Neste artigo são discutidos aspectos da regulação do corpo da mulher entre o final do século XIX e meados do XX, a partir da análise de uma seleção de números do almanaque de farmácia intitulado d’A Saude da Mulher. A publicação era uma das mais lidas pelas senhoras e veiculava o medicamento mais popular da indústria nacional voltado para sua saúde. Apresentava anúncios de medicamentos, horóscopos, ilustrações, cartas de leitoras, entre outras variedades. Envoltos de discursos morais, atuaram como dispositivo pedagógico, ensinando, inspirando e regulando comportamentos e modelando subjetividades, principalmente as das mulheres, que deveriam ser dóceis, boas mães, esposas e cuidadoras do lar. Este artigo argumenta como os almanaques atuaram como instrumentos de regulação, educando e medicalizando o corpo feminino, disseminando ideais de feminilidade e virilidade, família, saúde, higiene e progresso nacional.
Palavras-chave:
corpo feminino; saúde da mulher; almanaques de farmácia; dispositivo pedagógico
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#PraTodoMundoVer Na imagem 1, “O lar feliz”, extraída do Almanaque d’A Saude da Mulher (1929, p. 19), há um desenho de uma família tradicional, branca e bem-vestida, composta de pai, mãe e uma filha pequena, aparentemente sentada em um sofá, abraçada, no ano de 1929. A imagem não é colorida e não apresenta muitos detalhes ao fundo.
#PraTodoMundoVer No exemplar de 1929, à página 44, o título irônico é “Os maridos são máos enfermeiros”. Na parte central superior, há a imagem desenhada de um homem branco, de bigodes, em pé, vestido em elegante robe de chambre, segurando um cigarro na mão direita e com a outra mão à cintura. Ele repreende sua jovem mulher à beira da cama no quarto do casal. A mulher, que é branca e bonita e está envolta por uma coberta, está deitada de bruços na cama e chorando devido às cólicas menstruais. O marido queixa-se: “Si eu fico de máo humor, é porque és teimosa. Parece até que gostas de adoecer: - o médico já te disse que si tomares “A Saude da Mulher” os teus “Incommodos” se darão normalmente, cessando para sempre as cólicas uterinas e a suspensão!”
#PraTodoMundoVer A imagem mostra três desenhos de mulher, posicionados um abaixo do outro e à esquerda. As figuras de mulher são acompanhadas de textos dispostos à direita de cada uma. A primeira mulher, chamada Finóca, é jovem, branca e gorda e é retratada caminhando. Veste um vestido estampado de bolas, com gola branca arredondada e sem mangas que deixam ver seus braços roliços e ressaltam o volume de seu busto e barriga. Usa um pequeno chapéu preto que emoldura seu rosto redondo e pequenos sapatos pretos de salto. Na mão direita, leva um pacotinho quadrado e na mão esquerda um livro e um guarda-chuva fechado. A segunda mulher, chamada Izaltina, é desenhada de perfil e com a boca aberta, como se estivesse gritando com alguém. É jovem, branca e delgada, veste um vestido com estampas geométricas e de mangas curtas e sapatos pretos de salto alto. A mão direita apoia-se na sua cintura e a outra aponta agressivamente para alguém que não aparece no desenho. A terceira mulher, chamada Lucrécia, é uma mulher branca, de meia idade, muito magra, que está parada ao lado de seu cãozinho branco. Veste um longo vestido preto que realça a sua magreza e sua idade avançada. Leva uma mão à cabeça e parece sentir dor. Na outra mão leva um frasco de remédio
#PraTodoMundoVer A imagem é formada por cinco desenhos de uma mulher jovem, em formato de quadrinhos. No primeiro, uma moça branca, de cabelos curtos e vestido vermelho florido segura um envelope fechado contendo um convite. Tem uma mão no queixo e parece séria e preocupada. No próximo, ela está deitada num sofá, segura o convite aberto e, escrito num balão, se lastima de que suas amigas estão casando e ela não. Na imagem seguinte, ela está sentada no sofá, segurando o convite lido e com a outra mão no queixo em atitude reflexiva. Atribui sua condição ao mau estado da sua pele e aos distúrbios menstruais que a envelhecem. No quarto quadrinho, ela está de costas, sentada e lendo um jornal onde aparece um anúncio do regulador Saúde da Mulher que chama sua atenção. No último, ao fundo, ela aparece numa igreja, vestida de noiva no seu cortejo nupcial, de braços dados com seu noivo. Em primeiro plano, aparecem duas mulheres também jovens, de chapéu e bem vestidas, convidadas do casamento, que comentam uma para outra sobre como a noiva aparenta estar mais jovem e bonita