Resumo
Este estudo intitulado “Democracia e Feminismo: um diálogo entre Jane Addams e John Dewey” tem por objetivo desenvolver uma análise sobre o pragmatismo estadunidense, suas teses principais e, sobretudo investigar o papel das mulheres no desenvolvimento e sistematização dessa doutrina. O tema ‘democracia e feminismo’ emerge do diálogo fecundo entre a filósofa norte-americana Jane Addams (1860-1935) e o pragmatista Dewey (1852-1959). A pesquisa investigou a participação e contribuição de Jane Addams ao movimento pragmatista e discutiu o porquê desta participação não ser referenciada pela historiografia oficial. Busca-se analisar as confluências das ideias da filósofa ao pragmatismo social de John Dewey e sua aderência ao pragmatismo. Pretende-se aprofundar a compreensão sobre a concepção de democracia em John Dewey, entendida como modo de vida e articular tal concepção aos ideais feministas de Addams. A nossa hipótese de trabalho consiste em argumentar a favor da ideia que tanto a democracia quanto o feminismo convergiram para a construção do pensamento pragmatista e que a presença intelectual das mulheres neste movimento foi de suma importância para o prestígio e a notoriedade que ganhou esta corrente filosófica na primeira metade do século XX. Este legado concorreu para a emergência do movimento intelectual contemporâneo denominado de pragmatismo feminista.
Palavras-chave:
Pragmatismo; Feminismo; Democracia.
Abstract
This study, entitled "Democracy and Feminism: A Dialogue between Jane Addams and John Dewey," aims to develop an analysis of American pragmatism, its main theses, and, above all, to investigate the role of women in the development and systematization of this doctrine. The theme of "democracy and feminism" emerges from the fruitful dialogue between the American philosopher Jane Addams (1860-1935) and the pragmatist Dewey (1852-1959). The research investigated Jane Addams's participation and contribution to the pragmatist movement and discussed why this participation is not referenced in official historiography. The study seeks to analyze the confluences of the philosopher's ideas with John Dewey's social pragmatism and her adherence to pragmatism. The aim is to deepen the understanding of John Dewey's conception of democracy, understood as a way of life, and to articulate this conception with Addams's feminist ideals. Our working hypothesis is to argue that both democracy and feminism converged on the development of pragmatist thought and that the intellectual presence of women in this movement was crucial to the prestige and notoriety this philosophical movement gained in the first half of the 20th century. This legacy contributed to the emergence of the contemporary intellectual movement known as feminist pragmatism.
Keywords
Pragmatism; Feminism; Democracy.
Resumen
Este estudio titulado “Democracia y feminismo: un diálogo entre Jane Addams y John Dewey” tiene como objetivo desarrollar un análisis del pragmatismo estadounidense, sus principales tesis y, sobre todo, investigar el papel de la mujer en el desarrollo y sistematización de esta doctrina. El tema “democracia y feminismo” surge del fructífero diálogo entre la filósofa norteamericana Jane Addams (1860-1935) y el pragmático Dewey (1852-1959). El trabajo investigó la participación y contribución de Jane Addams al movimiento pragmatista y discutió por qué no se hacía referencia a esta participación en la historiografía oficial. El objetivo es analizar las confluencias de las ideas de la filósofa con el pragmatismo social de John Dewey y su adhesión al pragmatismo. El objetivo es profundizar la comprensión de la concepción de democracia de John Dewey, entendida como una forma de vida, y articular esta concepción con los ideales feministas de Addams. Nuestra hipótesis de trabajo consiste en argumentar a favor de la idea de que tanto la democracia como el feminismo convergieron hacia la construcción del pensamiento pragmatista y que la presencia intelectual de las mujeres en este movimiento fue de suma importancia para el prestigio y notoriedad que ganó esta corriente filosófica en la primera mitad del siglo XX. Este legado contribuyó al surgimiento del movimiento intelectual contemporáneo llamado pragmatismo feminista.
Palabras clave
Pragmatismo; Feminismo; Democracia.
Introdução
Na atualidade são diversas as abordagens pragmatistas presentes em várias áreas de pesquisas. É recorrente o tema da semiótica de Peirce, do humanismo de James, das reflexões epistemológicas, políticas e educacionais de John Dewey, bem como, de contribuições aos temas emergentes da filosofia, tais como, contingência, solidariedade, igualdade de gênero, muitos deles, obtidos pelo trabalho do neopragmatista Richard Rorty.
Sabe-que o pragmatismo enquanto movimento filosófico foi divulgado como sendo marcado apenas pela presença masculina. Com base nesta constatação, esta pesquisa foi desenvolvida no sentido de comprovar que diversas mulheres contribuíram para a construção e sistematização do movimento pragmatista.
No entanto, na história da filosofia não encontramos referências sobre pensadoras pragmatistas. Com esta abordagem inicial, indagamos como este movimento tão representativo da cultura estadunidense não contou oficialmente com a presença de mulheres na condição de filósofas, dialogando e produzindo conteúdo filosófico para a sistematização dessa corrente filosófica? Na verdade, o que vemos são referências aos pioneiros ou “pais” do pragmatismo.
Sabe-se sobre a origem do pragmatismo que, em fins do século XIX e início do século XX, mais precisamente, na década de 1870, um grupo de intelectuais de Cambridge, Massachusetts, conduzido por Peirce fundou o pragmatismo. Este grupo, de modo irônico, se autodenominou The Metaphysical Club ou o Clube Metafísico, que é uma referência crítica à metafísica clássica e uma tomada de posição em defesa da filosofia pragmática. O grupo incluía: Charles S. Peirce, William James, Oliver Wendell Holmes Jr, Nicholas Saint John Green, dentre outros. A intenção do Clube Metafísico foi apontar uma filosofia de base científica para enfrentar as ciladas do agnosticismo filosófico que se mantinha soberbo frente à metafísica tradicional (Menand, 2016).
