Abstract
The reasons of the laissez-faire: an analysis of the attack to mercantilism and of the defense of economic liberty in The Wealth of Nations. The main reasons presented in The Wealth of Nations to advocate the system of economic liberty and reject mercantilism are analyzed. These two systems are evaluated considering basically their impact on the annual product, and the degree of liberty and justice they engender. Based on his views of man and of capital hierarchy, Smith defends the superiority of economic liberty in what concerns the growth of the annual product. This system is also considered superior to mercantilism in terms of justice since it does not privilege any sector of society and allows a great level of liberty to the individuals.
Adam Smith; liberalismo econômico; mercantilismo; justiça; acumulação de capital
Adam Smith; liberalismo econômico; mercantilismo; justiça; acumulação de capital
ARTIGOS
As razões do laissez-faire: uma análise do ataque ao mercantilismo e da defesa da liberdade econômica na Riqueza das Nações
Laura Valladão de Mattos *
Da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) E-mail: lauramat@uol.com.br
ABSTRACT
The reasons of the laissez-faire: an analysis of the attack to mercantilism and of the defense of economic liberty in The Wealth of Nations. The main reasons presented in The Wealth of Nations to advocate the system of economic liberty and reject mercantilism are analyzed. These two systems are evaluated considering basically their impact on the annual product, and the degree of liberty and justice they engender. Based on his views of man and of capital hierarchy, Smith defends the superiority of economic liberty in what concerns the growth of the annual product. This system is also considered superior to mercantilism in terms of justice since it does not privilege any sector of society and allows a great level of liberty to the individuals.
Key-words: Adam Smith, liberalismo econômico, mercantilismo, justiça, acumulação de capital.
JEL classification: B12.
INTRODUÇÃO
Como nota Rosenberg, praticamente "(...) qualquer pessoa instruída submetida a um teste de associação de palavras, quando solicitada a identificar algum personagem histórico com o termo 'laissez-faire' responderia 'Adam Smith'"(Rosenberg, 1979: 20).
A metáfora da mão-invisível de Smith habita o imaginário de quase todos os economistas, e é, em geral, interpretada como representando a idéia de que o "mercado" seria uma instituição capaz de "transformar" o auto-interesse individual em benefícios sociais, sem a necessidade de intervenção da "mão-visível" do Estado1. A este cumpriria apenas garantir a ordem institucional e administrar a justiça.
Nesta interpretação convencional (ou canonizada) Smith é representado como sendo um "(....) apologista do capitalismo liberal, o pregador do desejo ininterrupto dos indivíduos melhorarem suas condições, o porta-voz do livre comércio (free-trade)" (Winch, 1994:60)2.
Ao longo do tempo, diversos esforços foram empreendidos no sentido de corrigir e qualificar esta visão. As inúmeras funções sociais e econômicas atribuídas por Smith ao Estado na Riqueza das Nações (doravante RN) foram enfatizadas, as suas posições políticas foram analisadas e a compreensão dos especialistas refinou-se consideravelmente.3 No entanto, a visão "canonizada" em pouco se modificou.
No aspecto específico que este artigo pretende abordar, é possível observar que apesar de Smith ser consensualmente associado à liberdade econômica, há muitas distorções na visão mais corrente sobre o autor no que concerne ao significado que esta assumiu em sua obra e às razões que ele aponta para a sua defesa. Não há como negar que Smith criticou duramente as diversas regulamentações e privilégios encampados pelos Estados nacionais de sua época e contrapôs a este conjunto de intervenções o seu 'sistema de liberdade natural'. No entanto, as interpretações usuais sobre as razões pelas quais Smith rejeita o "intervencionismo" e defende o "liberalismo" são anacrônicas, estando muito mais relacionadas a concepções atuais sobre o funcionamento dos mercados, do que à visão que Smith tinha da economia e sociedade no final do século XVIII.
Vale, portanto, voltar novamente o olhar para este aspecto da obra de Smith. O artigo pretende, assim, analisar os dois principais sistemas que ele confronta na RN, ou seja, "o sistema mercantil" e "o sistema de liberdade natural", e expor os argumentos arrolados para defender que este último seria superior. Esse exercício revelará que as razões apresentadas por Smith estão intimamente ligadas a concepções peculiares de natureza humana, de Estado, de riqueza, da contribuição de cada setor da economia para o produto nacional, de justiça, etc. muitas das quais foram paulatinamente abandonadas por seus seguidores e dificilmente seriam endossadas pelos autores atuais que citam Smith em apoio ao laissez-faire.
