Resumo
Este estudo analisa a trajetória de uma família venezuelana que migrou para Manaus (AM) a partir de 2019 em busca de tratamento oncológico, enfrentando posteriormente a pandemia de Covid-19. Apoiado na abordagem de narrativas de vida e em uma perspectiva conjuntural multiescalar, o artigo investiga os impactos do deslocamento transnacional motivado por demandas de alta complexidade em saúde. Os resultados demonstram que, embora o marco legal garanta o acesso formal dos migrantes ao SUS, a efetividade do cuidado esbarra em vazios assistenciais crônicos da fronteira amazônica. Para o migrante isolado de suas redes de apoio, o colapso estrutural torna a estratégia de "itineração" e improviso insuficiente. Conclui-se que a proteção integral do migrante exige a superação de abordagens emergenciais, demandando a revisão do pacto federativo com aportes financeiros específicos que estruturem a atenção de alta complexidade para populações em mobilidade nas regiões fronteiriças.
Palavras-chave:
migração de saúde; Sistema Único de Saúde; pandemia por Covid-19; itineração; vulnerabilidade em saúde
Abstract
This study analyzes the trajectory of a Venezuelan family that migrated to Manaus (AM) starting in 2019 seeking oncological treatment, subsequently facing the COVID-19 pandemic. Drawing on life narratives and a multiscale conjunctural perspective, the article investigates the impacts of transnational displacement driven by demands for high-complexity healthcare. Results demonstrate that although the legal framework guarantees migrants formal access to the Brazilian Unified Health System (SUS), the effectiveness of care is hindered by chronic healthcare gaps at the Amazon border. For migrants isolated from their support networks, structural collapse renders the strategies of "itineration" and improvisation insufficient. The study concludes that comprehensive migrant protection requires moving beyond emergency-based approaches, demanding a revision of the federative pact to include specific financial allocations that structure high-complexity care for mobile populations in border regions.
Keywords:
Health Migration; Unified Health System; COVID-19 Pandemic; Itineration; Health Vulnerability
Introdução
O êxodo de cidadãos venezuelanos rumo a outros países, principalmente da América Latina, impulsionado pela profunda crise econômica e política que assola seu país de origem, transformou radicalmente o perfil dos fluxos migratórios no continente na última década, configurando-se como um fenômeno de migração Sul-Sul (Jarochinski-Silva, Baeninger, 2021). De acordo com a Plataforma de Coordenação para Migrantes e Refugiados da Venezuela nas Nações Unidas (R4V, 2024), o número de cidadãos venezuelanos que saíram da Venezuela a partir de 2014 chega a um total de 7,7 milhões de pessoas até 2024.
O principal catalisador deste fluxo migratório são os embargos comerciais que, desde 2014, penalizam a Venezuela. As sanções econômicas são mecanismos que reduzem o bem-estar econômico geral do país sancionado, restringindo a atividade econômica e o comércio internacional (Weisbrot, Sachs, 2019). A asfixia econômica gerada por essas sanções transbordou as instâncias políticas e incidiu diretamente sobre a infraestrutura social venezuelana, culminando no colapso sistêmico da rede pública de saúde e na escassez crônica de insumos médicos vitais.
Tal quadro tem sido denunciado pela comunidade médica internacional como uma clara violação aos direitos humanos dessa população (Zakrison, Muntaner, 2019). A escassez de medicamentos e insumos impactou negativamente os indicadores de HIV/Aids nos países limítrofes e contribuiu para o recrudescimento de doenças preveníveis por vacinação, tornando-se, combinada com a queda na cobertura vacinal brasileira, um dos fatores que levaram ao retorno do sarampo ao Brasil (Silva., 2025; Parra et al, 2022). Santos, Martin e Silveira (2024) destacam que, em 2018, a Organização Pan-Americana da Saúde estimava que mais de 58 mil venezuelanos vivendo com HIV estavam sem acesso a antirretrovirais, ilustrando os desafios enfrentados por pacientes que dependem de tratamento contínuo para transplantes, câncer, diabetes, hipertensão e hemofilia.
