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Open-access Fatores associados aos sintomas de depressão, ansiedade e estresse pós-covid-19, em universitários: estudo transversal, Minas Gerais, 2023-2024

Resumo

Objetivo  Identificar a prevalência e os fatores associados aos sintomas de depressão, ansiedade e estresse em universitários de Minas Gerais após a pandemia da covid-19.

Métodos  Estudo transversal realizado com estudantes de quatro universidades federais de Minas Gerais. A coleta de dados foi conduzida de forma online. Para identificar os fatores associados, utilizou-se um questionário estruturado contendo variáveis sociodemográficas, clínicas e acadêmicas, além da Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse (DASS-21). A fim de determinar os fatores de risco e proteção para os sintomas investigados, foi realizada regressão logística multivariada, considerando nível de significância de 5%.

Resultados  Participaram do estudo 2.333 universitários, sendo 75,6% (n=1.764) do sexo feminino e 24,4% (n=569) do sexo masculino, com faixa etária entre 18 e 62 anos. A prevalência de sintomas de depressão foi 77,2% (n=1.802); ansiedade, 76,8% (n=1.790); e estresse, 77,3% (n=1.803). Identificaram-se como fatores de risco para os três desfechos: sexo feminino (p-valor<0,050), sobrecarga com a rotina universitária após a pandemia (p-valor<0,001) e influência da pandemia no desempenho acadêmico (p-valor<0,001) e na perspectiva de futuro profissional (p-valor<0,001). A renda familiar igual ou superior a quatro salários mínimos configurou-se como fator de proteção para sintomas de depressão, ansiedade e estresse (p-valor<0,001). O recebimento de bolsa estudantil foi fator de proteção especificamente para sintomas de ansiedade (p-valor 0,046).

Conclusão  Grande parte dos universitários de Minas Gerais pesquisados apresentou sintomas de depressão, ansiedade e estresse após a pandemia da covid-19. São necessárias implementação de políticas psicossociais e intervenções fundamentadas nos fatores de proteção identificados.

Palavras-chave
Transtornos Mentais; Universidades; COVID-19; Fatores de Risco; Inquéritos Epidemiológicos

Abstract

Objective  To identify the prevalence and factors associated with symptoms of depression, anxiety, and stress among university students in Minas Gerais after the COVID-19 pandemic.

Methods  A cross-sectional study was conducted with students from four federal universities in Minas Gerais. Data collection was carried out online. To identify associated factors, a structured questionnaire was administered, encompassing sociodemographic, clinical, and academic variables, as well as the Depression, Anxiety, and Stress Scale (DASS-21). To determine the risk and protective factors associated with the investigated symptoms, a multivariate logistic regression analysis was performed, with a 5% significance level.

Results  A total of 2,333 students participated in the study, comprising 75.6% (n=1,764) females and 24.4% (n=569) males, aged 18 to 62 years. The prevalence of symptoms was 77.2% (n=1,802) for depression, 76.8% (n=1,790) for anxiety, and 77.3% (n=1,803) for stress. Identified risk factors for all three outcomes were female sex (p-value<0.050), overload with academic routine after the pandemic (p-value<0.001), and the impact of the pandemic on academic performance (p-value<0.001) and future professional outlook (p-value<0.001). Family income equal to or above four minimum wages was a protective factor against symptoms of depression, anxiety, and stress (p-value<0.001). Receiving a student scholarship was specifically a protective factor for symptoms of anxiety (p-value 0.046).

Conclusion  A large proportion of university students in Minas Gerais presented symptoms of depression, anxiety, and stress after the COVID-19 pandemic. The implementation of psychosocial policies and interventions grounded in the identified protective factors is necessary.

Keywords
Mental Disorders; Universities; COVID-19; Risk Factors; Health Surveys

Resumen

Objetivo  Identificar la prevalencia y los factores asociados a los síntomas de depresión, ansiedad y estrés en estudiantes universitarios de Minas Gerais después de la pandemia de COVID-19.