Ao contextualizar a defesa que Smith faz do seu "sistema de liberdade natural", acredito que esse artigo poderá contribuir para as tentativas recentes de Tribe (1999), Brown (1994) Winch (1983,1992 & 1994) de "(...) resgatar Smith daquelas perspectivas do século XIX predominantemente marxistas ou liberais, que dominaram nosso pensamento (...)"(Winch, 1994: 261). Talvez o "Smith" resultante não seja tão passível de ser utilizado em apoio a teorias e posições políticas atuais quanto é a visão canonizada. No entanto, acredito que se ganhará uma melhor compreensão das questões que mobilizaram há mais de dois séculos os esforços deste grande pensador.
Com o objetivo de reconstruir a crítica de Smith ao mercantilismo e as bases da sua defesa do sistema de liberdade natural, o artigo contará com esta introdução, três seções, uma conclusão e referências bibliográficas. Na seção II serão expostos os sistemas "mercantil" e de "liberdade natural". Na seção III serão apresentados os fundamentos econômicos para a sua crítica ao mercantilismo e sua defesa da liberdade natural. Na seção IV será exposta a avaliação que Smith apresenta dos dois sistemas com base nos critérios de justiça e liberdade. Por fim, na seção V serão tecidas algumas considerações finais.
VISÕES ALTERNATIVAS DE SISTEMAS DE ECONOMIA POLÍTICA: O "SITEMA MERCANTIL" E O "ÓBVIO E SIMPLES SISTEMA DE LIBERDADE NATURAL"
É quase impossível caracterizar o que seria o 'sistema de liberdade natural' de Smith sem fazer referência ao que ele denomina 'sistema comercial ou mercantil', uma vez que o primeiro aparece praticamente como uma antítese do segundo.4 Como sugere poeticamente Schumpeter, é das cinzas do sistema mercantil que "(...) emerge, como fênix, o sistema político de Smith" (Schumpeter, 1966: 186-7). E, de fato, o "sistema de liberdade natural" (e a famosa metáfora da mão invisível) foi apresentado no Livro IV da RN, no contexto de uma discussão crítica deste sistema.
Nos séculos que se seguiram à publicação da RN o interesse dos economistas voltou-se, em geral, para os seus dois primeiros livros nos quais é explicitada a teoria de Smith sobre a natureza e as causas da riqueza.5 No entanto, seria um erro minimizar a importância que os demais livros tinham para Adam Smith e para os leitores do século XVIII. A discussão de "(...) conomia Política, considerada como um ramo da ciência do estadista ou legislador, [que] se propõe dois objetivos distintos; primeiro, prover um rendimento (revenue) ou subsistência abundante (plentiful) para o povo (people) ou, mais propriamente, permitir que eles provejam tal renda ou subsistência para eles mesmos; e em segundo lugar, ofertar ao Estado ou Commonwealth, uma renda suficiente para os serviços públicos."(WN, IV, i: 428) era, segundo Schumpeter (1966: 186), o que interessava acima de tudo a Smith e aos contemporâneos.6 A própria estrutura da RN revela isso: somados, os livros IV (sobre os Sistemas de conomia Política) e V (que discute os deveres e as fontes de receitas do Estado) ocupam nada menos do que 57% da obra (idem).
Podemos até argumentar que toda a obra culmina neste livro.7 Como nota Brown,"(...) os elementos teóricos subjacentes ao sistema de liberdade natural são desenrolados a um ritmo vagaroso ao longo dos três primeiros livros e são então colocados em ação no decorrer do longo livro IV."(Brown, 1994: 197). Smith expõe a teoria que ele considera correta sobre a natureza e causas da riqueza para, na seqüência, se lançar à tarefa de respaldar a crítica ao mercantilismo no rigor da teoria econômica (Coutinho, 1993: 136).
Assim, a tentarei seguir caracterizar o que Smith entender por "sistema mercantil" e "sistema de liberdade natural", para depois, em seções posteriores, expor as críticas ao primeiro e os argumentos utilizados na defesa do laissez-faire como alternativa superior.
O "sistema comercial ou mercantil"
Smith praticamente "inventa" a escola mercantilista (na verdade um conjunto de políticas, artigos, panfletos, propaganda, etc.) ao sistematizar no Livro IV os seus pontos centrais antes de combatê-los8.
Segundo ele, as principais características desse sistema seriam: a identificação de riqueza com riqueza metálica, e a idéia de que para deter metais era preciso manter a Balança Comercial superavitária (WN, IV, i: 450). Aceitos esses princípios, "(...) tornou-se necessariamente o grande objeto da conomia Política [dos mercantilistas], diminuir tanto quanto possível a importação de produtos externos para o consumo doméstico, e aumentar tanto quanto possível a exportação do produto da indústria doméstica. Seus dois grandes mecanismos para enriquecer um país, portanto, eram restrições sobre importações e incentivos às exportações. (WN, IV, i: 450).