O que se constata é ausência de referências intelectuais ou produções acadêmicas de mulheres filósofas sobre as temáticas do Clube Metafísico ou outras questões de alinhamento ao método pragmatista. Nesse sentido, considerando o contexto dos movimentos civis e sufragistas desse período, fomos pesquisar a participação das mulheres na condição de filósofas pragmatistas. Nossa intenção foi investigar o papel das mulheres no desenvolvimento e sistematização dessa doutrina, indagando sobre a ausência do gênero feminino na historiografia oficial desta tradição. Assim, o propósito do estudo foi buscar o resgate do pensamento de mulheres que foram influentes no desenvolvimento do pragmatismo americano, mas cujo trabalho subsequentemente quase desapareceu na história da filosofia.
Nesse sentido, a pesquisa concentrou-se em estudos sobre as mulheres da Universidade de Chicago (EUA), sobretudo o pensamento de Jane Addams. Considerando aproximação entre Addams e John Dewey procuramos analisar como se articulam as categorias democracia e feminismo numa abordagem pragmatista para, então, afirmamos o papel protagonista de Addams enquanto filósofa pragmatista. Todavia, em que pese as críticas aos demais pragmatistas desse período, o filósofo John Dewey foi um entusiasta da luta pelos direitos das mulheres.
Tendo como escopo este pano de fundo, nosso interesse foi aprofundar a compreensão sobre a concepção de democracia em John Dewey, entendida como modo de vida e articular tal concepção aos ideais feministas de Jane Addams. A nossa posição é argumentar a favor da ideia que tanto a democracia quanto o feminismo convergiram para a construção do pensamento pragmatista. Por fim, pretende-se elucidar e investigar o porquê de as filósofas pragmatistas terem tido suas contribuições ocultadas, retirando assim o protagonismo delas dentro pensamento filosófico pragmático, bem como, mostrar a influência e recepção do pragmatismo de John Dewey ao feminismo de Jane Addams.
O artigo foi estruturado, em um primeiro momento, com o desenvolvimento da reflexão sobre o chamado pragmatismo feminista. Trata-se de identificar no contexto da produção intelectual norte-americana a participação das mulheres tanto na vida acadêmica quanto na condição de ativistas de causas sociais que foram fundamentais na elaboração do conceito de vida democrática. Nesse sentido, será apresentada a contribuição da pensadora Jane Addams ao movimento pragmatista, sobretudo, o diálogo que a pensadora desenvolveu com John Dewey na explicitação do conceito de democracia. Em um segundo momento, o artigo procederá a uma articulação teórica entre feminismo, pragmatismo e democracia.
Pragmatismo Feminista
A filosofia deve assumir a reflexão quanto a expressão e o reconhecimento de uma ampla diversidade de experiências de gênero na produção intelectual desta área. Entretanto, nos currículos escolares e universitários podemos perceber uma lacuna quanto a participação das mulheres que se destacaram enquanto filósofas. Na maioria das vezes, faltam referências acerca do conhecimento da vida e obras de pensadoras, bem como, uma reduzida valorização das mulheres na vida acadêmica. Podemos dizer que a “especificidade” do feminino, na filosofia, foi totalmente descontextualizada, analítica e politicamente separada da constituição de classe, raça, etnia e outros eixos das relações de poder.
Segundo Carolina Araújo (2016) em pesquisas realizadas sobre a participação de mulheres na área de Filosofia, os dados são eloquentes: entre docentes e discentes da comunidade de pós-graduação em filosofia no Brasil, ou seja, apenas 27% são mulheres, sendo que a proporção de mulheres diminui em 48%, conforme se avança na carreira. Entretanto, nos últimos anos, a área de Filosofia vem adotando uma atitude mais receptiva às pesquisas e estudos sobre a situação das filósofas. A criação do GT de Gênero da ANPOF - Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia, em 2016, as redes de mulheres, as inúmeras publicações sobre a temática, são ações promissoras na luta pela representatividade das mulheres nesta área.
Essa tomada de posição de entidades acadêmicas decorre da certeza de que a história da filosofia não é nem nunca foi feita só de homens. Portanto, a filosofia está diante da exigência de incluir o debate sobre igualdade de gênero nos seus currículos, a fim de atender resoluções recentes do MEC, resultado da luta do movimento de mulheres e de conquistas registradas no Plano Nacional de Políticas para as Mulheres (Brasil, 2013).
Como se demonstra, este cenário vem mudando em virtude do papel que as pesquisadoras, cientistas e filósofas começam a assumir, seja pelo aprofundamento das discussões teóricas seja pelo engajamento nas lutas acadêmicas e sociais no Brasil contra as desigualdades de gênero. Em 2018, o livro Explosão Feminista, de Heloísa Buarque de Hollanda nos trouxe um panorama do avanço da pauta feminista no Brasil em várias frentes, como a cultural, política, acadêmica e artística.
Nesse sentido, o interesse de nossa pesquisa concentrou-se na configuração da corrente filosófica pragmatista para elucidar a importância da vigorosa participação de pensadoras que foram “esquecidas” pela história oficial da filosofia. Segundo Haubert (2022, p. 2) “Um sobrevoo rápido pela história[...] deixa claro que existiram mulheres envolvidas na articulação e no desenvolvimento do pragmatismo tanto no âmbito teórico quanto no âmbito prático, por meio do ativismo”.
