Resumo
Resumo As unidades armazenadoras têm papel essencial no setor agroindustrial, assegurando o armazenamento e beneficiamento de grãos. O Brasil tem quebrado recordes na produção agrícola, e a expectativa para a safra 2025/26 é de 353,4 milhões de toneladas de grãos produzidos. Entretanto, a capacidade estática nacional não tem acompanhado o aumento da produção. Nesse contexto, o objetivo deste estudo foi analisar a viabilidade econômica do investimento direcionado à implantação de uma unidade de armazenamento de grãos, em uma propriedade rural, em Nioaque, Mato Grosso do Sul. Foram consideradas premissas como: investimento inicial, projeção de receita, custos operacionais, depreciação e impostos. Baseado nesses dados, estruturou-se o fluxo de caixa para um período de 12 anos, utilizado na aplicação de indicadores de avaliação econômico-financeira: Valor Presente Líquido (VPL), Taxa Mínima de Atratividade (TMA), Taxa Interna de Retorno (TIR) e Payback. A TMA de 13,75% gerou VPL de US$ 7.340.283,45, uma TIR de 58,76%, e payback de 2 anos e 1 mês. Das três variações de receita, apenas a de -20% foi inviável. As de -10% e -15%, demonstraram viabilidade, comprovando a robustez do projeto. Os resultados confirmam que o investimento para a construção da unidade de armazenamento de grãos é economicamente viável.
Palavras-chave:
armazenagem de grãos; déficit de armazenagem; investimento; viabilidade econômica
Abstract
Abstract Storage units play an essential role in the agroindustrial sector, to ensure grain storage and processing. Brazil is a record country in agricultural production, and the 2025/26 harvest expectation was 353.4 million tons of grain production. However, national static capacity has not kept up with the increase in production. In this context, this project has to objective to analyze the economic feasibility in investing in the implementation of a grain storage unit, in a rural property, in Nioaque, Mato Grosso do Sul, Brazil. Were considered initial investment, revenue projection, operating costs, depreciation, and taxes. Based on these assumptions, cash flow was prepared for a 12-year period, that was applied in the application of economic-financial evaluation indicators: Net Present Value (NPV), Minimum Attractiveness Rate (MAR), Internal Rate of Return (IRR), and Payback. The 13.75% MARR generated an NPV of US$ 7,340,283.45, an IRR of 58.76%, and a payback period of 2 years and 1 month. Between the three revenue variations, only the -20% variation was unfeasible. The -10% and -15% variations demonstrated viability. The results confirm that the investment for the construction of a grain storage unit is economically viable.
Keywords:
grain storage; storage deficit; investment; economic viability
1 Introdução
A agricultura é uma das principais atividades econômicas no mundo e envolve um conjunto de técnicas para o cultivo e a produção de alimentos. Dentre a diversidade de produtos oriundos da agricultura, destaca-se a produção de grãos que, conforme Rando & Oliveira (2016), integra um dos principais segmentos do agronegócio em todo o mundo
Dados do International Grains Council (2026), apontam que em 2025/26, a produção global de grãos poderá chegar a 2,416 bilhões de toneladas, sendo os três principais produtores mundiais a China, os Estados Unidos e a Índia.
Segundo o United States Department of Agriculture (2025), o Brasil ocupa a quarta posição na produção mundial de grãos (arroz, milho, soja e trigo), porém estima-se que o País ultrapassará a Índia, tornando-se o terceiro maior produtor mundial. De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento - Conab (Brasil, 2026), para a safra de 2025/26 no Brasil, está prevista uma produção de 353,4 milhões de toneladas de grãos.
Diante da elevação da produção nacional, evidencia-se a necessidade de locais adequados para o armazenamento dos produtos por períodos de tempo mais extensos, a fim de manter as propriedades fisiológicas dos grãos colhidos, preservando sua qualidade e características primárias, evitando fungos, pragas e excesso de umidade (Borges & Porciuncula, 2020).
Neste contexto, as unidades armazenadoras desempenham um importante papel no setor agroindustrial, pois propiciam o beneficiamento e armazenamento adequados de grãos, como soja, milho e trigo, visando à preservação da qualidade e à redução de perdas. Para Konopatzki et al. (2006), as unidades armazenadoras são essenciais no pós-colheita, visto serem um sistema projetado e estruturado para o recebimento, limpeza, secagem, armazenagem e expedição de grãos.