Métodos  Estudio transversal realizado con estudiantes de cuatro universidades federales de Minas Gerais. La recolección de datos se llevó a cabo de forma online. Para identificar los factores asociados, se utilizó un cuestionario estructurado que incluía variables sociodemográficas, clínicas y académicas, además de la Escala de Depresión, Ansiedad y Estrés (DASS-21). Con el fin de determinar los factores de riesgo y protección para los síntomas investigados, se realizó regresión logística multivariada considerando un nivel de significancia del 5%.

Resultados  Participaron del estudio 2.333 estudiantes universitarios, de los cuales el 75,6% (n=1.764) eran mujeres y el 24,4% (n=569) hombres, con edades entre 18 y 62 años. La prevalencia de síntomas de depresión fue del 77,2% (n=1.802); ansiedad, 76,8% (n=1.790); y estrés, 77,3% (n=1.803). Se identificaron como factores de riesgo para los tres desenlaces: sexo femenino (p-valor<0,050), sobrecarga con la rutina universitaria después de la pandemia (p-valor<0,001) e influencia de la pandemia en el desempeño académico (p-valor<0,001) y en la perspectiva de futuro profesional (p-valor<0,001). El ingreso familiar igual o superior a cuatro salarios mínimos se configuró como factor de protección para los síntomas de depresión, ansiedad y estrés (p-valor<0,001). La recepción de beca estudiantil fue un factor de protección específicamente para los síntomas de ansiedad (p-valor 0,046).

Conclusión  Gran parte de los estudiantes universitarios de Minas Gerais encuestados presentó síntomas de depresión, ansiedad y estrés después de la pandemia de COVID-19. Es necesaria la implementación de políticas psicosociales e intervenciones basadas en los factores de protección identificados.

Palabras clave
Transtornos Mentales; Universidades; COVID-19; Factores de Riesgo; Encuestas Epidemiológicas

Aspectos éticos

Esta pesquisa respeitou os princípios éticos, obtendo os seguintes dados de aprovação: :

Comitê de ética em pesquisa: Universidade Federal de Viçosa

Número do parecer: 5.700.107

Data de aprovação: 14/10/2022

Certificado de apresentação de apreciação ética: 63318222.0.0000.5153

Registro do consentimento livre e esclarecido: Não se aplica.

Introdução

Os transtornos mentais representam relevante problema de saúde pública global e foram exacerbados pela pandemia da covid-19 (1,2). O projeto World Mental Health International College Student, conduzido pela Organização Mundial da Saúde em 19 instituições de ensino superior de oito países da Europa, Américas, África e Oceania, apontou que os estudantes universitários apresentam maior propensão ao desenvolvimento de transtornos mentais, especialmente de humor e ansiedade, em comparação à população geral (3). Essa tendência está relacionada tanto aos estressores do ambiente acadêmico quanto ao período de transição característico dessa fase da vida (3).

Além disso, esses estudantes frequentemente não buscam tratamento adequado, o que pode levar ao agravamento dos quadros e ao desenvolvimento de comportamentos prejudiciais à saúde, como tabagismo, uso de drogas ilícitas, insônia e baixo desempenho acadêmico (4).

Durante a pandemia, esse grupo enfrentou estressores adicionais, uma vez que as medidas de controle sanitário impactaram diretamente o funcionamento das instituições de ensino (5). Na Espanha, em 2020, jovens entre 18 e 25 anos, sobretudo universitários, relataram mais sintomas de depressão, ansiedade e estresse, atribuídos à necessidade de adaptação ao ensino remoto (6).

Embora a Organização Mundial da Saúde tenha declarado o fim da pandemia em 2022, o bem-estar mental global ainda não havia sido plenamente restabelecido, em razão da recessão econômica e do prolongado isolamento social subsequentes (7,8).

