Open-access O sentido de ser enfermeira no atendimento pré-hospitalar móvel na perspectiva Frankliana

RESUMO

Objetivo:  compreender o sentido de ser enfermeira do atendimento pré-hospitalar móvel.

Método:  estudo de natureza qualitativa com abordagem compreensiva, fundamentado na análise teórica de Victor Frankl, realizado mediante entrevista fenomenológica com 11 enfermeiras atuantes em Bases Descentralizadas de um Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) da Microrregião Nordeste, na Bahia, no período de fevereiro a junho de 2024. Para a apreensão do fenômeno foi utilizada a análise Humanística de Vieta, denominada configuração triádica (humanista-existencial-personalista).

Resultados:  quatro categorias temáticas emergiram: ser enfermeira no SAMU é vivenciar o processo decisório e sofrimento nas relações de cuidado; ser enfermeira no SAMU é concretizar a realização de valores Franklianos; e ser enfermeira no SAMU possibilita a realização de propósitos de vida e de encontro de sentido da vida. As facetas do fenômeno possibilitaram um encontro das profissionais com sentimentos de angústia, medo, sofrimento e um transcender motivado pelo prazer e gratidão ao cuidar do usuário no cenário do pré-hospitalar móvel.

Conclusão:  o sentido de ser enfermeira no SAMU é motivado por um novo sentido de vida que vai ao encontro da responsabilidade de um cuidado humano, integral e, sobretudo, ético.

Descritores:
Existencialismo; Enfermeiros; Pesquisa Qualitativa; Serviços Médico de Emergência

ABSTRACT

Objective:  to understand the meaning of being a mobile pre-hospital care nurse.

Method:  a qualitative study with a comprehensive approach, based on the theoretical analysis of Viktor Frankl, conducted by phenomenological interview with 11 nurses working in Decentralized Bases of an Emergency Mobile Service (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência - SAMU) of the Northeast Microregion, in Bahia, from February to June 2024. To understand the phenomenon, Vieta’s Humanistic analysis was used, called triadic configuration (humanist-existential-personalist).

Results:  four thematic categories emerged: Being a nurse in SAMU is to experience the decision-making process and suffering in care relationships; Being a nurse in SAMU is to achieve the realization of Franklian values; Being a nurse in the SAMU enables the realization of life purposes and discovering the meaning of life. The facets of the phenomenon allowed professionals to face feelings of anguish, fear, suffering and transcendence motivated by pleasure and gratitude in caring for the user in the mobile pre-hospital setting.

Conclusion:  the meaning of being a nurse in SAMU is driven by a new sense of life that aligns with the responsibility of providing human, comprehensive, and, above all, ethical care.

Descriptors:
Existentialism; Nurses; Qualitative research; Emergency medical services

RESUMEN

Objetivo:  comprender el significado de ser Enfermera de Atención Prehospitalaria Móvil.

Método:  estudio cualitativo con enfoque comprensivo, basado en el análisis teórico de Viktor Frankl. Se realizó a través de una entrevista fenomenológica con 11 enfermeros que actúan en Bases Descentralizadas del Servicio de Atención Móvil de Urgencia (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência - SAMU) de la Microrregión Nordeste, en Bahía, no período de fiebre a junio de 2024. Para comprender el fenómeno se utilizó el análisis humanista de Vieta, llamado configuración triádica (humanista-existencial-personalista).

Resultados:  surgieron cuatro categorías temáticas: Ser Enfermero en el SAMU significa vivenciar el proceso de toma de decisiones y el sufrimiento en las relaciones de cuidado; Ser enfermera en SAMU significa cumplir con la realización de los valores Franklinianos; Ser enfermera en SAMU permite alcanzar metas de vida y encontrarle sentido a la vida. Las facetas del fenómeno permitieron a los profesionales encontrarse con sentimientos de angustia, miedo, sufrimiento y trascendencia motivados por el placer y la gratitud al atender a los usuarios en el ámbito prehospitalario móvil.

Conclusión:  el sentido de ser enfermera en el SAMU está motivado por un nuevo sentido de vida que va en contra de la responsabilidad del cuidado humano, integral y sobre todo ético.