A Food and Agriculture Organization - FAO recomenda que os países possuam capacidade estática de armazenagem igual ou superior a 1,2 vezes a sua produção anual. Neste cenário, no Brasil, seria necessária uma capacidade de armazenagem de 424 milhões de toneladas em 2026 (Bidinotti & Arthuso, 2021).
A armazenagem nacional, entretanto, revela-se insuficiente, dado que sua capacidade estática é de aproximadamente 220 milhões de toneladas, não sendo capaz de suprir a atual produção de grãos (Brasil, 2026). O déficit de armazenagem no ano de 2026, situou-se em torno de 133 milhões de toneladas.
Segundo Gaban et al. (2017), o setor de armazenagem necessita de investimentos significativos, tanto para a ampliação quanto para a construção de novas estruturas com localização estratégica.
Todavia, o processo de investimento para a construção de uma unidade armazenadora de grãos demanda planejamento e uma gestão rigorosa dos custos, visando uma análise mais assertiva sobre à viabilidade econômica do projeto (Oliveira et al., 2020a). De acordo com Oliveira et al. (2020b), mensurar a rentabilidade e os fatores de riscos relacionados ao retorno do capital investido é uma das principais dificuldades enfrentadas pelos investidores.
Vieira & Dalchiavon (2018) destacam que, embora o projeto possa estar em consonância com os parâmetros técnicos, ele poderá não ser viável do ponto de vista econômico e não propiciar ao investidor o retorno mínimo necessário para cobrir o capital investido. Por conseguinte, o estudo da viabilidade econômico-financeira de um investimento em armazenagem é fundamental para orientar profissionais técnico-financeiros na alocação de capital (Oliveira et al., 2020a).
Este estudo analisou a viabilidade econômica do processo de implantação de uma Unidade Armazenadora de Grãos (UA) em uma área da zona rural do Estado de Mato Grosso do Sul.
2 Fundamentação Teórica
2.1 Unidades Armazenadoras de Grãos
As unidades armazenadoras são estruturas destinadas ao recebimento, beneficiamento e armazenamento de grãos. Péra et al. (2016) ressaltam que o armazenamento tem como função estocar os produtos de modo a atender as demandas em diferentes lugares e períodos, garantindo e conservando a qualidade do grão.
O armazenamento adequado proporciona a disponibilidade de grãos para serem comercializados em qualquer época do ano. Isto possibilita melhores condições de negociação, pois pode-se optar por adiar a venda do produto, até que os preços estejam mais atrativos (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural, 2018).
Ramos & Ramos (2022) afirmam que a armazenagem desempenha um papel estratégico no agronegócio brasileiro, sob variadas perspectivas, por exemplo, econômica, logística e social. De um lado, a produção é caracterizada por sua concentração espacial, sazonal e perecibilidade; por outro, a demanda é contínua, territorialmente dispersa e exige produtos de qualidade.
A infraestrutura para o armazenamento, conforme destacou Fernandes (2016), deve ser capaz de absorver toda a safra do país, além de proporcionar espaços adicionais para produtos destinados ao mercado externo, garantindo o atendimento adequado à demanda interna. No entanto, no Brasil, a atividade de armazenagem encontra alguns obstáculos atrelados ao déficit da capacidade estática e à má distribuição das unidades armazenadoras (Oliveira et al., 2024).
A ausência e a inadequação de unidades armazenadoras, devido à localização e às estruturas obsoletas, acabam por acarretar regiões de vazio logístico (Fernandes, 2016).
Este cenário seria diferente se existissem mais estruturas de armazenamento próximas aos locais de produção nas fazendas e a aplicação de planos para sua implementação (Gaban et al., 2017).
A análise do mercado internacional aponta para uma realidade bem diferente da existente no Brasil. Países como Argentina, Canadá e Estados Unidos atingem patamares de 40%, 85% e 65%, respectivamente, de capacidade instalada nas fazendas, enquanto no Brasil este índice permanece próximo a 15%, segundo a Conab (Brasil, 2021).
