RESUMO
Objetivo: Identificar a frequência e os fatores associados ao uso de cannabis entre estudantes de uma universidade pública do estado do Paraná.
Método: Estudo transversal realizado com 168 estudantes de uma universidade pública do centro do Paraná, Brasil. Os dados foram coletados entre agosto e novembro de 2022 pela plataforma RedCap contendo variáveis sociodemográficas sobre o uso de cannabis, problemas relacionados ao consumo e a Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse. Realizou-se análise descritiva e modelos de regressão múltipla de mínimos quadrados ordinários. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética.
Resultados: O uso de cannabis foi relatado por 84,5% dos estudantes e 13,7% apresentaram algum problema relacionado ao consumo. Os fatores orientação sexual (homossexual p-valor=0,02/assexual p-valor =0,01), residir com colegas de faculdades (p-valor=0,03) e ter maior renda (p-valor <0,001), associaram-se tanto a mais dias de consumo como aos problemas. O uso de tabaco nos últimos 30 dias associou-se a mais dias de consumo (p-valor=0,02) e índices mais elevados de estresse aos problemas com o uso (p-valor=0,05).
Conclusão: O uso de cannabis é frequente entre os estudantes e identificou-se que as características sociodemográficas, o uso de outras substâncias e o estresse associaram-se tanto aos dias de consumo como aos problemas relatados.
Descritores:
Cannabis; Estudantes; Universidade; Saúde mental; Transtornos relacionados ao uso de substâncias
ABSTRACT
Objective: To identify frequency and factors associated with the use of cannabis among students at a public university in the state of Paraná.
Method: Cross-sectional study, conducted with 168 students from a public university in central Paraná, Brazil. Data were collected between August and November 2022 through the RedCap platform containing sociodemographic variables, on the use of cannabis, problems related to consumption, and the Depression, Anxiety and Stress Scale. Descriptive analysis and ordinary least squares multiple regression models were performed. The research was approved by the Ethics Committee.
Results: Cannabis use was reported by 84.5% of students and 13.7% had some problem related to consumption. The factors sexual orientation (homosexual p-value=0.02/asexual p-value =0.01), living with college friends (p-value=0.03) and higher income (p-value <0.001), were associated with both more days of consumption and problems. Tobacco use in the last 30 days was associated with more days of cannabis consumption (p-value=0.02) and higher levels of stress linked to consumption-related problems (p-value=0.05).
Conclusion: Cannabis use is frequent among students, and sociodemographic characteristics, the use of other substances, and stress were associated with both the number of consumption days and reported problems.
Descriptors:
Cannabis; Students; University; Mental health; Substance-related disorders
RESUMEN
Objetivo: Identificar frecuencia y factores asociados al uso de cannabis entre estudiantes de una universidad pública del estado de Paraná.
Método: Estudio transversal, realizado con 168 estudiantes de una universidad pública del centro de Paraná, Brasil. Los datos fueron recolectados entre agosto y noviembre de 2022 por la plataforma RedCap que contiene variables sociodemográficas, sobre el uso de cannabis y la Escala de Depresión, Ansiedad y Estrés. Se realizaron análisis descriptivos y modelos de regresión múltiple de mínimos cuadrados ordinarios. La investigación fue aprobada por el comité de ética.
Resultados: El consumo de cannabis fue reportado por el 84,5% de los estudiantes y el 13,7% tuvo algún problema relacionado con el consumo. Los factores orientación sexual (valor p homosexual = 0,02/valor p asexual = 0,01), vivir con amigos de la universidad (valor p = 0,03) y tener mayores ingresos (valor p <0,001), se asociaron con más días de consumo y problemas. El consumo de tabaco en los últimos 30 días se asoció con más días de consumo de cannabis (valor p=0,02) y mayores niveles de estrés y problemas con el consumo (valor p=0,05).