Ao Estado caberia, então, intervir na vida econômica de forma a garantir que a ação dos indivíduos engendrasse o maior acúmulo possível de metais para a nação.
Smith dedica praticamente todo o Livro IV da RN à análise detalhada das principais políticas que ele associa a este sistema de conomia Política que são divididas, em grandes linhas, em políticas que limitam as importações e estimulam as exportações.
Do lado das restrições às importações, ele discute a limitação imposta à importação de produtos produzidos domesticamente (similares nacionais), especialmente quando provenientes de países com os quais a nação apresentasse déficits comerciais. Do lado do estímulo às exportações, Smith analisa as políticas de drawbacks; de subsídios (bounties); os tratados comerciais e a política colonial9.
Mas as políticas mercantilistas não se limitavam a essas medidas. Smith discute também algumas políticas que visavam estimular a importação e restringir a exportação de matérias primas com o objetivo de tornar as manufaturas mais competitivas, além de medidas que restringiam a liberdade dos artesãos, impedindo-os de trabalhar ou residir em outros países como forma de evitar que seu saber fosse apropriado pelos países concorrentes.
Vários aspectos deste conjunto de políticas que constituiriam o "sistema mercantil" foram duramente atacados por Smith. Neste artigo serão analisadas basicamente duas críticas que avalio como sendo as mais importantes na RN: uma crítica mais especificamente "econômica", e uma crítica de caráter mais filosófico, que diz respeito aos graus de justiça e liberdade garantidos pelo sistema.10
Sendo a RN um livro que se propõe a estudar a natureza e as causas da riqueza das nações, não é de se estranhar que a crítica "econômica" seja a mais elaborada e desenvolvida. No entanto, a questão da justiça também aparece de forma recorrente na obra. Como veremos, ao comparar o mercantilismo com o 'sistema de liberdade natural', Smith argumenta que este último além de ser o que tenderia a maximizar a riqueza das nações, seria também o mais justo e que permitiria o maior grau de liberdade aos indivíduos.
O "óbvio e simples sistema de liberdade natural"
Se o mercantilismo caracterizava-se pela predominância de restrições, privilégios, concessões, subsídios, incentivos, etc. com vistas a aumentar a quantidade de metais preciosos do país, o "sistema de liberdade natural" (a sua antítese) define-se essencialmente pela ausência desses cerceamentos ou privilégios no âmbito das atividades econômicas dos indivíduos:
"Todos os sistemas de preferências ou de restrições sendo, portanto, completamente retirados, o sistema óbvio e simples de liberdade natural se estabelece espontaneamente. Todo homem, desde que não viole as leis de justiça, é deixado perfeitamente livre para buscar seu próprio interesse do seu próprio jeito, e para colocar o seu empenho (industry) e o seu capital em concorrência com aquele de qualquer outro homem, ou ordem de homens (...)" (WN, IV, ix: 687).
O escopo da atuação do Estado seria, neste sistema, evidentemente bem mais restrito do que aquele defendido pelos mercantilistas. No entanto, é importante frisar que, mesmo no "sistema de liberdade natural", o Estado continuaria a exercer funções essenciais para o bom funcionamento da economia e para a garantia da estabilidade, ordem e desenvolvimento sociais. Smith aponta três funções básicas (e cruciais) para o Estado: a garantia da defesa nacional, a administração da justiça e a execução de obras públicas que, apesar de importantes para a sociedade, não seriam empreendidas se deixadas ao encargo das decisões individuais entre elas, podemos citar como relevantes, a educação e as obras de infra-estrutura (WN, IV, ix: 688). 11 Assim, o Estado deveria ser atuante, mas não deveria assumir a função de deliberadamente tentar direcionar ou influenciar as decisões individuais sobre onde aplicar as suas energias ou o seu capital.
"(...) O soberano é completamente isento (discharged) de um dever; de tentar desempenhar aquilo para o qual ele está necessariamente sujeito a inúmeros enganos (delusions), e para a boa performance do qual nenhuma sabedoria ou conhecimento humano poderia jamais ser suficiente; o dever de dirigir (superintending) a atividade (industry) das pessoas privadas, e de direcioná-la para os empregos mais favoráveis para a sociedade (...)" (WN, IV, ix: 687).
Assim, no "sistema de liberdade natural", o Estado retirar-se-ia de boa parte das funções que estava exercendo (o que incluía todo o sistema de regulação mercantilista) e deixaria que os indivíduos, guiados por seu auto-interesse, escolhessem livremente onde empregar as suas energias.
Estas seriam, no meu entender, em linhas gerais, as principais características atribuídas por Smith a estes dois sistemas que estão em embate na RN.
Mas quais seriam, para Smith, as virtudes do sistema de "liberdade natural" vis-à-vis o 'sistema mercantil'? Em outras palavras, por que ele considera o laissez-faire uma política mais desejável do que o intervencionismo mercantilista?