Atualmente a principal estrutura em termos de capacidade estática no País é a unidade coletora, responsável por 75 milhões de toneladas ou 44,5% do total nacional de armazenamento (Brasil, 2023a).
Se o objetivo é aumentar as exportações de grãos e suprir a crescente demanda interna, é necessário que se invista não só na produção (máquinas e tecnologia de plantio e colheita), mas também na armazenagem de qualidade, sem a qual o crescimento do setor agrícola pode ser limitado (Brasil, 2021).
2.2 Armazenagem
A armazenagem contempla as funções de recepção, estocagem e expedição de produtos, permitindo gerenciar e manter a qualidade do produto desde a sua chegada ao armazém até seu processo de expedição, buscando minimizar os custos operacionais (Gomes et al., 2015; Braga et al., 2009).
Frederico (2010) ressalta que, a existência de uma rede armazenadora é um fator essencial não só para o escoamento das safras de grãos, mas também, para a execução de políticas de abastecimento e ampliação da produção agrícola. A armazenagem adequada dos grãos traz benefícios como: redução das perdas quantitativas e qualitativas causadas pelo atraso da colheita; economia no transporte, especialmente pelos altos preços dos fretes praticados no País e maior eficiência logística, evitando movimentações desnecessárias (Leitão et al., 2020).
Para Rocha et al. (2018), a armazenagem pode ser utilizada como estratégia de comercialização por parte dos produtores e exportadores brasileiros, para maximizar a receita obtida através da venda da produção. Isso ocorre devido à negociação dos grãos em melhores períodos comerciais, evitando as pressões naturais do mercado à época da colheita (D’Arce, 2008).
No Brasil, as estruturas de armazenagem de grãos concentram-se principalmente nas regiões Centro-Oeste, Sul e em parte do Sudoeste da nação (Fatorelli, 2023).
Em Mato Grosso do Sul, conforme dados da Conab (Brasil, 2026), existem 627 unidades armazenadoras (Figura 1), totalizando uma capacidade estática de armazenagem de 15,45 milhões de toneladas. De acordo com estimativas, para a safra 2025/26, o Estado terá uma produção de 29,18 milhões de toneladas de grãos e um déficit de armazenagem de 13,73 milhões de toneladas.
Brandão et al. (2019) ressaltam a necessidade de promover a construção de novas unidades armazenadoras de modo a mitigar o déficit no armazenamento e, consequentemente, as perdas no período pós-colheita. Tais investimentos fortalecem as atividades desenvolvidas e a região terá grande destaque na produção de grãos.
3 Metodologia
3.1 Caracterização da Área de Estudo
Este estudo foi realizado em uma propriedade da zona rural, local de construção da Unidade Armazenadora de grãos, em nível coletora, no Município de Nioaque, situado no Sudoeste de Mato Grosso do Sul (Microrregião de Bodoquena), na região Centro-Oeste do País. Os dados utilizados na pesquisa foram coletados nos meses de março e maio do ano de 2023. O local possui uma área de 5,00 ha e está localizado nas coordenadas geográficas 21°11'43.96" S, 55°53'14.81" W. O imóvel apresenta características típicas da região, onde as atividades predominantes são agricultura e pecuária.
O clima da região é classificado como Cfa, segundo a classificação de Köppen, apresentando aspecto tropical úmido, com inverno seco (SANESUL, 2016). A média anual de precipitação do Município varia de 1.200 mm a 1.400 mm, tendo como temperatura média anual 25º C. Os solos predominantes são Latossolos, Argissolos e Neossolos. As cidades limítrofes com o Município de Nioaque são Guia Lopes da Laguna, Bonito, Anastácio e Maracaju. O mesmo pertence à bacia hidrográfica do Rio Paraguai e encontra-se a cerca de 180 km de Campo Grande, capital do Estado de Mato Grosso do Sul (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2022).
3.2 Procedimentos Metodológicos
Foram avaliados fatores determinantes para a análise de viabilidade econômico-financeiro na construção de uma unidade armazenadora de grãos com capacidade estática de armazenagem de 6.000,00 toneladas (100 mil sacas de 60 kg). O trabalho foi estruturado e segmentado em três etapas, sendo a primeira a aquisição de informações relacionadas aos aspectos construtivos. A partir de dados e informações fornecidas pelo produtor rural, foram levantados os valores necessários para o investimento inicial de instalação de uma unidade de armazenagem.