Conclusión: El consumo de cannabis es frecuente entre los estudiantes y se identificó que las características sociodemográficas, el uso de otras sustancias y lo estrés, inherentes al contexto universitario, se asociaron tanto con los días de consumo como con los problemas reportados.
Descriptores:
Cannabis; Estudiantes; Universidad; Salud mental; Trastornos relacionados con sustancias
INTRODUÇÃO
Segundo o Relatório Mundial sobre Drogas, depois do álcool e do tabaco, a cannabis é a substância psicoativa mais consumida no mundo. Das 296 milhões de pessoas que referiram o uso de algum tipo de substância em 2021, um aumento de 23% nos últimos dez anos, 219 milhões usaram cannabis1. No Brasil, a prevalência do consumo da cannabis foi confirmada pelo III Levantamento Nacional Sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira (III LNUD), encontrou 7,7% das pessoas, que entre 12 e 65 anos referiram uso de cannabis pelo menos uma vez na vida, chegando a 2,2 milhões nos últimos 30 dias que antecederam a pesquisa. As regiões com maiores taxas foram Sudeste (4,7%) e Sul (4,1%)2.
Entre os estudantes universitários, a cannabis também é a substância mais consumida, depois do álcool e tabaco, e dados do I Levantamento Nacional Sobre o Uso de Drogas por Universitários das 27 Capitais Brasileiras mostraram maiores prevalências do que na população geral, sendo 26,1% de uso na vida, 13,8% no último ano e 9,1% nos últimos 30 dias antes da pesquisa. Quanto ao perfil dos estudantes, a maioria era do sexo masculino, com idade 18 a 34 anos, residentes na região Sul, vinculados a universidades privadas, cursando áreas de Humanas e com distribuição semelhante entre os períodos matutino, vespertino, integral e noturno. O início do consumo de cannabis geralmente ocorreu entre 17 e 18 anos, que, para muitos, correspondia aos primeiros anos da graduação3. Outros estudos recentes realizados em universidades públicas brasileiras encontraram perfis semelhantes4-5.
Esses dados revelam que o uso de cannabis é comum e está cada vez mais frequente, mas não significa que esteja associado a um aumento de problemas relacionados ao consumo. As pesquisas evidenciam que grande parte dos estudantes universitários usam cannabis de maneira recreativa, ou seja, principalmente em contextos de festas, para socialização, relaxamento, potencialização das atividades acadêmicas e como recurso para lidar com questões de saúde mental tais como ansiedade e tristeza6-9.
Estudos que avaliam critérios de risco identificaram que o consumo de alto risco, caracterizado por um uso que traz consequências biopsicossociais tais como tolerância, sintomas de abstinência, perda de interesse e motivação para as atividades cotidianas, problemas interpessoais, agravamento de problemas de saúde mental, é percebido em pequena parcela dos estudantes, os quais necessitam de acompanhamento por serviço de saúde3-4,9. Além disso, os avanços das últimas décadas para a regulamentação do uso da cannabis medicinal para tratamentos em saúde de grupos específicos pode estar relacionado às crescentes prevalências de consumos não problemáticos, visto que as pesquisas ainda não são suficientes para fazer essa diferenciação1.
De modo geral, os estudantes universitários percebem o consumo de cannabis mais benéfico do que propenso a riscos e muitas vezes mais eficaz no manejo de questões de saúde mental do que os psicofármacos, o que leva frequentemente à escolha da substância como a primeira opção para melhoria da autoeficácia e como estratégia de enfrentamento às situações do cotidiano, que envolvem, muitas vezes, um ambiente acadêmico marcado por sobrecarga, alta exigência e competitividade6,8. Não há consenso na literatura sobre uso de cannabis e desempenho acadêmico. Um estudo realizado com estudantes de áreas da saúde de uma universidade pública não encontrou qualquer associação4.