No período pós-pandêmico, evidenciaram-se preocupações quanto à saúde mental de universitários (9,10). No Peru, em 2022, foram encontrados baixos níveis de depressão e ansiedade e moderados de estresse, bem como associação dessas variáveis com gênero e faixa etária (9). Já no Chile, em 2022, estudantes relataram alta prevalência de sintomas depressivos (63,0%), ansiosos (69,0%) e de estresse (57,0%), com maior impacto entre mulheres e pessoas pertencentes a minorias sexuais (10).

No Brasil, identificou-se elevada prevalência de sintomas de depressão, ansiedade e estresse entre os universitários no contexto pós-pandêmico, entre setembro de 2022 e setembro de 2023, com destaque para níveis severos de ansiedade, o que indica alta vulnerabilidade dessa população (11). Todavia, investigações sobre fatores de risco e proteção socioeconômicos, clínicos e acadêmicos que influenciam esses sintomas ainda são limitadas em âmbito nacional. Assim, regiões específicas do Brasil podem apresentar diferentes características e, consequentemente, diferentes impactos na saúde mental.

Diante desse cenário epidemiológico entre estudantes universitários após a pandemia da covid-19 (11), torna-se necessário investigar os fatores socioeconômicos, clínicos e acadêmicos associados aos sintomas de depressão, ansiedade e estresse, a fim de subsidiar políticas públicas e estratégias institucionais que promovam o cuidado em saúde mental em situações de crise para esse público. Este estudo buscou identificar a prevalência e os fatores associados aos sintomas de depressão, ansiedade e estresse em universitários de Minas Gerais após a pandemia da covid-19.

Métodos

Desenho do estudo e contexto

Tratou-se de estudo transversal, realizado entre janeiro de 2023 e abril de 2024, em 15 campi de quatro universidades federais de Minas Gerais.

À época, a primeira universidade possuía cinco campi nas regiões Metropolitana e Norte, com 79 cursos de graduação. A segunda contava com três campi na região Metropolitana e ofertava 56 cursos. A terceira possuía três campi distribuídos entre a Zona da Mata, a região Metropolitana e o Alto Paranaíba/Triângulo Mineiro, com 67 cursos. A quarta universidade oferecia 38 cursos em quatro campi situados nas regiões Sul e Sudoeste do estado. A seleção dessas instituições considerou a abrangência regional dos campi e a participação de pesquisadores colaboradores vinculados ao estudo.

Participantes

Participaram do estudo 67.110 estudantes de ambos os sexos, distribuídos da seguinte forma: 33.900 na primeira universidade, 13.110 na segunda, 14.000 na terceira e 6.100 na quarta. Os critérios de inclusão foram: ter 18 anos ou mais, estar regularmente matriculado em qualquer período dos cursos de graduação das quatro universidades e dispor de tempo para responder aos instrumentos de coleta de dados de forma online. Foram excluídos estudantes de pós-graduação, aqueles sem acesso à internet no momento da coleta e os que não completaram integralmente o questionário.

Variáveis

Os sintomas de depressão, ansiedade e estresse foram considerados desfechos primários/variáveis dependentes. As variáveis sociodemográficas, clínicas e acadêmicas foram consideradas explicativas/covariáveis.

As variáveis sociodemográficas coletadas foram: sexo (feminino, masculino), raça/cor da pele (branco, pardo, preto, amarelo, indígena), situação conjugal (solteiro, casado/união estável, divorciado, viúvo), atividade laboral no momento (sim, não), renda familiar – em salários mínimos (R$ 1.320,00) no momento da coleta de dados (até três, quatro ou mais) e moradia (com a família, república estudantil, sozinho, alojamento estudantil, pensão).

As variáveis clínicas foram: diagnóstico positivo para covid-19 (sim, não), diagnóstico clínico de alterações de adaptação psicossocial (sim, não) e uso de psicofármacos (sim, não).