O valor do investimento foi realizado por meio de capital de terceiros, via Programa para Construção e Ampliação de Armazéns – PCA, do Banco do Brasil, com taxa de juros de 7% ao ano e prazo de 12 anos para a quitação do financiamento, sem período de carência (Banco do Brasil, 2024). Este será registrado como saídas de caixa, distribuídos ao longo do horizonte de planejamento.
Com relação às máquinas, equipamentos e toda estrutura que foi adquirida e instalada, foi considerado o fator de depreciação, ou seja, a desvalorização/desgaste que afeta o valor de um bem com o passar do tempo. O cálculo da depreciação (Equação 1) foi realizado após atribuir-se vinte e cinco anos de vida útil aos bens relacionados à construção civil, montagens e instalações, e dez anos para os equipamentos. Foi adotado, em ambos os casos, um valor residual de 30% do valor de aquisição dos ativos. A partir dessa premissa, descontou-se o valor residual do valor total do ativo, e dividiu-se o resultado pela vida útil, obtendo-se o valor de depreciação anual de cada item (Fatorelli, 2023).
Na segunda etapa, elaborou-se o fluxo de caixa das atividades agrícolas realizadas pelo produtor, que serviu de base para os cálculos de viabilidade econômica do investimento. De acordo com Soldera & Kühn (2018), o fluxo de caixa é um dos principais instrumentos da análise de viabilidade de um empreendimento, pois apresenta a projeção detalhada de entradas e saídas de recursos financeiros ao longo de um período especifico. Assim, realizou-se o levantamento de dados relativos à projeção de receita, custo de produção, custos operacionais, compromissos já firmados (contas a pagar e a receber), pelo proprietário do empreendimento, para a formação do fluxo de caixa.
Para estimar as receitas ao longo dos 12 anos de financiamento, considerou-se como base a produtividade média de 2023: para a soja, 65 sacas por hectare (3.900 kg ha-1 de rendimento médio) e, para o milho, 110 sacas por hectare (6.600 kg ha-1 de rendimento médio).
Com relação à comercialização dos grãos produzidos, o produtor antecipou a venda de 65% da safra de soja e 75% da safra de milho. O percentual remanescente, correspondente a 35% da soja e 25% do milho, foi armazenado em estrutura própria, o que eliminou custos operacionais com serviços terceirizados de armazenagem, recepção, secagem e limpeza. Esta decisão estratégica permitiu aguardar momentos mais favoráveis do mercado para a comercialização do saldo estocado, especialmente durante o período de entressafra, quando os preços tendem a ser mais atrativos. Além disso, o uso de estrutura própria fortalece a autonomia comercial do empreendimento rural, conferindo maior capacidade de negociação e agregando valor ao produto final.
Na terceira etapa do estudo, com base no fluxo de caixa projetado, foram considerados e calculados indicadores financeiros como Valor Presente Líquido (VPL), Payback, Taxa Interna de Retorno (TIR) e Taxa Mínima de Atratividade (TMA). Essas métricas permitiram uma avaliação precisa e detalhada da viabilidade financeira do investimento (Aureliano, 2024). Adicionalmente, realizou-se a análise de um cenário pessimista, para testar a robustez do projeto diante de condições adversas.
De acordo com Ross et al. (2013), o Valor Presente Líquido (VPL) do investimento quantifica o valor gerado no presente a partir de um aporte que será realizado. Os autores enfatizam que um investimento deveria ser aceito se o valor presente líquido fosse positivo, e recusado se ele fosse negativo.
Para o cálculo do VPL, utilizou-se a Equação 2:
Onde:
FCj = fluxo de caixa;
n = número de períodos de avaliação (meses, anos);
i = percentual de taxa de desconto;
I0 = investimento inicial;
O payback é o período de tempo necessário para recuperar o investimento inicial (Ross et al., 2013). Isto é, os anos necessários para que os fluxos de caixa de um projeto alcancem ou excedam seu custo inicial (Biancalana, 2022).