Existem diferenças entre os resultados de estudos realizados em locais onde o uso de cannabis é descriminalizado ou legalizado e em locais regidos por políticas proibicionistas, como o Brasil. Um exemplo é que, em países onde a cannabis medicinal é acessível a toda a população, como Grécia e Canadá, as pesquisas mostram que o uso prescrito é frequente para universitários para ansiedade, problemas de sono, depressão, dor e redução dos danos de outras substâncias ilícitas, sendo garantido o acompanhamento por profissionais de saúde10-11. Já no contexto brasileiro, a criminalização reforça estereótipos e estigmas com relação ao usuário de substâncias ilícitas, reduz a procura dos universitários por serviços públicos especializados, como os Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD), e dificulta a construção de espaços de acolhimento, dentro e fora da universidade, onde os estudantes possam dialogar abertamente sobre o consumo, configurando-se como barreira de acesso a cuidados em saúde4,5.
Vale ressaltar, que, apesar da falta de consenso na literatura científica sobre a relação direta e exclusiva entre o uso frequente de cannabis e o desenvolvimento de problemas, estudos recentes reforçam prejuízos na função executiva, bem como risco para o desenvolvimento de episódio psicótico grave, identificando-se a prevalência de um em cada 200 indivíduos, principalmente entre jovens do sexo feminino, com problemas pré-existentes de saúde mental, que faziam uso de doses mais altas de cannabis, mais especificamente de THC (tetra-hidrocarbinol)12-13.
Quando o uso de cannabis se torna problemático e traz prejuízos e danos para essa população, não se trata apenas de uma consequência do consumo, mas de um conjunto de situações emergentes desse período da vida, que depende diretamente do contexto sociocultural e das características individuais14. Um estudo realizado com universitários espanhóis concluiu que as normas subjetivas e a auto eficácia foram os principais preditores do uso e dos problemas relacionados à cannabis15. Outras pesquisas mostram que características sociodemográficas tais como sexo, orientação sexual, estado civil, rede de apoio e uso de outras substâncias também estão comumente associadas ao desenvolvimento de problemas com o uso5,14.
Mesmo havendo um perfil semelhante de estudantes universitários que fazem uso de cannabis, há diferenças individuais, farmacológicas e relativas aos contextos de vida que podem se apresentar a depender do cenário estudado. Por isso, pesquisas realizadas em diferentes universidades e regiões são necessárias para a compreensão do fenômeno.
Entende-se que as universidades não são apenas espaços para um ambiente educacional, mas também possui recursos que podem fortalecer a saúde e o bem-estar dos estudantes, exercendo papel fundamental na atenção à saúde mental da comunidade acadêmica. Chama atenção nos estudos a escassez de projetos, programas e intervenções voltados para a saúde mental e uso de substâncias psicoativas entre os estudantes apesar da necessidade levantada por eles9,16-17.
Frente a frequência do consumo de cannabis pelos universitários, os profissionais da saúde, que ocupam um lugar estratégico com ações de prevenção e promoção de cuidados, devem estar aptos a acolher, avaliar e detectar precocemente possíveis problemas relacionados a esse uso. Com isso, elaborar intervenções psicossociais que reduzam os danos e promovam a saúde integral dos estudantes universitários, não somente nos serviços de saúde como também nas universidades8. Para contribuir com a produção de conhecimento nesse campo, assim como evidenciar dados que auxilie ações de intervenções e cuidado, se faz necessário conhecer como ocorre o consumo e os fatores associados a ele.
Esta pesquisa tem como objetivo identificar a frequência dos fatores associados ao uso de cannabis entre estudantes de uma universidade pública do estado do Paraná, Brasil.
MÉTODOS
Trata-se de estudo transversal descritivo e exploratório realizado entre agosto e novembro de 2022. A redação deste artigo foi guiada pelas diretrizes do checklist Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (Strobe), utilizado para garantir que estudos observacionais sejam reportados de forma clara e completa18.