Esta reflexão se ampara na constatação de que a história das mulheres na filosofia foi obscurecida por uma escrita da história do silêncio, uma história tanto de repressão quanto de esquecimento.
É certo que ao longo da história da filosofia foi construída uma ampla categorização de diferenciação humana no interior do discurso filosófico. Dentre essas distinções encontravam-se, sobretudo as divergências intelectuais entre mulheres, negros e “bárbaros”. Disso resultou uma longa tradição de ‘opressões epistêmicas’, segunda a qual aqueles que não se enquadravam no padrão ocidental de “racionalidade” acabaram sendo excluídos não apenas da filosofia, mas também de qualquer direito à participação política.
No entanto, o pragmatismo embora se coloque em oposição à filosofia canônica, manteve o padrão de uma “racionalidade” que não garantiu a equidade de gênero. Essa “racionalidade” unilateral e bifurcada traz como consequência a ‘opressão epistêmica’, termo aqui usado para se referir a exclusão danosa da participação de uma pessoa ou de um grupo de pessoas na aquisição, produção e transmissão de conhecimento, por conta de um preconceito estrutural de identidade.
Num esforço para enfrentar a chamada ‘opressão epistêmica’, trabalhos acadêmicos e históricos tentam recuperar e nos mostrar a influência da discussão feminista-pragmática na pauta das discussões filosóficas de seu tempo, e considerando que a história do pragmatismo é recente, achamos que isto pode ser o suficiente para que possamos facilmente resgatar e reconhecer na construção do pensamento pragmatista a presença de autoras, também protagonistas deste movimento filosófico, para além dos nomes masculinos formados por filósofos como Charles Sanders Peirce, William James, John Dewey, George Herbert Mead, dentre outros.
No final do século XX, com o ressurgimento do interesse pela tradição pragmatista americana foi possível identificar o interesse feminista pelo pragmatismo. Este interesse permitiu recuperar na história da filosofia a presença de mulheres pensadoras associadas aos ideais do pragmatismo. Dessa forma, em pesquisas recentes começa-se a investigar o papel das mulheres da Escola de Chicago (EUA). O trabalho dessas mulheres, muitas vezes ignorado pela história da filosofia tradicional, está sendo resgatado e reavaliado por pesquisadoras feministas. Esse esforço busca não apenas dar o devido reconhecimento a essas pensadoras, mas também demonstrar como o pragmatismo pode ser uma ferramenta poderosa para a teoria feminista e a crítica social. Seigfried (1991) produziu um vigoroso trabalho sobre as ligações entre o pragmatismo e o feminismo, defendendo que o “panteão branco e masculino do pragmatismo precisa de ser alargado de modo a incluir as contribuições das mulheres” (Seigfried, 1991, p. 8).
Podemos dizer que pragmatismo experimentou uma espécie de renascimento. O retorno ao pragmatismo foi acompanhado por um número crescente de filósofas e pensadoras feministas que acreditavam encontrar no pragmatismo uma abordagem cujo método fosse útil ao feminismo, uma vez que, a articulação teoria e prática, a crítica à filosofia de caráter dualista, às objeções as formas de hierarquização do conhecimento, a filosofia solidarista, dentre outros temas, estimularam as pesquisadoras da atualidade a questionarem onde estavam as mulheres dessa tradição.
Segundo Sullivan,
O pragmatismo é especialmente útil para o feminismo porque, longe de ser uma posição antiteórica que defende a praticidade de maneira simplista, a filosofia pragmatista enfatiza a relação dinâmica entre teoria e prática e, especialmente, o valor de cada uma para transformar a outra. Ele busca minar outras dicotomias também, incluindo aquelas entre corpo e mente, sujeito e objeto, fins e meios, natureza e cultura, porque tais divisões agudas erradicam as continuidades fluidas da experiência vivida. Vendo o conhecimento como uma ferramenta para enriquecer a experiência, o pragmatismo rejeita a busca pela certeza (Sullivan, 2007, p. 65).
O pragmatismo feminista surgiu em meados dos anos de 1990 e vem recebendo grande destaque na atualidade (Seigfried, 1991). Nesse sentido, faz-se necessário tecer conexões entre o feminismo, democracia e pragmatismo. Nossa intenção não é trazer as diversas categorizações do feminismo, mas apresentar em linhas gerais uma noção básica incorporada à nossa cultura, que foi identificar no feminismo um conceito que surge no século XIX, o qual se desenvolveu como movimento filosófico, social e político, cuja característica principal é a luta pela igualdade de gêneros. Quanto ao pragmatismo, são diversas as versões e caracterizações dessa corrente, entretanto em que pese essas distinções entre seus propositores, os pragmatistas têm em comum, dentre outras questões: a oposição às filosofias especulativas; uma revisão do empirismo; a superação da filosofia contemplativa pela racionalidade científica; a objeção ao ceticismo, bem como a formulação de uma nova concepção de verdade (Nascimento, 2017).
Nesse sentido, o feminismo utiliza e agrega conceitos centrais do pragmatismo, a exemplo de, concepção falibilista do conhecimento, pluralismo, democracia, experiência vivida, a filosofia pública, a igualdade de gênero e a ênfase nas questões sociais. Além disso, a ideia do ‘Ser’ das mulheres não é mais compreendido em termos estáveis ou permanentes. Em virtude disso, nas últimas décadas identificamos diversas produções intelectuais cujo objetivo é mostrar a interseção nas práticas metodológicas entre os dois movimentos e reconhecer sua complementaridade.