Diante da impossibilidade de manutenção da vida em seu país, o deslocamento forçado se consolidou como uma estratégia imediata de sobrevivência. Vários são os fatores que impulsionam a migração, fazendo com que a decisão pela saída se dê em função de uma combinação deles. Um fator frequentemente citado pelos migrantes como catalisador é a busca por tratamentos de média e alta complexidade que já não estão mais disponíveis em seu local de origem, configurando-se na “migração de saúde” (Vinente, Queiróz, 2022), um fluxo composto por sujeitos com demandas terapêuticas agudas que passaram a buscar no Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro a continuidade do cuidado.
É importante destacar que os deslocamentos nestes casos não se configuram no chamado “turismo de saúde”, conceito pautado pela lógica de mercado, em que o indivíduo cruza fronteiras na condição de consumidor com poder aquisitivo para acessar serviços médicos eletivos ou privados (Basualdo, 2017). As trajetórias de indivíduos e famílias venezuelanas, como as analisadas adiante neste artigo, não se constituem em escolhas de consumo, mas em uma estratégia de sobrevivência forçada pelo colapso do sistema de saúde venezuelano. Inseridos em um contexto de extrema vulnerabilidade socioeconômica, eles buscaram no Sistema Único de Saúde a garantia de um direito fundamental à vida, o que afasta qualquer possibilidade de enquadramento deste movimento na categoria mercadológica e frequentemente estigmatizante do turismo.
Zonas de fronteira, como os estados de Roraima e Amazonas, no Norte do Brasil, têm sido a principal porta de entrada dos migrantes venezuelanos em deslocamento, enfrentando os efeitos sociais e econômicos mais profundos desse deslocamento massivo (Cavalcanti, Oliveira, Silva, 2024; Arruda-Barbosa, Sales, Souza, 2020).
Apesar dos esforços de acolhimento, providenciando abrigo, alimentos e acesso a serviços sanitários (Do Carmo Leal et al., 2024), a saúde se destaca como um componente tenso no processo de reconhecimento do migrante como sujeito de direito. As experiências no SUS frequentemente esbarram em barreiras culturais, linguísticas, racismo, xenofobia e problemas estruturais (Santos, Silva, Lima et al., 2024; Vargas, Gugelmin, 2023).
Como principal metrópole amazônica próxima às fronteiras com Peru, Colômbia e Venezuela, Manaus se consolidou como um expressivo polo de recepção. Esse cenário se reflete nos registros do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) do município, que contabilizam mais de 44 mil migrantes inseridos em programas sociais, com expressiva predominância venezuelana (Manaus, 2024). Contudo, a inserção dessa população é marcada por um paradoxo: embora apresentem um perfil qualificado, em que mais da metade possui formação equivalente ao ensino médio ou superior (ACNUR Brasil, 2022), esses sujeitos enfrentam severas barreiras de empregabilidade. Essa discrepância os empurra para a precarização, agudizando vulnerabilidades que ampliam sua dependência da rede pública.
Para mitigar essas vulnerabilidades, a articulação familiar se torna essencial. A categoria “famílias transmigracionais” (Bryceson, Vuorela, 2002) ilustra como migrantes mantêm laços de pertencimento e suporte de saúde apesar da separação espacial (Santos, Martin, Silveira, 2024; Jaji, 2022). Uma parcela significativa dos venezuelanos no Brasil (58%) já possuía redes migratórias de familiares e amigos (Cavalcanti, Oliveira, Silva, 2024), o que reforça a necessidade de um olhar para o núcleo familiar nas estratégias de acolhimento.
Contudo, a busca por cuidado esbarrou nas históricas desigualdades regionais que marcam o SUS na Amazônia. Foi exatamente nessa intersecção, entre a urgência de sujeitos recém-chegados e a sobrecarga estrutural da fronteira, que a pandemia de Covid-19 incidiu e atuou como um catalisador das falhas assistenciais. Manaus se tornou uma triste vitrine nacional da crise sanitária em 2020 e 2021, com explosões das taxas de mortalidade e escassez de oxigênio (Naveca et al., 2021; Orellana et al., 2020), o que desvelou as disparidades das condições de vida dos migrantes nos países de acolhimento (Granada et al., 2023; Farias et al., 2024).