A pesquisa foi realizada em uma universidade pública estadual localizada na região central do Paraná, Brasil. Essa instituição conta com três campi principais e atende estudantes de várias regiões do Estado. Em 2022, a universidade oferecia 41 cursos de graduação e possuía 6.492 estudantes matriculados.
O cálculo amostral foi feito com base no total de estudantes matriculados, considerando uma margem de erro de 5% e um intervalo de confiança de 95%. Com isso, chegou-se a uma amostra de 363 estudantes. No entanto, a participação foi definida por conveniência, de modo que a amostra final incluiu 168 estudantes que completaram todas as questões do instrumento de coleta de dados. Para garantir a qualidade dos dados, foi aplicada a análise de casos completos, ou seja, os participantes que não responderam a todas as questões foram excluídos da análise final. Esse procedimento é amplamente utilizado em estudos transversais para evitar vieses que possam surgir devido à ausência de respostas em partes essenciais do questionário.
A análise de dados completos é uma abordagem utilizada para lidar com dados faltantes, na qual apenas os casos com todas as variáveis completas são incluídos na análise. Em vez de imputar ou estimar os valores ausentes, essa técnica exclui participantes que não responderam a todas as questões relevantes. Embora possa reduzir o tamanho da amostra, essa abordagem é considerada robusta quando a quantidade de dados faltantes é pequena ou quando os dados ausentes ocorrem de maneira aleatória, ou seja, quando a ausência das respostas não está relacionada às variáveis de interesse. Neste estudo, optou-se por utilizar a análise de dados completos, pois a exclusão de casos incompletos minimizou potenciais vieses sem comprometer a representatividade da amostra. Além disso, essa estratégia garantiu que a análise estatística fosse realizada apenas com dados completos e consistentes, proporcionando maior confiança nos resultados obtidos19.
A coleta de dados foi realizada de forma online, utilizando a plataforma RedCap, uma ferramenta segura para a coleta e o gerenciamento de dados. O instrumento de coleta de dados foi desenvolvido pelas pesquisadoras com base na revisão da literatura e incluiu três seções principais:
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Dados sociodemográficos: sexo, idade, orientação sexual, raça/cor, curso, cidade de residência, com quem residem, religião e renda familiar.
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Uso de cannabis: foram feitas perguntas sobre o uso de cannabis nos últimos 30 dias, como a via de consumo, se fumada, ingerida etc., se o consumo era prescrito ou acompanhado por um profissional de saúde, além de questões sobre o uso concomitante de outras substâncias psicoativas, como álcool e tabaco.
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Problemas relacionados ao uso de cannabis: foram feitas cinco perguntas com respostas do tipo sim/não, baseadas nos critérios do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V)20. Essas perguntas investigavam, por exemplo, se o participante já havia tentado parar de usar cannabis sem sucesso ou se já havia abandonado atividades importantes devido ao consumo. Essa medida foi escolhida pela ausência de instrumentos que abordam os problemas relacionados ao consumo, visto que a maior parte tem um enfoque somente no padrão de uso.
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Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse (DASS-21): utilizada para avaliar depressão, ansiedade e estresse dos estudantes. A DASS-21 é uma escala de autorrelato composta por 21 itens. A versão utilizada foi adaptada e validada para a população brasileira, apresentando bons índices de confiabilidade (entre 0,92 e 0,96)21.
Ao final da coleta, houve 427 acessos ao questionário, mas 239 respostas foram excluídas por não estarem completas e 20 respostas, por estarem duplicadas. Assim, a análise final foi realizada com 168 estudantes.
A análise dos dados foi realizada por meio do software estatístico STATA 15. Inicialmente, foram feitas análises descritivas para calcular as frequências, médias e desvios-padrão das variáveis sociodemográficas e dos resultados da DASS-21. Para investigar as associações entre os fatores sociodemográficos e o uso de cannabis, aplicamos um modelo de regressão múltipla de mínimos quadrados ordinários. Esse tipo de análise é ideal para identificar quais fatores estão mais fortemente associados ao uso de cannabis e aos problemas relacionados a ele. Por exemplo, variáveis como orientação sexual, renda, com quem o estudante reside, e o uso concomitante de tabaco foram incluídas como preditoras no modelo.
