Open-access O amor lésbico como amor de si

The lesbian love as a love of the self

El amor lésbico como amor del yo

Resumo:

Os discursos sobre o amor lésbico circulam em diversos espaços sociais, diferentes mídias e artefatos culturais. Este artigo estudou textos literários publicados em plataformas de leitura on-line como Wattpad e Amazon Kindle, com o objetivo de compreender que discursos sobre o amor lésbico constituem esses textos. Uma das formas de amor entre mulheres encontrada parte de um exercício ético de amar, em que o amor pela outra mulher também se configura como um amor de si, a partir do qual é possível constituir uma arte de viver para si mesma. O artigo discute em que medida o amor lésbico como amor de si funciona enquanto enunciado nos discursos de sete livros que contam histórias de amor entre mulheres publicados de forma independente nas referidas plataformas digitais.

Palavras-chave:
Lésbica; Amor; Ética; Literatura

Abstract:

Discourses about lesbian love circulate in different social spaces, different media and cultural artifacts. This article studied literary texts published on online reading platforms such as Wattpad and Amazon Kindle, with the aim of understanding what discourses about lesbian love constitute these texts. One of the forms of love between women found starts from an ethical exercise of loving, in which the love for the other woman is also configured as a love of the self, from which it is possible to create an art of living for oneself. The article discusses to what extent lesbian love as love of the self works as stated in the speeches of seven books that tell love stories between women published independently on the aforementioned digital platforms.

Keywords:
Lesbian; Love; Ethic; Literature

Resumen:

Los discursos sobre el amor lésbico circulan en diferentes espacios sociales, diferentes medios y artefactos culturales. Este artículo estudió textos literarios publicados en plataformas de lectura en línea como Wattpad y Amazon Kindle, con el objetivo de comprender qué discursos sobre el amor lésbico constituyen estos textos. Una de las formas de amor entre mujeres encontradas parte de un ejercicio ético de amar, en el que el amor a la otra mujer se configura también como un amor del yo, a partir del cual es posible crear un arte de vivir para si misma. El artículo analiza hasta qué punto funciona el amor lésbico como amor del yo como lo afirman los discursos de siete libros que cuentan historias de amor entre mujeres publicados de forma independiente en las mencionadas plataformas digitales.

Palabras clave:
Lesbiana; Amor; Ética; Literatura

Introdução

Os textos literários publicados em plataformas digitais vêm ganhando espaço com a socialização de diferentes formas de leitura a partir da internet e das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação. Em nossa pesquisa, estudamos duas plataformas de leitura: o Wattpad, que é gratuito, e o Amazon Kindle, na qual as(os) leitoras(es) podem comprar os e-books individualmente ou acessar um grande conjunto de textos disponibilizados mediante assinatura do programa de streaming de leitura da Amazon: o Kindle Unlimited.

Nesse contexto, nos propomos a estudar que discursos acerca do amor lésbico circulam nos textos literários veiculados nas referidas plataformas digitais. A análise dos textos levou em conta procedimentos de análise discursiva inspirada pelo pensamento foucaultiano. A partir dessa perspectiva teórico-metodológica, entendemos que as histórias de ficção que estudamos são pedagógicas, produzindo modos de ser sujeito e de se relacionar com o mundo. Tais textos estão constituídos por discursos imbricados nas vivências das mulheres e seus modos de amar, em suas relações afetivas, românticas e/ou sexuais umas com as outras.

A pesquisa1 à qual nos referimos realizou-se no campo da Educação, tendo como objetivo observar os romances lésbicos não pela lente da crítica literária, mas na medida em que são pedagógicos. Guacira Louro argumenta que as mídias, a música, a publicidade, o cinema e outros artefatos têm “múltiplas instâncias [que] nem sempre são coerentes ou igualmente autorizado[a]s, mas estão, inegavelmente, espalhado[a]s por toda a parte e acabam por constituir-se como potentes pedagogias culturais” (Louro, 2008, p. 18).

Dentre as formas de amar que encontramos nos textos de literatura lésbica analisados, ressaltamos uma compreensão do amor lésbico como amor de si, sobre a qual gostaríamos de tratar neste artigo. Antes, porém, acreditamos ser necessário traçar considerações acerca do nosso referencial teórico e metodológico. Assim, na próxima seção, discutiremos as imbricações dos conceitos de discurso, poder e ética, bem como suas implicações para a pesquisa; em seguida, trataremos da seleção dos livros que formaram nosso corpus analítico para, então, chegarmos à seção em que traremos a análise dos excertos e a problematização do amor lésbico como amor de si.

O discurso, o poder e a ética

Analisamos os textos literários em sua dimensão discursiva, operando com procedimentos de análise do discurso abordados por Michel Foucault (1972), sobretudo em A Arqueologia do Saber. Foucault (1972) explica que a arqueologia nada mais é do que a descrição dos acontecimentos discursivos. Os discursos não são algo contínuo, que tem uma origem secreta a ser encontrada, mas emergem como acontecimento social e histórico. Os discursos constituem conjuntos inumeráveis, embora finitos, de enunciados, e a análise dos acontecimentos discursivos olhará para o enunciado perguntando de que modo ele emergiu, o porquê da emergência desse enunciado, e não de outro.

Desse modo, estabelecendo que sua proposta de análise discursiva parte da descrição dos enunciados, Foucault (1972) argumenta que um enunciado não é uma unidade linguística. Um enunciado não está sujeito às regras gramaticais de uma língua. Assim, ao olhar para os textos literários que estudamos nesta pesquisa, nossa forma de operar não ocorreu tomando cada excerto como um enunciado; de outro modo, os enunciados são funções enunciativas que possibilitam a existência dessas unidades linguísticas.

Os enunciados que funcionam na literatura lésbica publicada no Wattpad e no Amazon Kindle não funcionam lá, somente. Não são uma criação individual das autoras de tais textos, mas se materializam de muitas outras maneiras, em vários outros espaços. Foucault (2014a) argumenta que não se deve pensar o discurso na perspectiva da criação ou da originalidade individual, mas na perspectiva do acontecimento e da regularidade enunciativa. Os discursos têm sua circulação limitada, suas aparições dominadas pelos mecanismos de poder que agem em toda sociedade, demarcando o que entra e o que não entra no jogo do verdadeiro.

Ao pensar a emergência de determinados discursos e os mecanismos de poder a que estão atrelados, o autor olha para a história; afinal, se os enunciados são acontecimentos históricos, não se pode ignorar o contexto que deu possibilidade à sua irrupção - o que não significa a busca de uma origem. De modo semelhante, não foi nossa intenção buscar a origem do amor, da lésbica, da mulher ou do amor lésbico. Não tomamos esses conceitos como categorias universais, que possuiriam uma continuidade evolutiva no decorrer da história das sociedades ocidentais. Buscamos pensar os contextos, os deslocamentos históricos e sociais que permitiram a emergência de determinados discursos sobre o amor lésbico que hoje circulam, entre outros locais, na literatura lésbica publicada em plataformas digitais.

