SEÇÃO DEBATES
Entre o acadêmico e o popular: os rumos do feminismo atual
A Debate between the academic and the popular
Márcia Hoppe Navarro
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
RESUMO
O objetivo deste artigo é fazer uma breve comparação entre trabalhos recentes de duas feministas inglesas. O primeiro é o ensaio "Contando estórias feministas", de Clare Hemmings, e o segundo é o livro da jornalista Natasha Walter The New Feminism (O novo feminismo). O meu ponto de vista é que, embora a perspectiva de Hemmings seja acadêmica e teórica, e a de Walter, mais popular e prática, elas de certa forma coincidem sobre os rumos que o feminismo está tomando nos dias atuais.
Palavras-chave: feminismo; "Contando estórias feministas"; O novo feminismo.
ABSTRACT
The aim of this article is to draw a brief comparison between two recent British feminist works, the essay by Clare Hemmings, "Telling Feminist Stories", and the book by journalist Natasha Walter, The New Feminism. My viewpoint is that, although Hemmings' approach is academic and theoretical and Walter's more popular and practical, they come to the same conclusions about the paths feminism is taking nowadays.
Key Words: Feminism; "Telling Feminist Stories"; The New Feminism.
Este breve artigo pretende fazer um comentário sobre um artigo e um livro, publicados por duas feministas britânicas, a respeito dos rumos que está tomando o feminismo nos dias de hoje. Meu enfoque parte do artigo "Telling Feminist Stories" ("Contando estórias feministas"),1 da pesquisadora e professora da London School of Economics Clare Hemmings, publicado originalmente em 2005 (e que deverá em breve ser expandido para a publicação de um livro com o mesmo título), comparando-o a seguir com o livro The New Feminism2 (O novo feminismo), da jornalista Natasha Walter, publicado em 1998, e reeditado várias vezes nos últimos anos. O artigo, de certa forma, confirma alguns questionamentos e previsões sobre o futuro do feminismo que aparecem no livro.
O objetivo de Hemmings, no artigo abrangente e lúcido, é traçar uma espécie de história do feminismo da década de 70 ao começo dos anos 2000, através das várias estórias contadas ao longo dessas três décadas pelas teóricas e críticas feministas sobre as origens, o desenvolvimento e as consequências do movimento feminista ocidental.3 Enfatizo aqui o termo "estórias" como narrativas para chamar a atenção ao ponto de vista da professora inglesa, que é demonstrar que as várias versões apresentadas sobre a história do feminismo não têm necessariamente um compromisso sólido com uma verdade mais ampla, já que cada uma narra de acordo com sua interpretação da realidade, ou, às vezes, repetindo citações descontextualizadas de outras feministas, criando uma miríade de narrativas, que podem ser até vistas como ficção e chamadas, portanto, de estórias (stories). Apesar disso, foi-se criando uma série de 'verdades' sobre o feminismo que foram sendo repetidas, às vezes de forma muito superficial, pois já eram consideradas 'estabelecidas', em citações de artigos acadêmicos, simplificando processos e determinando exclusões se não perigosas, pelo menos lamentáveis. Nadando contra essa correnteza que ramifica e secciona o feminismo, a teórica examina a emergência do movimento feminista e o desenvolvimento do feminismo feminismo no singular, pois é assim que vê o feminismo. Ou, pelo menos, como ela apregoa que deveria ser vista esta que foi a mais relevante mudança nas relações sociais no mundo nos últimos 40 anos. Ou seja, Hemmings busca o ideal de feminismo valorizando a sequência e não o corte, enfatizando as relações e rejeitando as rupturas.
Clare Hemmings propõe a necessidade de estabelecer relações entre os diferentes momentos do feminismo desde a década de 70. Essas relações, aponta a teórica, seriam muito mais produtivas do que considerar que houve rupturas intransponíveis e diferenças irreconciliáveis entre as diferentes fases pelas quais passou o feminismo. De acordo com o enfoque tradicional, é comum a forma de ver o feminismo como o desenvolvimento de um processo tripartido, dividido cronologicamente em décadas, nas quais a preocupação com a unidade, a semelhança, a 'irmandade' dos anos 70, radicais e socialistas, passam para a busca da identidade e a aceitação da diversidade nos anos 80, para rumar, na década seguinte, à explicação do feminismo a partir da noção da diferença e da fragmentação, noções básicas para as feministas pós-estruturalistas.