De acordo com o Banco Central do Brasil (2018), a Taxa Interna de Retorno (TIR) é uma métrica utilizada para estimar a rentabilidade de um investimento ou projeto e comparar fluxos de caixa com prazos e taxas de juros distintos. Ross et al. (2013) afirmaram que com a TIR (Equação 3), pretende-se identificar uma taxa singular de retorno que sintetize as vantagens do projeto e, por ser interna, baseia-se exclusivamente nos fluxos de caixa gerados pelo investimento, sem considerar quaisquer taxas externas.
Onde:
I0 = investimento inicial
FCt = fluxo de caixa em cada período de vida do projeto, t = 1, 2,.., n.
TIR = taxa interna de retorno;
n = número de períodos de avaliação (meses, anos etc);
A Taxa Mínima de Atratividade (TMA) pode ser entendida como o retorno mínimo que um determinado investidor pretende receber em um investimento (Dal Zot & Castro, 2015; Silva & Janni, 2021). Para que sirva como parâmetro de viabilidade econômica, a TMA deve ser analisada em conjunto com a Taxa Interna de Retorno (TIR). O investimento será considerado viável quando a TIR for maior que a TMA. Porém se a TMA for maior que a TIR, não é recomendável prosseguir com o investimento (Leme, 2024).
Já nos casos em que a TIR e TMA forem equivalentes, fica a cargo do empreendedor assumir ou não o risco do investimento.
Para este estudo, a TMA teve como base a taxa Selic do Banco Central do Brasil (2023), no valor 13,75% ao ano, no período de 2023 (ano do levantamento dos aspectos construtivos para este investimento). A taxa Selic é a taxa básica de juros da economia brasileira.
Com o intuito de avaliar os riscos capazes de comprometer a viabilidade econômica do empreendimento, realizou-se a análise de um cenário pessimista, incorporando reduções de receita de -10%, -15% e -20%. Essa modelagem permitiu não apenas identificar o limiar crítico de viabilidade financeira do projeto, mas também determinar, a partir do percentual de redução, o momento em que o investimento se tornou inviável.
Todos os levantamentos financeiros referentes à unidade armazenadora de grãos foram realizados em dólar (US$), na cotação de R$ 5,21 vigente no mês março de 2023, conforme o Banco Central do Brasil (2025). Esta escolha baseia-se em razão de a moeda norte-americana constituir o padrão monetário internacional, atuando como principal lastro financeiro mundial.
4 Resultados e Discussão
4.1 Investimento do Projeto
Na Tabela 1, encontra-se o orçamento referente às construções, montagens e instalações de equipamentos necessários para o funcionamento da unidade de armazenagem de grãos, com capacidade estática de armazenagem de 6.000,00 toneladas. O valor total do investimento foi de US$ 3.016.907,84, podendo este ser pago com capital próprio ou financiamento. O sistema foi projetado para atender às necessidades do produtor e prestação de serviço a terceiros.
De acordo com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil – CNA (Brasil, 2023b), a existência de infraestrutura de armazenagem contribui também para o prolongamento do escoamento da safra. Isso permite que a produção agrícola seja distribuída de maneira mais uniforme ao longo do ano.
Atualmente, a produção de Nioaque é escoada via Campo Grande ou Dourados, sendo que a área destinada à construção do armazém está localizada entre as duas cidades. Na região, em um raio de 50 km não há nenhuma unidade de recebimento de grãos instalada. Logo, considerando que a distância para a entrega do produto será reduzida em mais de 50 km da unidade mais próxima, será gerada uma economia expressiva para o produtor.
4.2 Depreciação e Financiamento
Para a realização dos cálculos de depreciação, foram considerados os ativos citados anteriormente (Tabela 1) que compõem a unidade de armazenamento de grãos. Ao empregar o método de depreciação, considerando períodos de vida útil de 25 e 10 anos e valor residual de 30%, registrou-se um custo anual de depreciação de US$ 130.005,50 (Tabela 2). De acordo com Barros & Fernandes (2014), o valor de depreciação deve ser uma reserva contábil da empresa para gerar fundos que irão possibilitar a substituição dos ativos no final de sua vida útil, ou seja, quando não tiver mais capacidade de uso ou ficar obsoleto.
Conforme a Tabela 3, a adoção do método SAC (Sistema de Amortização Constante) resulta em amortização constante ao longo do financiamento, enquanto os juros decrescem a cada prestação. No fluxo de caixa, as prestações do financiamento constam como encargos financeiros, uma vez que representam desembolsos efetivos que afetam a liquidez do empreendimento.