Junto ao pensamento foucaultiano, construímos nossa análise, também, a partir dos estudos sobre o poder feitos por Judith Butler (2020). Em A vida psíquica do poder, a autora argumenta que pensar a maneira como os sujeitos se constituem não é uma tarefa que pode ser deslocada da compreensão dos regimes de verdade, que instituem normas que determinam modos de ser considerados socialmente legíveis e reconhecíveis. Isso não significa que tudo o que fazemos é ditado pelas normas, mas que não se pode desconsiderar que as normas são um constante ponto de referência para nossa ação. Há um outro componente na subjetivação, que é a reflexibilidade do sujeito sobre si, na medida em que buscamos dizer a verdade sobre nós mesmos.

Nessa lógica de pensar sobre si, Foucault (2016) retorna aos gregos antigos - sobretudo os dos primeiros séculos da nossa era - no curso Subjetividade e Verdade, ministrado entre os anos de 1980 e 1981. O autor chama a atenção para as ditas “técnicas de si”, que existiriam em qualquer sociedade e estão ligadas aos modos como uma pessoa irá constituir-se no processo de conhecer-se e dominar-se. Isso passaria por uma reflexividade que o sujeito faz a respeito de si, sobre as formas de existência que lhe são possíveis e o que gostaria de alcançar em termos não apenas de conduta, mas de modo de vida.

Na Antiguidade, como aponta Foucault (2016), figurava a noção de “arte de viver” que abrangia modos de se comportar em momentos específicos, envolvia o desenvolvimento de atividades e mesmo questões diárias da existência do sujeito. Nessas artes de viver, o que a pessoa faz - suas ações, seu comportamento - é importante, mas o que fundamenta a relação ética que o sujeito tem consigo é a forma como o indivíduo aprende “a qualificar ou moldar seu ser e a obter determinado tipo de experiência que seja absolutamente específico” (Foucault, 2016, p. 30). As qualidades que o sujeito molda em si não corresponderiam a comportamentos controlados, orientados por uma moral virtuosa, mas qualidades da sua própria existência e de suas experiências. Isso é alcançado, como aponta o filósofo, a partir da relação com os outros e da relação consigo mesmo e com a verdade. As artes de viver, nesse sentido, são uma “técnica pela qual o indivíduo, não sem relação com outrem mas no fim das contas por si mesmo, exercitando a si mesmo e agindo sobre si mesmo, tenta adquirir determinada qualidade de ser” (Foucault, 2016, p. 34).

O referido autor adensa seus estudos a esse respeito no curso A Hermenêutica do Sujeito. A relação ética que o sujeito tinha consigo, no contexto da Antiguidade Ocidental, perpassa um cuidado para consigo próprio, um ocupar-se consigo. O cuidado de si abarca, como argumenta o filósofo, uma forma de vida. O sujeito que cuida de si a toda hora retorna às suas práticas, examina a si mesmo, não para se julgar em uma relação de culpa (como ocorre na moral cristã), mas para orientar sua conduta a partir de uma visão crítica de si.

O interesse foucaultiano não está estritamente vinculado aos modos como se davam essas relações éticas na antiga Grécia, mas em pensar a ética do cuidado de si enquanto parte da história filosófica do Ocidente e enquanto movimento diferenciado do que se estabeleceu na tradição da filosofia, que seria o conhecimento de si. Ao analisar esse “conhecer a si mesmo” por si só, na opinião de Foucault (2010), corre-se o risco de entender que há uma continuidade histórica na forma como o sujeito se conhece, porque se conhecer seria desvelar uma verdade inerente. De outro modo, em aliança com o que chamamos de “cuidado de si”, o “conhecimento de si” ganha um caráter de exercício, de práticas que sustentam a reflexividade e de uma relação com a verdade que é necessariamente descontinua, na medida em que a verdade é, por si só, histórica e, assim, variável.

É perceptível, portanto, que, ao chamar os gregos antigos para o debate, o autor não está postulando um retorno à ética grega. Pelo contrário, ele tece uma crítica significativa a essa ética na medida em que estava contextualizada em uma “sociedade essencialmente viril, na qual as mulheres eram oprimidas, na qual o prazer das mulheres não tinha importância” (Foucault, 2014b, p. 218) e, ainda, ao garantir que “não há valor exemplar em um período que não é o nosso... não se trata de voltar a um estado anterior” (Foucault, 2014b, p. 220).

Então por que falar sobre essa ética, se ela não corresponde à nossa atualidade? Foucault, ressaltamos, não faz uma simples análise do passado sem imperativos para a filosofia do presente. Ele chama atenção para o fato de que, em nossa sociedade, mantivemos uma ideia de que a moral seria algo imposto e inquestionável e a possibilidade de uma ética da existência nos ajudaria a “nos livrar da ideia de um elo analítico e necessário entre a moral e as outras estruturas sociais, econômicas ou políticas” (Foucault, 2014b, p. 222), de forma a ser possível pensar hoje uma ética que, embora não seja livre das normas vigentes, tem potencial de criação.

As práticas de liberdade enquanto práticas que a pessoa tem consigo, a partir da sua reflexividade, constituiriam a própria ética. Não se trata de dissolver as relações de poder (mesmo porque não há sociedade sem elas), mas de possibilitar práticas que permitam negociar, mudar algumas regras, desestabilizar algumas normas e participar dos jogos inevitáveis de poder de forma a reduzir relações de dominação. Butler (2020) estuda esse pensamento foucaultiano de forma a chamar atenção para as possibilidades de pensar a ética no presente e aproxima a lógica da liberdade das relações que temos com os outros. Para ela, Foucault, ao tratar da ética, não abarcou suficientemente a questão do outro nos modos como os sujeitos se constituem. Nesse sentido, a autora chama atenção para o quão sociais são as normas, visto que “as normas pelas quais eu reconheço o outro ou a mim mesma não são só minhas” (Butler, 2020, p. 37). Assim, quando se desafia os regimes de verdade, não se faz apenas na relação do sujeito consigo, na medida em que esse sujeito não consegue se reconhecer nas normas vigentes, mas se faz também devido à relação com o outro, no desejo “de reconhecer o outro ou de ser reconhecido pelo outro” (Butler, 2020, p. 38). Essa dimensão da relação ética com o outro foi, para nós, basilar, dado nosso interesse analítico ligado ao conceito de amor.