Descriptores:
Existencialismo; Enfermeros; Investigación Cualitativa; Servicios médicos de emergencia

INTRODUÇÃO

O SAMU 192 compõe a Rede de Atenção às Urgências no Brasil, correspondendo ao Atendimento Pré-Hospitalar Móvel (APHM), e se configura como um primeiro atendimento a diversos agravos agudos, que ocorre em cenários distintos e concorre com a necessidade de desenvolvimento, entre os profissionais de conhecimentos, habilidades e comportamentos ágeis para a condução da situação de emergência1.

Situações vivenciadas pelas enfermeiras do APHM, tais como: a exposição em local público, a falta de apoio da comunidade durante o atendimento, bem como situações laborais que predispõem ao estresse, como trabalhar em ambiente insalubre, podem suscitar sentimentos de medo e angústia que se contrapõem aos sentimentos de prazer e a gratidão manifestados durante a prática de cuidado2.

Nesse cenário, a atuação da enfermeira no APHM pode proporcionar um esgotamento profissional em situações imprevisíveis que envolvem tensão, pois mesmo com o preparo para um agir seguro durante o socorro, emerge o fenômeno de sofrimento devido aos sentimentos de perda, impotência e frustração durante o atendimento3,4.

Ciente que decisões cotidianas são tomadas nessas circunstâncias, torna-se imperioso que as enfermeiras estejam preparadas para lidar com situações diversas que podem ser geradoras de conflitos. Faz-se necessário, ainda, a busca do sentido para as ações humanas, que, para Viktor Frankl, faz parte do encontro com as experiências de vida, de forma singular, o que pode favorecer o sentido de cuidar do outro com a proposta da autotranscensdência como característica de um indivíduo capaz de ir além de seus limites com expansão de identidade e capacidade de mudança de realidade5.

Segundo Viktor Frankl, os valores criativos, vivenciais e atitudinais são propulsores para o encontro com os sentidos. Os valores criativos se manifestam através de atividades próprias do trabalho. Os valores vivenciais acontecem no ato de receber, seja o afeto, o amor ou a contemplação da natureza. Já os valores atitudinais correspondem à atitude tomada diante do sofrimento inevitável (dor, culpa e morte) (6.

Um estudo fenomenológico desvelou, ainda, a existência de relações indiretas no mundo vida do APHM que favorecem um distanciamento das relações eu-tu, eu-nós e a manutenção de um espaço com pouco diálogo, rompimento da cooperação e criatividade profissional7.

Por entender que Viktor Frankl apresenta questões congruentes relacionadas à busca de sentido da vida e que o engajamento do indivíduo na sua relação com o mundo por valores significados e sentidos pode desvelar respostas para lidar com os desafios e o vazio existencial, vivenciados no cotidiano do APHM, a pesquisa se torna propositiva e contemporânea para ressignificar a assistência da enfermeira prestada aos usuários em situação de urgência e emergência.

Tendo em vista a necessidade de avanço no que concerne à temática, ressalta-se a importância de aprofundar a discussão sobre as questões existenciais envolvidas nas relações de cuidado e desafios vivenciados no mundo do APHM, com extensão para a ampliação de pesquisas na área da enfermagem, propondo uma prática qualificada, mais sensível, humana e responsável.

Diante dessas considerações, o objetivo deste estudo é compreender o sentido de ser enfermeira do Atendimento Pré-Hospitalar Móvel.

MÉTODO

Estudo de natureza qualitativa com abordagem compreensiva fundamentada na análise teórica de Viktor Frankl. Considerou-se as recomendações do Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research (COREQ)8 na estruturação e organização da pesquisa. No entanto, a escrita foi alinhada ao procedimento teórico-metodológico da análise triádica9, a qual norteia a descrição do participante. O estudo faz parte de uma dissertação de mestrado intitulada “Sentido de ser enfermeira no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência”, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem e Saúde da Universidade Federal da Bahia.

A Análise Existencial ou Logoterapia proposta por Victor Frankl é uma terapia centrada no sentido da vida e se baseia na busca do sentido através do contato que o ser humano faz com o ambiente em que vivencia às suas experiências5. Aborda “a autotranscendência correlacionada com uma vontade de sentido, que possibilita ao homem um reconhecimento de si mesmo10”.