As variáveis acadêmicas foram: área do curso (ciências biológicas e da saúde; ciências humanas, artes e letras; ciências exatas e tecnológicas; ciências agrárias), bolsa estudantil – de ensino, pesquisa ou extensão (sim, não), assistência estudantil (sim, não), você se sente mais sobrecarregado com a rotina da universidade após a pandemia da covid-19? (sim, não), a pandemia da covid-19 influenciou o seu desempenho acadêmico? (sim, não) e a pandemia da covid-19 influenciou a sua perspectiva de futuro profissional? (sim, não).

Fontes de mensuração

As características sociodemográficas, clínicas e acadêmicas foram coletadas utilizando questionário estruturado elaborado pelos autores e avaliado por quatro enfermeiros com experiência na área de saúde mental. Todas as sugestões foram acatadas. Em seguida, foi respondido por três estudantes universitários de diferentes cursos de graduação e períodos, a fim de verificar a compreensão dos itens.

Para mensurar a presença de sintomas de depressão, ansiedade e estresse, utilizou-se a Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse (DASS-21) (12). A escala é autorrelatada, o que permitiu a sua resposta de forma remota. Possui 21 questões, distribuídas em três subescalas que avaliam sintomas na última semana, por meio de sete perguntas, com quatro opções de respostas (0=não se aplicou de maneira alguma; 1=aplicou-se em algum grau, ou por pouco tempo; 2=aplicou-se em um grau considerável ou por uma boa parte do tempo; 3=aplicou-se muito ou na maioria do tempo) (12). O somatório de cada subescala, multiplicado por dois, forneceu o escore total de cada construto (12). Os pontos de corte da DASS-21 para cada construto (12) foram apresentados na tabela 1. A escala foi traduzida e validada para a versão brasileira e possui adequadas propriedades psicométricas (12). Nesta amostra, o alfa de Cronbach global para a DASS-21 foi 0,944 (para as subescalas de depressão, ansiedade e estresse foi 0,901, 0,867 e 0,885), o que denotou alta consistência interna do instrumento (13).

Tabela 1
Pontos de corte dos sintomas de depressão, ansiedade e estresse, conforme a Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse (DASS-21)

Procedimentos de coleta de dados

A divulgação do estudo foi realizada por meio dos canais oficiais de comunicação das universidades, incluindo o envio de convites aos e-mails institucionais dos estudantes pelas diretorias de registro acadêmico, além da distribuição de panfletos nas dependências dos campi. Os participantes que concordaram em integrar a pesquisa assinaram, digitalmente, o registro de consentimento livre e esclarecido. Em seguida, responderam aos instrumentos de coleta de dados de forma online.

Tamanho do estudo

Foi utilizada a fórmula n=(z2.p(1-p)/e2)/1+(z2.p(1-p)/e2N), em que: z=escore z (para grau de confiança de 95,0%, z=1,96); p=prevalência de casos com a característica estudada (foi adotada estimativa conservadora de prevalência de 50,0%); e=margem de erro; e N=tamanho da população. Ao considerar a população de 67.110 estudantes e margem de erro de 2,0%, o tamanho da amostra mínimo estimado foi 2.319 estudantes.

Métodos estatísticos

As análises estatísticas foram realizadas com o auxílio do software IBM SPSS Statistics para Windows, versão 26. Foram aplicadas estatísticas descritivas para sintetizar as características sociodemográficas, clínicas e acadêmicas dos participantes, além de estimar a prevalência dos sintomas de depressão, ansiedade e estresse.

O teste de qui-quadrado de Pearson foi utilizado para avaliar a associação entre sintomas de depressão, ansiedade e estresse e potenciais fatores de risco ou de proteção. As multicolinearidades das variáveis também foram avaliadas. O teste variance inflation factor indicou valores próximos de 1, não apresentando problema de multicolinearidade. As variáveis dependentes foram a presença ou ausência de sintomas de depressão, ansiedade e estresse, com base nas pontuações da escala DASS-21, agrupadas em duas categorias: 0=normal e 1=leve, moderado, grave ou extremamente grave.