AS CRÍTICAS "ECONÔMICAS" AO "SISTEMA MERCANTI" E A DEFESA DO "SISTEMA DE LIBERDADE NATURAL"
Smith não parece questionar no âmbito da RN a riqueza (da população e do Soberano) como meta a ser perseguida.12 Tanto que no centro da sua defesa do "sistema de liberdade natural" está o argumento de que este produziria melhores resultados em termos de riqueza do que os produzidos quando o Estado se incumbe de promovê-la intencionalmente por meio de restrições ou estímulos a atividades específicas.
No entanto, subjacente às suas criticas econômicas ao "sistema mercantil" está uma redefinição do que é riqueza e de qual seria a sua origem13. A riqueza passa a estar associada à quantidade de bens e serviços à disposição da população, e o trabalho é apontado com a sua fonte14:
"O trabalho anual de cada nação é o fundo que originalmente a provê com todos os confortos e bens necessários à vida que ela anualmente consome, e que consiste sempre, ou de produto direto deste trabalho ou daquilo que é comprado de outras nações com base neste produto" (WN, Introdução: 10).
É importante notar, no entanto, que, para Smith, não interessa apenas riqueza enquanto estoque de bens seu ritmo de crescimento da riqueza aparece também como uma variável fundamental. A questão da acumulação de capital e do crescimento do produto anual da nação é central à sua análise porque dela dependeria, por exemplo, a qualidade de vida dos trabalhadores.15
Assim, a riqueza não é mais definida como sendo quantidades de ouro e prata e a sua fonte não é mais vista como sendo o comércio externo. E, como o trabalho e não o comércio é visto como a fonte da riqueza, Smith desvia o foco do saldo comercial para um outro "saldo" que ele considera crucial para a prosperidade (ou decadência) da nação:
"(...) Esse é o saldo (balance) do produto e do consumo anual. Se o valor de troca do produto anual (...) excede aquele do consumo anual, o capital da sociedade aumenta na proporção desse excesso (...) o que é economizado anualmente da receita é naturalmente adicionado ao seu capital, e empregado de forma a aumentar ainda mais o produto anual. Se, ao contrário, o valor do produto anual é menor do que o do consumo anual, o capital da sociedade irá anualmente decair na proporção dessa deficiência (...) e junto com ele o valor de troca do produto anual de sua indústria (industry)" (WN, IV, iii: 497).
Portanto, a análise do que ocorre com o valor do produto anual ou, o que é a mesma coisa, com a renda anual (WN, IV, ii: 455) é essencial. Aumentos no valor do produto anual (e da renda) propiciariam um aumento na poupança e isso, por sua vez, se traduziria em adição ao capital do país (WN, II, v: 366) e em um subseqüente aumento na riqueza.
Neste contexto, fica claro que, para Smith, mesmo que as políticas mercantilistas, porventura, surtissem o efeito visado de aumentar a quantidade de metais da nação o que ele questiona elas não estariam aumentando a sua riqueza (agora redefinida). Pelo contrário, veremos que, para Smith, as regulamentações do "sistema mercantil" teriam o efeito inverso de diminuir a riqueza dos países que as adotam ao diminuir o valor do seu produto anual.
A "hierarquia" dos setores econômicos e o caminho para a maximização da riqueza
No Livro II, Smith introduz o argumento de que uma mesma quantidade de capital aplicada a diferentes setores da economia engendraria efeitos diferentes em termos da quantidade de trabalho produtivo empregada, e em termos de acréscimo ao valor do produto anual. Com base nesta capacidade de gerar empregos produtivos e de aumentar o valor do produto, Smith ordena os diversos setores.
Nesta hierarquia, a agricultura ocuparia um lugar de destaque uma vez que para Smith, "[n]enhum capital de igual dimensão (equal capital) coloca em movimento uma quantidade maior de trabalho produtivo do que aquele do fazendeiro (farmer)(...)" (WN, II, v:363), ou adiciona mais "(...) ao valor do produto anual da terra e do trabalho do país,[e] à riqueza real em rendimento de seus habitantes." (WN, II, v: 364). 16 Assim, ele conclui que "(...) [d]e todas as formas nas quais o capital pode ser empregado, esta é de longe a mais vantajosa para a sociedade." (idem).
O trabalho produtivo na agricultura seria capaz não somente de repor um valor igual ao capital que o empregou acrescido da remuneração do capitalista, mas reproduziria um valor muito maior que permitiria também o pagamento de uma renda para o dono da terra (WN, II, v: 364).
