Open-access Escrita no féminin: os corpos/corpus em différance de Derrida e Preciado

Escrita no féminin: the bodies/corpus in différance of Derrida and Preciado

Escrita no féminin: los cuerpos/corpus en différance de Derrida y Preciado

Resumo:

A partir da desconstrução do fonofalogocentrismo encetada por Jacques Derrida, trazemos à baila (ou ao baile) uma coreografia sobre alguns termos de binômios rebaixados pela tradição metafísica Ocidental: o corpo, a escrita, o feminino. Baseado nisso, propomos que os filósofos Jacques Derrida e Paul Preciado desafiam o fonofalogocentismo e empenham uma “escrita no féminin” (no feminino, não feminina, não de mulher, não feminista, não dual, não oposicional, não hierarquizante), e portanto em différance. Na Literatura ou na Filosofia, a marca escrita sempre foi, supostamente, a do logos (o corpus), mas nunca a do corpo. Aqui, portanto, Derrida e Preciado serão lides a partir de seus corpos/corpus. Entram nesta dança a questão da voz e sua relação com a diferença sexual. Por fim, entendemos que os corpus em différance desses filósofos não estão desvencilhados das experiências vividas pelos seus corpos.

Palavras-chave:
desconstrução; feminino; voz; gênero; fonofalogocentrismo

Abstract:

Following the deconstruction of phonophallogocentrism initiated by Jacques Derrida, we perform a choreography that delves into terms from binomials pairs marginalised by the Western metaphysical tradition: the body, writing, and the feminine. Consequently, we propose that Jacques Derrida and Paul Preciado challenge phonophallogocentrism and engage in a “escrita no féminin” (in the feminine, not feminine, not female, not feminist, not dual, not oppositional, not hierarchical), and thus in différance. In Literature or Philosophy, the written mark has traditionally been that of the logos (the corpus), not the body. Here therefore, Derrida and Preciado are understood through their bodies/corpus. Amid this dance, the question of voice and its relation to sexual difference takes the stage. Ultimately, we understand that the corpus in différance of both philosophers remains intertwined with the lived experience of their bodies.

Keywords:
Deconstruction; Feminine; Voice; Genre/Gender; Phonophallogocentrism

Resumen:

A raíz de la deconstrucción del fonofalogocentrismo iniciada por Jacques Derrida, presentamos una coreografía que explora algunos términos relegados por la tradición metafísica Occidental: el cuerpo, la escritura, lo femenino. En base a esto, proponemos que los filósofos Jacques Derrida y Paul Preciado desafían el fonofalogocentrismo y se comprometen en una “escrita no féminin” (en lo femenino, no femenina, no de mujer, no feminista, no dual, no oposicional, no jerarquizante), y por lo tanto en différance. En la Literatura o en la Filosofía, la marca escrita ha sido, tradicionalmente, la del logos (el corpus), pero nunca la del cuerpo. Aquí, pues, Derrida y Preciado son comprendidos desde sus cuerpos/corpus. Entran en esta danza la voz y su relación con la diferencia sexual. Finalmente, comprendemos que los corpus en différance de estos filósofos no están desconectados de las experiencias vividas por sus cuerpos.

Palabras clave:
deconstrucción; femenino; voz; género; fonofalogocentrismo

No início do discurso ocidental, surgiu uma oposição binária entre corpo e mente. O tão falado dualismo cartesiano era apenas uma afirmação de uma tradição na qual o corpo era visto como uma armadilha da qual qualquer pessoa racional deveria escapar. Ironicamente, mesmo quando o corpo permaneceu no centro das categorias e discursos sociopolíticos, muitas das pessoas que pensaram sobre isso negaram sua existência para certas categorias de pessoas, mais notavelmente elas mesmas. A “ausência do corpo” tem sido uma precondição do pensamento racional (Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí, 2021, p. 29).

Quase toda a história da escrita se confunde com a história da razão, da qual ela é ao mesmo tempo o efeito, o suporte, e um dos álibis privilegiados. Ela coincidiu com a tradição falocêntrica (Hélène Cixous, 2022, p. 49).

Corpo de entrada

A desconstrução do fonofalogocentrismo, encetada pelo filósofo Jacques Derrida (1973), ajuda-nos a desafiar a máxima cartesiana “penso, logo existo”. Se de um lado, a tradição metafísica ocidental elevou o logos e rebaixou o corpo; por outro lado, sua bio-lógica, ou cis-tema sexo-gênero, privilegiou os corpos considerados masculinos (pênis/macho/homem) em detrimento dos femininos (vagina/fêmea/mulher). Já no campo da escrita (literária ou filosófica), o gênio de grandes homens marca a tradição Ocidental, mas eles, supostamente, nunca escrevem (sobre) os seus corpos.

Neste trabalho, propomos que Jacques Derrida e Paul Preciado desafiam o cis-tema normativo sexo-gênero ao adotarem uma escrita no feminin1 (no feminino, não feminina ou de mulher, não feminista, não dual, não oposicional), e portanto em differance2 (Derrida, 1991). Estão em jogo, aqui, os corpus desses filósofos, com e sem testículos, que desafiam a bio-lógica Ocidental ao escreverem (se inscreverem) com seus corpos.

Em suas escritas: Derrida, homem, abala o fonofalogocentrismo; Preciado, em trânsito, cisma e dissentev o cis-tema sexo-gênero. A multiplicidade de vozes desses dois homens, um com e outro sem falo, participa de um e/ou de vários gêneros, e embora soe heterogênea, afina-se, mistura-se e dá corpo/corpus a pensamentos que desobedecem às normas de gênero (biológicas/escriturais).