As variáveis sociodemográficas, clínicas e acadêmicas foram consideradas explicativas e incluídas no modelo de regressão logística múltipla pelo método backward. Esse modelo estima probabilidades e fornece parâmetros associados a razões de chances (odds ratio, OR), medida que expressa a razão de chances ajustada para os demais fatores incluídos na modelagem (14).

A adequação do modelo foi avaliada por meio do teste de Hosmer-Lemeshow para os sintomas de depressão, ansiedade e estresse. As razões de chance ajustadas foram estimadas com seus intervalos de confiança de 95% (IC95%), sendo utilizadas para identificar os fatores associados aos sintomas investigados. As associações foram consideradas estatisticamente significativas quando p-valor<0,05.

Resultados

Responderam ao inquérito 2.404 universitários. Destes, 71 foram excluídos pelos seguintes motivos: eram estudantes de pós-graduação (n=63); recusaram a participação (n=5); não completaram o questionário (n=2); ou tinham menos de 18 anos (n=1). Assim, 2.333 estudantes foram elegíveis para o estudo: 32,5% (n=759) pertenciam à primeira universidade; 33,6% (n=785), à segunda; 21,7% (n=506), à terceira; e 12,1% (n=283), à quarta.

Obsevaram-se as características sociodemográficas, clínicas e acadêmicas da amostra (Tabela 2). A faixa etária variou entre 18-62 anos, com média de 23,4±5,5.

Tabela 2
Frequências absoluta (n) e relativa (%) de características sociodemográficas, clínicas e acadêmicas dos universitários após a pandemia da covid-19. Minas Gerais, 2024 (n=2.333)

Entre os 2.333 estudantes, 77,2% (n=1.802) apresentaram sintomas de depressão; 76,8% (n=1.791), de ansiedade; e 77,3% (n=1.804), de estresse. As médias das pontuações indicaram níveis moderados de sintomas de depressão (19,6±11,8) e estresse (24,1±11,1) e nível severo de sintoma de ansiedade (17,6±11,5). Observaram-se a prevalência e a gravidade dos sintomas de depressão, ansiedade e estresse (Tabela 3).

Tabela 3
Prevalências absoluta (n) e relativa (%) de sintomas de depressão, ansiedade e estresse em universitários após a pandemia da covid-19. Minas Gerais, 2024 (n=2.333)

As variáveis sexo, renda familiar, sobrecarga com a rotina universitária e influência da pandemia no desempenho acadêmico e na perspectiva de futuro profissional associaram-se simultaneamente aos sintomas de depressão, ansiedade e estresse (p-valor<0,001). A assistência estudantil mostrou associação com os sintomas de depressão (p-valor<0,001) e de ansiedade (p-valor 0,001), e a moradia, aos sintomas de depressão (p-valor 0,049) (Tabela 4).

Tabela 4
Associação entre variáveis sociodemográficas, clínicas e acadêmicas e presença de sintomas de depressão, ansiedade e estresse em universitários após a pandemia da covid-19. Minas Gerais, 2024 (n=2.333)

Foram apresentados os fatores de risco e proteção identificados por meio da regressão logística multivariada (Tabela 5). Configuraram-se como fatores de risco: sexo feminino para sintomas de depressão (OR 1,27; IC95% 1,01; 1,60), ansiedade (OR 2,33; IC95% 1,87; 2,90) e estresse (OR 2,20; IC95% 1,76; 2,74); sobrecarga com a rotina universitária após a pandemia para sintomas de depressão (OR 2,57; IC95% 2,03; 3,26); ansiedade (OR 2,36; IC95% 1,86; 2,99) e estresse (OR 2,37; IC95% 1,87; 3,01); influência da pandemia no desempenho acadêmico para sintomas de depressão (OR 2,41; IC95% 1,85; 3,13), ansiedade (OR 1,91; IC95% 1,46; 2,50) e estresse (OR 1,99; IC95% 1,52; 2,60) e influência da pandemia na perspectiva de futuro profissional para sintomas de depressão (OR 2,01; IC95% 1,62; 2,50), ansiedade (OR 1,95; IC95% 1,56; 2,42) e estresse (OR 1,96; IC95% 1,58; 2,44).