Neste artigo, o objetivo é analisar como a pandemia de Covid-19 agudizou as vulnerabilidades de sujeitos em migração por saúde, a partir das narrativas de vida da trajetória de uma família venezuelana, aqui chamada de “Vasquez”. A relação dessa família com o Sistema Único de Saúde foi marcada pela busca simultânea por tratamento oncológico de alta complexidade e pela sobrevivência às ondas virais em Manaus, a partir de diferentes “tempos” migratórios entre 2019 e 2021. Busca-se demonstrar que, no contexto fronteiriço, a crise atuou como um catalisador das desigualdades do SUS e impôs aos migrantes barreiras quase intransponíveis para a continuidade de tratamentos vitais. Com isso, enfatizamos que as respostas do sistema devem superar o paradigma assistencialista emergencial, haja vista os desafios regionais para formular estratégias estruturais orgânicas para a população migrante.
Este artigo está estruturado em quatro seções, além desta introdução. A Metodologia detalha a abordagem de narrativas de vida e a perspectiva conjuntural multiescalar adotada. Em Resultados, delineamos a cronologia do deslocamento familiar e o choque com o colapso sanitário. A Discussão analisa os achados e evidencia como a itineração e o improviso migrante esbarram nos vazios assistenciais da fronteira. Por fim, as Considerações Finais sintetizam a urgência da consolidação de estratégias estruturais e regionalizadas no âmbito do SUS.
Metodologia
A orientação metodológica deste estudo adotou a abordagem de narrativas de vida (Bertaux, 2010), focada na reconstrução de trajetórias familiares. As narrativas de vida consistem em utilizar entrevistas para extrair do sujeito os saberes práticos que ele possui sobre um dado contexto social e sua experiência nele. Nessa perspectiva, o relato não busca investigar a interioridade psicológica ou o sistema de crenças puramente ideológico da pessoa, mas o seu engajamento prático ao longo do tempo.
O objetivo é que, ao narrar sequências de acontecimentos, situações e ações que compõem o seu percurso biográfico, o indivíduo revele as lógicas, os mecanismos estruturais e as relações sociais inerentes ao mundo em que está inserido. Assim, ao analisar múltiplas narrativas e identificar práticas recorrentes, o pesquisador consegue formular hipóteses e modelos teóricos sobre o funcionamento de objetos sociais, como um campo profissional ou uma situação de vulnerabilidade, a partir de uma observação profunda do particular para extrair conclusões de alcance macrossocial.
Esse desenho permite um mergulho vertical na experiência de um núcleo específico ao articular os macroprocessos estruturais com as vivências subjetivas e as táticas de sobrevivência. Optou-se por analisar a biografia da família Vasquez, compreendendo-a como um caso revelador das dinâmicas enfrentadas por migrantes com demandas complexas de saúde em territórios de fronteira. Seguindo a premissa de Bertaux (2010), a narrativa desta família não é tomada como um evento isolado, mas como um vetor analítico para acessar a dimensão diacrônica dos processos de exclusão em saúde, revelando como as políticas públicas incidem concretamente sobre os percursos terapêuticos.
O corpus analítico foi construído a partir de três entrevistas em profundidade realizadas com membros distintos da mesma família venezuelana. Os relatos foram transcritos e analisados com o objetivo de integrar as perspectivas, recompor as linhas temporais dos deslocamentos e estabelecer a correlação com a evolução da pandemia de Covid-19 em Manaus. A narrativa foi construída a partir da triangulação sistemática entre as entrevistas em profundidade, realizadas entre 2021 e 2023, notas de campo e a análise documental do contexto político-sanitário da pandemia.
Para analisar os diferentes “tempos” de chegada da família ao Brasil, utilizamos a abordagem conjuntural multiescalar proposta por Glick Schiller (2018). Essa perspectiva integra as dimensões de tempo e espaço nos estudos migratórios e argumenta que a agência dos sujeitos, à medida que reagem a deslocamentos múltiplos e reconstroem suas vidas, é constituída politicamente em resposta a processos macroeconômicos. No caso estudado, o reduzido espaço para decisões fundamentadas no conhecimento prévio das instituições de acolhimento limitou a agência familiar, forçando a construção empírica de oportunidades num cenário de precariedade.