Participaram da pesquisa 11 enfermeiras, abordadas por conveniência, atuantes no SAMU 192 em Bases Descentralizadas da Microrregião Nordeste, na Bahia, estrutura que funciona 24 horas, garantindo o acesso da população à escuta médica atrelada a uma Central de Regulação das Urgências (CRU). Os critérios de inclusão foram: ser enfermeira da intervenção há, pelo menos, um ano no SAMU, e como exclusão: ser enfermeira com atuação em cargos administrativos ou estar afastada do serviço por motivos diversos.

A aproximação com as possíveis participantes ocorreu através do contato prévio com os Responsáveis Técnicos das Bases Descentralizadas através de ligação telefônica e de visita in loco realizada pela pesquisadora responsável, enfermeira em formação de mestrado. Durante as visitas, foram apresentados os objetivos e relevância da pesquisa, e o agendamento das entrevistas ocorreu conforme a disponibilidade dos profissionais. Do total de 25 membros, somente 14 demonstraram interesse em participar do estudo e três, por motivo de férias, não participaram.

A coleta de dados ocorreu no mês de fevereiro a junho de 2024 através de uma entrevista fenomenológica com diálogo aberto que permite a apreensão do fenômeno por parte de quem vivencia, proporcionando um encontro empático em ambiente reservado e horário definido pelas participantes, conduzida pela pesquisadora e primeira autora deste artigo, com duração média de uma hora.

Utilizou-se um roteiro para entrevista, elaborado pela pesquisadora principal do estudo, composto por questões referentes à caracterização das participantes (sexo, idade, tempo de atuação no serviço APHM, carga horária semanal e quantidade de vínculos empregatícios), uma questão de aproximação: para você, o que é ser enfermeira do SAMU? E duas questões norteadoras: para você, o que significa ser enfermeira atuando no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência? e Como você vivencia situações geradoras de sofrimento nos atendimentos pré-hospitalar móvel de urgência?

O instrumento foi testado previamente com uma enfermeira com expertise na área do APHM atuante há mais de dez anos em um dos serviços, definido como local de pesquisa e que atualmente está na gestão e assistência. A saturação de dados foi um critério utilizado para a finalização da coleta de dados11.

Utilizou-se a análise Humanística de Vieta9, denominada configuração triádica (humanista-existencial-personalista) com o propósito de desvelar o fenômeno em estudo. Essa análise é composta pelos seguintes passos: 1) Leitura atenta do conteúdo total, para apreensão do sentido global; 2) Releitura do texto com vistas à identificação de unidades de significado; 3) Identificação e classificação dos aspectos que apresentam convergências de conteúdo para o agrupamento das unidades de significado; 4) Agrupamento das locuções ou dos seus significados em categorias; 5) Apresentação destes agrupamentos em quadros representativos das sínteses dos resultados; e 6) Análise compreensiva dos dados com interpretação do conteúdo fundamentado no referencial teórico.

Para tanto, os dados foram organizados em quadros no Microsoft Word 2010 e Excel, e partir da leitura cuidadosa e seleção do material, ocorreu a análise dos dados mediante a compreensão, interpretação e articulação dos conteúdos temáticos obtidos com o referencial teórico filosófico de Víktor Frankl12.

Na pesquisa, considerou-se os aspectos éticos, conforme Resolução 466 de 2012. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem da Universidade Federal da Bahia sob número de Parecer nº 6.563.096 Certificado de Apresentação de Apreciação Ética: 76199023.6.0000.5531. Todas as participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Para garantir o sigilo das informações e anonimato quanto aos dados coletados, as depoentes foram identificadas com codinomes de flores: Cravo, Lírio, Rosa, Violeta, Flor de Lótus, Girassol, Jasmim, Papoula, Magnólia, Tulipa, Flor de Maio, expressando os sentidos e significados da vivência como enfermeira do SAMU 192.

