Open-access Quem são os brasileiros na Irlanda? Aproximações e embaralhamentos

Who are Brazilian migrants in Ireland? An Overview and Insights

Resumo:

O texto apresenta uma discussão sobre a complexidade dos perfis dos brasileiros na Irlanda. Recorro aos dados da minha pesquisa de campo, realizada entre março e julho de 2022 para traçar alguns perfis e, a seguir, contrastá-los num debate com a bibliografia sobre o tema. Pretendo evidenciar a complexidade da experiência dos imigrantes brasileiros na Irlanda. Indico também como a descrição de quem são os imigrantes envolve discorrer sobre os processos de imbricação das trajetórias ao longo da experiência na Irlanda. Essas trajetórias acabam por misturar todas as variáveis mais comuns de análise, como renda, escolaridade, formas de documentação e ainda outras.

Palavras-chave:
emigração brasileira; Irlanda; caracterização dos imigrantes; trajetórias

Abstract:

This text presents a thorough discussion on the complexity of Brazilian profiles in Ireland. I use comprehensive data from my field research, conducted between March and July 2022, to create some profiles and then contrast them in a debate with the existing literature on the subject. I intend to highlight the complexity of the experience of Brazilian immigrants in Ireland and also indicate how a description of who they are involves discussing the intertwining processes of trajectories, which combine all the most common variables of analysis, such as income, schooling, forms of documentation, and others.

Keywords:
Brazilian emigration; Ireland; characterisation of immigrants; trajectories

Introdução

Nesse artigo, pretendo apresentar um conjunto de informações que nos dê uma ideia da complexidade dos perfis dos brasileiros na Irlanda1. Utilizo dados da minha pesquisa de campo etnográfica, na qual convivi com um coletivo de imigrantes brasileiros entre março e julho de 2022 para traçar esses perfis e, a seguir, contrastá-los num debate com a bibliografia sobre o tema. Assim, o artigo lida tanto com dados primários resultantes do trabalho de campo como com dados secundários presentes na bibliografia sobre essa diáspora. São os dados primários que, de certa forma, me permitem questionar algumas injunções comuns à bibliografia e tecer reflexões sobre as especificidades dessa experiência migratória. Quero demonstrar a complexidade da experiência dos imigrantes brasileiros no país celta e também indicar como uma descrição de quem são envolve discorrer também sobre os processos de imbricação das trajetórias, que misturam todas as variáveis mais comuns de análise, como renda, escolaridade, formas de documentação e ainda outras.

1) Perfis: uma discussão geral sobre quem são os brasileiros na Irlanda hoje.

Para entender os brasileiros na Irlanda é preciso pensar em uma intersecção entre os modos básicos de entrada no país (os vistos) e os estratos sociais originais dos imigrantes. A conexão entre esses dois fatores gera alguns perfis gerais que ajudam a entender os processos migratórios, mas também auxiliam a complexificar as trajetórias e compreender histórias que embaralham esse primeiro esforço de separação e entendimento. Assim, o recurso aos perfis é apenas uma forma de organizar a imensa complexidade da vida dos imigrantes brasileiros na Irlanda, sem nenhuma preocupação em dar conta da experiência como um todo, mas apenas em oferecer uma ideia, ainda que imperfeita, de como os processos migratórios se organizaram ao longo do tempo.

1.1) Os vistos

Antes de descrever os perfis, é preciso entender rapidamente os vistos emitidos pela República da Irlanda, condição inicial de permanência para muitos dos imigrantes (falamos aqui da situação em 2022, ano do trabalho de campo).

O visto 1 permite ao trabalhador entrar no país se tiver um contrato de trabalho nas categorias aceitas pelo ministério da justiça irlandês; há uma lista de profissões em “falta” e apenas nessas é possível obter o visto 1. Esse visto era válido por 2 anos e apenas para o mesmo contrato de trabalho: o imigrante não podia mudar de emprego2. O visto poderia ser renovado a cada dois anos e, depois de 5 anos sob esse regime, os trabalhadores podiam pleitear uma mudança de categoria ou mesmo avançar num pedido de naturalização. Para ter o visto, o empregador precisa obter uma autorização para oferecer o contrato de trabalho ao imigrante extra-UE. Já o visto 2 é oferecido aos estudantes, uma categoria ampla que vai desde aqueles que querem estudar inglês em escolas credenciadas até os que querem fazer cursos técnicos, superiores e pós-graduações. Esse visto permite que o estudante trabalhe 20 horas semanais durante o período letivo e, proporcionalmente, 40 horas durante as férias e finais de semana, mas demanda que o estudante comprove 85% de presença nas escolas, além de exigir uma conta corrente com saldo de pelo menos 3000 euros.

Uma outra forma de permanência é prevista no visto 3, geralmente atrelado a cônjuges que têm outros vistos. É basicamente um visto de acompanhamento: o solicitante pode ficar na Irlanda pelo tempo de visto do cônjuge, mas não pode trabalhar, nem estudar. Para acessar esse regime, é preciso comprovar que a pessoa será sustentada pelo cônjuge e que tem um seguro de saúde privado. O visto 4 é aquele destinado a profissionais mais especializados, para o solicitante que tenha um contrato de trabalho e comprove suas “habilidades especiais”. Quem tem altas habilidades também pode conseguir um visto 1, mas precisa apenas de 2 anos para mudar para o visto 4, que permite a estadia por 2 anos, podendo ser renovado consecutivamente, além de possibilitar mudanças nos contratos de trabalho. Esse visto garante mais estabilidade, pois permite que o solicitante acesse serviços do Estado, além de contar o tempo para o pedido de naturalização (como o visto 1 e 3 também permitem, mas não o visto 2). É também o visto atribuído a trabalhadores europeus dos países da União Europeia não irlandeses.

Agora passemos aos perfis gerais que organizo como uma introdução à definição de quem são os brasileiros hoje na Irlanda, para depois demonstrar como também não dão conta de captar exatamente tudo o que acontece na experiência imigrante brasileira na Irlanda. Esses perfis servem, portanto, a uma categorização inicial, sem pretensão de ser mais que uma referência para entendermos as complexidades das experiências de migração dos brasileiros neste país. Eles são construídos a partir do trabalho de campo, no qual acompanhei diversas trajetórias de imigrantes na Irlanda.

1.2) Trabalhadores não qualificados (perfil 1)

O primeiro perfil a ser traçado é aquele relacionado ao visto 1, ou seja, aos contratos de trabalhos exclusivos, no qual o trabalhador deve permanecer necessariamente no mesmo contrato de trabalho que gerou a oportunidade de emprego. Esse tipo de relação é caracterizado como uma “hiperdependência” (Zou, 2015; Rojas Coppari, 2019) em uma situação econômica que podemos chamar de hiperprecária, seguindo Lewis et al. (2015). Nessa categoria encontramos, de forma geral, os trabalhadores brasileiros não qualificados. Sobre eles, Silva (2011) fez um survey entre funcionários das fábricas de carne e identificou a média de 5 anos de escolaridade. Esses trabalhadores têm muita dificuldade em falar inglês e, por isso, têm pouca capacidade de interagir com a sociedade irlandesa sem ajuda de intérpretes. Essa situação, aliada às regras do visto, que impedem a mudança de trabalho, gera o que poderíamos chamar de trabalhadores vulneráveis a toda sorte de exploração.