No caso da família Vasquez, observamos que há pouco espaço para decisões fundamentadas em conhecimentos prévios sobre o funcionamento das instituições e redes de cuidado no país de recepção. Os migrantes frequentemente carecem de condições financeiras e de informações suficientes para navegar na burocracia estatal ou para explorar alternativas para resolver seus problemas, revelando um caminho marcado pela construção de oportunidades onde elas ainda não existem. É necessário, portanto, olhar para além do âmbito das decisões individuais para relacioná-las ao cenário conjuntural mais amplo.
Para entender o movimento dos migrantes no sistema de saúde brasileiro, neste contexto, propomos o conceito de itineração, inspirados em Bonet (2014). Segundo o autor, a itineração é
(...) um movimento para frente e que envolve criatividade e improvisação. A itineração não conecta pontos, mas consiste em um sistema aberto de improvisações (porque acontecem no desenrolar da ação) e ao longo da qual a vida é possível. (Bonet, 2014, p. 336)
As Itinerações seriam, portanto, o desenho de um mundo que é tecido em rede, no qual os usuários vão estruturando o próprio sistema, o que frequentemente não coincide com a estrutura que as políticas públicas e seus formuladores pensaram inicialmente. Em outras palavras, ao fazer um caminho pelo sistema, constrói-se uma história. Esses movimentos se realizam no processo de “habitar” o mundo ou, no neste caso, “habitar” o sistema de saúde.
Este trabalho é um resultado parcial do projeto “Acesso à saúde e vulnerabilidades de migrantes internacionais no contexto de disseminação da COVID-19: uma pesquisa interinstitucional em rede colaborativa”, apoiado pela FAPESP [processo: 2021/06792-2] e pelo CNPq [processo: 403913/2021-7].
Resultados
A família Vasquez é originária do estado de Bolívar, na Venezuela, e é composta por Tereza, mãe solo, e seus sete filhos: cinco homens (Jorge, Carlos, Julio, Juan e Luiz) e duas mulheres (Lena e Carmen). Tereza contava com algum suporte do pai de seus filhos e trabalhava como servidora pública. Com exceção do primogênito e do caçula, os demais filhos cursavam ou haviam concluído o ensino superior, garantindo à família um padrão de vida até então confortável.
Em 2017, o diagnóstico de câncer de mama de Tereza alterou drasticamente essa dinâmica. O tratamento exigiu mastectomia seguida de radioterapia, mas o severo desabastecimento na Venezuela inviabilizou o acesso contínuo a medicamentos. A crise forçou uma primeira reorganização familiar: Juan assumiu os cuidados diários; Carmen migrou para o Chile para enviar remessas financeiras; e Lena, enfermeira, mudou-se para a casa materna. Com a hiperinflação, os filhos passaram a cruzar a fronteira até Cúcuta, na Colômbia, para comprar insumos. O elevado custo financeiro e o desgaste físico tornaram essa tática insustentável, forçando a decisão de migrar para o Brasil, processo que ocorreu em três “tempos” distintos.
O primeiro grupo a migrar, em meados de 2019, foi composto por Juan e Tereza. O deslocamento ocorreu via Pacaraima (Roraima) até Boa Vista. Como Juan ressalta: “Nós não planejamos vir ao Brasil. Esta não foi uma migração planejada”. Desta forma, ele reflete sobre a ausência de uma preparação adequada que facilitasse a movimentação da família no país de recepção com subsídios, como o aprendizado prévio de noções da língua portuguesa, possíveis locais para moradia ou sobre as condições de vida no Brasil. A viagem foi pautada pelo improviso ditado pela urgência terapêutica. Ao chegarem, a incipiente estrutura humanitária de fronteira permitiu a rápida emissão de documentos (como CPF e registro na Polícia Federal) e a inserção formal de Tereza no sistema de referência e contrarreferência do SUS.