Textos escolhidos

Dadas as distinções entre as duas plataformas digitais estudadas - Wattpad e Amazon Kindle -, a forma de seleção dos livros em cada uma foi distinta. No caso do Wattpad, usamos o mecanismo de busca a partir da palavra lésbica. Notamos que não havia nenhum padrão definido no ordenamento dos resultados - como ordem alfabética, tempo de atualização da história ou quantidade de visualizações. Sendo esse último o critério que nos parecia mais pertinente, devido ao nosso interesse de buscar histórias com maior repercussão na plataforma, fizemos a triagem manualmente, selecionando apenas livros com 20.000 visualizações ou mais. Utilizamos dois filtros para refinar a busca: o de histórias concluídas, para que buscasse livros com início, meio e fim (visto que, no Wattpad, é possível publicar um capítulo de cada vez); e o filtro que permitia selecionar a quantidade de capítulos da história, o que auxiliaria a manter um padrão de tamanho dos livros escolhidos. O Wattpad não classifica as obras por quantidade de páginas, palavras ou caracteres, mas, sim, pela quantidade de capítulos.

Inicialmente, pensamos em realizar a seleção de livros de até 10 capítulos, pois escolher textos mais curtos nos permitiria analisar um número maior de livros distintos, possibilitando um olhar mais múltiplo sobre a literatura lésbica veiculada na plataforma. Porém, as histórias com as quais nos deparamos, em sua maioria, não desenvolviam satisfatoriamente a questão do amor, sendo breves construções sobre o momento de atração inicial entre duas mulheres. Por causa disso, selecionamos livros que tivessem entre 10 e 20 capítulos.

Tendo aplicado os filtros, olhamos para os 100 primeiros resultados, observando títulos e sinopses para fazer uma triagem. Além do critério do número de visualizações, também foram excluídas as fanfics (devido à complexidade de trabalhar com um texto literário cujos personagens derivam de outro livro ou artefato cultural), as histórias nas quais o amor lésbico estava secundarizado no enredo. Também selecionamos apenas obras em que, em seu perfil, a escritora se identificava como mulher, na intenção de abarcar textos literários vinculados às experiências lésbicas que, por sua vez, ultrapassam a noção de experiência de uma mulher que se identifica como lésbica e se amplia para o entendimento de experiências que as mulheres vivenciam umas com as outras. Um último critério utilizado foi que a história se passasse em contexto nacional. A partir disso, selecionamos três livros na plataforma.

No caso do Amazon Kindle, existem rankings de livros mais vendidos/baixados no site da Amazon, a partir de diferentes categorias. Fizemos uso do ranking da categoria Romance Lésbico, analisando, como no caso do Wattpad, os 100 primeiros e-books da lista. A partir dos resultados, fizemos uma triagem manual que excluiu: livros que não estavam inscritos no programa Kindle Unlimited, livros pertencentes a selos editoriais e livros que fossem traduções de obras internacionais. Mantivemos os critérios de livros cujo enredo se passa no Brasil, livros que foram escritos por mulheres, livros que tinham como foco o amor entre mulheres e, também, obras cuja extensão permanecesse dentro de um intervalo delimitado. No caso do Amazon Kindle, escolhemos manter a seleção no intervalo entre 100 e 200 páginas. Dessa forma, chegamos a quatro livros.

A seguir, trataremos brevemente de cada um deles, a começar pelos da plataforma Wattpad. Acasos da vida é um romance da autora M. R. Fernandes2 cujo enredo conta a história de amor entre duas mulheres: uma médica chamada Ivana e uma enfermeira mais jovem chamada Pâmela. Ivana é uma mulher viúva que se sente insegura para encontrar novamente o amor. Ela se vê interessada por Pâmela, mas duvida que a jovem enfermeira vá retribuir seus sentimentos.

A afilhada, de N. Lorak,3 conta a história de Jaqueline, que, após se divorciar de um casamento de duas décadas, depara-se com sua afilhada Júlia, filha de um casal de amigos. A moça tinha ido estudar no exterior e Jaqueline não a via há muitos anos. Em uma viagem de final de semana na praia, Jaqueline e Júlia se conectam, sentindo forte atração uma pela outra.

O último livro selecionado no Wattpad foi 30 dias com ela, de Vienna Larsen, que trata da adolescente Lívia, que se torna amiga virtual de outra garota, chamada Mônica. Em meio à pandemia de Covid-19, os pais de ambas as adolescentes organizam um encontro entre as duas, que começam a perceber que se sentem atraídas uma pela outra.

Passamos aos e-books publicados no Amazon Kindle. O romance Apague a luz, da autora Lara Azevedo, traz a história de duas mulheres que já estão casadas há alguns anos: Alex e Pilar. Esta última tem um ex-marido manipulador, que usa o filho adolescente que os dois têm juntos para se manter interferindo na vida dela. Pilar nunca dividiu com Alex as situações degradantes que passou ao lado do ex-marido. Devido a essa história dolorosa, ela dedica todo o seu tempo ao seu trabalho e acaba por se afastar da esposa.

A garota dos meus sonhos, de Léo Gumz, conta a história de duas jovens: Bianca e Alice. Ambas estiveram envolvidas em um mesmo acidente de carro e estão lidando com perdas de entes queridos no referido acidente. Após sua internação no hospital, Bianca começou a ter sonhos diários com Alice e as duas se envolveram e iniciaram um romance que só acontece durante os sonhos. O problema é que, quando estão acordadas, embora Bianca se lembre dos sonhos e de seu “namoro”, Alice não se recorda de nada. Em um dado momento, a vida as une por meio de amigos em comum.

O livro Noturnas e Natalinas, da autora Luísa Landre, traz a história de duas vampiras que vivem em uma casa para vampiras e vampiros. No final do ano, as casas brasileiras de vampiros e vampiras se envolvem em concursos de decoração natalina e a personagem Geraldina é encarregada da decoração da casa em que mora. Geraldina e outra vampira, Lucíola, entram em desacordo, pois, enquanto a primeira odeia as tradições natalinas, a segunda as ama.

O último romance selecionado no Amazon Kindle foi Algo a mais, da Isabel Meziat (2022), que conta a história de duas adolescentes que são melhores amigas - Aysha e Mariana - e estão apaixonadas uma pela outra, embora não confessem esses sentimentos por medo de não serem correspondidas. Enquanto Mariana é assumidamente lésbica, Aysha está namorando um garoto cujo comportamento se mostra abusivo. Mariana não mede esforços para ajudar a amiga a se livrar desse relacionamento e o enredo caminha para que ambas confessem seu amor.

Uma consideração que vale a pena fazer acerca dos romances lésbicos selecionados é que, em todos eles, o casal tem um final feliz e, de forma geral, as personagens não enfrentam grandes crises existenciais quanto à sua própria sexualidade. Ser lésbica (ou não heterossexual) é tratado nas narrativas como algo para se orgulhar, e se as personagens lutam contra o seu desejo é por outros motivos que não o fato de este ser um desejo lésbico. Amar outra mulher não constitui um problema moral para nenhuma das personagens dos livros estudados, e elas não estão envergonhadas de seus relacionamentos, ao contrário.