RESULTADOS

Das 11 participantes, nove (73,7%) eram do sexo feminino e duas (26,3%) do sexo masculino, com faixa etária variando entre 22 e 55 anos; com tempo de exercício profissional de um a 19 anos e tempo de atuação no APHM entre um e 11 anos. Dentre as participantes, oito (65%) expressaram ter mais de um vínculo empregatício, a maioria cumprindo carga horária de trabalho de 36 horas semanais. Por haver o predomínio do sexo feminino, optou-se pela nomenclatura no texto de termos no feminino, como enfermeira, para a identificação das participantes do estudo.

Da análise frankliana, interpretação e compreensão dos dados foi possível desvelar o sentido de ser enfermeira no Atendimento Pré-hospitalar Móvel, fazendo emergir três categorias temáticas: Ser Enfermeira no SAMU é vivenciar o processo decisório e sofrimento nas relações de cuidado; Ser Enfermeira no SAMU é concretizar a realização de valores franklianos; Ser enfermeira no SAMU possibilita a realização de propósitos de enfermeira vida e de encontro de sentido da vida

Ser enfermeira no SAMU é vivenciar o processo decisório e sofrimento nas relações de cuidado

Nessa categoria, as enfermeiras expressam que a tomada de decisão imediata é fundamental para a garantia do socorro, em tempo oportuno, e com isso desvelam que também utilizam os fundamentos dos protocolos institucionais na perspectiva de realizarem o processo decisório mais assertivo perante a realidade encontrada.

Têm situações que assim, que realmente me [...], mas eu respiro fundo porque aquela vítima ela precisa de mim e eu tenho pouco tempo para agir! (Rosa)

Então, assim, eu já tenho um familiar que está ali em desespero, eu já tenho outras pessoas que esperam muito da gente, porque quando o familiar ele vê o SAMU chegar, ele diz: “Graças a Deus” o SAMU chegou! (Rosa)

O que eu tenho [ ...] seguir os protocolos, para que possa ter um prognóstico bom, evitar sequelas ter uma resposta […] mas eu tento, sabe às vezes eu me coloco no lugar daquela pessoa e mantenho o meu profissionalismo e também tento acolher que muitas vezes são mães que estão sozinhas em um parto prematuro. (Rosa)

As situações extremas e estressoras provocam sentimento de sofrimento e angústia que permeiam a prática de cuidado, pois estas estão atreladas a uma responsabilidade profissional de viabilizar condições para a manutenção da vida mesmo em situações nas quais estas profissionais não conseguem intervir.

Então, quando se fala de sofrimento, tem diversos sofrimentos né? Tem o sofrimento de familiares que a gente vai numa ocorrência, e [...] né? Quando a gente vai numa cena e não consegue atingir realmente o resultado que era de sair dali, né? ...Nem todas as ocorrências a gente sai com resultado positivo né? Principalmente traumas que a gente chega lá e o paciente já está em óbito, ou devido a algumas manobras que não foram bem-sucedidas, então, pra mim esse é o maior sofrimento [...]. (Lírio)

Sim. É eu acho que não só comigo, né? Com a maioria das pessoas, dos profissionais que trabalham no SAMU. Vivenciar uma situação com algum familiar nosso né? E a gente [...] É como se fosse com a gente mesmo, né? A gente fica muito abalado, né? Uma situação que, na maioria das vezes, é de saúde pública, né? [...] A gente sofre também, sofremos. (Flor de Lótus)

Ah eu fico sofrendo em questão de [...], a parte de idoso! É (pensando) a gente fica abatida demais. (Magnólia)

Porque geralmente quando, alguma situação de sofrimento tem um ambiente, muito desesperado, um ambiente que se a gente se envolver com o ambiente a gente se atrapalha no procedimento. Eu sou uma pessoa que viajo muito, eu entro em crises existenciais e aí, o sofrimento das pessoas também me toca. (Flor de Maio)

Ser enfermeira no SAMU é concretizar a realização de valores Franklianos

As participantes expressam os valores atitudinais, demonstrando a capacidade de transformar uma situação crítica de agravo à saúde em alívio, socorro, ajuda e solicitude.