Para garantir que os resultados fossem robustos, utilizamos erros-padrão robustos à heterocedasticidade para corrigir possíveis problemas que podem acontecer quando a variabilidade dos erros não é constante entre os diferentes grupos. Quando utilizamos erros-padrão robustos à heterocedasticidade em uma regressão OLS, ajustamos automaticamente para violações em algumas suposições do modelo, sem a necessidade de testar se os dados seguem uma distribuição normal. Especificamente, esses erros-padrão robustos corrigem o cálculo dos erros quando a heterocedasticidade está presente, ou seja, quando a variância dos resíduos não é constante entre as observações22.
Os erros-padrão comuns presumem que essa variância é homogênea, mas quando essa suposição é violada, os testes de significância tradicionais podem produzir resultados incorretos. Os erros-padrão robustos corrigem isso, ajustando os erros sem depender da suposição de normalidade, baseando-se nas variações reais observadas nos resíduos do modelo. Isso significa que, mesmo se os dados não seguirem uma distribuição normal ou apresentarem heterocedasticidade, os erros-padrão robustos ainda fornecem estimativas confiáveis e ajustadas. Portanto, essa abordagem elimina a necessidade de verificar a normalidade dos resíduos, pois os erros-padrão são ajustados diretamente para lidar com essas potenciais inconsistências.
A pesquisa foi realizada de acordo com os preceitos éticos estabelecidos pela Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde e aprovada pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Estadual do Centro-Oeste sob o número CAAE: 59502222.2.0000.0106. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), de forma online, antes de responderem ao questionário.
RESULTADOS
Dos 168 estudantes universitários participantes do estudo, a média de idade foi de 21,6 anos (DP=2,37) e a maioria cursava os primeiros anos dos cursos de Enfermagem (12,5%), Medicina Veterinária (8,9%), Agronomia e Jornalismo (5,3%). Grande parte referiu receber ajuda financeira de familiares ou amigos para manter-se na universidade (78,6%). Os demais dados sociodemográficos estão descritos na Tabela 1.
Na análise da escala DASS-21, como apresentado na Tabela 2, identificaram-se níveis moderados de estresse e depressão entre os estudantes. A média de ansiedade foi de nível baixo, mas com máxima próxima ao nível de estresse.
Com relação ao uso de substâncias durante os 30 dias anteriores à pesquisa, 84,5% dos estudantes relataram uso de cannabis, assim como 84,5% referiram uso de álcool, 47,1% tabaco, 42,7% cigarro eletrônico, 26,8% psicodélicos, 5,9% cocaína e 5,3% inalantes. Outras substâncias não foram mencionadas.
Mais especificamente sobre o uso de cannabis, como mostra a Tabela 3, 26 (15,5%) referiram uso diário. O consumo associado a outras substâncias foi relatado por 92 estudantes (54,7%), sendo principalmente álcool, tabaco e os psicodélicos ecstasy e LSD. Sobre a via de consumo, 112 referiram consumo de cannabis fumado (66,7%) e 26 (15,5%) tanto fumado como ingerido. Apenas um universitário relatou o uso de óleo de cannabis para tratamento de epilepsia, entretanto sem prescrição médica ou acompanhamento por equipe de saúde.
As razões para o consumo foram principalmente relaxamento (82,7%), redução de estresse e ansiedade (63,1%) e interação com amigos (61,9%). A maioria dos estudantes fazia uso recreativo de cannabis e não preencheu critérios para consumo de risco (86,3%). Vinte e três participantes (13,7%) responderam sim para três ou mais critérios que indicaram consumo de risco com sinais de tolerância em 154 (92%), percepção da necessidade de consumo em 46 (27,4%) e redução de atividades que costumavam realizar em 30 (17,8%), esses foram os estudantes que referiram uso diário de cannabis.