O amor lésbico como amor de si

Quando tratamos de um enunciado do amor lésbico como amor de si, propomos pensar esse amor de si em uma perspectiva ética. Isso não significa dizer que o amor não lésbico não possa ser pensado a partir de outras perspectivas, inclusive ao olhar para recorrências discursivas presentes nas obras que analisamos. É sabido que a experiência de um casal de mulheres pode levar em conta hierarquizações e até mesmo violências, já que existem relacionamentos abusivos entre lésbicas. Embora nenhum dos livros analisados abarque a questão da violência física ou psicológica, nem formas de abuso, há certas dimensões que aproximam os textos literários estudados de certos parâmetros heteronormativos.

Seria o caso, por exemplo, da noção de posse que, segundo Nietzsche, está presente em certas formas de amar. O filósofo argumenta que “aquele que ama quer possuir, somente para ele, a pessoa que deseja” (Friedrich Nietzsche, 2017, p. 49). Essa perspectiva não está ausente nos livros que integraram nossa pesquisa, na medida em que em quase todos eles as personagens por vezes expressam frases como “você é minha” ou “eu sou sua”. Porém, o que gostaríamos de explorar nesse artigo são as possibilidades que a literatura lésbica traz - em especial, nos livros que estudamos - para compreendermos o amor lésbico em sua relação com a constituição de um amor de si, exprimindo um vínculo da mulher consigo, com suas emoções, desejos e realizações.

Compreendemos que, na história da filosofia ocidental, a ética, de forma geral, foi pensada por e para homens. Se a ética está ligada a um exercício de reflexões e práticas em nossas vidas, frequentemente tal exercício foi visto como exclusivo dos homens, pois somente os homens seriam capazes de regular a si mesmos - as mulheres, em contrapartida, teriam suas condutas reguladas pela ética masculina. Quando falamos da existência de um discurso que fixa a ética à masculinidade, não nos restringimos a séculos distantes e a enunciados que não mais operam na atualidade. Nós queremos falar de como a ética é, ainda hoje, considerada masculina. Frequentemente, ouvimos por aí que a mulher é “emoção” enquanto o homem é “razão”, que a feminilidade dita inerente a cada mulher traz certa sensibilidade, um instinto de amar que estaria na essência da mulher. Tomada por emoções, a mulher é muitas vezes associada ao descontrole - louca e histérica são adjetivos comumente usados para desqualificar mulheres. Nessa posição a que somos subjetivadas, a ética não nos pertence.

Evidente que esse discurso não é único e sem dissonâncias. Nós reivindicamos a ética, e não é de hoje. Ao longo de toda a história, inúmeras mulheres vêm construindo formas de existência ética para si mesmas, criando tecnologias de si ou utilizando-se daquelas que foram ditas como sendo “dos homens”, mas que, existindo em exercício, não lhes pertencem. Mesmo os nossos desejos, amores e vínculos podem ser pensados e praticados a partir de uma ética. Nesse sentido, aqui, tratamos de trechos dos livros nos quais a relação lésbica colabora para o estabelecimento de uma ética da personagem consigo mesma. Parece-nos que é como se estar ali, naquele relacionamento, fizesse com que aquela mulher fosse verdadeira consigo, conseguisse constituir uma arte de viver para si mesma.

Gostaríamos de mostrar, livro por livro, como enxergamos o funcionamento dessa função enunciativa do amor lésbico enquanto um amor de si. Começamos pelo Noturnas e Natalinas. Nele, a personagem Geraldina, em uma conversa com a sogra, na qual esta última interpela se Geraldina estaria usando sua filha, responde:

- Pode ser que eu use a sua filha e ela me use de volta enquanto isso fizer bem para a gente. E pode ser que, no momento em que eu perceber que esse não é mais o caso, eu escolha ficar com uma memória dela, uma lembrança, e escolha abrir mão do resto (Landre, 2021, p. 63).

Pode-se perceber, aqui, que o relacionamento que Geraldina começou a construir com Lucíola, longe de estar pautado em ideais do amor romântico de eternidade e incondicionalidade, parte de uma relação ética de Geraldina consigo: ela ficará com Lucíola, sim, enquanto isso fizer bem para ambas e, se um dia esse não for mais o caso, ela guardará a lembrança do que experienciou, mas sem se manter em um relacionamento que a machuca de alguma forma.

Geraldina, portanto, propõe-se a ser leal a si mesma e a respeitar-se. Também é possível observar, aqui, o que Cassiana Stephan (2022) chama de amor medúsico, que aceita a morte e a finitude. Para a autora, o amor medúsico deseja e acolhe a diferença, mas não a dissimetria de forças que subordina e possui uma das partes. O amor de si, do qual falamos, pode se configurar como uma ética de arriscar-se, de disponibilizar-se para o que é finito, soltando-se das amarras de um amor idealizado. Em Stephan (2022), o amor aparece como ato que “se atrela à potencialidade ético-política da existência, cuja estetização se cumpre pelo abandono em relação àquilo que insiste em permanecer o mesmo” (Stephan, 2022, p. 307).

Outra cena em que percebemos a relação ética que Geraldina construiu consigo, a partir de seu amor lésbico por Lucíola, é um dos excertos finais do livro, no qual a namorada sugere que, se continuarem juntas, a ex-namorada de Geraldina não a quererá mais e ela, por sua vez, não poderá se mudar para a outra casa vampiresca onde vive a referida ex-namorada. A vampira, então, afirma: “Ótimo. [...] Porque o meu lugar é aqui” (Landre, 2021, p. 75). A ideia de ter “um lugar no mundo” e de estar no lugar que deveria estar, no lugar “correto”, levar a vida de uma determinada forma que causa a sensação de que se está no caminho certo, parece-nos uma forma de exercício ético do sujeito consigo, uma outra forma de ser leal a si mesmo(a). Constituir a vida que se quer viver é aquilo que Foucault (2016) chama de “técnicas de si”.

Ao tratar do conceito retomado dos antigos, o filósofo entende que as técnicas de si implicam a possibilidade que o sujeito tem de refletir acerca da vida que quer viver. Há diferentes opções de existência, ela não é predeterminada, mas perpassa por escolhas, por regulações de nossas condutas enquanto sujeitos éticos. Geraldina, portanto, não é levada por forças maiores a reconhecer-se como parte da casa vampírica em que mora, mas, de outra forma, escolhe esse lugar. Assume-o, em uma prática ética, a partir do apoio e das trocas estabelecidas com as outras pessoas que ali moram, incluindo sua namorada Lucíola.

A relação entre Lucíola e Geraldina também implica uma ética de Lucíola consigo na medida em que a personagem aprende a olhar para dentro, a se ver. Ao mesmo tempo que vê e conhece a sua parceira, Lucíola faz um movimento de conhecer a si mesma. A personagem se refere à Geraldina como uma mulher “capaz de um tipo de honestidade e foco diante dos quais Luce não queria ser nada além de ela mesma” (Landre, 2021, p. 87). Lucíola vê Geraldina abaixar suas barreiras, mostrar-se vulnerável para sua parceira. Esse ato de coragem de Geraldina causa em Lucíola a vontade de revelar-se também. Ou seja, fica evidente o quanto o seu amor lésbico construído com Geraldina implicou uma relação ética de Lucíola consigo, que passa a desejar ser verdadeira e leal a si mesma.

