A avaliação da Pós-Graduação stricto sensu do Brasil completa 50 anos em 2026. Este complexo processo avaliativo consolidou o sistema nacional de pós-graduação e constitui um dos pilares da ciência brasileira.
A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) baliza a avaliação da Pós-Graduação, inclusive, por meio da análise da produção científica. Ocorre que a aferição da produção bibliográfica e da qualidade da disseminação do conhecimento científico produzido neste âmbito, em especial, dá-se por meio de canais considerados confiáveis como os periódicos científicos.
Embora a avaliação da produção científica da pós-graduação pela CAPES não seja equivalente a uma avaliação direta da qualidade dos canais de divulgação científica, na dinâmica do funcionamento da pós-graduação, é inegável que estes movimentos avaliativos estão entrelaçados. Isso é notório sob a constatação de que pesquisadores vinculados à pós-graduação no Brasil estavam condicionados a buscar os canais de divulgação dos produtos das suas investigações científicas considerando a estratificação “Qualis”, além da produtividade justificada por si só, que pode ser deletéria para a qualidade científica e facilita processos como o predatorismo editorial1.
Na sua concepção, o intuito do Qualis, em síntese, era agregar objetividade às métricas atribuídas a cada programa de pós-graduação, em uma avaliação quadrienal retroativa. Em paralelo, a lógica do Qualis estimulou muitos periódicos científicos a adequarem-se a diferentes critérios de qualidade editorial, na busca de se tornarem referência e terem maior visibilidade na área, e, consequentemente, ascensão na estratificação estabelecida por esta lógica.
Especificando o assunto na área de Enfermagem, entende-se que, falar do Qualis é, necessariamente, falar da história da própria Enfermagem como ciência. Isso porque, no ano em que o Qualis foi criado (1998), a área tinha 14 programas de pós-graduação distribuídos pouco simetricamente no Brasil. Hoje, 85 Programas estão em funcionamento e avançou-se na distribuição geográfica. Embora não seja necessariamente uma causa, esse crescimento expressivo trouxe consigo uma questão que não pode ser ignorada: em paralelo ao avanço da expansão da distribuição e acesso à Pós-Graduação em Enfermagem, há necessidade de que os processos de monitoramento dos Programas e da sua produção científica avancem, incluindo perspectivas multidimensionais de avaliação e foco em impacto social concreto.
Conforme dados apresentados no documento da área da Enfermagem, ao comparar o quantitativo de artigos A1 entre 2019 e 2022, observou-se um crescimento de 33,6%, demonstrando a evolução neste indicador. Porém, verificou-se uma tendência de crescimento de publicação de artigos em periódicos avaliados por outras Áreas, que utilizaram indicadores diversos aos da Enfermagem, o que poderá implicar em redução de indicadores bibliométricos da Enfermagem brasileira2. Tal fato denota a necessidade de adequação para novos parâmetros.
A despeito de se constituir como uma estratégia multifacetada, o sistema Qualis Periódicos mostrou-se aquém para avaliar a complexidade da produção científica e bibliográfica da Enfermagem. Pautar a avaliação unicamente em indicadores bibliométricos mundialmente reconhecidos, usualmente provenientes de bases de dados consolidadas, a exemplo do Journal Impact Factor (Web of Science), o CiteScore (SCOPUS), índice H e SJR (Scimago Journal & Country Rank) é insuficiente. Contudo, embora sejam mecanismos que sob determinado prisma interpretativo induzem o produtivismo acadêmico1, são medidas que agregam objetividade na proposição de rankings em diferentes áreas de conhecimento científico e favorecem o planejamento editorial3.
Diante do cenário exposto, o principal desafio consistia em encontrar um método que não apenas refletisse a formação profissional de alto nível, expresso (em parte) na qualidade das publicações, mas também considerasse a diversidade editorial existente e os impactos específicos que a área pretende alcançar nos âmbitos nacional e internacional.
Entre as críticas ao Qualis Referência, destacava-se a dificuldade de diferenciar adequadamente os programas, bem como a utilização de indicadores que não asseguravam, de forma robusta, a qualidade dos periódicos, a exemplo do índice H do Google Scholar. Tais limitações apontavam para a necessidade de incluir análise qualitativa da produção, além de seguir a consideração de outras métricas para os veículos, como o fator de impacto e percentis JCR, Scopus e de outras bases específicas da Enfermagem e de que a área precisava dar ênfase a divulgação de artigos em periódicos de Enfermagem, considerando o perfil da produção da área.
Para o ciclo avaliativo 2025-2028, a CAPES substituiu o sistema Qualis Periódicos pela “Classificação de Artigos”. A principal mudança é o fim da nota fixa para a Revista científica, passando a ser avaliado o impacto individual de cada artigo por meio de indicadores bibliométricos dos periódicos ou análise qualitativa do artigo, realizada pela própria área. A nova classificação utilizará oito estratos e dará autonomia para que cada área de conhecimento escolha critérios quantitativos, qualitativos ou mistos para classificar a produção científica dos programas.