1.3) Estudantes trabalhadores (Perfil 2)

Os brasileiros que vão para estudar, em geral estão em busca de um melhor inglês e também, eventualmente, de uma oportunidade de outra vida, como imigrante. A maioria expressiva vem para estudar inglês, matriculando-se em escolas que são credenciadas pelo governo irlandês e que, portanto, participam ativamente do processo de concessão e manutenção dos vistos. Os brasileiros que chegam nessas condições tendem a ser pessoas de classe média, muitas já com curso superior, outras com ensino técnico ou ensino médio. A maioria ocupa postos de trabalho como babás, cuidadoras em geral, entregadores de delivery, atendentes de lojas variadas. Normalmente, as funções exercidas estão abaixo da formação original desses brasileiros.

Como afirma Ruhs (2003), o sistema de vistos irlandês opera com entradas baseadas em empregos e também com entradas não baseadas em emprego, como o visto 2. Entretanto, a entrada dos estudantes tem sido usada para ocupar vagas no mercado de trabalho que poderiam ser ocupadas por imigrantes trabalhadores (Machado, 2024). Assim, aumentou a participação de estudantes num mercado de trabalho associado antes aos imigrantes não qualificados, só que em regimes ainda mais inseguros e precários (Gilmartin et al. 2016). Podemos dizer que os brasileiros nesse perfil podem operar, do ponto de vista do Estado, como substitutos dos portadores do visto 1, num exercício de precarização ainda mais radical e temporário. Minha análise indica que, de fato, uma parte desses brasileiros estudantes caminha para uma experiência de indocumentação, com perfil muito similar aos que aqui qualifico como “perfil 4”.

1.4) Estáveis (Perfil 3)

Em alguns casos, habitualmente relacionados à alta especialização do imigrante em áreas de interesse da economia irlandesa, é possível conseguir um visto 4 baseado em “habilidades especiais”, ou permanecendo com o visto 1 por 5 anos. Um número significativo de brasileiros acessou o visto 4 por esses caminhos, predominando os trabalhadores não qualificados que vivem há mais tempo no país. Muitos possuem o visto em função de casamentos com irlandeses, por exemplo. Uma outra forma de acessar o visto 4 é através de uma outra nacionalidade europeia. Assim, vários brasileiros com dupla nacionalidade entram no mercado de trabalho por terem o direito ao visto 4 sem qualquer necessidade de um prévio contrato de trabalho. Esses brasileiros conseguem um atalho para uma topologia mais estável e acessam trabalhos não qualificados num leque maior de possibilidades: trabalhadores da construção civil, trabalhadores de restaurantes, lavadores de carros, entregadores de aplicativos, e mais uma infinidade de trabalhos não qualificados. Mais comumente aqueles que não exigem um domínio muito acurado da língua inglesa. O visto 4 é mais estável e abarca tanto brasileiros com altas habilidades como os com pouca escolaridade que ficaram 5 anos com o visto 1.

1.5) Trabalhadores invisíveis (Perfil 4)

Um quarto perfil de referência é o do brasileiro que entra como turista e ultrapassa os 90 dias de permanência autorizada e se torna imigrante não documentado. Ou ainda aqueles que entraram com vistos 2, 1 e 3, mas depois ficaram indocumentados. Esses brasileiros executam todo tipo de trabalho não qualificado: as mulheres, em geral, são faxineiras, trabalhadoras de limpeza em empresas variadas, cuidadoras de crianças e de idosos, etc. Os homens trabalham na construção civil, em lava jatos, como trabalhadores manuais de diversos tipos, carregadores, jardineiros etc. Outra característica que podemos atrelar aos indocumentados é que eles têm uma certa tendência a trabalhar num mercado “étnico”, com todas as ressalvas que podemos fazer a esse termo (Machado, 2011). Esse mercado abrange destacadamente um universo da estética feminina: cabeleireiras/os, depiladoras, manicures, todo tipo de serviço estético (massagens, drenagens, sobrancelhas, podologia, tratamentos para emagrecimento etc. Há muitas brasileiras e brasileiros que prestam esses serviços e cujo principal público é a própria população brasileira.

1.6) Os estrangeiros duplos (Perfil 5)

Como comentei anteriormente, há uma proporção não desprezível de brasileiros que detêm uma segunda nacionalidade da União Europeia, predominando os italianos, portugueses e espanhóis. Mas seria complicado tratar deles como um “perfil”, ainda que um perfil meramente preocupado em entender um tipo de experiência, sem pretensões muito sistemáticas. O fato é que esses brasileiros e brasileiras poderiam ser distribuídos entre as categorias acima descritas: há os com dupla nacionalidade que procuram um mercado não qualificado, os que procuram o mercado qualificado, os que têm qualificação, mas não conseguem acessar o mercado de suas especializações, aqueles que se dedicam a trabalhar tendo como mercado consumidor a própria comunidade brasileira; eles estão espalhados pela população brasileira na Irlanda. Mas é possível perceber uma certa concentração - e isso numa perspectiva qualitativa, sem qualquer possibilidade de afirmação estatisticamente válida - desses duplos nacionais num mercado mais qualificado, especialmente na área de TI e tecnologias avançadas.

1.7) Imobilizados (Perfil 6)

Há ainda os portadores do visto 3, que são aqueles acompanhantes de pessoas com outro tipo de visto que detém contratos de trabalho. Para todos os efeitos, essas pessoas, principalmente esposas dos brasileiros que trabalham em frigoríficos, compartilham da mesma experiência de vida de seus cônjuges: para termos de perfis, seria adequado colocá-los sob o guarda-chuva do perfil 1, com a diferença que, apesar de estarem documentados, têm a vida realmente limitada pelo visto 3, já que não podem trabalhar e acessar uma série de serviços sociais.

1.8) Embaralhando os caminhos

O perfil 2 é, a priori, o mais cheio de caminhos: desde o caminho do casamento, por um lado, até o caminho da indocumentação, quando passam à “ilegalidade” e lentamente tentam voltar à documentação; seja por uma oferta de emprego no visto 1, seja por casamento com irlandeses. Como vêm originalmente para estudar, é mais frequente que venham sozinhos/as e participem mais ativamente do mercado matrimonial local. O perfil 4 é o mais “desamparado” em termos legais, pois permanecem invisibilizados e com acesso fragmentado aos serviços sociais.

Em termos de mercado de trabalho, a maioria dos trabalhadores nos perfis 1 e 2 executa trabalhos não qualificados, assim como os que conseguem o visto 4 depois de 5 anos com o visto 1 (sem altas habilidades). No perfil 1 há um predomínio de trabalhadores da indústria da carne, ao passo que no perfil 2 temos o trabalho de babás, faxineiras, cuidadoras, garçons, atendentes de lojas, entregadores de aplicativos etc. Brasileiros do perfil 5 também podem adentrar esse mesmo mercado. Assim, embora possamos pensar em perfis diferentes, muitas vezes eles estão dividindo os mesmos tipos de trabalho. E esse mercado também é aquele que se apresenta aos indocumentados do perfil 4, mas também aos documentados do perfil 6, quando resolvem trabalhar apesar da proibição formal que o seu visto impõe. Aqui, o trabalho das mulheres como faxineiras atravessa todos esses perfis (1, 2, 3, 4, 5 e 6), assim como o trabalho como entregadores de aplicativo para muitos homens, ou mesmo o trabalho em construção civil.