A seguir nesta ordenação encontrar-se-ia a manufatura (WN, II, v: 366) que reporia o capital adiantado à produção com lucro, mas seria incapaz de gerar uma renda da terra. Depois viriam as atividades ligadas ao comércio que Smith subdivide em três, a saber, comércio doméstico (home trade), comércio externo de consumo (foreign trade of consumption), comércio externo de transporte (carrying trade) e, utilizando os mesmos critérios, ordena-os nesta ordem (WN, II, v: 371-2). 17
Assim, o mais proveitoso para a sociedade seria a que a aplicação avançasse nesta ordem da agricultura para o comércio externo apenas na medida em que as oportunidades de emprego dos capitais nos setores mais produtivos fossem se esgotando. Desta forma, a renda e o valor do produto seriam maximizados, e o maior crescimento da riqueza da nação seria promovido.
Uma avaliação "econômica" das políticas mercantilistas
Uma conclusão que se tira desta análise é que, para Smith, o Estado "(...)[n]ão deve, portanto, dar preferência nem encorajamento superior ao comércio externo para consumo sobre o comércio doméstico, nem para o comércio de transporte (carrying trade) sobre qualquer dos dois. Não deve forçar nem atrair para esses dois canais uma parcela maior do capital do país do que naturalmente se direcionaria para eles por conta própria" (WN, II, v:372). No entanto, este era exatamente o impacto das diversas políticas adotadas na vigência do mercantilismo.
Como vimos, de uma forma geral os governos voltaram-se "(...) para cuidar (watch over) da Balança Comercial, como a única causa que poderia ocasionar qualquer aumento ou diminuição daqueles metais [preciosos](...)" (WN, IV, i: 435). E com isso, o "(...) o comércio interno ou o comércio doméstico (...) foi considerado apenas subsidiário ao comércio externo (...)" (idem).
Na verdade, a preponderância do comércio externo sobre o doméstico e das cidades sobre o campo não é atribuída por Smith unicamente a essas políticas. No Livro III, Smith discorre longamente sobre os eventos ocorridos desde a queda do Império Romano, e argumenta que uma série de fatos e instituições fez com que a agricultura se tornasse, aos olhos dos indivíduos, desvantajosa em relação às atividades desenvolvidas nas cidades. Especial ênfase é dada à boa administração da justiça e às garantias à propriedade e à pessoa que, por razões políticas e institucionais, passaram a vigorar antes nas cidades do que no campo (WN, III, iii: 405) .18
Assim, o "(...) empenho (industry) que visa a algo além da subsistência foi estabelecido nas cidades muito antes de ser comumente praticada no campo." (idem), o que fez com que as cidades enriquecessem e o campo permanecesse, ao contrário, pobre e mal cultivado. E, sem encontrar mercado para o seus produtos nas zonas rurais, as cidades acabaram desenvolvendo-se vinculadas aos mercados externos (Bowles, 1986: 113).
O fato de grande parte das atividades das cidades, ao contrário do que ocorria no campo, serem regulamentadas por corporações de ofícios, também teria contribuído para tornar essas atividades mais atraentes. Ao limitarem artificialmente o número de trabalhadores nestas atividades (limitando o número de aprendizes que cada artesão poderia ter, ou exigindo dos interessados a exercerem a profissão longos períodos de aprendizagem sob a orientação de um mestre artesão) as leis das corporações teriam tido o efeito de aumentar os salários e lucros prevalecentes nas cidades acima do que seriam na sua ausência, tornando as atividades no campo menos rentáveis quando comparadas às das cidades (WN, I, x, c: 142).
No entanto, apesar de não terem sido as únicas responsáveis pela situação vigente, as políticas mercantilistas certamente vieram a aumentar essa distorção e reforçar essa tendência .19
A avaliação geral de Smith é que, ao privilegiarem os mercados externos em relação ao interno e a manufatura em relação à agricultura, as regulamentações mercantilistas teriam engendrado um resultado no qual a "(...) indústria (industry) do país é desviada de um emprego melhor para um emprego pior (...)"(WN, IV, ii: 457). Ele conclui, então, que "(...) o valor de troca do produto anual ao invés de ser aumentado, conforme a intenção do legislador (lawgiver), será necessariamente reduzido por qualquer regulação do gênero"(idem).
Estas políticas reduziriam também o ritmo de acumulação de capital nos países onde eram implementadas e, portanto, a possibilidade de crescimento futuro. Segundo Smith, a sua adoção "(...) [n]ão só impede sempre o capital de manter uma quantidade tão grande de trabalho produtivo do que de outra forma manteria, mas também o impede de aumentar tão rapidamente quanto iria de outra forma aumentar e, conseqüentemente, de manter uma quantidade ainda maior de trabalho produtivo." (WN, IV, vii: 608).