Sendo assim, Derrida e Preciado serão lides a partir de seus corpos/corpus. Primeiro, a partir do pensamento de Derrida, abordaremos a desconstrução do fonofalogocentrismo e seguiremos os rastros do que intitulamos de escrita no féminin. Então, discutiremos a questão da voz e de sua relação com a diferença sexual, o que servirá de base para discutir “Mudar de voz”, um texto de Preciado (em Um apartamento em Urano: crônicas da travessia, 2019) sobre a sua transição de gênero, mais especificamente sobre a transformação na sua voz e os efeitos que isso pode operar no mundo. Por fim, argumentaremos que os corpus desses filósofos, suas escritas e suas vozes, em desconstrução, não estão desvencilhadas das experiências vividas pelos seus corpos.

Escrita no féminin

Em sua crítica ao logocentrismo, Derrida (1973) demonstrou que toda a tradição filosófica, de Platão a Saussure, naturalizou o fato de que o logos (verdade, razão) mantém uma relação íntima com a phoné (voz, fala) e, consequentemente, com o phallus (homem branco, cis, hétero) de matriz greco-europeia (ethnos). Isto é, um etnofonofalogocentrismo ou centramento na fala e na verdade fálica do homem europeu. Portanto, o que esse discurso milenar produziu, na verdade sem verdade, foi o rebaixamento da escrita. A escrita, nesse contexto logocêntrico, é considerada usurpadora da fala, pois, além de não pertencer à língua, ela põe em risco a verdade da fala e do falo.

O abalo de Derrida (1973) a esse edifício metafísico, de base platônica, dual e oposicional, foi problematizar a estanque divisão entre fala e escrita. E ele só pôde fazê-lo porque Saussure já havia avançado que: primeiro, o signo era arbitrário, isto é, um significante não guarda relação natural com um significado, mas se constitui pela relação diferencial com outros significantes; segundo, a escrita era derivada da fala.

Ao radicalizar a semiologia saussureana, invertendo a hierarquia entre significado e significante, Derrida (1973) demonstrou que o significante, ocupando o lugar do significado, aponta para outro significante. Essa arbitrariedade do signo (significante de significante), Derrida (1973) a chamou de rastro instituído imotivado. É esse rastro que produz ainda uma outra diferença, a différance - “O rastro (puro) é a diferência.3 Ela não depende de nenhuma plenitude sensível, audível ou visível, fônica ou gráfica. É, ao contrário, a condição destas” (Derrida, 1973, p. 77, grifos do autor).

Ao pensar essa operação no par fala x escrita, Derrida (1973) evidenciou que a escrita (derivada da fala) irrompe no logos e, consequentemente, na phoné, ameaçando o desejo de pureza dessa tradição e desmantelando o fonofalogocentrismo. Isto é, uma vez que a fala (significado; ligação direta com o logos) não mais sustenta uma relação de dependência com a escrita (significante, representação gráfica da fala), uma vez que não mais participa de uma aliança inquebrantável com o logos, tanto a fala quanto a escrita restam como um excesso de mediação - argumentaremos sobre isso a seguir.

Se, por um lado, o Fedro de Platão já incriminava a escrita como um mal, uma “[...] intrusão da técnica artificiosa, [...] irrupção do fora no dentro” (Derrida, 1973, p. 42), evidenciando, portanto, uma soberania da voz, por outro lado, a inversão de escrita por voz, atribuindo a esta última o status de significante, revela a voz como representação do logos. Se, no regime logocêntrico, a escrita mediava a voz, agora, do ponto de vista da desconstrução, a voz também medeia o logos. Eis ao que nos referimos como excesso de mediação, ou significante de significante. Quer dizer, voz e escrita estão desierarquizadas e uma passa pela outra. Ou ainda: há voz na escrita; há escrita na voz.

Essa última afirmação abre o caminho para se pensar uma outra relação fundamental: aquela entre corpo e corpus. Por um lado, a escrita, “[...] a letra, a inscrição sensível, sempre foram consideradas pela tradição ocidental como o corpo e a matéria exteriores ao espírito, ao sopro, ao verbo e ao logos” (Derrida, 1973). Por outro lado, Aristóteles categorizou a fala como “os símbolos primeiros do estado da alma” (Derrida, 1973). Mais uma vez, a tradição metafísica Ocidental separa corpo (escrita) de alma (logos, phoné, verdade). A partir disso e de uma perspectiva desconstrutivista, cabe ainda problematizar a relação entre o corpo (do homem, do filósofo, por exemplo) e o corpus (sua escrita, sua filosofia).

Em Otobiografias, a partir de uma leitura de Ecce Homo, de Nietzsche, Derrida (2021) discute a questão da assinatura e do nome próprio, mobilizando os desafios entre, de um lado, o dizer da vida do filósofo e, do outro, da sua obra. Para Derrida (2021, p. 25), “nem as leituras ‘imanentistas’ dos sistemas filosóficos [...] nem as leituras empírico-genéticas externas jamais” questionaram a dynamis, a borda ou beira, que atravessa o corpo bio-lógico (a vida) de um filósofo e a sua obra (seu corpus; corpo escrito). Essa dynamis seria uma zona fronteiriça,

[...] uma linha tênue, um traço invisível ou indivisível entre o invólucro dos filosofemas de um lado, e do outro lado a “vida” de um autor já identificável sob seu nome. A beira divisível atravessa os dois “corpos”, o corpus e o corpo, segundo leis que nós apenas começamos a entrever (Derrida, 2021, p. 25, grifos do autor).