Assim, outro olhar, voltado especificamente ao mercado de trabalho, poderia embaralhar profundamente esses perfis e agrupar pessoas com diferentes situações legais e experiências de formação. Ao mesmo tempo, é possível encontrar brasileiros muito qualificados trabalhando em sua própria área, mas sob o regime mais duro do visto 1. O mesmo visto pode, portanto, dar guarida tanto a brasileiros sem muita formação escolar como aos que têm alta qualificação. Assim, produzir ou mesmo pensar em perfis depende de quais critérios estamos manipulando. Acima, escolhi trabalhar com os vistos e suas implicações, entendendo que é uma forma interessante de pensar a experiência brasileira. Mas isso só faz sentido se entendermos a complexidade das várias trajetórias entre os vistos que se colocam nas várias topologias documentais do estado irlandês.

Há uma mistura de classes sociais - considerando a situação dos imigrantes antes da imigração - dos brasileiros nesse mercado de trabalho não qualificado, embora as profissões manuais que não exigem o domínio da língua sejam mais ocupadas pelos indocumentados sem qualificação, enquanto os indocumentados mais qualificados, em geral os que passaram pelo visto de estudante, e mesmo alguns dos portadores de dupla nacionalidade, tendam a ocupar, quando estão nesse mercado, as vagas nas quais se espera algum domínio da língua inglesa. Assim, o domínio da língua seria em si um outro critério possível para pensar a experiência imigrante, repartindo o mercado de trabalho não qualificado em níveis, nos quais o domínio dá acesso a profissões menos manuais e que pagam melhor. Mas, como em toda experiência de classificação, isso não é uma regra fixa, há exceções. E mesmo os trabalhadores não qualificados do visto 1, quando conseguem acessar o visto 4, têm a possibilidade de acessar empregos um pouco mais qualificados. Além disso, é preciso notar que, quando falamos de diferenças na remuneração, deve-se pensá-las num contexto em que as diferenças salariais são menos marcantes do que no Brasil.

Sob outra perspectiva, se olharmos para as trajetórias individuais dos imigrantes, vemos que eles passam por diferentes regimes de visto, o que implica também que passeiam pelos perfis que criei. Isso leva a considerar os perfis com muito cuidado, mais como uma forma de entender em termos muito gerais a imigração brasileira na Irlanda e menos como um referencial preciso. No entanto, pensar os perfis permite entender as limitações e possibilidades que cada uma das situações oferece ao imigrante: se ele está no visto 1, uma série de dificuldades são similares, especialmente a dependência em relação ao empregador. Se a pessoa está no visto 2, sabemos que terá dificuldades para pagar suas contas com apenas 20 horas de trabalho, provavelmente mais dificuldades que até mesmo os indocumentados.

Se a pessoa está indocumentada, sabemos que terá uma série de impedimentos para viver na Irlanda, sem condição de acessar muitas das políticas públicas, sem condições de gerar alguns documentos, com um certo receio permanente de ser denunciado e acabar num processo de deportação. Mas sabemos também que é possível viver muitos anos na indocumentação e “fazer a vida” mesmo nessas condições precárias. A indocumentação empurra os brasileiros para um mercado voltado aos brasileiros, por outro lado. Já o visto 4 oferece condições de estabilidade marcadas tanto por uma maior abertura do mercado de trabalho - seja o qualificado ou o não qualificado - quanto pelo acesso completo às políticas de bem-estar social irlandesas, especialmente aquelas de complementação de renda. Já os brasileiros com dupla nacionalidade estão também em terreno mais estável, por contarem com o visto 4 e acessarem tanto o mercado de trabalho como as políticas sociais, possibilitando uma realidade mais segura, independentemente do tipo de trabalho a ser realizado.

Por outro lado, é comum que numa mesma família encontremos diferentes realidades tanto em relação ao tipo de visto como em relação ao tipo de trabalho: numa mesma casa, diferentes topografias de estabilidade se cruzam, formando situações muito complexas e que a descrição dos perfis nos permite apenas entrever. Esses são os perfis que podemos estabelecer, focando principalmente nas categorias de visto que são acessíveis aos brasileiros. Vimos, entretanto, que essa classificação é apenas uma referência inicial para entender os caminhos complexos e embaralhados que presenciei em campo. Na próxima seção, apresento algumas discussões para exemplificar o que chamo de “embaralhamento”.

2. Embaralhando perfis e bibliografia

Retomemos, neste momento, a bibliografia sobre os brasileiros na Irlanda, de forma a entender como ela enquadra e descreve essa migração para, ao mesmo tempo, relacionar essas descrições com os perfis elaborados acima.

2.1) 1º contingente

Como um bom ponto de início para nossa discussão, Healy (2006) escreve sobre a relação entre Gort, pequena cidade ao sul de Galway, no oeste da Irlanda, e a migração brasileira. Ali, em 1999, um aviário solicitou a contratação de brasileiros de Anápolis, GO. Logo depois um matadouro em Gort também contratou alguns goianos, profissionais da indústria frigorífica, em busca de melhores salários (perfil 1). A chegada dos brasileiros fazia deles, em 2006, 30% dos moradores de Gort e 40% em 2009, segundo Sheringham (2010). Depois de alguns anos, a comunidade brasileira em Gort ocupava vários tipos de emprego.

A brasilianização da pequena Gort foi vista como uma forma de sucesso na “integração” no contexto da migração europeia, como indicam Sheringham (2009, 2010), Maher (2010) e Maher e Cawley (2015). Questões sobre a relação amena com a população local, a baixa taxa de criminalidade e uma imagem de “trabalhadores” tornaram a situação de Gort “exemplar” de um caso de integração. A autora questiona, entretanto, que essa integração tenha alcançado a esfera econômica, já que as oportunidades de trabalho diminuíram após a crise de 2008 e as políticas migratórias se tornaram mais restritivas. A pesquisa de Sheringham mostra também um alto nível de indocumentação (65% dos entrevistados).

A etnografia de Reijane Silva (2011, 2016) também destaca uma ideia de sucesso migratório entre imigrantes brasileiras mulheres, no caso tratando especificamente daquelas documentadas, de origem humilde no Brasil, mas que, segundo Silva, se sentem vivendo uma vida de classe média na Irlanda (Perfil 1 e 6). Silva destaca as fragilidades da vida não documentada, as incertezas e tensões que permeiam uma vida com o risco da deportação. A bibliografia também chama atenção para a saída dos brasileiros de Gort, em função da crise de 2008 e ao fato dos brasileiros serem um dos principais grupos a terem a entrada negada na Irlanda. Entretanto, Marrow (2013) indica que brasileiros na Irlanda se sentem menos racializados que latinos americanos em geral na Europa e EUA.

Em 2008, um padre escreveu um pequeno relato (McNamara, 2008) sobre sua experiência com os brasileiros em Gort e redondezas, destacando, já nesses primeiros textos, a exploração que sofriam: casos de patrões demitindo brasileiros e iniciando processos de deportação. Esse quadro inicial pode ser entendido com o auxílio do perfil 1 e sua situação de precariedade no mundo do trabalho, mesmo com a documentação formal. Também McGrath (2010) e Reijane Silva (2018) destacam os processos de exploração dos imigrantes por empregadores irlandeses ou por imigrantes brasileiros mais antigos. A vulnerabilidade fica evidente no medo que os brasileiros entrevistados por McGrath têm de recorrer à polícia em casos de não pagamento de salários, por exemplo.

Bárbara Freitas (2019) descreve de forma impactante um exemplo de exploração: faz um texto autobiográfico onde mistura a história de sua mãe (imigrante na Irlanda entre 2002 e 2012) e suas lembranças de adolescente aos cuidados da tia durante esse tempo. A mãe de Bárbara trabalhou como doméstica, babá, cozinheira numa relação trabalhista de muita exploração durante os 10 anos que ficou na Irlanda. Segundo Freitas (2019, p. 98): “Por dez anos, Ana teve seu corpo e sua força de trabalho explorados na Irlanda”. Para a autora, a mãe experimentou um “trabalho doméstico precarizado, uma espécie de servidão” (Freitas, 2019, p. 101).