Sintetizando a perspectiva historiográfica de Hemmings, dessas três décadas, a de 80 é muitas vezes destituída de importância, ou vista como uma ponte entre a década precedente e a década posterior, que são, por sua vez, ou glorificadas, ou demonizadas, dependendo do relato, de quem e de onde é narrada aquela estória. Por exemplo, as feministas pós-estruturalistas da década de 90 acusam as feministas da década de 70 de essencialismo, enquanto as simpatizantes destas rebatem denunciando o caminho apolítico tomado pelas correntes feministas pós-estruturalistas. Muito do artigo em questão é, então, dedicado à crítica de umas ou de outras posturas sobre o feminismo através de recortes de citações de periódicos feministas interdisciplinares publicados no mundo anglo-americano, principalmente a partir dos anos 2000.
O artigo de Clare Hemmings poderia ser mais bem definido como um projeto que promete um futuro aprofundamento,4 comprovando aquilo que ela propõe, por meio de uma espécie de ampla análise do discurso. A base dessa análise, como já mencionei, são as citações de jornais feministas interdisciplinares recentes (seu artigo não cita as autoras5 individualmente, apenas os periódicos e suas propostas). A professora, porém, mesmo com um número ainda reduzido de excertos, já consegue dar uma sólida ideia de suas pretensões. Por meio de uma análise textual minuciosa ela visa a desconstruir a forma como as feministas narram suas estórias sobre o feminismo, para chegar à conclusão de que é preciso, antes de mais nada, embarcar num processo de revalorização das relações entre o passado e o presente. É por isso que Hemmings não se refere a feminismos, no plural, nem à 'morte' de um feminismo e substituição por outro, mas sim a relações que precisam ser restauradas entre ambos. Ela defende uma revalorização das teóricas feministas do passado e a incorporação de seu legado histórico nas práticas de conjugação de conhecimento no presente, seu texto sendo a expressão do desejo de transformações produtivas no plano da cultura dominante. O objetivo do trabalho de Clare Hemmings é de valorização do antigo feminismo tão renegado pelas correntes modernas e de articulação daquele com essas vertentes em que o feminismo teria se dividido, para criar um feminismo que possa efetivamente cumprir sua função primordial: diminuir as desigualdades e assimetrias do poder.
O meu objetivo em estabelecer uma comparação entre esse artigo de Clare Hemmings e o livro de Natasha Walter é mostrar a defasagem entre o que circula na esfera da academia e o que é de apelo mais popular. Enquanto os trabalhos de extração erudita têm ressonância apenas entre os pares, não penetrando, portanto, no imaginário das mulheres em geral, os de apelo mais jornalístico e popular têm grande repercussão, pois há consenso sobre a necessidade de mudança e de rever o que os detratores do feminismo acusam: que este teria chegado a um beco sem saída. Não sei se as duas autoras gostariam dessa aproximação, e tampouco tenho conhecimento se os textos foram lidos reciprocamente, mas a considero relevante para exemplificar esse aspecto e mostrar como ambas tentam reverter as perspectivas pessimistas e com isso criar novas possibilidades.