Esse movimento da dynamis torna, portanto, indecidível o movimento entre corpo e corpus. Como já vimos até aqui, a lógica do logos e, portanto, binária, é ameaçada pelo pensamento de Jacques Derrida. O corpus de Derrida, sua escrita, sua desconstrução, não está desvencilhado das experiências vividas pelo seu corpo. Sua origem, sua experiência como um corpo no mundo e na língua enceta, certamente, as questões que propõe no seu corpus, isto é, na sua filosofia.

Derrida nasceu na Argélia, em território magrebino, mas tinha nacionalidade francesa. Portanto: francês e argelino; nem francês, nem argelino; franco-magrebino. Questão de origem. Africano ou europeu? Ter, mas não ter lugar, estar entre essas duas bordas nacionais, geográficas, culturais impactou sua filosofia, que desafia o tempo todo o etnocentrismo da identidade dada pelo lugar. No seu caso, sobretudo, desafia não só o lugar de pertencimento, mas também a língua francesa. Uma língua que lhe foi dada, mas que não é sua - isto é, não é sua língua mãe. Porém, ao passo que foi interditado de acessá-la no seu núcleo duro familiar, sua paixão por ela fez com que ele a inventasse (Derrida, 2001b).

Derrida desconstruiu, assim, uma língua singular. Uma língua escrita com o próprio corpo - o corpo ele mesmo que, é preciso evidenciar, foi rebaixado pela tradição. A profunda paixão por essa língua, numa intimidade a distância, ganhou corpo em sua própria voz, e assim ressoa poética. A poesia de sua escrita não se deixa conquistar pela potência fálica do logos. Ao contrário, ela a a-trai,4 mas nunca para se permitir ser alcançada. A escrita de Derrida é, então, como a sedução da mulher, de uma mulher que “[...] não se deixa conquistar. Na verdade, a mulher, a verdade não se deixa conquistar. Isto que na verdade não se deixa conquistar é - feminino, isto que não se deve se apressar a traduzir por feminilidade” (Derrida, 2013, p. 37). Na verdade, este feminino, a escrita e a paixão são os outros possíveis do falo, da fala e da razão. A escrita de/em Derrida se nomeia como

[...] um certo modo de apropriação amante e desesperada da língua, e através dela de uma palavra tão interditora quanto interdita (a francesa foi ambas as coisas para mim), e através dela de todo idioma interdito, a vingança amorosa e ciumenta de uma nova domesticação que tenta restaurar a língua, e crê ao mesmo tempo reinventá-la, dar-lhe finalmente uma forma (em primeiro lugar deformá-la, reformá-la, transformá-la) […] (Derrida, 2001b, p. 48).

É nessa relação que pretendemos nos demorar para extrair o tema e o teor po-ético - de troca, transação, transição, co-movente - dessa escrita de Derrida, uma escrita no féminin, que está aberta à alteridade, ao outro como outro, ao acaso, que, numa hospitalidade sem condições (Derrida, 2003a), deseja o corpo a corpo com o outro (Derrida, 2011), se põe ao risco de ser lida como um poema (Derrida, 2001c), escapa do binarismo e demanda tradução (Derrida, 1973; 2003b). Uma escrita que fala sempre mais de uma língua. Uma escrita que - no corpo a corpo, corpo a corpus, corpus a corpo, corpus a corpus - mistura (sem misturar) as vozes, seus sexos e seus gêneros, assim produzindo indecidibilidades e disseminando os sentidos, sempre.

Designadamente com corpo de homem, por performance e anatomia, Derrida assinou textos como filósofo da desconstrução. Seu corpus, no entanto, não se enquadra com facilidade como textos-macho (logofalocêntricos). A sua escrita desafia as leis dos corpos/corpus e seus gêneros, participando sem deles participar (Derrida, 2011), e desse modo se dá a ler na différance e na dança com as diferenças sexuais.

Em The law of genre, Derrida (2011) pontua que a identidade de um corpo/corpus é garantida pela repetição de um traço que marque a sua pertença a um determinado gênero, por exemplo, o masculino ou o filosófico (Derrida, 2011). Em contrapartida, essa contralei de impureza ou princípio de contaminação ele a denomina de lei da lei de gênero, quando um corpo/corpus participa sem pertencer a um determinado gênero (Derrida, 2011). Sendo assim, “[...] um texto [ou corpo] não poderia pertencer a nenhum gênero. [Pois] Todo texto [ou corpo] participa de um ou de vários gêneros. Não há texto [ou corpo] sem gênero; há sempre gênero e gêneros, ainda que tal participação jamais corresponda a pertencimento” (Derrida, 2011, p. 228-229, tradução nossa).

Além disso, sua escrita demanda sempre “a leitura do outro e de outro corpo”. Ler o texto do outro, como lemos os de Derrida, (re)vela a impropriedade de dizer tudo do outro e a propriedade de mostrar, nessa leitura, o que pôde ser lido, isto é, fazer sobreviver o texto do outro no texto próprio e no que é próprio dele. Relevar o texto do outro é dizer também da tarefa e da lei da escrita do filósofo-tradutor. Por isso, a escrita de Derrida é também tradução. Ela demanda que a língua estrangeira do outro seja (in)ventada na sua própria.