Assim, para Smith, o enorme crescimento da riqueza observado no período no qual prevaleceram políticas mercantilistas não poderia ser explicado pela adoção das recomendações provenientes do "sistema mercantil" 20. Ele não decorreria da existência de proteções, restrições ou monopólio, mas ao contrário, seria conseqüência do ambiente de liberdade e justiça que prevalecia, em maior grau na Grã-Bretanha do que nas outras nações. O seu sucesso econômico devia-se "(...) acima de tudo, àquela administração igualitária e imparcial da justiça que torna os direitos do mais miserável (meanest) súdito britânico respeitável frente aos poderosos (respectable to the greatest) e que ao assegurar para todos os homens os frutos de seu próprio empenho (industry), dá o maior e mais efetivo encorajamento a todo tipo de esforço (industry)" (WN, IV, vii: 610).21
Enfim, segundo Smith, apesar não terem sido suficientes para impedir o crescimento, as políticas mercantilistas teriam retardado ou diminuído o crescimento potencial das nações ao direcionar artificialmente o capital de usos mais produtivos para usos menos produtivos. Assim, teriam feito com que o crescimento da opulência se tornasse "(...) vagaroso, incerto e sujeito a ser interrompido por inúmeros acidentes" (WN, I, x, c: 145).
O "sistema de liberdade natural" e o "progresso natural da opulência"
No entanto, o fato de o mercantilismo ser um arranjo institucional "inadequado" não prova a superioridade do "sistema de liberdade natural". Resta ainda expor argumentos para sustentar que esse sistema seria mais desejável.
Em termos do crescimento do produto nacional, por exemplo, não é de forma alguma auto-evidente que os resultados seriam preferíveis.
Smith afirma que retirados os "sistemas de preferências ou de restrições" os indivíduos irão buscar "o seu próprio interesse do seu próprio jeito", no entanto, disto não se deduz que eles irão aplicar os seus capitais da forma que gere mais riqueza para a sociedade. Pelo contrário, Smith é explicito em afirmar que maximizar o valor do produto anual simplesmente não faz parte das metas individuais:
"A consideração de seu próprio lucro privado é o único motivo que leva um dono de qualquer capital a empregá-lo na agricultura, na indústria ou em algum ramo particular do comércio atacadista ou varejista. As diferentes quantidades de trabalho produtivo que ele pode adicionar ao produto anual da terra e do trabalho da sociedade de acordo com ele ser empregado em uma ou outra dessas formas nunca passa por seus pensamentos (never enter into his thoughts)( )" (WN, II, v, 374, ênfase adicionada).
Os indivíduos só aplicariam, portanto, os seus capitais na ordem mais benéfica socialmente, caso esta ordem fosse por eles percebida como a mais favorável à promoção dos seus interesses individuais.
E aqui se coloca o argumento fundamental de Smith sobre como, na vigência do "sistema de liberdade natural", os interesses individuais se vinculariam àqueles da comunidade com o um todo. Na base da sua defesa está a idéia de que, quando seguidas livremente, as próprias inclinações inerentes aos indivíduos os levariam a aplicar os seus respectivos capitais exatamente naquela ordem mais favorável à sociedade. Assim, o "sistema de liberdade natural" seria capaz de produzir um resultado que as instituições mercantilistas não eram capazes de produzir, ou seja, ele amarraria de forma indelével o auto-interesse individual e o interesse social.22
No centro desta análise estão duas motivações do homem. A busca do lucro sempre enfatizada nas interpretações sobre o funcionamento da "mão invisível" e o desejo de segurança, que também é crucial, mas que tem sido muitas vezes negligenciado.23
Segundo Smith, além de terem impactos diferenciados no produto e renda nacional, as aplicações do capital forneceriam em diferentes ramos de atividade um sentimento (e um nível) de segurança diverso ao capitalista. E a avaliação deste último elemento seria fundamental nas suas escolhas sobre como alocar o capital.
Para Smith, a aplicação de capital que daria aos indivíduos uma maior sensação de segurança seria o seu emprego na atividade agrícola. O capital "(...) que é fixado no melhoramento da terra parece ser tão seguro quanto a natureza dos assuntos humanos permite que seja (...)"(WN, III,i: 378). Mas este não seria o único atrativo da atividade agrícola: "(...) A beleza do campo e, além disso, os prazeres de uma vida campestre, a tranqüilidade de espírito que promete, e onde a injustiça das leis humanas não a atrapalha, a independência que ela fornece, tem um charme que atrai praticamente todo mundo (...)" (idem).
Os indivíduos sentir-se-iam mais seguros e felizes (dado lucros semelhantes) ao investirem seus capitais na agricultura do que na manufatura, no comércio interno ou no comércio externo. Por razões semelhantes, Smith afirma que naturalmente o setor de manufaturas seria preferível ao comércio externo por este estar "(...) sempre mais à sua vista e comando (...)"(WN, III, i: 379).