Na área de Enfermagem, a metodologia de avaliação vigente2 adota o conceito “estrato”, explicitamente distribuído em oito níveis (A1 - A8), além da categoria de “não classificado”. A avaliação buscará ênfase numa visão sistêmica da produção científica, contemplada por: indicadores bibliométricos consolidados dos canais de divulgação, bases de dados/fontes de indexação dos periódicos científicos, bem como, índice de citação e altimetria e análise qualitativa dos trabalhos publicados, estes dois últimos avaliados a posteriori. Em outras palavras, o estrato passa a ser do produto/publicação , e não necessariamente (embora indiretamente) do seu canal de divulgação .
Ressalta-se, ainda, que a área apresentou avanço significativo ao considerar bases de dados/fontes de indexação específicas da Enfermagem. Isso valoriza a área e colabora para proporcionar maior visibilidade às nossas produções e também aos canais brasileiros de disseminação do conhecimento na área.
Destacamos que, para definição dos critérios da estratificação para avaliação no quadriênio 2025-20282, a comissão tomou como base a produção científica da área no quadriênio 2017-2020 e do biênio 2021-2022. As bases e os indicadores bibliométricos utilizados na definição dos critérios pela área de Enfermagem foram: SCOPUS (CiteScore); CLARIVATE (Fator de Impacto - Journal Citation Reports - JCR); Medline/Pubmed; SciELO; Rev@Enf; LILACS; BDEnf; CINAHL; RIC-CUIDEn e Latindex
Foram realizadas 12 simulações com diferentes combinações de parâmetros, permitindo a análise da capacidade discriminatória entre distintos níveis de desenvolvimento dos programas, da incorporação da interdisciplinaridade, da valorização da área de Enfermagem e de áreas afins, bem como da indução à internacionalização da área, sem prejuízo ou desvalorização da produção nacional. Ademais, acredita-se que neste novo movimento a área recupera uma tendência de avaliação que foi desestruturada pelo Qualis Referência. Neste processo, destacamos que:
Ao realizar a simulação da estratificação da produção utilizando os indicadores de avaliação do quadriênio 2025-2028, verifica-se que os critérios atuais valorizam a natureza transversal, complexa e integrada da produção de conhecimento da Enfermagem. Ressaltamos que no estrato A1, 11% da produção foi publicada em periódicos que não são da enfermagem e 14% da enfermagem. No estrato A2, 22,6% da produção foi publicada em periódicos que não são da enfermagem e apenas 4,4% em periódicos da área de enfermagem. No estrato A3, 19,2% da produção foi publicada em periódicos que não são da enfermagem e apenas 6,3% em periódicos da área de enfermagem. No estrato A4, 25,7% da produção foi publicada em periódicos que não são da enfermagem e apenas 7,0% em periódicos da área de enfermagem.
No geral, 12,4% da produção está em A1 e A2, 56,1% da produção nos estratos A1 a A4, sendo a maior concentração (16,7%) em A4; 10,0% em B1, 6,0% em B2, 6,6% em B3 e 9,1% em B4. Logo, os critérios adotados permitem discriminação entre os programas em seus diversos estágios de evolução, objetos de nossa avaliação.
Será adotado adicionalmente o procedimento “2” proposto pela CAPES, em que será realizada a classificação do artigo por indicadores bibliométricos diretos do artigo (índice de citação e altimetria, para a análise quantitativa).
Para além dos critérios estabelecidos, no documento de área2 é explicitamente manifestado o incentivo da participação dos docentes e discentes dos programas em projetos integradores, interdisciplinares, e que no itinerário formativo os discentes de Mestrado e Doutorado tenham experiências de aprendizagem, produção e atividades de extensão em diferentes áreas do conhecimento. Logo, é evidente o cuidado e valorização das práticas interdisciplinares como princípio para formação de qualidade do mestre e doutor, impacto científico da enfermagem, inovações tecnológicas, qualificação da assistência em saúde e aprimoramento de políticas públicas. Estes elementos precisarão cada vez mais constar na produção bibliográfica, inclusive, de forma concreta.
A Enfermagem busca tornar o conhecimento científico abrangente, de forma a contribuir com a construção do bem-estar humano de indivíduos, grupos e populações, fortalecendo o Sistema Único de Saúde. Reafirmando a Enfermagem enquanto ciência, reconhece sua especificidade disciplinar como ramo do conhecimento, e, ao mesmo tempo, ressalta-se a importância da interdisciplinaridade, considerando os fenômenos complexos com os quais a Enfermagem trabalha e a necessidade da disposição de compartilhamentos teóricos, conceituais e metodológicos com outras áreas do conhecimento.
Mais do que uma mudança de métricas, está em curso uma redefinição de valores. E, nesse processo, a Enfermagem é chamada a protagonizar não apenas a produção do conhecimento, mas também a reflexão crítica sobre como - e para quê - esse conhecimento é produzido e como é avaliado.
Referências bibliográficas
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