A relação ética que o sujeito desenvolve consigo também está vinculada ao desenvolvimento de determinados comportamentos e realizações. A relação com “o outro” não fica de fora disso - a ética, embora presuma uma relação com nós mesmos, não é individual, pois orienta também nossas condutas com os outros (Foucault, 2016). Percebemos essa questão no excerto a seguir, no qual Geraldina e Lucíola falam de suas ambições individuais, seu desejo de deixar “sua marca no mundo”. Na ocasião, enquanto Lucíola questiona a si mesma sobre se foi capaz de realizar algo significativo em sua vida, Geraldina diz à namorada: “respeito a sua ambição, então só te peço isso: no dia em que você decidir deixar a sua marca no mundo, já que isso é tão importante para você, não esquece de me chamar para eu ir junto” (Landre, 2021, p. 89).

Há, assim, um respeito pelos objetivos da outra, um desejo de ser companheira e apoiar, mas sem diminuir ou restringir as possibilidades da outra mulher de desenvolver seus interesses pessoais, suas realizações. Como aponta Adrienne Rich (2019), na lógica de uma cultura heterossexista, a mulher historicamente teve sua criatividade limitada pela compreensão social de que as realizações e os interesses individuais do homem teriam mais valor, enquanto os interesses da mulher deveriam estar vinculados ao casamento e à maternidade. A existência lésbica é uma das formas de abrir portas às mulheres no que diz respeito a seguir seus próprios sonhos e objetivos. O amor lésbico, assim, aparece como aquele que dá suporte à arte de viver que cada mulher quer construir, ao invés de impedir ou dificultar esse exercício ético.

Em Apague a Luz, algumas dessas questões também aparecem. No romance de Azevedo (2022), a personagem de Pilar sofreu um relacionamento abusivo com seu ex-marido e a relação lésbica com sua atual esposa faz com que ela consiga perceber o quão abusivo foi seu relacionamento anterior e permite que ela se coloque de forma diferente nesse outro casamento. Rich (2019) argumenta que, no decorrer dos séculos, as mulheres vêm sendo frequentemente convencidas de que precisam manter seus casamentos com os homens, amá-los e dedicar-se a eles, ainda que essa relação heterossexual não lhes traga satisfação ou seja violenta. No livro Apague a Luz, o amor lésbico aparece como um rompimento desse paradigma. A maneira como Pilar agirá no casamento com Alex (sobretudo após as duas começarem a dialogar com sinceridade sobre o passado de Pilar) parte de uma ética de compreender que não merece a violência sofrida, abandonando sentimentos de autoaversão e culpa vivenciados por inúmeras mulheres que passam por relações abusivas. Isso é afirmado explicitamente pela própria Pilar, quando ela diz à esposa: “Quando eu te conheci, quando eu me apaixonei por você, eu entendi que não merecia o que ele me fez” (Azevedo, 2022, p. 86).

Ao relembrar seu próprio passado, Pilar faz um exercício de análise de si. Foucault (2014b) argumenta que os modos como o sujeito examina e analisa a sua própria conduta fazem parte do exercício ético. As técnicas de si não são apenas comportamentos ou atividades, mas a reflexão sobre eles. Assim, a personagem de Apague a Luz reflete sobre seu passado:

[...] maldito homem controlava sua vida, seus passos, até suas glórias e ela aceitava aquele controle por um amor que dizia sentir por ele e que nunca fora retribuído. [...] Agora ela cuidaria apenas dela mesma, do filho e de sua esposa, que jamais faria o que Martim lhe fez (Azevedo, 2022, p. 108).

O exercício de reflexão da personagem permite que ela analise sua conduta anterior e reoriente suas condutas futuras em prol de um modo de existência que ela deseja atingir. Pilar, portanto, busca uma arte de viver na qual seu amor lésbico é prioridade, não apenas por amar a esposa, mas por um amor a si mesma. A percepção que Pilar consegue ter de seu ex-marido e a diferenciação que consegue fazer entre seu relacionamento com Martim e seu relacionamento com Alex lhe permitem estabelecer e compreender o que deseja para si mesma, que tipo de amor deseja vivenciar, o amor que “serve” para ela.

O apontamento feito por bell hooks (2020) 4 de que “o amor próprio não pode florescer em isolamento” (hooks, 2020, p. 94) nos leva a refletir o quanto o enunciado de que o amor lésbico pode ser um amor de si funciona de forma aliada aos discursos do amor próprio. Para a autora, conhecer o amor, entender que do amor fazem parte a responsabilidade, o respeito e o cuidado, é necessário para que seja possível pensar o amor direcionado a nós mesmas(os). O amor próprio tem, assim, em sua base, a nossa capacidade de assumir a responsabilidade sobre nossas vidas, podendo, de forma mais incisiva, fazer enfrentamentos e criar formas de vida que nos façam felizes. O amor de si (que, em certo sentido, é amor próprio, além de ser amor pela outra mulher) é amor que permite que nos defendamos, que lutemos pelo que consideramos felicidade.

Assim, ao final do livro, Pilar manifesta, em conversa com a esposa, estar pensando em sua vida juntas e em sua felicidade. Esse amor que Pilar constrói ao lado de Alex é um amor capaz de lhe trazer (e para sua parceira) a felicidade, um amor que faz bem, um amor que Pilar quer manter. A manutenção desse amor faz parte da relação ética que Pilar passa a estabelecer, não só com a parceira, mas com ela mesma.

Também se pode perceber que a narrativa desenvolvida em Algo a mais coloca o amor lésbico como amor de si na medida em que é a relação que Aysha estabelece com Mariana que a auxilia a sair de um relacionamento abusivo. No romance de Meziat (2022), após ser forçada pelo namorado a beijá-lo, Aysha toma a decisão de terminar o relacionamento. Porém, sentindo que lhe falta coragem para fazer isso sozinha, a personagem busca o apoio de sua amiga Mariana, por quem está apaixonada.

É possível perceber como o acolhimento e a segurança que Mariana oferece a Aysha servem como o apoio de que ela precisa para enfrentar o homem que lhe abusou. A partir de seu vínculo com Mariana, Aysha encontra forças para viver a vida que quer viver, para defender a si mesma e construir uma relação de respeito consigo. Aqui, ao nosso ver, o enunciado do amor lésbico como amor de si funciona de forma parecida com o caso de Pilar (Apague a luz), na medida em que a vivência que Aysha tem com o amor de Mariana a ajuda a construir um amor por si mesma, a defender-se, e construir junto de sua namorada uma existência que lhe faça mais feliz do que aquela vivenciada anteriormente com um homem.