Mas esse gesto de apropriação da língua do outro não é inocente, nem sem violência, pois o significado é sempre diferente e adiado. Nesse caso, Derrida (2001a, p. 26), ao evidenciar que a relação entre significado e significante não é pura, afirma que “[...] seria necessário substituir a noção de tradução pela de transformação”. É essa transformação (implicada nos gestos de apropriação da/na língua) que poderá garantir a sobrevida do texto a traduzir, pois “[...] um texto apenas vive se ele sobre-vive e ele só sobrevive se é simultaneamente tradutível e intraduzível” (Derrida, 2003b, p. 33-34, grifos do autor).

Sendo assim, a escrita de Derrida sobrevive disto - transformações, interdições, rastros e restos de uma língua se inventando. A lei sem lei da sua escrita carrega o texto e a leitura do outro. Se há trânsito na forma e se sua escrita sempre porta o outro, torna-se problemática a estanque separação de forma/conteúdo, filosofia/literatura, original/tradução, masculino/feminino, corpo/corpus - haverá, sempre, mistura e indecidibilidade.

Na sua escrita, Derrida (2001b) desafia a sintaxe do francês da metrópole. De um lado, ele se apropria do francês legado pelo colonizador. Por outro lado, essa apropriação se dá como expropriação/reapropriação. Isto é, o francês do outro colonial sobrevive no seu francês singular. Em différance, e como sua própria invenção da palavra différance, o idioma de Derrida obedece às leis coloniais e, ao mesmo tempo, cria sua própria lei, que não se deixa colonizar. Eis aí uma aporia que abre O monolinguismo do outro: “Eu não tenho senão uma língua, e ela não é minha” (Derrida, 2001b, p. 13).

Neste texto, que pode ser lido como autobiografia ou filosofia, Derrida (2001b) fala de seu amor interdito pelo francês. A obra se apresenta como uma espécie de diálogo Socrático, em que há duas vozes em conversa. Na leitura de Milena Magalhães (2009, p. 2), trata-se de “[...] um simulacro de confronto entre dois pensamentos distintos que parecem habitar a mesma pessoa, [no qual Derrida] afirma que tem apenas uma língua e esta não lhe pertence; ao que o seu outro aponta de imediato a ‘incoerência’, a ‘inconsistência’ dessa afirmação”. No decorrer do texto, perde-se a cabeça e o pé, e as vozes se misturam, surgindo assim um incalculável de vozes narradoras de si.

Em todo caso, o Monolinguismo é um texto assinado “Derrida”. Nele, entendemos que, além de inventá-la, Derrida (2001b) joga com a língua francesa e com os limites da herança da tradição filosófica. Mais que isso, seus textos operam mesmo na relação, no entre dois. As vozes com as quais conversa ganham passagem na voz do filósofo, que as repete em diferença. Não obedecendo, pois, a uma ordem do logos, do calculável, do transcendental, sua escrita transborda as diferenças: dos gêneros, das vozes, dos sexos.

A escrita de Derrida a-trai o fonofalogocentrismo para um corpo a corpo. Sendo assim, no confronto com a tradição, o desejo de pureza, de univocidade no transporte do sentido carregado pela fala, é tanto impossível quanto ameaçado pela escrita. Em Gramatologia, Derrida (1973, p. 43) recupera uma citação de Saussure, que diz assim: a escrita “[...] vela a visão da língua: ela não é uma vestimenta e sim uma travestimenta”. A partir disso, convocamos para a discussão outro par: masculino (logos, phallus, homem) x feminino (escrita, mulher, travesti). A escrita, travestida como mulher, ainda que velada (Cixous; Derrida, 2001), ao passo que vela, deixa (entre)ver, a uma só vez, uma verdade, mas sempre parcialmente: “A mulher (verdade) não se deixa conquistar [...] Isto que na verdade não se deixa conquistar é - feminino, isto que não se deve se apressar a traduzir por feminilidade, a feminilidade da mulher, a sexualidade feminina e outros fetiches essencializantes” (Derrida, 2013, p. 37).

A escrita, feminina, no entanto, nesse movimento duplo da desconstrução, opõe-se e se desloca, incessantemente, ao/contra o processo de dominação do logos e, consequentemente, da phoné e do phallus. Porém, mais do que inverter o binarismo homem x mulher ou fala x escrita, a desconstrução almeja

[...] efetuar um deslocamento das oposições para além da dicotomia da metafísica dualista. Assim, se há antes uma certa ‘aposta’ no feminino, na escritura ou em qualquer um dos pólos esmagados pela tradição, isso se dá em razão deste pólo ser justamente a possibilidade de se romper com a própria polaridade (Rafael Haddock-Lobo, 2007, p. 69).

A radicalidade desse gesto é que a escrita move-se num jogo de diferenças, e o efeito disso é uma abertura para a plurivocidade dos discursos [vozes], para as infinitas possibilidades de disseminação dos sentidos (Derrida, 1976). Cada palavra, conduzida pela letra [e voz] da mulher, vestida pelo corpo [e corpus] de mulher, desnuda-se do significado transcendental, como promete a voz logofalocêntrica e, portanto, performa a indecidibilidade. Assim, a partir do momento que “[...] a questão da mulher suspende a oposição decidível do verdadeiro e do não-verdadeiro, ela instaura o regime epocal das aspas para todos os conceitos pertencentes ao sistema desta decidibilidade filosófica” (Derrida, 2013, p. 78).

Portanto, como mulher nômada [différance], a escrita resiste ao binarismo, põe à prova e contamina a soberania do som, do ser e sua verdade, a soberania da palavra falada pelo falo, e a fala mesma - compreendida como inscrição, escrita - é espectral e está submetida a um movimento constante de tradução necessária e im/possível (Derrida, 1973), já que, estando em movimento, não se deixa dominar.