E você saber que você conseguiu de alguma forma aliviar o sofrimento de uma pessoa, que você conseguiu ajudar a salvar uma vida, né? Eu falo é no sentido que é uma equipe, é o trabalho conjunto de uma equipe é [...] juntos, né? É, essa [...] essa oportunidade que o serviço dá a gente, da gente de dar o nosso melhor. Reunindo esforços e atuação em salvar uma vida não [tem] dinheiro que pague isso, é muito gratificante. (Rosa)

Primeiramente eu gosto muito dessa área e realmente por ver que, [...] o SAMU, ele nos traz, pode nos trazer, realmente situações em que podemos ajudar de fato o próximo, né? É [...] pode nos trazer um resultado positivo, satisfatório na sobrevida de alguém. Então pra mim, isso daí, realmente não tem preço. (Papoula)

Não é só a questão de ser técnica, de saber os procedimentos, é de você tomar a atitude, de você se posicionar. Então, né? (Flor de Lótus)

Desvelam também valores vivenciais na sua prática cotidiana, oriundos da sua experiência com o outro, que repara o sofrimento e traduz o que pode receber e sentir na relação de cuidado em situação de emergência, como observado nos depoimentos.

É, mas também nos traz um conforto muito grande, saber que muitos dos nossos procedimentos é [...] nos trouxe. (Papoula)

Eu procuro buscar minha religiosidade. Estar mais alinhada com meus valores. E procuro um lazer. Estar com a minha família desopilar um pouco do que é o serviço pré-hospitalar. (Tulipa)

E teve algumas situações que eu fiquei assim, extremamente emocionada porque [...] principalmente, quando envolve criança, vulnerabilidade. (Rosa)

Os valores criativos foram expressados através das suas ações e atos oriundos do seu trabalho diário que agrega a sua atuação junto à equipe do SAMU 192.

[...] porque eu tenho que ter raciocínio lógico, eu tenho que ser rápida, eu tenho que ser precisa. Tentar estabilizar aquele paciente o máximo, assim que eu puder, e levar ele pra uma unidade de suporte que atenda às suas necessidades [...] E eu tenho que saber, imaginar, tentar ali pelas causas e pelas causas sintomas, estado do paciente de que forma eu vou tratar o paciente. (Rosa)

Tenho orgulho de participar do serviço! [...] inicialmente tinha uma tendência a não seguir a área emergencial, mas, […], por oportunidade comecei a trabalhar primeiramente na área de emergência e logo depois no serviço do SAMU. (Cravo)

Para mim, ser enfermeira do SAMU [...] é fazer o melhor, acolher as vítimas, é ter sensibilidade de entender que não, não estamos diante só de uma vítima, mas de um ser humano com todas as suas questões da vivência humana. (Tulipa)

Ser enfermeira no SAMU possibilita a realização de propósitos de vida e de encontro de sentido da vida

O encontro de um novo sentido foi expresso nos discursos das participantes, ressignificando o agir no cenário do SAMU.

Eu encontro no SAMU todos os aspectos que eu procurei quando escolhi a minha profissão. Então, assim, a gente tem que dar o nosso [...] eu dou o meu melhor, coloco a minha cabeça no travesseiro e descanso em paz, porque eu faço o meu melhor. (Rosa)

Oh! É [...] eu já atuo no SAMU já há quatro anos. É uma experiência de vida, né? Eu já fazia parte do serviço numa outra função que era técnico de enfermagem, e estar atuando como enfermeiro hoje é uma realização de um sonho né? Eu consigo desenvolver um trabalho e consigo, é [...] realizar as expectativas de vida que eu tenho, né? Que eu tive. Que eu tenho. E que eu vou construindo a cada dia. (Girassol)

Eu sempre trabalhei na área de saúde, né? Sempre me identifiquei com urgência e emergência e achava que o SAMU seria assim, igual ao hospital, né? Bem parecido até. Mas quando eu entrei no serviço eu vi que é totalmente diferente, né? Eu acho [...], isso me realiza. Estar no SAMU no serviço é realizador pra mim. (Flor de Lótus)

DISCUSSÕES

À luz da análise existencial de Viktor Frankl, percebe-se que as enfermeiras refletem o sofrimento perante o vivenciado pelo outro, a necessidade de estar presente e se responsabilizar, a reparação de si em situações estressoras, a busca de princípios e valores, além da realização pessoal.