A liberação de linhas de crédito como as do PCA tem sido uma ferramenta de grande valia para os produtores rurais, pois tem proporcionado a melhoria da infraestrutura e ampliação da capacidade de armazenamento no setor agrícola.
4.3 Projeção de Receita, Custo de Produção, Custos Operacionais e Vantagens da Implantação de uma Unidade Armazenadora
Para estimar a receita anual, tomou-se como base a produtividade das áreas cultivadas pelo produtor na safra de 2023 (Tabela 4). Foram produzidas 234.000 sacas de soja e 396.000 sacas de milho, ao preço médio de US$ 25,10 e US$ 13,03 a saca, respectivamente. A comercialização desta safra gerou uma receita total de US$ 11.031.857,97. Esses valores demonstram que, apesar da diferença expressiva nos preços unitários, o maior volume de milho equilibra a participação relativa de cada cultura na receita total.
Os custos de produção segundo a Conab (Brasil, 2020), são a soma dos valores de todos os recursos (insumos e serviços) utilizados no processo produtivo de uma atividade agropecuária. Sendo assim, na Tabela 5 estão apresentados os custos de produção por hectare das culturas de soja e milho, totalizando o valor de US$ 8.022.976,58. Ainda com relação aos custos, utilizou-se como base a safra 2023.
O custo de produção é uma ferramenta auxiliar na gestão financeira agrícola. Conhecê-lo é essencial para a compreensão da viabilidade econômica de uma atividade e, por isso, desempenha um papel importante na tomada de decisão dos produtores quanto aos produtos, métodos de cultivo, insumos necessários e tecnologias adotadas (Yara, 2024).
O custo operacional é toda a despesa gerada para operar um negócio, ou seja, são os custos dos recursos empregados por uma empresa para que esta execute suas atividades e continue atuando (PRTi Digital, 2021). As despesas operacionais oriundas da unidade armazenadora estão dispostas na Tabela 6. Essas por sua vez, têm um custo total de US$ 202.329,18 ao ano.
De acordo com Silva et al. (2006) a compreensão da constituição da matriz de custos operacionais permite um delineamento mais preciso de estratégias que visam a otimização de custos.
Costa et al. (2022) também enfatizaram que a apuração dos custos de um empreendimento constitui um indicativo de administração eficiente, ao possibilitar uma visão detalhada das operações realizadas. Este processo, por sua vez, favorece uma tomada de decisão mais ágil e objetiva, contribuindo para a obtenção de resultados positivos e esclarecedores.
A instalação de uma unidade armazenadora não implica apenas em custos, mas também proporciona uma série de benefícios econômicos ao proprietário que decide investir nesse tipo de empreendimento. Segundo Figueiredo Neto & Vaz (2022), a principal vantagem consiste na redução dos custos sobre os processos de secagem, armazenagem e limpeza, uma vez que as unidades armazenadoras terceirizadas tendem a cobrar sobretaxas de descarga e de prestação de serviços nos períodos de maior demanda. Na Tabela 7, encontram-se elencadas as vantagens proporcionadas por uma unidade armazenadora de grãos própria, considerando os serviços utilizados para assegurar a qualidade e armazenar 35% e 25% da produção de soja e de milho, respectivamente ao longo de dez quinzenas (150 dias), obteve-se uma economia total de US$ 127.534,50.
4.4 Projeção do Fluxo de Caixa
A administração financeira, por meio do monitoramento do fluxo de caixa, configura-se como instrumento essencial na gestão das finanças, independente do porte ou do segmento do empreendimento (Santos & Brito, 2022). Segundo os autores, essa relevância decorre da necessidade intrínseca de que toda empresa deve dispor de relatórios administrativos consistentes, nos quais os responsáveis pela gestão possam acessar dados confiáveis, que assegurem a estabilidade financeira e possibilitem o planejamento e o acompanhamento econômico da organização.
Com base nos itens abordados ao longo da seção 4, foi elaborado o fluxo de caixa do empreendimento (Tabela 8) para um horizonte de doze anos, com o intuito de realizar a avaliação de viabilidade do projeto de construção de uma unidade armazenadora de grãos. Para tal, adotou-se valores fixos como referência para todo o horizonte de projeção.