Se no movimento da différance Derrida joga o jogo das diferenças, se sua escrita é uma dança da trans/forma/ação, sua coreografia põe em jogo o roçar dos corpos/corpus. Seu corpo de homem, seu falo circonfessado e sua fala se transformam, se travestem em escrita - voz falada e escrita. Há, pois, nesses jogos de escrita, a lei e sua transgressão. É aí que, como a différance, como que mulher, o filósofo faz seu estilo e seus gêneros, isto é, sua escrita no féminin.

Mudar de voz

Derrida, transformista, transforma, dá forma à textualidade, ao gênero, seja ele textual ou sexual, que desconstrói, mas deixando sempre, de sobra, a sua assinatura poética, enigmática, in/traduzível, no limite. Sua escrita no féminin, sempre por dizer, sempre por vir, é como a sedução da mulher, e [telecrática] “[...] opera à distância, a distância [mesma] é o elemento de seu poder” (Derrida, 2013, p. 31). Sua escrita, portanto, seduz, faz um convite - “vem!, sim, sim, vem me ler, traduzir” -, assim a-traindo a tradução. Atração entre línguas que é também entre sexos. Para Derrida (1992, p. 172, tradução nossa), “[...] a tradução entre línguas ou entre sexos é quase a mesma coisa: ao mesmo tempo muito fácil, rigorosamente impossível, entregue ao acaso”.

A essa mistura indecidível, dos sexos e das línguas, resta enigmática a complexa questão da voz. Como, então, abordar a(s) voz(es) do(s) corpo(s) [a voz falada] e a(s) voz(es) do(s) corpus [a voz escrita] em relação ao projeto gramatológico de Derrida [e, cabe antecipar, o de Preciado]? Também, como aproximar a questão da escrita, e suas vozes, à questão do feminino, ou não fonofalogocentrismo?

Para Geoffrey Bennington (1996), a escrita derridiana é uma forma de telecomunicação, sujeita tanto à ação do espaço, quanto à do tempo. Não sendo ela, pois, de todo fonética, quando deslocada, e isso é sempre, produzirá incalculáveis leituras. Cabe considerar que a voz, quando lida, será sempre lida por um ele ou um ela, como um ele ou como um ela. Em Fourmis, Derrida (1994, p. 86, grifos do autor, tradução nossa) aborda essa questão da seguinte maneira: “[...] se a diferença sexual é sempre lida, ela também é legente, quer dizer, ela é lida, como diferença sexual, na e pela diferença sexual, através dela: é sempre um ela ou um ele que a lê”. Sendo assim, a tele-comunicação entre essas vozes lidas e legentes, como afirma Bennington (1996), dar-nos-á um número incalculável de leituras da diferença sexual.

Ainda, “a voz pode ludibriar o ‘corpo’ que lhe é emprestado, pode ‘ventriloquizá-lo’ como se fosse tão somente intérprete ou porta-voz de outra voz, da voz de outrem, mesmo de uma polifonia inumerável e incalculável. Uma voz pode dar à luz, vede, outro corpo” (Derrida, 1992, p. 172, tradução nossa). Nessa declaração, em “Voice II”, Derrida (1992) responde a sua interlocutora, Verena Conley, sobre esta aproximação que nos importa aqui: voz e diferença sexual. Eis aqui o que o filósofo fabula: “É talvez porque ali onde há voz, o sexo indecide-se5 (Derrida, 1992, p. 172). Nesse sentido, Derrida (1992) nos dá margem a pensar que a voz passa pelo corpo/corpus, mas não se limita a ele. Ao se desprender dele, ela se lança ao acaso de uma leitura, sempre única, sempre singular, do corpo que deverá lhe acolher na sua incondicionalidade. Nesse caso, qual será, então, o sexo da voz?

Nesse caso, qual será, então, o sexo da voz?

Em sua tese sobre escrita no feminino, sobre o lugar da voz, Carvalho (2018, p. 365, grifos da autora) reflete assim:

[...] a voz, permanecendo sem referência topológica e sem lugar assinalável, abre a chance para pensar uma outra diferença sexual enquanto um movimento de passagem indecidível que se (re)marca não somente no corpo dito próprio, mas no “corpo” em geral, incluindo-se também aí o “corpo” da palavra.

Já sabemos que a autora entende esta outra diferença sexual, esquivando-se da lógica dual, oposicional e hierarquizante, conforme solicita o fonofalogocentrismo (Carvalho, 2018). De um lado, não está somente em jogo a histórica divisão masculino x feminino. Do outro, há também a relação entre o masculino e ele mesmo, como seus outros, e o feminino e ele mesmo, como seus outros.

Também em “Voice II”, Derrida (1992) - recitando Conley, a distância, já que se correspondem - afirma que há mais sexos do que cores, que eles são inumeráveis. Uma vez que são inumeráveis, e que o sexo pode mudar de voz e a voz mudar de sexo, a diferença sexual deixa de operar numa lógica dual e oposicional e dá a ser pensada em termos de diferenças sexuais (Carvalho, 2018). Sendo assim, revelam-se os outros não fonofalogocêntricos como um feminino indecidível que faz parte da “diferença sexual” e como esta indecidibilidade “[...] testemunha o registo imediata e incondicionalmente afirmativo que caracteriza a relação ao outro como relação à língua do outro” (Carvalho, 2018, p. 285, grifos da autora).