As enfermeiras do SAMU 192 lidam com conflitos no trabalho, por vezes, atribuindo às questões de relacionamentos com demais profissionais do serviço, gestores e familiares das pessoas sob cuidado, que dificultam a decisão e levam a sentimentos negativos de dor e tristeza13.

Quando não há uma resolução prudente que agregue o respeito aos valores, deveres e responsabilidades imersas no processo decisório, pode-se vivenciar um vazio existencial através do sentimento de sofrimento, expressado como frustração, como compreendido nos depoimentos.

Estudo realizado no Irã sobre gestão de sofrimento psicológico em profissionais que atuam no serviço pré-hospitalar móvel aponta que a responsabilidade, com o foco em salvar vidas, é consoante com o comprometimento do dever, altruísmo e exercício dos princípios éticos durante o exercício profissional (14.

Ciente que a atuação no APHM é potencializadora de situações estressoras, devido aos diversos cenários, e que podem interferir na realização de um cuidar seguro, deve-se considerar que o conhecimento empírico, o saber técnico-científico, as experiências vivenciadas no cotidiano, a sensibilidade moral e o dinamismo, ao experienciar conflitos na prática assistencial, contribuem para a tomada de decisão mais assertiva, ressignificando as práticas de cuidado15.

Para a Análise Existencial, a pessoa tem dentro de si uma vocação para a liberdade e, enquanto, ser consciente, pode tomar as suas próprias decisões, porém assumindo as responsabilidades pelas consequências destas12. As enfermeiras, ao utilizarem a sua liberdade de trabalhar no SAMU, decidem assumir ativamente a luta pela pessoa socorrida, de forma a significar o sofrimento sendo reconduzidas ao encontro de sua própria totalidade como ser ativo e produtoras de cuidado.

As enfermeiras ainda desvelam que a sua prática do cuidar está associada ao reconhecimento da pessoa de forma holística e, com isso, mesmo em situações de criticidade, é relevante garantir esse cuidado de forma individualizada e atento às necessidades da pessoa, porém, situações de atuação inseguras inviabilizam uma terapêutica adequada e fazem refletir sobre as suas competências, os seus valores e deveres profissionais7,16.

Nesta perspectiva, o profissional, ao vivenciar situações conflitantes sem a identificação das questões éticas e morais que permeiam a sua prática assistencial, pode se deparar com contextos desafiadoras potencializando o surgimento de um sofrimento moral, já que um processo decisório equivocado pode implicar a qualidade da assistência13. No entanto, por serem motivadas por um atendimento humanizado transcendendo a atuação técnica, as enfermeiras do estudo têm a compreensão de que as suas condutas devem ser benéficas à pessoa.

Em um espaço desafiador de cuidado, restrito e suprido por procedimentos técnicos- invasivos para manutenção a vida é sentida a necessidade de uma prática baseada no respeito que reconheça o ser pessoa em situação de urgência e emergência, de forma a proporcionar uma assistência qualificada consoante com a obrigação moral de fazer o melhor para o ser cuidado (17.

Assim, estabelecer relações horizontais, com compartilhamento dos saberes e de forma colaborativa, é necessário para viabilizar a tomada de decisões éticas18. O ser humano, na sua existência com o outro, experiencia a motivação da responsabilidade e compromisso diante dos acontecimentos da vida19.

É intrínseco do ser humano a busca por um sentido na vida, porém o compromisso de se voltar para algo ou alguém é único para cada um, e não está associado a uma pretensão de encontrar prazer, já que o sentido da vida enquanto incondicional pode ser gerador de situações de sofrimento. Com isso, para a Logoterapia proposta por Frankl, vivenciar situações desafiadoras pode permitir um encontro de um novo sentido na vida20.

As enfermeiras que atuam no SAMU revelam sentimentos de realização pessoal e profissional, por estarem neste serviço, mesmo relatando que existem diversas circunstâncias limitadoras para a sua prática de cuidar. Na perspectiva Frankliana, o sofrimento provoca uma mudança de si quando faz sentido para quem está vivenciando uma situação inexorável6.