Constata-se que no ano zero, foi considerado o valor de investimento de US$ 3.016.907,84 como uma saída de caixa. O Lucro bruto foi estimado em US$ 3.008.881,39.
De acordo com Carvalho (2024) é importante o acompanhamento das atividades e operações financeiras de uma empresa, a fim de obter uma avaliação sobre seu desempenho e resultados, bem como detectar e corrigir eventuais problemas nas operações. Nesse contexto, o controle rigoroso do fluxo de caixa fornece informações detalhadas sobre o andamento do empreendimento, permitindo aferir sua capacidade de quitação de obrigações financeiras e a disponibilidade de recursos.
Conforme os dados da Tabela 8, observa-se que a depreciação não é um desembolso de caixa efetivo. Assim, o valor desta, descontado do lucro bruto, foi reintegrado para o cálculo de fluxo de caixa. De forma teórica, segundo Barros & Fernandes (2014), o montante correspondente à depreciação deve ser poupado de modo a viabilizar a aquisição de outro fator de produção semelhante, quando este chegar ao fim de sua vida útil. Oliveira et al. (2019) advertem que a depreciação é iniciada somente a partir do momento em que o ativo passa a ser efetivamente utilizado pela empresa em condições operacionais adequadas, e não na data de aquisição que consta na nota fiscal.
No que concerne ao imposto de renda, foi observado um acréscimo de 8,5% durante o período de projeção estipulado. Para Coelho & Borba (2018), a adequação do imposto de renda às condições particulares de cada contribuinte deve ser realizada por meio de deduções da renda bruta, afim de que somente a renda líquida (real indicativo da capacidade contributiva) esteja sujeita à incidência tributária.
Após considerar todas as entradas e saídas de capital, foram obtidos os resultados para o fluxo de caixa do primeiro e do último ano de projeto, sendo de US$ 1.758.447,31 e US$ 1.898.796,38, respectivamente. Portanto, além do saldo positivo em todos os anos do fluxo financeiro, houve também um crescimento de 8% dos recursos ao final do horizonte de projeto para o fluxo de caixa, apontando para uma possível viabilidade.
Contudo, em razão do elevado valor do investimento, torna-se importante a realização da análise dos indicadores de viabilidade econômica, os quais possibilitarão uma avaliação mais segura e adequada do projeto.
4.5 Análise de Viabilidade Econômica
Considerando as premissas abordadas no decorrer deste estudo, foi realizada a análise de viabilidade econômica da unidade de armazenagem. Na Tabela 9 estão expressos os resultados que foram obtidos através da avaliação. O Valor Presente Líquido (VPL) do projeto apresentou um valor positivo de US$ 7.340.283,45, e ao término do financiamento, os fluxos de caixa descontados excederam o investimento inicial. Logo, o projeto é tido como viável, com base neste indicador.
Segundo Costa Júnior & Devillart Motta (2022), a obtenção de um VPL positivo evidencia que a empresa está inserida em um projeto economicamente viável, cuja expectativa é a geração de lucros financeiros. Nesse mesmo sentido, Faria et al. (2025) acrescentaram que o VPL positivo demonstra que o fluxo de caixa futuro descontado supera os custos iniciais do projeto, sinalizando que este agrega valor econômico para o investidor.
A Taxa Interna de Retorno (TIR) foi de 58,76%, sendo esta superior a TMA de 13,75%; uma vez que a TIR>TMA, infere-se que o projeto alcançou o objetivo estabelecido e assinala a atratividade do investimento. Assim, o indicador aponta que economicamente o projeto é viável. De acordo com Barbosa et al. (2019), quanto maior for o valor da TIR, melhores são as condições financeiras do empreendimento, uma vez que saldos positivos mais elevados são projetados para períodos futuros.
Conforme o critério do payback, um investimento é considerado viável quando o prazo estimado para o retorno do capital é inferior ao limite temporal previamente definido (Ross et al., 2013). Nesse caso, o Payback obtido foi de 2 anos e 1 mês, ou seja, o retorno do investimento ocorrerá em um prazo inferior ao previsto em financiamento (12 anos) e por isso o mesmo deverá ser aceito.