No entanto, Boa Vista não dispunha de serviços de radioterapia, o que exigia o encaminhamento de pacientes oncológicos para Manaus. Durante os dois meses em Roraima, Juan trabalhou como auxiliar de pedreiro, enquanto Tereza foi cadastrada em uma organização internacional de suporte oncológico. O pequeno auxílio financeiro recebido viabilizou o translado da dupla para o Amazonas e o aluguel de uma quitinete próxima à Fundação Centro de Controle de Oncologia do Estado do Amazonas (FCECON).
Em Manaus, Tereza foi admitida na FCECON. O atendimento por um oncologista peruano amenizou as barreiras linguísticas, mas as limitações estruturais do SUS logo se impuseram. A morosidade do Sistema Nacional de Regulação (Sisreg) para a marcação de procedimentos obrigou Juan a recorrer ao setor privado, pagando por exames de raio-X e ultrassonografias para garantir a agilidade que o câncer exigia.
A piora da crise venezuelana precipitou o segundo “tempo” da migração. Lena, o marido e a filha se mudaram para o Brasil, estabelecendo-se inicialmente em Boa Vista. O desgaste profundo de Juan como cuidador principal fez com que Lena e sua família descessem para Manaus em 2020, seguidos por Carmen, que deixou o Chile para se reunir aos irmãos. A chegada desse segundo grupo coincidiu com o início da pandemia de Covid-19 e com o retorno agressivo do câncer de Tereza. O cuidado domiciliar se tornou intenso num cenário de restrições sanitárias e de um sistema hospitalar já tensionado pelas internações virais:
(...) minha mãe ficou ruim, voltou o câncer, voltou agressivo, minha mãe estava muito inchada tudo, minha mãe não conseguia deitar para dormir, minha mãe ficava de dia de noite sentada, aí depois meu marido veio pra cá para ajudar com a menina, porque nós tínhamos que passar todos os dias no hospital colocando calmante para a minha mãe, aí ele veio e me ajudou com minha filha e levando ela para lá, depois minha mãe morreu aí, em plena pandemia aqui (Lena)
O falecimento de Tereza marcou o fracasso do projeto coletivo de cura que motivara o êxodo familiar. Antes de partir, ela deixou dois desejos: ser sepultada na Venezuela - o que as fronteiras fechadas pela pandemia impediram - e que os filhos trouxessem Jorge, o primogênito, para o Brasil. A promessa impulsionou o terceiro “tempo” migratório. Com um pequeno negócio de entrega de comida montado por Juan e Lena, a família economizou para o translado de Jorge, sua esposa e o filho de cinco anos, em 2020. Com as fronteiras oficiais fechadas pela emergência sanitária, o grupo cruzou a pé por trochas (rotas clandestinas no lavrado) até Pacaraima, de onde seguiram de ônibus para Manaus.
A chegada de Jorge coincidiu com o estrangulamento financeiro do núcleo familiar. As medidas de isolamento inviabilizaram as vendas de comida. Embora Juan tenha conseguido acessar o Auxílio Emergencial do governo brasileiro, evidenciando a importância da documentação prévia, o valor era insuficiente para cobrir a alimentação e o aluguel. A vulnerabilidade social impedia o usufruto de garantias legais contra o despejo, forçando os homens da família a romperem a quarentena em busca de trabalho informal. A fala de Jorge sintetiza a encruzilhada migrante:
[Conseguimos ficar em isolamento] mais ou menos como um mês. Um mês, porque depois nós falamos assim “é melhor morrer com Covid que morrer de fome. Bora trabalhar! ... (Jorge)
Trabalhando em pequenos "bicos" como pedreiros e soldadores, Jorge e o cunhado (marido de Lena) foram infectados pelo Sars-CoV-2. A esposa de Jorge chegou a ser internada, mas o desfecho mais grave se abateu sobre o marido de Lena. Ele adoeceu justamente quando Manaus enfrentava a segunda onda da pandemia (dezembro de 2020 a janeiro de 2021), período marcado pelo colapso de leitos, escassez de oxigênio e mortandade recorde.