Ao analisar os fatores associados aos dias de uso de cannabis e ao escore de problemas, como apresentado na Tabela 4, identificou-se que orientação sexual (homossexual p-valor=0,02/assexual p-valor =0,01), residir com colegas de faculdades (p-valor=0,03) e ter maior renda (p-valor<0,001), estiveram associados tanto a mais dias de consumo como ao desenvolvimento de problemas. Uso de tabaco nos últimos 30 dias associou-se a mais dias de consumo (p-valor=0,02) e índices mais elevados de estresse na escala DASS-21 a mais problemas com o uso (p-valor =0,05).
Os estudantes que se autodeclararam do sexo feminino (p-valor = 0,03), brancos (p-valor = 0,01), amarelos (p-valor <0,001), pardos (p-valor = 0,02) e que repetiram algum semestre do curso (p-valor = 0,03), tiveram menos problemas relacionados com o consumo.
DISCUSSÃO
O uso de cannabis foi frequente entre os estudantes universitários. Para que seja compreendido, é necessário considerar as influências da dinâmica da universidade, bem como das intersecções entre as características sociodemográficas, uso de outras substâncias e as necessidades de saúde mental.
A maior parte dos estudantes que participaram desta pesquisa fez uso de cannabis nos últimos 30 dias (84,5%), o que difere dos achados de estudos realizados em outras universidades públicas, nacionais e internacionais, que, apesar de possuírem perfis semelhantes, encontraram taxas que variaram de 24% a 57%4-6,8. O levantamento nacional realizado nas capitais brasileiras revelou que 9,1% fez uso nos últimos 30 dias3 antes da pesquisa. Quanto às demais substâncias, resultados semelhantes foram encontrados, sendo o álcool e o tabaco os mais consumidos4,23.
Com relação aos problemas relacionados ao consumo, foi identificado em menos de 15% dos estudantes, corrobora os achados de outros estudos realizados no Brasil e na Noruega7,14,24. Contudo, novamente observam-se valores distintos a depender do contexto. As pesquisas que analisaram o consumo de substâncias de forma mais geral, sem priorizar o uso de cannabis, encontraram prevalências menores. Em estudo com universitários africanos 4,7%, preencheram critérios para consumo de risco9, e o levantamento brasileiro mostrou 0,6%3. Já um estudo canadense que investigou somente o uso de cannabis, como o desta pesquisa, identificou uma prevalência maior, de 23,1%. Nesse caso, os participantes eram majoritariamente do sexo masculino, que tendem a ter mais problemas com o consumo, diferindo do perfil aqui encontrado15.
As razões para o uso de cannabis são comumente associadas ao uso recreativo, socialização e para lidar com as consequências do meio universitário, com destaque para insônia, necessidade de relaxamento, introspecção e aumento da criatividade, assim como encontrado por esta pesquisa6,10,15. Vale destacar que um estudante referiu uso de óleo de cannabis para tratamento em saúde, demanda que tende a crescer no Brasil com os recentes avanços nesse campo. Os profissionais de saúde e o ambiente universitário, quando instrumentalizados, podem contribuir para abordar essa questão no contexto universitário, como sugere um estudo realizado na Grécia, 10.
Ao analisar os fatores associados aos dias de uso de cannabis e aos problemas referidos, identificou-se que as variáveis sociodemográficas e marcadores tais como gênero, orientação sexual, raça/cor e renda estiveram associados tanto aos dias de uso como aos problemas. Os achados revelaram que os universitários que se autodeclararam do sexo feminino, assexuais e não pretos tinham menos problemas com o consumo quando comparados ao sexo masculino, heterossexuais e pretos. Resultados semelhantes com relação ao sexo e à orientação sexual são encontrados em diversos estudos realizados em diferentes cenários nacionais6,14,25. Já as questões raciais, se apresentam de maneira distinta: em uma análise das universidades das capitais brasileiras, as pessoas brancas apresentaram maior risco de desenvolvimento de problemas com o uso de cannabis dos que os negros26.