As experiências fazem parte da busca de sentido na vida, e este não está associado ao ter, mas ao ser enquanto pessoa, portanto, a busca de sentido é a razão pela qual impulsiona o homem nas suas ações no cotidiano de forma instintiva e, mediante a singularidade na busca pelo sentido da vida, a realização de algo ou a conquista de alguma coisa que é considerada importante para a pessoa, é que proporciona uma satisfação caracterizada com a vontade de sentido12.

As experiências das enfermeiras revelam uma relação na busca dos valores Franklianos, os quais permitem a superação de condições adversas e impulsionam sentidos dentre os quais se têm: os valores criativos, vivenciais e atitudinais. Os valores vivenciais têm uma relação com o encontro do sentido com o vivido 20 e as enfermeiras do estudo afirmam que nas cenas geradoras de sofrimento tentam realizar o cuidar da melhor forma possível, sem trazer prejuízos para a pessoa, ressignificando o seu fazer nas ocorrências, vivenciadas através do socorro expressado como uma atitude sensível e solidária.

Para os valores criativos, expressados na capacidade de produzir algo para o mundo6, o momento em que as profissionais relatam que, por se sentirem realizadas, exercem as suas condutas com base nos preceitos éticos legais, e com embasamento técnico científico, visam estratégias para o exercício laboral, desvelando a capacidade de contribuir durante a sua existência no SAMU.

No entanto, diante das necessidades de tomada de decisão em prol da pessoa a ser cuidada, exercem ainda no mundo do SAMU 192 os valores atitudinais, já que estes têm relação com a realização plena do indivíduo, transformando a situação adversa em realização pessoal21)., as quais expressam sentimentos de realização profissional por atuarem no serviço, contribuindo para aliviar o sofrimento da pessoa durante o atendimento.

As enfermeiras compreendem a responsabilidade que tem diante dos processos assistenciais e apresentam um despertar de consciência que possibilita um novo sentido de vida. O mundo do cuidado no SAMU permite entender a condição de responsabilidade e compromisso no momento de tomar decisões22.

Assim, o cotidiano da enfermeira que atua no SAMU 192 é marcado pela transcendência de um cuidado responsável que converge para uma prática que precisa ser fundamentada em conhecimento técnico-científico e atitudes humanísticas2. Ao se transformarem com a experiência no SAMU, traduzem nos depoimentos um reencontro como profissional desvelando satisfação pessoal e valorização do mundo do trabalho.

Como limitação, aponta-se que esse estudo foi desenvolvido num grupo específico que apresenta características similares para o agir profissional, o que pode contrapor de outras realidades de atendimento. Soma-se ainda a escassez de estudos sobre o fenômeno, o que pode implicar a comparação para ampliação dos resultados.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A cada encontro com as participantes do estudo foi possível desvelar as vivências de ser enfermeira num mundo adverso produtor de cuidados e de relações que intensificam valores, sentimentos e significados expressados.

As enfermeiras revelam que o SAMU 192 é um serviço complexo e marcado por fatores que provocam sentimentos de angústia, tristeza e sofrimento, e que ocasionam limitações para a sua prática do cuidar. Porém, mesmo diante dessas circunstâncias, expressam encontrar um novo sentido para a sua pratica profissional e sentem a satisfação e gratidão durante a realização do seu trabalho.

Contudo, é notório que as participantes do estudo vivenciam os valores Franklianos, por experenciar as situações adversas durante a prática do cuidar, assumir os processos decisórios fundamentados pelos preceitos, embasados na compreensão de atender às necessidades que envolvem a pessoa enquanto ser holístico. Os resultados desse estudo desvelam a precisão de realizar outras pesquisas sobre a temática que proporcionem reflexões sobre novas ações de cuidado da enfermeira, motivadas pelo respeito à vida, humanização e qualidade da assistência no cenário do SAMU.

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Editado por

  • Editor associado:
    Dayanna Machado Lemos
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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    08 Dez 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    10 Fev 2025
  • Aceito
    10 Set 2025
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