Esse quadro também deixa claro que desde o começo a indocumentação é parte da imigração brasileira na Irlanda, com pessoas que eram em tudo parecidas àquelas dos frigoríficos, mas sem a documentação (o nosso perfil 4). Em princípio, as pessoas do perfil 1 e 4 eram as mesmas, com a diferença exclusiva - mas muito significativa - de possuir ou não o visto. Em ambos os casos, entretanto, é clara a situação de precariedade desses imigrantes, mesmo com os documentos. Essa relação entre os perfis 1 e 4, ou seja, entre os brasileiros com visto 1 e a imigração indocumentada pode ser percebida num outro texto da primeira década do século XXI. McGrath e Murray (2009), ao analisar o impacto das redes sociais na imigração brasileira em Gort, demonstram como é justamente o adensamento das redes sociais que explica a chegada de muitos brasileiros indocumentados.

A própria amostra da pesquisa dos autores já indica um entrelaçamento entre o Perfil 1 e a indocumentação (perfil 4), mediada pelas redes sociais: dos 37 casais de brasileiros entrevistados, 9 tinham situação documentada, 25 não tinham documentação (67%) e 3 não forneceram a informação. Nesse caso, o entrelaçamento entre documentação e indocumentação é enorme e, ao menos nesse contexto, indicava uma maioria de indocumentados. Na análise que proponho, poderíamos dizer que o entrelaçamento dos perfis estimulou a chegada de muitos brasileiros sem documentação, pois, em geral, os indocumentados chegam por intermédio de pessoas anteriormente documentadas. Marrow (2013), a partir de pesquisa feita em 2006, destaca dois tipos de brasileiros, os com mais escolaridade e os com muito menos - que se assemelham, por um lado, ao perfil 1, como os trabalhadores da indústria da carne e, por outro lado, aos do perfil 2 e 3, tanto os estudantes ou os “estáveis” com maior número de anos de estudo.

Outro texto de 2009 (Sheringham, 2009) concentra suas atenções em Gort e sua fama de “integração de sucesso”. Mas a autora também informa o défice de integração estrutural, que na sua análise significa o alto número de indocumentados sem perspectiva de documentação. Dos 45 entrevistados da autora, 64% estavam indocumentados. Assim, fica evidente que há um esforço político de produção de indocumentação, o que nos permite entender ainda a proximidade entre os perfis 1 e 4: o visto 1 foi uma solução de precarização já muito próxima da indocumentação.

Nas pesquisas realizadas nos últimos anos da primeira década do séc. XXI, duas questões eram importantes, como salienta Maher (2010): os efeitos da crise de 2008, levando à diminuição do número de brasileiros, notada especialmente em Gort, e um movimento de retorno que se fez notar já no ano seguinte. McGrath (2010) e Sheringham (2010) também destacam a desaceleração da economia e seus efeitos na disputa mais renhida por empregos em Gort. Os imigrantes entrevistados por Maher, McGrath e Sheringham certamente se parecem com os perfis 1 e 4 descritos anteriormente: imigrantes de classes menos favorecidas com ou sem documentos, ou que os tiveram em algum momento.

Segundo Maher e Cawley (2015), os brasileiros se dividiam entre cidades grandes e pequenas da Irlanda, mas com a preponderância de trabalhadores ligados à indústria da carne. A pesquisa identificava a migração brasileira como de “curto prazo”, com retorno usual após certo tempo de migração. Juntamente às políticas de preferência para imigrantes de países-membros da UE, a partir de 2006, viu-se acentuar o desemprego entre os brasileiros3. Em 2011, o número de brasileiros em Gort e Roscommon caiu para mais da metade dos números de 2008 (p. 30). Há evidências, segundo Cawley (2018) e Marrow (2013), que uma parte desta população tenha se deslocado para Dublin. Já a população de brasileiros em Dublin tendia a ser de trabalhadores mais qualificados e de origens diversificadas no Brasil (Murray 2006).

Em 2011, a tese de doutorado de Reijane Silva (2011), com trabalho de campo entre 2009 e 2011, indicava uma transformação lenta da comunidade brasileira na Irlanda. Com trabalho de campo em Tullamore e Kilbeggan (e depois em Dublin), ela foca as atenções nas mulheres e suas relações com a imigração. Se antes a ideia de uma imigração temporária predominava, agora, as mulheres já pensam em permanecer na Irlanda, mais até que os homens, justamente por uma maior independência, mais trabalho, estudo para os filhos e por levar uma vida que elas consideram de classe média. Em um artigo derivado desse trabalho (Silva, 2016), ela faz uma análise dessas mulheres em termos de perfis: há três categorias, mulheres de origens mais humildes, esposas de imigrantes (com baixa escolaridade, numa média de 6 anos), mulheres relativamente humildes, mas com um pouco mais de escolaridade (média de 9 anos) que emigram sozinhas para trabalhar, e mulheres de classe média, com mais escolaridade (acima de 12 anos) e que vêm para estudar. Os dois primeiros grupos estão entre os perfis 1 e 4, que destacamos acima, e o terceiro no perfil 2.

Mas uma coisa é importante destacar no texto de Reijane Silva (2014): o fato de que mesmo as mulheres mais pobres experimentam uma vida que consideram ser equivalente à de classe média no Brasil, que seria inacessível para elas. Moram em casas iguais às de pessoas com melhores empregos, não são discriminadas por trabalhos como o de limpeza, conseguem comprar automóveis e os filhos estudam junto com os filhos da burguesia irlandesa. Vivenciar a imigração com uma qualidade de vida melhor que no Brasil, num país menos desigual acaba por embaralhar os perfis na vida prática, pois essas mulheres todas acabam por ter uma vida muito parecida (sejam as que têm pouco estudo ou as de classe média no Brasil).

A experiência da imigração diminui a distância social entre as brasileiras mais pobres e as de classe média, o que as primeiras vivem como uma ascensão social que seria impossível no Brasil. O trabalho de Silva também indica um contraste que vai marcar os trabalhos da segunda década do século XXI: o fato de haver uma separação entre as populações brasileiras em Dublin e no interior da Irlanda, sendo as primeiras mais ligadas à classe média e as segundas às classes mais desfavorecidas. Marrow (2013) também indica essa mesma diferença para um conjunto de 9 respondentes de suas entrevistas em 2006, destacando a própria percepção dos brasileiros sobre essa diferença de classe expressa na geografia irlandesa.

No trabalho mais recente sobre Gort, Farias (2022) apresenta dados de um questionário com 45 brasileiros. Desses, 5 tinham menos de 8 anos de estudo (ensino fundamental incompleto); 7 tinham o ensino fundamental completo, 1 tinha ensino médio incompleto e 20 tinham ensino médio completo, ao passo que 12 tinham ensino superior ou técnico. É uma amostra mais qualificada que as anteriores, demonstrando um certo aprimoramento da mão de obra brasileira em Gort, embora os trabalhos exercidos sejam os mesmos do começo da década de 2000. Portanto, podemos pensar num avanço da precarização: ela alcança também os brasileiros com mais anos de estudo. Dos 45 entrevistados, 66,6% estavam indocumentados e 23 estavam na Irlanda há menos de 4 anos, indicando um fluxo constante de brasileiros para a cidade.