Mais do que essa pluralidade dos sexos e dessa abertura incondicional do(s) outro(s) não fonofalogocêntricos às diferenças, resta ainda pensar a “verdade” da diferença sexual. Ao estar a diferença sexual em différance, sem que ambas jamais se encontrem (Derrida, 2019; Anne-Emmanuelle Berger, 2005), “[...] a diferença sexual resta ser interpretada, decifrada, desencriptada, lida e não vista. Legível, portanto invisível, objeto de testemunho e não de prova” (Derrida, 1994, p. 75, tradução nossa). Mas quem pode testemunhar?

Derrida (1994) diz que a diferença sexual pode ser lida, mas não vista. Mas, e se ela puder ser vista? Dizemos, a diferença sexual do corpo - do próprio corpo. Em verdade, refiro-me especificamente ao corpo próprio de Preciado, à verdade, sem verdade, da diferença sexual que marca o seu corpo biológico. Preciado (2019) vocaliza: “Sou um dissidente do sistema sexo-gênero”. Ele pode ver (mas não nós), no seu próprio corpo, a sua diferença sexual, mas ela parece estar em dissintonia (lemos/interpretamos) - é o que tentaremos argumentar agora - com uma certa leitura da diferença sexual.

Quando a voz de Preciado passa a produzir um timbre mais grave, a leitura do outro, do cis-tema bio-lógico, passa a identificá-lo como homem. Mas, em verdade, a voz que se destaca do seu corpo, e como telecomunicação chega até o outro, é lida como uma voz masculina. No entanto, a bio-lógica que conferiu a Paul Preciado o estatuto de homem, por ter produzido, ainda que proteticamente, um timbre mais grave, é a mesma que, no momento de seu nascimento, conferiu-lhe a marca ledora feminina: Beatriz.

Em “Mudar de voz”, uma das crônicas que compõem Um apartamento em Urano, Paul, sem pau, testemunha a mudança da própria voz. Quer dizer, testemunha a mudança da voz que é produzida pelo seu corpo. Se a voz é uma marca singular que identifica o sujeito, que efeitos ela produzirá se, por acaso, se masculinizar. Se voz e sexo andam juntas na formação do sujeito - ou melhor, na leitura da diferença sexual do sujeito -, transformar essa voz, como Paul o fez, ao se autoaplicar doses regulares de testosterona, desmantela, como vimos anteriormente, a verdade fálica da fala ou o fonofalogocentrismo.

Sobre seu corpo, falante, sem falo, e os sons que produz, Preciado (2019) diz:

Essa voz aparentemente masculina recodifica meu corpo, liberando-o da verificação anatômica. A violência epistêmica do binarismo sexual e de gênero reduz a radical heterogeneidade dessa nova voz à masculinidade. A voz é o senhor da verdade. Relembro então a possível raiz comum das palavras latinas “testemunha” e “testículo”. Só quem tem testículos pode falar diante da lei.

Com “testículos” produzidos pela indústria farmacêutica, Preciado ventriloquiza uma voz masculina e, consequentemente, pode testemunhar, diante do outro, uma verdade, sem verdade, da sua diferença sexual. Novamente, a diferença sexual, ao mesmo tempo, lê e é lida (Derrida, 1994). Sendo assim, quando testemunha sua própria diferença sexual, Preciado (2019) borra a lógica dual, oposicional e hierarquizante solicitada pelo fonofalogocentrismo e, diante dessa lei, sem testículos, com textículos, como os que compõem Um apartamento em Urano, pluraliza as diferenças sexuais:

Não sou um homem. Não sou uma mulher. Não sou heterossexual. Não sou homossexual. Tampouco sou bissexual. Sou um dissidente do sistema sexo-gênero. Sou a multiplicidade do cosmos encerrada num regime político e epistemológico binário gritando diante de vocês.

Com Derrida (1992), recitamos: talvez porque aí onde a voz de Preciado se ventriloquiza, o seu sexo se indecide. O seu corpo, em transformação, produz uma “[...] voz cambiante [que] não é nem simplesmente una nem simplesmente masculina. Pelo contrário, ela flexiona a subjetividade no plural” (Preciado, 2019). Mas essa voz é tanto ouvida quanto lida. Aqui diremos, mais de uma voz - vozes, em différance, da diferença sexual. Similarmente ao que já foi dito sobre Derrida, o corpo de Preciado se de-marca e des-loca num movimento que não se divide do seu corpus. O seu corpo se escreve, a sua escrita é do corpo, com o corpo, o corpo em transformação - quer seja o biológico, quer seja o escritural (sua filosofia).

No prefácio de Um apartamento em Urano, Virginie Despentes se dirige a Preciado com um tu, um você, na segunda pessoa, uma segunda pessoa que pode ser lida tanto no masculino quanto no feminino, a depender de quem lê. Virginie esteve em um relacionamento lésbico com Paul antes da transição, antes de seus testículos protéticos, gerados na era farmacopornográfica, conferirem a Paul sua masculinidade - antes; quando Preciado era filósofa feminista. No prefácio, Despentes se endereça a Paul, mas, ainda que sob rasura, uma certa voz feminina, talvez afônica, deixa-se ler, na nossa leitura interpretativa da diferença sexual de Preciado.