Desta forma, todos os indicadores de viabilidade empregados neste estudo apresentaram resultados satisfatórios e confirmaram a viabilidade econômica para o investimento proposto
4.6 Análise de Variações da Receita
Como parte fundamental da avaliação de investimentos, a análise de cenários permite testar variáveis distintas que impactam a viabilidade do projeto. Essa abordagem se faz necessária, pois oscilações de capital podem ocorrer e comprometer diretamente a viabilidade econômico-financeira do investimento (Ferreira & Barros, 2023).
Biancalana (2022) afirma que é indispensável a elaboração de cenários alternativos, com ênfase em projeções pessimistas, a fim de avaliar a viabilidade do projeto em condições de receita inferiores às estimadas no cenário base.
A Tabela 10 apresenta os resultados das análises de viabilidade econômica para um cenário pessimista, considerando variações negativas na receita, conforme o delineado na Tabela 8, para os percentuais de -10%, -15% e -20%.
- Resultados dos indicadores de viabilidade econômica (milhões de dólares) para o cenário pessimista com reduções na receita em -10%, -15% e -20%.
O cenário analisado, com redução de receita em -10%, mostrou-se atrativo uma vez que apresentou um VPL positivo no valor US$ 2.763.044,34, e TIR de 32%, superior a TMA proposta de 13,75%, o que reforça a viabilidade do investimento. O payback foi estimado para 4 anos e 4 meses, evidenciando o retorno do investimento antes do prazo proposto no financiamento (12 anos).
Para a variação de receita de -15%, o investimento apresentou-se atrativo, sendo o VPL positivo no valor de US$ 474.424,78. A TIR foi de 17%, superando a TMA, sendo este um parâmetro para a viabilidade do projeto. O payback foi estimado em 9 anos e 2 meses, sinalizando uma recuperação financeira do investimento mais prolongada, mas dentro do período indicado no financiamento.
Já para a redução de receita mais acentuada de -20%, o investimento demonstrou-se inviável, conforme indicaram os resultados negativos. A VPL foi de -US$ 1.814.194,78 enquanto a TIR foi de - 1%, estando abaixo do valor estabelecido para TMA no projeto. Além disso, não foi possível determinar o payback para o horizonte temporal proposto, corroborando a inviabilidade neste cenário.
A Figura 2 apresenta o comportamento dos indicadores econômicos (VPL, TIR, TMA e Payback) em resposta às diferentes variações nos percentuais da receita do projeto.
Portanto os resultados atestam que das três variações negativas analisadas, para um cenário pessimista, apenas a de -20%, mostrou-se inviável economicamente. As demais (-10% e -15%) indicaram viabilidade econômica e apontam para a robustez do projeto, apesar das reduções nas receitas projetadas.
5 Conclusões
O Valor Presente Líquido (VPL) apresentou-se positivo em US$ 7.340.283,45 e a Taxa Interna de Retorno (TIR) em 58,76%, sendo superior a Taxa Mínima de Atratividade (TMA) 13,75%, estabelecida como retorno mínimo desejável para o investimento. O Payback (período de retorno) sinalizou a recuperação do investimento em 2 anos e 1 mês, prazo esse menor que o período financiado.
Para um cenário mais pessimista, com três variações de receitas propostas, apenas a redução de -20%, mostrou-se inviável economicamente. As demais variações (-10% e -15%) indicaram viabilidade econômica e apontam para a robustez do projeto, apesar das reduções no capital.
Portanto, conclui-se que o projeto é economicamente viável e deve ser aceito.
Disponibilidade de dados:
Os dados da pesquisa estão disponíveis sob consulta.
Agradecimentos:
Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pela concessão da bolsa de estudos.
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Como citar:
Rodrigues, T. R., Motomiya, A. V. A., & Pleutin, T. R. R. (2026). Viabilidade econômica para a implantação de uma unidade armazenadora de grãos. Revista de Economia e Sociologia Rural, 64, e298110. https://doi.org/10.1590/1806-9479.2026.298110
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Suporte financeiro:
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ). Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES)
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Aprovação do conselho de ética:
Não se aplica.
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Classificação JEL:
Q12; Q13; D24
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Editor associado:
Erlaine Binotto



Fonte: Elaborado pelas autoras (2026).
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