Assim como Hemmings usa (e pretende utilizar no anunciado livro) como objeto de sua análise os periódicos feministas recentes6 do mundo anglo-americano, Walter, em The New Feminism, refere-se particularmente ao significado do feminismo na Inglaterra de hoje. Considerando as enormes transformações proporcionadas pelas lutas feministas em um país como a Inglaterra, ela parte do questionamento se o feminismo já teria esgotado o seu tempo, se já poderia ser considerado algo que pertence ao passado. As jovens britânicas alcançaram um grau de liberdade jamais sonhado por suas mães ou avós, mas ao lado desse poder de agir na sociedade de acordo com sua própria determinação, sem as restrições impostas no passado aos seres humanos do gênero feminino, aparece uma verdade inquestionável: apesar da liberdade que desfrutam as mulheres, continua existindo vergonhosa desigualdade entre homens e mulheres, uma desigualdade material que a autora evidencia através de estarrecedoras estatísticas.7 Ela sugere que é muito difícil para as mulheres confrontarem a realidade de sua própria desigualdade, e por isso a permanência do feminismo é crucial. Mas para que o feminismo signifique alguma coisa para as mulheres (inglesas) desta geração é preciso mudar o enfoque antes mais voltado a uma busca de transformação na atitude das mulheres e na cultura da sociedade. Ou seja, se outrora as feministas encorajavam as mulheres a atacar as manifestações culturais da desigualdade, acreditando que isso mudaria radicalmente a sua posição na sociedade, essa hipótese não se confirmou e as mudanças na balança de poder deixam muito a desejar, principalmente no que concerne à igualdade fundamental: as mulheres são muito mais pobres8 e continuam bem menos poderosas que os homens em todas as instâncias da sociedade.
Natasha Walter demonstra que o feminismo penetrou com tanta força na sociedade inglesa nas últimas décadas que se torna totalmente fora de lugar a ideia de que ele existe numa espécie de gueto. Como pode, pergunta ela, um jornalista9 do Daily Mail escrever que para as mulheres modernas o feminismo se tornou uma irrelevância embaraçosa e arcaica, se no mesmo jornal são publicados os resultados de uma pesquisa revelando que 71% das mulheres acham que o feminismo foi muito importante e totalmente positivo? Como é possível ler numa manchete de primeira página do diário: "O feminismo foi um desastre para as mulheres",10 e as próprias páginas do jornal serem uma incontestável celebração das vitórias do feminismo? As ideias que surgiram com o feminismo certamente nunca estiveram restritas a um gueto, embora muitos críticos continuem se empenhando em difundir que elas não correspondem aos desejos da maioria das mulheres. O feminismo começou e permaneceu profundamente ligado às bases, e os anseios das mulheres comuns por educação, pelo voto, por melhores creches, por salários iguais, por contracepção, por aborto, e por uma divisão mais justa do trabalho doméstico, têm sido ouvidos através das vozes das feministas e da força das organizações feministas.
A jornalista demonstra com estatísticas que, embora grande número de mulheres ainda relute em se declarar feministas, todas são favoráveis à igualdade entre homens e mulheres, que afirmam não existir. Essa discrepância ocorre porque as mulheres foram desencorajadas a confiar no movimento feminista e a ter orgulho de suas conquistas. Elas foram continuamente levadas a acreditar que tudo que se refere ao feminismo é irrelevante às necessidades das mulheres em geral, que só diz respeito a um grupinho de feministas que pertencem ao gueto, sem ter olhos para ver como o feminismo floresce no trabalho e nas atitudes das mulheres de toda a Inglaterra. Não pagar tributo à força política e intelectual do feminismo é um sério erro histórico, pois, enfatiza a jornalista, se as mulheres inglesas acreditarem que o movimento não existe, que não conseguiu nada, que traiu as mulheres, que pertence a uma pequena facção, que foi uma ilusão, milhões de feministas perderão sua força, sentir-se-ão isoladas e sem apoio. Se, pelo contrário, as mulheres apoiarem e reivindicarem para si mesmas esse feminismo fragmentado, diversificado e tolerante dos dias atuais, elas não serão dispersadas e fragmentadas e poderão reconhecer a verdadeira força e potencial do feminismo que