Farias (2022, p. 127) identifica a trajetória dos imigrantes pela história de documentação: dos 30 indocumentados, 26 entraram com visto de turista e 4 com visto de estudante e depois passaram à indocumentação. Nas trilhas do embaralhamento, 6 dos que entraram como turistas conseguiram o visto 1 e dois o visto 3. Mas depois de um tempo todos eles voltaram à indocumentação, indicando mais uma vez como as trajetórias tendem a se embaralhar, produzindo um tipo de trabalhador precário, muitas vezes independentemente dos anos de formação, já que vão enfrentar o mesmo mercado de trabalho desqualificado (Machado, 2023, 2024).

Daqueles 15 brasileiros com documentos na amostra de Farias, 2 têm o visto 1; 3 têm o visto 4 e 1 o visto 3. Outros 6 conseguiram a cidadania irlandesa. Os 3 restantes obtiveram alguma outra cidadania europeia. Assim, do total de entrevistados de Farias, apenas 13 têm status “estáveis” (visto 4, cidadania irlandesa ou cidadania de outro país da UE). Ou seja, somente 30% dos entrevistados têm uma situação realmente estável e essa estabilidade não tem relação necessária com os anos de estudo, já que alguns que conseguiram a cidadania o fizeram ao manter o visto 1 por ao menos 5 anos. Nenhum dos respondentes era dono de uma casa própria na Irlanda e 4 dos respondentes já haviam sido deportados da Irlanda em algum momento, mas conseguiram entrar novamente no país.

2.2) 2º Contingente

Dalsin (2016) divide a imigração brasileira na Irlanda em duas “ondas”, uma primeira que é ilustrada nos trabalhos sobre Gort e outra “onda” marcada pela presença dos brasileiros com visto de estudo. Os dados de Dalsin, assim como os de Soares, indicam que essa população de estudantes é mais qualificada e de estratos mais altos da sociedade brasileira. Dalsin e Soares destacam a experiência de abandonar trabalhos de altas qualificações no Brasil para ocupar posições subalternas no mercado de trabalho irlandês. Assim, com a retomada da economia irlandesa, começam também a se configurar fluxos de migração qualificada e a migração para estudos (Cawley, 2018). Uma certa facilidade em conseguir o visto de estudante com permissão de trabalho de 20 horas semanais também é apontada como um motivo para a escolha da Irlanda como lugar de migração, segundo Soares (2014). No survey realizado por este autor em 2014 com o método bola de neve4, dos 310 respondentes, apenas 2% estavam sem visto, indicando uma forte mudança no perfil da migração. Dos 310 respondentes, 285 tinham nível superior. A pesquisa indicava uma concentração dos respondentes na região de Dublin, nada menos que 74%, que moravam nas partes centrais da cidade de Dublin, em casas com muitos outros brasileiros. A maior parte trabalhava em profissões de limpeza, atendentes de comércio e cuidado de crianças e idosos.

A partir dos dados do censo irlandês de 2016, Cawley (2018, p. 40) indica que 65% dos brasileiros estavam localizados em Dublin, o que nos revela que essa população é ainda pouco conhecida pela bibliografia, que se concentrou em cidades muito pequenas como Gort e Roscommon. Reijane Silva (2016), entretanto, fez uma parte de sua pesquisa com mulheres brasileiras em Dublin, indicando que havia ali pessoas com mais formação que no interior. Em termos gerais, a bibliografia sobre brasileiros na Irlanda indica uma diferença entre os perfis dos brasileiros no interior do país - menos escolarizados e mais indocumentados - e em Dublin - mais escolarizados e mais documentados.5 Esse é um cenário geral desenhado pela bibliografia sobre os brasileiros na Irlanda. No entanto, essa oposição simples entre brasileiros do interior da Irlanda (com vistos de trabalho) e de Dublin (com vistos de estudo) não é tão acurada, comportando nuances importantes.

Uma outra perspectiva a respeito do perfil dos brasileiros na Irlanda, em 2008, é apresentada no trabalho de Milena Silva (2019). Com uma parte da pesquisa quantitativa realizada em 2008, com 397 brasileiros e brasileiras, espalhados por 43 cidades diferentes. Do total de respondentes, 55% eram do centro-oeste brasileiro, o que demonstra a intensidade das redes goianas de migração. Em termos de anos de estudo, temos um quadro intermediário entre pesquisas com foco no interior e em Dublin:

Tabela 1
Escolaridade dos brasileiros na pesquisa de Milena Silva (2019, p. 58)

Nessa pesquisa, os brasileiros com pouca escolaridade6 (8 anos ou menos) são 33,4% (associados ao perfil 1). Brasileiros com escolaridade média (entre 9 e 11 anos) são 32,4% e os com alta escolaridade (12 anos ou mais) são 33,8%. Isso mostra um perfil intermediário entre a ideia de que haveria dois tipos de brasileiros, os estudantes e “estáveis” (perfil 2 e 3) e os trabalhadores pouco qualificados (perfis 1, 4 e 6). O trabalho de Soares (2014) avança nesse cenário de distinção entre os brasileiros do interior versus os de Dublin. Com questionários realizados em 2011, a autora produziu um survey com uma amostra de 310 brasileiros. Os resultados são contrastantes com as demais pesquisas: o número de mulheres na amostra é de quase 67%, apenas 18% do total estava casado, comprometido ou em relacionamentos sérios, predominava o intervalo etário de 22 a 29 anos. Mas o dado mais díspar é que, dessa amostra, 92% tinham curso superior (Soares, 2014, p. 95). Praticamente 65% das pessoas vinham do sudeste, quase ninguém de Goiás e 74% das pessoas moravam em Dublin. Não por acaso, 76% eram estudantes, 9% tinham dupla cidadania e 7% estavam casados com irlandeses/as; apenas 1,6% estava indocumentado e 1,3% com visto de trabalho. Para compararmos, no trabalho de Maher e Cawley (2016), com base numa amostra de 57 brasileiros/as no interior da Irlanda, apenas 12 tinham ao menos o ensino secundário. Ou seja, 79% não tinham ensino médio, e 85% estavam indocumentados (em 2010). Esse questionário de Soares é interessante, pois praticamente não conta com os brasileiros do perfil 1 (os que têm o visto 1 ou 3) e também os do perfil 4 (os indocumentados). Tem alguma informação sobre os que estão no perfil 3 (os estáveis, com o visto 4, no caso os casados com irlandeses/as e os com dupla nacionalidade, somando 16% da amostra). O que o questionário reflete é o perfil 2, dos estudantes brasileiros na Irlanda em 2011. Podemos dizer que era o cenário desse perfil naquele momento, o que provavelmente já mudou bastante.

É interessante notar que os autores que trabalham com os “brasileiros do interior” destacam que a crise de 2008 diminuiu a população, ao passo que Soares indica que a população de brasileiros aumentou mesmo com a crise. As duas informações são verdadeiras: a crise foi severa para aqueles que dependiam do visto 1, com o fechamento de muitas fábricas de processamento de carne. Maher e Cawley (2016), por exemplo, destacam que o número de autorizações de trabalho em 2004 era de 1512, ao passo que esse número caiu para 115 em 2013. Ou seja, há elementos para defender uma “diminuição” do número de brasileiros no pós-crise, ao menos daqueles que trabalhavam com a autorização de trabalho. Muitos desses trabalhadores documentados passaram à indocumentação, num cenário de crise pós-2008 e com uma maior competição pelos trabalhos não qualificados (Maher, Cawley, 2016). Vemos aqui também uma das facetas de um projeto de precarização da imigração de não europeus, que foram empurrados à indocumentação e tiveram a situação laboral sensivelmente mais debilitada. Ao mesmo tempo, o número de estudantes aumentou na região de Dublin, como destaca a pesquisa de Soares, inflados pelo programa Ciência sem Fronteiras. Ou seja, temos um retrato dos estudantes influenciado por esse programa (o número de 92% de estudantes graduandos é prova disso).