Tabela 5
Razão de chance ajustada (odds ratio, OR) e intervalo de confiança de 95% (IC95%) de fatores associados à presença de sintomas de depressão, ansiedade e estresse em universitários após a pandemia da covid-19. Minas Gerais, 2024 (n=2.333)

A renda familiar de quatro ou mais salários mínimos foi fator de proteção para sintomas de depressão (OR 0,55; IC95% 0,45; 0,68), ansiedade (OR 0,61; IC95% 0,50; 0,75) e estresse (OR 0,66; IC95% 0,54; 0,81). Receber bolsa estudantil foi fator de proteção para sintomas de ansiedade (OR 0,77; IC95% 0,60; 0,99).

Discussão

Identificou-se prevalência superior a 75,0% de sintomas de depressão, ansiedade e estresse entre estudantes universitários de Minas Gerais após a pandemia da covid-19. Os níveis foram moderados para depressão e estresse e severos para ansiedade. Sexo feminino, sobrecarga com a rotina universitária após a pandemia e influência desta no desempenho acadêmico e na perspectiva de futuro profissional constituíram fatores de risco para esses sintomas. Por outro lado, renda familiar igual ou superior a quatro salários mínimos emergiu como fator de proteção para sintomas de depressão, ansiedade e estresse. O recebimento de bolsa estudantil foi fator de proteção para sintomas de ansiedade.

Este estudo apresentou limitações que devem ser consideradas. A coleta online não garantiu que os questionários foram respondidos pelos próprios estudantes e que somente participantes das instituições selecionadas responderam, embora a divulgação tenha ocorrido apenas por canais oficiais. Além disso, a modalidade online impossibilitou o cálculo preciso da taxa de resposta, restringiu a participação de estudantes sem acesso à internet e está sujeita a perdas amostrais inerentes a esse tipo de inquérito.

Outra limitação referiu-se à heterogeneidade temporal da amostra, pois alguns estudantes ingressaram na universidade após o período pandêmico, o que pode ter influenciado os efeitos observados na saúde mental. Destaca-se ainda que, embora tenha sido utilizada ferramenta validada para avaliação dos sintomas, esta não substitui diagnóstico clínico, que neste estudo foi baseado em autorrelato, podendo gerar viés de informação. Por fim, associações com razões de chances ajustada inferior a 1,5 devem ser interpretadas com cautela, pois são consideradas pequenas do ponto de vista epidemiológico, o que dificulta a distinção entre causalidade e efeito do acaso (15).

Apesar das limitações, este estudo possui relevância por estar entre os primeiros a identificar fatores sociodemográficos, clínicos e acadêmicos associados a sintomas de depressão, ansiedade e estresse entre universitários após a pandemia da covid-19 em Minas Gerais.

Globalmente, há evidências de graves implicações da covid-19 na saúde mental dos estudantes após a pandemia (10,16). No Chile, identificou-se prevalência de aproximadamente 63,0% de sintomas de depressão, 69,0% de ansiedade e 57,0% de estresse em 2022 (10). No Brasil, a prevalência foi semelhante entre outubro de 2022 e abril de 2024, com cerca de 77,0% dos estudantes apresentando sintomas dessas três condições (16), em consonância com os achados desta investigação. Esses resultados sugerem que os estudantes universitários têm reações intensas – emocionais, cognitivas e fisiológicas – diante das altas demandas acadêmicas, das maiores exigências do ensino presencial e do processo de adaptação à nova rotina após mais de dois anos de pandemia (17).