Outros estudos nacionais não analisaram a variável a raça/cor, o que indica a falta de atenção a esse importante marcador no contexto universitário. É importante ressaltar que, dentre a população geral, as pessoas negras tendem a apresentar mais problemas com o uso de substâncias psicoativas devido à desigualdade social e a aspectos históricos e culturais tais como o racismo estrutural e a criminalização do uso de cannabis vinculada à população negra27. Esses aspectos repercutem nas universidades com intensificação do sofrimento mental e do uso de substâncias por essa população e, por isso, devem ser investigados14.
A renda apresentou forte associação com o consumo e os problemas apresentados pelos estudantes. Assim como evidenciado por outros estudos, quanto maior a renda maior o acesso à compra de substâncias de alto custo, como a cannabis. Além disso, o fato de conviver com pessoas de maior poder aquisitivo que também fazem uso e serem provenientes de famílias com melhores condições econômicas pode facilitar o consumo entre os universitários6,26. Um estudo realizado na África encontrou que estudantes com renda mensal acima de US$150, aproximadamente R$750,00, tinham cinco vezes mais probabilidade de desenvolver problemas com o uso de cannabis9.
O tipo de moradia também é discutido por outros estudos e confirma-se a associação entre residir com colegas de faculdade e uso de cannabis. Viver com os familiares pode reduzir a frequência e o padrão de uso devido aos limites estabelecidos, ao passo que morar com colegas traz maior sensação de liberdade e ausência de monitoramento e regras, facilitando o acesso e a autonomia para o consumo6,10. Um estudo espanhol que analisou o clima familiar e sua relação com o uso de cannabis entre universitários encontrou conflitos preditivos do consumo de cannabis e dos problemas desenvolvidos, ou seja, ao mesmo tempo que o residir com os familiares pode prolongar o início do consumo, um ambiente frequentemente conflituoso pode influenciar na intenção de uso15. Contrariamente, um estudo realizado em uma universidade pública do estado de São Paulo, onde mais de 50% dos estudantes residiam com amigos, quase o dobro deste estudo, não encontrou associação entre o tipo de moradia e o uso de substâncias16.
Observa-se que é comum entre os estudantes o uso de cannabis combinado com outras substâncias, principalmente as lícitas, aspecto que deve ser explorado com mais profundidade, pois, muitas vezes, o uso de álcool e tabaco é considerado menos prejudicial, esperado e até estimulado pelas normas sociais, tanto familiares como da própria universidade. Estudo que identificou a prevalência de uso entre estudantes de uma universidade federal do Rio Grande do Sul, encontrou que o uso de tabaco nos últimos 30 dias anteriores à pesquisa teve relação com mais dias de uso de outras substâncias ilícitas, corroborando os achados deste estudo7.
Outro fator associado aos problemas com o uso de cannabis foi o índice de estresse medido pela escala DASS-21. Esse achado já foi evidenciado por outras pesquisas que utilizaram o mesmo instrumento, ou seja, quanto maior o nível de estresse dos universitários maiores os riscos de desenvolver problemas com o uso26-27. Estudo realizado com 111 estudantes da área de saúde constatou que o estresse pode ser um fator desencadeante do uso de cannabis, uma vez que essa substância produz relaxamento e potencializa a sensação de alívio e bem-estar28. Outro estudo realizado na Espanha também encontrou dados semelhantes, com prevalência considerável para estresse (34,5%), ansiedade (23,6%) e depressão (18,4%) entre os estudantes universitários usuários de cannabis29. Vale ressaltar que a maioria dos estudantes deste estudo cursava cursos de período integral, o que também já foi identificado pela literatura como um fator desencadeante de estresse e de problemas com o consumo3.