Essa pesquisa de Soares também permite entender o contraste que a bibliografia estabelece entre brasileiros no interior - e os meus perfis 1, 4 e 6 - e os brasileiros de Dublin, estudantes do perfil 2 (e talvez do perfil 3). Seria um contraste de classe, marcado pelo número de anos de estudo. Porém, as coisas atualmente estão muito mais embaralhadas. O fato é que o visto de estudo foi e é um caminho muito utilizado por brasileiros mais qualificados para entrar na Irlanda, mas o que acontece após o prazo do visto expirar é uma outra conversa, da qual já vimos algumas opções: obtenção de visto de trabalho (visto 1), casamento (visto 4) ou indocumentação.

Soares destaca também o tipo de emprego que esses brasileiros qualificados executam enquanto estudantes: babás, faxineiras/os, garçons, ajudantes de cozinha etc. Estão, portanto, no mesmo mercado de trabalho ligado ao visto 1: trabalhos pouco qualificados. Esse visto resolve uma questão de preencher essas vagas no mercado de trabalho sem inserir os trabalhadores no sistema social irlandês (Machado, 2024): os estudantes não podem acessar os direitos sociais irlandeses e o tempo que passam sob esse visto não conta prazo para obter o visto 4 ou a nacionalidade. Os estudantes são trabalhadores precários e completamente descartáveis, vistos como temporários. Não é por menos que o número de estudantes cresceu enormemente durante o pós-crise: eles eram uma mão de obra muito qualificada, muito barata e sem quaisquer direitos.

Outra pesquisa, desenvolvida a partir de 5 entrevistas de imigrantes brasileiros que foram à Irlanda como estudantes, também mostra um cenário parecido. Segundo Ana Beatriz da Silva (2020), todos os 5 entrevistados tinham curso superior no Brasil. Um deles, entretanto, tinha dupla nacionalidade e, por isso, não entrou com o visto 2. Ele fez um doutorado na Irlanda com bolsa e não precisou trabalhar. Os demais todos entraram como estudantes no visto 2, executando trabalhos não qualificados: camareira, faxineira, entregador de aplicativo, lavador de louças em restaurante etc. Desses 4, dois voltaram ao Brasil por não conseguirem a renovação do visto de estudante. Outra provavelmente passou à indocumentação enquanto espera pelo casamento com um parceiro irlandês e outra conseguiu um contrato de trabalho no visto 1, passou os 2 anos como trabalhadora qualificada e agora tem (provavelmente) o visto 4, que lhe permite fazer um mestrado pagando o mesmo valor que os irlandeses (consideravelmente menor que o preço pago por estrangeiros sem o visto 4 ou cidadania irlandesa). A precariedade é, portanto, um projeto.

Dalsin (2016) também defende a ideia de que há, efetivamente, um segundo contingente de brasileiros na Irlanda, marcado pela diminuição dos trabalhadores pouco qualificados dos frigoríficos e demais profissões pouco qualificadas e um aumento de estudantes qualificados para executar trabalhos pouco qualificados. Também Reijane Silva (Silva, 2018) sugere que havia um novo fluxo de brasileiros, marcado pela presença dos estudantes em Dublin. Assim, em vez de diminuir, o número de brasileiros aumentou no pós-crise 2008, mas especialmente o dos estudantes. Para Dalsin (2016), com informações da embaixada brasileira, em 2016, havia 21.000 brasileiros na Irlanda e desses, 75% seriam de estudantes e estariam concentrados principalmente em Dublin. Seriam brasileiros de classe alta, solteiros e jovens. Com uma amostra de 11 entrevistas com estudantes, ela mostra como eram supostamente bem situados economicamente antes de sair do país e como exerciam profissões não qualificadas nas 20 horas que podiam trabalhar, sob o visto 2.

2.3) Outros contingentes

Azevedo (2016), em estudo de 2014, por sua vez, realizou 6 entrevistas com brasileiros com cidadania italiana, com curso superior e trabalhando em suas áreas na Irlanda. Todos, portanto, com perfis que poderíamos relacionar ao Perfil 3, dos estáveis. É de se destacar que entre eles a questão da identificação com o Brasil ou com uma identidade brasileira é permeada por uma posição de classe, que pretende obviamente distingui-los dos brasileiros com pouca formação e oriundos das classes populares que também estão na Irlanda. Uma das brasileiras diz:

Não me agrada o estereótipo que a brasileira tem no exterior. Eu evito frequentar festas de brasileiros. A gente vê umas meninas aí que deixam a gente com vergonha de ser brasileira. A vulgaridade, essa imagem que algumas passam e que acaba formando o estereótipo da brasileira. (entrevistada de Azevedo 2016, p. 16)

Ou ainda um outro entrevistado:

Eu procuro selecionar os brasileiros com os quais convivo, porque, infelizmente, a maioria dos que vêm pra cá só replicam a imagem errada de que o Brasil é só samba, futebol. Eu detesto isso. (entrevistada de Azevedo 2016, p. 16)

Um outro estudo sobre brasileiros com alta formação e com níveis estáveis de permanência, chega, inclusive, a dar um nome diferente a essa categoria, seguindo uma bibliografia sobre o tema: SIEs (self iniciative expatriated, ou expatriados por iniciativa própria), o que não passa de um nome chique para diferenciar esses imigrantes com mais formação dos demais (Lyons, 2021). O destaque desse trabalho é uma amostra de 85 brasileiros altamente qualificados (48% com graduação e 32% com mestrado), dos quais 63% chegaram na Irlanda nos últimos 5 anos, considerando 2021 o ano da pesquisa. Isso evidencia uma imigração em crescimento, com um espaço para os brasileiros que se encaixam na categoria de “altas habilidades”. Sem surpresa, a pesquisa indica que 84% não querem voltar ao Brasil e que quanto maior o domínio de inglês, maior a sensação de “integração”. Embora o trabalho não especifique o status legal desses imigrantes, é provável que ou tenham dupla cidadania ou estejam com o visto 4 (eventualmente com o visto 1 que, na modalidade de altas habilidades, pode ser transformado no visto 4 em apenas 2 anos). São, portanto, “estáveis” (Perfil 3 e 5) e não exatamente os estudantes, que têm uma situação muito menos estável.

Um olhar a esses brasileiros de classe média obviamente nos leva a pensar nas desigualdades sociais brasileiras e suas consequentes hierarquias de alteridade (Grosfoguel, Georas, 2000; Machado, 2009) - no Brasil, sempre racializadas: o brasileiro de classe média (em situação estável) não quer se confundir com o brasileiro médio que vive na Irlanda, mais comumente retratado como os brasileiros de Gort, oriundos de classes populares, com menos anos de estudo e portadores do visto 1 ou indocumentados. Pensar os perfis nos ajuda a entender também essas tentativas de diferenciação e avaliação da própria ideia de Brasil na Irlanda. Entretanto, os mesmos entrevistados acham uma boa ideia aproveitar a fama que os brasileiros na Irlanda têm de trabalhadores, já que isso pode facilitar a vida no mercado de trabalho: “os brasileiros têm a fama de trabalhadores. Isso gera uma imagem positiva e é claro que ajuda.” (entrevistada de Azevedo, 2016, p. 17). Nesse caso, o fato dessa fama ter se produzido justamente por conta dos brasileiros mais pobres e trabalhadores de lugares como Gort, Roscomonn e Kilbeggan, não entra em questão quando a imagem é positiva para todos os brasileiros - já quando é negativa (na percepção de alguns), a culpa recai nos imigrantes brasileiros pobres.