Minha cunhada ficou internada (...). O esposo de minha irmã, ele faleceu. Não colocaram no óbito que ele era Coronavírus, mas eu por todos os sintomas que ele apresentava eu acho que era Coronavírus, mas eu lembro que fizeram um exame nele depois. (...) Ele foi internado e faleceu dentro do hospital. (...) Foi muito rápido! Ele foi, por exemplo, dezenove horas de casa e faleceu meia noite. Meia noite! (Juan).
Discussão
A sequência de perdas e lutos vivenciada durante os três “tempos” migratórios impactou profundamente a dinâmica da família Vasquez. As trajetórias pós-pandemia revelam os escombros desse processo: Lena não tentou revalidar seu diploma de enfermagem no Brasil, afastando-se da área da saúde para atuar como cozinheira; Juan, licenciado em Letras, após meses de isolamento decorrente do luto materno, encontrou refúgio na religiosidade e no ativismo humanitário; e Jorge se manteve na informalidade da construção civil. Esse cenário ilustra que a sobrevivência à crise sanitária e ao deslocamento forçado não garante estabilidade, deixando um futuro incerto no qual as possibilidades de reestruturação dependem das redes locais e da esperança latente de retorno, mantida pela proximidade da fronteira.
Ao analisar a trajetória terapêutica de Tereza, evidencia-se um paradoxo central na resposta do Estado brasileiro à imigração. O sistema de saúde e de acolhimento não operou sob a lógica da recusa direta. O marco legal brasileiro avançou significativamente com a Lei nº 13.445/2017, a Lei da Migração (Brasil, 2017), que reforça o migrante como sujeito de direitos, e com a Lei nº 13.684/2018, que balizou as ações do Comitê Nacional para Refugiados - CONARE (Brasil, 2018a) e a instituição da Operação Acolhida (Brasil, 2018b e 2018c). Na prática, esse aparato garantiu a Juan e Tereza uma inserção formal célere em Roraima, com a obtenção de documentos e do Cartão Nacional de Saúde. O obstáculo central, portanto, não foi a porta de entrada institucional, mas a capacidade de resposta estrutural do sistema em níveis de maior complexidade.
A família Vasquez foi inserida em uma rede de saúde historicamente tensionada. A escassez de recursos, materializada na ausência de serviços de radioterapia em Roraima ou na letargia do Sistema Nacional de Regulação (Sisreg) no Amazonas, impõe uma espera que atinge nacionais e estrangeiros, mas que se torna fatal para corpos desprovidos de capital social e financeiro. No caso dos Vasquez e de muitas famílias venezuelanas, a decisão de deslocar um idoso ou parente vulnerável está intrinsecamente ligada a agravos complexos ou doenças crônicas e impõe demandas específicas, que variam conforme a proximidade da fronteira e pressionam diretamente a atenção especializada.
No campo oncológico, essas disparidades regionais são gritantes. Entre 2012 e 2016, a região Norte apresentou os maiores índices de óbitos e taxas de mortalidade por câncer (Tallon et al., 2020). O Amazonas detém a segunda maior incidência de câncer de mama da região, com taxa de 20,60 por 100 mil habitantes em 2019, número que salta para 33,62 na capital, Manaus (INCA, 2022). A alta recorrência de câncer, como o de colo de útero, é considerada uma “doença do Sul Global” (Gomes, 2020), refletindo falhas crônicas no rastreamento e no tempo de resposta. Embora a Lei nº 12.732 (Brasil, 2012) estabeleça o prazo máximo de 60 dias para o início do tratamento oncológico pelo SUS, estudos como o de Rodrigues, Alencar e Castelo Branco (2020) mostram que, no Amazonas, 70,9% dos pacientes iniciaram o tratamento em tempo inoportuno. Fatores como a ausência de hospitais especializados e as dificuldades de agendamento de exames (Lima, Villela, 2021) penalizam migrantes e nacionais, mas exacerbam a exclusão dos primeiros, concentrando a sobrevida nos municípios-polo e punindo os que dependem das fronteiras (Louvinson, 2019).