Quando Mariana e Aysha começam um relacionamento, Aysha reforça, em uma conversa com um amigo, o quanto seu amor lésbico construído com Mariana lhe deu uma nova percepção do que ela pode esperar de um relacionamento pautado em segurança e tranquilidade, diferente do que ela vivenciava anteriormente, em seu namoro com um homem. Nesse excerto, a personagem diz: “antes da Mariana, em outros relacionamentos… eu achava que era normal me sentir insegura o tempo todo [...] Mas com a Mariana, é tudo diferente” (Meziat, 2022, p. 102). Em outra passagem, em uma carta escrita para a namorada, Aysha chega a dizer como Mariana “a iluminou”:

Você ilumina os meus lugares mais sombrios, onde ninguém nunca pensou em olhar. Você ilumina o meu passado, o meu sótão no fundo da alma, onde eu faço questão de guardar tudo só para mim - você me ajuda a limpar esse lugar, tirar toda a sujeira, jogar fora o que não é mais necessário. Você foi a única pessoa que viu tudo isso e, mesmo assim, escolheu ficar. Só você (Meziat, 2022, p. 111).

Não vemos, aqui, uma perspectiva de “descobrir” uma verdade preestabelecida e que estaria obscurecida pela opressão. Ao falar de verdade, gostaríamos de trazer o conceito de parresía, que Foucault (2011) discute a partir dos gregos antigos. No jogo da parresía, a verdade dita pelo indivíduo é a sua opinião, seu pensamento. Trata-se de uma verdade assinada com o nome da pessoa que fala. Sendo a parresía uma forma ética de dizer a verdade, é possível refletir acerca da carta escrita por Aysha a partir desse conceito. Não com o intuito de dizer que temos, aqui, nesse texto literário brasileiro e contemporâneo, a reprodução de uma parresía grega, mas no sentido de considerar a verdade em seu aspecto ético, de modo que as coisas que Aysha chama de “verdades” não são algo pronto e inquestionável que Mariana desvelou para a namorada, mas são aquilo que a personagem de fato pensa e entende como verdade. Verdade que Aysha constituiu a partir de sua subjetivação.

O romance de Meziat (2022), cabe ressaltar, é o que discute com mais veemência a questão da heterossexualidade compulsória, trazendo isso explicitamente para os diálogos, em uma cena de Aysha com sua psicoterapeuta. No excerto, a personagem fala: “Eu pensei nisso quando vi um tweet sobre heterossexualidade compulsória. Aí a revelação veio na minha cabeça. Eu comecei a pensar sobre tudo o que já vivi” (Meziat, 2022, p. 113). A partir daí, segue uma conversa em que Aysha questiona se já teria, de fato, sentido ou não atração por homens anteriormente. Na conversa, a psicóloga declara: “você sempre foi lésbica, só não aceitava isso antes” (Meziat, 2022, p. 114).

Ainda que as falas de Aysha e da psicóloga deem a entender que ser lésbica é algo que faz parte da “natureza” de determinada mulher, como uma condição inerente e imutável, há, em Algo a mais, um debate significativo sobre lesbianidade como resistência, que pode ser pensado a partir de práticas éticas de liberdade. Para Foucault (2017), quando falamos em liberação, falamos no rompimento com determinado mecanismo de repressão, de forma que uma pessoa ou um grupo sai de determinada situação opressora. Assim, sair de um relacionamento abusivo, como fez Aysha, por exemplo, se visto de modo estrito (apenas o término do relacionamento por si só), seria um tipo de liberação.

No entanto, o autor menciona que as práticas de liberdade vão além da liberação. As práticas de liberdade são formas pelas quais as pessoas conseguem criar e definir modos de vida e de existência para si. A liberdade, nesse sentido, é parte inseparável da ética. A crítica que Aysha faz à heterossexualidade compulsória, em nossa visão, faz parte de um exercício ético da personagem no qual ela irá engendrar práticas de liberdade e constituir um modo de vida lésbico para si. Se entendermos a heterossexualidade compulsória como aponta Rich (2019), ou seja, a partir da pressão sofrida pelas mulheres para terem práticas sexuais e da doutrinação das mulheres desde meninas para que sintam amor pelos homens, podemos refletir sobre o pensamento de Aysha como prática de liberdade. Se retomarmos autoras como Rich (2019), Monique Wittig (2006) e outras lesbofeministas, veremos como a experiência lésbica deixa de ser vista como manifestação de sexualidade sobre a qual não temos nenhum controle, para ser entendida como um modo de vida que, como mulheres, podemos buscar para nós mesmas - um modo de vida que entendemos como ético, na medida em que a experiência lésbica pode ser uma prática desejada, almejada, pensada, refletida e exercitada.

É preciso ressaltar, também, que a noção da sexualidade como inerente, como algo que sempre esteve ali, como se não fosse constituída em nosso processo de subjetivação, é muito comum ainda na atualidade e integra a militância e os argumentos em defesa das reivindicações de direitos LGBTs. Portanto, consideramos que, mesmo que tal discurso não vá, necessariamente, ao encontro de um exercício ético de sexualidade (que é sempre constituído na relação do sujeito consigo e com outrem, e não uma condição irreversível de nascença), esse também é um discurso posto em circulação como estratégia de resistência, para afirmar que a sexualidade lésbica (ou gay) seria tão “natural” quanto se afirma ser a heterossexualidade. A aceitabilidade social desse discurso foi importante na garantia de direitos sociopolíticos, que se fizeram necessários enquanto mecanismos de liberação, servindo, por exemplo, à despatologização da homossexualidade. As liberações, embora não correspondam às práticas éticas de liberdade, frequentemente são necessárias para a emergência de novas relações que possibilitem as práticas de liberdade.

O livro A garota dos meus sonhos também remonta ao amor lésbico enquanto um amor de si. O romance de Gumz (2022) conta a história de um casal que se conhece por meio de sonhos, mas que se efetiva em uma relação na vida real. Na narrativa, a protagonista Bianca demonstra que conhecer Alice e estabelecer com ela um vínculo afetivo é algo que lhe traz paz. É aquela mesma ideia de estar “em seu lugar no mundo” que já foi mencionada nesta seção.

Em um dado momento, a protagonista narra: “a companhia, a sensação morna do sol tocando minhas bochechas e o silêncio compartilhado me deixam em paz de verdade [...] neste momento, nada no mundo poderia me perturbar” (Gumz, 2022, p. 83). O amor lésbico, assim, aparece como um amor que traz à mulher um senso de certeza, uma tranquilidade frente à vida que caminha da forma que se deseja. Ao pensar a esse respeito a partir das discussões éticas, quando Foucault (2016) fala da vida (através do conceito grego de bíos), ele está falando de uma subjetividade. Assim, a vida não é aquilo que fazemos, os objetivos que temos, ou nosso status. A vida é a maneira como escolhemos nos relacionar com as coisas e com as pessoas. A ética é como constituímos essa vida que queremos viver, que Bianca constitui através do amor lésbico, em seu amor com Alice. A calma e a sensação de imperturbabilidade provêm da construção de uma existência conjunta entre as personagens, que, amando uma à outra, puderam vivenciar um amor de si e criar uma forma de existência que as faz felizes.