Seu corpo em movimento produz, sem dúvidas, um corpus em multiplicidade. Ora, um corpo, um nome próprio, sempre assina uma obra. Quando um corpo se transforma, e se ele se masculiniza, como então reivindicar a assinatura do corpus? Essa é a lei. Beatriz Preciado (BP) assinou textos como filósofa, e como Orlando, de Virginia Woolf, passou a assiná-los como o filósofo Paul B. Preciado (PBP). Essa transformação, nós a vemos menos como diferença e mais como différance, uma coreografia entre os corpos, os gêneros e as vozes.

Ao inverter a (suposta e originária) posição feminina (BP) para a (suposta e tradutória) masculina (PBP) de seu próprio nome, Preciado escapa da operação dual, oposicional e hierarquizante. Nas suas próprias palavras: “O corpo não é propriedade, mas relação. A identidade (sexual, de gênero, nacional ou racial) não é essência, mas relação” (Preciado, 2019). Dessa forma, muito espertamente, Preciado, apresentando-nos uma coreografia, nos faz um convite: “vem, vem dançar, vamos juntos fazer leituras da diferença sexual”. Com isso, sua diferença sexual - ou melhor, diferenças sexuais, já que ela precisa ser flexionada no plural - é a sua filosofia, o seu corpus, o seu corpo escrito.

Se, como já vimos, a tradição fonofalogocêntrica olvidou o corpo em detrimento da razão, a escrita no féminin (não feminina, no feminino) de Preciado, com o corpo, borra e beira a razão de (outros) lugares interditos. Ela fala dos sadomasoquistas, dos viados, das sapatão, das trabalhadoras do sexo e do cu, das travestis, das pessoas transgênero - isto é, ela convoca e conclama em conjunto, dissonantemente, as vozes de todos os corpos com baixa densidade política e que nunca puderam ser ouvidos, tampouco lidos (cabe dizer, não lidos como corpus).

O gênero de sua escrita é também dissidente, não se conforma aos gêneros requisitados pela lei da filosofia. Sua primeira obra é um Manifesto Contrassexual. Testo Junkie “[...] não é uma autobiografia, mas um protocolo de intoxicação voluntária à base de testosterona a respeito do corpo e dos afetos de B. P. Um ensaio corporal. Uma ficção, na verdade” (Preciado, 2018, p. 18). Já Um apartamento em Urano é um livro de crônicas, no qual ele relata sua transição de gênero, mas não desvencilhada das transformações sociais, culturais, políticas e econômicas por que passa o mundo.

O corpo de Preciado se move com a transformação do mundo, e isso não é ingênuo em sua filosofia. Rindo e fazendo rir, sua voz, seu corpo de homem sem pau e seu corpus ficcional abalam, sem dúvidas, o modelo tradicional, fonofalogocêntrico, da filosofia. Como ele mesmo diz: “Despossuído da voz como verdade do sujeito e sabendo que os testículos são sempre um aparato social protético, sinto-me como um cômico caso de estudo derridiano e rio de mim mesmo. E, ao rir, noto que esta nova voz salta em minha garganta” (Preciado, 2019). Ironicamente, no final da crônica “Mudar de voz”, Preciado informa o local onde a escreveu: Atenas - o berço da tradição fonofalogocêntrica.

Corpo de saída

A tradição filosófica Ocidental rebaixou a escrita, por considerá-la usurpadora da fala; e é o próprio gesto de redução que põe em evidência o papel da escrita e sua relação complexa com a fala, pondo em risco a verdade da fala e do falo (Derrida, 1973). Por sua vez, ao inverter e deslocar os binômios que formam o edifício metafísico, dual, oposicional e hierarquizante, Derrida (1973) demonstrou que a fala já era uma forma de escrita, pois a tradição naturalizou o fato de que ela era mediação. Todavia, pensada desde a desconstrução, não mais participando do logocentrismo, a fala, e tanto mais a escrita, resta como excesso de mediação.

Nesse sentido, fala e escrita, desierarquizadas, passam uma pela outra. Há, assim, voz na escrita e escrita na voz. Esse pensamento da passagem de uma a outra, de mistura e indecidibilidade, tem relação íntima com a vida de Derrida, nascido na Argélia, mas com nacionalidade francesa. Estar entre as bordas de dois continentes e duas culturas distintas sem dúvida impactou seu pensamento e sua filosofia - uma dynamis que não separa nem divide vida de obra (Derrida, 2021). Sendo assim, suas experiências singulares marcam o corpo da língua e vice-versa (Derrida, 2001b).

No entanto, a paixão de Derrida (2001b) por essa língua - que é sua, mas não lhe pertence - fez com que ele a inventasse. Sua escrita, no corpo a corpo com a herança da tradição filosófica, releva - isto é, ao mesmo tempo suprime e eleva - os seus limites e incoerências. É a partir disso que ele pode avançar com uma escrita que não se deixa colonizar. Uma escrita co-movente, que comove e move-se junto com outros corpos/corpus e outras vozes. Uma escrita que está em relação com o outro, e com suas diferenças, em différance.

Trata-se, portanto, de uma escrita que fala sempre mais de uma língua. Uma escrita em que, no corpo a corpo (sexual e escritural), há mistura das vozes, dos seus sexos e gêneros, o que provoca indecidibilidades e disseminação dos sentidos. Dito isto, a escrita de Jacques Derrida, entendida aqui como indecidível, in-traduzível e que dissemina os sentidos, abala o fonologocentrismo e se constitui como uma escrita no féminin (não feminina, no feminino).