Diante desses vazios assistenciais, a itineração empreendida pela família ganha contornos dramáticos. Na tentativa de estruturar o próprio acesso e improvisar caminhos nas malhas do cuidado, os Vasquez buscaram ativamente suprir as falhas do Estado por meio de táticas severas de sobrevivência: cruzaram a fronteira colombiana para comprar medicamentos, custearam ultrassonografias na rede privada manauara e reorganizaram as funções domésticas e de provisão entre os irmãos. Tais manobras refletem o que Brigden (2016) conceitua como uma “globalização vista por baixo”, na qual sujeitos subalternizados adaptam protocolos e esgotam seus parcos recursos para sobreviver.
Contudo, a trajetória de Tereza e a perda do cunhado de Lena escancaram os limites dessa agência. Diferente de contextos em que a itineração permite ao usuário driblar a burocracia, em Manaus e Roraima, a falência estrutural, somada ao colapso provocado pela pandemia, formou uma barreira instransponível. A pandemia de Covid-19 atuou como um agravante letal das vulnerabilidades pré-existentes (Granada et al., 2023). A tentativa de habitar o sistema se transformou em uma espera mortal num cenário de déficit de leitos e falta de oxigênio.
Ao analisar as barreiras enfrentadas pelos Vasquez, é preciso problematizar a distinção entre as dificuldades vivenciadas por nacionais e migrantes no acesso ao SUS. Embora os vazios assistenciais e a morosidade regulatória afetem indistintamente a população na Amazônia, a experiência do adoecimento é profundamente mediada pela densidade das redes de apoio. Juliano e Yunes (2014) definem essas redes como os vínculos e interações que fornecem suporte emocional, instrumental ou informacional, sendo fundamentais na capacidade dos indivíduos de enfrentar adversidades.
Enquanto o usuário nacional, mesmo em condições de vulnerabilidade socioeconômica, costuma mobilizar redes de parentesco estendidas, amigos ou instituições locais para contornar as lacunas do sistema ou obter acolhimento temporário, o migrante vivencia um isolamento estrutural.
Como apontam Santos et al. (2025) em estudo sobre venezuelanos em Manaus durante a pandemia, a malha de proteção do migrante é frequentemente restrita ao núcleo familiar estrito que conseguiu se deslocar em conjunto. Na trajetória da família Vasquez, essa rede nuclear transmigracional operou sob constante estado de exaustão. Sem o tecido social que costuma amortecer o desamparo estatal para os nacionais, a urgência da sobrevivência financeira e o risco constante de despejo competiam diretamente com o tempo exigido pelo cuidado em saúde, forçando-os a jornadas extenuantes (Santos et al., 2025).
Esse quadro é ainda agravado por barreiras linguísticas e pelo desconhecimento dos canais de assistência pública, que limitam o acesso à ajuda fora do círculo íntimo. Portanto, a vulnerabilidade migratória não advém apenas da escassez de serviços médicos, mas da ausência crônica de suportes sociais que permitam ao sujeito sustentar a espera imposta pelo sistema.
Mais do que o fracasso terapêutico, a pandemia revelou também a ineficácia das redes de proteção social para essa população. Mesmo com legislações protetivas vigentes, como a Lei nº 14.216 (Brasil, 2021), que proibia despejos durante a emergência sanitária, a extrema vulnerabilidade dos recém-chegados tornava esses direitos inaplicáveis na prática. O auxílio emergencial, embora acessado por Juan devido à sua documentação prévia, foi insuficiente para impedir que o grupo de Jorge rompesse o isolamento social sob a ameaça da fome, resultando na infecção de múltiplos membros da família.
É à luz dessa dinâmica multiescalar e diacrônica que instrumentos normativos recentes devem ser analisados. A recente Nota Técnica Nº 8/2024 do Ministério da Saúde (Brasil, 2024) representa, indubitavelmente, um avanço institucional ao normatizar e qualificar o acolhimento de migrantes na Atenção Primária. No entanto, a experiência da família Vasquez evidencia que o direito à vida exige a continuidade do cuidado. A integração promovida pela norma assegura a “porta de entrada”, mas, sem a reestruturação da média e alta complexidade nas regiões de fronteira, o tratamento de agravos como o câncer continuará sendo uma corrida contra o tempo, em que o improviso migrante colide, quase sempre de forma fatal, com a falta de estrutura suficiente do sistema de saúde para atender satisfatoriamente à demanda. Se, por um lado, é inegável que esta é uma questão que atinge o migrante e o nacional da mesma forma, por outro, parece importante pontuar que as vulnerabilidades vivenciadas pelos migrantes, aliadas ao seu isolamento estrutural, deixam-nos em uma situação ainda mais precária.