O trabalho de Azevedo deixa evidente um perfil de classe mais alta, desfrutando de um status mais seguro em função da dupla nacionalidade. Essa segurança garante melhores lugares no mercado de trabalho, possibilitando até uma ocupação de espaços nas áreas de formação no Brasil. Esse outro perfil era menos conhecido no começo da história da imigração brasileira na Irlanda, sempre voltada para os imigrantes do visto 1 e os indocumentados (e depois aos estudantes). Num texto mais recente, já com as informações do censo irlandês de 2016, Cawley (2018) faz um trabalho semelhante ao que proponho aqui: realiza uma avaliação geral do perfil dos brasileiros na Irlanda, destacando três perfis: os com pouca qualificação, mas bem conhecidos com os trabalhos a partir de Gort e outras pequenas cidades; os com altas qualificações, que entram com a autorização das altas habilidades (visto 4 ou 1) e, por fim, os estudantes (visto 2). Vai dedicar um pouco de esforço aos estudantes, que são menos conhecidos, em sua opinião, ao passo que os imigrantes de “altas habilidades” são completamente desconhecidos (obviamente, levando em conta que ela não cita a bibliografia brasileira sobre o tema, como a de Soares, que trata justamente dessa população).

Uma coisa a se afirmar é que, em certos casos, o perfil de “altas habilidades” se confunde tanto com os estudantes, por terem formações superiores, como com o perfil dos precários, por possuir, a princípio, o visto 1 (mas esse não é o caso quando têm dupla cidadania ou o visto 4). É bem verdade que precisam de apenas 2 anos para conseguir o visto 4, ao contrário dos 5 anos para os imigrantes sem altas habilidades, mas, durante esse tempo, estão na mesma situação de fragilidade laboral. O contrário acontece com os estudantes: embora tenham, em geral, formações especializadas, não conseguem acessar o mercado em suas áreas, trabalhando em empregos como os dos “precários”. Assim, há uma mistura grande entre os perfis, que nomeio de embaralhamento e que retrata de forma mais precisa o que acontecia em 2022.

2.4) Mais algumas informações

No censo de 2006, 61,5% dos brasileiros viviam no condado de Galway (onde está Gort, entre outras cidades de imigração brasileira). Nos censos anteriores a 2016 havia uma predominância de homens, o que mudou, com uma ligeira vantagem para as mulheres no censo de 2016 (e 2022), o que para a Cawley (2018) é explicado pelos estudantes brasileiros, que são em maioria mulheres. Em 2016, além disso, 65,3% dos brasileiros estavam morando no condado de Dublin e apenas 8,5% em Galway (onde está Gort), mas havia em 2022 uma diminuição da concentração em Dublin, indicando um espalhamento pela Irlanda e a retomada dos contratos de trabalho do perfil 17.8

Tabela 2
Brasileiros residentes na Irlanda e distribuição por condados em 2002, 2011 e 2016. Dados de 2022 a partir do censo de 2022

A concentração em Dublin é fruto dos estudantes de língua estrangeira, segundo Cawley, mas seria bom destacar que o censo de 2016 capta os brasileiros que participavam do programa Ciências sem Fronteiras (temporário), tendendo a distorcer um pouco o perfil que os números oferecem9. Em 2008, 4828 vistos de estudantes foram concedidos a brasileiros (Maher, 2010, p. 49) e em 2015 das 10955 permissões de residência (first-residence permits) para os brasileiros, 28,5% foram dadas por razões educacionais (Cawley, 2018, p. 50). Em termos de emprego, a autora nota que os trabalhos como os do processamento da carne caíram, ao passo que os trabalhos em serviços de alimentação e acomodação predominavam. Mas as fábricas de carne voltaram a empregar nos últimos anos, mudando ainda mais o cenário já bastante variável dessa história da imigração brasileira na Irlanda, sendo o número crescente de autorizações de trabalho um indício desse processo. Os dados de 2016, entretanto, confirmavam a ideia de um segundo contingente: empregos na indústria diminuíram e os empregos típicos de estudantes (garçons, babás, au pairs, cuidadoras, assistentes de cozinha e faxineiras) aumentaram. Os dados de autorizações de trabalho (tanto o visto 1 como 4) confirmam um crescimento constante da presença de trabalhadores brasileiros, como vemos no gráfico abaixo.

Tabela 3
Autorizações de trabalho emitidas para brasileiros na Irlanda10 Dados para 2018-2024 no Ministério de trabalho irlandês11

Estávamos vendo, portanto, em 2016, uma diminuição dos trabalhadores pouco qualificados e um aumento no número de estudantes, processo que pode ter se equilibrado em 2022. Ao menos nos dados do mercado documentado, já que a indocumentação não aparece nessas informações e sabemos que ela acompanha a imigração brasileira na Irlanda desde sempre. Em 2022, 4304 autorizações foram lançadas para brasileiros; no mesmo ano, apenas até setembro, 3332 vistos de estudos haviam sido emitidos para brasileiros12. Isso dá uma ideia que mais recentemente a entrada de brasileiros com visto de trabalho e de estudantes está equilibrada.

Considerações finais

Cawley apresenta outro conjunto de informações, provenientes de um relatório do Gort Justice for Undocumented Campaign Group, de 2017. Esse grupo é composto por brasileiros e irlandeses promovendo uma luta para a documentação daqueles imigrantes indocumentados na cidade. Na pesquisa com 70 indocumentados, cerca da metade deles estava na Irlanda há mais de 10 anos e, num dado que apresenta desafios interpretativos, 51% tinham educação secundária e 27% tinham um diploma de ensino superior. O mercado de trabalho desses indocumentados era o mesmo mercado de empregos com pagamentos abaixo da média.

Essa pesquisa revela mais um embaralhamento de todos os perfis que foram levantados pela bibliografia e também os que eu estou articulando até aqui: supostamente, os indocumentados deveriam ter baixa formação escolar, já que os brasileiros com maior formação estariam em situações de maior estabilidade com os vistos de “altas habilidades” ou como estudantes. Mas esse dado revela que essas pessoas com maior formação passaram para a indocumentação (estudantes que não renovaram o visto) ou entraram no país sem perspectiva de documentação e permaneceram indocumentados. O fato de estarem nessa situação há muitos anos indica que já há tempos os perfis se embaralham: na chegada, a partir dos vistos, uma situação está dada (e é ela que meus perfis detectam), mas a experiência de vida na Irlanda embaralha toda a experiência, fazendo com que pessoas de diferentes extratos sociais no Brasil experimentem uma mesma situação de indocumentação e de empregos precários na Irlanda. Esse número indica também como o visto de estudante é um mecanismo de exploração do trabalho que apenas continua na indocumentação quando expira.