Neste esforço de investigação podemos afirmar que as mulheres pragmatistas trouxeram contribuições e reflexões para a formação do pensamento pragmático. Podemos ilustrar várias pensadoras, as quais citamos: Jane Addams (1860-1935), Mary Parker Follet (1868-1933), Charlotte Perkins Gilman (1860-1935), Ella Lyman Cabot (1866-1934), Emily Greene Balch (1867-1961), Kate Gordon (1878-1963), Lucy Sprague Mitchell (1878-1967), Anna Julia Cooper (1858-1954), Mary Whiton Calkins (1863-1930), Ella Flagg Young (1845-1918), Elsie Ripley Clapp (1882-1965) e Alice Chipman Dewey (1858-1927). Todas essas pensadoras e ativistas apresentam, em maior ou menor grau, características da filosofia pragmatista em suas teorias (Silveirinha, 2016).
Quanto à relação filosofia e gênero é preciso olhar para além da filosofia acadêmica para encontrar mulheres que foram filósofas sociais muito influentes. Como afirma Rorty (1994) a filosofia ficou restrita a uma área disciplinar, ou seja, à filosofia do especialista, aquela que esteve comprometida com sistemas teóricos que supostamente descrevem o mundo de modo racional por meio de uma concepção de verdade fundamentadora de toda a realidade. Em contrapartida, no lugar destes sistemas, Rorty propõe uma filosofia de cunho político-cultural comprometida com os desafios do gênero humano nos contextos contingentes de sua existência.
Fora desse contexto da filosofia disciplinar, é possível identificar que muitas mulheres foram parceiras significativas no desenvolvimento e na elaboração do pensamento pragmatista americano clássico. Uma análise histórica traz à luz a vida de filósofas e ativistas como Jane Addams, entre outras, que foram importantes no contexto de fundação e difusão do pragmatismo filosófico (Menand, 2016). Estas mulheres trouxeram novas dimensões que podem ser acrescidas ao pragmatismo, isto é, para a maioria delas as práticas pragmatistas poderiam contribuir para a inserção das mulheres em suas lutas por igualdades sociais e políticas.
O silenciamento imposto à produção das mulheres no campo da filosofia, além da naturalização da desigualdade de gênero, da manutenção de uma visão androcêntrica de mundo, representou a predominância de uma visão bastante restrita do exercício da filosofia. Nesse sentido, é preciso observar os movimentos civis aos quais as pragmatistas e os pragmatistas estiveram envolvidos, sobretudo, o estadunidense John Dewey. Há neste contexto uma importante conexão entre este filósofo e algumas pensadoras defensoras de direitos sociais, de lutas abolicionistas e sufragistas. Desse modo, o nosso interesse é refletir sobre o tema democracia e feminismo através do diálogo fecundo realizado entre a filósofa norte-americana Jane Addams e o pragmatista Dewey.
O estudo confirma a participação e contribuição de Jane Addams ao movimento pragmatista e discute o silenciamento desta participação no registro historiográfico dessa corrente filosófica. Nesse sentido, as confluências das ideias da filósofa Jane Addams ao pragmatismo social de John Dewey nos forneceram elementos para concluir sobre a articulação entre democracia e feminismo.
Jane Addams: democracia e feminismo
De início indagamos por que mulheres como Jane Addams, Charlotte Perkins Gilman, Jessie Taft, Florence Kelley, Sophonisba Breckenridge, Julia Abbott, Alice Hamilton, Lucy Sprague Mitchell, Julia Lathrop e tantas outras, na condição de pensadoras da Universidade de Chicago, com produções teóricas de bastante qualidade, desenvolvidas no período coincidente com o auge do pragmatismo filosófico, não obtiveram o justo reconhecimento intelectual?
Para refletir sobre estas questões, destacamos a contribuição de Jane Addams, que estava interessada na concepção teórica deweyana chamada de ‘unidade do conhecimento’, ou seja, na relação teoria e prática, para aplicar, de fato, o pensamento filosófico às questões do mundo da vida, sobretudo, às reivindicações das lutas cívicas de sua época, dentre elas, o voto feminino. Pragmatistas e mulheres ativistas concordavam que o filosofar deveria ser um processo ativo, tanto para modificar as realidades sociais quanto para transformar à própria filosofia. Concordavam que a democracia como modo de vida é, sobretudo, uma preocupação moral, pois não há de um lado a vida democrática, e de outro lado, a vida moral.
Através de suas reflexões, experiências e trabalhos efetivados na área do Serviço Social, Jane Addams se tornou uma autora bastante reconhecida em sua época, especialmente por abraçar temáticas como questões de gênero, raça, imigração, paz mundial e educação. Na medida em que se tornava uma autoridade com grande reconhecimento pelo protagonismo em políticas sociais, Addams era requisitada em diversas campanhas de cunho progressista nos EUA.
Addams foi uma militante a favor do voto feminino e do pacifismo, nessa luta ela pressionou sucessivos governos em defesa dos direitos das mulheres e das crianças. Em 1910, foi a primeira mulher a ocupar a presidência da Conferência Nacional de Assistência Social e, em 1915, presidiu o Congresso Internacional de Mulheres. Colaborou com a criação de diversas entidades da sociedade civil, dentre elas, a Liga Internacional de Mulheres pela Paz e Liberdade e a União Estadunidense de Liberdades Civis. Este esforço a favor da igualdade de gênero foi recompensado em 1920 com a aprovação da emenda constitucional pelo direito ao voto das mulheres. Por consequência do seu trabalho, foi reconhecida com o Prêmio Nobel da Paz, em 1931, convertendo-se na segunda mulher a ganhar este título. Addams faleceu em 21 de maio de 1935.
