritária” que agregava liberais, anarquistas e sociais-democratas (GUILHOT, 2005). Esse veio do discurso “anti-totalitário” é o que se expressa na atuação do CLC.
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Este conceito designa o processo pelo qual os dois grandes blocos de poder depois de 1945 investiram recursos financeiros e políticos para a conquista dos “corações e mentes” de escritores e intelectuais ao longo da Guerra Fria. Nesse processo, o financiamento de congressos culturais, de exposições de arte e da circulação global de escritores foi estratégia comum a norte-americanos e soviéticos.
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Entendo “sociologia científica” como uma categoria nativa utilizada pela geração de cientistas sociais latino-americanos empenhados em institucionalizar a disciplina na região entre as décadas de 1940 e 1960. Nesse processo, o adjetivo “científico” servia para diferenciar uma prática baseada na pesquisa empírica e no “rigor” metodológico do que se entendia ser o antigo “ensaísmo” (cf. JACKSON E BLANCO, 2014)
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Em 1966, reportagens que revelaram o financiamento oculto das atividades do CLC pela CIA jogaram a organização numa crise de reputação, que foi contornada por meio de um novo nome – Associação Internacional pela Liberdade da Cultura – e um novo arranjo financeiro, supostamente bancado apenas pela Fundação Ford (cf. SAUNDERS, 2000).
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Karina Janello identificou mais de vinte revistas publicadas na América Latina, sendo seis delas editadas diretamente em Paris. As principais revistas do ILARI foram Aportes, Mundo Nuevo e Temas.
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O material desta pesquisa foi coligido fundamentalmente na coleção da AILC, atualmente depositada na Hanna Holborn Gray Special Collections Research Center da Biblioteca da Universidade de Chicago. Esta coleção tem oito séries, cada um contendo centenas de caixas que, por sua vez, podem abrigar dezenas de folders. A série especificamente dedicada ao ILARI é a de número VI, que contém quatro subséries, intituladas, respectivamente, “Correspondências”, “Manuscritos”, “Relatórios e Projetos” e “Registros Financeiros” Na série VI (ILARI), trabalhei fundamentalmente com as subséries 1, 2 e 4. Mas, para evitar a concentração analítica em uma fração do material, optei por explorar também outras caixas depositadas nas séries II e III, pois elas continham material significativo sobre a revista Aportes e o orçamento do Instituto.
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Botsford (1928-2018) foi um escritor norte-americano/europeu recrutado para o CLC por John Hunt, tendo morado e trabalhado na América Latina entre 1962 e 1965.
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International Association of Cultural Freedom (IACF).Carta de Louis Mercier Vega a Keith Botsford. 29 de janeiro de 1961.The University of Chicago Library. The Hanna Holborn Gray Special Collections Research Center. International Association for Cultural Freedom Records. Series VI, Subseries 1, sub-series 1, Box 555, folder 9.
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IACF.Extract from a letter from KEITH BOSTFORD 10.20.1962’. Series VI, Subseries 1, sub-series 1, Box 555, folder 9.
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IACF. Carta de Louis Mercier Vega a Stefan Baciu. 06 de abril de 1962. Series VI, Subseries 1, sub-series 2, Box 559, folder 15.
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13
Idem, ibid.
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14
IACF.Carta de Louis Mercier Vega a Helmut Rudiger. 05 de fevereiro de 1964.Series VI, Subseries 1, sub-series 1, Box 557, folder 2.
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15
Idem, ibid.
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16
IACF.Carta de Louis Mercier Vega a George Balandier. 26 de maio de 1964. Series VI, Subseries 1, sub-series 1, Box 557, folder1.
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17
IACF. Carta de Louis Mercier Vega a Edgar Morin. 15 de janeiro de 1964. Series VI, Subseries 1, sub-series 1, Box 557, folder 2.
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18
IACF. Carta de Louis Mercier Vega a Vicente Barreto. Series VI, Subseries 1, sub-series, Box 559, folder 16.
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19
IACF.Carta de Louis Mercier Vega a Edward Shills. 12 de dezembro de 1961. Series VI, subséries 1, sub-series 1, Box 556, folder 14.
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20
Katina Janello produziu o melhor resumo das atividades do ILARI no período (JANELLO, 2018; 2019)
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21
IACF. Carta de Orlando Fals Borda a Louis Mercier Vega. 13 de janeiro de 1966. Series VI, Subseries 1, sub-series 1, box 555, folder 4..
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22
IACF. Carta de Aldo Solari a Louis Mercier Veja. 03 de agosto de 1964. Series VI, Subseries 1, sub-series 1, Box 566, folder 7.
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23
IACF. Carta de Louis Mercier Vega a Gláucio Dillon Soares. 26 de janeiro de 1967. Series VI, subseries 1, sub-series 2, Box 561, folder 3.
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24
IACF. Carta de Gláucio Dillon Soares a Louis Mercier Vega. 09 de dezembro de 1967. Series VI, subseries 1, sub-series 3, Box 567, folder 6.
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25
IACF. Carta de Hélio Jaguaribe a Louis Mercier Vega. 29 de novembro de 1967. Series VI, subseries 1,sub-series3, box 567, folder 4.
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26
IACF. Carta de Louis Mercier Vega a Hélio Jaguaribe. 06 de dezembro de 1967. Series VI, subséries 1,sub-series3, box 567, folder 4.
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IACF. Carta de Louis Mercier Vega a Benito Milla. 16 de março de 1966. Series VI, subseries 1, sub-series 1, Box 566, folder 9.
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28
IACF.Carta de Louis Mercier Vega a Aníbal Pinto 17 de novembro de 1967. Series VI, subseries 1, sub-series 3, Box 567, folder 6.
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Mantenho aqui a nomenclatura em espanhol, que guarda um significado mais forte e disseminado do que “engajamento”, mais familiar a nós. Por vezes, utilizarei o termo “engajamento” para me referir ao significado do compromiso.
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Em sua acepção original, a discussão sartreana tinha como pano de fundo a ocupação nazista, que levou o filósofo francês a elaborar uma teoria sobre a responsabilidade individual e a liberdade como condição básica para a ação. Se a facticidade da ocupação implicava um conjunto de objetos com os quais todos tinham que lidar, somente um ato radical de escolha – como a adesão à Resistência - seria capaz de afirmar um projeto que anulasse essa facticidade (SAPIRO, EAMUNEL e TOWNSED, 2006). O escritor seria a figura-chave a encarnar esse engajamento, pois por meio da escrita o sujeito nomearia um mundo e se comunicaria com a Humanidade.
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Miguel Palmeira e Stella Maris Scatena Franco