Essas questões das quais tratamos até aqui também aparecem nos livros da plataforma Wattpad. Em A Afilhada, romance de Lorak (2020), também é veiculado o discurso de que o amor lésbico resiste à heterossexualidade compulsória e de que a mulher que vive o amor lésbico constitui uma relação ética de lealdade consigo mesma. Ao falar de sua própria experiência, a protagonista argumenta:

Durante os últimos cinco anos, nunca tive coragem de me envolver com outra mulher. Conheci vários homens, entretanto, com nenhum deles engatei um relacionamento sério até conhecer o Fernando. Embora não sentisse por ele indício algum de paixão, nosso namoro, que tinha apenas seis meses, me trazia tranquilidade, estabilidade, visto que ele era um homem inteligente, gentil, maduro e descomplicado. Pensava que isso bastaria para mim naquela altura da vida. De todos os homens com os quais fiz sexo nesses cinco anos, nenhum deles me fez ter sensações tão prazerosas quanto Júlia me fez sentir em poucos dias (Lorak, 2020). 5

Ou seja, o relacionamento com o homem, para essa mulher, é algo desprovido de paixão e desejo, algo que só se efetivou pelo conforto social dado pela heterossexualidade. Porém, não é um amor leal dessa mulher para consigo, não é uma prática de liberdade vivida pela personagem. Diferente do amor lésbico, que é o amor desejado, o que efetivamente se quer, a arte de viver que corresponde à felicidade. O amor lésbico, no entanto, exige coragem para efetivar-se. Uma coragem da verdade, como já mencionamos - de uma verdade ética, que se diz apesar dos riscos (Foucault, 2011).

Quando chega o momento de decidir ficar com Júlia é que esse ato de coragem se efetiva. Para ser ética consigo, para pôr em prática a liberdade, Jaqueline se dispõe a correr o risco e a enfrentar as consequências do relacionamento com Júlia. Assim, desenrola-se a cena:

Eu sempre fizera o que a sociedade impõe a uma mulher: casar com um homem, ter filho e constituir uma família. Como se somente isso fosse sinônimo de felicidade plena. Não era. Eu sabia que não, porque não foi para mim. Meu casamento não fora um dos piores e meu filho foi a melhor coisa que me aconteceu. No entanto, minha vida inteira foi uma mesmice sem tamanho. Sem emoção, sem vivacidade. Percebi isso somente quando Júlia reapareceu na minha vida. E, naquele momento, olhando para ela, uma linda jovem cheia de vida, que estava ali na minha frente me oferecendo uma vida mais agitada, mais cheia de vigor, mais versátil, talvez até mais turbulenta, mas que seria uma vida em que eu pudesse me sentir plenamente eu, me fez repensar em tudo e me fez querer mesmo experimentar algo novo, algo excitante. Então, no auge dos meus cinquenta e um anos, finalmente, resolvi arriscar em um relacionamento bem revolucionário (Lorak, 2020).

Na narrativa, a protagonista reconhece que o modo como agiu até esse momento não era de lealdade consigo mesma, na medida em que ela estava fazendo aquilo que a sociedade esperava dela. A relação com Júlia foi uma saída da zona de conforto, mas foi uma possibilidade de Jaqueline ser o que ela de fato queria ser. Uma outra arte de viver - mais turbulenta e excitante, como descreve a personagem -, mas uma vida que a possibilitou ser “plenamente ela mesma”.

Se pensarmos nessa noção de “ser eu mesma” em um sentido ético, o que estamos buscando constituir no decorrer deste capítulo, é preciso considerar que não se trata de um “eu” pronto para ser descoberto dentro de cada uma ou cada um de nós. De outro modo, ser “quem somos” perpassa pelo que Foucault (2016) chama de técnicas de vida, enquanto formas de se criar uma subjetividade. Esse ser “ela mesma” de que Jaqueline fala, portanto, pode ser pensado como forma de viver constituída por ela em sua relação com Júlia. Modo de vida que a faz feliz e, portanto, é visto como algo a se almejar cotidianamente.

Discussão semelhante pode ser feita a respeito de 30 dias com ela. Ao final do referido livro, o enunciado do amor lésbico como amor de si também se evidencia. No epílogo, Lídia e Mônica - que começam a história como adolescentes - já estão mais velhas e já viveram o seu relacionamento por alguns anos. Essa experiência permitiu o distanciamento de determinadas inseguranças e o entendimento do que, de fato, as duas mulheres querem da vida e da relação uma com a outra.

No momento do casamento, Lídia narra: “a nossa realidade supera todas as minhas idealizações mais profundas” (Larsen, 2022). Sobre a recém-intitulada esposa, a protagonista ainda reflete: “é raro encontrar pessoas que realmente se sintam completas e realizadas. Hoje, felizmente, eu me sinto as duas coisas, não só nesse dia em especial, mas como em todos os outros em que tive a minha esposa ao meu lado” (Larsen, 2022). E também: “o amor dela me tornou mais ousada” (Larsen, 2022).

Nos supracitados excertos, Lídia afirma como estar com Mônica lhe traz felicidade e realização e como a história das duas fez de Lídia quem ela é, como ela pôde ser mais ousada, mais assertiva, mais atuante na busca da efetivação de seus objetivos a partir do relacionamento com Mônica. O amor lésbico, portanto, aparece como um amor que possibilita a autotransformação, a autorrealização.

O último livro a tratarmos é Acasos da vida. No romance de Fernandes (2019), a autora demarca o quanto a protagonista Pâmela, embora se identifique como bissexual, acaba por se afastar da relação com os homens por não ser paciente para o “drama masculino”.

Embora a enfermeira possuísse uma aparência atraente, Pâmela era solteira. Seu último relacionamento havia sido com um rapaz e não durou mais que um mês. Aparentava ser calma, porém não era paciente para muitas coisas, dentre elas, o drama masculino. Então, logo que viu que o namorado era desse jeito, tratou de findar a relação (Fernandes, 2019).

Embora a questão seja colocada com brevidade e de forma um tanto displicente, é possível fazer uma reflexão a esse respeito a partir do feminismo lésbico. Independentemente da atração ou não por homens, a personagem se posiciona de forma a se aproximar da experiência lésbica enquanto forma de vida que não se vincula e até resiste às problemáticas do amor heterossexual, afinal, a lésbica, como aponta Wittig (2006), rompe com o dito contrato heterossexual. O amor lésbico, portanto, aparece como escolha de um modo de vida que a personagem quer para si.