Com estas considerações, passemos ao diálogo intelectual de Jane Addams com John Dewey para investigar se de fato Addams foi uma filósofa pragmatista e quais as suas contribuições ao pensamento feminista pragmatista. Segundo Silverinha (2016) Dewey foi um dos pensadores mais imediatamente associados a essas mulheres invisíveis, tanto por ser próximo de algumas delas, mas sobretudo, porque ele as influenciou e recebeu influência delas.
Sabemos que mesmo sendo uma autora com temperamento pragmatista, ela não publicou nenhuma obra intitulada “Pragmatismo” como fez William James. Ou seja, não há em sua obra menção explícita ao pragmatismo acadêmico, entretanto, a sua produção teórica a coloca no centro do debate sobre a concepção de experiência democrática, a concepção educacional progressiva, as teses sobre a ideia de experiência e interação, a ideia de ampliação das oportunidades sociais e a denúncia às desigualdades de gênero. Nesse sentido, as propostas desenvolvidas por Dewey acerca da democracia como uma unidade comunicativa de associação, a ideia de democracia como constituída de múltiplas relações e interações, estão em sintonia com os pressupostos das teses desenvolvidas por Addams.
Como já destacamos, Dewey realizou diálogos importantes com mulheres filósofas da Universidade Chicago. Este fato pode revelar a participação feminina na sistematização e difusão do pragmatismo (Silveirinha, 2016). Dewey desenvolveu uma filosofia que advogou a unidade entre teoria e a prática, tinha um pensamento baseado na convicção de que “democracia é liberdade”, dedicando toda a sua vida às causas da liberdade, do direito à educação e propondo uma reconstrução da filosofia. Nesse sentido, reivindicou uma filosofia ativa, vigorosa, menos metafísica (Dewey, 1892, p. 9). O compromisso de Dewey com a democracia e com a unidade indissociável entre teoria e prática foi, sobremodo, evidente em sua carreira de reformador da educação.
As teorias e experimentos educacionais de Dewey tiveram um alcance global, suas teorias psicológicas produziram uma influência considerável nessa ciência, que na época estava se desenvolvendo e, seus escritos sobre teorias e práticas democráticas influenciaram profundamente os debates acadêmicos por décadas. Dewey desenvolveu visões extensas e frequentemente sistemáticas em ética, epistemologia, lógica, metafísica, estética (Nascimento, 2017).
Para preencher as lacunas que silenciam a participação das mulheres no campo da filosofia precisamos esclarecer como a filosofia de Dewey é abraçada pela filósofa estadunidense Jane Addams.
Jane Addams era socióloga, e juntamente com sua companheira afetiva Ellen Gates Starr (1859-1940) fundaram a Hull House. Foi em uma viagem que Addams descobriu sua vocação. Em Londres ela visitou o centro comunitário Toybee Hall e ali despertou seu interesse pela área do trabalho social e se dedicou a fundar uma instituição inspirada nesse centro comunitário (Menand, 2016).
A Hull House foi um dos primeiros assentamentos sociais na América do Norte, criada em 1889 um ano antes de ser fundada a Universidade de Chicago em 1890. Desde então a ideia de ‘ocupações’, enquanto instrumentos institucionais de inclusão social, tornaram-se a tônica dos escritos e ações práticas de intelectuais progressistas dos Estados Unidos e das demais regiões do mundo. Entre os anos de 1896 e 1904, Dewey organizou e dirigiu, na Universidade de Chicago, uma escola com o objetivo de assistir à formação de crianças e adolescentes, testar princípios da psicologia e da filosofia pragmática, além de verificar a viabilidade para implementação de uma proposta educacional fundada na unidade do pensamento, ou seja, na articulação entre pensamento e ação. Esta experiência possibilitou a apresentação de hipóteses sobre as reais condições do cotidiano escolar, enriquecidas pela colaboração de professores, alunos e da comunidade universitária.
Enquanto isso, a Hull House era uma casa abrigo, uma espécie de organização de desenvolvimento cultural e profissional que atendia mulheres, homens, trabalhadores, imigrantes, localizada na cidade de Chicago. Foi uma instituição dirigida por mulheres e tinha como objetivo a integração das pessoas em situação de vulnerabilidade social, inclusive, o acolhimento aos imigrantes. Pode-se dizer que enquanto a Hull House era um laboratório de sociologia, a Escola Dewey, como assim ficou conhecida, era um laboratório de filosofia (Menand 2016, p. 314). Como se observa, os dois pensadores partilham do mesmo projeto de assegurar instituições sociais com o objetivo de favorecer o aprendizado e a integração social, motivados pelos princípios da cidadania e da inclusão. Addams e Dewey compartilhavam uma visão semelhante de democracia e apoiavam-se mutuamente em suas abordagens (Westbrook, 2010, p. 28).
Addams é autora de uma dúzia de livros e mais de 500 artigos, reconhecida e elogiada amplamente por seus contemporâneos, John Dewey, William James, George Herbert Mead, dentre outros. O quase meio século em que ela viveu e trabalhou como líder do assentamento social de Chicago, deu-lhe a oportunidade de trazer seu compromisso de melhoria da vida social, com pautas do feminismo, da diversidade e da paz. Essas experiências forneceram a base para uma perspectiva filosófica envolvente. Addams via seu trabalho como um grande esforço epistemológico para produzir um conhecimento novo, isto é, uma mudança na compreensão do que seria vida cooperativa e democrática.
Segundo Silveirinha (2016) a Hull House seria um lugar para desenvolver e cultivar a interdependência entre as classes. Lá desenvolveram-se programas educacionais e culturais, de arte, música e esporte, numa tentativa de lidar e minorar os efeitos da pobreza. E viria também a constituir-se como uma instituição política.