As análises multivariadas revelaram que mulheres apresentaram maior probabilidade de manifestar sintomas de depressão, ansiedade e estresse em comparação aos homens. Fatores fisiológicos, como variações hormonais ao longo do ciclo menstrual, genéticos e psicossociais, podem contribuir para essa maior vulnerabilidade emocional entre as mulheres (18-20). De modo geral, elas tendem a expressar as emoções com maior intensidade, o que, em contextos marcados por incertezas e instabilidades, como o vivenciado durante a pandemia, pode ter intensificado essas respostas e contribuído para sua persistência mesmo após o fim do período pandêmico (21). Evidências sugerem que, diante de eventos traumáticos, mulheres podem dispor de menos estratégias eficazes de enfrentamento, enquanto os homens tendem a apresentar maior resiliência emocional (20,22).

A pandemia da covid-19 também impactou negativamente a situação financeira de muitas famílias, o que afetou, de modo direto, o bem-estar psicológico (21). Neste estudo, identificou-se relação inversamente proporcional entre renda familiar e ocorrência das desordens emocionais nos estudantes. De fato, a vulnerabilidade econômica é reconhecida como fator de risco para o desenvolvimento de transtornos mentais (19,23). Para além, representa uma barreira ao acesso a serviços especializados, especialmente em países onde os sistemas públicos de saúde não conseguem suprir a demanda. A escassez de recursos financeiros também pode dificultar a adoção de hábitos de vida saudáveis (24), o que, por sua vez, contribui para o comprometimento da saúde mental.

Constatou-se que o recebimento de bolsa estudantil esteve associado à menor ocorrência de sintomas de ansiedade. Esse tipo de apoio é relevante não apenas por contribuir com a situação financeira do estudante, mas também por favorecer sua formação acadêmica e profissional, ao viabilizar a participação em atividades extracurriculares de ensino, pesquisa e extensão durante a graduação. Ao se envolver nessas atividades, o estudante tem a oportunidade de desenvolver habilidades intelectuais e práticas adicionais, o que pode fortalecer sua resiliência diante das exigências do curso e, consequentemente, contribuir para a redução dos níveis de ansiedade.

A sobrecarga com a rotina universitária após a pandemia da covid-19 foi fator de risco prevalente e que mais impactou a presença de sintomas de depressão, ansiedade e estresse. Independentemente do contexto de crise, a rotina acadêmica é permeada de atividades que podem levar à percepção de sobrecarga pelos estudantes (25). Esse sentimento pode configurar fator de vulnerabilidade ao estresse acadêmico, o que favorece o desenvolvimento de sintomas depressivos e ansiosos (19).

Conforme foi evidenciado nesta investigação, o contexto pós-pandêmico intensificou o sentimento de sobrecarga nos estudantes universitários. Durante o período de isolamento social, o ensino remoto foi, em muitos casos, conduzido de forma mais flexível, com menor cobrança quanto à participação em atividades extracurriculares. Com o retorno ao ensino presencial, os estudantes se depararam novamente com a rotina repleta de demandas acadêmicas, somada à pressão de compensar o tempo e o conteúdo perdidos durante a pandemia. Essa combinação pode ter contribuído para o agravamento da percepção de sobrecarga acadêmica.

Os estudantes que relataram que a pandemia influenciou o desempenho acadêmico apresentaram maior probabilidade de desenvolver sintomas de depressão, ansiedade e estresse no período pós-pandêmico. Durante a pandemia, diversos fatores contribuíram para essa percepção de prejuízo acadêmico, como: transição abrupta para o ensino remoto, dificuldades de adaptação a esse formato, alterações nas ementas e na qualidade das aulas, aumento de distrações no ambiente domiciliar, redução da motivação para aprender, tendência à procrastinação e comprometimento no andamento de atividades de pesquisa e extensão (26).

Acredita-se que os impactos no desempenho acadêmico tenham persistido no período pós-pandêmico em decorrência dos diversos fatores negativos vivenciados durante a pandemia – de ordem acadêmica, pessoal, familiar e social –, somados à necessidade de readaptação ao ensino presencial. Entre os desafios enfrentados após o retorno às aulas presenciais, destacam-se o encurtamento do tempo disponível para a oferta das disciplinas, a consequente redução do tempo de estudo necessário para assimilação dos conteúdos, além das incertezas, dos medos e das inseguranças que marcaram esse processo de transição.