O curso natural do desenvolvimento das nações ou "progresso natural da opulência" aquele que vigoraria na ausência de restrições, leis, costumes ou outros tipos de interferências que distorceriam as decisões alocativas dos agentes se daria, portanto, da seguinte forma: "(...) a maior parte do capital de qualquer sociedade em crescimento é direcionada em primeiro lugar à agricultura, depois à manufatura e por último ao comércio externo." (WN, III, i: 380).
E esta, como vimos, seria a seqüência que ao respeitar a hierarquia de produtividade do capital maximizaria a riqueza24.
Temos, assim, uma das principais peças da defesa de Smith da liberdade econômica, pois neste contexto, o "(...) o interesse e paixões privados dos indivíduos naturalmente os dispõem a direcionar o seu estoque para os empregos nos quais de forma geral são mais vantajosos para a sociedade (...)" (WN, IV, viii: 603)25 e as bases econômicas para o feroz ataque de Smith ao mercantilismo, já que, segundo o autor, "[t]odas as diferentes regulamentações do sistema mercantil necessariamente perturbam mais ou menos essa distribuição natural e mais vantajosa do estoque" (idem).
Vimos que as políticas mercantilistas e outras instituições humanas acabaram por solapar os benefícios naturais em termos de sensação de segurança, liberdade e independência que levariam as pessoas a preferirem naturalmente investir na agricultura a investirem nas manufaturas, e as atividades relacionadas ao mercado externo, as menos "produtivas" dentre as diversas aplicações de capital, se tornaram prematuramente estimuladas. O curso natural foi, assim, "(...) inteiramente invertido" (WN, III, i: 380) e, na avaliação de Smith, a ordem que prevaleceu historicamente seria uma "(...) ordem não natural e retrógrada" (idem) e socialmente menos desejável por diminuir as possibilidades de crescimento da riqueza.26
O "sistema de liberdade natural" proposto por Smith envolveria, em grande medida, a correção de vários dos fatores que causaram essa inversão indesejável da "ordem natural" da opulência. Isto implicaria uma diminuição do peso do comércio externo e das manufaturas e um crescimento relativo do setor agrícola.27 Neste ambiente institucional, as escolhas que favoreceriam individualmente os agentes seriam compatíveis com aquelas que maximizam a opulência das nações. Este é, talvez, o principal argumento arrolado na RN por Smith na sua defesa da liberdade natural.
No entanto, como foi mencionado anteriormente, a avaliação do resultado econômico das regulamentações mercantilistas, apesar de ter bastante relevo na RN, não foi o único critério utilizado por Smith para chegar à conclusão de que o sistema de liberdade natural seria superior ao mercantil. Também no que se refere a justiça e liberdade este sistema engendraria resultados mais desejáveis.
CONSIDERAÇÕES SOBRE JUSTIÇA E LIBERDADE: A SUPERIORIDADE DO "SISTEMA DE LIBERDADE NATURAL" VIS-À-VIS O "SISTEMA MERCANTIL"
Para Smith, o conceito de justiça não envolve a noção de igualdade, pelo contrário, ele remete a desigualdade de riquezas às diferenças naturais existentes entre os indivíduos no que se refere ao seu empenho, diligência e suas habilidades.28 E seria justamente a existência de grandes desigualdades de fortuna que tornaria, segundo Smith, necessária a existência do governo. Este teria a incumbência de impedir que a busca auto-interessada dos pobres os levassem a prejudicar os ricos que através de seu empenho e esforço acumularam mais propriedade (WN, V, i, b: 710).29 Assim, garantir a justiça envolveria "(...) proteger, tanto quanto possível, todo membro da sociedade de injustiça e opressão por parte de todos os seus outros membros (...)" (WN, V, i, b: 708).30
Quando utilizado como critério para avaliação de políticas, o conceito de justiça ganha em Smith, segundo Campbell, o significado de um "(...) tratamento imparcial que implica igualdade perante a lei: nenhum indivíduo ou grupo deve ser premiado com privilégios especiais ou deve ser forçado a suportar restrições especiais" (Campbell, 1996: 355).
Neste sentido Smith coloca:
"(...) Ferir em qualquer grau os interesses de qualquer ordem de cidadãos, por nenhuma outra razão que não a de promover aqueles de outra ordem, é evidentemente contrário àquela justiça e igualdade de tratamento que o soberano deve a todas as diferentes ordens de súditos" (WN, IV, vii: 654).