Além desse papel social brilhante, esta instituição, foi uma espécie de berço do pragmatismo feminista, uma verdadeira fábrica de ideias, alcançadas através das trocas entre pensamentos concorrentes e convergentes desenvolvidos por experiências mediadoras de comunicação. Os princípios norteadores das instituições sociais, segundo Addams, deveria ser de uma filosofia solidarista. Por todas estas razões, Addams defendeu que:
A única coisa a recear no settlement é que ele perca a sua flexibilidade, o seu poder de adaptação rápida, a sua disponibilidade para mudar os seus métodos se o ambiente o exigir. Deve ser aberto à convicção e ter um profundo e permanente sentido de tolerância. Deve ser hospitaleiro e pronto para a experiência. Deve exigir dos seus moradores uma paciência científica na acumulação de fatos e a manutenção constante das suas empatias, como um dos melhores instrumentos para essa acumulação. Deve basear-se numa filosofia cujo fundamento está na solidariedade da raça humana, uma filosofia que não vacila quando a raça passa a ser representada por uma mulher bêbada ou por um garoto idiota. Os seus moradores têm de ser esvaziados de toda a vaidade de opinião e de toda a autoafirmação, e prontos para despertar e interpretar a opinião pública do seu bairro (Addams, 1910, p. 127).
Percebe-se a preocupação da pensadora com os marginalizados sociais, de maneira que seu humanismo descrito nessas recomendações é fundamentado no princípio da solidariedade humana, no respeito à diversidade e na inclusão social. Identificamos sua atualidade pela similaridade teórica com a metafilosofia proposta por Rorty (2005), na qual as questões filosóficas tradicionais deveriam ser redescritas, de tal forma que, a imaginação e a racionalidade não se excluíssem mutuamente. Dewey, em sua época, reivindicou uma nova experiência que deveria impedir o dogmatismo e o absolutismo. Assim, em um mundo marcado pela mudança, a tarefa constante e inevitável da inteligência seria fazer a mediação entre o passado e o futuro, para implantar propostas experimentais em vista do bem-estar comum (Nascimento, 2017).
Neste escopo, a filosofia de Addams combinou sensibilidades feministas com uma firmeza em direção à melhoria social por meio de esforços cooperativos. Embora fosse simpatizante e adepta às causas feministas, socialistas, ela recusava ser rotulada como tal. Addams compartilhava da ideia deweyana de "método de inteligência organizada”, no qual a democracia utiliza a informação contida na sociedade e delibera sobre as decisões mais favoráveis quanto aos assuntos de interesse público (Dewey, 1935). Addams também compartilha da ideia pragmática chamada de meliorismo que é a crença de que o mundo pode ser melhorado por meio do esforço e da ação humana consciente e deliberada.
De acordo com Silveirinha (2004) a interação entre Addams e Dewey fortaleceu o campo das ideias que se assentava na unidade teoria e prática, no meliorismo, na conjugação entre conhecimento e a ação, conceitos incorporados ao debate sobre feminismo. Pode-se dizer que as preocupações entre as abordagens feministas e o pragmatismo representaram um florescimento do próprio filosofar, pois esta corrente se colocava contra as teorizações abstratas e buscava o conhecimento proveniente das boas consequências práticas. O filosofar que se pretendia nesse diálogo entre pragmatistas e feministas teria que ter como fonte os problemas das experiências humanas em seus contextos contingentes da vida pública. A este respeito Muller escreveu:
Feministas e pragmáticos não acham que ter valores antecedentes à teorização que os explora seja um problema para um filosofar genuíno. Lutar por um maior e mais livre crescimento das mulheres, ou lutar por florescentes comunidades humanas, não parece de todo hostil a análises cuidadosas e lógicas dos tipos de preocupações gerais e relações ligadas aos problemas que tentamos resolver (Miller, 2013, p. 232).
Na urgência de reivindicar a contribuição das mulheres ao pragmatismo, Siegfried (1999) afirma que esses autores considerados fundadores do pragmatismo representaram uma falsa identidade dos pragmatistas pioneiros, pois, sabe-se que houve uma marginalização e silenciamento da obra de mulheres pragmatistas. Assim, hoje se busca conhecer as razões e o ocultamento dessas filósofas.
Mesmo observando que o pragmatismo clássico não se permitiu ser visto pela ótica das mulheres, façamos uma ressalva quanto a posição de Dewey. Em um texto publicado no ano de 1911, intitulado Is Coeducation Harmful for Girls? (A Coeducação é prejudicial para as meninas?), Dewey foi um forte defensor da coeducação. Um dos principais pontos que Dewey menciona é que o homem e a mulher precisam aprender a crescer socialmente para que possam coexistir na sociedade. O filósofo defendeu fortemente o direito das mulheres ao acesso à educação em todos os níveis, inclusive, no ensino superior. Foi defensor das mulheres tanto na sua obra filosófica quanto no engajamento da vida prática. Seu trabalho é marcado por uma ética comprometida com a experiência do “feminino” considerando dimensão fundamental para nossa vida moral. Portanto, a nosso ver, a ética de Dewey é um recurso útil para escritoras feministas.
Para o estudioso do pragmatismo Scott Pratt (2002), o pragmatismo recebe uma renovação da diversidade quando Addams passa a contribuir com Dewey apontando uma perspectiva feminina para um movimento filosófico que se tornou transitoriamente dominado por vozes masculinas. Assim este intérprete pontua: “em seu encontro, há um sentido em que as diversas fontes do pragmatismo foram reunidas e juntas forneceram o catalisador e muitos dos recursos-chave para o desenvolvimento de pragmatismo clássico” (Pratt, 2002, p. 283).