Ainda, com “Voice II”, de Derrida (1992) e “Mudar de voz”, de Preciado (2019), filósofos que desafiam o fonofalogocentrismo, assim como a lógica binária do cis-tema sexo-gênero, vimos a relação entre voz, escrita e diferença sexual. A voz (masculina ou feminina), ao se des-locar de um corpo, está sujeita à leitura/interpretação do outro. Conforme argumenta Derrida (1994), a diferença sexual (e da voz) lê e é lida. Isso produz uma multiplicidade de leituras e interpretações - e diferenças sexuais.

Com Preciado, pudemos ver que o seu corpo/corpus desafia a lógica falogocêntrica ao se utilizar de uma prótese farmacológica. Ao se autoaplicar testosterona e mudar o timbre (mais grave) de sua voz e seu nome, ele testemunha, e agora, lido como homem, dá testemunho de sua própria diferença sexual e convida o outro a dançar com ele em uma coreografia que borra as fronteiras dos sexos e dos gêneros. Preciado nos mostra que, ao escrever com o corpo e sobre o corpo, surge um corpus dissidente, que não se conforma aos gêneros tradicionais, nem da filosofia, nem da biologia.

A nossa conclusão, por fim, é a de que o corpo/corpus de Derrida, assim como o de Preciado, é de passagem, isto é, ao mesmo tempo que pede, dá passagem a outros corpos/corpus. Esta é a diferença sexual desses filósofos - flexionada no plural, aberta às múltiplas diferenças, à différance. Suas experiências singulares, vividas no corpo, marcam seus pensamentos, suas escritas e, consequentemente, suas filosofias.

Por fim, cabe dizer que, não mais procedendo a uma lógica do logos, a uma verdade fálica e (in)falível, suas escritas no féminin, com o falo circuncisado, sem falo ou com falo protético, desafiam a(s) lei(s) do(s) gênero(s) biológico/escritural e produzem novas vozes que nos convidam à relação.

Referências

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  • 1
    “Escrita no feminino” é a tese defendida por Andreia Carvalho (2018). Ao articular os projetos de escrita não fonofalogocêntrica de Jacques Derrida e escrita poético-pensante de Cixous, Carvalho (2018) entende a “escrita no feminino” não numa lógica da diferença sexual (dual e oposicional), mas, sim, de “diferenças sexuais” que envolvem as escritas, os corpos e suas vozes nas diferenças entre masculino e feminino, masculino e ele mesmo, e feminino e ele mesmo. Segundo ela, uma escrita no feminino não é uma escrita feminista nem uma escrita de mulheres. Pensada a partir da perspectiva da desconstrução, o idioma singular de Derrida movimenta a multiplicidade de diferenças sexuais que marcam a língua e o corpo/corpus. Para Carvalho (2018, p. 191, grifos da autora), “[...] a relação (de ex-apropriação) à língua constitui não somente a chance de re-invenção da língua mas também a chance de (des)identificação do ‘eu’ no interior da cena heteronómico-dissimétrica de um ‘corpo-a-corpo’ onde, ao mesmo tempo, o ‘eu’ marca o ‘corpo’ da língua e a língua marca o ‘corpo’ do ‘eu’”. Nossa aposta, aqui, é que a escrita de Derrida [mas também a de Paul Preciado] é uma escrita no féminin. Embora o termo “escrita no feminino” [com base na escrita poético-pensante de Cixous] esteja bem defendido por Carvalho (2018), ainda não nos arriscamos a empregá-lo sem, também, pô-lo ao risco de uma desconstrução, de uma tradução. Por enquanto, insistiremos na expressão “escrita no féminin”, assim submetendo a locução a uma leitura em, pelo menos, três línguas (português, francês e inglês). Dessa forma, o termo pode ser lido, em traduções, como escrita “não feminina”, escrita “no feminino”. Em todo caso, uma escrita do e com o corpo, que desafia a fala e o falo.
  • 2
    Ao alterar a grafia do termo différence (que pode ser traduzido como diferença) por différance, Derrida (1991) desafia a primazia da fala, pois a diferença produzida pelo “A” no lugar do “E” é afônica ou, melhor dito, não altera a pronúncia da palavra transformada. Essa diferença coloca em xeque a própria noção de diferença entre fala e escrita que gesta a relação hierárquica em que à escrita se delega a função de representar a fala. Tal diferença é abalada, pois a transformação operada por Derrida só pode ser reconhecida na leitura e, sobretudo, na escrita. A noção de escrita fonética é assim abalada. Como resultado, a différance funciona numa lógica do nem/nem - nem se ausenta, nem se presentifica; nem é voz, nem é escrita, mas opera aí, no texto, na sua abertura para uma leitura sempre outra, que o repete na medida em que o desloca, disseminando sentidos.
  • 3
    Leia-se différance. Sobre esse termo, voltar à nota de rodapé 2.
  • 4
    A-trai pode ser lida, pelo menos, de duas formas: atração e/ou traição. O emprego desse sintagma demonstra isso que é próprio de uma escrita no féminin - ao passo que nos seduz e nos “atrai” para seus jogos, também produz sentidos que podem nos equivocar, “trair” nossos sentidos.
  • 5
    Tradução de Carvalho (2018).
  • Como citar esse artigo de acordo com as normas da revista:
    CARVALHO, José Pedro de; FERREIRA, Élida Paulina. “Escrita no féminin: os corpos/corpus em différance de Derrida e Preciado”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 34, n. 1, e96144, 2026.
  • Financiamento:
    O presente trabalho foi realizado com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB) - N⁰ BOL0343/2022.
  • Declaração de disponibilidade de dados:
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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    23 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    01 Set 2023
  • Aceito
    29 Jun 2025
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