No entanto, como vimos, na percepção de Smith, era exatamente isso que as políticas mercantilistas e instituições tais como as leis de corporações, Settlement Laws, estariam fazendo elas promoveriam os interesses de alguns em detrimento dos interesses dos demais membros da sociedade.31 No que se refere especificamente ao sistema mercantilista, os principais beneficiários seriam, segundo Smith, os mercadores e alguns ramos da manufatura e os principais prejudicados seriam os outros segmentos da produção (em especial os donos de terra, fazendeiros farmers e trabalhadores rurais) e os consumidores em geral, que eram forçados a pagar um preço mais elevado do que aquele que prevaleceria sob condições competitivas.32 Os interesses dos comerciantes e manufatores se oporiam, neste sentido, aos da maioria da população e privilegiá-los seria, segundo o autor, além de inadequado do ponto de vista econômico, socialmente injusto.
Winch (1992) aponta a importância deste argumento em relação à justiça nas reflexões de Smith.33 Os ganhos e perdas devidos à legislação mercantil não eram medidos apenas de acordo com o impacto das transferências de renda ou dos benefícios pecuniários, a sua justiça também era considerada:
"(...) Não é dado um status supremo à Justiça, mas ela é uma das considerações que devem ser constantemente lembradas (borne in mind) por aqueles avaliando políticas e instituições" (Winch, 1992: 100).
Assim, não somente em termos econômicos o sistema de liberdade natural parecia, para Smith, preferível ao "mercantil", ele seria também mais justo.34 Ao serem retirados os privilégios e as restrições (inclusive aquelas relacionadas às corporações de ofício, às Settlement laws, etc.) a igualdade de tratamento dos súditos seria estabelecida e as injustiças grandemente minoradas. Sob esse sistema, estaria garantida a proteção à pessoa e à propriedade e um tratamento não discriminatório em relação aos cidadãos.
CONCLUSÃO
De uma forma geral, pode-se afirmar com segurança que Smith prezava o advento da sociedade comercial. Além de ter propiciado um enorme aumento de riqueza para a sociedade por meio da divisão de trabalho e acumulação de capital, este processo teria resultado em um aumento na segurança, na liberdade, na justiça, na autonomia e na redução nas relações de dependência pessoal.35 Estes elementos, por sua vez, teriam estimulado ainda mais o aumento na riqueza, já que, em um ambiente de maior de segurança e de liberdade, as virtudes da prudência e a parcimônia teriam sido incentivadas e o desejo de melhorar a condição material se tornado um eficaz incentivo ao esforço e diligência individuais.
Entretanto, apesar de esta forma de sociabilidade ter sido engendrada, em parte, sob a égide de uma série de regulamentações (mercantilistas e de natureza feudal), argumentou-se que, para Smith, estas intervenções humanas apenas entravavam o processo de desenvolvimento não constituindo boas formas de gerir a sociedade comercial.36
Como os elementos necessários para o crescimento econômico estariam, em grande medida, para Smith, inscritos no próprio homem, a prosperidade exigiria, basicamente, deixar os homens guiarem-se espontaneamente pela sua natureza, tomando as suas decisões com base nestas inclinações naturais.37 O "sistema de liberdade natural" aparece, assim, do ponto de vista econômico, como sendo um conjunto de instituições que compatibilizaria as inclinações naturais dos homens com resultados socialmente benéficos, medidos em termos do aumento máximo da riqueza mágica esta que, como vimos, as instituições do sistema mercantil não seriam capazes de operar.
No que concerne à justiça e à liberdade, o "sistema de liberdade natural" também seria, segundo Smith, superior. Ao retirar boa parte das restrições impostas aos indivíduos, e ao não privilegiar nem punir qualquer classe de indivíduos, este sistema garantiria graus de justiça e de liberdade maiores do que o sistema mercantil.
Como deve estar claro, esta defesa que Smith faz do "sistema de liberdade natural" vis-à-vis o "sistema mercantil" está fundamentada em concepções bastante peculiares sobre natureza humana, produtividade dos capitais, justiça, etc. Concepções estas que poucos economistas atuais estariam dispostos a aceitar integralmente.38 Como foi visto, Smith não utiliza nesta defesa os argumentos mais familiares aos economistas modernos como, por exemplo, aqueles sobre a eficiência de mercados competitivos, ou sobre a importância de se garantir a liberdade de escolha dos indivíduos, etc. as suas preocupações são outras.
Sendo assim, acredito que evocar, hoje, a "mão invisível" de Smith como justificativa para defender o liberalismo econômico apesar de eficiente em termos retóricos é prestar um duplo desserviço. Descontextualiza-se, por um lado, o pensamento de Smith, contribuindo para disseminar uma versão empobrecida (ou distorcida) do seu sistema. Por outro, acrescenta-se muito pouco ao entendimento das razões que, de fato, estão subjacentes a essas defesas modernas do laissez-faire, uma vez que me parece evidente que não são aquelas apresentadas por Smith na RN.
Submetido: junho 2005; aceito: outubro 2005.
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