Conforme Louise Knight, estudiosa de Addams, a influência dos dois amigos [Addams e Dewey] foi profunda e muitas vezes indetectáveis para uma das partes. Com o passar dos anos, não foi Dewey quem influenciou Addams ou Addams que influenciou Dewey, houve uma influência recíproca (Knight, 2005, p. 240).
A proximidade entre os dois colegas pode ser aferida conforme a citação de Fischer (2009),
Addams e Dewey eram colegas intelectuais, colegas ativistas da reforma social e amigos pessoais. Eles reconheciam espontaneamente e com frequência o quanto aprendiam um com o outro. Dewey era membro do conselho de administração da Hull House. Addams comentou sobre a atuação de Dewey na Hull House: "Ao contrário de muitos curadores, ele realmente foi atuante no seu trabalho." Dewey utilizou o livro de Addams, Democracia e Ética Social (Democracy and Social Ethics), como texto em suas aulas e convidou Addams para palestrar aos seus alunos (Fischer, 2009, p. 442).
Por fim, Seigfried (1999) nos mostra com maestria o significado vital que a democracia tem em Dewey e Addams, e a importância dessas “disposições legais” para seu desenvolvimento. Para Seigfried (1999), a relação entre Addams e Dewey pode ser verificada quando compartilham da ideia de que “as pessoas devem ser capazes de simpatizar com o trabalho e as atividades dos outros e cooperar com eles no cuidado da vida em comum” (Seigfried, 1999, p. 226).
Feminismo, pragmatismo e democracia
Da experiência teórica entre Dewey e Jane Addams invoca-se a ideia de democracia como objeto de nossa análise. Em Democracia e Educação, Dewey afirmava que a democracia é mais do que uma forma de governo; é antes de qualquer coisa um modo de viver associado, de experiência comunicada em conjunto, equivale à eliminação das barreiras de classe, raça e território nacional, pois, tais barreiras impedem o ser humano de perceber o pleno significado da sua atividade. Dewey considerava que existem dois critérios que caracterizam uma comunidade democrática: o primeiro é o reconhecimento dos interesses comuns dos membros da sociedade; o segundo critério é o reajuste contínuo dos hábitos sociais diante de novas situações (Dewey, 2004, p. 81). Desse modo, os anseios sociais por uma vida harmoniosa devem encontrar na filosofia e na política o sentido fundamental e real da vida em comum. A vida em sociedade se caracteriza por um compartilhar de experiências cujo valor pode e é medido pela extensão e continuidade dessas experiências.
A proposta feminista de Addams se adequa ao modelo democrático dos escritos deweyanos em um sentido também radical. A igualdade entre mulheres e homens e a quebra das barreiras sociais que os separam são essenciais para o desenvolvimento democrático (Nascimento, 2017, p. 41). Ora, embora a igualdade requeira disposições legais, não se limita a elas, isto depende de relações equitativas entre homens e mulheres, de maneira efetiva, ou seja, depende do desenvolvimento de hábitos adequados obtidos por meio da educação. (Dewey, 2004).
A participação e a livre troca de experiências são fundamentais em uma democracia e, portanto, as barreiras que separam as mulheres dos homens, os ricos dos pobres e os governantes dos governados se tornam seu principal obstáculo. Barreiras estas que Dewey observa também na segregação entre teoria e prática cuja consequência foi a predominância do modelo patriarcal no qual as mulheres foram apartadas da racionalidade e induzidas ao espaço doméstico na vida privada.
Desta maneira, Dewey distingue o conceito de democracia, como uma ideia e como uma forma de governo. A democracia como uma ideia (social ou moral) consiste na abordagem do conceito de democracia quantitativa e qualitativamente necessárias à vida social. Na dimensão social e moral dessa ideia, a democracia é um modo de vida. Já a “democracia política”, isto é, a democracia como um sistema de governo está associada aos arranjos políticos das instituições governamentais, portanto, consiste em um mecanismo atribuído a assegurar canais de execução para a “ideia” de democracia. Diante disso, as críticas, as reprovações e mesmo as modificações da organização da democracia política não afetam a “ideia” de democracia, que permanece sempre intocável. Observa-se como aqui operam o contextualismo e o consequencialismo característicos do pragmatismo de Dewey. A “democracia política” ajusta-se continuamente ao seu contexto e ao seu fim, em ambos os casos, à “ideia de democracia”. Nesse sentido, Dewey afirmava:
Encontramos a origem dessas divisões nas paredes duras e rígidas que separam grupos e classes sociais dentro de um grupo, como aquelas que existem entre ricos e pobres, homens e mulheres, nobres e plebeus, governantes e governados. Essas barreiras significam uma ausência de troca livre e fluida. Essa ausência equivale ao estabelecimento de diferentes tipos de experiência de vida (Dewey, 2004, p. 279).
Como se vê na obra do filósofo, é priorizada a sensibilidade para as questões de desigualdades sociais e, sobretudo, desigualdade de gênero. Dewey escreveu sobre as consequências da separação razão e corpo na teoria do conhecimento (Dewey, 2004, pp. 279-280,) e na moralidade (Dewey, 2004 p. 289). Para Dewey, não apenas as mulheres foram separadas da racionalidade que deveria ordenar a civilização e a ciência, mas também as classes menos favorecidas socialmente.
Se opondo a uma visão em que predomina uma ideia isolada e abstrata da razão, Dewey interpreta a inteligência como uma função vital cujo papel é ordenar a experiência. Isso significa, por um lado, que o conhecimento está sempre situado em um contexto e, por outro lado, que ele é dinâmico e tem em sua essência a transformação; em outras palavras, a teoria está sempre ligada à prática.