Assim, na vida dos indocumentados, a formação acadêmica não importa, já que vão habitar no mesmo mercado de empregos precários. Reijane Silva (2018, p. 167) afirma, por exemplo, que o salário pago aos indocumentados girava em torno de 8 euros a hora, ao passo que os trabalhadores documentados chegavam a ganhar 20 euros por hora. Ou seja, há uma conversão dos perfis 1, 2, 6 para o perfil 4, igualando as experiências de vida na Irlanda. Quem consegue sair da espiral da indocumentação - ou porque consegue uma segunda nacionalidade da UE ou porque casa com um irlandês ou algum membro da UE - pode reestabelecer aquela diferença marcada pelos anos de formação no Brasil: podem disputar um outro tipo de mercado de trabalho caso tenham formação. Ou seja, os brasileiros no perfil 3 e 5 (os mais estáveis) tendem a ter mais formação e estarem no mercado de altas habilidades. Mas, mesmo assim, há um embaralhamento: imigrantes com contrato de trabalho no visto 1, depois de 5 anos, podem acessar o visto 4. Há também imigrantes estáveis num mercado de trabalho mal pago, mas com a diferença de poder recorrer aos direitos sociais irlandeses, o que é uma barreira contra a exploração: em muitos casos, o dinheiro para complementação de renda é um corte no tipo de salário que esses brasileiros recebem e, portanto, têm uma camada de proteção contra a superexploração que os indocumentados não têm.

Um dos efeitos desse embaralhamento é também o que poderíamos chamar de “dispersão”, ou seja, uma multiplicação de presenças brasileiras na Irlanda, com perfis embaralhados e complexos, como, aliás, os números apresentados demonstram. Por outro lado, mesmo os brasileiros com curso superior que estão no mercado em suas profissões podem ter vidas materiais não muito distintas daqueles brasileiros documentados em empregos não tão bem pagos, já que a diferença social na Irlanda é significativamente menor que no Brasil e, assim, a diferença de salários não é tão grande. Esses brasileiros moram em condições semelhantes, têm filhos que estudam nas mesmas escolas e têm vidas não tão distintas.

Ou seja, esses dados nos permitem pensar num embaralhamento geral das experiências de vida na Irlanda, que acabam por separar dois grandes grupos: os indocumentados e os estáveis, com os estudantes num estatuto intermediário, pois o visto de estudo gera uma situação precária. Os primeiros vivem vidas mais precárias economicamente, por não acessarem direitos básicos e são mais facilmente explorados em relações de trabalho desiguais, ao passo que os estáveis têm vidas mais seguras e menos precárias. Mas mesmo essa diferença não é absoluta, pois há brasileiros indocumentados que conseguem, em termos econômicos, uma vida melhor através principalmente de empregos no que poderíamos chamar de “mercado étnico”, de brasileiros para brasileiros. Nesses casos, em termos de manifestação exterior de uma vida econômica, muitos indocumentados têm vidas similares aos documentados. As únicas diferenças absolutas que temos entre indocumentados e documentados é o acesso aos serviços sociais irlandeses e a possibilidade de viajar para fora da Irlanda (como fazer visitas ao Brasil, por exemplo), pois sempre temem não conseguir voltar e serem deportados nos aeroportos irlandeses.

Declaração de Disponibilidade de Dados

Dados estatísticos são públicos, bem como dados de pesquisas já publicadas por terceiros. Informações derivadas da pesquisa de campo estão no diário de campo, cuja disponibilidade é restrita à solicitação justificada, já que há dados sensíveis.

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  • ______. ‘Deus me trouxe pra cá’: goianos na Irlanda, projeto emigratório e religião. Revista da Universidade Federal de Minas Gerais, v. 25, n. 1 e 2, p. 158-177, 2018.
  • SOARES, Alessandra G. O. Brasil na Irlanda: vidas em deslocamento na mobilidade contemporânea. Dissertação (Mestrado) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014.
  • ZOU, Mimi. The legal construction of hyper-dependence and hyper-precarity in migrant work relations. International Journal of Comparative Labour Law and Industrial Relations, v. 31, n. 2, 2015.
  • 1
    Auxílio Regular FAPESP 2020/03242-9. “Novas emigrações brasileiras: sobre os brasileiros na Irlanda pós Brexit” (2021-2024).
  • 2
    Essa era a situação durante o trabalho de campo em 2022. Em setembro de 2024, entretanto, as regras mudaram para o visto 1. Nas novas regras é possível que os imigrantes mudem de emprego após noves meses, desde que seja para a mesma profissão da concessão original. O visto também pode ser oferecido a trabalhos não listados como essenciais, para isso é preciso anunciar publicamente a vaga por um tempo e depois provar que não houve demanda pelos irlandeses e membros da UE. Além disso, o empregador precisa seguir a regra “50/50”, pela qual no mínimo metade dos empregos oferecidos nesta solicitação devem ser preenchidos por irlandeses e/ou europeus. O artigo faz todas as reflexões a partir das regras que vigiam durante o trabalho de campo, antes desta mudança, destaque-se.
  • 3
    Em 2006 foi promulgado o Employment Permit Act, que reduziu ainda mais a concessão de permissões para não europeus. Em 2009 houve um novo recrudescimento do sistema, dificultando a entrada de trabalhadores não qualificados e mantendo a política para imigrantes não europeus qualificados. O mercado não qualificado foi direcionado a nacionais europeus da comunidade europeia, principalmente poloneses (Allen, 2007; Ruhs, Quinn, 2009).
  • 4
    Todas as pesquisas aqui citadas utilizaram-se deste método e não têm, portanto, pretensão de representatividade estatística.
  • 5
    O censo de 2022 indica que há quase 40000 brasileiros na Irlanda, revelando um crescimento apesar da crise de 2008 e da COVID. Dados em https://www.cso.ie/en/releasesandpublications/ep/p-cpsr/censusofpopulation2022-summaryresults/migrationanddiversity/ acessado e, 31/08/2023. O número exato é 39556. O MRE estima em 80000 o número de brasileiros na Irlanda em 2023 (Brasil, 2024).
  • 6
    Relativamente, pois que se compararmos com as médias brasileiras, elas são bem altas. No Brasil, só como contraponto, em 2019, 35% das pessoas com idade para trabalhar não tinha completado o ensino fundamental (Oliveira, 2019).
  • 7
    Dados para 2022 são retiradas de informações públicas do censo de 2022 em https://data.cso.ie/table/FY017 , https://data.cso.ie/table/FY016 e https://data.cso.ie/table/F5003 . As tabelas 017 e 016 dão números diferentes: a 17 indica que há 27338 cidadãos brasileiros na Irlanda, e a tabela 16 indica que há 39556 pessoas nascidas no Brasil atualmente vivendo na Irlanda. A diferença de 12218 refere-se, portanto, a pessoas identificadas pelo estado como nascidas no Brasil, mas com outras cidadanias, além da brasileira - estamos provavelmente falando de pessoas com mais de uma nacionalidade, das quais apenas a europeia é reconhecida no censo. Também refere-se aos brasileiros que conseguiram cidadania irlandesa (2409).
  • 8
    Dados em Cawley (2018, p. 40), a partir dos censos de 2002, 2011 e 2016
  • 9
    Em 2014, 973 estudantes se candidataram ao programa Ciências sem Fronteiras na Irlanda, e 1084 em 2015, segundo Hennigan (2015).
  • 10
    A partir de Cawley, 2018, p. 46.
  • 11
    https://enterprise.gov.ie/en/publications/employment-permit-statistics-2025.html
  • 12
    Dados em https://gostudyin.com/news/ireland-issues-record-number-of-work-permits-to-non-eea-nationals/.
  • Editores de seção
    Igor José de Renó Machado, Alexandre Branco-Pereira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Nov 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    27 Ago 2025
  • Aceito
    25 Set 2025
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