é composto de um milhão de pequenas luzes, e podemos celebrar os muitos minúsculos avanços sem pedir a nenhuma delas que seja a resposta única e derradeira. Mas uma a uma, enquanto a pequena luz se espalha, compreenderemos que uma nova aurora brilha bem na face de cada uma de nós.11
Embora a frase anterior possa parecer mera retórica, ela descreve, com uma metáfora iluminada, o trabalho de disseminação do conhecimento no qual cada uma de nós, feministas, precisa se empenhar para, através de cada pequena vitória, podermos chegar à tão necessária conscientização mais abrangente do quanto o feminismo alterou para melhor a vida de cada mulher ocidental. Mas isso não significa que o novo feminismo seja fadado apenas a considerar os aspectos locais e pessoais. Não, pelo contrário, enfatiza Natasha Walter em um dos capítulos intitulado "O novo feminismo é menos pessoal e mais político". Nos últimos anos, na Grã-Bretanha, muito do feminismo ficou preso na armadilha das obsessões pessoais. O feminismo superpersonalizou o político e superpolitizou o pessoal e, no processo, perdeu de vista os seus dois grandes objetivos: a igualdade política e a liberdade pessoal.12
A preocupação exagerada com a inclusão dos aspectos pessoais em todas as suas nuances na agenda reivindicatória do feminismo fez com que o mesmo se extraviasse de seu objetivo político de promover a igualdade e a liberdade do gênero feminino. O novo feminismo tem como enfoque primordial a busca contínua da igualdade, que obviamente deverá reverberar mais entre as camadas de mulheres menos favorecidas, que ainda não sentiram o impacto significativo das mudanças, especialmente aquelas relacionadas à igualdade material. E este é um ponto para reflexão aqui entre nós, feministas latino-americanas, já que as condições ideais em nossos países estão longe do alcance obtido em um país como a Inglaterra, que é o foco de Natasha Walter.
O distanciamento13 que as mulheres comuns britânicas crescentemente sentiam com relação às (por vezes não apenas para elas) incompreensíveis diatribes entre as feministas acadêmicas contribuiu para que se sentissem de fora e negassem ser feministas. Na academia, por exemplo, o comportamento excessivamente crítico e agressivo de algumas vertentes do feminismo com relação às outras impedia as feministas de verem os pontos em comum que as unia, o que não permitia que novas metas fossem atingidas e barreiras mais difíceis derrubadas. Às vezes as disputas e diferenças se estabeleciam por questões ínfimas que, na bola de neve dos artigos acadêmicos bem ou mal digeridos sobre o tema em pauta, se juntavam à polêmica inicial e logo se transformavam em abismos intransponíveis entre as partes em contenda. Essas disputas só enfraqueceram o feminismo, que perdeu o apoio mais popular, mas isso não levou a algo tão trágico como a assim chamada morte do feminismo. E é por isso que tanto o apelo erudito de Hemmings quanto o apelo jornalístico de Walter não visam a recuperar ingenuamente aquela 'irmandade' apregoada nos anos 70, mas sim estabelecer relações construtivas entre os pontos em comum das várias perspectivas feministas atuais, na academia e nas ruas, almejando sempre à evolução da sociedade em direção à igualdade total,14 num futuro em que a palavra "feminismo" possa realmente significar apenas uma luta do passado.
[Recebido em dezembro de 2008
e aceito para publicação em fevereiro de 2009]
Referências bibliográficas
- GUERRA, Lucía. La mujer fragmentada: historias de un signo Santiago de Chile: Editorial Cuarto Propio, 2006. 3Ş edição para esta editora.
- HEMMINGS, Clare. "Telling Feminist Stories." Femist Theory, v. 6, n. 2, 2005. p. 115-139.
- ______. "Telling Feminist Stories". Revista Estudos Femistas, v. 17, n. 1, p. 215-241, 2009.
- SCHMIDT, Rita. "Recortes de uma história: a construção de um fazer/saber". In: RAMALHO, Cristina (Org.). Literatura e feminismo: propostas teóricas e reflexões críticas Rio de Janeiro: Elo Editora, 1999.
- VIDAL, Hernán (Org.). Cultural and Historical Grounding for Hispanic and Luso-Brazilian Feminist Literary Criticism Minneapolis: Institute for the Study of Ideologies and Literature, 1999.
- WALTER, Natasha. The New Feminism 2. ed. Londres: Virago, 1999.