Jane Addams, por sua vez, ver as vantagens que essas considerações de Dewey tinham para o feminismo, em virtude disso, ela elogiou a formulação deweyana sobre a inteligência, bem como sua consequente avaliação do trabalho social realizado em Hull House, (Addams, 2001, pp. 26-29). Se formos atualizar essas considerações, poderíamos dizer que tanto Addams quanto Dewey também compartilham da ideia de que as opressões epistêmicas favoreceram a predominância de uma racionalidade do patriarcado na filosofia.
Para Bárbara Stengel (2007), Dewey foi o beneficiário da visão poética de Addams: “Dewey tornou-se Dewey na última década do século XIX e Jane Addams esteve presente como poetisa de seu filósofo” (Stengel, 2007, p. 30). Addams tinha "discernido a forma da democracia como um modo de viver e [...] os contornos de uma abordagem experimental ao conhecimento [...]; Dewey analisou e classificou os processos sociais, psicológicos e educacionais, Addams as vivenciou” (Stengel, 2007, p. 30). Enquanto Addams forneceu os dados brutos, a saber, sua experiência trabalhando com as populações vulneráveis de Chicago na Hull House, Dewey contribuiu com as ferramentas de análise, especificamente seu recém-descoberto método pragmático.
Seigfried (1999) nos mostra a confluência entre as filosofias pragmáticas de Addams e Dewey através da qualidade "emancipatória" do social de Addams e da própria elaboração da ideia de Dewey de que a democracia não é especificamente política, mas um meio de associação e vida em comunidade:
O modelo pragmático de democracia é radicalmente diferente do modelo liberal. Os pragmáticos veem por trás das formas políticas de democracia outra realidade completamente. Em vez de tomar a forma política como uma expressão de unidades isoladas de indivíduos egoístas, eles entendem a democracia como uma forma de associação especialmente apropriada para pessoas que são constituídas pelas relações múltiplas por meio das quais a consciência evolui e os valores se desenvolvem[...] Tendo preconcebido imaginativamente o comportamento que incentiva e os valores que pressupõe, eles procuram cooperar com os outros nessa transformação contínua de formas de vida variadas e interativas em direção aos melhores fins que o pragmatismo busca [...] (Seigfried, 1999, p. 226).
Para combater as categorias sociais fixas do liberalismo econômico, Addams recomendou nivelar o liberal-democrático às instituições e, em seguida, elevando-se acima das desigualdades estruturais por meio de instituições filantrópicas e projetos educacionais. Conseguir isso envolve a solidariedade que articule os interesses dos privilegiados e dos marginalizados, para que os primeiros sirvam aos segundos, redistribuindo valores culturais, educacionais e econômicos (Ralston, 2008).
Considerações finais
Neste artigo mostramos as afinidades teóricas e práticas entre Dewey e Addams. Identificamos uma forte influência e recepção do pragmatismo na obra de Jane Addams, bem como, a atualidade da temática em torno do movimento pragmatismo feminista. O estudo buscou compreender a articulação entre democracia e feminismo e o papel de Jane Addams na construção do pragmatismo. Indicamos as razões do silenciamento historiográfico imposto para ocultar o protagonismo da mulher dentro pensamento filosófico pragmático;
A relação entre democracia e feminismo é intrínseca e está associada à construção do pragmatismo feminista. Pode-se observar que as mulheres tiveram importantes contribuições ao pensamento pragmático e mesmo assim não obtiveram o devido reconhecimento, ao contrário, foram ocultadas e silenciadas durante décadas. Pode-se concluir também que não só auxiliaram na formação do pensamento pragmatista, como o exerceram na práxis, atuando como verdadeiras pontes entre a academia e a sociedade, entre teoria e prática, contribuindo como filósofas sociais na construção da democracia.
Ao nos depararmos com o fato de que as mulheres foram parceiras significativas no desenvolvimento e articulação do pragmatismo americano clássico, que trouxeram dimensões adicionais e conceituais à ideia de democracia formulada por Dewey, precisamos reconhecer o protagonismo de Jane Addams e, sobretudo, propor um reexame da historiografia filosófica para que seja assegurada nesta história a presença de mulheres, filósofas, comprovadamente influentes nesta área como em tantas outras da filosofia.
Na nossa análise examinamos a produção teórica de John Dewey a respeito do conceito de democracia, na obra Democracia e Educação (2004,) para investigar como o filósofo distingue democracia enquanto ideia e democracia enquanto sistema de governo. Nesse percurso, o pragmatismo de Dewey e Addams convergiram para a sistematização do conceito de democracia. Como consequência do debate entre John Dewey e Jane Addams, o estudo reafirmou nossa hipótese de trabalho sobre o papel da filósofa na construção do pragmatismo e, por fim, revelou um ponto de vista interessante na polêmica feminista atual em torno do significado da democracia e da própria demanda feminista, bem como do movimento denominado pragmatismo feminista.
Foi possível inferir que o silenciamento imposto à produção das mulheres no campo da filosofia, além da naturalização da desigualdade de gênero, da manutenção de uma cultura androcêntrica é também decorrente de uma visão bastante restrita do exercício da filosofia.
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Como citar:
MAGALHÃES DO NASCIMENTO, Edna Maria. Democracia e Feminismo: um diálogo entre Jane Addams e John Dewey. Revista de Filosofia Aurora, Curitiba, v. 38, e202632737, 2026. DOI: https://doi.org/10.1590/2965-1557.038.e202632737
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