Sintomas de transtornos mentais, como a depressão em adultos jovens, estão associados à maior propensão ao desenvolvimento de déficits cognitivos, o que pode comprometer a capacidade de aprendizado (27). Essa condição tende a impactar negativamente o desempenho acadêmico no contexto universitário.

A maioria dos estudantes relatou que a pandemia da covid-19 influenciou sua perspectiva quanto ao futuro profissional, e essa variável aumentou a probabilidade de sintomas de depressão, ansiedade e estresse. Essa situação provavelmente decorre da redução do tempo dedicado a atividades práticas e estágios, o que compromete a experiência profissional, além do atraso na formatura e a consequente entrada tardia no mercado de trabalho (26). Entre universitários em Bangladesh, identificou-se que o medo relacionado à covid-19 estava associado ao aumento da ansiedade sobre o futuro profissional, podendo gerar efeitos negativos a longo prazo na saúde mental dessa população (28).

Os achados deste estudo podem estimular reflexões sobre a responsabilidade institucional das universidades em promover suporte psicossocial aos seus estudantes. Além disso, fornecem subsídios para que as redes de atenção psicossociais do Sistema Único de Saúde incluam esse público, que muitas vezes é flutuante em diversas localidades e fica sem referência de saúde, em suas ações. Os resultados evidenciam a necessidade urgente de estratégias de intervenção para jovens universitários, como programas e serviços de acolhimento e apoio, especialmente durante o ingresso e adaptação à vida acadêmica; assistência estudantil, incluindo moradia, bolsas, auxílios financeiros, alimentação e apoio à saúde; atividades esportivas e de lazer; e flexibilização curricular. Essas ações podem contribuir para a promoção da saúde mental, melhoria do desempenho acadêmico, redução da evasão e formação de profissionais mais resilientes e preparados para o mercado de trabalho.

Para estudos futuros, sugere-se a adoção de delineamentos longitudinais, a fim de compreender melhor a direcionalidade da associação entre sintomas da tríade e os fatores sociodemográficos, clínicos e acadêmicos, além da realização de avaliações clínicas adicionais por psiquiatras para confirmar a presença de transtornos mentais.

O objetivo principal deste estudo foi identificar a prevalência de sintomas de depressão, ansiedade e estresse em universitários após a pandemia da covid-19, em Minas Gerais, e sua associação com fatores socioeconômicos, clínicos e acadêmicos. Grande parte dos estudantes pesquisados apresentou esses sintomas. Foram identificados como fatores de risco o sexo feminino, a sobrecarga com a rotina universitária após a pandemia e a influência da pandemia no desempenho acadêmico e na perspectiva de futuro profissional. Por outro lado, o suporte financeiro, representado por renda familiar igual ou superior a quatro salários mínimos e pelo recebimento de bolsa estudantil, configurou-se como fator de proteção.

Estes achados ressaltam a urgência de estratégias institucionais voltadas ao apoio à saúde mental no ambiente universitário, assim como da articulação entre as universidades e os sistemas de saúde. São fundamentais a implementação de políticas psicossociais e as intervenções pautadas em fatores de proteção para atender às necessidades de saúde mental dessa população.

  • Gestora de pareceristas
  • Parecerista
    Betise Mery Alencar Sousa Macau Furtado (https://orcid.org/0000-0001-6344-8257)
  • Disponibilidade de dados
    Os dados da pesquisa podem ser obtidos mediante solicitação ao autor correspondente.
  • Uso de inteligência artificial generativa
    Não empregada.
  • Financiamento
    A pesquisa foi financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Processo: APQ-03370-22) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Processo: 402216/2023-7).

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    13 Mar 2025
  • Aceito
    25 Ago 2025
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