O único fator, além das características sociodemográficas, que apresentou relação inversamente proporcional aos problemas com o uso de cannabis foi repetir algum semestre do curso. Comparando com os estudantes que não repetiram nenhum semestre, aqueles que repetiram vivenciaram menos problemas. Resultado diferente foi encontrado por um estudo nacional realizado com mais de 12.000 estudantes de universidades públicas e privadas, que confirmou que, mais de 50% dos usuários de cannabis de alto risco avaliados pela escala ASSIST, foi aprovado em todas as disciplinas quanto comparado a 66% dos usuários avaliados com baixo risco. Este estudo também confirmou que a satisfação com o curso aparentemente interferiu mais na aprovação nas disciplinas do que o uso de cannabis, variável que não foi analisada por esta pesquisa e que necessita de outras evidências para ser melhor interpretada26.
Por exemplo, um estudo que explorou os reflexos do uso de cannabis na rotina de universitários ingleses identificou que o envolvimento com as atividades da universidade foi um fator de proteção para os problemas com o consumo de determinados perfis de estudantes, visto que os efeitos da substância atrapalhavam a realização das atividades acadêmicas, sobretudo as complexas e que exigiam atenção ou manifestação verbal, tornando o uso menos frequente e mais recreativo13. Ressalta-se que não é o aumento das atividades universitárias que deve ser levado em consideração, mas o envolvimento dos estudantes com as atividades propostas, sendo papel central da universidade fomentar espaços variados de pertencimento para o desenvolvimento profissional e pessoal.
Destaca-se a importância de singularizar os problemas decorrentes do uso e considerar as especificidades de cada estudante, pois diferentes fatores e marcadores sociais podem influenciar nessa questão. É necessário também ampliar a produção de vida para além dos muros da universidade e construir junto aos estudantes espaços protegidos onde possam abordar a saúde mental, a dinâmica da universidade e o uso de substâncias, de maneira aberta e sem julgamentos. Possibilitar trocas e favorecer a compreensão dos universitários sobre as relações que estabelecem com o uso de cannabis para que, assim, possam tomar decisões informadas e minimizar o desenvolvimento de problemas pode ser um caminho oportuno e necessário30.
A principal limitação identificada neste estudo foi o número reduzido de participantes que concluíram as respostas do instrumento de coleta de dados, o que limita a generalização dos achados sobre os estudantes da universidade pública estudada. Apesar desse fato ser esperado em pesquisas tipo survey online, pode ter sofrido influência da extensão do instrumento e da coleta de informações sensíveis. Outro fator que pode ter limitado o alcance de outros resultados foi a não inclusão das variáveis sobre o curso, período e razões para o consumo de cannabis no modelo de análise inferencial.
CONCLUSÃO
O uso de cannabis foi frequente entre os universitários que participaram do estudo, quando menos de 15% relataram problemas relacionados ao consumo tais como tolerância, percepção da necessidade de consumo e o abandono de atividades. Foi possível identificar que orientação sexual, quer homossexual ou assexual, maior renda e residir com colegas de faculdade, associaram-se a mais dias de consumo de cannabis. Com relação aos problemas relacionados ao uso, além das variáveis citadas anteriormente, o uso de tabaco e o estresse também apresentaram associação. Pessoas do sexo feminino, não pretas e que repetiram algum semestre do curso experimentaram menos problemas com o consumo.
Esses achados reforçam as evidências de que o uso de cannabis é comum entre os universitários e apresenta variáveis associadas que ampliam a compreensão do fenômeno. Vale destacar que os marcadores sociais de gênero, orientação sexual, raça e renda, associados a esse uso merecem destaque nas pesquisas e nas ações. O estudo contribuiu com dados que podem subsidiar a construção de ações e sistemas de cuidado e redução de danos com relação ao uso de cannabis para os estudantes universitários.
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