Quando falam sobre a questão sexual, Pâmela e Ivana também falam sobre o fato de já terem se relacionado sexualmente com homens e comparam a vivência à experiência sexual vivida com outras mulheres. Quando uma delas pergunta à outra sobre fazer sexo com mulheres, recebe a resposta: “Foi o melhor da minha vida! Sem comparação!” (Fernandes, 2019).

Na relação sexual, é importante demarcar, também pode estar implicado um exercício ético. Foucault (2016) reflete sobre os aphrodisia, que seriam atos sexuais a partir dos quais o indivíduo se relaciona com outros (ou outras). Com base nos filósofos antigos, portanto, os aphrodisia fazem parte das relações que estabelecemos conosco. Assim, a subjetivação da atividade sexual constitui-se como uma “subjetivação em forma de relação permanente de si consigo” (Foucault, 2016, p. 256). O sexo, portanto, faz parte da ética dos sujeitos e, na medida em que as personagens de Acasos da vida defendem seu prazer vivenciado no sexo lésbico, ambas reivindicam esse tipo de relação sexual para suas vidas - em uma espécie de aphrodisia lésbica que apresenta usos de uma ética sexual feitos por nós e para nós, mulheres.

Apesar disso, queremos ressaltar que, mesmo que se evidencie nos livros analisados o funcionamento do enunciado do amor lésbico como amor de si, há atravessamentos entre o modo de vida lésbico assumido pelas personagens e os discursos essencialistas, que se afastam de uma discussão ética. A ideia de uma “essência”, como já mencionamos, é frequente em nossa sociedade e não fica fora de Acasos da vida, assim como apareceu em outros dos livros analisados. Em um excerto, a narrativa trata dos sentimentos de Ivana:

Descompassado, batia o coração da médica, como se recebesse a carga emocional de suas sensações mais profundas adormecidas por anos em seu interior e agora, a presença tão afável de sua garota, despertava sua melhor essência. Sentia-se viva, amada e completa. Encontrou em Pâmela tudo o que algum dia imaginou que havia perdido, mas no fim das contas, nunca havia encontrado (Fernandes, 2019).

Pensamos que aqui não se trata exclusivamente do funcionamento do enunciado do amor de si, mas também não é um trecho que pode ser resumido a partir da lógica da essencialidade. Há de fato o reforço de uma lógica de encontrar uma verdade perdida e essencial em si mesma, mas também é fortificado o discurso ético de ser o melhor possível, de se sentir bem consigo mesma e de poder se conhecer e perceber as próprias sensações. O que sentimos não pode ser visto como separado de nossa ética. É preciso considerar, como aponta Anne Dufourmantelle (2022, p. 43), que a “sensibilidade é exercida. Sem exercício, ela enfraquece ou se desfaz. A arte dos sentidos não é uma pura receptividade, ela também está ligada ao nosso livre arbítrio”.

Considerações finais

O que procuramos discutir ao longo deste artigo foi a questão de que o amor lésbico é e/ou está vinculada ao amor de si, no sentido de que viver relações lésbicas possibilitou que as personagens da literatura lésbica publicada em plataformas digitais construíssem uma relação ética consigo mesmas, com suas parceiras e com o mundo em que vivem.

Esse amor de si, portanto, sendo ético, pode ser um amor medúsico - na concepção engendrada por Stephan (2022) - pois se trata um amor que não se reduz aos discursos patriarcais de amor romântico. O amor medúsico, o amor ético, o amor que estamos chamando de amor lésbico como amor de si necessita que as pessoas envolvidas no vínculo amoroso distingam-se umas das outras, cada uma se dedicando ao modo de vida que deseja, cada uma construindo eticamente sua existência, cada uma vivendo práticas diárias de liberdade.

Referências

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  • BUTLER, Judith. A vida psíquica do poder: teorias da sujeição Belo Horizonte: Autêntica, 2020.
  • DUFOURMANTELLE, Anne. Potências da suavidade São Paulo: n-1 edições, 2022.
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  • FOUCAULT, Michel. A Arqueologia do Saber Petrópolis: Vozes, 1972.
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  • FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso São Paulo: Loyola, 2014a.
  • FOUCAULT, Michel. Ditos e Escritos, v. IX: Genealogia da ética, subjetividade e sexualidade Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2014b.
  • FOUCAULT, Michel. Ditos e Escritos, v. V: Ética, Sexualidade, Política Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2017.
  • FOUCAULT, Michel. Subjetividade e Verdade: curso no Collège de France (1980-1981) São Paulo: Martins Fontes, 2016.
  • GUMZ, Léo. A garota dos meus sonhos 2022. Disponível em Disponível em https://www.amazon.com.br/Garota-dos-meus-Sonhos-ebook/dp/B0BG34MJZJ Acesso em 05/11/2022.
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  • hooks, bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas São Paulo: Elefante, 2020.
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  • LARSEN, Vienna. 30 dias com ela 2022. Disponível em Disponível em https://www.wattpad.com/story/317726336-30-dias-com-ela-%E2%9A%A2-%E2%9C%93 Acesso em 05/11/2022.
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    » https://www.scielo.br/j/pp/a/fZwcZDzPFNctPLxjzSgYvVC/?format=pdf⟨=pt
  • MEZIAT, Isabel. Algo a mais 2022. Disponível em Disponível em https://www.amazon.com.br/Algo-Mais-Isabel-Meziat-ebook/dp/B0BC6CQ83W Acesso em 05/11/2022.
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  • RICH, Adrienne. Heterossexualidade compulsória e existência lésbica & outros ensaios Rio de Janeiro: A bolha, 2019.
  • STEPHAN, Cassiana. Amor pelo avesso: de Afrodite a Medusa Curitiba: Kotter Editorial, 2022.
  • WITTIG, Monique. El pensamiento heterosexual y otros ensayos Barcelona: Egales, 2006.
  • 1
    O artigo relaciona-se a uma pesquisa realizada no decorrer de curso de Doutorado em Educação, no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Pelotas (PPGE/UFPel).
  • 2
    2 A autora não assina seus livros com os primeiros nomes, apenas as iniciais e o sobrenome.
  • 3
    3 A autora escreve sob o pseudônimo N. Lorak, não há indicações do seu nome em sua página de usuária no Wattpad.
  • 4
    4 A autora escreve sob pseudônimo escrito propositalmente com letras minúsculas.
  • 5
    5 Os livros na plataforma Wattpad não contêm números de páginas.
  • Como citar esse artigo de acordo com as normas da revista:
    VIEIRA, Ana Gabriela da Silva; CAETANO, Marcio Rodrigo Vale. “O amor lésbico como amor de si”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 34, n. 2, e100153, 2026.
  • Financiamento:
    Não se aplica.
  • Declaração de disponibilidade de dados:
    os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.
  • Consentimento de uso de imagem:
    Não se aplica.
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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    13 Maio 2024
  • Revisado
    28 Jul 2025
  • Aceito
    05 Ago 2025
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