Um ponto importante a ser destacado é a ausência de mecanismos de financiamento que contemplem o impacto demográfico do fluxo migratório, o que contribui para a asfixia do orçamento local de saúde em áreas de grande volume de entrada e recepção direta, especialmente na região Norte do país, onde o SUS enfrenta inúmeros desafios de ordem geográfica, ambiental e cultural. Municípios e estados de fronteira absorvem uma demanda transnacional e operam com orçamentos pactuados apenas para suas populações residentes. Sem aportes financeiros específicos e fundos de compensação para áreas de fronteira, a reestruturação da média e alta complexidade se torna inviável, perpetuando o vazio assistencial que pune migrantes e nacionais. Embora este debate seja frequentemente tensionado por narrativas que estigmatizam o migrante como um “peso” aos cofres públicos, a equação transcende a moralidade: para além do imperativo ético e humanitário, é inviável alcançar e manter indicadores de saúde pública de qualidade sem integrar plenamente a população em mobilidade ao planejamento orçamentário e estrutural do Estado.
Considerações Finais
Transformações econômicas e políticas alteram continuamente os fluxos migratórios, reconfigurando seu volume e o perfil de seus sujeitos, que passam a interagir com sistemas de saúde marcados por profundas heterogeneidades territoriais. Embora as trajetórias venezuelanas recentes sejam impulsionadas por necessidades imediatas de sobrevivência, as itinerações analisadas demonstram que as decisões de mobilidade são moldadas no movimento, na mediação de interesses coletivos e na exaustiva adaptação às condições locais.
A saga da família Vasquez demonstra que a garantia do direito à saúde para migrantes no Brasil enfrenta desafios que transcendem a regularização documental ou legal. A tragédia vivenciada por este núcleo familiar não decorreu de uma negativa institucional de acesso, mas de sua inserção em um sistema de saúde regionalmente fragilizado e não devidamente estruturado para estes novos usuários, especialmente no que diz respeito às demandas de alta complexidade. Isso sugere que a proteção do migrante não depende apenas de políticas de acolhimento específicas na Atenção Primária, mas de uma revisão do pacto federativo que garanta aportes financeiros específicos e contínuos para o SUS nas regiões de fronteira.
Apesar dos esforços locais de recepção e da ajuda humanitária na fronteira, as redes de cuidado enfrentam limitações crônicas, como evidencia a ausência de serviços de referência em oncologia que forçam o deslocamento interno de pacientes. Tais lacunas atestam a necessidade urgente de superar abordagens exclusivamente emergenciais e adotar estratégias de longo prazo que considerem os fluxos migratórios de saúde como parte integrante e permanente do cenário regional do SUS.
Ao cruzar fronteiras em busca de melhores condições de vida e enfrentarem o colapso de uma pandemia, sem redes consolidadas de proteção, a família Vasquez não apenas circulou entre países, mas tentou, através de uma itineração forçada, costurar as lacunas de sistemas de saúde desiguais. O reconhecimento dessa luta radical pela sobrevivência, e não apenas pelo usufruto de uma cidadania global, deve ser a pedra angular para que o Estado brasileiro avance de uma resposta humanitária transitória para uma política estrutural de saúde, capaz de acolher a vida em sua plenitude, e não apenas em sua urgência.
Declaração de Disponibilidade de Dados
Os dados de pesquisa não estão disponíveis
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Editores de seção
Roberto Marinuccihttps://orcid.org/0000-0002-2042-2628Barbara Marciano Marqueshttps://orcid.org/0000-0003-0835-2441


Fonte: Elaboração própria.